Sophie weston o guerrilheiro das montanhas

1.091 visualizações

Publicada em

0 comentários
1 gostou
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
1.091
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
1
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
12
Comentários
0
Gostaram
1
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Sophie weston o guerrilheiro das montanhas

  1. 1. O GUERRILHEIRO DAS MONTANHAS Beyond ransom Sophie WestonA consciência de Roberta foi voltando aos poucos, fazendo-a compreendersua terrível situação: havia sido sequestrada naquele pequeno país daAmérica Central! De repente, ouviu vozes a logo depois a porta se abriu.Ao reconhecer seu raptor, Roberta começou a tremer. Tratava-se dohomem misterioso com quem havia dançado numa festa ali, em Oaxacam.Agora podia conhecer sua verdadeira identidade: aquele era RafaelMadariaga, o líder dos revolucionários que queriam derrubar o governomilitar de seu país!
  2. 2. Copyright: Sophie Weston Título original: Beyond RansomPublicado originalmente em 1986 pela Mills & Boon Ltd., Londres, Inglaterra Tradução: Fernando Simão Vugman Copyright para a língua portuguesa: 1987 EDITORA NOVA CULTURAL LTDA. Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 — 3.º andar CEP 01452 — São Paulo — SP — Brasil Esta obra foi composta na Artestilo Ltda. e impressa na Artes Gráficas Guaru S/A. Foto da capa: Keystone 2
  3. 3. CAPÍTULO I Incomodada, Roberta Lennox observou que o volume da músicatinha aumentado ainda mais depois de encerrado o espetáculo de dançana boate. Com discrição, consultou o relógio. Nem meia-noite ainda! Percebendo sua inquietação, Larry Davidson se aproximou. — Quer ir embora? — perguntou em voz baixa. Por um instante Roberta sentiu-se tentada a aceitar a sugestão.Havia tido um dia terrível. Passara a manhã toda negociando, usando cadagota de sua apreciável capacidade de argumentação para chegar ao fimdo dia com a sensação de que se esgotara em vão. Estava cansada, comuma dor de cabeça começando a incomodá-la e sentindo a alegriaartificial da mais cara boate da cidade exercer um efeito depressivosobre seu estado de espírito. Mas isso fazia parte do seu trabalho, e, até o presidente deOaxacan[1] se definir claramente sobre o contrato com a TechnicaAssociates, não sairia dali. Esboçou um sorriso a Larry. — Não, eu agüento — disse. — Não deixa de ser uma experiênciainteressante. Ele deu de ombros. — Se você diz... Larry tinha um ar entediado. Ao contrário de Roberta, possuíavasta experiência na América Central, e por isso fora designado para serseu assistente naquela missão. Falava com fluência o castelhano, emboramesmo Roberta pudesse detectar um leve sotaque de Milwaukee. E ele équem havia descoberto que aquele era o lugar onde representantes do 3
  4. 4. Ministério das Finanças esperavam ser levados para resolver negócioscom estrangeiros. “Eu devia estar grata a ele”, Roberta pensou, acomodando-se na cadeiraforrada de veludo. “Pelo menos nossos convidados parecem estar se divertindo.”[1] Nota do editor: Oaxacan é um país fictício. Todos os personagens são imaginários. Lançavam-se com volúpia sobre as comidas finas e consumiam sem parar ouísque importado, fartamente distribuído por belas garotas com sorrisos bemtreinados e roupas provocantes. No começo, os representantes do ministério tinhamficado constrangidos com a presença de Roberta. Mas, diante de sua posturaimperturbável e sob o efeito dos primeiros copos de bebida, já se mostravam maisrelaxados. Agora conversavam animadamente com as garotas como se a anfitriãfosse, afinal, um homem, como haviam imaginado a princípio. Larry também julgara que Roberta criaria problemas num programacomo aquele, tipicamente masculino, e não havia escondido sua opinião.Ela, no entanto, não vacilara. Além de autorizar uma quantia substancialpara despesas de entretenimento, fizera questão de ser ela mesma aanfitriã. O assistente ainda tinha argumentado, dizendo que iria seaborrecer, e agora Roberta admitia que o rapaz estava com a razão. No entanto, não era a presença das garçonetes em seus trajesdiminutos que a constrangia. Chegava até a nutrir um certo sentimentode camaradagem por elas. A qualquer momento, teria também de aceitaro convite de algum dos seus “alegres” convidados para dançar. Foi quando se dirigia para a pista de dança com o porta-voz doministério que teve a nítida sensação de estar sendo observada. Olhoupara trás num movimento involuntário. E então localizou o homem. Estava de pé junto da cortina de veludoque encobria a entrada. Vestia um elegante smoking, como a maioria doshomens do salão, e acabava de dar um finíssimo casaco para a 4
  5. 5. recepcionista guardar. Tinha interrompido a seqüência de movimentospara tirar as luvas, para estudá-la com olhos mais atentos. Espantada, Roberta estacou. Percebeu que ele a examinava de altoa baixo, parecendo revelar um certo desprezo, mas também algum outrosentimento... O que seria? Sim, seu olhar comparava-se ao de um velhoprofessor universitário que tivera, ao observar um inseto ao microscópio;ao mesmo tempo que sentia fascínio tinha repugnância. Isso. Aquelehomem a olhava admirado, embora a contragosto. Esquecida dos que a cercavam, ela fitou o desconhecido. Ele eraalto, uns dez centímetros mais alto do que seus outros trêsacompanhantes; possuía o corpo musculoso e atlético, e seu rosto erasem dúvida seu ponto mais marcante. Na meia-luz da boate, Roberta nãopodia distinguir os detalhes, mas estava claro o bastante para quepudesse notar sua tez morena, o nariz fino e reto, o queixo quadrado edecidido e a boca firme. Os olhos, embora não lhe fosse possíveldistinguir a cor, eram argutos como os de um falcão. O acompanhante de Roberta percebeu sua reação e seguiu- lhe adireção do olhar. — Ah, Don Rafael está aqui — ele comentou num tom estranho. —Você o conhece, Señorita? — Não — ela disse devagar, imaginando se dizia a verdade. Não conseguia lembrar-se dele, mas ele a olhava com talintensidade que talvez já se conhecessem. Mas aquele não era o tipo dehomem que se conhece e se esquece depois. — Señor Rafael Madariaga é advogado... um advogado muito rico ebem-sucedido. Presta muitos serviços para empresas internacionais. Temcerteza de que não o conhece? 5
  6. 6. Ela balançou a cabeça. — Nem mesmo ouvi falar em seu nome. — Não? — o outro perguntou, entre surpreso e aliviado. — Ah, bem,existem outros advogados, afinal, e Don Rafael possui... — ele hesitou —interesses mais audaciosos hoje em dia. Pelo menos é o que dizem. Ela deixou que seu acompanhante a conduzisse para o centro dapista de dança e não pôde mais ver o homem que de forma tão estranha eintensa havia despertado sua atenção. Por mais absurdo que fosse,lamentou perder o estranho de vista... Devia ser resultado da música tão alta, disse a si mesma. Ou dasemi-obscuridade do ambiente. As duas coisas combinadas exerciam umefeito desorientador. Era a única justificativa para a sua exageradaperturbação. Enquanto isso, o porta-voz se esforçava ao máximo para manteruma conversa educada. — Esta é sua primeira visita a Alto Rio, Señorita? — Sim. — Espero que durante sua estada aqui tenha tido a chance deconhecer um pouco do meu país. — Muito pouco, receio. Larry e eu realmente não tivemos tempopara fazer turismo. — De fato, o turismo é muito restrito em Oaxacan. Para nós, essaainda é uma atividade pouco explorada. E há o problema da altitude; comoa região é montanhosa, muitos dos estrangeiros que vêm nos visitarpassam muito mal nos primeiros dias. 6
  7. 7. — Foi o que ouvi falar. Me considero uma pessoa de sorte; tenho mesentido muito bem. O homem se mostrou surpreso. — Ah, aqui em Rio Alto a altitude é baixa, Señorita. Mal chega aostrês mil metros. É no interior que atinge até seis mil metros. Claro queessas regiões são as mais interessantes, onde se encontram ruínas eartesanato da era pré-colonial. — Fez um muxoxo. — Pena que turistassintam-se mal e não possam desfrutar muito desses passeios. — Realmente — Roberta foi respondendo sem prestar muitaatenção quando, após um rodopio, voltou a ver o estranho que lhe haviacausado tão profunda impressão. Ele continuava junto da entrada, a fitá-la. O garçom havia se afastado, seguido dos três acompanhantes deDon Rafael, de modo que ele estava agora sozinho, avaliando-a com arespeculativo. Ela não gostou de sua expressão e levantou o queixo,desafiadora. Os olhos de ambos se encontraram outra vez, e por um breveinstante ele pareceu despertar de um devaneio, reagindo com embaraço.Mas logo se recobrou, e enquanto ela se virava ao som da músicaestridente, ele seguiu seus companheiros, sem nunca perdê-la de vista. Roberta sentiu um calafrio. Engoliu em seco, surpresa com a própriareação diante de alguém que via pela primeira vez. E então, como quepara exibir coragem, sorriu em resposta ao meio-sorriso que eleguardava nos lábios. Era um desafio; procurava assim forçá-lo adisfarçar, fingindo que não a estivera observando aquele tempo todo. Mas se ela esperava desconcertá-lo com sua atitude franca,desapontou-se. Por um instante Don Rafael ergueu as finas sobrancelhas,em espanto, mas em seguida reassumiu uma expressão de autoconfiança. 7
  8. 8. Sem perder a pose, curvou-se de modo discreto e elegante, à guisa decumprimento. Ela corou, e ele sorriu com malícia, sugerindo uma perturbadoraintimidade. Em seguida virou-se para ir se juntar a seus amigos. O porta-voz do ministério não havia deixado de perceber a discretatroca de olhares, embora não notasse o profundo efeito causado em suaanfitriã. — Parece que Don Rafael a conhece, Señorita — comentou sem jeito.— Ou, pelo menos, espera conhecer. Roberta recuperou o autocontrole com esforço. — Bobagem! Deve ter me confundido com alguma outra pessoa. Estátão pouco iluminado aqui que isso não deve ser difícil de acontecer. — Elaretomou decidida o assunto do artesanato e das ruínas pré-coloniais deOaxacan. À mesa, Larry discutia futebol americano com outro convidado, oqual não se esforçava para disfarçar seu tédio. Por cima do ombro deLarry, lançava olhares melosos para uma garota vestida no que pareciaser um maiô de lamê e que vendia cigarros e balas. Larry, que não fumava,não tinha reparado nem na moça nem na falta de atenção de seuinterlocutor. Roberta estava se sentando, de volta à mesa, quando ouviu o porta-voz dizer no seu castelhano carregado, típico daquela região: — Madariaga está aqui. Procurando por alguém, eu diria. O outro funcionário do ministério se mostrou alarmado. — Quem? Não nós? 8
