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  1. 1. Monteiro, C. A. de F. / Revista de Geomorfologia, volume 2, nº 2 (2001) Revista Brasileira de Geomorfologia, Volume 2, Nº 1 (2001) 1-20 William Morris Davis e a Teoria Geográfica Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro Universidade de São Paulo email: casusto@uol.com.br Artigo convidado recebido em 15 de maior de 2001RESUMOO autor põe em confronto a proposta teórica do Ciclo Geográfico de W. M. Davis, da virada dos séculos passados (1899) e afamosa crítica sobre a carência de fundamentação científica na Geografia, feita por Fred Schaefer (1953). Este é o ponto departida para traçar um panorama da evolução da Geografia Física no Brasil, notadamente da Geomorfologia e da Climatologia, aolongo do século XX. Sincronizando a evolução do pensamento geográfico com os grandes acontecimentos mundiais do passadoséculo, o autor destaca o segmento 1968-1973 como o possível ponto de mutação a partir do qual penetramos na Grande CriseHistórica que atravessamos nesta virada dos séculos XX e XXI e o caráter desagregativo da atual Geografia.Palavras chave: Teoria Geográfica, Geomorfologia, Brasil, Século XX.ABSTRACTThe author promotes a confrontation between the W. M. Davis` “The Geographical Cycle” (1899) and Fred Schaefer´s“Excepcionalism in Geography” (1953). This is taken as the starting point for an overview of the theoretical evolution ingeomorphology and climatology within the scope of Physical Geography produced in Brazil during the XXth Century. In thisanalysis the author emphasizes the period 1968-1973 as a possible turning point toward to the great historical crises in which weare drowned at this threshold of the new millennium and the astonishingly desegregation of todays Geography.Keywords: Geographical Theory, Geomorphology, Brazil, XXth Century.1. Introdução Desde que encerrei minha carreira acadêmica, na docência e pesquisa, venho sendo chamado para Minha presença neste simpósio1 não é aquela eventos geográficos nos quais me tenho obstinado ado geomorfólogo atuante que vem confrontar e debater fruir deles como meio de informação e, quando instadoidéias com seus colegas. Trata-se, antes, da presença a participar neles, ater-me ao papel de alguém que,de um geógrafo (ou melhor, de um aprendiz de geó- havendo encerrado sua militância, limita-se a depor àgrafo) que, malgrado haver sido impelido à pesquisa base de reflexões sobre a sua experiência passada.em Climatologia, sempre procurou considerar a Geo- Neste encontro, além daqueles dois propósitos, move-grafia como uma convergência holística da relação me o desejo de rever colegas e amigos, inclusive comHomem/Natureza. Atraído pela História ao ingressar a honrosa incumbência de apresentar alguns dos ho-na Faculdade Nacional de Filosofia, da antiga Univer- menageados no certame.sidade do Brasil, no Rio de Janeiro, nos idos de 1947, Ao propor-me tratar de William Morrisem pouco tempo fui capturado pela Geografia. E, nes- Davis, não desejo“exumá-lo para um possível revival ase campo, a Geomorfologia foi o meu primeiro ímã. modo do que acontece, no momento, com outro ilustreAs circunstâncias, várias, quem sabe o acaso, impe- geógrafo norte-americano – Carl Orwin Sauer- naliram-me para a pesquisa em Climatologia, área bem atual emersão de sua Geografia Cultural, que nuncamais carente, entre nos, na metade do século que ex- medrara entre nós. Desejo tão somente focalizar suapira. contribuição teórica, no geographical cycle, como fio condutor num panorama evolutivo da Geografia ao1 longo deste século. Embora não haja dúvidas sobre Palestra ministrada no III Simpósio Nacional de Geomorfologia,Campinas, de 3 a 6 de setembro de 2000. que a proposta teórica de Davis seja um dos pontos de 1
  2. 2. Monteiro, C. A. de F. / Revista de Geomorfologia, volume 2, nº 1 (2001) 1-20partida da Geomorfologia, prefiro conjugá-la ao Science, to repeat once more, searches forcontexto geográfico geral. Para mim, pessoalmente, é laws. What then, one may ask, are thedifícil (e até mesmo penoso) restringir-me a visões peculiarities of the laws we look for andmuito setoriais ou estanquemente compartimentadas which would make it advisable that they bena evolução do pensamento geográfico. Fruto de kept together in one discipline? From thisminha crença na unidade da Geografia, admito que viewpoint, we believe that laws of geographyesta atitude possa ser fruto de uma arcaica disposição fall into three categories. Typical of the firstromântica que remonte, talvez, àquela visão cosmo- are most of the laws of physical geography.lógica, vinculada ao Zeitgeist, do nascedouro da These are not strictly geographical. Many ofGeografia como ciência. them are specializations of laws indepen- Aliás, só agora, ao preparar esta palestra, dei- dently established in the physical sciences.me conta de que nossa colega Lílian Coltrinari (1995), These we take as we find them, apply themem muito boa hora, já promovera esta retomada da systematically to the various conditions thatcontribuição de Davis, ao lado de De Martonne, numa prevail on the surface of the earth anddas Seleções de Textos da AGB. Alegra-me, pois, não analyze them with particular attention to theestar só nesta missão de relembrar contribuições spatial variables they contain. To be specific,passadas, mesmo quando as novidades e propostas the climatologist uses much physics (meteo-emergentes são tão copiosas, como estas vividas em rology), the agricultural geographer, appliednosso presente. biology (agronomy). Nossa presente conversa constará de três mo-mentos. Em primeiro lugar, pretendo focalizar a pro- Para o tipo de Climatologia que vigoravaposta teórica de Davis – do finalzinho do Século XIX naquela época (e até hoje, em certos centros), onde as– subestimada ou mesmo esquecida na convulsão da vinculações com a Meteorologia eram fortes a pontodita revolução teorética. A seguir, procurarei promo- de legitimar como geográfica apenas a legalizaçãover – embora muito rápida e sucintamente - um jogo estatística dos estados médios poderíamos compre-de correlações sincrônicas, entre a Geomorfologia e ender a argumentação de Schaefer. Para a Geografiaalguns outros setores geográficos, ao longo do século Agrária (ou agrícola) ela causa mais surpresavinte. Finalmente, procurarei – numa avaliação muito porquanto ao lado dos sistemas agrícolas, onde sepessoal – expor algumas impressões sobre as tendên- poderia imputar a aplicação agronômica, haveria quecias atuais de nossa Geografia, pelo que me tem sido admitir aquela postura de ordenar, classificatória-dado notar de minhas últimas participações em fóruns mente, como numa competição esportiva, produto porgeográficos nacionais. produto. Mas talvez o autor incluísse esta linha no campo da Geografia Econômica que, em sua2. O CICLO GEOGRÁFICO de W. M. DAVIS concepção, era a mais geograficamente legítima.(Imaginação Criadora e Verdade Científica) Typical of the second category Para minha geração ainda não está distante a are many laws of economic geography, foreclosão da chamada Revolução Teorética na Geo- instance, the now flourishing theory – for itgrafia do final dos anos sessenta e ao longo dos se- hás, indeed, reached the stage where one cantenta. Um dos pilares epistemológicos desta revolução speak of a theory in the strict sense of afoi o artigo de Fred Schaefer intitulado Excep- whole group of deductively connected gene-tionalism in Geographya Methodological Exami- ralizations – of general location. As every-nation publicado nos Annals of the Association of body knows, this theory investigates theAmerican Geographers, Vol. 43, n.3, September, 1953 spatial relations obtaining between the placespp.226/249. Um artigo póstumo, desde que seu autor at which the various economic factors, rawfalecera a 6 de junho do mesmo ano. Peça altamente materials, producing units, means of commu-polêmica abalava a estrutura epistemológica da Geo- nication, consumers, and so on, are to begrafia, de Kant a Hartschorne. Mas, como tal, cheia de found in any region. As far as they are mor-aspectos positivos e negativos. De qualquer modo, e phological,these laws are genuinely geogra-antes de tudo, é um documento que reflete, muito phic The pioneer work in this area has, inclaramente, a ênfase no caráter social na Geografia e, fact, been done by economists, if we exceptmelhor do que isso, marca o advento do determinismo Cristaller, who is a geographer.econômico sobre aquele ambiental. Estes são fatoscapitais naquele artigo, que afloram após a insistência É muito difícil compreender esta legitimidadeinicial no apelo à necessidade de leis gerais, como dos fatos econômicos onde a multiplicidade de fatorescaráter essencial à ciência; na procura de univer- asseguram espacialidade. Fatos geomorfológicos,salidades em vez de excepcionalismos. 2
