Book saga

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Apresentação com o conto «Saga», de sophia de mello Breyner Andressen.

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Book saga

  1. 1. O mar do Norte, verde e cinzento,rodeava Vig, a ilha, e as espumas varriamos rochedos escuros. Havia nesse começode tarde um vaivém incessante de avesmarítimas, as águas engrossavamdevagar, as nuvens empurradas pelovento sul acorriam e Hans viu que seestava formando a tempestade. Mas elenão temia a tempestade e, com os fatosinchados de vento, caminhou até aoextremo do promontório. O voo das gaivotas era cada vez maisinquieto e apertado, o ímpeto e o tumultocada vez mais violentos e os longínquosespaços escureciam. A tempestade, como .uma boa orquestra, afinava os seusinstrumentos.
  2. 2. Hans concentrava o seu espírito Nuvens sombrias enrolavam os anéispara a exaltação crescente do grande enormes e, sob uma estranha luz,cântico marítimo. Tudo nele estava simultaneamente sombria e cintilante, osatento como quando escutava o cântico espaços se transfiguravam. De repente,do órgão da igreja luterana, na igreja começou a chover.austera, solene, apaixonada e fria. A família de Hans morava no interior Para resistir ao vento, estendeu-se da ilha. Ali, o rumor marítimo só em diasao comprido no extremo do de temporal, através da florestapromontório. Dali via de frente o inchar longínqua, se ouvia.da ondulação cada vez mais densa como Mas ele vinha muitas vezes até àse as águas se fossem tornando mais pequena vila costeira e, esgueirando-sepesadas. pelas ruelas, caminhava ao longo do Agora as gaivotas recolhiam a terra. cais, ao lado de botes e veleiros,Só a procelária abria rente à vaga o voo .atravessava a praia e subia ao extremoduro. À direita, as longas ervas do promontório. Ali, no respirar da vaga,transparentes, dobradas pelo vento, ouvia o respirar indecifrado da suaestendiam no chão o caule fino. própria paixão.
  3. 3. Nesse dia, quando ao cair da noiteentrou em casa, Hans curvou a cabeça.Pois aos catorze anos já tinha quase aaltura de um homem e, em Vig, as portasde entrada são baixas. Assim é desde o tempo antigo dasguerras quando os invasores queocupavam a ilha penetravam nas casasde cabeça erguida mas exigiam que agente da ilha se curvasse para os saudar.Então, os homens de Vig baixaram olintel das suas portas para obrigarem ovencedor a baixar a cabeça. Sören, pai de Hans, era um homemalto, magro, com os olhos cor deporcelana azul, os traços secos e belasmãos sensíveis que mais tarde, durantegerações, os seus descendentesherdaram. Nele, como na igreja
  4. 4. luterana, havia algo de austero e solene, Os seus irmãos mais novos - Gustav eapaixonado e frio. À casa e à família Niels - tinham morrido no naufrágio deimprimia uma inominada lei de silêncio um veleiro que lhe pertencia. Sören sabiae reserva onde o espírito de cada um que o seu barco era um bom barco ondeconcentrava a sua força. De certa forma ele próprio inspecionara com minúciaSören reconhecia o risco que corria: cada cabo e cada tábua, sabia que os seussabia que é no silêncio que se escuta o jovens irmãos eram perfeitos homens dotumulto, é no silêncio que o desafio se mar e hábil e competente o capitão aconcentra. Mas ele impunha a si mesmo quem tudo entregara. No entanto, o navioe aos outros uma disciplina de naufragou quando a experiência e oresponsabilidade e de escolha dentro da cálculo não mediram exatamente a forçaqual cada um ficava terrivelmente livre. e a proximidade do temporal.Havia porém algo de taciturno e ansiosoem Sören: ele pensava talvez que aintegridade humana, mesmo a maisperfeita, nada podia contra o destino. Dodever cumprido, da liberdade assumida,não esperava sucesso nem prosperidade,nem mesmo paz.
  5. 5. Mal a notícia do naufrágio foi Queria navegar para o Sul. Imaginavaconfirmada pelo cargueiro inglês que dois as grandes solidões do oceano, o surgirdias depois recolhera ao largo os solene dos promontórios, as praias ondedestroços do veleiro desmantelado - o baloiçam coqueiros e onde chega até aomastro partido, as boias, o bote virado - mar a respiração dos desertos. ImaginavaSören vendeu os seus barcos e comprou as ilhas de coral azul que são como osterras no interior da ilha. Dizia-se mesmo olhos azuis do mar. Imaginava o tumulto,que nunca mais olhara o mar. Dizia-se o calor, o cheiro a canela e laranja dasmesmo que nesse dia tinha chicoteado o terras meridionais.mar. No entanto Hans suspirava e nas Queria ser um daqueles homens que alongas noites de inverno procurava bordo do seu barco viviam rente aoouvir, quando o vento soprava do maravilhamento e ao pavor, um daquelessul, entre o sussurrar dos abetos, o homens de andar baloiçado, com a caradistante, adivinhado, rumor da queimada por mil sóis, a roupa desbotadarebentação. Carregado de imaginações . rija de sal, o corpo direito como um equeria ser, como os seus tios e mastro, os ombros largos de remar e oavós, marinheiro. Não para navegar peito dilatado pela respiração dosapenas entre as ilhas e as costas do temporais. Um daqueles homens cujaNorte, seguindo nas ondas frias os ausência era sonhada e cujo regresso,cardumes de peixe.
