O Mar de Monstros (livro 2)

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Percy precisa salvar o pinheiro! e agora, o que acontecerá?

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O Mar de Monstros (livro 2)

  1. 1. UM Meu melhor amigo vai comprar um vestido de noiva. Meu pesadelo começou assim. Eu estava numa rua deserta em alguma cidadezinha à beira-mar, no meio da noite. Havia uma tempestade. O vento e a chuva açoitavam as palmeiras ao longo da calçada. Edifícios de estuque cor-de-rosa e amarelo se enfileiravam na rua, as janelas fechadas com tábuas. A um quarteirão dali, depois de uma carreira de hibiscos, o mar estava revolto. Flórida, pensei. Embora não tivesse certeza de como sabia isso. Eu nunca estivera na Flórida. Então ouvi cascos chapinhando no calçamento. Virei e vi meu amigo Grover correndo para salvar sua vida. Sim, eu disse cascos. Grover é um sátiro. Da cintura para cima, parece um adolescente comum e desengonçado, com uma barbicha igual a penugem de pêssego e um problema sério de acne. Ele caminha mancando de um jeito estranho, mas, a não ser que você por acaso o pegue sem calça (coisa que não recomendo), jamais saberá que existe algo de não humano nele. Jeans folgados e pés falsos disfarçam o fato de que ele tem cascos e um traseiro peludo. Grover foi meu melhor amigo na sexta série. Junto com uma menina chamada Annabeth, tinha me acompanhado naquela aventura para salvar o mundo, mas eu não o via desde o último mês de julho, quando ele partira sozinho em uma perigosa missão - uma missão da qual nenhum sátiro jamais voltara. De qualquer modo, em meu sonho, Grover corria, segurando seus sapatos humanos nas mãos como costuma fazer quando precisa se mover depressa. Passou batendo os cascos pelas pequenas lojas de suvenir e de aluguel de pranchas de surfe. O vento dobrava as palmeiras quase até o chão. Grover estava aterrorizado com algo que vinha atrás dele. Devia ter acabado de vir da praia. A areia molhada se prendia em torrões ao seu pelo. Tinha escapado de algum lugar. Estava tentando fugir de... alguma coisa. Um rugido de fazer os ossos tremerem atravessou a tempestade. Atrás de Grover, do outro lado do quarteirão, surgiu uma figura sombria. Ela derrubou um poste de iluminação com um golpe violento. A lâmpada explodiu em um milhão de fagulhas. Grover cambaleou, choramingando de medo. Murmurou para si mesmo: "Preciso escapar. Preciso avisá-los!" Não pude ver o que o perseguia, mas ouvi a coisa resmungando e praguejando. O chão estremeceu quando ela se aproximou. Grover se lançou em uma esquina e vacilou. Tinha entrado em um pátio sem saída cheio de lojas. Não havia tempo para voltar. A porta mais próxima fora arrombada pela tempestade. A placa acima da vitrine escura dizia: BUTIQUE NUPCIAL DE STO. AGOSTINHO. Grover disparou para dentro. Mergulhou atrás de uma arara cheia de vestidos de noiva. A sombra do monstro passou na frente da loja. Pude sentir o cheiro da coisa - uma combinação nauseante de lã de carneiro molhada, carne podre e aquele esquisitíssimo odor corporal azedo que só os monstros têm, como o de um gambá que comesse apenas comida mexicana. Grover tremia atrás dos vestidos de noiva. A sombra do monstro seguiu em frente. Silêncio, a não ser pela chuva. Grover respirou fundo. Talvez a coisa tivesse ido embora.
  2. 2. Então houve um clarão de relâmpago. Toda a fachada da loja explodiu, e uma voz monstruosa berrou: "MEEEEEEU!" ***** Sentei-me na cama, ereto e tremendo. Não havia tempestade. Não havia monstro. O sol da manhã atravessava a janela do meu quarto. Pensei ter visto uma sombra se movendo rapidamente pelo vidro - uma forma humana. Mas então ouvi uma batida na porta do quarto - minha mãe chamou: - Percy, você vai se atrasar. E a sombra na janela desapareceu. Talvez tivesse sido minha imaginação. Uma janela no quinto andar, com uma escada de incêndio velha e instável do lado de fora... Não poderia haver ninguém lá. - Venha, querido - minha mãe chamou de novo. - É o último dia de aula. Você deve estar empolgado! Está quase no fim! - Estou indo - consegui dizer. Apalpei embaixo do travesseiro. Meus dedos se fecharam de modo tranqüilizador em volta da caneta esferográfica com a qual sempre dormia. Tirei-a de lá e estudei o que estava gravado na lateral, em grego antigo: Anaklusmos. Contracorrente. Pensei em destampá-la, mas algo me conteve. Eu não usava Contracorrente havia tanto tempo... Além disso, minha mãe me fizera prometer que não usaria armas letais no apartamento depois que eu lançara um dardo de mau jeito e atingira seu armário de porcelanas. Pus Anaklusmos sobre a mesa-de-cabeceira e me arrastei para fora da cama. Eu me vesti o mais depressa que pude. Tentei não pensar no pesadelo, nem em monstros, nem na sombra à minha janela. Preciso escapar. Preciso avisá-los! O que Grover queria dizer? Fiz uma garra de três dedos por cima do meu coração e puxei para fora - um antigo gesto que Grover me ensinara certa vez, para expulsar o mal. O sonho não podia ter sido real. Último dia de aula. Minha mãe estava certa, eu devia estar empolgado. Pela primeira vez na minha vida eu praticamente terminara um ano sem ser expulso. Nenhum acidente esquisito. Nenhuma briga em sala de aula. Nenhum professor se transformando em monstro e tentando me matar com comida de cantina envenenada ou dever de casa que explodia. No dia seguinte eu estaria a caminho do meu lugar favorito em todo o mundo - o Acampamento Meio-Sangue. Só faltava um dia. Certamente, nem eu conseguiria estragar tudo. Como de costume, eu não tinha idéia de como estava errado. Minha mãe fez waffles azuis com ovos azuis para o café-da-manhã. Isso faz dela uma pessoa engraçada, comemorar ocasiões especiais com comida azul. Acho que é o jeito dela de dizer que tudo é possível. Percy pode terminar a sétima série. Waffles podem ser azuis. Pequenos milagres assim. Comi à mesa da cozinha enquanto minha mãe lavava a louça. Ela estava usando seu uniforme de trabalho - saia azul estrelada e blusa listrada de vermelho e branco, que vestia para vender doces na confeitaria Doce América. Seus cabelos castanhos e compridos estavam presos em um rabo-de-cavalo. Os waffles estavam uma delícia, mas acho que eu não os devorava como de costume. Minha mãe deu uma olhada e franziu a testa.
  3. 3. - Percy, você está bem? - Sim... estou ótimo. Mas ela sempre percebia quando algo me incomodava. Enxugou as mãos e sentou-se na minha frente. - Escola ou... Não precisava completar. Eu sabia o que ela estava perguntando. - Acho que Grover está com problemas - falei, e contei a ela o sonho. Ela contraiu os lábios. Não falamos muito sobre a outra parte da minha vida. Tentamos viver do modo mais normal possível, mas minha mãe sabia tudo sobre Grover. - Eu não me preocuparia tanto, querido - disse ela. - Grover já é um sátiro crescido. Se houvesse um problema, estou certa de que teríamos notícias do... do acampamento... - Os ombros dela ficaram tensos quando ela falou a palavra acampamento. - O que foi? - perguntei. - Nada - disse ela. - Quer saber? Esta tarde vamos come¬morar o fim das aulas. Vou levar você e Tyson para o Rockefeller Center... para aquela loja de skates de que você gosta. Cara, aquilo era tentador. Estamos sempre batalhando por dinheiro. Entre as aulas da minha mãe à noite e a mensalidade da minha escola particular, nunca podíamos nos permitir coisas especiais, como comprar um skate. Mas algo na voz dela me incomodou. - Espere aí - falei. - Pensei que hoje à noite fôssemos arrumar minhas coisas para o acampamento. Ela torceu o pano de prato. - Ah! querido, quanto a isso... Recebi uma mensagem de Quíron na noite passada. Meu coração ficou apertado. Quíron era o diretor de atividades do Acampamento Meio-Sangue. Ele não faria contato a não ser que algo sério estivesse acontecendo. - O que ele disse? - Ele acha... que poderia não ser seguro você ir para o campo agora. Talvez tenhamos de adiar. - Adiar? Mamãe, como poderia não ser seguro? Eu sou um meio-sangue! Ê, tipo, o único lugar seguro para mim neste mundo! - Costuma ser, querido. Mas com os problemas que eles estão enfrentando... - Que problemas? - Percy... Sinto muito, muito mesmo. Esperava falar com você sobre isso esta tarde. Não posso explicar tudo agora. Não sei nem se Quíron pode explicar. Tudo aconteceu muito de repente. Minha cabeça estava girando. Como eu poderia não ir para o acampamento? Queria fazer um milhão de perguntas, mas justamente nesse momento o relógio da cozinha bateu meia hora. Minha mãe pareceu quase aliviada. - Sete e meia, querido. Você precisa ir. Tyson estará esperando. - Mas... - Percy, vamos conversar hoje à tarde. Vá para a escola. Aquilo era a última coisa que eu queria fazer, mas minha mãe estava com aquela expressão frágil nos olhos - uma espécie de aviso, como se ela fosse chorar se eu a pressionasse demais. Além disso, ela estava certa quanto ao meu amigo Tyson. Precisava encontrá-lo na estação do metrô a tempo, ou ele ficaria zangado. Ele tinha medo de viajar embaixo da terra sozinho. Juntei minhas coisas, mas parei na porta. - Mamãe, esse problema no acampamento. Tem... poderia ter alguma coisa a ver com meu sonho com Grover? Ela não me olhou nos olhos.
  4. 4. - Vamos conversar hoje à tarde, querido. Eu vou explicar... o que puder. Eu me despedi dela, relutante. Corri escada abaixo para pegar o trem Número 2. Eu não sabia então, mas minha mãe e eu nunca teríamos nossa conversa à tarde. Na verdade, eu não voltaria a ver nossa casa por um longo, longo tempo. Quando saí, dei uma olhada para o edifício marrom do outro lado da rua. Só por um segundo vi uma forma escura à luz da manhã - uma silhueta humana contra a parede de tijolos, uma sombra que não pertencia a ninguém. Então ela tremulou e desapareceu.