  9. 9. Roberta baixou os olhos para ocultar seu interesse. Tinha achadouma boa tática não revelar aos seus clientes em potencial o seu domíniodo castelhano e incumbira Larry da maior parte das conversas nessalíngua. Isso deixava-os mais à vontade para falarem entre si, seguros deque ela não compreenderia mais do que algumas palavras soltas. Larry logo notou a conversa meio sussurrada entre os dois. — Você viu algum conhecido? — perguntou ao homem a seu lado. — Oh, em Alto Rio é impossível não se encontrar algum conhecido —o porta-voz apressou-se a responder, em socorro ao colega. — Não écomo em Nova York, onde todos parecem estranhos. Aqui se vê pessoasconhecidas em cada esquina. Ali, por exemplo... — e começou a apontarcelebridades, numa evidente tentativa de mostrar despreocupação. Roberta e seu assistente ouviram com atenção, e ela ia gravando namente os vários nomes que ia ouvindo. Afinal, se aquela missão comercialfracassasse, nada indicava que no futuro não se pudesse voltar aOaxacan com novos projetos para outros clientes. Seria útil conhecerpessoas de quem deveria se aproximar. Mesmo assim, ela teve a nítida impressão de que seus convidadosfalavam ao acaso, como se procurassem desviá-los do assunto que haviaoriginado a conversa. O nome de Madariaga não foi mais mencionado. Mas o misterioso personagem ainda estava na boate, junto a umamesa não muito distante. Como Roberta pôde verificar, atrás da mesa seerguia uma graciosa palmeira, próxima do palco erguido para a orquestra.O homem se fazia acompanhar de dois outros e de uma mulher deestonteante beleza, mas que exibia uma expressão do mais puro tédio. Aloira usava um vestido justo, de seda reluzente, e tanto ela quanto ovestido pareciam ter vindo direto de Paris. Apenas um dos homens estava falando, e falava sem parar, 9
  10. 10. gesticulando com exagero como que para enfatizar suas idéias.Madariaga permanecia impassível. Roberta observou-lhe o perfil e aexpressão arrogante e considerou que, se estivesse no lugar do tagarela,já teria se intimidado com o silêncio. O terceiro homem fumavanervosamente, acendendo um cigarro após o outro. De vez em quandofazia algum comentário curto, no que não era ouvido por ninguém. Seuolhar vagava de Madariaga ao homem que não cessava de falar. As luzes escureceram ainda mais. O disc jockey desligou aaparelhagem e abandonou sua cabina sob fracos aplausos. A pequenabanda retomou seu lugar no palco e começou a tocar um samba,surpreendentemente bem. — Ah! — os funcionários do ministério se endireitaram em suascadeiras, em franca expectativa. O mais jovem sussurrou entre osdentes: — É por isso que Madariaga está aqui! — Florita! — o outro disse, incrédulo. — Você pode estar certo,mas... Um foco de luz verde foi lançado no pequeno palco, enquanto umcenário era montado atrás. Na escuridão, um murmúrio de expectativapercorreu as mesas. — O que está acontecendo? — Roberta quis saber. Foi o funcionário mais velho quem respondeu: — Florita vai dançar. Ela é muito famosa. Às vezes dança aqui,quando está no país. Vive viajando pelo mundo — deu de ombros. — Émuito temperamental, por isso nunca anunciam o seu espetáculo comantecedência, para o caso de ela resolver não aparecer — seu tom setornou cínico. — É um raro privilégio vê-la dançar. Se o Señor Madariaga 10
  11. 11. não estivesse aqui, duvido muito que teríamos essa honra. Mas uma pausa da banda o fez calar-se, pois logo a platéia explodiuem aplausos, com a entrada em cena da famosa bailarina. A primeira impressão de Roberta foi de que Florita era muitobonita, com um corpo esbelto e bem esculpido, a pele morena de sol e oscabelos castanhos com brilhos dourados sob a luz dos refletores. Asegunda impressão foi que, apesar de dançar com movimentos graciosos eperfeitos, parecia preocupada com algo. Larry inclinou-se para a frente: — Ela não é fantástica? — perguntou, deixando transparecer umentusiasmo quase pueril que contrastava com a imagem de um madurohomem de negócios. — Bonita — Roberta concordou, enquanto a bailarina se curvava emagradecimento e se preparava para um novo número. Cada vez maisintrigada, ela reparou que Florita lançava um olhar ansioso para a mesade Don Rafael. Mas talvez fosse só uma impressão. De qualquer modo,pressentia algo estranho no ar envolvendo aquele homem. Algo que, demodo inexplicável, achava ameaçar a ela e a Larry. Florita abandonou o palco e pôs-se a executar um númeropasseando entre as mesas. Roberta tratou de concentrar-se noespetáculo, procurando tranqüilizar-se com o pensamento de que namanhã seguinte estaria num avião, de volta a Nova York, provavelmentetendo falhado nas negociações com o presidente de Oaxacan, em nome daTechnica Associates. Aparentemente dançando ao acaso, Florita acabou se aproximandoda mesa de Madariaga, seguida pelo facho de luz. Ele também foiatingido pelo foco luminoso e mostrou-se aborrecido. De repente adançarina começou a rodear a vendedora de cigarros e, com um 11
  12. 12. movimento inesperado, alcançou um charuto, fazendo a garota rir, no quefoi seguida pela platéia. Com graça e sensualidade, desembrulhou ocharuto e passou pelo nariz de alguns homens sentados por perto, quefingiram aspirar fundo, apreciando o aroma. Em seguida, com as unhas,cortou uma das pontas, acompanhada pelo som agora discreto da melodiaque os músicos executavam. Nesse momento um braço foi estendido comum isqueiro aceso. Florita acendeu o charuto com longas e luxuriantesbaforadas. Avançou para o cavalheiro que lhe oferecera o isqueiro; agorao refletor o iluminava em cheio: Don Rafael Madariaga. Os dois seencararam. Roberta teve a sensação de que uma mensagem muda haviasido trocada entre ambos, mas não deu continuidade ao pensamento, poisa dança prosseguiu, com a bailarina oferecendo o charuto a ele, quetragou fundo e soltou uma baforada contra seu rosto. Florita, porém, não pareceu nem um pouco ofendida. Ao contrário,fez uma reverência indicando submissão e afastou-se de costas, compassos curtos e ágeis. Roberta podia jurar que a moça zombava dele, masnão saberia dizer por quê. A música se elevou mais uma vez, e Florita executou mais algunsmovimentos perto do palco. Então, de repente, Roberta percebeu que elavinha na direção de sua mesa. Por quê, se perguntava, ela sentia crescerdentro do peito aquela sensação de desastre iminente? Acostumada aseguir seus instintos, seu impulso foi de levantar-se e sair dali no mesmoinstante. Mas isso não seria possível naquele momento. Olhou em volta, eos três homens que a acompanhavam pareciam completamente absortos.Assim, tratou de relaxar e sorrir. Florita se aproximou e, sempre dançando, fez com que Larry selevantasse. A seguir, saltou para a cadeira que ele ocupava e, com outrobelo salto, para cima da mesa. Por alguns minutos executou uma série depassos rápidos e leves entre copos e garrafas, sem tocá-los. Então parou,fitando Larry sem sorrir. Era, naquela pose, uma fonte de sensualidade. 12
  13. 13. Com um gesto bem vagaroso, foi erguendo a saia, revelando milímetro amilímetro sua bem torneada perna. Quando já descobria metade da coxa,ouviu-se um estampido de revólver de brinquedo, e então as luzes seapagaram. Um riso de surpresa percorreu a platéia, seguido de aplausos.Roberta, porém, prendeu o fôlego, temendo de modo infantil que Larrytivesse desaparecido na escuridão. Mas, quando as luzes voltaram, ele continuava ali, sorrindo como umgaroto, enquanto Florita, já no chão e sem o foco de luz, parecia muitomenor do que segundos antes. Ela se curvou em agradecimento aosaplausos, mas logo sentou-se numa cadeira junto da de Larry, enquanto aorquestra começava a tocar música para dançar. — Espero que não se importe — disse para Larry, desculpando-senum tom agradável e bem nova-iorquino. — Era um número novo e euprecisava testá-lo com alguém que não tentasse me agarrar. Roberta ficou curiosa: — É a primeira vez que faz esse número? A outra assentiu. — Sim, toda a “dança espanhola” é novidade — respondeu comironia. — Você não gosta? — Larry perguntou. — O quê? Criar suspense e desaparecer no escuro, com um tiro depólvora seca? Grande coisa. Sou uma dançarina, não uma malditailusionista. — Levantou-se e avaliou-o com o olhar. — Fique por aí que euvoltarei para mostrar que tipo de dançarina eu sou... quando tenho umparceiro. 13
  14. 14. Sem mais palavras, deu meia-volta e avançou entre as mesas, alheiaaos cumprimentos vindos de todos os lados. Os dois funcionários doministério mal disfarçavam a inveja. — Ora, esse é um convite que não se pode recusar — o mais jovemdisse cobiçoso. — Nunca soube que ela tenha dançado com um freguêsantes. — Talvez ela tenha discutido com Madariaga e essa seja suamaneira de puni-lo — o mais velho ponderou com cinismo. Mas, sentado em sua mesa, Madariaga ainda fumava seu charutocom ar impassível. Tinha olhado para eles uma única vez, quando Floritase afastou, tornando a ficar absorto nos próprios pensamentos desdeentão. Sua atitude, ao menos, tranqüilizava Roberta quanto àpossibilidade de ter seu assistente devorado por um latino ciumentoenfurecido. Procurando se acalmar, tratou de prestar atenção no queacontecia em sua própria mesa. E foi quando se achava entretida pela conversa de seusacompanhantes que uma voz macia quase fez seu coração saltar pelaboca. — Señorita. Ela se virou e percebeu Don Rafael em pessoa, muito tranqüilo eelegante, oferecendo-lhe a mão de modo imperativo. — Gostaria de dançar? — Olhou para Larry. — Com a sua permissão,é claro, Señor? Antes que ela pudesse externar a recusa ditada por todos os seusinstintos, Larry apressava-se em consentir sorrindo. Ela se levantoufuriosa. Não era uma feminista, mas a presunção dos modos de DonRafael e a “permissão” dada tão facilmente por seu assistente fizeram 14
  15. 15. seu sangue ferver. Por um breve segundo ela o encarou disposta a dizerque não dançava e que não a amolasse. Mas então lembrou-se: estava ali a trabalho, e aqueles eram os seusclientes, que pertenciam a uma sociedade com seus próprios hábitos eregras. Ela, como uma estrangeira, deveria ser capaz de responder comcivilidade. Assim, aceitou a mão estendida de Madariaga e levantou-se,deixando para o dia seguinte, em Miami, para explicar a Larry que tipo deassistência esperava dele em Alto Rio. A música era romântica e suave, e Madariaga revelou-se um bomdançarino, conduzindo-a com elegância e sem tentar forcar um contatomais íntimo entre seus corpos. Mesmo assim, a impressão que provocavaem Roberta era intensa; ao mesmo tempo uma estranha atração... e ummedo quase incontrolável. Para disfarçar as contraditórias emoções que a dominavam, eladisse com frieza: — É hábito seu convidar mulheres desconhecidas para dançar,senor Madariaga? — Apenas quando me intrigam — respondeu imperturbável. Ela percebeu que ele zombava, que pensava seduzi-la com seu jeitoinsinuante, da mesma maneira que Florita tinha feito com Larry. Mordeuos lábios de raiva. — Eu a ofendi? — ele perguntou numa voz suave e rouca. Roberta, reagindo de forma irracional, estremeceu. Ele notou. Apertou-a de leve e depois relaxou: — Eu a ofendi? — insistiu com certa apreensão. 15