  6. 6. mal o navio ao longe se avistava, faziaacorrer ao cais as mulheres e as criançasde Vig e a história que eles contavam erarepetida e contada de boca em boca, degeração em geração, como se cada um ativesse vivido. Sören e Maria jantavam com osfilhos, Hans e Cristina, em redor docírculo luminoso da lâmpada. Lá fora asmadeiras da janela batiam, através dafloresta arfava o rumor marinho datempestade. Por entre as agulhas dospinheiros e os ramos das bétulasperpassavam ecos, sibilâncias, gritos e,contra o céu baixo de nuvens, ressoava olongínquo tumulto da rebentação. - Sören, que notícias ouviste hoje navila? - perguntou Maria.
  7. 7. - Más notícias. O Elseneur devia terentrado a barra a meio da tarde mas, aopôr-do-sol, ainda não se avistava. Vãoser obrigados a passar o temporal e anoite no mar. - É um bom barco - disse Hans queconhecia o Elseneur palmo a palmo. - Éum navio que aguenta muito mar. - Deus os guarde - murmurou Nenhum homem se salvou. O ventoMaria. Pois o Elseneur era o melhor espalhou os gritos no clamor da escuridãonavio de Vig e a sua tripulação era selvagem, a força das braçadas desfez-seformada por gente da ilha, homens nos redemoinhos, a água tapou as bocas.jovens que ela conhecia desde o berço, Nem os que treparam aos mastros seou velhos lobos-do-mar que a salvaram, nem os que se meteram nosconheciam desde a própria infância. .botes, nem os que nadaram para terra. OPorém, nessa noite, enquanto Hans mar quebrou tábua por tábua o casco, osdormia, o Elseneur naufragou contra os mastros, os botes e os marinheiros foramrochedos negros das falésias rolados entre a pedra e a vaga.
  8. 8. Estas foram as notícias que as criadas Um instante passou, pesado como umde manhã trouxeram do mercado. longo tempo. Finalmente Sören falou: Nesse dia, à noite, depois do jantar, - Hoje escrevi para Copenhaga. No fimquando a mulher e a filha se levantaram deste Verão vais para lá estudar. Escolheda mesa, Sören continuou sentado e o que queres estudar.disse a Hans: - Quero ser marinheiro - respondeu - Fica. Hans. Hans apoiou-se ao grande armário de - Não. Escolhe outra coisa. Podesmadeira lavrada, fora do círculo da luz estudar leis ou medicina ou engenharia.da lâmpada, semioculto na penumbra. Lá - Quero ser capitão de um navio.fora continuava o mau tempo e a Sören poisou as mãos sobre a mesa sob aventania sacudia as portadas fechadas. luz branca e direta da lâmpada. Hans - Senta-te - ordenou Sören. mais uma vez viu como elas eram belas, Hans avançando, entrou no círculo daluz, e sentou-se em frente de Sören e .belas e e contida paixão. No entanto, austera penetradas de domínio em suafitou o branco da toalha. nesse momento, tremiam um pouco e Quando o vento parava, ouvia-se um Sören apertava-as uma contra a outratilintar de loiça no interior da casa. enquanto falava.