  5. 5. DOIS Meu jogo de queimado com canibais. Meu dia começou normal. Ou tão normal quanto pode ser no colégio Meriwether. Veja bem, é um colégio "experimental", no centro de Manhattan, o que significa que nos sentamos em pufes, em vez de carteiras, e não recebemos notas, e os professores usam jeans e camisetas de shows de rock no trabalho. Por mim, tudo bem. Tenho transtorno do déficit de atenção e sou disléxico, como a maioria dos meios-sangues, portanto nunca fui lá muito bem nas escolas comuns, mesmo antes de eles me expulsarem. A única coisa ruim em relação ao Meriwether era que os professores sempre viam as coisas pelo lado mais promissor, e a garotada nem sempre era... bem, promissora. Por exemplo, minha primeira aula daquele dia: inglês. Todos os alunos do secundário leram aquele livro chamado O senhor das moscas, em que um monte de garotos é abandonado em uma ilha e fica pirado. Então, no exame final, nossos professores nos mandaram passar uma hora sem supervisão de adultos, no pátio, para verem o que aconteceria. O que se deu foi uma guerra generalizada de "cuecão" entre os alunos da sétima e oitava séries, duas guerras de cascalhos e uma partida de basquete sem marcação de faltas. O valentão da escola, Matt Sloan, liderou a maior parte dessas atividades. Sloan não era grande nem forte, mas agia como se fosse. Tinha olhos de pit bull e um cabelo preto desgrenhado, e sempre vestia roupas caras, mas amarfanhadas, como se quisesse que todo o mundo visse como ele se lixava para o dinheiro da família. Tinha um dente da frente lascado, de uma vez em que pegara o Porsche do pai para dar umas voltas e batera numa placa de DEVAGAR - CRIANÇAS BRINCANDO. De qualquer jeito, Sloan estava dando "cuecão" em todo o mundo, até que cometeu o erro de tentar puxar a cueca do meu amigo Tyson. Tyson era o único garoto sem-teto no colégio Meriwether. Até onde minha mãe e eu conseguimos descobrir, ele havia sido abandonado pelos pais quando era muito pequeno, provavelmente por ser tão... diferente. Tinha um metro e noventa de altura e o físico do Abominável Homem das Neves, mas chorava muito e tinha medo de praticamente tudo, inclusive do próprio reflexo. Seu rosto era meio disforme e abrutalhado. Não sei dizer de que cor eram seus olhos porque nunca consegui ver além de seus dentes tortos. Sua voz era profunda, mas ele falava de um jeito engraçado, como um menino muito mais jovem - acho que por nunca ter ido a uma escola antes de Meriwether. Usava jeans esfarrapados, tênis imundos tamanho cinqüenta e dois e uma camisa de flanela xadrez esburacada. Tinha o cheiro dos becos de Nova York, porque era lá que vivia, em uma caixa de geladeira de papelão, perto da rua 72. O colégio Meriwether o adotara em virtude de um projeto de serviço comunitário, para que todos os alunos pudessem se sentir bem consigo mesmos. Infelizmente, a maioria deles não suportava Tyson. Depois de descobrirem que apesar de sua incrível força e da aparência assustadora ele era grande e bobo, sentiam prazer em atormentá-lo. Eu era praticamente seu único amigo, o que significava que ele era o meu único amigo. Minha mãe já reclamara na escola um milhão de vezes, porque eles não estavam fazendo o bastante para ajudá-lo. Ligou para o serviço social, mas aparentemente nada aconteceu. Os assistentes sociais alegaram que Tyson não existia. Juraram de pés juntos que tinham visitado o
  6. 6. beco que nós descrevemos e não conseguiram encontrá-lo, muito embora eu não entenda como é possível não ver um garoto gigante que mora numa caixa de geladeira. De qualquer modo, Matt Sloan enfiou-se por trás dele e tentou lhe dar um "cuecão" , e Tyson entrou em pânico. Afastou Sloan com um tapa um pouco forte demais. Sloan saiu voando por cinco metros e ficou enroscado no balanço de pneu das crianças pequenas. - Seu monstrengo! - berrou Sloan. - Por que não volta para sua caixa de papelão? Tyson começou a soluçar. Sentou-se no trepa-trepa com tanta força que entortou a barra, e enterrou a cabeça nas mãos. - Retire o que disse, Sloan! - gritei. Sloan só me lançou uma careta de deboche. - O que você tem com isso, Jackson? Você poderia ter amigos se não estivesse sempre tomando as dores daquele monstrengo. Fechei os punhos. Esperava que minha cara não estivesse tão vermelha como me parecia. - Ele não é um monstrengo. É só... Tentei pensar na coisa certa a dizer, mas Sloan não ouvia. Ele e seus amigos feios e grandalhões estavam muito ocupados rindo. Eu me perguntei se era minha imaginação ou se Sloan tinha mais brutamontes em volta dele que de costume. Estava acostumado a vê-lo com dois ou três, mas naquele dia ele tinha, tipo, mais uma dúzia, e eu tinha certeza absoluta de que nunca os vira antes. - Espere só até a aula de educação física, Jackson – gritou Sloan. - Você já está muito morto. Quando terminou o primeiro tempo, nosso professor de inglês, o sr. De Milo, saiu para avaliar a carnificina. Ele declarou que tínhamos entendido O senhor das moscas perfeitamente. Todos passamos na matéria dele, e jamais íamos nos tornar pessoas violentas. Matt Sloan assentiu, sério, e depois me lançou um sorriso de dente lascado. Tive de prometer que compraria um sanduíche extra de manteiga de amendoim para Tyson no almoço, para ele parar de soluçar. - Eu... eu sou um monstrengo? - ele me perguntou. - Não - assegurei, rilhando os dentes. - Matt Sloan é que é um monstrengo. Tyson fungou. - Você é um bom amigo. Vou sentir saudades de você no ano que vem se... se eu não puder... A voz dele tremeu. Percebi que ele não sabia se no ano seguinte seria novamente convidado para o projeto comunitário. Imaginei se o diretor ao menos teria se dado ao trabalho de conversar com ele sobre isso. - Não se preocupe, grandão - consegui dizer. - Vai dar tudo certo. Tyson me lançou um olhar tão agradecido que me senti um grande mentiroso. Como podia prometer a um garoto como ele que alguma coisa daria certo? ***** Nossa próxima prova era de ciências. A sra. Tesla nos disse que teríamos de misturar substâncias químicas até conseguir fazer alguma coisa explodir. Tyson era meu parceiro de laboratório. As mãos dele eram grandes demais para os pequeninos frascos que devíamos usar. Ele derrubou sem querer uma bandeja de substâncias do balcão e criou um cogumelo de fumaça alaranjada na lata de lixo. Depois que a sra. Tesla evacuou o laboratório e convocou o esquadrão de remoção de resíduos perigosos, elogiou Tyson e eu por sermos químicos natos. Tínhamos sido os primeiros da história a gabaritar sua prova em menos de trinta segundos. Fiquei contente de a manhã ter passado depressa, pois isso me impediu de pensar demais nos
  7. 7. meus problemas. Eu não suportava a idéia de que algo pudesse estar errado no acampamento. Pior ainda: não conseguia afastar a lembrança do pesadelo. Tinha a terrível sensação de que Grover estava em perigo. Em estudos sociais, quando estávamos desenhando mapas de latitude e longitude, abri meu caderno e olhei para a foto lá dentro - minha amiga Annabeth de férias em Washington. Ela de jeans e uma jaqueta índigo por cima da camiseta cor de laranja do Acampamento Meio-Sangue. O cabelo loiro estava preso para trás, com uma bandana. Estava em pé na frente do Memorial de Lincoln, com os braços cruzados, parecendo satisfeitíssima consigo mesma, como se ela própria tivesse projetado o lugar. Veja bem, Annabeth quer ser arquiteta quando crescer, por isso está sempre visitando monumentos famosos e coisas do tipo. Ela é esquisita assim mesmo. Tinha me mandado a foto por e-mail nas férias da primavera, e de vez em quando eu olhava só para me lembrar de que ela era real e de que o Acampamento Meio-Sangue não tinha sido coisa da minha imaginação. Quis que Annabeth estivesse ali. Ela saberia interpretar meu sonho. Nunca admiti isso para ela, mas era mais esperta do que eu, mesmo que às vezes fosse meio irritante. Eu já ia fechar meu caderno quando Matt Sloan e arrancou a foto da espiral. - Ei! - protestei. Sloan conferiu a foto, e seus olhos se arregalaram. - Ah! não, Jackson. Quem é essa? Ela não é a sua... - Devolva! - Senti as orelhas ficando quentes. Sloan passou a foto para seus colegas feiosos, que deram risadinhas e começaram a rasgá-la para fazer bolinhas de cuspe. Eram alunos novos que deviam estar de visita, porque todos usavam aquelas etiquetas idiotas de "OI! MEU NOME É:" entregues na recepção. Também deviam ter um senso de humor meio esquisito, porque todas elas estavam preenchidas com nomes estranhos, como CHUPA-TUTANO, COME-CRÂNIOS E ZÉ-MANÉ. Não existem seres humanos com nomes assim. - Esses caras vão se mudar para cá no ano que vem - alardeou Sloan, como se aquilo devesse me assustar. - Aposto que eles podem pagar a escola, ao contrário do seu amigo retardado. - Ele não é retardado. - Tive de me conter muito, muito mesmo, para não dar um murro na cara de Sloan. - Você é um perdedor, Jackson. Ainda bem que eu vou livrar você do seu sofrimento no próximo período. Os grandalhões cupinchas dele mascaram minha foto. Queria transformá-los em pó, mas estava sob ordens estritas de Quíron de nunca descontar minha raiva em mortais comuns, não importava quanto eles fossem detestáveis. Tinha de deixar para brigar com os monstros. Ainda assim, parte de mim pensou que se Sloan ao menos soubesse quem eu era realmente... A campainha tocou. Quando Tyson e eu estávamos saindo da classe, uma voz de menina sussurrou: - Percy! Corri os olhos pela área dos vestiários, mas ninguém estava prestando nenhuma atenção a mim. Como se alguma menina em Meriwether fosse um dia chamar meu nome. Antes que eu tivesse tempo de avaliar se estava ou não imaginando coisas, uma multidão de garotos disparou para o ginásio, arrastando-me com ela. Era hora da educação física. O treinador nos prometera um jogo de queimado vale-tudo, e Matt Sloan prometera me matar. O uniforme de ginástica de Meriwether é short azul-celeste e camiseta desbotada. Felizmente a maior parte das nossas atividades atléticas era interna, assim não tínhamos de correr pelo bairro
  8. 8. de Tribeca parecendo um bando de crianças hippies em treinamento. Troquei de roupa o mais depressa que pude no vestiário, pois não queria ter de lidar com Sloan. Estava quase saindo quando Tyson chamou: - Percy? Ele ainda não tinha se trocado. Estava postado junto à porta da sala de musculação, segurando as roupas de ginástica. - Será que você... ahn... - Ah! sim. - Tentei não parecer aborrecido com aquilo. - Sim, claro, cara. Tyson esquivou-se para dentro da sala. Fiquei de guarda do lado de fora da porta enquanto ele se trocava. Eu me sentia meio constrangido fazendo aquilo, mas ele me pedia quase todos os dias. Acho que é porque ele é todo peludo e tem umas cicatrizes esquisitas nas costas, sobre as quais eu nunca tive coragem de perguntar. De qualquer modo, aprendi pelo método mais difícil que se as pessoas mexessem com Tyson enquanto estivesse se vestindo, ele ficava perturbado e começava a arrancar as portas dos armários. Quando entramos no ginásio, o treinador Nunley estava sentado à sua mesinha lendo a Sports Illustrated. Nunley tinha cerca de um milhão de anos de idade, usava óculos bifocais e não tinha dentes, e tinha um topete grisalho ensebado. Lembrava o Oráculo do Acampamento Meio-Sangue - que era uma múmia encarquilhada -, só que o treinador Nunley se movia muito menos e nunca soltava nuvens de fumaça verde. Bem, ao menos não que eu tivesse observado. Matt Sloan disse: - Treinador, posso ser o capitão? - Hã? - o treinador Nunley ergueu os olhos de sua revista. - Sim - murmurou. - Hmm-mrnm. Sloan sorriu e se encarregou da escalação. Ele me nomeou capitão do outro time, mas pouco importava quem eu escolhesse, pois todos os atletas e os garotos mais populares passavam para o lado de Sloan. E também o grupo grande de visitantes. Do meu lado, eu tinha Tyson; Corey Bailer, o nerd de computadores; Raj Mandali, o fenômeno dos cálculos, e meia dúzia de outros que eram sempre atormentados por Sloan e sua gangue. Normalmente, eu me daria bem só com Tyson - ele, sozinho, valia por meio time -, mas os visitantes do lado de Sloan eram quase tão altos e fortes quanto Tyson, e havia seis deles. Matt Sloan espalhou um engradado de bolas no meio do ginásio. - Com medo - murmurou Tyson. - Cheiro gozado. Olhei para ele. - O que tem cheiro gozado? - Não achei que ele estivesse falando de si mesmo. -Eles. - Tyson apontou para os novos amigos de Sloan. - Eles têm um cheiro gozado. Os visitantes estavam estalando os dedos e olhando para nós como se fosse a hora do massacre. Não pude deixar de me perguntar de onde eles vinham. De algum lugar onde alimentavam as crianças com carne crua e batiam nelas com paus. Sloan soprou o apito do treinador e o jogo começou. O time de Sloan correu para a linha de centro. Do meu lado, Raj Mandali gritou alguma coisa em urdu, provavelmente: "Preciso de um penico!", e correu para a saída. Corey Bailer tentou engatinhar para trás da forração da parede e se esconder. O restante do time fez o melhor que pôde para se encolher de medo e não ficar parecendo alvo. - Tyson - disse eu. - Vamos... Uma bola me atingiu violentamente na barriga. Caí sentado no meio do piso do ginásio. O outro time explodiu em gargalhadas.