  16. 16. — Ainda não — ela respondeu, erguendo a cabeça para encará-lo. Ele arqueou as sobrancelhas, surpreso. — Ainda não? Então espera que eu o faça? Ela sorriu. — Acho muito provável — disse com falsa doçura. Com satisfaçãoviu que afinal o havia desconcertado. — Mas por quê? Porque eu a convidei para dançar? — Porque você perguntou ao meu acompanhante se podia dançarcomigo — ela o corrigiu. Madariaga deu de ombros. — Pode não acreditar, mas no meu país seria um insulto ao seuacompanhante se eu tivesse agido de outra forma. É uma questão decortesia, apenas — animou-se. — Mas é claro que cortesia deve serconsiderada inaceitável num país de mulheres feministas como o seu, nãoé, Señorita? E essa é toda a razão para sentir-se ofendida por mim? — Não — ela retrucou com calma. — Não gosto de homens quesopram a fumaça de seus charutos no rosto das mulheres. Seguiu-se uma pausa. Então ele falou devagar: — Acha que eu fui rude com Florita? — Senor Madariaga, não é da minha conta como se comporta comoutras pessoas. Exceto — acrescentou — quando é uma indicação decomo pode se portar comigo. Ele a inquiriu com seus olhos de um castanho tão escuro que mal seviam as pupilas. 16
  17. 17. — Não gostaria que eu a tratasse como tratei, Florita? — zombou. Roberta enrubesceu de raiva. — Para ser frança, senor Madariaga, eu preferiria que não metratasse de jeito nenhum — disse com rispidez. Ele deu uma risada suave. — Mas isso é pedir o impossível, Señorita, já que é tão bonita quenenhum homem poderia resistir. Diante de tal ousadia e poder de sedução, ela riu com certodescontrole. Então ele a apertou junto a si, dessa vez não relaxando apressão. — Por que você ri? — disse em tom de reprovação, mas aindaconservando uma nota divertida. — Acredita que eu seja o tipo de homemque pode ver a beleza e se manter indiferente? — Não — ela retrucou com jovialidade. — Acho que é o tipo dehomem que não resiste à oportunidade de induzir as pessoas a sefazerem de bobas. — Señorita, está sendo injusta — ele murmurou. — Acredita quetentei lisonjeá-la? — Acredito que está tentando me pôr nas nuvens — Roberta dissecom bom humor. Ele suspirou. — Então, é porque a Señorita de fato não sabe a beleza que possui.— E com isso levou-lhe a mão até os lábios, aplicando-lhe meia dúzia depequenos beijos, sem deixar de fitá-la. Foi a vez dela suspirar com infinita paciência. 17
  18. 18. — Señor Madariaga, eu me conheço muito bem. Conheço cadamilímetro. — Eu não acredito. — Balançou a cabeça. — Fala de modo tão afiadoem milímetros e em ser feita de boba... está tudo errado. Que possodizer quando se imagina uma mulher de sonhos ... — enquanto falava, suamão corria as costas de Roberta numa carícia sensual — e de repentedespertamos com ela nos braços? Ela se afastou um pouco e olhou direto em seus olhos. — Não sei se estou habituada a cumprimentos tão lisonjeiros. Depois de doisminutos começo a achar difícil suportar. Dançaram por algum tempo em silêncio. Então ele tornou a falar: — Eu desejaria que não fosse tão inteligente, Señorita. Permita-medizer que é um tanto desanimador mergulhar em um par de profundos emisteriosos olhos azuis para apenas descobrir que estou sendo avaliado. Ela conteve um sorriso. — Sinto muito — disse educada. — Creio que somos apenasincompatíveis. — Afastou-se ainda mais dele e lançou um olhar para suamesa. — Portanto, quem sabe se nos juntássemos ao meu acompanhante? Don Rafael Madariaga franziu o cenho, intrigado, mas logorecuperava o ar divertido, dizendo numa voz rouca e baixa: — Não pode, com apenas uma dança, dizer se somos incompatíveisou não, minha pequena. E eu, que imagino possuir grande experiêncianesses assuntos, acredito que vamos acabar descobrindo uma grandeafinidade. Roberta não respondeu de imediato. Estava perturbada, tinha deadmitir. Algo lhe dizia que aquele homem sedutor estava jogando algumobscuro jogo com ela. Ainda não tinha perdido o controle de si mesma, 18
  19. 19. mas sentia uma sutil atração a ameaçar sua capacidade de resistir. Ele prosseguiu: — Você parece tão distante e, ainda assim, tão desejável; ainalcançável dama no pedestal. Ela o encarou, confusa. — Penso que você mal percebe o seu poder — ele disse. Roberta engoliu em seco, lutando para romper o encanto que eleexercia. — Señor Madariaga, por acaso está me dando uma cantada? —perguntou direta. Ele se mostrou tão surpreso que quase parou de dançar. Mas logose recompôs: — Não, Señorita — disse com calma e bom humor, sem se mostrarnem um pouco ofendido. — Quero crer que se eu desejasse fazer amorcom você — enfatizou as palavras como se a corrigisse — você saberiamuito bem. Isso apesar do meu mau inglês. Seu inglês era perfeito, ela pensou, como ele próprio devia saber.Roberta recusou-se a se submeter. — Também acho — retrucou com um brilho frio no olhar. Ele sorriu. — Você saberá. Eu prometo — disse com suavidade. E parecia estarmesmo falando sério. 19
  20. 20. CAPÍTULO II Ele a estava conduzindo de volta à mesa quando as luzes seapagaram e a boate mergulhou na escuridão. De algum ponto ouviu-se ogrito de uma mulher, e Roberta sentiu-o apertar-lhe o braço. — Não se preocupe — soou a voz grave e calma. — É só uma quedade energia elétrica; acontece muito aqui em Alto Rio. De modo geral sãoprogramadas, para que as pessoas estejam preparadas, mas às vezes —havia uma nota bem-humorada em sua voz — as máquinas tomam suaspróprias decisões. Por isso a gerência prepara uma série de alternativaspara a iluminação... e aí vêm eles. Roberta viu os garçons se apressando de um lado para outro combandejas repletas de velas acesas. Os fregueses aceitavam uma vela emcada mesa com a tranqüilidade de quem já fazia daquele ritual um hábito. — Muito eficiente — ela comentou, retomando seus passos. A seulado, Madariaga deu uma risada abafada, fazendo-a virar-se com umaexpressão inquiridora. — Eficiência — ele murmurou. — Que tristemente típico! Você nãoacha a luz trêmula das velas romântico, acha eficiente. Sentindo-se outra vez criticada, suspirou. — Você é romântico, Señor? — Não, eu não me descreveria como um romântico — respondeu. —Embora, comparado a você, eu provavelmente seja. — Estou certa que sim — ela concordou, sentando-se e despedindo-o com um sorriso educado. — Obrigada pela dança. 20
  21. 21. — O prazer, Señorita, foi meu — assegurou com gravidade. — Eespero ter outra oportunidade, mais tarde, quando a luz tiver voltado. —Acenou para todos com elegância e retornou à sua própria mesa. Inclinando-se para servir a Roberta mais vinho, Larry cochichou: — Não sei quem é esse sujeito, mas os rapazes aqui não o apreciam. Roberta sorriu, bebericando o vinho e evitando olhar para seuassistente. Este, por sua vez, fingiu olhar ao acaso para o salão empenumbra, mas continuou falando num murmúrio: — Começaram a falar em contar ao ministro, talvez esta noitemesmo. Acho que Madariaga os amedronta. E com certeza nãoacreditaram que ele estava dançando com você apenas porque se sentiuatraído. Ela absorveu aquela informação. Também não havia se iludido, masera interessante constatar que outras pessoas se mostravam tãoalarmadas quanto ela própria. Então, o que era ele, além de um advogado?Quem sabe não pertencia a uma daquelas confrarias internacionais comação dirigida a vários países do mundo? Talvez a julgasse portadora dealguma informação valiosa. Roberta comprimiu os lábios com preocupação. Sim, é claro quepossuía informações importantes, mas não pretendia revelar nada. Não sea Technica Associates pretendesse fechar negócios na América Centraloutra vez. E, acima de tudo, não se ela pretendesse conservar suareputação e também seu emprego, que era a única coisa significativa quelhe havia restado desde que Hugh Hamilton a havia deixado para se casarcom outra. Então, tomou uma decisão: — Olhe, eu estou cansada — disse a seus convidados com seusorriso mais charmoso. — Acho que a altitude me afetou, afinal. Nãoficariam aborrecidos se tivessem de passar o resto sem mim, não é? — 21
  22. 22. perguntou com uma ponta de ironia. Os representantes do ministério sorriram; educadamentelamentosos, mas sem dúvida, aliviados. A presença dela ali os inibia,impedindo que se divertissem à vontade à custa da “grande empresanorte-americana”. Agora, seus semblantes indicavam que estavam livrespara aproveitar de verdade. — Eu pago a conta do que foi consumido até agora — ela disse aLarry. — Você cuida do resto. Eu usarei o carro, se não houver problemaspara você. O presidente de Oaxacan, antes de compreender que a TechnicaAssociates não ia facilitar-lhe a abertura de uma conta secreta numbanco suíço, tinha posto uma limusine com chofer à disposição da SeñoritaRoberta Lennox e seu assistente. — Tudo bem, eu pego um táxi. — E acrescentou com seu sorrisoinfantil! — Ainda bem que já fiz as malas. Pelo que vejo esses rapazesestão dispostos a varar a noite. Eu não ficaria surpreso se amanhã tivertempo apenas para pegar minhas coisas e seguir para o avião. Ela sorriu. — Vou guardar um lugar para você. Você vai merecer. Levantou-se com despedidas gerais, pedindo para que nãoabandonassem seus lugares, enquanto uma garçonete surgia com maisuma bandeja carregada de bebidas. A caminho da saída, parou junto aocaixa para pagar a conta da mesa, o que causou uma reação deestranheza no funcionário, embora este conservasse a discrição que asofisticação da casa exigia. Roberta entregou-lhe um cartão de créditocom ar cansado. — Vou pegar o meu casaco — disse. — Poderia mandar chamar o 22
  23. 23. meu carro, por favor? O nome é Lennox. Pouco depois, com tudo resolvido, ela saiu para encontrar omotorista numa banca de flores, junto à porta de saída, rodando seuquepe entre os dedos, parecendo meio nervoso. Assim que a viu,apressou-se em abrir-lhe a porta de trás da limusine. O interior do luxuoso automóvel cheirava a charuto, colôniamasculina cara... e alguma coisa de odor adocicado, enjoativo. Robertafez uma careta, mas conformou-se, já que até o hotel seria uma curtaviagem de não mais de dez minutos. Enquanto ela ainda pensava nos odores do carro, o motorista fazia amaior confusão para partir. Por duas vezes tinha dado a partida edeixado o motor morrer. Talvez estivesse um pouco bêbado, já que na idahavia se revelado um excelente chofer. Por fim partiram, mas com umsolavanco que quase a atirou contra o banco da frente. Tudo estavaescuro; a queda de energia parecia ter afetado toda a iluminação pública,de modo que não havia movimento nas ruas mergulhadas na escuridão. Mal haviam avançado cem metros, a limusine começou aziguezaguear como se estivesse desgovernada. De repente o carro foipara a esquerda e bateu em algo que Roberta julgou ser um outro veículo,até parar atravessado na pista, num ângulo perigoso. Com o baque, ela seviu lançada para o chão do carro. Recuperando-se do choque, ela procurava se levantar, mas foiimpedida. Entre vozes vindas não sabia de onde, sentiu que lhe cobriam acabeça com um pano negro. O cheiro adocicado ficou mais forte; por fimcompreendeu, era clorofórmio que lhe aplicavam à boca e ao nariz. Aindadebateu-se, horrorizada, mas lentamente mergulhou no abismo dainconsciência. Quando voltou a si já era dia. A primeira coisa que viu foi um facho 23