  9. 9. - Ouve - disse ele. - Esta manhã fui ao Hans fitou a toalha. Baixo e devagar,lugar do naufrágio, à Ponta do Norte. Fui respondeu:acompanhar Knud que ia em busca do - Não posso.corpo dos seus dois filhos. O mar já tinha Sören apertou uma contra a outra asatirado muitos dos corpos para a praia. mãos, levantou-se em silêncio e saiu semMas estavam quase todos completamente fechar a porta. Sob os seus passosdesfigurados de tanto terem sido batidos ouviram-se gemer os degraus da escada.contra os rochedos da falésia. A praia Depois, no interior da casa, soou o tilintarestava cheia de gente. Cada um procurava da loiça e subiu um riso de mulher. Hansos seus mortos. Knud só pôde reconhecer estava de pé na penumbra, encostado aoos filhos pelo anel de prata que ambos armário de madeira lavrada.usavam no terceiro dedo da mão direita. Lá fora o vento fazia ressoar todas asDisse: “Maldito seja o mar”. Não hás de suas harpas.ser marinheiro, Hans. Escolhe outro Em agosto, chegou a Vig, vindo da.ofício. Não quero amaldiçoar o mundo Noruega, um cargueiro inglês que seonde nasci nem acusar o Deus que me chamava Angus e seguia para o Sul. Ocriou. Muda de ideias. Promete-me que capitão era um homem de barba ruiva enunca serás homem do mar. Dá-me a tua aspeto terrível que navegara até aospalavra. mares da China. Foi no Angus que Hans
  10. 10. Depois atravessaram as tempestades dafugiu de Vig, alistado como grumete. Biscaia. Ali a vaga media dez metros e a Navegaram primeiro com bom água tornara-se espessa, pesada e brutaltempo e o veleiro corria esticado no em seu cinzento metálico. Todas asvento. Unido ao balanço, Hans, enquanto madeiras gemiam como se fossemlavava o convés, polia os metais ou despedaçar-se e sentia-se a tensão dosenrolava os cabos, aspirava a veemência cabos repuxados. As ondas varriam oda vasta respiração marítima. Os seus convés e o navio, ora erguido na crista daouvidos escutavam a força viva do navio vaga ora caindo pesadamente, parecia aque galgando a onda reencontrava o cada instante tocar seu ponto de rutura eequilíbrio sobre o desequilíbrio das desmantelamento. Mas Hans sentia aáguas. elasticidade do barco, a sua precisão de extremo a extremo e o equilíbrio que, entre vaga e contravaga, não se . rompia. Mais tarde os navios de Hans nunca naufragaram.
  11. 11. Contornaram a terra, navegaram parao sul e, ao cair de uma tarde, penetraramsob o arco das gaivotas, na barra estreitade um rio esverdeado e turvo, flutuantede imagens entre as margens cavadas. Àesquerda, subindo a vertente, erguia-se ocasario branco, amarelo evermelho, misturado com os escurosgranitos. Na luz vermelha do poente a Hans amou desde o primeirocidade parecia carregada de momento a respiração rouca damemórias, insondavelmente cidade, o colorido intenso eantiga, feérica e magnetizada, com todos sombrio, o arvoredo murmurante eos vidros das suas janelas cintilando. espesso, o verde espelhado do rio. NaAnimava-a uma veemência indistinta estrada que corria junto às margensque aqui e além aflorava em viam-se bois enfeitados eecos, rumores, perpassar de vultos, gritos vermelhos, puxando carros de madeiralongínquos e perdidos, reflexo de luzes que chiavam sob o peso desobre o rio. pipas, pedra e areias.
  12. 12. O navio demorou-se vários dias no Hans, sozinho, no meio do círculocais, carregando e descarregando. Na vazio, suportou com um sorriso calmo ovéspera da partida entre Hans e o capitão rosto irado que o fitava. Houve umlevantou-se uma furiosa querela. pesado silêncio. Hans estava de pé no cais, vestido - Despe isso - gritou o capitão. - Aquicom uma pele de urso branco que não é um circo.encontrara no porão. No centro de um Hans, devagar, com um sorrisocírculo de marinheiros, que batiam petulante, despiu a pele do urso epalmas para marcar o ritmo, dançava e estendeu-a a outro grumete, dizendo: -ria sacudindo uma pandeireta. Juntava-se Toma, meu pajem, leva o meu manto.gente. Como se se tratasse de um circo E a pele, sem que nenhum braço seambulante um grumete tirara o barrete e estendesse para a receber, caiu mole noestendia-o aos espectadores que chão.começavam a lançar moedas. A tarde - Aqui não é um teatro - disse oescorria sobre o rio. capitão, olhando Hans na cara. Foi esta cena que o capitão viu Hans sustentou o olhar e o seu sorrisoquando, de súbito, irrompeu no convés. tornou-se duro e teimoso.A sua barba vermelha brilhava de fúria.
  13. 13. - Apanha a pele - ordenou o capitão. Parou em frente dos ourives para olhar- E vai para bordo, tu e os outros todos as montras, à porta das adegas respirou apara bordo. frescura sombria e o cheiro do vinho No porão o capitão chicoteou Hans entornado. Caminhou ao longo do rio, naem frente dos homens calados. No fim margem onde as mulheres, descalças,disse-lhe: carregavam cestos de areia enquanto - Agora aprendeste a ter juízo. outras discutiam, aos magotes, cortando Mas nessa madrugada, em segredo, com grandes brados e largos gestos o arHans abandonou o navio. Caminhou ao liso da manhã. Penetrou nas igrejas deacaso na cidade desconhecida, perdido azulejo e talha que não eram claras e friasno som das palavras estrangeiras, como as igrejas do seu país, mas doiradasperdido na diferença dos sons, da luz, e sombrias, numa penumbra trémula dedos rostos e dos cheiros, carregando o velas onde negrumes e brilhos animavamseu pequeno saco, procurando nas ruas o o rosto das imagens que num incertolado da sombra. Através de grades de . sorriso pareciam reconhecê-lo. Dormiuferro pintadas de verde, espreitou o nos degraus de uma escada, sob os arcosinterior sussurrante de insondáveis da praça, nos bancos do jardim público ejardins onde sob enormes arvoredos se as noites pareceram-lhe mornas eabriam trémulos junquilhos. transparentes.