  9. 9. Minha visão ficou turva. Era como se tivesse acabado de receber uma manobra de Heimlich de um gorila. Não pude acreditar que alguém fosse capaz de lançar uma bola com aquela força. Tyson gritou: - Percy, abaixe-se! Rolei enquanto outra bola passava zunindo por meu ouvido, na velocidade do som. Vuuuuum! Ela atingiu a forração da parede, e Corey Bailer ganiu. - Ei! - gritei para o time de Sloan. - Assim vocês podem matar alguém! O visitante chamado Zé-Mané sorriu para mim de um jeito perverso. De algum modo, ele parecia muito maior agora... ainda mais alto que Tyson. Seus bíceps se destacavam embaixo da camiseta. - Assim espero, Perseu Jackson! Assim espero! O modo como ele disse meu nome me deu um frio na espinha. Ninguém me chamava de Perseu, a não ser aqueles que conheciam minha verdadeira identidade. Amigos... e inimigos. O que Tyson tinha dito? Eles têm um cheiro gozado. Monstros. Em volta de Matt Sloah, os visitantes estavam ficando maiores. Não eram mais garotos. Eram gigantes de dois metros e meio de altura, com olhos selvagens, dentes pontudos e braços peludos, tatuados com cobras, dançarinas havaianas e corações. Matt Sloan deixou cair a bola. - Epa! Vocês não são de Detroit. Quem... Os outros garotos do time começaram a gritar e a recuar para saída, mas o gigante chamado Chupa-Tutano lançou uma bola com pontaria certeira. Ela passou como um raio por Raj Mandali quando ele estava quase saindo e atingiu a porta, fechando-a como num passe de mágica. Raj e alguns dos outros garotos a esmurraram, desesperados, mas ela não cedeu. - Deixe-os ir! - gritei para os gigantes. O que se chamava Zé-Mané rosnou para mim. Tinha uma tatuagem no bíceps que dizia: ZM ama Fofinha. - E perder os nossos petiscos? Não, Filho do Deus do Mar. Nós, lestrigões, não estamos jogando só para matá-lo. Queremos almoçar! Ele acenou e um novo lote de bolas de queimado apareceu na linha de centro - mas aquelas não eram feitas de borracha vermelha. Eram de bronze, do tamanho de balas de canhão, perfuradas, com fogo saindo dos buracos. Deviam ser muito quentes, mas os gigantes as pegavam com as mãos nuas. - Treinador! - gritei. Nunley ergueu os olhos, sonolento, mas, se viu algo de anormal no jogo de queimado, não demonstrou. Esse é o problema com os mortais. Uma força mágica chamada A Névoa disfarça a seus olhos a verdadeira aparência dos monstros e dos deuses, e assim eles tendem a ver apenas o que conseguem compreender. Talvez o treinador tivesse visto alguns garotos da oitava série batendo nas crianças menores, como de costume. Talvez os outros garotos vissem os brutamontes de Matt Sloan prestes a lançar por aí coquetéis Molotov. (Não teria sido a primeira vez.) De qualquer modo, eu tinha certeza de que ninguém mais se dava conta de que estávamos lidando com genuínos monstros comedores de gente e sedentos de sangue. - Sim. Hmm-mmm - resmungou o treinador. – Joguem direito. E voltou à sua revista. O gigante chamado Come-Crânios lançou a bola. Mergulhei de lado enquanto o cometa de
  10. 10. bronze chamejante passava junto ao meu ombro. - Corey! - gritei. Tyson o puxou de trás da forração da parede bem no momento em que a bola explodiu contra ela, transformando o acolchoado em farrapos fumegantes. - Corram! - gritei para os meus companheiros de time. - A outra saída! Eles correram para o vestiário, mas outro aceno da mão de Zé-Mané fez bater aquela porta também. - Ninguém sai enquanto você não estiver fora! – rugiu Zé-Mané. - E você não vai estar fora enquanto não o comermos! Ele lançou sua bola de fogo. Meus companheiros de time se espalharam enquanto ela abria uma cratera no piso do ginásio. Procurei a Contracorrente, que carregava sempre no bolso, mas então me dei conta de que estava usando meu short de ginástica. Eu não tinha bolsos. Contracorrente estava enfiada no bolso da calça jeans, dentro do armário no vestiário. E a porta do vestiário estava trancada. Eu estava completamente indefeso. Outra bola de fogo veio como um raio em minha direção. Tyson me empurrou para fora do caminho, mas a explosão ainda me atirou longe. Fiquei esparramado no chão do ginásio, com a vista embaçada pela fumaça, a camiseta desbotada salpicada de buracos chamuscados. Logo depois da linha de centro, dois gigantes famintos me olhavam de cima. - Carne! - urraram. - Carne de herói para o almoço! - Os dois fizeram pontaria. - Percy precisa de ajuda! - gritou Tyson, e pulou na minha frente bem no momento em que eles lançaram suas bolas. - Tyson! - gritei, mas era tarde demais. As duas bolas o atingiram... mas, não... ele as agarrou. De algum modo Tyson, que era tão desajeitado que estava sempre derrubando equipamentos do laboratório e quebrando estruturas do playground, tinha agarrado as duas bolas chamejantes de metal que vinham em sua direção a um zilhão de quilômetros por hora. Ele as atirou de volta para seus donos surpresos, que gritaram "RUIIIIIM!" quando as esferas de bronze explodiram contra seus peitos. Os gigantes se desintegraram em colunas gêmeas de chamas - um sinal seguro de que eram monstros, certo. Monstros não morrem. Simplesmente se dissipam em fumaça e pó, o que poupa aos heróis um bocado de trabalho de limpeza depois de uma luta. - Meus irmãos! - gemeu Zé-Mané, o Canibal. Ele contraiu os músculos, e sua tatuagem da Fofinha ondulou. - Você vai pagar por tê-los destruído! - Tyson! — disse eu. — Cuidado! Outro cometa disparou em nossa direção. Tyson só teve tempo de desviá-lo com um tapa. Passou voando por cima da cabeça do treinador Nunley e aterrissou na arquibancada com um imenso CABUUUUM! Crianças corriam de um lado para o outro gritando, tentando evitar as crateras fumegantes no piso. Outras esmurravam a porta, gritando por socorro. O próprio Sloan estava petrificado no meio da quadra, assistindo incrédulo às bolas da morte que voavam em volta dele. O treinador Nunley ainda não via nada. Deu uma batidinha em seu aparelho de surdez, como se as explosões estivessem causando interferência, mas não desviou os olhos da revista. Certamente a escola inteira podia ouvir o barulho. O diretor, a polícia, alguém iria nos ajudar. - A vitória será nossa! - rugiu Zé-Mané, o Canibal. - Vamos nos banquetear com seus ossos! Quis dizer-lhe que ele estava levando o jogo de queimado muito a sério, mas antes que pudesse
  11. 11. fazer isso ele lançou mais uma bola. Os outros três gigantes fizeram o mesmo. Sabia que estávamos mortos. Tyson não poderia desviar todas aquelas bolas ao mesmo tempo. Suas mãos deviam estar com queimaduras sérias por ter bloqueado a primeira saraivada. Sem a minha espada... Tive uma idéia maluca. Corri em direção ao vestiário. - Saiam da frente! - disse a meu time. - Saiam da porta. Explosões atrás de mim. Tyson rebatera duas das bolas a seus donos e os fizera explodir em cinzas. Restavam dois gigantes em pé. Uma terceira bola veio voando diretamente para mim. Eu me forcei a esperar - um, dois, três - e então me atirei para o lado, enquanto a esfera chamejante demolia a porta do vestiário. Calculei que o gás acumulado na maioria dos armários dos meninos seria suficiente para causar uma explosão, portanto não me surpreendi quando a bola chamejante de queimado provocou um enorme BUUUUUUM! A parede explodiu. Portas de armários, meias, suportes atléticos e vários outros apetrechos pessoais fedorentos choveram por todo o ginásio. Virei-me bem a tempo de ver Tyson dar um soco na cara do Come-Crânios. O gigante desmoronou. Mas o último gigante, Zé-Mané, esperto, continuava segurando sua bola, esperando uma opor¬tunidade. Ele a lançou justamente quando Tyson se virava para ele. - Não! - gritei. A bola atingiu Tyson bem no peito. Ele deslizou por toda a extensão da quadra e bateu na parede do fundo, que rachou. Parte desmoronou em cima dele, abrindo um buraco que dava direto para a rua Church. Não entendia como Tyson ainda podia estar vivo, mas ele parecia apenas atordoado. A bola de bronze fumegava a seus pés. Tyson tentou pegá-la, mas caiu para trás, aturdido, em uma pilha de blocos de concreto. - Bem! - tripudiou Zé-Mané. - Sou o último de pé! Vou ter carne suficiente para levar uma quentinha para Fofinha! Ele pegou outra bola e mirou Tyson. - Pare! - gritei. - É a mim que você quer! O gigante arreganhou um sorriso. - Quer morrer primeiro, heroizinho? Eu precisava fazer alguma coisa. Contracorrente devia estar por ali, em algum lugar. Então avistei meus jeans em uma pilha fumegante de roupas bem aos pés do gigante. Se eu ao menos conseguisse chegar lá... Sabia que era inútil, mas investi. O gigante riu. - Meu almoço se aproxima. Ele ergueu o braço para lançar. Eu me preparei para morrer. De repente o corpo do gigante enrijeceu-se. Sua expressão mudou de triunfante para surpresa. Bem no lugar onde deveria estar seu umbigo, a camiseta se rasgou e surgiu ali algo como um chifre - não, um chifre não: a ponta brilhante de uma lâmina. - Ui - murmurou ele, e explodiu numa nuvem de chamas verdes, o que, imaginei, iria deixar Fofinha muito aborrecida. Em pé no meio da fumaça estava minha amiga Annabeth. Seu rosto estava sujo e arranhado. Carregava uma mochila esfarrapada pendurada no ombro, o boné de beisebol enfiado no bolso, uma faca de bronze na mão e um olhar selvagem nos olhos cinza-tempestade, como se fantasmas a tivessem perseguido por mil quilômetros.
  12. 12. Matt Sloan, que estivera ali em pé, abobalhado, o tempo todo, afinal caiu na real. Piscou para Annabeth como se a reconhecesse vagamente da foto no meu caderno. - É a garota... E a garota... Annabeth deu-lhe um soco no nariz, derrubando-o no chão. - E você - disse ela -, deixe meu amigo em paz. O ginásio estava em chamas. Crianças ainda corriam de um lado para o outro, gritando. Ouvi sirenes que uivavam e uma voz distorcida no alto-falante. Através das janelas de vidro nas portas de saída pude ver o diretor, sr. Bonsai, brigando com a fechadura, e uma multidão de professores amontoada atrás dele. - Annabeth... - gaguejei. - Como você... há quanto tempo você... - Quase a manhã toda. - Ela embainhou a faca de bronze. - Estava tentando encontrar um bom momento para falar com você, mas você nunca estava sozinho. - A sombra que eu vi esta manhã... aquilo era... - Meu rosto ficou quente. – Ah!, meus deuses, você estava olhando pela janela do meu quarto? - Não dá tempo de explicar! - disparou com rispidez, embora ela mesma parecesse estar com o rosto um pouco quente. - Mas eu não queria... - Ali! - berrou uma mulher. As portas se abriram de repente e os adultos se precipitaram paia dentro. - Encontre-me lá fora - disse Annabeth. - E ele. Apontou para Tyson, que ainda estava sentado encostado na parede, atordoado. Annabeth lançou-lhe um olhar de aversão que não entendi muito bem. - É melhor trazê-lo. - O quê? - Não dá tempo! - disse ela. - Depressa! EIa colocou o boné de beisebol dos Yankees, que era um presente mágico de sua mãe, e desapareceu na mesma hora. Com isso, fiquei sozinho no meio do ginásio em chamas, quando o diretor investiu para dentro com metade do corpo docente e dois policiais. - Percy Jackson? - disse o sr. Bonsai. - O que... como... Junto à parede destruída, Tyson gemeu e levantou-se da pilha de blocos de concreto. - A cabeça dói. Matt Sloan também se aproximava. Olhou para mim com expressão de terror. - Foi Percy quem fez isso, sr. Bonsai. Ele tocou fogo no prédio inteiro. O treinador Nunley vai lhe contar, ele viu tudo! O treinador Nunley estivera lendo com dedicação sua revista, mas, para meu azar, escolheu aquele momento para erguer os olhos, ao ouvir Sloan pronunciar seu nome. - Hã? Sim. Hmm-mmm. Os outros adultos viraram na minha direção. Eu sabia que jamais acreditariam em mim, mesmo que eu pudesse contar-lhes a verdade. Arranquei Contracorrente dos meus jeans destruídos, disse a Tyson "Vamos!" e pulei pelo buraco escancarado na lateral do edifício.
  13. 13. TRÊS Nós chamamos o táxi da tormenta eterna. Annabeth estava à nossa espera em um beco mais adiante na rua Church. Puxou Tyson e eu da calçada bem no momento em que um carro de bombeiros passou gritando seu gemido em direção a Meriwether. -Onde você o encontrou? — perguntou ela, apontando para Tyson. Ali, sob circunstâncias diferentes, eu teria ficado realmente feliz em vê-la. Tínhamos feito as pazes no último verão, a despeito de a mãe dela ser Atena e não se dar muito bem com meu pai. Tinha sentido mais saudades de Annabeth do que gostaria de admitir. Mas acabara de ser atacado por canibais gigantes, Tyson salvara minha vida três ou quatro vezes e tudo o que Annabeth pôde fazer foi olhá-lo com raiva, como se ele fosse o problema. - Ele é meu amigo - falei. - Ele é um sem-teto? - Que importância tem isso? Ele consegue ouvir, sabe? Por que não pergunta a ele? Ela pareceu surpresa. - Ele sabe falar? - Eu falo - admitiu Tyson. - Você é bonita. - Ah! Grosso! - Annabeth recuou um passo, afastando-se dele. Não podia acreditar que ela estivesse sendo tão mal-educada. Examinei as mãos de Tyson, que, eu tinha certeza, deviam estar muito machucadas por causa das bolas de fogo, mas pareciam ótimas - imundas e marcadas por cicatrizes sujas do tamanho de batatinhas chips -, mas elas sempre foram assim. - Tyson - falei, incrédulo. - Suas mãos não estão queimadas. - É claro que não - resmungou Annabeth. - Estou surpresa com a coragem dos lestrigões, atacando-o com ele por perto. Tyson parecia fascinado com o cabelo loiro de Annabeth. Tentou tocá-lo, mas ela afastou sua mão com um tapa. - Annabeth - disse eu -, do que você está falando? Les-o quê? - Lestrigões. Os monstros no ginásio. São uma raça de gigantes canibais que vivem no extremo norte. Ulisses topou com eles uma vez, mas eu nunca os vira tão ao sul, como em Nova York. - Les... não consigo nem pronunciar isso. Como você os chamaria em inglês? Ela pensou por um momento. - Canadenses - concluiu. - Agora venha, temos de sair daqui. - A polícia virá atrás de mim. - Esse é o menor dos problemas - disse ela. - Você andou tendo os sonhos? - Os sonhos... com Grover? O rosto dela empalideceu. - Grover? Não, o que há com Grover? Contei-lhe o sonho. - Por quê? O que você andou sonhando? Os olhos dela pareciam tempestuosos, como se a mente estivesse correndo a um milhão de quilômetros por hora. - O acampamento - disse ela afinal. - Um problemão no acampamento.