  3. 3. Monteiro, C. A. de F. / Revista de Geomorfologia, volume 2, nº 1 (2001) 1-20climáticos e agrários não admitem múltiplos fatores? ment. The contemporary reaction againstAcompanhemos o raciocínio de Schaefer: these exaggerations is understandable strong. But to fight them from the standpoint of Geography is essentialy morphological. Pure science is one thing; to fight geographical geographical laws contains no reference to determinism in order to fight science and its time and change. This is not to deny that the underlying idea of universal lawfulness is spatial structures we explore, are, like all another thing (op.cit., pp.247). structures anywhere, the result of processes. But the geographer, for most part, deals with O que é mais surpreendente na abordagem de them as he find them, ready made (As far as Schaefer é que ele ignora completamente a contri- physical geography is concerned, the long buição de W. M. Davis em sua proposta de Geogra- term processes that produce them are part of phical Cycle, sobretudo quando se tem sob os olhos as the subject matter of geology). Let us in this três primeiras linhas de seu famoso artigo: connection consider Koeppen’s Hipothetical Continent. The word hypothetical merely All the varied forms of the lands are indicates that he neglected, for the purpose of dependent on – or, as the mathematician his climatological generalization, all but a would say, are functions of – three variable few variables. For the remaining ones he quantities, which may be called structure, states a spatial correlation that is a mor- process and time. phological law. To call such comparatively crude correlation patterns, in this sense of Em sua proposta eminentemente teórica patterns, are different from laws, would be a Davis evoca, para fins de legitimação, a linguagem mistake. This absence of the time factor matemática, requisito básico da ciência.. O artigo em within physical geography is the source of a pauta data do final do século XIX, intitulado The peculiar phenomenon within all branches of Geographical Cycle e publicado no Geographical human geography (Op.cit, pp.244/244). Journal da Royal Geographical Society, em seu nú- mero 14, ano de 1899, entre as páginas 481 e 504. No seu afã de exaltar o nomotético sobre o Nele, além de perseguir propósitos genéticos (causais)idiográfico, além do mérito apontado para o continente e não apenas topográficos (formais), enfatizando ohipotético de Koeppen (1917), o autor chega a absol- caráter teórico, é feita, propositadamente, abstração dever os ultra deterministas Helen Semple (1897) e toda a gama complexa de vetores implicados noEllsworth Huntington (1945): modelado terrestre. Partindo da classificação genética das formas, nos capítulos seguintes trata do papel do Geographical determinism or environmenta- tempo como elemento da terminologia geográfica e a lism attributes to the geographical variables descrição do ciclo geográfico ideal. the same role in the social process as Após a contribuição do engenheiro Surell Marxism does to the economic ones. This is (1841) formulando as leis da erosão fluvial, a partir do no good reason to believe that either of these estudo das torrentes alpinas, de onde emergiram os two special determinisms is anything but a primeiros conceitos fundamentais da Geomorfologia, a gross exaggeration of some admittedly proposta de Davis vem dar um passo decisivo à sis- valuable insights. There is nothing wrong tematização do estudo do relevo terrestre. Uns ligeiros with investigating the influence which the dados biográficos são necessários ao entendimento da physical environment exercises, positively or contribuição deste geógrafo norte-americano. as a limiting condition, on the social process. William Morris Davis nasceu a l2 de feve- Most geographers would expect to find lawful reiro de l850, na Filadélfia, Pensilvânia, na comuni- connections in this area; that does not make dade Quaker e estudou na Universidade de Harvard, them geographical determinists. Ratzel was onde foi professor de1876 a 1912. Desde 1870 the first to think originally and imaginatively dedicou-se ao estudo das formas de relevo terrestre. along these lines. Like Marx, he was not quite Sua formação em Geologia deu-lhe um forte funda- as bad as some of his latter days disciples. In mento, numa evolução que o dirigiu à Geografia this country Semple was a student of Ratzel. Física, enriquecida também por sólidos conhecimentos In Ellsworth Huntington’s writings geogra- de Meteorologia. Sua obra publicada inclui 42 itens de phical determinism reaches some of its Meteorologia, inclusive um manual – Elementary dizziest hights. In France Demolins insisted Meteorology - editada em 1894. Chegou mesmo a that in French history had to happen all over dirigir, durante algum tempo, o Observatório Meteo- again it would essentially run the same rológico de Mendoza, na vizinha Argentina. Publicou course on account of the natural environ- uma Physical Geography, em 1889 e a coletânea 3
  4. 4. Monteiro, C. A. de F. / Revista de Geomorfologia, volume 2, nº 1 (2001) 1-20Geographical Essays, em 1909. Outras contribuições nentemente geográfica. Como cada ciclo geológico sósuas são: The Rivers and Valleys of Pennsilvania tem início por uma nova litogênese, fica claro que um(1889); The Coral Reef Problem (1928); The Origin of ciclo geológico pode admitir alternadas fases deLimestone Caverns (1931). Sua obra repercutiu orogênese e gliptogênese; o ciclo geográfico se ini-fortemente na Alemanha, no inicio deste século, ciaria, assim, por uma superfície - litogenética pri-conforme atesta a edição da obra Die erklarende mária ou de aplainamento gliptogenético ou erosivo.Deschribung der Landformen (1912). Faleceu em 5 de Ao abstrair – por simples estratégia didática – a inter-fevereiro de 1934, tendo vivido 84 anos. venção real e efetiva (jamais negada) dos múltiplos Emmanuel de Martonne (1909-1925), no seu fatores morfogenéticos, sempre foi deixado claro aTraité de Géographie Physique - Tome 2 – Le Relief possibilidade das peneplanícies (de senilidade) admi-du Sol, ao apreciar o historique do estudo das formas tirem a existência de relevos residuais, assim comodo relevo terrestre (Chap.II – Séc.l3), após registrar os que, a sucessão das diferentes fases vitalistas (juven-precursores, registra que: tude, maturidade e senilidade) poderia ser interrom- pida, gerando relevos policíclicos capazes de assumir C’est dans les dernières années du XIX ème alta complexidade. Um eloqüente exemplo disto siècle qu’a été accompli l’éffort le plus emergiu dos estudos daviseanos do complicado relevo vigoureux pour systématiser les idées sur dos Apalaches (ou Aleghanis). l’évolution des formes des terrains. Il a été Estas considerações remetem-me de volta aos l’oeuvre d’um esprit um peu abstrait, cons- idos de 1952-53, quando estudante na Faculté des tructeur plutot qu’observateur; dans une Sciences de l’Université de Paris (Sorbonne), quando série de mémoires publiées de 1889 a 1900, cursei e obtive o Certificat d’Etudes Supérieures em W. M. Davis a precisé toutes les notions Geographie Phisique et Geologie Dynamique. A essentielles, crée des mots qui ont fait disciplina de Geologia (ao lado de Mineralogia- fortune: pénéplaine, cycle d’érosion, forgé Petrografia, Oceanografia e Climatologia), naquele une nomenclature pour les accidents em ano letivo, foi ministrada pelo eminente geólogo Leon rapport avec la structure; il a contribué Lutaud, em seu último ano de docência, já atingida a puissament à donner l’apparence d’um compulsória. Aquele notável geólogo francês, espe- corps de doctrine aux idées dégagées par cialista nas famosas écailles provençales, em suas differents observateurs. Ellargissant peu à aulas, enfatizava muito bem as relações entre os ciclos peu le champ de son activité, il a essayer de geológico e geográfico, proposto por Davis, além de faire le même travail pour les familles de uma alentada análise sobre a contribuição de Surrell, formes outres que celles d’érosion normale, em suas leis da erosão fluvial (novidade para mim) de mais, semble-t-il, avec moins de succès (De onde provieram os conceitos básicos de nível de base, Martonne, op.cit.p.546). erosão regressiva, perfil de equilíbrio, gênese das capturas etc., etc. Notemos, preliminarmente, a observação Ainda, a propósito de abstração e construçãoadjetiva conferida pelo francês ao norte-americano: teórica na proposta daviseana, é preciso lembrar que,espírito um pouco abstrato, mais construtor que na virada dos séculos XIX para XX projetava-se muitoobservador, o que assenta aos propósitos teorizantes a filosofia de Henry Bergson, com suas concepçõesdo segundo. Em seguida notemos o uso do termo originais sobre o tempo espesso e exaltação da ima-erosão normal, originalmente usada como erosão ginação criadora. Davis, nas ciências da Terra, refleteideal (pelo menos naquele artigo de 1899). aquilo que Marcel Proust realizou na literatura. E isto Note-se, também, que o rótulo do clássico será lembrado e criticado, mais tarde, no meio doensaio de Davis é Geographical Cycle (Ciclo Geo- século, sobretudo na acerbada crítica feita a Davis porgráfico) e não ciclo de erosão como seria, poste- Jean Tricart, como veremos adiante.riormente, consagrado. Ao procurar montar o modelo Consciente de suas abstrações teóricas, emgenético da evolução das formas de relevo, base de sua proposta cíclica, e ante a variedade climática –todo o cenário que caracteriza a crosta terrestre e fonte da ação gliptogenética – no globo terrestre,constitui o embasamento da atuação do Homem, Davis Davis referia-se, no seu modelo, a uma (abstrata)desejou – intui-se claramente – acrescentar o geo- erosão ideal ou seja, aquela ligada às regiõesgráfico ao geológico. O conceito de ciclo geológico já temperadas das latitudes médias do hemisfério norte,era aquisição estabelecida nas Ciências da Terra, com vigência das quatro estações e pluviosidade fartacomposto de suas fases: litogênese (geração das mas moderada, emoldurada por climas mediterrâneos erochas); orogênese (deformação das estruturas rocho- árticos. Assim é que, imediatamente após este núcleosas pela força dos agentes internos) e gliptogênese climático ideal ele vê-se forçado a focalizar os casos(modelado erosivo, esculturador de formas pelos contrastantes das condições glaciares e áridas (glacialagentes externos). Esta última era, assim, emi- denudation e arid climates). 4