  24. 24. de luz passando por uma fresta. Seria uma cortina? Não, estava com osolhos vendados. Alguém a havia drogado, vendado seus olhos, e agora elanão tinha a menor noção de onde se encontrava. Permaneceu deitada sem se mover, tentando achar algum sentidoem toda aquela confusão. Não havia sensação de movimento, portanto não estava num carro.Ou, se estava, não se movia. Também não distinguiu nenhum ruído demotor. De longe, teve a impressão de ouvir vozes. Prendeu o fôlego e nãoescutou o barulho de nenhuma outra respiração. Estava sozinha ali. Passados alguns instantes, tentou se mover. Seus pulsos tinhamsido amarrados, não muito apertado. Os tornozelos estavam soltos. Ondequer que estivesse deitada, era uma superfície dura. Moveu-se de novo ealgo caiu. Ao barulho, as vozes se calaram. Uma porta se abriu; ouviu o rangido atrás de sua cabeça. Uma vozde menina disse em castelhano: — Ela acordou. O que fazer? Seguiu-se uma resposta que Roberta não pôde captar. Então sentiumãos sobre si, desajeitadas, mas não rudes, e então foi erguida. Sentiu acabeça girar com extremo desconforto. Disse no seu castelhanoperfeito: — Sinto muito, mas eu vou vomitar. A menina soltou uma exclamação e tratou de retirar o capuz que acobria. Bem a tempo uma tigela foi posta na sua frente. Quando terminou, reclinou-se para trás. O corpo todo tremia, e umsuor frio cobria-lhe a testa e as costas. A menina, que não era tãocriança quanto sua voz infantil fazia supor, olhou-a com ar de dúvida. 24
  25. 25. — Você está bem? Com um pálido sorriso, Roberta respondeu com voz fraca: — Eu não sei. — Você tem alguma doença, quero dizer, sofre do coração, ou coisaparecida? Ela negou com a cabeça. — Graças a Deus! Pelo menos os imbecis não trouxeram uma inválida— a garota disse com irritação. Sentindo o corpo frio, Roberta tentou se recompor. — Onde... onde estou? No mesmo instante o rosto da outra se endureceu. Não houveresposta. — Eu não estou ainda em Alto Rio, estou? — ela insistiu, sentindovoltar algumas das lembranças da noite anterior. — Vou lhe dizer. Se for necessário que fique sabendo. — Oh... — Roberta digeriu aquela resposta devagar. Sentia-sehorrível, mas sua capacidade de raciocínio principiava a voltar. — Isto éum seqüestro? A pergunta inquietou a garota, o que a Roberta pareceuincompreensível, já que a haviam dopado e encapuzado. Quem sabe nãoteriam se excedido em suas instruções? Resolveu fazer um teste: — Os meus braços estão doendo. Você não podia me desamarrar? A jovem ficou em dúvida. Então assentiu e se inclinou com uma faca 25
  26. 26. de lâmina curta. Cortou as cordas com facilidade. Roberta torceu paraque seu sobressalto tivesse passado despercebido para a outra, poissabia que demonstrar medo não seria uma boa política para a situação. — Obrigada — disse, flexionando os ombros. — Por nada — a garota hesitou. — Teremos de esperar um pouco.Talvez não muito. Aceita um café? Temendo a possibilidade de o café conter alguma droga, optou porcorrer o risco e aceitar. Precisava de qualquer coisa que aliviasse aquelegosto ruim da boca. — Sim, obrigada. — Então vou buscar. Fique aqui, por favor. — Avaliou-a por algunssegundos. — Acho que não preciso lhe dizer que não deve tentar fugir,não é, Señorita? Não queremos machucá-la, mas somos gente séria. Compreendendo a gravidade do aviso, Roberta engoliu em seco eassentiu com um aceno de cabeça. A jovem se foi. O tempo foi se passando sem que a outra voltasse. Roberta,sentindo-se esquecida, estudou seu cativeiro. Era um quarto comprido eestreito. Duas janelas protegidas por venezianas. A um canto podia-sever uma escrivaninha de madeira maciça, junto da qual, pregado naparede, havia um grande mapa cheio de alfinetes de cabeça colorida.Parecia uma sala de táticas de guerra. Era isso mesmo o que devia ser: tinha ouvido falar da atividadeguerrilheira naquele país, mas o serviço de informações da Technicaafirmara que se tratava apenas de pequenos grupos confinados àsmontanhas. Ela e Larry não seriam incomodados. Ela mal conteve uma risada sarcástica. Não seriam incomodados!Massageou os pulsos doloridos. Sentia-se mal e não tinha a menor idéia 26
  27. 27. de onde estava. Quando voltasse para casa diria a Tony para despedir odepartamento de informações inteiro, prometeu. De repente, interrompendo suas divagações, o barulho de váriasvozes alteradas falando ao mesmo tempo vieram do lado de fora. Entãoouviu-se um estrondo alto, como se alguém tivesse atirado longe ummóvel com um chute. As vozes sossegaram. Palavras começaram a sercompreensíveis. — ...nenhum bom senso! — disse uma voz que estalou como umchicote. Instintivamente ela se encolheu. Teve pena de quem quer queestivesse levando aquela bronca. Ao mesmo tempo, rezava para não terque encarar aquele que era obviamente um homem enfurecido. — Você não recebeu ordens de capturar uma mulher! — a primeiravoz fulminou. Uma voz feminina se interpôs, como se procurasse acalmar osânimos. Parecia ser a jovem que tinha ido buscar o café: — Nós recebemos ordens de capturar esse tal de Lennox, e foi oque fizemos. — Não fizeram nada disso. Agiram cedo demais. Lennox aindaestava no clube quando vocês pularam no carro dessa mulher... e fizeramum grande escândalo. O Exército foi avisado em menos de meia hora.Vocês sabiam disso? Pensaram nisso quando decidiram bancar os super-heróis? — Foi azar... — a garota começou mas foi interrompida. — Foi mais do que azar, foi uma grande estupidez! E um desastre. — A culpa foi de Gregório — disse a voz do rapaz. — Ele estava comtanto medo que nem podia dirigir em linha reta. 27
  28. 28. — Nesse caso devia ter se livrado dele e dirigido você mesmo. — Mas eles já o conheciam — o rapaz objetou. — Pessoas assim não prestam atenção em quem é o chofer. Nãoteriam se importado com quem os estava conduzindo. Você é um tolo,Pepe — o que parecia o chefe disse, mas já sem a fúria inicial. — Émelhor eu vê-la quando ela acordar. A resposta foi uma risada seca. — Ela enjoou? Deviam ter pensado nisso quando resolveram entupi-la de clorofórmio! — Parece que ela está se recobrando — disse aquele que devia serPepe. — Pediu café. — Ótimo. Então vá buscar. E traga um pouco para mim também. Roberta ouviu passos se aproximando. Procurou endireitar-se sobreo duro colchão onde tinha ficado deitada. Esforçou-se para reprimir otremor que lhe dominava o corpo; era importante não deixartransparecer medo. Mas, quando a porta foi aberta, tal foi sua surpresa que por ummomento esqueceu o medo. Ali, na soleira, surgiu ninguém menos do queDon Rafael Madariaga. Não havia surpresa no rosto dele. Sua expressão era dura, mas eraóbvio que já sabia quem encontraria ali muito antes de abrir a porta.Roberta começou a sentir indignação. — Bom-dia, Señor — cumprimentou-o. Parecendo ainda mais irritado, ele fechou a porta atrás de si eavançou para ela. 28
  29. 29. — O que foi que essas crianças cretinas fizeram a você? — O que você lhes ordenou, imagino — respondeu com frieza,olhando bem em seus olhos. — Eu não os mandei transformá-la num fantasma — disse, áspero. Ela se permitiu um sorriso irônico. — Ou me drogar? Ou me seqüestrar? — Seqüestrar, sim. Embora não você — ele devolveu no mesmo tomfrio. — Você, devo dizer, é uma complicação a mais. E o clorofórmio foirefinamento deles. Deus sabe onde o conseguiram. Não sabem como usá-lo. O jipe está fedendo, e a limusine presidencial deve estar também,imagino — concluiu com desgosto. — Que desajeitados, eles, não? — Mais que isso — disse mais calmo. Sentou-se na quina daescrivaninha e ficou balançando uma perna, com a bota indo e vindo. Foientão que ela reparou o quanto ele estava diferente naquela manhã. Mas,de qualquer maneira, de smoking ou vestido com roupas rústicas, eraimpossível negar seu enorme charme. — Eles deveriam ter capturado oseu companheiro, o líder da missão, Roberto Lennox. Seguiu-se uma breve pausa. Então ela falou com cuidado: — Parece que você deu instruções conflitantes. Creio que não podeculpá-los. Ele a examinou intrigado. — O que quer dizer com isso? — Estou dizendo que deveria ter mandado capturar meu assistenteou Lennox. Eu sou a líder da missão, Roberta Lennox. 29
  30. 30. Por um quase imperceptível segundo ele reagiu com choque,cerrando os punhos com força. Mas logo se recompunha. — Eu não acredito que enviariam uma mulher para negociar com opresidente Valetta. — Garanto-lhe que enviaram! — ela retrucou ofendida. — E eleestava recebendo tratamento de primeira classe com isso. Sou a diretorada Technica Associates desde a sua fundação. Costumava atuar apenasem território africano. Foi só porque eu acabei de ser transferida para aAmérica Latina que vim pessoalmente. Era uma espécie de viagem defamiliarização. Em condições normais, Larry teria assumido asnegociações sozinho. Eu viria apenas para o acerto final. Madariaga levou um tempo para assimilar aquelas novas e másnotícias. — Nós estávamos querendo um diretor, sem dúvida. Por issoescolhemos a Technica em vez de qualquer outra companhia estrangeira.Mas... uma mulher? — ele fechou os olhos. — Sabia que alguns dos mais brilhantes cérebros deste paístrabalham colhendo informações para mim? Ela teria achado cômico seu desespero se as circunstâncias fossemoutras. Mas naquela situação Roberta Lennox achou melhor não rir. Alémdo mais, começou a tremer de modo convulsivo, tanto pelo efeito dadroga quanto pela tensão emocional. Queria disfarçar, mas era difícil, jáque seus dentes não paravam de bater. — Talvez devesse ter especificado, dizendo que uma mulher nãoservia — disse numa derradeira tentativa de se controlar. Ele a considerou por um longo momento. — Talvez eu devesse, mas agora é tarde demais. O seu assistente 30