  14. 14. Hoyle era armador e negociava no transporte de vinho para os países do Assim, diz-se, terá vagueado quatro Norte. Vivia naquela cidade há trinta anos,dias, tonto de descobrimento, de espanto mas sempre como estrangeiro, seme de solidão. Mas ao quinto dia o seu aprender decentemente a língua da terraânimo quebrou-se. A língua estrangeira nem se habituar à sua comida. Só ao climafechava em sua roda um círculo. De e aos vinhos se habituara. Para além dasrepente, reconheceu o seu exílio, a sua relações com empregados, criados efraqueza. Foi então que um inglês alguns comerciantes não convivia comchamado Hoyle que morava para o lado indígenas. As suas relações e amizadesdo rio o encontrou, a chorar, encostado ao eram só com ingleses, só falava bemmuro da sua quinta e lhe bateu com a mão inglês, só lia jornais ingleses e comia sóno ombro e o levou consigo e o recolheu. comida inglesa com mostarda inglesa, na . casa mobilada com mesas, cadeiras, sua armários, camas e gravuras inglesas e onde pairava sempre um cheiro inglês a farmácia.
  15. 15. Hans ficou a viver nessa casa, em Dois dias depois de ter recolhidoparte como empregado, em parte como Hans, Hoyle levou-o ao centro da cidade efilho adotivo. comprou-lhe as roupas de que precisava e A sua adolescência cresceu entre os também papel e caneta.cais, os armazéns e os barcos, em Hans escreveu para casa: pediu comconversas com marinheiros embarcadiços ardor perdão da sua fuga, dizia as suase comerciantes. De um barco ele sabia razões, as suas aventuras, o seu paradeiro.tudo desde o porão até ao cimo do mais Prometia que um dia voltaria a Vig e seriaalto mastro. E, ora a bordo ora em terra, o capitão de um grande veleiro.ora debruçado nos bancos da escola sobre A resposta só veio meses depois. Eramapas e cálculos, ora mergulhado em uma carta da mãe. Leu: “Deus te perdoe,narrações de viagens, estudando, Hans, porque nos injuriaste e abandonaste.sonhando e praticando, ele preparava-se Manda-me o teu pai que te diga que nãopara cumprir o seu projeto: regressar a voltes a Vig pois não te receberá.”Vig como capitão de um navio, serperdoado pelo pai e acolhido na casa.
  16. 16. Depois dessa carta, Hans sonhou com No adolescente evadido ele via agoraVig muitas vezes. Era acordado de noite um reflexo da sua própria juventudepelo clamor de tempestades em que aventurosa que, há muito tempo, naquelanaufragava à vista da ilha sem a poder cidade ancorara. Para ele, Hans era a suaatingir. Ou deslizava, ao lado do pai, num nova possibilidade, o destino outra vezgrande lago gelado, rente à luz de cristal e oferecido, aquele que iria viver por ele ahavia em seu redor um infinito silêncio, verdadeira vida, que nele, Hoyle, estava jáuma transparência infinita, uma leveza e pedida como se o destino, tendo falhadouma felicidade sem nome. Mas outras seus propósitos, fizesse, com uma novanoites acordava chorando e soluçando, mocidade, uma nova tentativa. Assim,pois o seu pai era o capitão do navio e o Hans era para ele não o herdeiro daquilochicoteava brutalmente no convés e ele que possuía e fizera mas antes o herdeirofugia e de novo ficava sozinho e perdido daquilo que perdera. Por isso seguiu passonuma cidade estrangeira. a passo os estudos e a aprendizagem do Os anos passaram e Hans aprendeu a . adolescente, controlando a qualidade doarte de navegar e a arte de comerciar. ensino nas escolas onde o inscrevera eHoyle nunca casara e, numa terra para ele vigiando a competência dos superiores sobestrangeira, não tinha família e as suas cujas ordens a bordo o colocava.raras amizades eram pouco íntimas.
  17. 17. Aos 21 anos, já Hans era capitão de Escorrendo água do mar, estendido naum navio de Hoyle e homem de praia, afastado um pouco dosconfiança nos seus negócios. companheiros, poisava sobre os ouvidos Assim, desde muito cedo, Hans dois grandes búzios brancos, rosados econhecera as ilhas do Atlântico, as costas semitranslúcidos e pensava: “Um diade África e do Brasil, os mares da China. levarei estes búzios para Vig.” E à noite,Manobrou velas e dirigiu a manobra das já a bordo, escrevia para casa uma longavelas, descarregou fardos e dirigiu o carta que falava de búzios do Índico.embarque e desembarque de mercadorias. Encostado à amurada do navio em Respirou o arfar dos temporais e a noite de luar e calmaria, com os olhosimensidão azul das calmarias. Caminhou postos no grande olhar magnético da luaem grandes praias brancas onde cujo rasto trémulo de brilho como o dorsobaloiçavam coqueiros, rondou de um peixe cortava a escuridão estáticapromontórios e costas desertas, perdeu-se das águas, pensava: “Um dia contarei emnas ruelas das cidades desconhecidas, Vig este brilho, esta escuridãonegociou nos portos e nas fronteiras. transparente, este silêncio.” No dia seguinte escrevia para casa, contando a noite, o mar, o luar.