  14. 14. - Minha mãe disse a mesma coisa! Mas que tipo de problema? - Não sei exatamente. Há algo errado. Temos de ir para lá mesmo. Monstros me perseguiram pelo caminho todo desde a Virgínia, tentando me deter. Você também sofreu uma porção ataques? Sacudi a cabeça. - Nenhum, o ano todo... até hoje. - Nenhum? Mas como... - Os olhos dela recaíram sobre... - Ah! - O que quer dizer "Ah!"? Tyson ergueu a mão como se ainda estivesse na sala de aula. - Os canadenses no ginásio chamaram Percy de alguma coisa... Filho do Deus do Mar? Annabeth e eu trocamos olhares. Não sabia como poderia explicar, mas imaginei que Tyson merecesse a verdade, depois de quase ter sido morto. - Grandão - falei -, já ouviu aquelas velhas histórias sobre deuses gregos? Como Zeus, Poseidon, Atena... - Sim - disse Tyson. - Bem... aqueles deuses ainda vivem. Tipo, vão seguindo a civilização ocidental de um lado para o outro e vivendo nos países mais poderosos; portanto, estão agora nos Estados Unidos. E às vezes têm filhos com mortais. Filhos que são chamados de meios-sangues. - Sim - disse Tyson, como se ainda esperasse que eu chegasse ao ponto principal. - Ahn, bem, Annabeth e eu somos meios-sangues - disse eu. - Somos como... heróis em treinamento. E sempre que os monstros sentem nosso cheiro, eles nos atacam. E o que eram aqueles gigantes no ginásio. Monstros. - Sim. Olhei para ele. Ele não parecia surpreso nem confuso com o que eu contava, o que me deixava surpreso e confuso. Tyson assentiu. - Mas você é... Filho do Deus do Mar? - Sim - admiti. - Meu pai é Poseidon. Tyson franziu a cara. Agora ele parecia confuso. - Mas então... Uma sirene uivou. Um carro de polícia passou rapidamente pelo beco. - Não temos tempo para isso - disse Annabeth. - Vamos conversar no táxi. - Um táxi até o acampamento? - disse eu. - Você sabe quanto dinheiro... - Deixe comigo. Eu hesitei. - E Tyson? Imaginei-me escoltando meu amigo gigante até o Acampamento Meio-Sangue. Se ele ficava fora de si em um playground comum com valentões comuns, como agiria em um campo de treinamento para semideuses? Por outro lado, os policiais estariam procurando por nós. - Não podemos simplesmente deixá-lo aqui - concluí. - Ele também vai estar encrencado. - Sim. - Annabeth pareceu contrariada. - Sem dúvida, precisamos levá-lo. Agora venha. Não gostei do modo como ela disse aquilo, como se Tyson fosse uma grande doença que precisávamos levar ao hospital, mas a segui pelo beco. Juntos, nós três nos esgueiramos pelas ruelas do centro, enquanto uma enorme coluna de fumaça se erguia do ia da escola, atrás de nós.
  15. 15. ***** - Aqui. - Annabeth nos deteve na esquina da Thomas com Trimbla. Vasculhou a mochila. - Espero que ainda tenha sobrado uma. Ela parecia ainda pior do que eu percebera de início. Tinha um corte no queixo. Havia gravetos e grama embaraçados em seu rabo-de-cavalo, como se tivesse dormido várias noites ao relento. Os rasgos nas barras da calça jeans pareciam ter sito feitos por garras. - O que está procurando? - perguntei. As sirenes urravam à nossa volta. Calculei que não levaria muito tempo até que passassem mais policiais, procurando delinqüentes juvenis bombardeadores de ginásios. Sem dúvida, àquela altura à Matt Sloan já teria dado um depoimento. Ele provavelmente deturpara a história para que Tyson e eu fôssemos os canibais sedentos de sangue. - Encontrei uma. Graças aos deuses. - Annabeth tirou da mochila uma moeda de ouro que reconheci como um dracma, a moeda corrente do Monte Olimpo. Tinha a efígie de Zeus gravada de um lado e o edifício Empire State do outro. - Annabeth - falei. - Os taxistas de Nova York não vão aceitar isso. - Stêthi - gritou ela em grego antigo. - Ô hárma diabolês! Como de costume, no momento em que ela falou na língua do Olimpo eu, de algum modo, entendi. Ela disse: Pare, Carruagem da Danação! Aquilo não me deixou lá muito empolgado com seu plano, fosse qual fosse. Ela atirou a moeda na rua, mas em vez de cair ruidosamente no asfalto o dracma afundou e desapareceu. Por um momento, nada aconteceu. Então, bem no lugar onde a moeda tinha caído, o asfalto escureceu. Fundiu-se em uma poça retangular mais ou menos do tamanho de uma vaga de estacionamento - borbulhando um líquido vermelho como sangue. Então um carro irrompeu daquele lodo. Era um táxi, sem dúvida, porém, diferentemente de qualquer outro táxi de Nova York, não era amarelo. Era cinza-escuro. Quer dizer, parecia feito de fumaça, como se fosse possível atravessá-lo andando. Havia palavras impressas na porta - algo como MÃSIR ZENTSITNA -, mas a dislexia tornou difícil para mim decifrar o que estava escrito. A janela do passageiro desceu, e uma velha pôs a cabeça para fora. Tinha um tufo de cabelos grisalhos cobrindo os olhos, e fa¬lou de um jeito estranho e murmurante, como se tivesse acabado de tomar uma injeção de anestésico. - Passagem? Passagem? - Três para o Acampamento Meio-Sangue - disse Annabeth. Ela abriu a porta traseira do táxi e acenou para que eu en¬trasse, como se aquilo tudo fosse a coisa mais normal do mundo. - Cruzes! - guinchou a velha. - Não levamos a espécie dele! Ela apontou um dedo ossudo para Tyson. O que era aquilo? Dia da Perseguição aos Garotos Grandes e Feios? - Eu pago a mais - prometeu Annabeth. - Mais três dracmas quando chegarmos. - Feito! - berrou a mulher. Entrei no táxi com relutância. Tyson se espremeu no meio. Annabeth se arrastou para dentro por último. O interior também era cinza-escuro, mas parecia bastante sólido. O assento era rachado e irregular - não muito diferente dos da maioria dos táxis. Não havia divisória nos separando da velha ao volante... Espere um minuto. Não havia apenas uma velha. Havia três, todas amontoadas
  16. 16. no assento dianteiro, cada qual com cabe¬los pegajosos cobrindo os olhos, mãos ossudas e um vestido de tecido grosso cor de carvão. A que estava na direção disse: - Long Island! Bandeira dois! Ha! Ela pisou fundo o acelerador, e minha cabeça foi de encontro ao encosto. Uma voz gravada veio do alto-falante: Olá, aqui é Ganimedes, sommelier de Zeus, e quando saio para comprar vinho para o Senhor do Céus sempre ponho o cinto de segurança! Olhei para baixo e encontrei uma corrente grande e preta no lugar do cinto. Concluí que não estava assim tão desesperado... ainda. O táxi disparou e virou na esquina da West Broadway, e a velha cinzenta sentada no meio guinchou: - Cuidado! Vá para a esquerda! - Bem, se você tivesse me dado o olho, Tempestade, eu poderia fazer isso! - queixou-se a motorista. Espere um minuto. Dar a ela o olho? Não tive tempo de fazer perguntas, porque a motorista guinou para desviar-se de um caminhão de entregas, passou por cima do meio-fio com um tranco de fazer bater os dentes e entrou voando no quarteirão seguinte. - Vespa! - disse a terceira mulher à motorista. - Passe para mim a moeda da menina! Quero mordê-la. - Você mordeu da última vez, Ira! - disse a motorista, cujo nome devia ser Vespa. - É a minha vez! - Não é! - gritou a que se chamava Ira. A do meio, Tempestade, berrou: - Sinal vermelho! - Freie! - berrou Ira. Em vez disso, Vespa pisou fundo e subiu no meio-fio, cantando os pneus em outra esquina e derrubando uma máquina de vender jornais. Ela deixou meu estômago para trás em algum lugar da rua Broome. - Desculpe-me - falei -, mas... você enxerga? - Não! - gritou Vespa, de trás do volante. - Não! — gritou Tempestade, do meio. - É claro! - gritou Ira, da janela do passageiro. Olhei para Annabeth. - Elas são cegas? - Não totalmente - disse Annabeth. - Têm um olho. - Um olho? - Sim. - Cada uma? - Não. Um olho ao todo. Ao meu lado, Tyson gemeu e se agarrou ao assento. - Não estou me sentindo muito bem. - Ah, céus! - disse eu, pois já tinha visto Tyson ficar enjoado no carro em excursões da escola, e aquilo não era algo que a gente quisesse ver a menos de quinze metros de distância. - Agüente firme, grandão. Alguém tem um saco de lixo ou coisa assim? As três senhoras cinzentas estavam muito ocupadas discutindo para prestar atenção em mim. Virei-me para Annabeth, que continuava concentrada como quem corre risco de vida, e dei-lhe uma olhada do tipo "Por que você fez isso comigo?". - Ei - disse ela -, o Taxi das Irmãs Cinzentas é o meio mais rápido de chegar ao acampamento. - Então, por que você não veio nele da Virgínia?