  5. 5. Monteiro, C. A. de F. / Revista de Geomorfologia, volume 2, nº 1 (2001) 1-20 O que foi tomado como ideal na proposta 3. RETROFLEXO EVOLUTIVO DA GEOGRA-daviseana, foi desviada para normal, à medida que se FIA NO SECULO XX (A Geomorfologia nessedifundia sua obra, entre outros estudiosos das formas contexto )de relevo, inclusive De Martonne. Uma curiosíssimanormalidade quando refletimos que aqueles condi- Para tentar, no âmbito de nossa conversa,cionamentos climáticos vigoram apenas em cerca de focalizar um panorama evolutivo da Geomorfologia,10% da superfície do globo terrestre. Eis aqui um após o legado de Davis – dentro do contexto da evo-eloqüente exemplo de visão do Mundo eurocentrista, lução da Geografia no Século XX - e associar estaocidental, onde o normal, desvinculado de qualquer evolução em sintonia com os grandes acontecimentosordem de grandeza, reflete a pretensão dos centros científicos, políticos e culturais, procurei esboçar umhegemônicos da economia e poder político mundial quadro auxiliar. Nele, o desenvolvimento linear,em considerar como normal aquilo que lhes é peculiar. diacrônico – em barras paralelas – visa articular,Assim é que, embora flagrantemente dominante, em simultaneamente, as correlações sincrônicas entre eles.seu conjunto, e mesmo superior setorialmente, a Note-se que, se quisesse privilegiar o presente ou osmaioria da superfície terrestre é considerada como tempos mais próximos, poderia ter recorrido a umaacidental. escala logarítmica (ou quadrática) pela qual os anos De Martonne principia o seu capítulo (III do mais recentes se beneficiariam de um espaço maior,Tomo 2) relativo ao Modelé d’Érosion Normale pelos capaz de comportar maior número de registros.conceitos básicos obtidos no estudo das torrentes Contudo, em sintonia com minha atual situação – maisalpinas por Surell (1841) e sua concepção de mode- passada do que presente – isto foi descartado. Veja-se,lado normal é bem explicitado: no plano mais inferior do quadro, o posicionamento do observador - este que vos fala - nascido em 1927, Il est certain que nous sommes loin d’être licenciado em 1950 (no exato meio do século) e aussi avancés dans la connaissance des fa- exercida sua militância universitária entre 1955 e milles de formes glaciaires et désertiques que 1990. Assim, o início do século é objeto de pesquisa; o dans celles des formes d’érosion qu’on meio de atuação vivida; o final, de contatos indiretos e observe dans les pays où se concentrent les observação com um certo afastamento. societés humaines. Tout nous engage à Na parte superior do referido quadro estão commencer par celles-ci et a y insister parti- dispostas as barras relativas aos magnos aconteci- culièrement (De Martonne, op. Cit. p.547). mentos mundiais na política, filosofia, artes, ciência- tecnologia, cultura de um modo geral. Na parte cen- Assim, no domínio das acidentalidades ou tral desenvolvem-se as barras relativas ao Brasil, emexcepcionalidades, o modelado das amplas regiões seus marcos político-sociais e Geografia, mesclando-intertropicais úmidas é descartado. No início do se nesta barra eventos mundiais e nacionais. Na parteséculo, o colonialismo europeu – que substituíra o inferior encontra-se a barra da Geomorforlogia, avizi-ibérico - contentava-se em sugar daquelas regiões nhada àquela da Climatologia, não apenas pelas afini-exóticas e de culturas diferentes (e inferiores) os seus dades de Geografia Física mas, sobretudo, por se tratarrecursos naturais para alimentar seu crescimento de minha área de mais efetiva atuação e, como tal,industrial e poderio político. Tudo ou quase tudo que mais propícia às possíveis correlações teóricas. Deveocorria além da linha dos trópicos, inclusive flutuações ficar bem claro que a montagem do quadro obedece aclimáticas quaternárias, não sintonizava com o mundo um viés muito pessoal, segundo as limitações donormal. conhecimento do autor. Qualquer colega sentirá falta Retenhamos, por enquanto, neste final de ou poderá discordar quanto a seleção de eventos aínossa primeira etapa, que a contribuição de W. M. figurados. Eu próprio considero que, para melhorDavis, trazida do finalzinho do século passado, foi caracterização geomorfológica, seria da maiordecisiva na sistematização dos estudos geomor- utilidade acrescentar barras relativas à Pedologia e afológios, e atravessará toda a primeira metade do Geologia, pelo menos na interface do quaternarismo.século XX, com naturais acréscimos, ampliações e Contudo, falta-me o necessário conhecimento para,deformações, em outras escolas geográficas, para, com a devida segurança, registrar os eventos capitaisatingida o meio do século, sofrer fortes impactos nestes dois campos de conhecimento. Mas o esquemacríticos à sua metodologia, enquanto, a ampliação dos é completamente aberto a todos os possíveisconhecimentos e do arsenal técnico de análise virão acréscimos e correções.trazer novos impulsos não só à Geomorfologia mas à A passagem dos séculos XIX ao XX foiGeografia em geral. marcada por uma esplêndida pirotecnia na Filosofia, nas Artes e na Ciência. Nietzsche, que concluirá sua obra em 1888, e faleceu em 1900, promovera um desmonte em arraigadas concepções, sendo o grande 5
  6. 6. Monteiro, C. A. de F. / Revista de Geomorfologia, volume 2, nº 1 (2001) 1-20 6
  7. 7. Monteiro, C. A. de F. / Revista de Geomorfologia, volume 2, nº 1 (2001) 1-20portador de novas luzes necessárias à evolução do médios da atmosfera sobre os lugares. Ao final danovo século. A Ciência era abalada tanto no nível do guerra, W. Köppen (1917) propõe o seu sistema demacro-físico – com Einstein (1879-1955) e a Teoria da classificação, segundo a concepção estatística deRelatividade - quanto naquele do micro-físico – com Hann, ilustrada por seu continente hipotético louvadoMax Planck (1858-1947) com a Teoria dos Quanta. A como tentativa de universal científica por Schaeffer.proclamação de Plank dos valores discretos ou quanta No Brasil, as primeiras décadas do século sãoreveladas num oscilador de partículas é de l4 de uma extensão dos tratamentos corográficos de umadezembro de 1900. Os cinco artigos que funda- geografia descritiva, do século anterior, ligada aosmentaram a Relatividade de Einstein foram capitais, Institutos Históricos e Geográficos, federais epublicados em 1905. Picasso, ao estampar u’ a estaduais, e da Sociedade Brasileira de Geografia. Osmáscara africana no rosto de uma das Demoiselles compêndios didáticos bafejados pelo aval do Colégiod’Avignó, em 1907, cria o cubismo. Schoenberg D. Pedro II, do Rio de Janeiro, norteavam o ensino darevoluciona a harmonia musical, com o dodecafo- disciplina no ensino médio. Em 1917, ocorre anismo, no seu Harmonielehre, em 1912. Por esta surpreendente edição (em Paris) de uma Météorologieépoca o Ballet Russo conquista Paris. As Ciências du Brésil, de autoria de Delgado de Carvalho.Naturais progridem enquanto as Humanas tomam Surpreendente pela escassez dos dados disponíveis,corpo. As velhas concepções de Economia Política, bem como pelo próprio tratamento dado pelo autor, foidos séculos precedentes, são prolongadas pelo novo merecedor de um elogioso prefácio do meteorologistaséculo a dentro enquanto os progressos do capitalismo inglês, Sir Napier Shaw. A seguir, Delgado de Carva-geram mecanismos financeiros ainda desconhecidos lho, associado ao engenheiro Henrique Morize, lan-que culminam com o crack da Bolsa de Nova Iorque, çaria a primeira classificação climática do territórioem outubro de 1929, inaugurando uma grave recessão brasileiro. A procura de recursos minerais que, desde amundial. segunda metade do século anterior ensejara a vinda de Diz-se que o século XX principiou atrasado, geólogos europeus e norte-americanos para o Brasil,inaugurando-se após a primeira grande guerra continua a produzir os estudos pioneiros sobre omundial, no decorrer da qual, em l917, deu-se a embasamento geológico e formas de relevo.revolução bolchevique russa. Neste último sentido, Após a Revolução de l930, inaugurada a ditapode-se admitir que se findou adiantadamente, com o República Nova, com a implantação das universidadesdesmonte da URSS. De qualquer modo, esta no Rio de Janeiro e em São Paulo (1934) é que seexperiência política, fruto do marxismo, abrangeu três inicia a institucionalização da disciplina – associada àquartos deste século, sendo um dos seus marcos. Na História – nos cursos superiores, implementada com asegunda década, enquanto o Brasil celebrava seu colaboração de docentes franceses. Um outro marco nacentenário de independência e tentava assumir um evolução dos estudos geográficos entre nós, advém dacaráter nacional nas artes (Semana de Arte Moderna fundação da Associação dos Geógrafos Brasileiros,em São Paulo), em 1922, neste mesmo ano, eram orientada por Pierre Deffontaines (1935). Congraçan-editados dois pilares na literatura do novo século com do, de modo aberto, cientistas dos setores afins, geó-o Ullyses de James Joyce e o A la récherche du Temps logos, historiadores, engenheiros etc., a primeira dé-Perdu de Marcel Proust. cada foi incipiente, sendo revigorada após uma revisão A Geografia Ciência, do seu nascedouro nos estatutos, em l945, a partir do que se tornou alta-alemão, ingressa no novo século oscilando na querela mente dinâmica, promovendo assembléias anuais emdeterminismo (Ratzel) – possibilismo (de la Blache) diferentes regiões brasileiras, irradiando entusiasmoenquanto se geram as escolas nacionais européias e para a pesquisa geográfica. A ditadura Vargas – rotu-norte-americanas, mediante a institucionalização da lada de Estado Novo, no mesmo ano de sua implan-disciplina nos currículos universitários. Os estudos de tação (1937), criava o Instituto Brasileiro de GeografiaGeografia Física fornecem as bases aos estudos e Estatística (IBGE), promovendo pesquisa geográficaregionais, onde a ação do Homem é apreciada em suas e publicações especializadas (Revista Brasileira derelações com a natureza. O estudo dos gêneros de vida Geografia e Boletim Geográfico). Os três Conselhos,nos grandes biócoros guarda muito de ilustração em que se subdividia o IBGE: Geografia, Cartografia eetnográfica na emergente Antropologia. Após o legado Estatística, num organismo diretamente vinculado àde Surell e Davis, a Geomorfologia continua a evoluir Presidência da República, demonstrava a importânciapreocupada em distinguir da erosão normal aquelas que o poder público conferia à pesquisa geográfica, adas regiões áridas (Passarge, 1904) e glaciais de produção cartográfica (compartilhada com aquelamontanha (Penck,1924). Mais adiante, Cotton (1942) produzida pelas forças armadas), os levantamentostenta completar o quadro dos Climatic Accidents in estatísticos rotineiros e a realização de censos dece-Landscape Making. O estudo dos climas repousa nas nais, como elementos indispensáveis à administraçãobases traçadas pelo austríaco Julius Hann (l903) comdefinição caracterizada pela abstração dos estados 7