  18. 18. Num porto distante, sentado a cearna varanda da hospedaria, sob a luz daslanternas de cor, enquanto sedeslumbrava com a beleza das loiças,com seus desenhos azuis e seu brancoazulado e descobria o sabor sábio dostemperos exóticos, pensava: “Levarei “Deus te proteja e te dêpara Vig esta loiça e estas especiarias saúde. Mas não voltes apara alegrar e aquecer as ceias do Vig porque o teu pai nãoInverno.” E, no dia seguinte, escreviapara casa contando o azul das loiças, a te quer receber.”beleza das sedas e das lacas e asmaravilhas do tempero. Mas, quando aofim de longos meses regressou e Hoylelhe entregou o correio chegado na sua .ausência, as cartas da mãe, em respostaàs notícias que do cabo do mundomandara, eram sempre a mesmamensagem:
  19. 19. Quando estava já passada a sua À noite relatava a Hoyle as conversasprimeira mocidade, um dia, à volta de que tivera, as decisões que tomara.uma das suas viagens, Hans encontrou Depois bebiam juntos um copo de vinho.o inglês doente. O mal atacara os seus A vida de Hans mais uma vez tinhaolhos e a cegueira avançava rápida. virado. Já não eram as longas navegações - Hans - disse ele -, estou velho e até aos confins dos continentes, o avançarcego, já não posso tratar dos meus aventuroso ao longo de costas luxuriantesbarcos, dos meus armazéns, dos meus e de costas desérticas, de povo em povo,negócios. Fica comigo. de baía em baía. Agora verificava a ordem Hans ficou. Deixou de ser dos armazéns, o bom estado dos navios, aempregado de Hoyle e tornou-se seu competência das equipagens, controlavasócio. Sentado em frente da pesada as cargas e descargas, discutia negócios emesa de carvalho recebia os contratos. As suas viagens iam-secomerciantes, os chefes dos armazéns e tornando rápidas e espaçadas.os capitães de navio. As suas narinas E Hans compreendeu que, comotremiam quando no gabinete entravam todas as vidas, a sua vida não seria mais agentes vindas de bordo. Porque deles sua própria vida, a que nele estavase desprendia cheiro a mar. A renúncia impaciente e latente, mas um misto deendurecia os seus músculos. encontro e desencontro, de
  20. 20. desejo cumprido e desejo fracassado, fortuna não era nem a sua ambição, nem aembora, em rigor tudo fosse possível. E sua aventura nem o seu jogo e nela nada decompreendeu que as suas grandes si próprio envolvia. Enriquecia porque avitórias seriam as que não tinha sua perceção e os seus cálculos estavamdesejado e que, por isso, nem sequer certos.seriam vitórias. Algum tempo depois casou com a filha Escreveu ao pai. Disse-lhe que não de um general liberal que desembarcara noera mais um navegador entre as ondas Mindelo e cuja espada, mais tarde,e o vento. Que era um homem transitando de herança em herança, seestabelecido, em terra firme e que conservou na família. Escolheu Ana porquequeria voltar a Vig. Foi a mãe que tinha a cara redonda e rosada e cheirava arespondeu à sua carta dizendo que o maçã como a primeira mulher criada epai não o receberia. como a casa onde ele nascera, e porque o Associado ao inglês, Hans começou seu loiro de minhota lhe lembrava asa construir uma fortuna pessoal que tranças das mulheres de Vig. Pouco antesnunca tinha projetado. Era um homem do seu casamento Hoyle morrera e Hansde negócios hábil porque se apercebia fundara a sua própria firma cujada natureza das coisas e da natureza prosperidade crescia. Era agora um homemdas pessoas e negociava sem paixão. A rico e também respeitado e escutado.
  21. 21. A sua honestidade era célebre e a suapalavra era de oiro. Parecia estar já inteiramenteintegrado na cidade onde, quase aindacriança, vagueara estrangeiro e perdido.Conhecia um por um os notáveis doburgo: ele próprio agora era um dosnotáveis do burgo. Amava o rio, ogranito das casas e calçadas, as enormestílias inchadas de brisas, as cameleiras defolhas polidas que floriam desdenovembro até maio. E foi no tempo das últimas camélias(vermelhas, pesadas e largas) que nasceuo seu primeiro filho. . Tinha sido decidido que a criançaseria batizada no seu sétimo dia de vidae que, após o batizado, o primeiro naviode Hans seria lançado à água.