  17. 17. - Fica fora da área de prestação de serviços delas - disse ela, como se aquilo fosse óbvio. - Elas só trabalham na Grande Nova York e na vizinhança. - Já tivemos gente famosa neste táxi! - exclamou Ira. - Jasão! Lembram-se dele? - Não quero nem lembrar! - lamuriou-se Vespa. - E nós não tínhamos um táxi naquele tempo, sua morcega velha. Aquilo foi há três mil anos! - Me dê o dente! - Ira tentou agarrá-lo na boca de Vespa, mas Vespa afastou a mão dela com um tapa. - Só se Tempestade me der o olho! - Não! - guinchou Tempestade. - Você o usou ontem! - Mas estou dirigindo, sua bruxa velha! - Desculpas! Vire! Era a sua entrada! Vespa entrou com violência na rua Delancey, espremendo-me entre Tyson e a porta. Pisou o acelerador, e disparamos pela ponte Williamsburg a oitenta quilômetros por hora. As três irmãs estavam agora brigando mesmo, estapeando-se, enquanto Ira tentava agarrar a cara de Vespa e Vespa tentava agarrar a de Tempestade. Com os cabelos esvoaçando e a boca aberta, berrando uma com a outra, percebi que nenhuma das irmãs tinha dentes, com exceção de Vespa, que tinha um incisivo amarelo embolorado. Em vez de olhos, elas tinham apenas pálpebras fechadas e afundadas, com exceção de Ira, que tinha um olho verde injetado que olhava para tudo avidamente, como se nada que visse fosse o bastante. Por fim, Ira, que tinha a vantagem da visão, conseguiu arrancar o dente da boca da irmã Vespa. Isso a deixou tão furiosa que ela deu uma guinada para a beirada da ponte Williamsburg, gritando: - Devolva! Devolva! Tyson gemeu e segurou o estômago. - Ah! a quem interessar possa - falei -, nós vamos morrer! - Não se preocupe - disse Annabeth, parecendo muito preocupada. - As Irmãs Cinzentas sabem o que estão fazendo. Elas são muito sábias mesmo. Aquilo veio da filha de Atena, mas não me senti exatamente reconfortado. Estávamos derrapando ao longo da beira de uma ponte, quarenta metros acima do rio East. - Sim, sábias! - Ira arreganhou um sorriso ao retrovisor, mostrando o dente recém-adquirido. - A gente sabe das coisas! - Todas as ruas de Manhattan! - vangloriou-se Vespa, ainda batendo na irmã. - A capital do Nepal! - O lugar que você procura! - acrescentou Tempestade. Imediatamente, as irmãs a socaram, uma de cada lado, gritando: - Quieta! Quieta! Ele ainda nem perguntou! - O quê? - disse eu. - Que lugar? Eu não estou procuran¬do nenhum... - Nada! - disse Tempestade. - Você está certo, menino. Não é nada! - Fale. - Não! - todas elas gritaram. - Na última vez que contamos, foi horrível! - disse Tempestade. - O olho foi parar num lago! - concordou Ira. - Anos para encontrá-lo de novo! - queixou-se Vespa. - E por falar nisso... Devolva! - Não! - berrou Ira. - O olho! - berrou Vespa. - Dê para mim! Ela bateu com força nas costas da irmã Ira. Ouviu-se um pop nauseante e algo saiu voando da
  18. 18. cara de Ira. Ela começou a apalpar procurando, tentando agarrá-lo, mas só conseguiu rebatê-lo com as costas da mão. O globo verde e viscoso passou voando por cima de seu ombro e veio parar bem no meu colo. Dei um pulo tão alto que minha cabeça atingiu o teto e o globo ocular saiu rolando. - Não consigo enxergar! - berraram as três irmãs. - Dê o olho para mim! - gemeu Vespa. - Dê o olho para ela! - gritou Annabeth. - Não está comigo! - falei. - Ali, perto do seu pé - disse Annabeth. - Não pise! Pegue! - Não vou pegar aquilo! O táxi colidiu com a grade de segurança e arrastou-se por ela com um ruído horrível. O carro inteiro estremeceu, soltando fumaça cinzenta como se fosse se dissolver com o esforço. - Vou vomitar! - avisou Tyson. - Annabeth - berrei -, deixe Tyson usar sua mochila! - Está louco? Pegue o olho! Vespa deu uma puxada violenta no volante e o táxi se afastou da grade. Disparamos pela ponte em direção ao Brooklyn, mais rápido que qualquer táxi humano. As Irmãs Cinzentas guinchavam, e se esmurravam, e clamavam pelo olho. Por fim, tomei coragem. Arranquei um pedaço da minha camisa desbotada, que já estava se desfazendo por causa de todos os buracos de queimadura, e usei-o para pegar o olho no chão. - Bom menino! - gritou Ira, como se, de algum modo, soubesse que eu estava com seu olho perdido. - Devolva! - Não, enquanto não explicarem - falei. - O que vocês estavam falando, o lugar que eu procuro? - Não dá tempo! - gritou Tempestade. - Acelerando! Olhei pela janela. Com certeza, árvores, carros e bairros inteiros passavam ventando, em um borrão cinzento. Já tínhamos saído do Brooklyn e atravessávamos Long Island. - Percy - advertiu Annabeth -, elas não podem encontrar nosso destino sem o olho. Vamos continuar acelerando até arre¬bentar em um milhão de pedaços. - Primeiro elas têm de me dizer. Ou então vou abrir a janela e jogar o olho no meio do trânsito. - Não! - gemeram as Irmãs Cinzentas. - É perigoso demais! - Estou abaixando a janela. - Espere! - berraram as Irmãs Cinzentas. - Trinta, 31, 75,12! Elas bradaram como um zagueiro de futebol americano can¬tando a jogada. - O que querem dizer? Isso não faz sentido! - Trinta, 31, 75, 12! - gemeu Ira. - E tudo o que podemos falar. Agora, devolva-nos o olho! Estamos quase no acampamento! Estávamos agora fora da estrada, disparando pelos campos no norte de Long Island. Pude ver a Colina Meio-Sangue à nossa frente, com seu pinheiro gigante no topo - a árvore de Thalia, que continha a força vital de uma heroína derrotada. - Percy! - disse Annabeth em um tom mais urgente. – Dê o olho a elas agora! Decidi não discutir. Joguei o olho no colo de Vespa. A velha o agarrou, empurrou-o para dentro da órbita como alguém que coloca uma lente de contato, e piscou. - Eia! Ela pisou o freio. O táxi rodopiou quatro ou cinco vezes em uma nuvem de fumaça e guinchou até parar no meio da estrada vicinal na base da Colina Meio-Sangue. Tyson soltou um enorme
  19. 19. arroto. - Melhor agora. - Tudo bem - disse eu às Irmãs Cinzentas. - Agora me digam o que querem dizer aqueles números. - Não dá tempo! - Annabeth abriu a porta. - Temos de sair agora. Eu ia perguntar por quê, quando ergui os olhos para a Colina Meio-Sangue e entendi. No topo da colina havia um grupo de campistas. E eles estavam sob ataque.
  20. 20. QUATRO Tyson brinca com fogo. Mitologicamente falando, se existe uma coisa que eu odeio mais do que trios de velhas são touros. No último verão, lutei com o Minotauro no topo da Colina Meio-Sangue. Dessa vez, o que vi lá em cima era ainda pior: dois touros. E não touros comuns, apenas, mas touros de bronze, do tamanho de elefantes. E mesmo aquilo não era ruim o bastante. É claro que eles também tinham de soltar fogo. Assim que saímos do táxi, as Irmãs Cinzentas se safaram a toda rumo a Nova York, onde a vida era mais segura. Nem sequer esperaram pelo pagamento extra de três dracmas. Simplesmente nos largaram à beira da estrada, Annabeth com nada além de sua mochila e a faca, Tyson e eu ainda com as roupas desbotadas de ginástica. - Ah, céus! - disse Annabeth, olhando para a batalha vio¬lenta na colina. O que mais me preocupou não foram os touros em si. Ou os dez heróis de armadura de batalha completa, cujos traseiros de bronze estavam levando uma surra. O que me preocupava era que os touros estavam se movimentando por toda a colina, inclusive atrás do pinheiro. Aquilo não deveria ser possível. As fronteiras mágicas do acampamento não permitiam que monstros passassem além da árvore de Thalia. Mesmo assim os touros de metal estavam fazendo isso. Um dos heróis gritou: - Patrulha de fronteira! Aqui! - Uma voz de menina... rouca e familiar. Patrulha de fronteira?, pensei. O acampamento não tinha patrulha de fronteira. - É Clarisse - disse Annabeth. - Venha, temos de ajudá-la. Normalmente, correr para ajudar Clarisse não estaria no topo da minha lista de "coisas a fazer". Ela era uma das maiores encrenqueiras do acampamento. Na primeira vez que nos vimos ela tentou apresentar minha cabeça a uma privada. Também era filha de Ares, e eu havia tido um desentendimento muito sério com o pai dela no último verão; portanto, agora o Deus da Guerra e todos os seus filhos basicamente não iam com a minha cara. Ainda assim ela estava em dificuldades. Seus combatentes estavam se dispersando, correndo em pânico diante do ataque dos touros. A grama estava em chamas em grandes faixas em volta do pinheiro. Um herói gritava e agitava os braços enquanto corria em círculos, o enfeite de crina de cavalo em seu capacete ardendo como um cocar flamejante. A armadura da própria Clarisse estava chamuscada. Ela lutava com um cabo de lança quebrada, a outra extremidade estava cravada inutilmente na junta metálica do ombro um dos touros. Tirei a tampa da minha caneta esferográfica. Ela cintilou e foi ficando cada vez mais comprida e pesada até eu me ver segurando nas mãos a espada de bronze Anaklusmos. - Tyson, fique aqui. Não quero que se arrisque mais. - Não! – disse Annabeth. – Precisamos dele. Olhei para ela. - Ele é mortal. Teve sorte com as bolas de queimado, mas ele não pode... - Percy, você sabe o que é aquilo lá em cima? Os touros de Colchis, feitos pelo próprio Hefesto. Não podemos combatê-los sem o Filtro Solar de Medeia, com fator de proteção 50 mil. Vamos ser queimados até virar torresmo. - O quê de Medeia?
  21. 21. Annabeth revirou a mochila e praguejou. - Eu tinha um pote de essência de coco tropical na minha cabeceira, em casa. Por que não trouxe comigo? Tinha aprendido muito tempo atrás a não fazer muitas perguntas a Annabeth. Só me deixaria ainda mais confuso. - Olhe, eu não sei do que você está falando, mas não vou permitir que Tyson seja frito. - Percy... - Tyson, fique aqui. - Ergui minha espada. - Vou entrar. Tyson tentou protestar, mas eu já estava correndo colina acima na direção de Clarisse, que gritava com sua patrulha, tentando organizá-la em formação de falange. Era uma boa idéia. Os poucos que a ouviram formaram uma fileira ombro a ombro, encaixando seus escudos para forjar uma parede de couro e bronze, as lanças surgindo acima como cerdas de porco-espinho. Infelizmente, Clarisse só conseguiu reunir seis campistas. Os outros quatro ainda corriam em círculos com o capacete em chamas. Annabeth correu até eles, tentando ajudar. Provocou um dos touros para que a perseguisse e depois ficou invisível, confundindo o monstro completamente. O outro touro investiu contra a linha de Clarisse. Eu estava a meio caminho colina acima - não era perto o bastante para ajudar. Clarisse ainda nem me vira. O touro se movimentava depressa demais para uma coisa tão grande. A carcaça metálica brilhava ao sol. Tinha rubis do tamanho de punhos no lugar dos olhos e chifres de prata polida. Quando abria a boca articulada, uma coluna de chamas incandescentes era expelida. - Mantenham a linha! - ordenou Clarisse a seus guerreiros. Você podia falar qualquer coisa sobre Clarisse, mas ela era corajosa. Era uma menina grande com olhos cruéis como os do pai. Parecia ter nascido para usar uma armadura de batalha grega, mas até mesmo ela não me parecia capaz de resistir à investida daquele touro. Por azar, naquele momento, o outro touro perdeu o interesse em encontrar Annabeth. Virou-se e foi atrás de Clarisse, do seu lado desprotegido. - Atrás de você! - gritei. - Cuidado! Eu não devia ter dito nada, porque tudo o que consegui foi assustá-la. O Touro Número 1 colidiu contra o escudo dela e a falange se rompeu. Clarisse voou para trás e aterrissou em um pedaço de gramado em chamas. O touro passou direto por ela, mas não sem antes atingir os outros heróis com seu hálito de fogo. Os escudos derreteram instantaneamente em seus braços. Eles deixaram cair as armas e correram enquanto o Touro Número 2 se aproximava de Clarisse para o golpe final. Eu me adiantei e agarrei Clarisse pelos cordões da armadura. Arrastei-a para fora do caminho bem no momento em que o Touro Número 2 passava como um trem de carga. Dei-lhe um bom golpe com Contracorrente e abri um imenso talho numa de suas laterais, mas o monstro apenas rachou e soltou um mugido, e continuou avançando. A fera não me tocou, mas pude sentir o calor da sua pele de metal. A temperatura de seu corpo poderia ter cozido um burrito congelado. - Me solte! - Clarisse deu uma pancada na minha mão. - Percy, maldito! Deixei-a cair como um saco junto ao pinheiro e me virei para enfrentar os touros. Estávamos agora do outro lado da colina, com o vale do Acampamento Meio-Sangue logo abaixo. Os chalés, as áreas de treinamento, a Casa Grande - todos em perigo caso os touros passassem por nós. Annabeth bradou ordens para os outros heróis, dizendo-lhes que se espalhassem e mantivessem