  8. 8. Monteiro, C. A. de F. / Revista de Geomorfologia, volume 2, nº 1 (2001) 1-20pública. Enquanto as Universidades preparavam, con- vinha, como também o seu significado estratégico.comitantemente, professores (licenciados) para o ensi- Lembrando a descoberta de Yves la Coste de que ano médio e superior, e pesquisadores (bacharéis), estes Geografia é algo que sert à faire la guerre as formasúltimos, além de destinados às próprias Universidades, de relevo da bacia parisiense inspiraram a estratégiapodiam abastecer os quadros técnicos do Conselho (fracassada) da Linha Maginot.Nacional de Geografia. Uma das atribuições deste O fato de que a primeira metade do séculoórgão era a elaboração da Divisão Regional do Brasil, XX é o nascedouro da Geografia-Ciência entre nós noprática norteadora da administração pública. A pri- Brasil, sintoniza perfeitamente com o estágio históricomeira divisão regional, produzida para nortear o de nossa própria formação social. Na primeira década,recenseamento de 1940, foi publicada no ano seguinte o povoamento ainda restringia-se, significativamente,(Guimarães, 1941). à faixa litorânea. Lembremo-nos da odisséia da missão A Geografia da primeira metade do século Rondon quando, no auge (já início do declínio) doXX foi marcada por uma forte preocupação com as boom da borracha na Amazônia, se instalavam ascomponentes naturais, onde os estudos geomorfo- linhas telegráficas para Manaus. Nos anos trinta sur-lógicos forneciam as bases para as abordagens re- gem obras capitais no nosso auto-conhecimento comogionais. De Martonne, além do seu tratado de Geo- Casa Grande e Senzala (1933) e Sobrados e Mu-grafia Física, produziu um primoroso estudo regional cambos de Gilberto Freyre (1936) mais Raízes dosobre La Valachie. Aliás, uma das tradições na escola Brasil de Sergio Buarque de Holanda (1936) efrancesa de Geografia, à qual estivemos fortemente Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Pradoligados, era a ênfase da Geografia Física na formação Junior (1942). A segunda grande guerra e o esforçode seus geógrafos, fato que se pode constatar até na para a industrialização, nos anos quarenta, nosso esfor-terceira geração, onde geógrafos que se notabilizariam ço na Marcha para o Oeste, conjugando o esforço ter-na área de Humana, produziram estudos relevantes em restre da Misssão Roncador-Xingu dos Irmãos VillasGeomorfologia, como os casos de Pierre George (La Boas, com os aéreos da FAB. A necessidade de tomarPlaine du Bas Rhône) e Mmme. Beaujeau-Garnier (Le posse para conhecer o território e refletir sobre nossaMorvan). formação sócio-econômica eram necessidades Uma das características que pode ser imperiosas para o que a contribuição geográfica,apontada para esta fase é a produção de uma análise conjugada pela ação conjunta das universidadesgeomorfológica acompanhada de excelente ilustração pioneiras, IBGE e AGB deram importante contribui-cartográfica. Os principais geomorfólogos, a principiar ção. O desenvolvimento tecnológico produzido pelopelo próprio Davis, eram excelentes desenhistas que esforço de guerra trouxera o precioso auxílio daexpressavam suas idéias evolutivas do modelado aerofotogrametria. O antigo e complicado sistematerrestre à base de bem executados blocos diagramas. trimetrogon de fotos inclinadas, foi enriquecido porDe Davis, passando por De Martonne, até atingir sua tomadas verticais, o que contribuiu muito para osculminância no norte-americano Lobeck (1939), cujo estudos geomorfológicos entre nós.manual de Geomorfologia era muito rico, tanto em Nossos estudos geomorfológicos radiaramfotografias como em desenhos. A ele se deve, também, dos dois centros universitários básicos. No Rio de Ja-um manual de desenho cartográfico onde se encontra neiro houve a contribuição inestimável do mestre(ainda hoje) a melhor explicação para construir blocos francês Francis Ruellan, discípulo de De Martonne,diagramas (1924-1958). atuando concomitantemente na Universidade do Brasil Outra característica desta fase daviseana era e no Conselho Nacional de Geografia, formador dasaquela de que, malgrado a evolução do modelado equipes iniciais. Na Universidade de São Paulo - ondebasear-se em pré-supostos abstratos, quando se atingia a atuação dos mestres franceses, notadamente Pierreo entendimento da realidade do relevo terrestre ela era Monbeig, estava mais voltada para a Geografiasempre conectada ao povoamento, às formas de Humana - as bases geomorfológicas foram autóctones.ocupação do solo, aspectos econômicos, enfim à Iniciada pelo geólogo Luiz Flores de Morais Regofenomenologia humana. Neste sentido relembro o (1943), que delineou as bases da interpretação dascapítulo da Geomorfologia de Lobeck, relativa aos formas do relevo do território paulista, elas se con-relevos associados às estruturas em domos, onde a tinuaram por obra de notáveis geólogos, dentre osdisposição dos arcos concêntricos, de formas mono- quais salientaríamos Otavio Barbosa e Fernando Flá-clinais (cuestas e hog-backs), eram associadas ao vio Marques de Almeida os quais, dentre outros mé-povoamento e a advertência de que a desnudação do ritos tiveram aquele de haverem dito ativíssimosnúcleo intrusivo propiciava, o mais das vezes, uma participantes da obra da Associação dos Geógrafospaisagem mineradora. O tratamento dos relevos de Brasileiros, em sua melhor fase Juntou-se a estes,cuestas na França, nos arcos concêntricos da Bacia antes mesmo de concluir o curso, o geógrafo AzizParisiense, explicava não só mas propiciavam boas Nacib Ab’Saber que, beneficiado por uma excelentecondições de solos e de exposição solar à cultura da formação em conhecimentos geológicos, destacou-se 8
  9. 9. Monteiro, C. A. de F. / Revista de Geomorfologia, volume 2, nº 1 (2001) 1-20muito cedo no setor da Geomorfologia. Enquanto isto (1949) como sendo o último suspiro do determinismoo quadro da Geografia Física, no Brasil, completava-se ambiental.por estudos climatológicos ainda limitados pela Nada melhor para retratar esta passagem doinsuficiência de informação meteorológica e restrita à que confrontar os três congressos internacionais, pro-aplicação da classificação do Köppen em estudos movidos pela União Geográfica Internacional (UGI),locais e regionais. A Biogeografia, despontava, a partir no meado do século. Naquele de Lisboa (1948) foide um curso ministrado no Conselho Nacional de retomada a realização sistemática daqueles eventos,Geografia do IBGE, no Rio de Janeiro, pelo canadense realizados de quatro em quatro anos, prática inter-Dansereau, cujo conteúdo ensejou a publicação de um rompida na vigência da guerra. Ali ainda houve preo-notável artigo na Revista Brasileira de Geografia cupação para ensejar a criação da Comissão para o(1949). Estudo das Superfícies de Aplainamento em torno do Mas será de toda justiça assinalar que antes de Atlântico, tema que aliava de um lado, a preocupaçãoatingir o meio do século, a Geografia produzida no daviseana com as grandes superfícies aplainadas; doBrasil, em ativas assembléias e publicações periódicas, outro, ao vinculá-las em torno do Atlântico notava-se ajá era capaz de exibir contribuições de destaque. relação à teoria da Derivação Continental (PretéritaLembremo-nos de que, para restringirmo-nos ao setor união da América do Sul com a África, no Continenteda Geografia Física, desde 1941, com a publicação do de Gondwana) proposta por Wegener em 1915.artigo Ondas de Frio na Bacia Amazônica, os meteo- Quando aluno de Jacques Bourcart, na disciplinarologistas Adalberto Serra e Leandro Ratisbona, prati- Oceanografia, na Faculté des Sciences, da Sorbonne,cantes de uma meteorologia dinâmica, advinda da es- no ano letivo de 1952/53, os estudos sobre a margemcola escandinava, lançavam os alicerces para o futuro continental daquele mestre promoviam alentadanascimento de uma climatologia mais geográfica. Aziz revisão crítica naquela teoria, mostrando tanto pontosAb’Saber já produzira o seu notável trabalho sobre os de concordância quanto evidências de discordâncias. Ofenômenos de desnudação pós-cretácea (1949). Como congresso de Washington (1952), pelo temário e co-expressão de uma Geografia globalmente integrada, missões, revela o peso dado à Economia. Esta passa aHilgard O’Reilly Sternberg publicara, na RBG, um varrer todos os campos de preocupação acadêmica eprimoroso estudo sobre uma calamidade pluvial na profissional. Tenho repetido o fato da pomposa decla-Bacia do rio Paraíba do Sul, no qual desnudara a trama ração do famoso arquiteto Mies van der Hohe, ao con-de todo um jogo de relações integradas entre a herança cluir seu edifício das torres de aço e vidro de Chicagoda cultura cafeeira transformada em pastagem, criando (1951) de que o projeto arquitetônico é a economia.condições extremamente vulneráveis ao desencadea- Toda a esfera dos conhecimentos passa a girar sob omento de movimentos coletivos do solo. Este estudo impulso dos processos econômicos, conduzidos pelofoi o pioneiro numa linha de pesquisa de destaque na antagonismo capitalismo-comunismo, ao sabor darealidade do Brasil tropical atlântico. guerra fria. Lembro-me da reação do velho mestre Outro rumo trazido pela guerra, com a des- inglês, o geomorfólogo Wooldridge, em sua obra Thetruição dos espaços urbano-industriais na Europa, foi a Geographer as Scientist, onde se refere ao fato de ver-necessidade de, para reconstruí-los, planejá-los. se a superfície terrestre como simples palco para oAssim, a Geografia viu-se lançada a um comprometi- desenrolar da atividade econômica como uma idéiamento com o planejamento territorial, passando-se a narrow and nasty (estreita e tola). O memoráveldiscutir, para ela, a adequação adjetiva de aplicada ou congresso do Rio de Janeiro (1956) vai registrar umaaplicável. Tendo sido sempre temática geográfica, os outra importante mudança: aquela do dinamismo queestudos urbanos passaram a se revestir de maior rele- passa a caracterizar o estudo dos processos navância, ampliadas, sobremodo, pela importância que se Geomorfologia. Na França, a Revue de Géomorpho-passou a dar à Economia. Antes de findar a guerra, em logie Dynamique, surgida no final dos anos quarenta,Bretton-Woods (1944), consoante a nova configuração já vinha se desencumbindo de promover grande impul-do poder mundial, o Reino Unido passava o bastão da so nessa abordagem do modelado terrestre.liderança econômica aos Estados Unidos enquanto, na- A Geomorfologia na França, após a geraçãoquele mesmo tratado eram criados o Banco Mundial e De Martonne (Paris), Blanchard (Grénoble) dá lugaro Fundo Monetário Internacional (FMI). Já atingimos àquela de Cholley (Paris), Baulig (Strasbourg). Doo meio do século, no momento mesmo em que eu con- primeiro deve-se a estratégia didática da abordagemcluía a Universidade e passava a integrar-me, mais efe- tríplice na Geomorfologia: Estrutural, Climática etivamente, na prática geográfica. No momento em que Litorânea. A terceira geração, aquela do pós-guerra éme encaminhava para a pesquisa geográfica mais liderada por Tricart (Strasbourg) e Dresh (Paris).voltada para a natureza, dava-se a grande mutação que Ambos ampliaram os seus campos de estudo para ofoi o advento do determinismo econômico em território africano: Dresh no árido da bordasubstituição àquele dito ambiental. Em termos globais, mediterrânea e Tricart no tropical úmido da entãoaponta-se a Urban Geography de Griffith Taylor Afrique Noire. 9