  31. 31. já deixou o país, sem sombra de dúvida. E você está aqui. Terei dealterar os meus planos. Sob aquele olhar frio e calculista, ela se sentia cada vez pior.Precisava falar rápido. — A Technica Associates não vai pagar resgate. É parte de suapolítica. Trabalhamos por todo o mundo, inclusive em países comproblemas políticos, e não podemos arcar com a possibilidade de ficarpagando resgates um em cima do outro. Madariaga não se perturbou. — Nem mesmo por um diretor? Ela sorriu com desânimo. — Especialmente por um diretor que contribui para a adoção dessapolítica de não pagar. — Mas e sua família? Não fariam pressão? Roberta não respondeu de imediato. De modo geral, não possuir umafamília não a incomodava. Pelo contrário, com seu espírito independente etemperamento de jogador, ser sozinha significava liberdade para tomardecisões e correr o risco que bem entendesse. Mas, naquele momento,sentiu uma solidão terrível. E, quando falou, desejou que a desolação nãoaparecesse na voz: — Não há família. — Não? — ele recebeu a informação sem nenhum traço de emoção.— Bem, por uma questão de honestidade devo lhe dizer que não penseiem pedir um resgate por você, Señorita. — E, percebendo o medo em seusolhos azuis, acrescentou: — E em nada violento, também. Não é precisoter receio. 31
  32. 32. O tremor aumentava, incontrolável. Roberta comprimiu as mãos,desesperada, mas conseguiu falar com calma: — Bem, você deve admitir que ser capturada por um grupoguerrilheiro não é a melhor maneira de se passar as férias — disse,procurando demonstrar bom humor. Por um breve instante os olhos escuros de Madariaga refletiram aadmiração por aquela mulher corajosa; em seguida, seu rosto recuperouum ar inexpressivo. — O que sabe da história do meu país, Señorita? — perguntou derepente, com um leve tom de zombaria. Mas ela levou a questão a sério: — Oito milhões de habitantes, dois centros de alta densidadepopulacional, mas a maioria das pessoas é camponesa, vivendo no meiorural e subsistindo da agricultura. Interior montanhoso e baciahidrográfica rica, sujeita a enchentes. Solo fértil, mas chuvasirregulares e terreno escarpado tornaram a agricultura precária. — Elapôde ver a surpresa em seu rosto, o que a deixou satisfeita, apesar domedo. — Eu sou agrônoma, disse com naturalidade. — Entre outras coisas, parece. — Uma agrônoma que queria vender um projeto de irrigação — elaprosseguiu, pensativa. — Um bom projeto que seu presidente recusou. — Não se preocupe, ele talvez ainda o aceite. Ou alguém o fará.Meu Deus, é preciso que algo seja feito pelo interior. Tem sidonegligenciado por muito tempo. Como pensasse da mesma maneira sobre o assunto, Roberta nãodisse nada. Não compreendia aquele homem. Parecia muito frio, muitodesapaixonado para ser um guerrilheiro da liberdade, como diziam osnoticiários na televisão. E, no entanto, o modo como havia sido 32
  33. 33. seqüestrada e era mantida cativa sugeria que se adaptava àqueladefinição. — Bem, você está bem informada quanto à geografia, devo admitir— ele retomou o assunto. — Mas é de história que eu estava falando. — Governo militar nos últimos quatro anos — ela apressou- se emdizer. — É tudo o que eu sei. — Sim — Madariaga confirmou com rispidez. — Imagino que issodeva ser tudo que a maior parte do mundo saiba. — Fez uma pausa, seuslábios se retraíram numa expressão amarga. — Não é tão simples assim...— Ergueu-se da escrivaninha e deu alguns passos a esmo, nervoso. —Oaxacan, por muitos anos, era uma nação apenas no nome. Na verdade,depois da independência, continuou a ser apenas um aglomerado degrandes latifúndios, com a maior parte da população vivendo em situaçãode miséria. Ela sentiu interesse. — Era uma colônia espanhola, não? — Sim. E sua história tem sido marcada pela sucessão de golpes deEstado e de governos autoritários, culminando com a ditadura militar,quando o último presidente eleito resolveu implantar a reforma agrária.— Respirou fundo e prosseguiu. — Bem, com a deposição de GonzalezArcade surgiram vários grupos terroristas, de esquerda e de direita.Vivemos um momento de revolução. — Revolução? — ela perguntou chocada. — Sim — respondeu com um sorriso cansado. — E acredito queestamos perto do dia em que todos terão direito a um teto e comida. Oque atrapalha é a interferência das grandes nações, que enviam maisarmas do que alimentos. A violência se generalizou por aqui; tivemos vinte 33
  34. 34. anos de guerra civil. — Eu não fazia idéia! — ela reagiu, confusa. Ele deu de ombros. — Somos um povo muito atrasado, moça. Com alto índice deanalfabetismo e tradições culturais muito antigas. É difícil organizar umapopulação despolitizada. Há uma geração inteira no meu país que nãoconheceu um tempo de paz, Señorita Lennox. — Mas o governo militar mantém uma certa estabilidade, não? —ela argumentou. — Sua observação mostra o quanto ignora sobre Oaxacan, minhacara — seus lábios esboçaram um sorriso de desdém. — Os militares nãoestão interessados num desenvolvimento social. Há uma repressão feroz,e a guerra civil prossegue. Nosso povo luta entre si. — E você está engajado nessa luta... — Naturalmente. Ela olhou ao redor e perguntou; — E você comanda um desses grupos de guerrilha, é isso? CAPÍTULO III Depois que Madariaga se foi, acabaram lhe trazendo o café. Estava 34
  35. 35. quente, bem forte e açucarado. Roberta segurou a caneca com ambas asmãos, procurando aquecê-las. Não costumava adoçar o café, e no começoachou-o intragável. A jovem que o trouxera observou-a intrigada. — Você ainda se sente... mal? Ela balançou a cabeça. — Não. Mas estou com muito frio. A outra fungou. — Você não está vestida para as montanhas — replicou em vozneutra. Roberta evitou um comentário sarcástico sobre não ter planejadovisitar as montanhas. Fez um gesto de assentimento disse; — Eu estava com um casaco ontem à noite. Sumiu? A garota foi até a ponta do colchão onde estava e pegou algo quemais parecia um trapo amarrotado. Era o casaco. — Isso não vai esquentar — disse, estendendo a peça de tecidofino. — É leve demais — prosseguiu pensativa. — Mas é bonito. A minhairmã gostaria... Roberta bebericou o café. Achou que, se conseguisse fazê-lacontinuar falando, talvez obtivesse alguma informação útil. Deu umsorriso simpático. — Que idade tem sua irmã? — Minha irmã não é uma criança — a garota respondeu com ironia.— É que ela gosta de coisas bonitas, Señorita. Ela é a dançarina Florita; 35
  36. 36. acho que a viu ontem à noite. Ela considerou aquilo por um momento. As duas eram tãodiferentes! Mas é claro que nem sempre duas irmãs se parecemponderou. — E sua irmã partilha dos seus pontos de vista? Do seu modo devida? A outra sorriu. — Não vai encontrá-la nas vilas das montanhas, quebrando as unhasnum tear, se é o que quer dizer, Señorita. Por outro lado, ela e Rafaeltrabalham muito juntos. Foram eles que planejaram a operação de ontem. Roberta lembrou de ter tido a sensação de que os dois trocavamalguma mensagem durante a dança. Com um calafrio, prometeu-se nuncamais duvidar de seus instintos. A jovem guerrilheira prosseguiu, orgulhosa; — Florita é muito famosa. Rafael está sempre dizendo que nãosaberia o que fazer sem ela. — Estou certa que sim — ela retrucou com frieza, cobrindo ascostas com o delicado casaco. — Você está com frio — a garota constatou condoída. — Quando agente chegar a... quando a gente chegar, vou arranjar uma roupa quentepara você. — Obrigada — Roberta agradeceu, procurando ocultar seudesânimo. Então iriam levá-la a outro lugar; com certeza para mais longeda capital, pensou. — Hã... e vai demorar muito? A outra lançou-lhe um olhar desconfiado. 36
  37. 37. — Quem sabe? — disse evasiva. — E seria melhor a Señorita nãoficar fazendo perguntas. Rafael não está de bom humor, não é bomirritá-lo. — Tudo o que eu fiz para irritá-lo foi não ser um homem — elareplicou com um muxoxo. — Acho que não podem me culpar por isso, nãoé? A garota se mostrou surpresa. — Oh, mas você o fez ficar muito bravo. Não sei o que lhe disse,mas ele ficou furioso. — Um certo respeito transpareceu na sua voz. —Não é fácil fazer Rafael perder a calma. Normalmente ele é muitocontrolado e sensato. — Então abriu um sorriso que a fez parecer umamenininha: — Às vezes é muito chato. — Faz tempo que o conhece? — Toda a minha vida. Ele é como um irmão; talvez venha a sermesmo um irmão, um dia. É o que a minha mãe sempre quis. Mas quandoFlorita começou a dançar, mamãe disse que ela já não servia para ser amulher de um homem público e que Rafael nunca se casaria com ela. —Parou de repente, compreendendo que estava transmitindo informaçõespessoais à “inimiga”. — Mas isso tudo não deve interessar a você, não é?Preciso ir preparar as coisas para a viagem. Vendo-se mais uma vez sozinha, Roberta se pôs de pé, sentindo osmúsculos doloridos. A cabeça parecia leve, como se estivesse serecobrando de uma longa enfermidade. Curiosa, foi espiar pelas frestasda janela. Pelo que parecia, achava-se numa cabana à beira de uma estradanão pavimentada. Havia dois carros e um caminhão de médio porteestacionados junto da cabana. Mas não via sinal de vida. Além da estradase erguia uma vegetação baixa e espessa que impedia a visão da 37
  38. 38. paisagem. O céu estava azul sem nuvens. Por alguns minutos Roberta perdeu-se em divagações, imaginandose Larry teria pegado o avião sozinho, acreditando que ela iria noseguinte. Perguntou-se o que Tony acharia da situação. Normalmente eleficava muito irritado com qualquer imprevisto que interrompesse o cursosuave do sucesso da Technica. Segundo a opinião de Tony, pessoas que sedeixavam seqüestrar provavelmente não haviam tomado o devido cuidadopor isso não mereciam que se pagasse resgate, ainda que alguém pudessefazê-lo. Ela suspirou. Não achava que tinha sido descuidada. A porta se abriu com barulho e entrou um rapaz que ela ainda nãovira. Pareceu fitá-la com antipatia, mas, quando falou foi educado: — Deve vir comigo, Señorita Lennox. Agora, por favor. O medo voltou. Aquele rapaz era muito jovem, dava a sensação deque poderia agir com violência caso sentisse que estava perdendo ocontrole da situação. Ela respondeu com muito cuidado. — Está bem. Mas será que eu poderia... hã... me lavar? Seguiu-se um instante em que ele pareceu não compreender. Entãoficou muito ruborizado. — É claro — disse prestativo. — Marta vai mostrar onde. Nãodemore, por favor. Mais tarde, sentada no jipe que seguia por um caminho de terra batida,Roberta considerava a situação. Todos ali, exceto Madariaga, pareciam nervosos.Pepe, que ia ao volante, e a jovem irmã de Florita, Marta. Ao chegar a umaencruzilhada, Pepe passou para o caminhão e desapareceu pelo caminho mais largo.Marta o substituiu no volante, e prestava extrema atenção à estradinha íngreme eacidentada. Por todo o percurso não se viu vivalma. Cada vez mais o terreno iaficando pedregoso, e o ar rarefeito. Roberta foi ficando enjoada de novo. Começou aempalidecer e a suar frio. 38