  22. 22. os touros distraídos. O Touro Número 1 fez uma curva bem aberta e começou a voltar na minha direção. Ao passar pelo meio da colina, onde a linha invisível da fronteira deveria tê-lo detido, ele reduziu um pouco a velocidade, como se lutasse contra um vento forte; mas então rompeu a barreira e continuou avançando. O Touro Número 2 se virou para me enfrentar, com fogo crepitando no corte fundo que eu fizera em seu flanco. Não sei dizer se sentiu alguma dor, mas seus olhos de rubi pareciam fixos em mim como se eu tivesse acabado de levar as coisas para o lado pessoal. Eu não podia lutar contra os dois touros ao mesmo tempo. Teria de derrubar o Touro Número 2 primeiro e cortar sua cabeça antes que o Touro Número 1 investisse de novo, até ficar ao meu alcance. Eu já sentia os braços cansados. Percebi quanto tempo passara desde a última vez que treinara com Contracorrente, e como perdera a prática. Ataquei, mas o Touro Número 2 lançou chamas contra mim. Rolei para o lado enquanto o ar se transformava em puro calor. Todo o oxigênio foi sugado de meus pulmões. Meu pé se prendeu em alguma coisa - uma raiz de árvore, talvez - e a dor subiu por meu tornozelo. Ainda assim, consegui desferir um golpe com a espada e decepei um pedaço do focinho do monstro. Ele se afastou galopando, fora de controle e desorientado. Mas, antes que eu pudesse me sentir muito satisfeito com aquilo, tentei ficar de pé e minha perna esquerda fraquejou. O tornozelo estava torcido, talvez quebrado. O Touro Número 1 investiu na minha direção. Não havia como me arrastar para fora do seu caminho. Annabeth gritou: - Tyson, ajude-o! Em algum lugar por perto, na direção do topo da colina, Tyson lamentou-se: - Não... posso... atravessar! - Eu, Annabeth Chase, lhe dou permissão para entrar no acampamento! Uma trovoada sacudiu a encosta. De repente, Tyson estava lá, disparando em minha direção e gritando: - Percy precisa de ajuda! Antes que eu pudesse dizer que não, Tyson se jogou entre mim e touro bem quando ele soltou uma erupção de fogo nuclear. - Tyson! - gritei. A explosão rodopiou em volta dele como um tornado vermelho. Só consegui ver a silhueta negra de seu corpo. Soube com uma terrível certeza que meu amigo acabara de se transformar em uma coluna de cinzas. Mas, quando o fogo diminuiu, Tyson ainda estava lá, de pé, praticamente ileso. Nem mesmo suas roupas surradas foram chamuscadas. O touro deve ter ficado tão surpreso quanto eu, porque antes que pudesse exalar uma segunda erupção Tyson cerrou os punhos e golpeou a cara dele. - VACA MALVADA. Seus punhos abriram uma cratera no lugar onde estaria o focinho do touro. Duas pequenas colunas de fogo irromperam dos ouvidos. Tyson acertou-o de novo e amassou o bronze sob suas mãos como papel-alumínio. A cabeça do touro agora parecia um boneco de meia virado do avesso. - No chão! - berrou Tyson. O touro cambaleou e caiu de costas. As pernas balançaram debilmente no ar, o vapor escapando pela cabeça e outros lugares esquisitos. Annabeth correu para ver como eu estava. Meu tornozelo parecia estar cheio de ácido, mas ela me deu um pouco do néctar do Olimpo em
  23. 23. seu cantil e imediatamente comecei a me sentir melhor. Havia um cheiro de queimado que depois percebi que vinha de mim. Os pelos em meus braços tinham ficado completamente chamuscados. - E o outro touro? - perguntei. Annabeth apontou colina abaixo. Clarisse tinha cuidado da Vaca Malvada Número 2. Ela a empalara pela pata traseira com uma lança de bronze celestial. Com o focinho semidestruído e um enorme talho no flanco, o bicho tentava correr em câmara lenta, andando em círculos como algum tipo de animal de carrossel. Clarisse tirou o capacete e marchou em nossa direção. Uma mecha do seu cabelo castanho fibroso estava fumegando, mas ela parecia nem notar. Você estragou tudo! - berrou ela para mim. - Eu tinha tudo sob controle! Eu estava atordoado demais para responder. Annabeth resmungou: - Bom ver você também, Clarisse. - Argh! - gritou Clarisse. - Nunca, NUNCA tente me salvar de novo! - Clarisse - disse Annabeth -, você tem alguns campistas feridos. Aquilo a fez cair era si. Até mesmo Clarisse se preocupava com os soldados sob seu comando. - Eu vou voltar - rosnou ela, e depois se afastou pesadamente para avaliar os danos. Olhei para Tyson. - Você não morreu. Tyson baixou os olhos como se estivesse com vergonha. - Desculpe-me. Vim ajudar. Desobedeci a você. - Culpa minha - disse Annabeth. - Não tive escolha. Eu tinha de deixar Tyson cruzar a fronteira para salvá-lo. Caso contrário, você teria morrido. - Deixá-lo cruzar a fronteira? - perguntei. - Mas... - Percy - disse ela -, você já olhou para Tyson com atenção? Quer dizer... para seu rosto. Ignorar a Névoa e realmente olhar para ele. A Névoa faz os seres humanos verem apenas o que seu cérebro pode processar... Eu sabia que ela podia enganar semideuses também, mas... Olhei para o rosto de Tyson. Não foi fácil. Sempre tive dificuldade de olhar diretamente para ele, embora nunca tivesse entendido muito bem por quê. Achava que era só porque sempre havia manteiga de amendoim nos seus dentes tortos. Forcei-me a focalizar seu nariz grande e sem jeito, depois, um pouco mais acima, seus olhos. Não, não olhos. Um olho. Um grande olho, castanho-bezerro, bem no meio da testa, com cílios grossos e grandes lágrimas escorrendo pelas bochechas dos dois lados. - Tyson - gaguejei. - Você é um... - Ciclope - sugeriu Annabeth. - Um bebê, a julgar pela aparência. Provavelmente foi por isso que ele não conseguiu atravessar a fronteira como os touros. Tyson é um dos órfãos sem-teto. - Um dos quê? - Eles estão em quase todas as grandes cidades - disse Annabeth, de um jeito desagradável. - São... erros, Percy. Filhos de espíritos da natureza e deuses... Bem, normalmente, um deus em particular... e nem sempre são perfeitos. Ninguém os quer. Eles são jogados de lado. Crescem nas ruas, sozinhos. Não sei como esse o encontrou, mas ele obviamente gosta de você. Devemos levá-lo a Quíron e deixar que ele decida o que fazer. - Mas o fogo. Como... - Ele é um ciclope. - Annabeth fez uma pausa, como se estivesse se lembrando de algo
  24. 24. desagradável. - Eles operam as forjas dos deuses. Precisam ser imunes ao fogo. É o que eu vinha tentando lhe dizer. Eu estava completamente chocado. Como nunca percebera o que Tyson era? Mas eu não tinha muito tempo para pensar nisso naquele momento. Toda a encosta da colina estava em chamas. Heróis feridos precisavam de atenção. E ainda havia dois touros derrubados para descartar, e eu não fazia idéia de como eles iriam caber nas nossas caçambas normais de lixo reciclável. Clarisse voltou e limpou a fuligem da testa. - Jackson, se você puder agüentar, levante-se. Precisamos car¬regar os feridos de volta para a Casa Grande e informar a Tântalo o que aconteceu. - Tântalo? - perguntei. - O diretor de atividades - disse Clarisse, impaciente. - O diretor de atividades é Quíron. E onde está Argos? Ele é o encarregado da segurança. Devia estar aqui. Clarisse fez uma cara amarga. - Argos foi despedido. Vocês dois estiveram afastados por muito tempo. As coisas estão mudando. - Mas, Quíron... Ele treina garotos para combater monstros há mais de três mil anos. Não pode ter simplesmente ido embora. O que aconteceu? - Aquilo aconteceu - disparou Clarisse. Ela apontou para a árvore de Thalia. Todos os campistas conheciam a história da árvore. Seis anos antes, Grover, Annabeth e dois outros semideuses chamados Thalia e Luke chegaram ao Acampamento Meio-Sangue perseguidos por um exército de monstros. Quando se viram acuados no topo da colina, Thalia, filha de Zeus, montou resistência ali, para dar tempo aos amigos de alcançar a segurança. Quando ela estava morrendo. Zeus se apiedou e a transformou em um pinheiro. Seu espírito reforçou as fronteiras mágicas do acampamento, protegendo-o de ministros. O pinheiro estava lá desde então, forte e saudável. Mas agora suas folhas estavam amarelas. Uma enorme pilha de folhas mortas se acumulava na base da árvore. No centro do tronco, a um metro do chão, havia uma perfuração do tamanho de um buraco de bala, gotejando seiva verde. O gelo cortou meu peito. Agora eu entendia por que o acampamento estava em perigo. As fronteiras mágicas estavam falhando porque a árvore de Thalia estava morrendo. Alguém a envenenara.
  25. 25. CINCO Meu novo companheiro de chalé. Alguma vez você já chegou em casa e encontrou seu quarto todo bagunçado? Como se alguma pessoa prestimosa (oi, mamãe!) ti¬vesse tentado "arrumá-lo" e, de repente, você não conseguisse en¬contrar mais nada? E, mesmo que nada esteja faltando, tem aquela sensação arrepiante de que alguém andou olhando suas coisas e limpando tudo com lustra-móveis que cheira a limão? Foi esse tipo de coisa que senti ao ver o Acampamento Meio-Sangue de novo. Na superfície, nada parecia assim tão diferente. A Casa Grande ainda estava lá com seu telhado azul e sua varanda em toda a volta. Os campos de morangos ainda se aqueciam ao Sol. Os mesmos prédios com colunas gregas brancas se espalhavam pelo vale - o anfiteatro, a arena de combates, o pavilhão-refeitório que dá para o estreito de Long Island. E, aninhados entre os bosques e o ria¬cho, os mesmos chalés - um sortimento maluco de doze prédios, cada qual representando um deus olimpiano diferente. Mas agora havia uma atmosfera de perigo. Dava para perceber que alguma coisa estava errada. Em vez de jogar vôlei na quadra de areia, conselheiros e sátiros armazenavam armas no galpão de ferramentas. Dríades armadas de arcos e flechas conversavam, nervosas, no limite dos bosques. A floresta parecia doente; a grama na campina tinha um tom pálido de amarelo, e as marcas do fogo na Colina Meio-Sangue se destacavam como feias cicatrizes. Alguém tinha bagunçado meu lugar favorito em todo o mundo, e eu não era... bem, um campista feliz. Enquanto caminhávamos para a Casa Grande, reconheci uma porção de campistas do último verão. Ninguém parou para con¬versar. Ninguém disse: "Sejam bem-vindos de volta." Alguns olharam duas vezes quando viram Tyson, mas a maior parte simplesmente passou de cara fechada e seguiu em frente, cumprindo seus deveres - levando mensagens, carregando espadas para afiar nas pedras de amolar. O acampamento parecia uma escola militar. E, acredite, eu as conheço. Fui expulso de algumas. Nada disso importava para Tyson. Ele estava absolutamente fascinado com tudo o que via. - O que é aquilo? - ele se espantava. - Estábulos para pégasos - disse eu. - Os cavalos alados. - O que é aquilo? - Hum... aquilo são os banheiros. - O que é aquilo? - Os chalés dos campistas. Se não sabem quem é seu pai olimpiano, você é deixado no chalé de Hermes... aquele marrom logo ali... até que se descubra. Então, quando já sabem, juntam-no ao grupo de seu pai, ou de sua mãe. Ele olhou para mim abismado. - Você... tem um chalé? - O número 3. - Apontei para uma construção cinzenta e baixa feita de pedras do mar. - Você mora com amigos no chalé? - Não. Não, fico sozinho. - Não estava com vontade de explicar. A verdade embaraçosa: eu era o único naquele chalé porque supostamente não deveria estar vivo. Os "Três Grandes" deuses - Zeus,
  26. 26. Poseidon e Hades - tinham feito um pacto depois da Segunda Guerra Mundial para não ter mais filhos com mortais. Nós éramos mais poderosos que os meios-sangues normais. E imprevisíveis demais. Quando ficávamos zangados, tendíamos a cau¬sar problemas... como a Segunda Guerra Mundial, por exemplo. O pacto dos "Três Grandes" só tinha sido quebrado duas vezes - quando Zeus gerou Thalia e quando Poseidon me gerou. Nenhum de nós devia ter nascido. Thalia acabou transformada em um pinheiro quando tinha doze anos. Eu... bem, eu estava fazendo o melhor possível para não seguir o exemplo dela. Tinha pesadelos só de pensar no que Poseidon poderia me transformar se algum dia eu estivesse à beira da morte - plâncton, quem sabe. Ou um agrupamento flutuante de algas marinhas. Quando chegamos à Casa Grande, encontramos Quíron em seu alojamento, ouvindo suas músicas favoritas da década de 1960 enquanto arrumava seus alforjes. Acho que devo mencionar - Quíron é um centauro. Da cintura para cima parece um sujeito comum, de meia-idade, com cabelo castanho encaracolado e barba desarrumada. Da cintura para baixo, é um corcel branco. Consegue passar por ser humano apertando sua metade inferior em uma cadeira de rodas mágica. De fato, ele se passou por meu professor de latim na sexta série. Mas na maior parte do tempo, se os tetos forem bastante altos, ele prefere circular em sua forma plena de centauro. Assim que o vimos, Tyson ficou paralisado. - Pônei! - exclamou, totalmente extasiado. Quíron se voltou, parecendo ofendido. - Como disse? Annabeth e eu subimos correndo e o abraçamos. - Quíron, o que está acontecendo? Não está... indo embora? - A voz dela estava trêmula. Quíron era como seu segundo pai. Quíron despenteou o cabelo de Annabeth e lhe deu um sorriso bondoso. - Olá, criança. E Percy, ora vejam! Você cresceu esse ano! Engoli em seco. - Clarisse disse que você foi... foi... - Despedido. - Os olhos de Quíron brilharam com um humor soturno. - Ah, bem, alguém tinha de levar a culpa. O Senhor Zeus ficou muito aborrecido. A árvore que ele criou do espírito de sua filha foi envenenada! O sr. D precisava punir alguém. - Quer dizer: se não fosse ele - resmunguei. Só de pensar no diretor do acampamento, sr. D, eu fiquei irritado. - Mas isso é loucura! - exclamou Annabeth. - Quíron, você não poderia ter nada a ver com o envenenamento da árvore de Thalia! - Apesar disso - suspirou Quíron -, alguns no Olimpo não confiam em mim agora, dadas as circunstâncias. - Que circunstâncias? - perguntei. O rosto de Quíron se anuviou. Ele enfiou um dicionário latim-inglês no alforje enquanto a música de Frank Sinatra soava no micro system. Tyson ainda olhava para Quíron, encantado. Choramingou como se quisesse acariciar Quíron, mas tivesse medo de chegar mais perto. - Pônei? Quíron respirou fundo. - Meu caro jovem ciclope! Eu sou um centauro. - Quíron - falei. - E a árvore? O que aconteceu?