  10. 10. Monteiro, C. A. de F. / Revista de Geomorfologia, volume 2, nº 1 (2001) 1-20 Outro enriquecimento científico do pós- iaria: a noção evolutiva cíclica e a concepção deguerra foi a introdução da Teoria Geral dos Sistemas erosão normal. Mas o cerne de toda a crítica é cen-proposta pelo biólogo Von Bertalanffy (1950) em que trada no fato de que Davis coloca a intuição no lugariria ter grande repercussão mas que só chegaria para a da observação, pecado advindo das concepções filo-Geografia, no Brasil, junto com a revolução teorética. sóficas de Bergson qu’a saisi le drapeau em lançant A progressão dos estudos geomorfológicos no des concepts comme celui de l’immagination créatrice,semi-árido e sobretudo no intertropical africano, pouco é sobre este pedestal filosófico que principia a demo-a pouco, foram revelando sinais de que, as flutuações lição, na maior veemência. Esta crítica principiadaclimáticas do quaternário haviam repercutido sim, pessoalmente nos seus muitos cursos avulsos poli-muito além das latitudes médias. A observação de copiados pela Presses Universitaire de France (PUF),stone lines, paleopavimentos e caracteres pedológicos avulsamente, acabou por ser ordenada em sua obra,chamavam a atenção dos geomorfólogos. A estas intitulada Principes ot Méthodes de la Géomorpho-observações climáticas, na África do Sul vieram logie, da qual permito-me lembrar o seguinte trecho:juntar-se outras observações capitais, relacionadas àimplicações tectônicas e isostáticas, feitas por Lester La méthode de Davis est significative. NeKing (1955) na geração de pediplanações e seus resí- s’est-t-il pas emporté, plein de mépris, contreduos (Inselgebirge). Neste meio de século, no Brasil, ces gens qui manquent d’immagination? N’a-os núcleos basais de São Paulo e Rio de Janeiro já t-il pas affirmé que le recours systhematiquehaviam sido acrescidos de outros. De modo autóctone et massif à l’immagination était la carac-no Paraná, pela atuação do geólogo alemão R. Maack, téristique méthodologique de la géomorpho-formando uma eficiente equipe, onde já emergia J. J. logie? N’em fit-il pas lui-même l’éclatanteBigarella: ou seja, conquistado pela obra difusora- démonstration em se plaçant le dos au pay-integradora da AGB, em Pernambuco, com Gilberto sage et em imaginant comment celui-ci devaitOsório de Andrade, Rachel Caldas Lins, Manoel Co- être, comment il s’était elaboré et, ensuite emrrea de Andrade (inicialmente geomorfólogo) e princi- se retournant pour découvrir, plein de vani-piando na Bahia, com os primeiros bolsistas enviados teuse satisfaction, qu’il était bien conforme àà França, estas observações nos cortes reveladores da ce qu’il avait échafaudé? Autre anedocte sig-estrutura superficial da paisagem, já despertavam nificative: la campagne dans les Mers du Sudinteresse. Ao ensejo do congresso da UGI houve o pour l’étude dês récif coraliens, pendant la-auspicioso encontro de geógrafos dos grandes centros quelle Davis, enferme dans as cabine,e os nossos. Fosse nas sessões do congresso, mas espe- étudiait les cartes et reconstituait la genèsecialmente nas excursões de campo em diferentes des récifs dont, ensuite, une courte escale etregiões brasileiras, por especialistas estrangeiros, nota- um rapide coup d’ oeil étaient censésdamente os geomorfólogos Tricart e Dresh, houve démontrer l’exactitude... Une telle aberrationoportunidade para um proveitoso diálogo com os méthodologique a directement mené à unenacionais. Assim é que, o congresso do Rio de Janeiro, practique incroyable, que avait encore coursde 1956, dentre muitos outros méritos, pode ser con- dans certaines universities tout récemment:siderado como um marco na nossa Geomorfologia, celle de limiter les travaux practiquesque se enriqueceu desse renovador caráter dinâmico. A d’étudiants à la seule observation de la cartepartir daí estreitaram-se os laços de colaboração e topographique. On regardait lê modelé et onintercâmbio entre Brasil e França na Geomorfologia, en déduisait la nature des roches et lesnotadamente com a atuação de Tricart junto a UFBa, accidents structuraux, puis, ensuite, oncom a criação do Laboratório de Geomorfologia e rendait compte du modelé à partir desEstudos Regionais. Além do treinamento local de seus éléments soi-disant acquis de cette manière.geógrafos, atraiu outros que para ali convergiram, de Monstrueuse faute de méthode, qui n’a puoutras regiões. Também fomentava a troca de idéias, être commise que par des personnes ignorantajudada pelos encontros anuais nas assembléias da les plus élémentaires príncipes de la méthodeAGB. scientifique. Toute loi scientifique se déduit O dinamismo e ênfase processual na geração d’une corrélation systhematiquement obser-das formas do relevo viria assentar-se sobre uma séria vée entre de nombreuses données d’ordrecrítica à metodologia daviseana. E, neste particular, o different, portées les unes sur l’axe des x, lesporta voz mais ferrenho foi Jean Tricart. Embora outres sur l’axe des y. Le modele est uneconcedendo a W. M. Davis o crédito de fundador da donnée, la structure em est une autre. LeurGeomorfologia como disciplina especializada, Tricart confrontation aboutit à l’établissement d’uneaponta como único mérito de Davis aquele de apre- corrélation. Mais on ne peut tirer x et y de lasentar um conjunto coerente, um sistema. Mas ataca, même équation, seule et unique. En tentant deradicalmente, os dois pilares sobre os quais ele se apo- le faire, ou about-it nécessairement à une 10
  11. 11. Monteiro, C. A. de F. / Revista de Geomorfologia, volume 2, nº 1 (2001) 1-20 solution arbitraire que, dans notre cas, est considerei muito esta colocação de Tricart sobre a une pétition de principe ou, si l’on préfère, importância da seqüência no estudo dos processos. Daí une vulgaire devinette… On conçoit combine minha preocupação em centralizar o estudo climático de semblables pratique on pu effarer les no ritmo, no estudo das seqüências de tipos de tempo, autres naturalists et la prevention qu’elles capazes de, embora muito difícil, aproximar-se daquilo ont crée vis-à-vis de la géomorphologie. que seria o habitual. Se era válido produzir uma Geomorfologia Dinâmica por que não o seria também Cette grave faute de méthode est sensible tout perseguir uma Climatologia Dinâmica? E é em nome au long de l’oeuvre de Davis, mais devient de dessa associação - que a meu ver nivela logicamente e plus en plus apparente avec le temps: les sincroniza modos de análise, em proveito da unidade exemples les plus outranciers correspondent da Geografia – que eu procurei incluir no quadro uma à la seconde décennie de notre siècle. Mais barra relativa à Climatologia, na qual, sem pretensão l’insuffisance méthodologique est sous- descabida ou falsa modéstia, registrei etapas jacente aux concepts fondamentaux de la importantes em minha contribuição aos estudos géomorphologie davisienne qui sont une climatológicos em nosso país. No final dos anos construction de l’esprit pure et simple, certes cinqüenta e ao longo dos sessenta, encontrei o apoio douée de cohesion interne, mais qui ne na literatura meteorológica brasileira, notadamente em repose pas sur une observation systématique A. Serra, o apoio necessário para enfronhar-me nos des faits. En somme, la différence entre mecanismos da circulação atmosférica na América do l’intrigue bien menée d’un roman de fiction et Sul. E fiz um grande esforço para, partindo do material la réalité quotidienne (Op,Cit, pp. 63/64). precário disponível naquele então, em cartas sinóticas rudimentares, anteriores ao benefício das imagens do Contrapondo-se ao verbalismo imaginativo de satélites, compreender os mecanismos daquela circu-Davis, Tricart examina les tatonnements des écoles lação. Ao procurar iniciar os meus alunos universi-germano-slaves, sobretudo destas últimas: Lomono- tários naquela prática de análise, defrontei-me comsov, séc. XVIII; Kropotkine, segunda metade do sé- uma grande dificuldade didática. Foi quando ocorreu-culo XIX e Dokoutchaev, pai da pedologia, no final me recorrer a estratégia daviseana de imaginar umdaquele século. A falta de consideração da cobertura ciclo que, embora abstrato, servisse à iniciação dosde solos e vegetação é uma das grandes demonstrações meus alunos numa tarefa difícil. Ao tratar do Clima dada abstração daviseana. E é nos alemães que o crítico Região Sul da Geografia Regional do Brasil, editadafrancês vai encontrar o cerne da necessária fundamen- pelo IBGE em 1963, inseri o esquema Ciclo Vital detação climatológica, reveladora dos efetivos processos. uma Onda de Frio que, abstraindo as costumeiras A apaixonada crítica de Tricart, justa em mui- complicações de que se revestem os avanços de Frentetos pontos, carece da compreensão do que a proposta Polar Atlântica sul-americana, exibia quatro estágios:de Davis continha de propósito didático. Didática prenúncio, avanço, domínio