  22. 22. Tudo se preparava para a festa - Vai, Sören, Deus te proteja equando, na madrugada no sexto dia, o navega por todo o mar.recém-nascido adoeceu. Foi batizado de Nasceu o seu segundo filho nourgência recebendo o nome de Sören. tempo das primeiras camélias, emFoi Hans quem, dobrando o seu Novembro do seguinte ano. Era umcorpo, colocou no caixão o pequeno rapaz grande e robusto e quando elecorpo deitado nas suas mãos abertas. começou a andar Hans, mais uma vez, Mas não deixou adiar o lançamento escreveu para Vig. E mais uma vez foi ado navio e no dia seguinte desceu a pé mãe que respondeu dizendo que o paidesde o cemitério até à doca. não o receberia. Na manhã de maio, as árvores Os anos foram passando e a riquezaestavam cheias de folhas novas, e ao de Hans continuava a crescer. Nasceram-longe, do outro lado da foz, a claridade lhe mais cinco filhos, três rapazes e duasbrilhava na rebentação da praia, as raparigas. Aumentou também o númeroondas sacudiam as crinas como cavalos .dos seus barcos e a extensão dos seusfelizes e as gaivotas descreviam no céu negócios.grandes arcos festivos. Quando o navio começou a deslizarHans disse:
  23. 23. E de novo se multiplicaram as suas Já não era como se o barco fosse oviagens. Mas não eram já os seu corpo, como se o emergir dasaventurosos caminhos da sua juventude: paisagens fosse a sua alma e o seueram viagens de negociante que vai próprio rosto, como se o seu ser seestudar mercados, abrir sucursais, confundisse com as águas.estudar contratos e contactos. Porém A sua antiga fuga de Vig fora, dequando a bordo, à noite, sozinho à popa, certa forma, inútil. Nem a traição lhe deraolhando o rasto branco da espuma, o seu destino.respirava o vento salgado, ou quando no E entre negócios e nostalgia, viagensseu beliche sentia o bater das ondas no e empreendimentos se foram os anoscasco, às vezes, de súbito, reencontrava passando. No entanto parecia a Hans quea voz, a fala do seu destino. Mas era só algo em sua vida, embora fosse já tãoo fantasma do seu destino. Em rigor ele tarde, era ainda espera e espaço aberto,já não era quem era e tinha encalhado possibilidade.em sua própria vida. Já não era o . Quando a mãe morreu, mais uma veznavegador que no barco e no mar está ele escreveu ao pai. Mas do pai nuncaem sua própria casa, mas apenas o veio resposta e foi então que Hansviajante que por uns tempos deixou a compreendeu que jamais regressaria asua própria casa aonde vai regressar. Já Vig.
  24. 24. Hans mandou fazer grandes obras. Da Boémia vieram os vidros de cristal lavrado das portas, semitransparentes e semifoscas e tendo gravadas as suas iniciais, vieram os copos, jarras, jarros, taças e compoteiras cuja transparência brilhava e tilintava em Passados alguns meses comprou almoços e jantares. Da Alemanha, daurna quinta que do alto de uma pequena França, de Itália vieram as sedas e oscolina descia até ao cais da saída da veludos dos cortinados e os móveis à últimabarra. Entrava-se na quinta, pelo lado moda e muito do vinho das garrafeiras,dos campos, por um portão de ferro vinho do Reno e Mosela e vinho tinto daque, depois de o passarmos, ao fechar- Borgonha, vinho de Champagne e vinho dese batia pesadamente. Itália, alinhados por ordem de origem ao Em frente, surgia a casa, enorme, lado dos vinhos do Douro e da Madeira.desmedida, com altas janelas, largas Muito mais tarde, nessas caves quase vaziasportas e a ampla escadaria de granito, e cheias de teias de aranha e sustos, os netosabrindo em leque. Na parte de trás, de Hans, às escondidas das mestras ecorria uma longa varanda debruçada criadas, divagaram em exploraçõessobre os roseirais do poente. sonhadoras. Mas naquele tempo chegavam sem cessar
  25. 25. coisas novas: o enorme bilhar com as Mas o grande maravilhamento dasbolas de marfim encarnadas e brancas crianças era uma caixa retangular e alta eonde vieram jogar todos os campeões para dentro da qual se espreitava atravésda região, o piano de cauda, onde de dois óculos. Lá dentro viam-se, emtocaram meninas prendadas, mas relevo e a cores, cenas de óperas etambém verdadeiros pianistas, os bailados. Fazia-se girar um botão e asespelhos de fundo esverdeado, as caixas cenas mudavam. E durante horas asde laca com os tentos de crianças espreitavam, pois os óculos erammadrepérola, os quadros de um para elas janelas abertas para o jardim derealismo romântico onde se viam um outro mundo, um mundo ondecampos, aldeias, pontes e camponesas princesas, caçadores, pajens e bailarinassonhadoras, vestidas à moda da viviam misteriosos enredos, um mundoCalábria. Chegavam real e inacessível como o verdadeirolustres, bustos, estátuas e o enorme destino de cada um.globo terrestre onde os filhos e os netos . Tudo na casa era desmedidamentecismaram a geografia. grande desde os quartos de dormir onde as crianças andavam de bicicleta até ao enorme átrio para o qual davam todas as