  27. 27. Ele sacudiu a cabeça com tristeza. - O veneno usado no pinheiro de Thalia é algo do Mundo Inferior, Percy. Alguma peçonha que eu nunca tinha visto. Deve ter vindo de um monstro da profundeza dos abismos de Tártaro. - Então sabemos quem é o responsável. Cro... - Não invoque o nome do titã, Percy. Especialmente, não aqui, e não agora. - Mas no último verão ele tentou causar uma guerra civil no Olimpo! Isso tem de ser idéia dele. Ele convenceu Luke a fazer aquilo, aquele traidor. - Talvez - disse Quíron. - Mas infelizmente estou sendo responsabilizado porque não evitei que acontecesse e não consigo curá-la. A árvore tem apenas algumas semanas de vida, a não ser... - A não ser o quê? - perguntou Annabeth. - Não - disse Quíron. - Um pensamento tolo. O vale inteiro está sentindo o choque do veneno. As fronteiras mágicas estão se deteriorando. O próprio acampamento está morrendo. Só uma fonte de mágica seria forte o bastante para anular o veneno, e ela foi perdida séculos atrás. - O que é? - perguntei. - Nós vamos encontrá-la! Quíron fechou seu alforje. Apertou o botão stop do seu som. Então se virou e pousou a mão em meu ombro, olhando-me bem nos olhos. - Percy, você tem de me prometer que não vai agir precipitadamente. Disse à sua mãe que não queria que você viesse para cá neste verão. É perigoso demais. Mas agora que está aqui, fique aqui. Treine muito. Aprenda a lutar. Mas não vá embora. - Por quê? - perguntei. - Quero fazer alguma coisa! Não posso simplesmente deixar todas as fronteiras caírem por terra. O acampamento inteiro será... - Invadido por monstros - disse Quíron. - Sim, é o que temo. Mas você não deve se deixar tentar por alguma ação impensada! Isso pode ser uma armadilha do senhor dos titãs. Lembre-se do último verão! Ele quase tirou sua vida. Era verdade, mas ainda assim eu queria muito ajudar. Também queria fazer Cronos pagar. Quer dizer, era de esperar que o senhor dos titãs tivesse aprendido suas lições eras atrás, quando foi derrubado pelos deuses. Era de esperar que ser picado em um milhão de pedacinhos e jogado na parte mais escura do Mundo Inferior lhe desse uma dica sutil de que ninguém o queria por perto. Mas não. Como ele era imortal, ainda estava vivo lá embaixo no Tártaro - sofrendo a dor eterna, faminto por retornar e se vingar do Olimpo. Não podia agir sozinho, mas era muito bom em distorcer a mente de mortais, e até de deuses, para que fizessem seu trabalho sujo. O envenenamento tinha de ser coisa dele. Quem mais seria tão baixo a ponto de atacar a árvore de Thalia, a única coisa que restara de uma heroína que dera a vida para salvar seus amigos? Annabeth estava se esforçando muito para não chorar. Quíron enxugou uma lágrima da bochecha dela. - Fique com Percy, criança - disse ele. - Cuide para que ele fique seguro. A profecia... lembre-se dela! - Eu... eu vou fazer isso. - Hum... - falei. - A profecia que tem relação comigo, mas que os deuses os proibiram de me contar? Ninguém respondeu. - Certo - resmunguei. - Só confirmando. - Quíron... - disse Annabeth. - Você me contou que os deuses o fizeram imortal somente enquanto você fosse necessário para treinar heróis. Se eles o demitem do acampamento... - Jure que fará o melhor que puder para manter Percy afastado do perigo - insistiu ele. - Jure
  28. 28. pelo rio Styx. - Juro... juro pelo rio Styx - disse Annabeth. Trovejou do lado de fora. - Muito bem - disse Quíron. Ele pareceu um pouquinho mais relaxado. - Talvez meu nome seja limpo, e eu retorne. Até lá, vou visitar meus parentes selvagens, em Everglades. Ê possível que eles saibam de algum tratamento que eu tenha esquecido para a árvore envenenada. De qualquer modo, ficarei no exílio até que esse assunto seja resolvido... de um jeito ou de outro. Annabeth sufocou um soluço. Quíron lhe deu umas palmadinhas desajeitadas no ombro. - Vamos, vamos, criança. Preciso confiar sua segurança ao sr. D e ao novo diretor de atividades. Precisamos ter esperanças... bem, talvez eles não destruam o acampamento tão depressa quanto temo. - Afinal, quem é esse tal de Tântalo? - perguntei. - O que ele quer tomando seu emprego? Uma trombeta de concha soou pelo vale. Eu não tinha percebido como era tarde. Era hora de os campistas se reunirem para o jantar. - Vão - disse Quíron. - Vocês o encontrarão no pavilhão. Vou entrar em contato com sua mãe, Percy, e avisá-la de que você está em segurança. Sem dúvida, ela deve estar preocupada a essa altura. Só não se esqueça do meu aviso! Você corre grave perigo. Não pense nem por um momento que o senhor dos titãs o esqueceu! Com isso, ele saiu do apartamento batendo os cascos e desceu para o vestíbulo, enquanto Tyson gritava atrás dele: - Pônei! Não vá! Percebi que tinha esquecido de contar a Quíron sobre meu sonho com Grover. Era tarde demais. O melhor professor que já tivera se fora, talvez para sempre. Tyson começou a chorar alto, quase tanto quanto Annabeth. Tentei lhe dizer que ia dar tudo certo, mas eu não acreditava nisso. Sol estava se pondo atrás do pavilhão de refeições quando os campistas vieram de seus chalés. Ficamos na sombra de uma coluna de mármore e observamos enquanto eles entravam em fila. Annabeth ainda estava bastante abalada, mas prometeu que conversaria conosco mais tarde. Foi então se juntar a seus irmãos do chalé de Atena - uma dúzia de meninos e meninas de cabelos loiros e olhos cinzentos como os dela. Annabeth não era a mais velha, mas passara ali mais verões do que quase todos os outros. Era possível perceber isso só de olhar para o seu colar do acampamento - uma conta para cada verão, e Annabeth tinha seis. Ninguém questionava seu direito de liderar a fila. A seguir veio Clarisse, liderando o chalé de Ares. Estava com o braço na tipóia e um corte feio na bochecha, mas, a não ser por isso, o encontro com os touros de bronze não parecia tê-la intimidado. Alguém prendera com fita adesiva um pedaço de papel nas costas dela, que dizia: VOCÊ MUGE, MENINA! Mas ninguém de seu chalé se deu o trabalho de avisá-la. Depois das crianças de Ares veio o chalé de Hefesto - seis caras liderados por Charles Beckendorf, um garoto grande de quinze anos, afro-americano. Tinha mãos do tamanho de luvas de beisebol e um rosto duro e estrábico de tanto olhar para dentro de uma forja de ferreiro o dia inteiro. Ele era bem simpático depois que você o conhecia, mas ninguém jamais o chamava de Charlie, Chuck ou Charles. A maioria só o chamava de Beckendorf. Dizia-se que ele era capaz de fazer qualquer coisa. Era só lhe dar um pedaço de metal e ele poderia criar uma espada afiada como navalha, um guerreiro robótico ou uma banheira de passarinho musical para o jardim da sua avó. O que a gente quisesse.
  29. 29. Os outros chalés foram entrando em fila: Démeter, Apolo, Afrodite, Dioniso. As náiades emergiram do lago de canoagem. As dríades surgiram das árvores. Da campina veio uma dúzia de sátiros, que me fizeram lembrar de Grover com aflição. Sempre tive um fraco pelos sátiros. Quando estavam no acampamento, serviam como os quebra-galhos do sr. D, o diretor, mas seu trabalho mais importante era lá fora, no mundo real. Eles eram os olheiros do acampamento. Entravam disfarçados em escolas do mundo inteiro, procurando possíveis meios-sangues, e os escoltavam para o acampamento. Foi como conheci Grover. Ele foi o primeiro a reconhecer que eu era um semideus. Depois que os sátiros entraram para jantar, o pessoal do chalé de Hermes veio por último. Era sempre o maior chalé. No último verão, foi liderado por Luke, o cara que tinha lutado com Thalia e Annabeth no topo da Colina Meio-Sangue. Por algum tempo, antes de Poseidon me reclamar, eu me alojei no chalé de Hermes. Luke se tornou meu amigo... e depois tentou me matar. Agora o chalé de Hermes era liderado por Travis e Connoi Stoll. Eles não eram gêmeos, mas eram tão parecidos que isso não importava. Nunca conseguia lembrar qual era o mais velho. Ambos eram altos e magros, com os cabelos castanhos caindo nos olhos. Usavam camisetas laranja do ACAMPAMENTO MEIO-SANGUE por cima de shorts folgados, e tinham aquelas feições de elfo de todos os meninos de Hermes: sobrancelhas arqueadas, sorriso sarcástico e um brilho nos olhos sempre que fitavam você - como se estivessem prestes a jogar uma bombinha dentro de sua camisa. Sempre achei engraçado que o deus dos ladrões tivesse filhos com o sobrenome "Stoll", que lembra a palavra "roubou" em inglês, mas na única vez que mencionei isso a Travis e Connor eles me olharam com cara de paisagem, como se não tivessem entendido a piada. Assim que os últimos campistas entraram, levei Tyson até o meio do pavilhão. As conversas se interromperam. Cabeças se viraram. - Quem convidou aquilo? - murmurou alguém na mesa de Apolo. Olhei furiosamente na direção deles, mas não consegui discer¬ni quem havia falado. Da mesa principal, veio uma voz arrastada, familiar. - Ora, ora, ora, se não é Peter Jackson! O meu milênio está completo. Trinquei os dentes. - Percy Jackson... senhor. O sr. D tomou um gole da sua Diet Coke. - Sim. Bem, como vocês jovens hoje em dia, tanto faz. Ele usava a camisa de sempre, havaiana com estampa de leopardo, bermuda e tênis com meias pretas. A barriga protuberante e a cara vermelha e manchada o faziam parecer um turista de Las Vegas que ficara acordado até tarde nos cassinos. Atrás dele, um sátiro que parecia nervoso tirava as cascas das uvas e as entregava ao sr. D, uma de cada vez. O verdadeiro nome do sr. D é Dioniso. O deus do vinho. Zeus o nomeou diretor do Acampamento Meio-Sangue para ficar abstêmio por cem anos - um castigo por paquerar uma ninfa proibida dos bosques. Ao lado dele, onde normalmente se sentava Quíron (ou ficava em pé, na forma de centauro), havia alguém que eu nunca vira - um homem pálido e terrivelmente magro usando um maca¬cão laranja de prisioneiro. O número acima do bolso era 0001. Ele tinha sombras azuis debaixo dos olhos, unhas sujas e cabelo grisalho malcortado, como se seu último corte de cabelo tivesse sido feito com um cortador de grama. Ele olhou para mim; seus olhos me deixaram nervoso. Ele parecia... em frangalhos. Zangado, frustrado e esfomeado, tudo ao mesmo tempo.