e transição. É absolu-também foi à preocupação de Cholley ao preconizar o tamente óbvio que os avanços dos anticilones polarestratamento separado das componentes estruturais das admitem infinita variedade de maneiras mas, eraclimáticas e completá-las pela azonalidade das bordas necessário simplificar a complexa realidade em umlitorâneas. Qualquer um geógrafo a quem já tenha sido modelo que, embora, declaradamente teórico, servissedada a tarefa de ensinar geomorfologia, sabe bem das a iniciação dos alunos na análise. Eles, a medida quedificuldades em explicar aos alunos tal complexidade e evoluíam pela multiplicação dos casos observados,superposição de fatores contidos na geomorfogênese. davam-se conta de que a sucessão das quatro fases nãoEu próprio usava a estratégia de, nas disciplinas finais, era ocorrente daquele modo, podendo haver, porrecorrer a uma abordagem regional específica para exemplo, dois ou três avanços seguidos, conforme oafastar todas as abstrações teóricas. E forneci, a este abastecimento do fluxo polar no extremo sul dopropósito, um depoimento, ao elaborar o ensaio continente; as significativas diferenças de duração dasGeossistemas - A Estória de uma Procura (Monteiro, diferentes fases, a eliminação de algumas delas2000). segundo certas circunstâncias etc., etc. O mal, Em minha carreira acadêmica, sobretudo na portanto, não repousa na utilização da idéia do ciclo,função docente, aproveitei muito dos ensinamentos dependendo da maneira como ela é utilizada. Seriatanto de Davis quanto de Tricart. Concordei com este descabido tratar aqui, nesta palestra, da recorrência eúltimo quando ele enfatizou que la notion de cycle doit conspicuidade da noção de ciclo na vida humana.donc être remplacée par celle d’évolution, séquence. E Principiaríamos desde a associação do homemfoi exatamente por isso que procurei um paradigma primitivo entre fases da lua e ciclo menstrual das mu-mais satisfatório para a Climatologia que pratiquei. Se lheres, atravessando um longo percurso até o nível fi-ele repousa basicamente na revisão crítica formulada losófico, na teoria nietzschiana do eterno retorno. Sepor Sorre, como já expus exaustivamente, também de um lado podemos criticar o simplismo da 11
  12. 12. Monteiro, C. A. de F. / Revista de Geomorfologia, volume 2, nº 1 (2001) 1-20abordagem dos ciclos econômicos em nossa Historia, artigos, sendo difícil deixar de vê-lo estampado naspoderemos também, encontrar grandes méritos, provas de Geografia dos exames vestibulares às Uni-sobretudo de compreensão didática, na teoria das versidades. Um outro trabalho, mais dirigido a espe-dualidades brasileiras, na qual nosso saudoso econo- cialistas, representa a síntese da contribuição teóricamista Ignácio Rangel, a partir da proposta do econo- de Ab’Saber à Geomorfologia feita no Brasil. Trata-semista russo Kondratief, nos anos vinte, arquitetou algo de um excerto de uma de suas teses acadêmicas naque ajuda muito à compreensão de nossa formação USP, apresentado como artigo na Revista Brasileira desócio-econômica, sincronizada aos acontecimentos Geografia e intitulado Uma Revisão do Quaternáriomundiais: Rangel (1981); Mamigonian (1987). Paulista: do presente para o passado (Ab’Saber, 1969). O início da segunda metade do século iria Neste trabalho ele explicita sua diretriz teórico-sediar grandes mudanças. Enquanto o mundo vivia a metodológica calcada no tríptico: compartimentação,guerra fria, russos e americanos promoviam a corrida estrutura superficial da paisagem e fisiologia da pai-espacial. À era nuclear, superpunha-se, agora, a era sagem. Este último nível ensejou, por algum tempo, aespacial. Iniciada com o Sputnik russo (1957) cul- vigência de uma disciplina do currículo de graduaçãominou com a missão americana da Apolo 11, colo- em Geografia no Departamento da FFLCH da USP, dacando o Homem na Lua (l969). Os anos sessenta re- qual eu tive o privilégio de ministrá-la. Este referencialpresentaram, talvez, o período áureo das reuniões teórico de Ab’Saber, pela sua abertura, propiciavaanuais da AGB que, ao início dos setenta promovia amplas conexões a outras estratégias metodológicas,uma assembléia administrativa em São Paulo, para notadamente a conciliação do esquema daviseano comuma mudança nos estudos que, dentre outras mu- aquelas mais integrativas, em torno do conceito com-danças, fez passar as assembléias para uma ocorrência plexo de paisagem da escola alemã (Landschaftbi-anual. Inauguravam-se outros tempos, tanto no Oekologie).mundo quanto no Brasil. A mudança territorial mar- O segmento temporal entre 1968 e 1973 écada pela inauguração de Brasília (1960) foi seguida abalado por uma séria concentração de eventos dapor aquela política, com a intervenção militar (1964), maior relevância que, superpondo-se cumulativamen-introduzindo violentas mudanças político-institucio- te, vão fazer com que este qüinqüênio possa ser cre-nais, econômicas e ideológicas, na vigência da segu- denciado como o muito provável ponto de mutação arança nacional, aplicada à pretensa integração econô- partir do qual ingressamos na grande crise histórica namica da Amazônia Brasileira e à abertura de grandes qual estamos mergulhados e que caracteriza estaeixos rodoviários. A Geografia vê-se abalada pela in- virada de séculos, soleira do novo milênio. Algunstrodução das revoluções teorético-quantitativas. acontecimentos, como fenômenos de dinâmica pro- Conquanto o sopro revolucionário se dirigisse gressiva, ultrapassando uma significação pontual domais enfaticamente à Geografia Humana, não deixou evento episódico, desenvolveram-se pelos anos ses-de afetar também a Física. De um lado, a Clima- senta e setenta. Assim foram os movimentos de rebe-tologia, até então, puramente quantitativa, numa esta- lião juvenil contra as guerras, os valores burguesestística elementar, esforçava-se justamente para tornar- vigentes, que desembocaram na ideologia do flowerse mais qualitativa para o que, encontrava sérias li- power, associada à evasão dionisíaca nos alucinó-mitações no tratamento estatístico vigente, para exibir genos, arte psicodélica, etc.. A revolução sexual, comsua dinâmica. A Geomorfologia, atingido o estatuto o advento da pílula anticoncepcional, os movimentosdinâmico, enfatizando os processos, já beirava um reivindicatórios de liberação da mulher, estão nestaestágio que perseguia aquela dinâmica até mesmo em categoria. Liberação feminina que se reflete expres-tentativas experimentais, associando-se aos estudos sivamente na moda. Se Coco Chanel, no inicio dospedológicos e à geologia quaternarista. Assim, as anos vinte, liberou as mulheres do espartilho e levan-técnicas quantitativas revolucionárias canalizavam-se tou-lhes as saias, agora, nos sessenta, Mary Quantpara a geometria da drenagem hidrológico-fluvial. Em levanta-lhe mais ainda nas mini shirts. E as feministasmeio a toda essa efervescência permito-me extrair e americanas queimam os porta-seios. No quadro –relembrar aqui, acima da melée quantitativa, duas apesar de suas limitações já apontadas - procureicontribuições de Ab’Saber, pelo que elas encerraram registrar eventos datados, indicadores de mudançasde influência útil sobre a comunidade de geógrafos relevantes. A sobrecarga foi assinalada por uma réguanacionais. No contexto singelo da revista Orientação, vertical, destacando o qüinqüênio iniciador da grandeeditada pelo extinto Instituto de Geografia da USP, crise que atravessamos, vestíbulo da novaAb’Saber nos apresenta uma magistral síntese, em modernidade. Acompanhemos, no quadro, a mençãotexto e expressivo cartograma, rotulado Domínios dos eventos, seguindo de baixo para cima.Morfoclimáticos e Províncias Fitogeográficas do Se bem que numa convergência de idéias deBrasil (Ab’Saber,1967). Sua difusão foi considerável, alguns cientistas (Cordoni, 1968), a novidade dasendo o referido cartograma reproduzido (quase Tectônica de Placas surgiu em torno de 1968, tendosempre sem menção do autor) por livros didáticos e em vista as contribuições de Morgan (1968), Lê 12
  13. 13. Monteiro, C. A. de F. / Revista de Geomorfologia, volume 2, nº 1 (2001) 1-20Pichon (1968) e Isacks, Oliver e Sykes (1968) que mento que, junto aquele brilhante momento do inícioveio trazer nova interpretação à teoria de Wegener do século, mais aquele outro induzido pelo esforço(l915). Neste mesmo 1968, numa outra curiosa dirigido à segunda guerra mundial, têm se conduzido,convergência, surgiram na França, com Bertrand, e na sem solução de continuidade, ao longo de todo o sé-então URSS, com Sotchava a proposta integrativa do culo XX. O espaço disponível no quadro seria insu-novo paradigma dos Geossistemas. De importância ficiente a registrar estas importantes aquisições, dentrefundamental para a Geografia, desde que preconizada as quais eu procurei inteirar-me e registrá-las emcom tentativa de uma Geografia Física Global, esta minha obra de despedida da pesquisa climatológica,proposta visou, desde o início, um esforço de antro- intitulada Clima e Excepcionalismo: conjecturas so-pização do sistema. Ao longo de trinta anos, grandes bre o desempenho da atmosfera como fenômenopassos foram dados nessa tentativa de referencial geográfico. Em seu capítulo IV insistira em que sãoteórico para uma análise integrada do complexo geo- enriquecimentos fundamentais no desvelamento de sis-gráfico, sem que se possa considerá-la com meta temas de alta complexidade, de novas geometriasplenamente alcançada. Abstenho-me de alongar-me (fractais) até a Teoria do Caos. Difícil de registrarsobre este tópico porquanto já dei o meu testemunho estas obras no quadro as apresento nas referênciassobre esta busca no meu trabalho entitulado bibliográfico, assinaladas por um asterístico.Geossistemas: a estória de uma procura (Monteiro, Insistindo ainda em 1968, lembro a realização2000). Ainda em 1968 deu-se um fato, altamente do Simpósio realizado em Paris, pela UNESCO, sobresignificativo para o andamento da Geografia no Brasil. os problemas ambientais, evento este que prenuncia aInfelizmente trata-se de um registro negativo posto que Conferência de Estocolmo, em 1972, que