  26. 26. das rosas, do brilho das pratas do tilintar desalas e no qual, como Hans dizia, se copos e talheres. Entretanto, à medida quepoderia armar o esqueleto da baleia que a vida ia cumprindo os seushá anos repousava, empacotado em ciclos, noivados, casamentos, nascimentos,numerosos volumes, nas caves da batizados iam povoando a casa de azáfamaFaculdade de Ciências por não haver e festas, animando e dramatizando oslugar onde coubesse armado. dias, reajustando as relações dos Agora que os filhos cresciam, Hans personagens como numgostava dos longos jantares. Além da caleidoscópio, quando, num clic, sefamília, sempre havia amigos e reajustam as relações das figuras.convidados, muitos deles gente de Os filhos tinham crescido. As quatropassagem, capitães de navios, Estações giravam.negociantes, músicos que vinham dar De súbito, Hans não reconhecia oconcertos na cidade. Hans precisava da tempo. Como alguém que distraído deixadiversidade das companhias, de passar a hora em que devia comparecer emconversas que lhe trouxessem um eco de . determinado jardim e se espanta que seja játerras e vidas diferentes. E gostava da tão tarde, assim agora ele se espantavaanimação das vozes, da abundância e da como se não tivesse à passagemqualidade das comidas, da excelência reconhecido os dias e, por descuido, tivessedos vinhos, da frescura e da beleza deixado passar os anos sem comparecer à
  27. 27. sua própria vida. E não sabia bem Depois o seu pensamento derivava e acomo tanto se atrasara, encalhado em alta proa do grande navio avançava comhábitos, afazeres e demoras sem jamais terra à vista ao longo de praias desertas.surgir, assomar, à proa do navio, no O cheiro de África penetrava o seu peito.horizonte de Vig. Faltava algo que lhe Via as florestas, as embocaduras, ouviaera devido. gemer os mastros. Dispersas memórias E agora deitava-se tarde. Quando os irrompiam: sob a vasta noite atlânticaconvidados saíam e a casa adormecia, estava deitado no convés com o brilhoficava sozinho no átrio, sentado à mesa das estrelas sobre o rosto, ouvindo oredonda onde se empilhavam as revistas bater do mar no barco e o bater das velasdo mês e os jornais da semana. Folheava inchadas e, sobre o seu corpo, corriamo Times, via as cotações da Bolsa de brisas e alísios salgados e, brandamente,Londres, programava e meditava os seus penetrava no interior do universo e dapróprios empreendimentos. Pensava na noite. Estava sentado num pequeno muromulher, nos filhos que tinham crescido, e .em frente do cais de um porto chinêsque, ao crescer se tinham ido definindo, onde juncos e faluas se cruzavam,enquanto ele, atentamente, procurava enfeitados de cores vivas, cheias deneles parecenças - ecos de memórias, vozes, luzes e música: e as cores e assombras de rostos amados e perdidos. luzes refletiam-se deslizando nas águas
  28. 28. e as vozes e as músicas flutuavam no os navios avançavam para a ilha. Grandesar pesado e leve das noites. E no souk velas côncavas e abertas, negros cascosde Marrocos um rapaz sentado no chão cortando as águas frias. Vozes roucas norespirava uma rosa. Sentia ainda a cais, cabos puxados, amarras, azáfama dofrescura do leite e a doçura das tâmaras atracar, dedilhar de água nas pedras,que lhe tinham oferecido à chegada e vaivém de botes. Descarga, roldanas,como então descobriu um luxo que não manobras, ordens. E um por um, nimbadosera a pesada riqueza da Europa, mas de sal e distância, queimados pelo vento eera silêncio e rumor de água e o pelo sol, altos homens de largos ombroscerimonial das vozes, das palavras e desembarcavam na tarde fria e, daí ados gestos. E no canto do átrio vazio poucas horas, já de boca em boca, de casacismava vagamente, nem sequer em casa, corria a notícia das suassabendo que cismava, debruçado sobre pescarias, das tempestades atravessadas,papeladas, contas e jornais ingleses. das singraduras percorridas, dos perigos,Mas de súbito estremecia e passava . medos e maravilhas que tinhampara além do próprio cismar: a encontrado. E daí em diante a sua históriamemória de Vig subia à flor do mar. Os seria contada junto ao lume dos longosnevoeiros marítimos invadiam a sua Invernos e, cismada por crianças, sonhadarespiração. Desde o horizonte por