  39. 39. — É a altitude — alguém disse com naturalidade, mas num tom amigável. E isso foi a última coisa que ouviu antes de desmaiar. Dessa vez ela foi retomando a consciência devagar, ouvindo ummurmúrio de vozes e sentindo um gostoso calor subir pelo corpo. — Ah, pobrezinha — disse uma voz desconhecida, com umapronúncia carregada. Roberta abriu os olhos devagar. Uma mulher se inclinava sobre ela,agasalhando-a com um cobertor. Deu-lhe tapinhas encorajadores noombro. — Vai se sentir melhor, já, já, pobre criança. Roberta acreditou. Tornou a fechar os olhos para abri-los emseguida. Tentou se apoiar sobre um cotovelo, mas a mulher a impediu. — Não, não! Deite-se. Você precisa recuperar as forças. Precisa detempo para se alimentar. Aqui é muito alto — disse a mulher compreocupação. Ela ainda levou alguns segundos para compreender, mas, quando viuternura no rosto da outra, fez o que não fazia havia muitos anos;começou a chorar. Na mesma hora a mulher sentou-se na beira do velho sofá e tomou-a nos braços, consolando-a como a uma criança. — Vamos, vamos, já passou. Agora você está segura. — dirigiu-se aalguém mais atrás, que não se podia distinguir no escuro. — Pobre menina,está gelada! Don Rafael deveria ter vergonha. Afinal, ele não é ummoleque bobo como Pepe. Oh, o que Doña Eleonora não diria! Pobremenina, pobre menina, pronto, pronto! Roberta, que não se lembrava de um dia ter sido chamada de “pobre 39
  40. 40. menina”, continuou chorando e se deixando consolar amparada nos braçosdaquela senhora grande e forte. Por fim, o pranto cessou e ela seendireitou, passando a mão pelo cabelo para afastá-lo do rosto. — Está se sentindo melhor agora, não é? — a inesperada protetoraperguntou com um sorriso maternal. Roberta fez que sim. — Bom, bom. Marta foi pegar umas roupas para você ficar maisconfortável. E eu, Angelina, vou preparar algo quente para você beber. Éuma coisa que eu dou aos meus netinhos para curar enjôo da altitude. —Ela se pôs de pé. — Mas não faça nenhum movimento brusco, porenquanto. — Abriu um largo sorriso, que revelou a falta de alguns dentes. Roberta viu Angelina desaparecer, seguida por uma mulher maismoça, talvez uma filha, ou mesmo uma neta. Deitou-se com a cabeçaapoiada sobre as mãos. Tudo ali lhe era tão estranho; toda aquelaconversa de família e parentes. Ela não era capaz de se lembrar da mãe,e não chegara a conhecer o pai. Se tinha avós vivos, não sabia quem eramnem onde encontrá-los. Aos poucos foi deixando surgir as lembranças de infância. Seu tioGeoffrey nunca a quis, e não fazia segredo disso. Quando o funcionárioda instituição de menores disse que ela não ficaria num orfanatoenquanto tivesse parentes vivos, Geoffrey não gostou nem um pouco. Elaainda podia se lembrar com clareza de ouvi-lo dizer que, se ele e a esposaquisessem ter filhos, teriam os próprios, e não uma pestinha horrívelcomo aquela. Toda a cena numa cozinha fria, diante de um funcionárioirredutível, onde ninguém parecia se importar com ela. Ela fungou e recolheu um resto de choro. Não que aquilo aindadoesse. Nunca havia doído tanto quanto a traição de Hugh Hamilton.Além disso, nunca tinha gostado do tio Geoffrey. Aprendera a se manter 40
  41. 41. quieta e longe do caminho, transformando-se numa criança muda ereservada, escondendo o espírito rebelde que herdara da mãe. E fora com sua grande força de vontade que, contra o desinteressedo tio, tinha conseguido entrar para a universidade. Sustentara-se comuma série de pequenos empregos que lhe rendiam o bastante para oaluguel e para os livros de que precisava. Nessa época era uma garotafranzina, magra e cheia de olheiras. No escuro Roberta sorriu da imagem de si mesma nos tempos defaculdade; determinada, orgulhosa e quase sempre embrulhada emmontes de malha por não ter dinheiro para comprar um bom casacocontra o frio. Como tinha sido pobre! A maioria dos seus colegas deManhattan não acreditaria nas privações que sofrera em Glasgow. Mas sesentia feliz, livre pela primeira vez do intratável tio Geoffrey ecompletamente absorvida pelos estudos. Hugh havia achado graça de suadevoção aos estudos. O sorriso nos lábios dela se apagou. A traição de Hugh a haviaferido muito. Mesmo agora, cerca de dez anos depois, aquela era umarecordação capaz de fazer seu coração doer. Lembrou-se de uma tardede amor na qual, em sua ingenuidade, julgou estar apaixonada. Depois,chegou Caroline, surpreendendo-os e partindo em seguida, com arofendido. — Não se preocupe — Hugh havia dito com voz macia. — Ela sabeque isso não significa nada. Não precisa ficar tão assustada, minhagatinha. Mas é claro que ela havia ficado assustada. E magoada. Tudo bem paraCaroline, que desde que concordara em se casar com seu tutor já devia esperar poraquele tipo de cena. Ambos vinham do mesmo nível social, e o que importava eraque estavam comprometidos. Mas ela, Roberta, não estava preparada para ser tratadacomo um bom programa para o que teria sido uma tarde aborrecida. Voltando apensar nisso, tanto tempo depois, não era difícil compreender. Hugh tinha sidogentil, persuadindo-a a abandonar os livros de vez em quando, para que passassem 41
  42. 42. juntos horas agradáveis fazendo amor. Na época, nem lhe passara pela cabeça queele não estivesse tão apaixonado por ela quanto ela por ele. E só depois do episódiocom Caroline foi que ficou sabendo que os dois estavam noivos, com data marcadapara o casamento. Hugh se mostrara surpreso por ela desconhecer o fato. Afinalconstava em todas as colunas sociais, e era incompreensível para alguém comoHugh Hamilton, que Roberta não tomasse conhecimento dessa parte dos jornais. No final, mesmo Hugh sendo delicado e compreensivo, a mágoa era grandedemais para ser esquecida. Prosseguiu os estudos com maior dedicação ainda.Continuava vendo Hugh, já que ele era seu supervisor. E, quando se formou, aindateve de suportar vê-lo um pouco ofendido por ela não aceitar as ofertas de empregoque ele lhe havia arranjado. — Vou para os Estados Unidos — Roberta lhe havia dito com simplicidade. — Estados Unidos? — Hugh mal podia acreditar. — Você tem umacolocação? — Não vou a trabalho, vou viajar, conhecer. Descobrir o que estáacontecendo além deste meu cantinho no globo. — Sem nenhuma segurança? — ele perguntou com ar de desaprovação, malse dando conta de que quando a havia decepcionado ela havia desistido de buscarqualquer segurança. — Não. Só pela aventura — Roberta dissera, zombando. E desde então sua vida tinha sido mesmo uma grande aventura, Robertapensou, ajeitando melhor a cabeça apoiada nas mãos entrelaçadas. Gostava do seutrabalho. Gostava de ajudar as pessoas a desenvolver seus negócios, de resolverproblemas, de viajar pelo mundo e viver em todo tipo de lugar. Possuía um luxuosoapartamento em Manhattan, mas não ficava lá mais do que três meses por ano.Ocupava o restante do tempo contatando representantes de outros países,conhecendo culturas diferentes e muitas vezes exóticas. Adorava o trabalho decampo. E pensou que quando se sentisse melhor não perderia a chance de dar umpasseio pela vila onde estava para conhece-la. Então, enquanto lhe ocorriam essas idéias, percebeu que devia teradormecido. A casinha ainda estava escura, mas pela porta não se via mais nenhumaréstia de luz. Ouviu sons de pessoas se movendo do lado de fora. Junto do braço,sentiu uma caneca de barro com um líquido morno. Imaginou que devia estarfervendo. Tomando ânimo, sentou-se na beira do sofá e sorveu a bebida amarga.Depois se levantou e foi até a porta. O que viu foi muito extraordinário. Estava escuro. Havia luzes em todas as casinhas que acompanhavam a únicarua da vila, sinuosa e não pavimentada. Mulheres velhas sentavam-se em pequenos 42
  43. 43. grupos diante das portas abertas, enquanto velhos, crianças, moças, gatos, cachorrose galinhas vagavam entre as duas fileiras de casas. Um burburinho de conversapairava no ar. Roberta permaneceu um bom tempo com o ombro apoiado no batente daporta, e, como atrás de si não havia luz, os outros demoraram a perceber suapresença. — Señorita Lennox? — era Marta, muito séria, quem falava. — Eutrouxe algumas roupas. São de Florita; sou muito pequena, acho, para asminhas servirem para você. A blusa é minha — acrescentou. — Espero quesirvam. — Obrigada — Roberta agradeceu com sinceridade. — Eu estava meperguntando o que esperam que eu faça. Na semi-escuridão, Marta lhe sorriu. — Por favor, fique à vontade para fazer o que quiser. Esta é uma vila comum.Você é bem-vinda. — Mas... — ela hesitou — onde querem que eu fique? A outra riu. — Não temos nenhum lugar para mantê-la presa, aqui. Esta casa é para vocêusar enquanto precisar. — Mas não é a casa de Angelina? Eu não gostaria de obriga-la a... Marta balançou a cabeça. — É muita consideração sua, mas não. Angelina mora naquela casa grandeali, no fim da vila. Depois que se trocar, pode ir falar com ela. — Mas, então... quem eu desalojei? — Roberta insistiu. — Ninguém. Esta casa foi herdada por uma pessoa que não mora aqui.Angelina só cuida para que esteja sempre arrumada e limpa. — De modo um tantoinesperado, tocou de leve no braço de sua “prisioneira”. — Pode ficar à vontade.Você não desalojou ninguém. E, assim, Roberta ficou. Era uma casa de um só cômodo, como podeverificar na manhã seguinte. Tinha uma grande cama de casal de madeira 43
  44. 44. maciça em um canto, uma mesa sob a única janela, várias cadeiras e umaarca alta, também de madeira. As paredes e o chão de pedra eramcobertos por belas tapeçarias de cores naturais. A roupa de cama era dealgodão, um pouco amarelecida pelo tempo, coberta por uma colchabordada a mão. Tudo era simples e meticulosamente bem cuidado. A única coisa que faltava eram utensílios de cozinha. Mas Roberta logo descobriu que não precisava cozinhar. Toda noiteela jantava com Marta, Angelina e mais meia dúzia de pessoas, e o jantarera a principal refeição do dia. Falavam com prazer sobre artesanato emétodos de plantio. Só se recusavam a discutir política. Falavam com simpatia do homem a quem chamavam de Don Rafael.Não tardou para que Roberta percebesse que para Angelina e para amaioria dos aldeões a razão de sua presença ali era muito simples: DonRafael havia se apaixonado por ela à primeira vista. E de nada adiantouela protestar, pois suas objeções foram recebidas com sorrisoscúmplices e indulgentes. Logo na manhã seguinte ouviu-se o barulho do motor de um veículosubindo em direção à vila. Pouco depois, o pequeno Tônio abandonava suascabras pastando sozinhas para avisar que Don Rafael estava a caminho.Angelina apressou-se em chamar Roberta: — Venha depressa! Venha depressa! Ele vai querer vê-la —apressou-a, empurrando-a para fora da cabana. E a primeira coisa que ele fez ao chegar foi perguntar a Marta: — Onde ela está? Mas, antes que a moça pudesse dizer qualquer coisa, Angelinasurgiu, trazendo uma relutante Roberta. — Aqui está ela, Don Rafael. Nós cuidamos bem dela para você. 44