  30. 30. - Esse menino - disselhe Dioniso -, precisa ficar de olho nele. Filho de Poseidon, você sabe. - Ah! - disse o prisioneiro. - Aquele. Seu tom deixou óbvio que ele e Dioniso já haviam conversado extensamente sobre mim. - Eu sou Tântalo - disse o prisioneiro, sorrindo friamente. - Em missão especial aqui, bem, até que o meu senhor Dioniso decida outra coisa. Quanto a você, Perseu Jackson, realmente espero que evite causar mais problemas. - Problemas? - perguntei. Dioniso estalou os dedos. Um jornal apareceu sobre a mesa - a primeira página do New York Post daquele dia. Trazia minha fotografia do anuário do colégio Meriwether. Era difícil para mim distinguir a manchete, mas eu tinha um bom palpite do que dizia. Algo como: Maluco de Treze Anos Toca Fogo em Ginásio. - Sim, problemas - disse Tântalo com satisfação. – Você causou um bocado deles no último verão, pelo que sei. Fiquei zangado demais para falar. Como se fosse culpa minha que os deuses quase tivessem entrado numa guerra civil. Um sátiro avançou, tenso, e pôs um prato de churrasco na frente de Tântalo. O novo diretor de atividades lambeu os beiços. Olhou para sua taça vazia e disse: - Cerveja preta. Reserva especial da Barq’s, 1967. O copo se encheu sozinho de um líquido espumante. Tântalo esticou a mão em dúvida, como se tivesse medo de que a taça estivesse quente. - Vá em frente, meu velho - disse Dioniso, com um brilho estranho nos olhos. -Talvez agora funcione. Tântalo tentou agarrar o copo, mas ele escapuliu rapidamente mies que pudesse tocá-lo. Algumas gotas de cerveja preta transbordaram, e Tântalo tentou recolhê-las com os dedos, mas as gotas deslizaram para longe, como se fossem de mercúrio, antes que as alcançasse. Ele gemeu e se virou para o prato de churrasco. Pegou um garfo e tentou espetar um pedaço de peito, mas o prato deslizou até a extremidade da mesa e saiu voando direto para os carvões do braseiro. - Droga! - resmungou Tântalo. - Ah! que pena... - disse Dioniso com a voz que transbordava falsa solidariedade. - Talvez daqui a alguns dias. Acredite-me, meu velho, trabalhar neste acampamento já vai ser tortura suficiente. Tenho certeza de que sua velha maldição, mais dia, menos dia, vai acabar. - Mais dia, menos dia - murmurou Tântalo, olhando para Diet Coke de Dioniso. - Você tem idéia de como a garganta de uma pessoa fica seca depois de mil anos? - Você é aquele espírito dos Campos de Punição - disse eu. Aquele que fica em pé na lagoa, com a árvore frutífera logo acima, mas não pode comer nem beber. Tântalo arreganhou um sorriso sarcástico para mim. - Você é um verdadeiro erudito, não é, menino? - Deve ter feito alguma coisa realmente horrível quando estava vivo - falei, um pouco impressionado. - O que foi? Os olhos de Tântalo se estreitaram. Atrás dele, os sátiros sacu¬diam a cabeça vigorosamente, tentando me alertar. - Vou ficar de olho em você, Percy Jackson - disse Tântalo. - Não quero problemas no meu acampamento. - Seu acampamento já tem problemas... senhor. - Ah! vá se sentar, Johnson - suspirou Dioniso. - Acho que aquela mesa ali é a sua... aquela em
  31. 31. que ninguém mais quer se sentar. Meu rosto estava queimando, mas eu sabia que era melhor não reagir. Dioniso era uma criança grande, mas uma criança grande imortal e superpoderosa. Eu disse: - Vamos, Tyson. - Ah! não - disse Tântalo. - O monstro fica aqui. Vamos decidir o que fazer com isso. - Com ele - disparei. - Seu nome é Tyson. O novo diretor de atividades ergueu uma sobrancelha. - Tyson salvou o acampamento - insisti. - Ele esmagou aqueles touros de bronze. Se não fosse isso, eles teriam queima este lugar inteiro. - Sim - suspirou Tântalo -, e que lamentável teria sido. Dioniso deu uma risadinha. - Deixe-nos - ordenou Tântalo - enquanto decidimos destino da criatura. Tyson olhou para mim com medo em seu único e grande olho, mas eu sabia que não poderia desobedecer a uma ordem direta dos diretores do acampamento. Pelo menos, não abertamente. - Vou estar logo ali, grandão - prometi. - Não se preocupe. Vamos achar um lugar legal para você dormir esta noite. Tyson assentiu. - Acredito em você. Você é meu amigo. Eu me senti ainda mais culpado. Arrastei-me até a mesa de Poseidon e despenquei no banco, uma ninfa dos bosques me levou um prato de pizza olimpiana de azeitonas e pepperoni, mas eu não estava com fome. Quase fui morto duas vezes naquele dia. Tinha conseguido terminar o ano letivo com um desastre completo. O Acampamento Meio-Sangue estava em sérias dificuldades e Quíron me dissera para não fazer nada a esse respeito. Eu não me sentia muito agradecido, mas levei meu jantar até o brazeiro de bronze, como era costume, e joguei parte dele nas chamas. - Poseidon - murmurei -, aceite minha oferenda. E me mande alguma ajuda enquanto isso, rezei em silêncio. Por favor. A fumaça da pizza queimada se transformou em algo fragrante – o cheiro de uma leve brisa marítima misturado com perfume de flores -, mas eu não sabia muito bem se aquilo significava que meu pai realmente ouvia. Voltei para meu lugar. Não achava que a situação pudesse piorar muito. Mas então Tântalo mandou um dos sátiros tocar a trombeta de concha para chamar nossa atenção para os avisos. - Sim, muito bem - disse Tântalo depois que as conversas silenciaram. - Mais uma bela refeição! Ou, ao menos, é o que me disseram. - Enquanto falava, aproximava a mão do prato de jantar reabastecido, como se, quem sabe, a comida não fosse notar o que de estava fazendo. Mas notou. O prato disparou pela mesa assim que a mão dele chegou a uma distância de quinze centímetros. - E aqui, no primeiro dia do meu mandato - continuou -, gostaria de dizer que agradável forma de punição é estar aqui. Ao longo do verão, eu espero torturar, digo, interagir com cada um de vocês, crianças. Todos parecem prontos para comer. Dioniso bateu palmas educadamente, puxando alguns aplausos desanimados dos sátiros. Tyson ainda estava plantado junto à mesa principal, aparentemente desconfortável, mas toda vez que tentava escapar do centro das atenções Tântalo o puxava de volta. - E agora, algumas mudanças! - Tântalo deu um sorriso torto para os campistas. - Estamos
  32. 32. reinstituindo as corridas de bigas! Murmúrios irromperam em todas as mesas - agitação, medo, incredulidade. - Agora eu sei - continuou Tântalo, levantando a voz - que essas corridas foram suspensas há alguns anos devido a, ahn... problemas técnicos. - Três mortes e vinte e seis mutilações - gritou alguém da mesa de Apoio. - Sim, sim! - disse Tântalo. - Mas sei que todos vocês vão se juntar a mim para dar as boas-vindas ao retorno dessa tradição do acampamento. Louros de ouro serão entregues aos vencedores todos os meses. As equipes podem se registrar pela manhã! A primeira corrida acontecerá dentro de três dias. Vamos liberá-lo da maior parte de suas atividades costumeiras para que preparem as bigas e escolham seus cavalos. Ah! e cheguei a mencionar que a equipe do chalé vitorioso será dispensada das obrigações diárias no mês em que vencer? Uma explosão de conversas animadas - sem trabalho na cozinha um mês inteiro? Sem limpeza de estábulos? Ele estava falando sério? Então a última pessoa de quem eu esperava uma objeção fez objeção. - Mas, senhor! - disse Clarisse. Ela parecia nervosa, mas ficou em pé para falar da mesa de Ares. Alguns dos campistas riram ao verem o cartaz “VOCÊ MUGE, MENINA.” nas costas dela. - E o serviço de patrulha? Quer dizer, se abandonarmos tudo para preparar nossas bigas... - Ah! a heroína do dia - exclamou Tântalo. - A corajosa Clarisse, que sozinha derrotou os touros de bronze! Clarisse piscou, depois corou. - Ahn, eu não... - E modesta também - sorriu Tântalo. - Não se preocupe querida! Isto é um acampamento de verão. Estamos aqui para nos divertir, certo? - Mas a árvore... - E agora - disse Tântalo enquanto diversos companheiros chalé de Clarisse a puxavam de volta para o banco -, antes que passemos à fogueira e à cantoria, uma pequena questão doméstica: Percy Jackson e Annabeth Chase julgaram apropriado, por alguma razão, trazer aqui isto. - Tântalo acenou a mão para Tyson. Um murmúrio desconfortável se espalhou entre os campistas. Várias pessoas me olharam de lado. Tive vontade de matar Tântalo. - Agora, é claro - disse ele -, os ciclopes têm reputação de ser monstros sanguinários com uma capacidade cerebral muito pequena em circunstâncias normais, eu soltaria essa besta-fera nos bosques e mandaria vocês em seu encalço com tochas e pedaços paus. Mas, quem sabe? Talvez este ciclope não seja tão horrível quanto seus irmãos. Até que ele prove ser digno de destruição, precisamos de um lugar para mantê-lo! Pensei nos estábulos, mas isso deixaria os cavalos nervosos. Quem sabe o chalé de Hermes? Silêncio na mesa de Hermes. Travis e Connor Stoll de repente ficaram muito interessados na toalha de mesa. Eu não poderia culpá-los. O chalé de Hermes estava sempre cheio a ponto de arrebentar. Não havia como abrigar um ciclope de um metro e noventa. - Vamos, vamos - caçoou Tântalo. - O monstro pode realizar algumas tarefas domésticas. Alguma sugestão sobre onde esta besta-fera deve ser recolhida? De repente todos ficaram boquiabertos. Tântalo afastou-se bruscamente de Tyson, surpreso. Tudo o que pude fazer foi olhar incrédulo para a luz verde brilhante que estava prestes a mudar minha vida - uma impressionante imagem holográfica que apareceu acima da cabeça de Tyson.
  33. 33. Com um nó de enjôo no estômago, lembrei-me do que Annabeth dissera sobre os ciclopes: Eles são filhos de espíritos da natureza e deuses... Bem, normalmente, um deus em particular... Rodopiando acima de Tyson havia um reluzente tridente verde - o mesmo símbolo que aparecera sobre mim no dia em que Poseidon me reclamou como seu filho. Houve um momento de silêncio reverente. Ser reclamado era um evento raro. Alguns campistas aguarda¬vam a vida inteira em vão. Quando fui reclamado por Poseidnii no último verão, todos se ajoelharam respeitosamente. Mas ali eles seguiram o exemplo de Tântalo: e Tântalo caiu na gargalhada. - Bem! Acho que agora sabemos onde pôr a besta-fera. Pelos deuses, posso ver a familiar semelhança! Todos riram, exceto Annabeth e alguns dos meus outros amigos. Tyson pareceu nem notar. Estava perplexo demais, tentando espantar o tridente reluzente que agora desaparecia pouco a pouco. Ele era muito inocente para entender quanto estavam rindo à custa dele, e como as pessoas eram cruéis. Mas eu entendi. Eu tinha um novo companheiro de chalé. E tinha um monstro como meio-irmão.
  34. 34. SEIS O ataque dos pombos demoníacos. Os dias que se seguiram foram uma tortura, bem como Tântalo queria. Primeiro, havia Tyson se mudando para o chalé de Poseidon, dando risadinhas consigo mesmo a cada quinze segundos e dizendo: - Percy é meu irmão? - Como se tivesse acabado de ganhar na loteria. - Ei, Tyson - dizia eu. - Não é assim tão simples. Mas não havia como explicar a ele. Ele estava nas nuvens. E eu... por mais que gostasse do grandão, não podia deixar de me sentir sem graça. Envergonhado. Pronto, falei. Meu pai, o todo-poderoso Poseidon, ficara enrabichado por algum espírito da natureza, e Tyson era o resultado. Quer dizer, eu tinha lido os mitos sobre os ciclopes. Até lembrava que eles eram, freqüentemente, filhos de Poseidon. Mas nunca tinha me dado conta de que isso fazia deles... minha família. Até ter Tyson morando comigo, no beliche ao lado. Depois, havia os comentários dos outros campistas. De repente, eu não era Percy Jackson, o cara legal que recuperara o relâmpago de Zeus no último verão. Agora eu era Percy Jackson, o pobre idiota que tinha um monstro feioso como irmão. - Ele não é meu irmão de verdade! - eu protestava sempre que Tyson não estava por perto. - Ele é mais como um meio-irmão do lado monstruoso da família. Tipo... um meio-irmão de segundo grau ou coisa assim. Ninguém caiu nessa. Eu admito - estava zangado com meu pai. Sentia que ser seu filho passara a ser uma piada. Annabeth tentou fazer com que eu me sentisse melhor. Sugeriu que forrmássemos uma equipe para a corrida de bigas, para desviar a cabeça dos problemas. Não me entenda mal - nós dois odiávamos Tântalo e estávamos preocupadíssimos com o acampamento -, mas não sabíamos o que fazer. Até que nos ocorresse algum plano brilhante para salvar a árvore de Thalia, calculamos que poderíamos muito bem participar das corridas. Afinal, a mãe de Annabeth, Atena, inventara a carruagem, e meu pai criara os cavalos. Juntos, aquela pista ia ser nossa. Uma bela manhã Annabeth e eu estávamos sentados junto ao lago de canoagem rabiscando esboços de bigas quando alguns engraçadinhos do chalé de Afrodite passaram por lá e me perguntaram se eu precisava de um delineador para o olho... - Ah! desculpe, olhos. Enquanto eles se afastavam dando risada, Annabeth resmungou: - O que você precisa fazer, Percy, é ignorá-los. Você não tem culpa de ter um monstro como irmão. - Ele não é meu irmão! - disparei. - E ele também não é um monstro! Annabeth ergueu as sobrancelhas. - Ei, não se zangue comigo! E, tecnicamente, ele é, sim, um monstro. - Bem, você lhe deu permissão para entrar no acampamento. - Porque era o único jeito de salvar sua vida! Quer dizei, sinto muito, Percy, eu não esperava que Poseidon o reclamasse. Os ciclopes são as criaturas mais enganadoras, traiçoeiras... - Ele não é! O que você tem contra os ciclopes, afinal? As orelhas de Annabeth ficaram rosadas. Tive a sensação de que havia algo que ela não estava

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