  29. 29. por adolescentes, entraria no grande Nas cerejas brancas havia um leve saborespaço mítico que é a alma da vida. a amêndoa, um levíssimo travo amargoMas dele, Hans, burguês próspero, cortando a doçura sumarenta da polpa.comerciante competente, que nem se Em novembro as primeiras caméliasperdera na tempestade nem regressara ao eram de um rosa pálido e transparente ecais, nunca ninguém contaria a história, mantinham-se direitas e rijas na haste.nem de geração em geração, se cantaria a Os seus troncos largavam nos dedos umsaga. Fechou os livros de contas, dobrou pó escuro que as crianças limpavam aoos jornais, levantou-se pesadamente e bibe.atravessou como estrangeiro a sua casa. E ritmados pelas quatro estações, os anosVagos os espelhos luziam nas penumbras. passavam e, como as tílias e osNeles uma pesada imagem sua, não pomares, a nova geração de criançasreconhecida, passava. Porém em redor da crescia. No fundo da quinta, para oscasa os anos faziam crescer os jardins e lados da barra, Hans mandou construirpomares. As cerejas brancas e as camélias . uma torre. Segundo disse para ver ada quinta tornaram-se entrada e a saída dos seus barcos. Daí emcélebres. diante, de vez em quando, à tarde, em vez de trabalhar no escritório, trabalhava no quarto da torre onde recebia os
  30. 30. Daí em diante, de vez em quando, à do horizonte marinho. - Avô - dissetarde, em vez de trabalhar no escritório, Joana - porque é que está sempre atrabalhava no quarto da torre onde olhar para o mar?recebia os empregados e as pessoas que o - Ah! - respondeu Hans. - Porque oprocuravam. Consigo às vezes levava mar é o caminho para a minha casa.Joana, a neta mais velha, que achava na - E os anos começaram a passar muitotorre grande aventura e mistério, e a depressa. E uma certa irrealidadequem ele ensinava o nome e a história começou a crescer.dos navios. Depois, quando queria - Hans agora já não viajava. Estavatrabalhar, dava à neta lápis e papel para velho como um barco que nãoque ela desenhasse enquanto ele se navegava mais e prancha por pranchadebruçava sobre contratos, cartas, livros, se vai desmantelando. Tinha as mãoscontas, relatórios. Mas Joana desenhava um pouco trémulas, o azul dos olhospouco. Levantava a cabeça e fitavaintensamente Hans pois algo na sua cara a .desbotado, fundas rugas lhe cavavam a testa, os cabelos e as compridas suíçasfascinava e inquietava. E via então que estavam completamente brancas. Mastambém ele não trabalhava: para além da era um velho imponente e terrível, altobarra, para além da rebentação, os seus e direito em seu pesado andar,olhos fitavam os verdes azuis autoritário nas ordens que dava e
  31. 31. sempre um pouco impaciente e taciturno. Quase até ao fim todos esperaram queQuando adoeceu para morrer, ia o homem robusto sacudisse a doença.novembro perto do fim. Durante seis dias, Hans sereno e As camélias brancas estavam em consciente pareceu resistir. Mas ao sétimoflor, levemente rosadas, macias, dia a febre subiu, a respiração começou atransparentes. Algumas lhe trouxeram ao ser difícil e na sua atenção algo se alterou.quarto, apanhadas à beira do roseiral. No quarto o ambiente tornou-se Num tempo ainda sem radiografias sussurrado, com luzes veladas e gestosmorria em casa à maneira antiga, de uma silenciosos como se cada pessoa tivessedoença incertamente diagnosticada, medo de quebrar qualquer fio.rodeado pela mulher, pelos filhos, por Ao cair da noite, Hans - que durantecriados antigos e médicos e enfermeiros. longas horas parecera semiadormecido -A incerteza do diagnóstico era, de certa abriu os olhos e chamou.forma, uma misericórdia. . A mulher e os filhos debruçaram-se sobre ele para o ouvir. - Quando eu morrer - pediu Hans - mandem construir um navio em cima da minha sepultura.
  32. 32. - Um navio? - murmurou o filho maisvelho. - Um navio como? - Naufragado - disse Hans. E, até morrer, não falou mais. Talvez Hans estivesse já delirantequando pronunciou as últimas palavras,pensou-se. No entanto o pedido foicumprido. Hans foi enterrado no lado sul docemitério, no terreno reservado aosprotestantes. Daí se vê o rio, a barra, o mar e, aolongo das avenidas, os plátanos arrastamno outono as suas folhas. Em pedra e bronze, com mastros .quebrados e velas rasgadas, o navio foiconstruído sobre a campa de Hans.
  33. 33. Este estranho jazigo que entrelápides, bustos, anjos de pedra,canteiros e piedosas cruzes tinha algode arrebatado e selvático, tornou-sedepressa um dos monumentos famososda cidade e vinha gente das redondezaspara o ver. A sua enorme sombra inquieta quempasse sozinho na avenida dos plátanose muitos perguntam porquê tãoestranha sepultura. Porém é nessenavio que, nas noites de temporal,Hans sai a barra e navega para o Norte,para Vig, a ilha. . Fim.
  34. 34. «Saga»Sophia de Mello Breyner Andresen

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