será o le-evidencia o declínio de importância da Geografia no gítimo marco da eclosão da Questão Ambiental, umaIBGE. Já transmudado em uma Fundação, a Geografia das facetas importantes na nossa atual crise. Também,no IBGE, embora aparentemente revigorada pela 1968 é o ano que registrou a rebelião dos jovens fran-adesão às técnicas quantitativas e à moda da ceses na turbulenta Primavera de Paris, da qual resul-teoretização - proclamada oficialmente para todo o taria a reformulação da estrutura universitária francesa,país na realização de uma conferencia especial inclusive fragmentando a tradicional Sorbonne, em(CONFEGE,1969), os geógrafos daquele quadro insti- várias unidades.tucional foram, paulatinamente, declinando em prestí- Para nós, no Brasil, 1968 foi o ano de implan-gio. Isto se comprova quando registramos que a antiga tação do Ato Institucional nº.5 enquanto, para mim,tarefa de elaborar a divisão regional passa a ser tarefa pessoalmente foi o ano de meu ingresso na Univer-transferida aos economistas do Instituto de Pesquisas sidade de São Paulo, em seguida a obtenção de meuEconômicas Aplicadas (IPEA). Os geógrafos da Di- título de doutor, no ano anterior. Ali, concomitante-visão de Geografia do IBGE limitaram-se a elaboração mente na docência junto ao Departamento e na pes-de um considerável acervo de cartogramas, agluti- quisa no Laboratório de Climatologia do IGEOG-USP,nados na obra Subsídios à Regionalização (IBGE, nos vinte anos seguintes, iria continuar a perseguir1969), oferecida, aos economistas. Continuava, assim, uma melhoria nos estudos climatológicos, a partir daa ascensão da Economia, principiada no meio do base iniciada em Florianópolis e nas conquistas alcan-século. Os estudos geográficos, visando a regiona- çadas em Rio Claro. Em 1972, consoante a reformu-lização perseguiam a definição de micro regiões lação nos cursos de Pós-Graduação eu introduzia ahomogêneas e o estudo de Redes Urbanas, agora disciplina Introdução à Climatologia Urbana, consubs-subordinadas a técnicas quantitativas, sobretudo aque- tanciada pela proposta teórica (Monteiro, 1976) quela da análise fatorial. O conteúdo da Revista Brasileira estaria fadada a um acolhimento entre nulo e lento,de Geografia, desta época, é essencialmente teorético- para revelar-se e colher os seus primeiros frutos nosquantitativo, assinalando o princípio de decadência anos noventa.daquela prestimosa publicação. Mas a revolução em Retornando ao ponto de mutação, e como pro-foco foi acontecimento de temporalidade seqüencial vável marco delimitador no qüinqüênio em pauta,que, neste quadro, ficará marcado pelo evento CON- deve-se registrar a crise dos combustíveis, desencade-FEGE. ada pelos árabes do petróleo em 1973. A partir daí, Outro movimento importante, coincidente prosseguimos nas convulsões da grande crise históricacom este período de cinco anos, mas não se restrin- que atravessamos e que, muito provavelmente penetra-gindo a seus limites, foi aquele de um extraordinário rá pelo princípio do século entrante. Penetramos, as-avanço na Ciência. Curiosamente, enquanto se exalta- sim, num passado mais recente que, por tão próximo eva a imperiosa necessidade de matematização e afir- tão tumultuado, dificulta o discernimento para extrairmação em leis universais, aconteciam importantes as relevâncias e obscurece o horizonte projetivo, Con-pesquisas que traziam dúvidas – mas sobretudo novas tudo, atrevo-me à ousadia de apontar, ainda, algunsperspectivas – sobre o que a revolução insistia. Estas fatos brasileiros que me parecem aflorar. Lembraria aimportantes inovações constituem um terceiro mo- atuação, a partir de 1973, do Projeto RADAM, 13
  14. 14. Monteiro, C. A. de F. / Revista de Geomorfologia, volume 2, nº 1 (2001) 1-20planejado inicialmente para a Amazônia e posterior- culpa, esta facção ajudou muito o crescente afas-mente ampliado para o território nacional. Além dos tamento que já se vinha produzindo entre Geografiabenefícios trazidos na revelação de riquezas minerais e Humana e Física entre nós. A crescente pressão internaaprimoramento ao sistema cartográfico, aquele projeto nos Departamentos de Geografia das nossas univer-desempenharia um relevante papel na formação de sidades para, nas revisões curriculares, diminuir aspessoal tanto nas técnicas de análise das imagens, em disciplinas naturais em proveito das sociais, aliou-segabinete, quanto nas observações diretas em sobrevôos outra discriminação, das comunicações de Geografiade controle e pesquisa de campo. Neste particular, Física no temário dos encontros da AGB. Disto resul-dentre outras especialidades, foi marcante o número de tou uma natural resposta na criação dos Seminários detécnicos no campo da Geomorfologia. Até seus fins, Geografia Física Aplicada, inaugurado na primeira se-ao término dos anos oitenta, seja pela documentação mana de dezembro de l984, em Rio Claro e sobre ogerada para o CPRN – um acervo inestimável – seja que já tratei num artigo para a revista francesapela formação de pessoal, incorporado aos quadros do L’Espace Géographique (Monteiro, l989). O aumentoIBGE (Setor de Recursos Naturais) e disperso por vá- considerável de participantes e o interesse crescente,rias universidades, órgãos de pesquisa, públicos e par- desembocaram no desdobramento dos simpósios deticulares, aquele projeto desempenhou relevante papel Climatologia Geográfica e este próprio de Geomor-no enriquecimento de informação para a Geografia do fologia, igualmente realizados a cada dois anos.Brasil. Enquanto atravessamos a crise, da qual so- Outro fato merecedor de registro parece-me bressai uma preocupação econômica marcada por umaquele, ocorrido em 1974, que assinala a edição dos ambíguo neo-liberalismo onde o capitalismo, após oprimeiros manuais de Geomorfologia, em nosso país, malogro das tentativas comunistas com o desmonte daambos provenientes de Rio Claro, de seus docentes URSS e das Repúblicas Populares da Europa Central,Antonio Christofoletti e Margarida Penteado Orellana. persegue uma globalização conduzida pelo mercado;Neste setor didático não deve ser esquecida a cola- onde a aproximação produzida nas comunicações pelaboração pioneira de Antonio Teixeira Guerra com o tecnologia eletrônica acentua a separação entre osseu Dicionário de Geomorfologia. Principiada desde países ricos –o fechado clube dos sete – e os pouco1949, após o retorno daquele colega dos seus estudos remediados cercados por maioria de pobres ena França, esta obra seria editada pelo IBGE, nos anos miseráveis, parece estar havendo - pelo menos nosessenta, em sucessivas edições, que prestaram grande escopo da Geografia – uma saturação com este deter-serviço aos estudantes de Geografia universitários. minismo econômico. Passando pela experiência de Entre o dicionário e os primeiros manuais uma Geografia da Percepção, emerge uma Geografiapode-se registrar, também, as seguintes obras auxi- Humanística, da qual, ao lado das relações com aliares à Geomorfologia. Em 1964 o IBGE edita uma Literatura, emerge também uma nova onda decoletânea de fotos, rotulada Exercícios e Pratica de Geografia Cultural, que se vêm firmando entre nós noGeomorfologia, com legendas organizadas pelos Geó- Brasil. Também desponta uma preocupação emgrafos da Divisão de Geografia: Antônio Teixeira focalizar em diferentes atividades humanas, uma abor-Guerra, Alfredo José Porto Rodrigues, Carlos de dagem dirigida às diferenças de gênero, transposta daCastro Botelho, Gelson Rangel de Lima e Jorge Xavier antropologia para o contexto gráfico. É até muitoda Silva. Em 1973, o IBGE lançava outra coletânea de sintomático, e mesmo esclarecedor que, em meio afotos, comentários organizados por Celeste Rodrigues este turbilhão de mudanças, a medida que surgemMaio, rotulada Geomorfologia do Brasil. tendências novas, voltadas ao futuro, ressurgem tam- Desde a reformulação estatutária de 1970, bém antigas preocupações de revivals, o que convergepassando a assembléias gerais de dois em dois anos, a para aquela concepção de um tempo espesso ou tríbio,AGB via-se acrescida de enorme número de asso- na fusão de passado, presente e futuro.ciados, predominantemente estudantes universitários, Neste contexto a Geomorfologia que se faz noo que implicará num novo período na vida daquela Brasil, beneficiada pela preocupação com a dinâmicaentidade. Em 1978, a assembléia geral realizada em processual, pela aliança com a Pedologia e GeologiaFortaleza foi sede de um sério conflito que iria inau- no denominador comum do quaternarismo – para ogurar uma nova fase na AGB. Dentre aquele tumulto, que a filiação ao IBEQUA (1986) é um indicadorde várias implicações, pode-se destacar que aquele temporal – encontra-se hoje numa fase muito promis-evento assinalou, de modo bem claro, a forte reação ao sora, do que a realização deste Simpósio, do seu temá-movimento teorético-quantitativo, e o desencadeamen- rio e do conjunto das atividades programadas, é umto, entre nós, da revolução crítico-radical sob forte expressivo comprovante.influência dos marxismos. De certo modo, uma reper- Tenho em minha frente um auditório especialcussão nativa do que nos vinha do hemisfério norte, onde estão reunidas expressivas figuras da produçãodivulgado, sobretudo, pelas revistas. Hérodote e geomorfológica deste país – geógrafos e especialistasAntipode. Sem que lhe possa ser imputada toda a das ciências afins – pelo que me eximo de qualquer 14