  45. 45. Ele se aproximou e segurou-a pelos ombros, fitando-a com firmeza.Roberta, de cabeça baixa, pôde ouvir o suspiro de alívio e satisfação deAngelina. Ergueu os olhos e Don Rafael abriu um sorriso. — Estou vendo que sim, Angelina — ele disse, demonstrandoaprovação. — Ela parece outra. — Puxou-a para si e beijou-a na testa,como uma bênção. E então, não apenas a boa senhora mas a vila inteirasuspirou sonhadora. Roberta teve vontade de chutá-lo. — Viu o presidente? — Marta interrompeu. — Vi — ele respondeu impassível. Tomou Roberta pelo braço e seafastou do carro, cumprimentando um e outro enquanto caminhava, oracom um sorriso, ora com um aperto de mão. Marta vinha atrás: — E daí? — Ele está considerando o assunto. A moça ficou desapontada. — Você não lhe deu um prazo? — Dei. — Quanto? — Curto o bastante para mantê-lo preocupado, mas não tão curtopara que ele entre em pânico — ele disse com frieza. — Valetta vaipassar umas semanas ruins. — Semanas! — Roberta gemeu. — Mas... e quanto a mim? Don Rafael olhou-a com calma. — Isso é uma coisa sobre a qual teremos de conversar. Mas não empúblico nem agora, que estou cansado da viagem. 45
  46. 46. Ela puxou o braço num gesto brusco. — Desculpe-me — disse com ironia. — Sua ansiedade é compreensível — ele replicou com indulgência. —Como eu disse, vamos conversar. Depois. Roberta conteve o impulso de esbofeteá-lo. De nada adiantaria, esua situação poderia acabar ficando muito pior. Precisava pensar logonuma alternativa de fuga ou salvação. Antes mesmo da conversaprometida, quando seu destino seria selado. Decidida, afastou-se umpasso. — Vou deixá-lo para rever seus amigos — disse. — Tenho umascoisas para fazer... — Se está indo para casa, vou com você — ele interrompeu. —Preciso me livrar destas roupas. Ela o encarou. — Eu vou para a minha casa! Don Rafael sorriu. — Você ainda não é uma proprietária no meu país. Deve estar sereferindo à casa de que se apropriou. — Eu não me apropriei — ela rebateu irritada. — Foi emprestadapara mim. Me disseram que o dono não se importaria... — interrompeu-sediante da terrível possibilidade que lhe ocorreu. Percebeu que ele sorria,divertido. — Isso mesmo — ele concordou tranqüilo. — E agora o dono chegou.Por isso receio que, no futuro imediato, tenha de dividi-la comigo. 46
  47. 47. CAPÍTULO IV Roberta sentou-se numa das cadeiras de madeira e ficou olhando-ocom expressão neutra. Não dissera uma palavra desde que ele a haviaconduzido para dentro. Depois do brilho do dia lá fora, o interior dacasinha de um cômodo parecia mergulhado na escuridão. Mesmo depoisde os olhos se terem acostumado, era difícil distinguir os traços do seucaptor. De repente, ele a surpreendeu num tom divertido: — Você entrou em choque com a perspectiva de dividir a casacomigo? Ela sentia a garganta seca e muito pouca disposição para conversar.De mau humor, respondeu: — Sim. Ele riu, tirando o casaco e jogando-o na beira da cama. Os olhos deRoberta seguiram a peça de roupa, e o medo a assaltou. — Pensei que fosse mais liberada — brincou. Vendo-o desabotoar a camisa, ela ficou tensa. Aquilo era ridículo!Ele era um homem sofisticado, tentou convencer-se. Em nenhummomento havia dado algum sinal de ser do tipo que violenta moçasindefesas, portanto não havia motivo para sentir-se tão ameaçada.Usando toda sua fibra, ela falou com a maior frieza possível: 47
  48. 48. — Não vejo o que ser liberada tem a ver com não querer repartir acasa com o meu carcereiro. O que, afinal, você é. Aquelas palavras o enfureceram. Mesmo no cômodo escuro erapossível perceber sua irritação. — Eu não sou carcereiro — ele disse entre dentes, tirando a camisae atirando-a para junto do casaco. — Não? — ela replicou sem se perturbar. Don Rafael encarou-a franzindo as sobrancelhas. — Você se sente como uma prisioneira? Marta a trancou em algumacela? As pessoas a deixaram passar fome, a ignoraram? — Não — Roberta admitiu. — Todos têm sido muito bons comigo. — Ah! — ele pareceu divertido de novo. — Acha então que eu deviater sido mais gentil. — Deu alguns passos até ela. — É isso mesmo o quequer de mim, Señorita Lennox? Gentileza? — Não. — Também achei que não. Roberta esforçou-se para sustentar aquele olhar, com o qual eleparecia dominá-la sem nem mesmo tocá-la. Mas ela era uma mulherindependente, responsável. Não poderia se olhar no espelho mais tardese permitisse que aquele homem a humilhasse com uma insinuação tãotorpe. Assim, filando-o com sua expressão mais doce, disse: — O que eu realmente espero de você, Don Rafael... — sorriu comenorme delicadeza — é a minha liberdade. Ela o havia atingido. O rosto dele assumiu uma expressão tensa, eseus olhos brilhavam muito. 48
  49. 49. — Imaginei que diria algo assim. — Passou a mão pelo rosto deRoberta, como quem avalia uma mercadoria em exposição. — Eu acho que está precisando de algo mais além da liberdade, —disse, afastando-se. — Pena que eu não possa agora atendê-la, minhacara. Ela mal acreditava que estivesse sendo tão insultada. Ele queriadizer que a possuiria, se ela ficasse disponível, mas que não a respeitavanem estimava. Revelava-se, assim, um inimigo frio e desprezível. Robertasentiu-se só e abandonada, mas recusava-se a deixar que ele percebesseseus sentimentos. — Isso significa que você vai embora? — perguntou com cinismo. — Não, eu não pretendia dizer isso — Don Rafael respondeu comuma careta. — Vou ficar aqui. E você, minha pequena prisioneira, também.Mas eu não vim para passar férias... ou pela oportunidade de dedicarminha atenção a você. Vou estar muito ocupado. Ela se perguntou o que um advogado teria para se ocupar numa vilacomo aquela e concluiu que preferia não saber. — Nesse caso, é claro que eu devo deixar a sua cama — disse, numtom educado. — Não vou incomodá-lo, se vai estar trabalhando. — E acredita que vai me incomodar menos se se mudar? — eleperguntou com desprezo., Como ela não respondesse, continuou: — Amenos que vá acampar nas cavernas, não há nenhum outro lugar. E asnoites nas montanhas são muito frias. Se quer que eu seja gentil, Señorita,então deve permitir que eu não a deixe morrer congelada à noite. Ela respondeu com toda a calma; — Não sei como agradecer tanta consideração, Don Rafael. O quevocê sugere? 49
  50. 50. — Eu não sugiro nada. — De repente, tornou-se ameaçador. —Valetta está preocupado, mas no momento não está concordando comnada. Portanto, como objeto de barganha, vai permanecer aqui escondida.Vai continuar fazendo o que tem feito nestes últimos dias, além deconservar esta casa limpa e arejada. Vai lavar as minhas roupas, cozinharminha comida e fazer qualquer serviço que eu pedir. Isso está claro? Por um momento Roberta ficou paralisada. Então conseguiuresponder: — Perfeitamente. Mas está me parecendo muito parcial. O que eurecebo em troca? — quis saber com admirável ousadia. — Você ganha um protetor — ele disse num tom que lhe causouarrepios. — Um protetor? Para me proteger do quê? — De mordida de cobra — ele disse em tom ofensivo. — E dedeslizamentos de terra. E do interesse dos jovens locais. E, é claro, decongelamentos. — Eu não vou dormir com você — afirmou ela com determinação. — Obrigado — ele disse, abrindo o móvel. — Aqui estão as minhascamisas limpas. Depois que tiver lavado esta — e apontou para a que tinhaacabado de tirar —, ponha de volta aqui. Creio que não vai encontrardificuldade em diferenciar as minhas camisas de usar no campo das deusar na cidade. Minutos depois, Don Rafael Madariaga saía, deixando-a sozinha enum terrível estado de nervos. A muito custo, e só após obrigar-se asentar e a fazer exercícios respiratórios por alguns minutos, elaconseguiu se acalmar o bastante para raciocinar com clareza. Vencido o pânico, tentou esquematizar a questão: em primeiro 50
  51. 51. lugar, estava claro que não pretendiam feri-la. Mesmo porque, de nadavaleria ela morta. Em segundo lugar, os moradores da vila haviam seconvencido de que seu precioso Don Rafael se apaixonara por ela;portanto, num caso de briga entre ambos, provavelmente ninguém iriaquerer se envolver, pois acreditariam tratar-se de uma discussão denamorados. Concluindo, não a feririam, mas também não a protegeriam. “Então, o que ele pretende fazer comigo, sabendo que não tenhopara onde ir?”, ela se perguntou. E aí estava uma pergunta que não sabiacomo responder. Ele agia de modo tão imprevisível, ora parecendo querertrucidá-la, ora parecendo até mesmo... desejá-la. E, por mais estranhoque fosse, era essa última possibilidade que mais a perturbava. Inquieta, ela se levantou e foi até a janela. A rua estava vazia.Então tentou imaginar quanto tempo suportaria aquela situação deincerteza antes de explodir numa crise de histeria. Quanto tempo seusnervos suportariam a pressão? Não podia se dar ao luxo de esperar paradescobrir. Só havia uma alternativa: fugir antes que ele voltasse. Semdemora. Mas, ao tentar seguir pela rua, Roberta descobriu que a vila nãoestava tão deserta quanto lhe havia parecido. Notou que era observadapor muitos rostos desconhecidos, não hostis, mas suspeitosos. Resolveuabandonar o plano de escapar pela estrada principal e começou a subir.Sabia que as montanhas eram riscadas por trilhas de lhamas e cabras.Uma dessas trilhas teria de levá-la para longe dali. Assim, caminhando como se estivesse apenas dando um passeio, elaconseguiu se afastar sem levantar suspeitas. Após duas horas de caminhada por um terreno íngreme,escorregadio e pedregoso, Roberta começou a se perguntar se aquela suatentativa de fuga não seria a idéia mais estúpida que já tinha tido. Seuspés doíam, e os mocassins emprestados por Marta começavam a dar 51
  52. 52. sinais de rompimento. Várias vezes ela tropeçou e caiu. No fim, foi quase com alívio que ouviu seu nome sendo chamado.Não tinha mais energia para correr, mesmo que houvesse algum lugarpara onde ir. Exausta e abatida, afastou o cabelo embaraçado do rosto.Não ficou surpresa ao ver Rafael. A elegância e serenidade que eleapresentava depois de empreender aquela caminhada chegava a ser uminsulto, em comparação ao estado em que ela se encontrava. Sem alternativa, parou e ficou esperando que ele se aproximasse,tentando acalmar a respiração ofegante. O ar daquelas montanhasparecia nunca bastar. — Sabe — ele disse quando chegou perto —, é realmente umamulher decidida. Eu a congratulo, Señorita Lennox. — Obrigada — ela disse simplesmente, procurando conservar opouco fôlego que ainda lhe restava. Ele sorriu. — Não muito previdente, é claro, mas, mesmo assim, decidida. Ecorajosa. — Com a mesma segurança de quem caminha por uma calçada,ele terminou de subir o trecho que os separava, no qual ela malconseguira dar um passo sem tropeçar. — Contra a minha vontade, estoudescobrindo em você motivos de admiração. Seu tom era irônico, e ela sabia que ele estava querendo dizerjustamente o contrário. — Não ria de mim! — fulminou numa voz sufocada. — Não seja ridícula! Não vê que poderia se matar num terrenoinseguro como este? Nem sequer está usando um equipamento ou roupasadequadas! — E apontou para os mocassins arrebentados que ela calçava.— O que pretendia fazer quando anoitecesse? E para quê? Para chegar 52
