Crônica de uma Crioca Sulreal

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Crônica de uma Crioca Sulreal

  1. 1. Crônicas de uma Carioca Surreal “Pimenta nos olhos dos outros é refresco” Ditado Popular Todos os dias as pessoas acham que a vida é uma droga, “droga de carro que não pega”, “droga de trânsito que não anda”, “droga de dia que não acaba”, “droga de inverno”, “droga de verão”, droga, droga, droga, droga! Experimenta nascer numa cidade que transpira sensualidade, boémia e corpos sarados, e ser uma simples mortal intelectualizada, que troca de boa vontade um churrascão na beira da piscina com um pagodão rolando, pra ficar deitadona no sofá vendo o último filme do Pedro Almodovár, que você não viu no cinema porque o dono do cinema do seu bairro acha que Almodovár é o nome de um navegante espanhol que descobriu algum continente perdido por aí. Você passa a semana toda rezando para o fim de semana chegar, pra você poder se esconder do mundo dentro de um livro da Agatha Christie, poder ver aquele filme do Stanley Kubrick pela milésima vez, sem ter um mala do seu lado dizendo que “Kubrick” parece nome de cerveja alemã, e ouvir todas as músicas dos Nirvana, sem ouvir aquela piadinha sem graça: “Caroll, acho que este cara tá passando mal, porque ele não para de gritar”. Enfim, a semana acabou e você vai poder se trancar no quarto e devorar toda a cultura que você não conseguiu adquirir desde segunda-feira, certo? ERRADO! Porque a sua querida mãe resolveu reunir a galera, e fazer um churrascão na piscina, com muito pagode, muita cerveja, muitos adultos que não tiveram adolescência e agora querem compensar, e também trouxeram todos os filhos que comentam as escondidas o quanto você é esquisita, e que você, nem na Puta que pariu, é Carioca! Você passa o fim de semana com ódio do mundo, e tentando entender como, pelo amor de Deus, nasceu naquela terra , você começa a pensar que se existisse mesmo outras vidas, então numa vida passada qualquer teria sido um daqueles psicopatas assassinos de meter medo no "Fred Krueger" do filme “A hora do pesadelo”, só podia ser karma!
  2. 2. Aí você tenta se unir com o inimigo, chega na segunda na escola e pede pra sua melhor amiga, uma Carioca da gema, te ensinar tudo sobre pagode, samba, funk, axé, e que Deus te ajude, você até resolve aprender a sambar! Ela fala, fala e quanto mais ela fala mais você tem vontade de se esconder debaixo da cama, de preferência com um livro enorme do Stephen King, mas você é forte, e recebe aquela informação toda de braços abertos, (?), e decide que de uma vez por todas vai tentar se enturmar. Passa a semana, e mais uma vez chega o findi com churrascão e pagode, você troca as suas calças jeans rasgadas e surradas por um shortinho da sua mãe, a sua T-shirt do Ac/Dc por um topsinho de alças...rosa, (!!!), se arma com um sorriso amarelo e se mistura no meio da galera como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. E então tudo acontece ao contrário, todos comentam que nunca tinham reparado, mas que você é muito branquela, não tem bunda, e tem os peitos maiores do que de uma americana, você respira fundo, e começa a vomitar toda aquela informação que a sua melhor amiga lhe deu, fala sobre pagode, sobre samba, diz que adora aquela música que está tocando, e as pessoas te olham com uma cara tão esquisita que você fica super nervosa, e troca tudo aquilo que demorou uma semana pra aprender, o problema é que o seu ar desanimado ao falar daquilo tudo, faz a sua empolgação parecer tão verdadeira como uma nota de 2€! Mas você tem uma carta na manga! Aprendeu a sambar, ou melhor tentou aprender, mas isso não importa agora, você vai sambar! Afinal você é Carioca! Em alguma parte de você existe um gingado, afinal não era a toa que a mulher Carioca era tão aclamada nas poesias do seu amado Vinícius de Morais, e lá vai você, e você balança, você roda, você requebra toda, mas espera... porque eles não te aplaudem? Porque eles estão a rir de você? E você olha para o vidro da janela, e vê a sua vergonha reflectida, qual Carioca? Você mais parece uma minhoca a se contorcer com dor de barriga! e um engraçadinho diz pra sua mãe que você deve ter sido trocada na maternidade, que deve ser filha de algum casal americano e que a sua verdadeira filha deve estar agora na
  3. 3. América, a dançar um sambinha de raiz e a tentar entender o que faz ali no meio daqueles branquelos desajeitados. Você corre pra o quarto, se esconde debaixo da cama com o seu livro enorme, e jura por Deus que nunca mais na vida vai tentar gostar de algo que não tenha a ver com a sua personalidade, e que nunca mais vai deixar de ser quem é para agradar alguém. Você promete para si mesma que quando fizer 18 anos vai embora daquela terra, e é então que para pensar para onde iria, e chega a conclusão de que não conhece nenhum lugar no mundo que aceite as pessoas como elas são, e decide que mesmo assim vai embora, vai para São Francisco, afinal nos filmes sempre dizem que lá é a terra da liberdade. E começa a sonhar com São Francisco, a imaginar como seria viver lá e andar nas ruas com as suas roupas pretas sem ninguém perguntar se você está de luto, e é então que um sentimento estranho nasce no seu peito, sentimento este que, você ainda não sabia, fará parte do resto da sua vida, é então que a saudade ganha uma morada fixa no seu mundo. Você sai debaixo da cama e olha pela janela, observa aquela galera a rir, a beber, a se divertir, e os inveja infinitamente por terem nascido no país certo, com a alma certa. Entretanto, a sua viagem apenas começou... Carolline Souza

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