  15. 15. Monteiro, C. A. de F. / Revista de Geomorfologia, volume 2, nº 1 (2001) 1-20preocupação de especular sobre o caráter atual. Geografia Física desacredita tal opinião. Em visita aoReservo-me apenas para, na terceira e última parte meu antigo Departamento na USP constatei que, nodesta palestra, acrescentar as minhas impressões. E ano anterior, as dissertações e teses ali produzidas emestas serão realmente impressões de alguém que, fora Humana e Física estavam em número equivalente.da militância ativa da prática geográfica, tem fruído de Enquanto eu ouvira, no Seminário “Geografiaparticipar de assembléias geográficas várias, nestes 2001”, realizado em setembro de 1999, na Univer-três últimos anos, após o retorno de uma estada de dois sidade Federal de Sergipe, em Aracajú, assertivas deanos no Japão (1995-1997). que a questão ambiental era uma falsa questão na Geografia, eu constatava que a vigência daquela4. DO MEADO DO SÉCULO AO SEU FINAL questão estava desempenhando um importante papel(Unidade ou Desintegração na Geografia? ) em integrar nas pesquisas de Geografia Física, já que, em muitos casos, os trabalhos apresentados revelavam Fosse pelas mudanças ocorridas na AGB e um nítido direcionamento às componentes humanas.suas assembléias, fosse pelo meu enredamento com E, agora mesmo, este Simpósio de Geomorfologia, nãocomissões da UGI – Environmental Problems (1976 - deixa duvidas sobre isto. Como atenuante a esse1984) e Geographical Monitoring and Forecast indesejável afastamento constatou-se que, a própria(1985-1988) mantive-me ausente dos fóruns geográ- reunião da AGB, realizada no próximo passado agosto,ficos nacionais. No ano de 1988, após minha aposen- em Florianópolis, sob a Presidência de Carlos Waltertadoria na USP, na reunião comissional em Canberra, Gonçalves, procurou imprimir um cunho de aproxi-antecedente ao Congresso da UGI, em Sidney, encerrei mação, tanto na composição do temário quanto pelominha participação nos eventos geográficos interna- fato de que a conferência de abertura, foi proferidacionais. Nos dez anos seguintes dediquei-me a escre- pelo nosso colega Ab’Saber. Estes são fatos muito aus-ver uma obra sobre a minha memória familiar no Piauí piciosos que me dão novo alento. E será no sentido de(1850-1950); e colaborações avulsas em Cursos de contribuir para um maior entrosamento na comunidadePós-Graduação (UFSC e UFMG) e num Curso de nacional de geógrafos que eu me esforçarei, no fechoEstudos Brasileiros na Universidade de Tenri, dessa nossa conversa, para advogar pela causa daProvíncia de Nara, no Japão (1995-1997). unidade na Geografia. Unidade esta que – como em Ao retornar do Japão, em março de 1997, toda unidade não implica em uniformidade, desde quepassei a receber convites e a comparecer a algumas a diversidade é caráter inerente tanto à Naturezareuniões. Minha ida ao Seminário de Geografia Física quanto às Sociedades Humanas.Aplicada, em Curitiba (1997) e aquele de Climatologia A mim, parece-me muito estranho que, en-Geográfica, em Salvador (1998), foram gratificantes. quanto tudo leva a crer que a Ciência, em nossos dias,Eles mostraram-me, pelo temário, pelo elevado núme- assume uma atitude menos pretensiosa e quando sero de participantes (superior a 300) e pela qualidade propugna elaborar um novo conhecimento (episteme)das comunicações e debates, que o interesse pela mais conjuntivo, que a Geografia – que tinha nesseGeografia Física era entusiasmante. Naquele de Clima- atributo um dos seus grandes trunfos, inclusive comotologia, em Salvador, tive a grata surpresa de encontrar veículo de educação – queira desfazer-se dele justo38 comunicações sobre a temática Climas Urbanos, agora. Na hipótese de uma inevitável separaçãodiscutidas em quatro sessões de trabalho, por colegas geradora de uma Geografia “Ciência Social” e outrade diferentes regiões brasileiras. Até então eu vinha “Ciência da Terra” não teria dúvidas de que esta se-sentindo um certo desalento por constatar que minha gunda, seria sempre, e cada vez mais, antropocêntricacontribuição naquele setor, incluindo o credenciamen- já que o Homem não é, meramente, um paciente, masto de uma disciplina de Pós-Graduação na USP e uma importante agente na organização dos espaços,proposta teórica (Monteiro,1976) não frutificara. Dei- sobretudo naqueles espaços concretos, euclidianos, dome conta, então, que a coletânea de artigos consagrada viés das paisagens ou geossistemas.àquela temática, no número 9 da revista GEOSUL, da Meu querido colega, e grande amigo, ArmenUFSC, tinha conseguido, efetivamente, motivar a nova Mamigonian, não faz muito tempo (Mamigonian,geração de nossos geógrafos. 1996), ao comentar tal conflito, advertiu que : A consulta aos periódicos geográficos – con-sideravelmente aumentados - revelava-me que na ver- Por isso, quando alguns propõem a inversãotente da Geografia Humana, a ênfase no social se da relação Geografia Física / Geografiaacentuara ainda mais, o que é compreensível e louvá- Humana, visto que na geografia tradicional osvel a não ser quando se depara com assertivas do tipo fenômenos humanos eram subordinados àjá que a natureza está suficientemente conhecida e sob base natural e, nessa inversão proposta, ocontrole, a Geografia hodierna tem que privilegiar o natural é reduzido a recursos econômicossocial. Uma estranhíssima opinião, sobretudo para o (matérias primas, etc.), a Geografia Física,caso brasileiro. Felizmente a própria produção em armada do paradigma geossistema, continua 15
  16. 16. Monteiro, C. A. de F. / Revista de Geomorfologia, volume 2, nº 1 (2001) 1-20 suas pesquisas, indiferente a esse reducionis- um cartograma da distribuição funcional urbana para mo empobrecedor e realiza mais progressos definir toda a complexidade de vida de uma cidade. do que a Geografia Humana, pois se existem, Ainda em proveito da apreciação de uma por interferência humana, a chuva ácida ou visão unitária, integradora, na Geografia, permito-me os buracos na camada de ozônio, as massas retomar o dualismo idiográfico-nomotético assinalado de ar continuam deslocando-se, os vulcões por Scheffer em sua crítica à Geografia do meio do não precisam pedir autorização dos governos século XX. Indagaria se a visão nomotética da da Nova Zelândia ou da Colômbia e nem os economia capitalista, dita neo-liberal da atual decanta- terremotos aos poderosos governos dos da globalização dispensaria aquela outra, idiográfica E.U.A. ou do Japão etc., etc. Afinal está na da realidade dos graus de desenvolvimento nacionais hora de se perceber, com humildade, que dos países pobres. Aqui também neste caso, os foros existem leis naturais e leis sociais, indepen- de normalidade caberiam aos centros hegemônicos dentemente da vontade dos indivíduos. (Clube dos Sete) que se arrogam ao direito de impor (Armem Mamigonian: A Geografia e a um modelo econômico à maioria absoluta de países Formação Social como Teoria e como remediados, pobres ou miseráveis, tidos como Método). acidentais excepcionalidades. Outra das descabidas críticas de Schaefer à Eu não saberia dizer se a Geografia Física faz Geografia é aquela de que o excepcionalismo geo-mais progressos que a Geografia Humana. Mas, não gráfico tem suas raízes no idealismo de Kant (1756)duvido de que esta tem mais aceitação, por vários consubstanciado no romantismo literário da cosmolo-motivos, mas, sobretudo pela pretensão humana – gia de Humboldt (1845). Bendita subjetividade artís-mormente na civilização judaico-cristã – em arrogar-se tica esta que concede ao Homem o privilégio de sentirao direito de veto sobre a natureza e, mais ainda, pelo o Mundo. Mundo que é sua própria marca edificatóriaque Nietzsche apontou, na “hiperbólica ingenuidade (ação sócio-econômica-técnica) sobre o planeta Terra,do homem: colocar a si mesmo como sentido e medida ou globo terrestre, projetado na amplidão do Sistemade valor das coisas” (Sobre o Niilismo, parágrafo 12: Solar, numa das inúmeras galáxias do universo. Daí oQueda dos Valores Cosmológicos). termo globalização (no artefato físico Terra) não dever Não me alimenta nenhuma rivalidade. Embo- ser sinônimo ou equivalente a mundialização (cons-ra seja tido como fato já consumado que, nos centros truto técnico cultural materializado pelo Homem nohegemônicos do saber e do poder mundial Geografia globo terrestre). A falta de sintonia entre o construtoFísica e Geografia Humana já se tenham apartado, humano sobre o globo terrestre (ou melhor, à suaseria uma pena que isso viesse a acontecer no Brasil. superfície) é que emerge a séria questão ambiental.Meu apelo pela unidade repousa no fato de que a Ressalta daí que a semântica de ambiente deve ligar-seGeografia tem seu maior encanto naquilo que ela construído, derivadamente, da primitiva natureza peloencerra não como ciência analítica mas pelo que Homem.acrescenta à compreensão filosófica. Mesmo pelo seu É necessário que, assim como as concepçõeslado Ciência, envolvida com leis naturais e sociais, de tempo e espaço são a priori à condição humana anão faltam estratégias lógicas no confronto de fatos relação Homem-Natureza, como preconizou Bergson,das mais diversas categorias. Veja-se, por exemplo, é algo que se coloca no plano transcendental. A esteque em fatos tão diversos quanto umidade relativa propósito assinalo que, no momento atual, parece(fato físico na atmosfera), perfil de equilíbrio (fato haver um revival da filosofia de Bergson, pelo menoshidrodinâmico fluvial na litosfera) e mais valia (fato na França, onde a tese de nosso filósofo Bento deeconômico na economia das sociedades capitalistas) Almeida Prado, intitulada “Presença e Campopermitem aspirar-se a uma quantificação que lhes con- Transcental”, defendida na USP em 1964, está sendofira foros de concretude à sua condição conceitual ali traduzida e editada.puramente abstrata. Este esforço de sintonia ou apa-rentamento de atributos, ou elementos discretos, Como nos aconselhou Nietzsche, mesmo o homemtambém se pode projetar, ampliadamente, para con- mais racional precisa outra vez, de tempo em tempo,cepções mais complexas, de síntese, como clima, da natureza, isto é, de sua postura fundamental ilógicarelevo, economia. Assim, por exemplo, parece-me diante de todas as coisas (Humano, Demasiadoabsolutamente equivalente a falta de lógica em Humano, parágrafo 31: O Ilógico Necessário). Econsiderar-se erosão normal na gênese dos relevos notemos, com o devido orgulho, a posição em que equanto o estado médio dos elementos atmosféricos companhia de quem aquele filósofo, ao analisar onaquela do clima. Não sei se exorbitaria em estender o paganismo grego e seu papel na organização doraciocínio sobre as limitações de PIB ou renda per Estado, coloca o geógrafo:capita para caracterizar plenamente uma economia ou 16

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