  53. 53. até o topo? Acredita que conquistaria a liberdade passando por cima dasmontanhas, como a heroína de algum melodrama? Roberta mordeu o lábio. Era isso mesmo o que havia imaginado. — Você devia esperar que eu fizesse alguma coisa — ela retrucou. — Talvez eu tenha esperado — ele admitiu, sorrindo para si mesmo.— Mas não isso. — O quê, então? — Apesar do cansaço extremo e de sentir-setonta, Roberta acreditava que, descobrindo o que ele imaginava que elafaria, estaria mais bem preparada para o futuro. Ele deu de ombros. — Algo mais sutil e feminino, eu acho. — Antes que ela pudesseresponder, segurou-a por um braço e puxou-a para si, de volta à trilha deterra batida. Nesse momento, sentindo-se segura, ela foi dominada porum cansaço mortal. Seus joelhos bambearam, e o corpo afrouxou. — Vocêestá exausta! Supondo que ele estivesse aborrecido com sua fraqueza, comenorme esforço endireitou-se sobre os próprios pés e desvencilhou-sedele. — Uma boa caminhada nunca faz mal a ninguém — desafiou. — Aocontrário de terroristas. Por um momento achou que o imperturbável Don Rafael Madariagahesitava. Mas, como sempre, ele logo se recompôs. — Creio que sabe que não somos terroristas — disse. — Ou não seatreveria a dizer isso a mim. Ela se aprumou e olhou bem nos olhos dele. 53
  54. 54. — Não gosta da verdade, Don Rafael? — arriscou, transformando omedo em zombaria. Houve um silêncio, então ele falou: — Quando souber a verdade, talvez eu debata o assunto com você.Mas você é uma ignorante, uma estrangeira que nada sabe do meu país ede mim. — Sei que me seqüestrou — ela replicou com simplicidade. O olhar com que a fulminou quase a pôs em pânico. Roberta precisoude toda sua fibra para não deixar transparecer o pavor que teve naquelemomento. De repente ele rompeu o pesado silêncio num tom brutal. — Então não se esqueça disso. — E puxou-a para si. — Nós vamosvoltar para a vila. Agora. Se resistir, eu a carregarei. Se tentar fugir, eua amarrarei — declarou sem emoção. — Será esperta se não me criarproblemas. A descida de volta foi silenciosa. Várias vezes ela tropeçou, e eleteve de ajudá-la. Mas escorava-a com mãos frias e impessoais. Quandoparavam para que ela tomasse fôlego, ele se restringia a fitá-la seminteresse. Na vila, embora já fosse noite, Angelina correu para recebê-los,como se tivesse ficado esperando. Estava ansiosa, mas Don Rafaelrespondia com monossílabos, e, quando a velha senhora tentou ampararRoberta, a fez recuar com o olhar, segurando sua prisioneira com tantaforça que arrancou-lhe um gemido de dor. — Vejo-a mais tarde, Angelina. A Señorita precisa descansar de suapequena aventura, por isso não vai jantar com vocês esta noite —anunciou, antes de conduzir Roberta para casa, fingindo grandesolicitude. 54
  55. 55. Lá dentro, a claridade produzida por um lampião a querosene criavaum clima de aconchego. Lágrimas inesperadas brotaram nos olhos deRoberta, que virou a cabeça para que ele não as visse. Don Rafael, porém, não tinha sua atenção voltada para ela; ocupava-se em trancar a porta e a janela, criando uma tensão insuportável no ar.Para rompê-la, ela precisava dizer alguma coisa. — Vai me bater por ter fugido? Não quer que ninguém na vila veja? Ele virou-se para encará-la. — Bem que você merecia. Como pôde ser tão irresponsável? Não viuque podia ter quebrado uma perna com essa brincadeira? Ou mesmo opescoço! — Qual é o problema? Tem medo de perder o poder de barganha setiver apenas um corpo para oferecer? — ela zombou. — Nem um pouco — retrucou com calma. — Então o que pretende fazer comigo? — Bem, mantê-la viva. Por bem ou por mal. — Eu quis dizer... agora. — Ah, agora... — Ficou pensativo. — Eu disse à Angelina que você iadescansar. Talvez seja a melhor idéia. — Aproximou-se dela. Recusando-se a ceder, ela levantou o queixo e desafiou-o com oolhar. — Se encostar a mão em mim eu vou gritar tão alto que vão ouvir nooutro vale! Mas, para decepção de Roberta, ele pareceu apenas divertido. 55
  56. 56. — Isso vai aumentar a minha reputação enormemente. — Reputação de violento? — ela disparou sarcástica. Mais uma vez ele a frustrou, rindo alto. — Você está mesmo determinada a me enfurecer, não é? Não havia nada que ela desejasse mais, mas de modo algum iriaadmitir. Disse: — Eu só quero deixar clara a situação. — Mas a situação está clara. Você é minha... hóspede — ele replicousorrindo. — Seu bem-estar é minha responsabilidade. Você pode nãogostar, mas também não pode mudar isso. — Meu bem-estar? — ela repeliu com desdém. — Sua segurança física, conforto e, espero, prazer — explicou comfalsa inocência. Sem saber o que dizer, Roberta deixou-se cair na cama. Ele aestudou com interesse. — Está cansada? Talvez tenha se cansado mais com o esforço dacaminhada do que pensou, não? — Eu não estou nem um pouco cansada... — Ótimo — ele interrompeu, alcançando-a em dois passos.Segurando-a pelos ombros, fez com que se levantasse e pôs-se a estudá-la com cuidado. — Por que está com tanto medo? Deve ter percebido quese não a assassinei até agora é porque isso não está nos meus planos. Vencendo o nó que se formava na garganta, ela deu um jeito deresponder: 56
  57. 57. — Eu não estou com medo. Ele tomou-lhe uma das mãos e levou-a até o próprio peito, ondeambos podiam senti-la tremer. — Não? — Ergueu as sobrancelhas desconfiado. Roberta baixou osolhos, e ele segurou-a pelo queixo, obrigando-a a encará-lo. — Então porque está tremendo? Acha mesmo que eu a machucaria? Ela engoliu em seco. — Eu não sei. — Ajudaria se eu lhe dissesse que possuir mulheres indefesasnunca foi meu passatempo favorito? Roberta, para sua própria surpresa, descobriu que a afirmação nãoajudava em nada. Não temia ser possuída por ele. Era algo maiscomplicado do que aquilo. Interpretando mal seu silêncio, ele prosseguiu: — Admito que me deixou muito bravo. Até encontrar você eusempre me considerei um homem de paz — disse pensativo. — Mas nestesúltimos dias eu cheguei umas duas vezes tão perto de bater numa mulhercomo nunca havia imaginado ser possível para mim, Pela primeira vez desde sua captura, sentindo-o tão perto, Robertafoi dominada por uma estranha sensação. Tinha vontade de que ele não asoltasse, embora soubesse que devia resistir a uma aproximação. — Pretende me dizer que está me ameaçando por minha culpa? —perguntou incrédula. E, para sua total surpresa, viu-o corar, soltando-lhea mão e virando-se, de forma que só podia ver seu perfil decidido. — Você me causa as piores emoções — ele admitiu. — Não sei se éculpa sua ou minha. 57
  58. 58. O medo foi passando, e em seu lugar foi vindo apenas uma espéciede torpor. — Então você não sabe? — ela perguntou. Ele deu de ombros. — Bem, sim, creio que sei. Nós dois não somos mais crianças, e achoque ambos sabemos. Como não o entendesse, Roberta calou. — E o tempo só pode piorar tudo. — Não entendi. — Não? — tornou a olhá-la. — Pois acredite-me, não podia ser pior.O país está prestes a explodir. Para ser sincero, nem sei se já nãoexplodiu. As estações de rádio não estão transmitindo nada há vinte equatro horas. Só a emissora do exército, mas só põe música no ar. — Está dizendo que vai haver uma revolução? — Isso é quase certo, — Passou a mão pelo cabelo num gestodistraído. — E muito breve, se não está acontecendo agora, enquantofalamos. Ela estremeceu. — Que terrível! — Não tão terrível para nós, que estamos em guerra civil há tantosanos. .Agora, ao menos, talvez tenhamos uma chance de estabelecer umgoverno decente para este pobre país. Apesar de tudo, ela não o achou com jeito de um revolucionárioapaixonado pela causa. De fato, parecia muito preocupado. 58
  59. 59. — De que modo você vai estar envolvido? Vai... — ela hesitou —lutar? Ele a encarou com dureza. — Lutar? O que você entende por lutar? Luta com os seuscompetidores, não é? Oferecendo melhores acordos e quantias fora docontrato, não é? Ela se lembrou do presidente Valetta pedindo que uma soma extrafosse depositada em seu nome numa conta secreta na Suíça. Deu risada,balançando a cabeça. — Não me diga que acredita em tudo o que lê nos jornais. — Não? — olhou-a com curiosidade. — Está me dizendo que não usasuborno nos seus acordos, quando necessário, Señorita Lennox? Querdizer, por exemplo, que se eu estivesse em condições de fazer valer esseseu maldito projeto você não tentaria me persuadir a fazê-lo? Ela olhou-o nos olhos. — Bem, sim, é claro. É um bom projeto, e seu país precisa dele. ATechnica não é a única empresa que pensa assim. Mas eu não lançaria mãode nenhum fundo extra imaginário para poder fechar um contrato. — Devo entender, então, que usaria de outros meios? — eleperguntou, grosseiro. — Bem, isso não deixa de ser muito inteligente. Sentindo a boca seca, ela esforçou-se para dizer: — Eu não sei do que está falando. — Oh, eu acho que sabe, minha querida. É uma mulher muitointeligente. Ela balançou a cabeça. 59
  60. 60. — Nesse caso, deixe-me ser bem claro: como ficou evidente desdeo começo, eu quero você. Isso lhe dá uma arma, certo? Mas Deus a ajudese tentar usá-la! Roberta empalideceu, mas conseguiu falar com bastante calma. — Você fala como se eu fosse uma combatente dessa sua revolução.Mas acontece que não sou. — Não — ele concordou, voltando a falar num tom mais suave. —Não. Você está segura aqui, e é onde vai ficar. — Aqui? — Seus olhos voltaram-se para a cama. Rafael deu um suspiro de impaciência. — Em segurança, eu disse. Não vou tocá-la. Estarei muito ocupadopara isso; você pode ser muito útil cuidando dos afazeres domésticos,mas asseguro-lhe que serão as únicas coisas que lhe pedirei. — Atirou ajaqueta de brim sobre o ombro e foi até a porta. Então parou e se virou.— A menos, é claro, que você decida que prefere de outro modo. Depois disso, saiu. CAPÍTULO V Roberta não tornou a vê-lo naquela noite, embora tivesse lutadopara se manter desperta até literalmente não conseguir mais conservaros olhos abertos. No final, acabou se enfiando debaixo das cobertas sem 60

×