A integração das tecnologias na educação

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A integração das tecnologias na educação

  1. 1. A integração das tecnologias na educaçãoJosé Manuel MoranEspecialista em mudanças na educação presencial e a distânciajmmoran@usp.brAs tecnologias evoluem em quatro direçõesfundamentais:Do analógico para o digital (digitalização)Do físico para o virtual (virtualização)Do fixo para o móvel (mobilidade)Do massivo para o individual (personalização)Carly Fiorina, ex-presidente da HPackardA digitalização permite registrar, editar, combinar, manipulartoda e qualquer informação, por qualquer meio, em qualquer lugar, aqualquer tempo. A digitalização traz a multiplicação de possibilidadesde escolha, de interação. A mobilidade e a virtualização nos libertamdos espaços e tempos rígidos, previsíveis, determinados.As tecnologias que num primeiro momento são utilizadas deforma separada – computador, celular, Internet, mp3, câmera digital– e caminham na direção da convergência, da integração, dosequipamentos multifuncionais que agregam valor.O computador continua, mas ligado à internet, à câmera digital,ao celular, ao mp3, principalmente nos pockets ou computadores demão. O telefone celular é a tecnologia que atualmente mais agregavalor: é wireless (sem fio) e rapidamente incorporou o acesso àInternet, à foto digital, aos programas de comunicação (voz, TV), aoentretenimento (jogos, música-mp3) e outros serviços.Estas tecnologias começam a afetar profundamente a educação.Esta sempre esteve e continua presa a lugares e temposdeterminados: escola, salas de aula, calendário escolar, gradecurricular.Há vinte anos, para aprender oficialmente, tínhamos que ir auma escola. E hoje? Continuamos, na maioria das situações, indo aomesmo lugar, obrigatoriamente, para aprender. Há mudanças, mas
  2. 2. são pequenas, ínfimas, diante do peso da organização escolar comolocal e tempo fixos, programados, oficiais de aprendizagem.As tecnologias chegaram na escola, mas estas sempreprivilegiaram mais o controle a modernização da infra-estrutura e agestão do que a mudança. Os programas de gestão administrativaestão mais desenvolvidos do que os voltados à aprendizagem. Háavanços na virtualização da aprendizagem, mas só conseguemarranhar superficialmente a estrutura pesada em que estãoestruturados os vários níveis de ensino.Apesar da resistência institucional, as pressões pelas mudançassão cada vez mais fortes. As empresas estão muito ativasna educação on-line e buscam nas universidades mais agilidade,flexibilização e rapidez na oferta de educação continuada. Osavanços na educação a distância com a LDB e a Internet estãosendo notáveis. A LDB legalizou a educação a distância e a Internetlhe tirou o ar de isolamento, de atraso, de ensino de segunda classe.A interconectividade que a Internet e as redes desenvolveram nestesúltimos anos está começando a revolucionar a forma de ensinar eaprender.As redes, principalmente a Internet, estão começando aprovocar mudanças profundas na educação presencial e a distância.Na presencial, desenraizam o conceito de ensino-aprendizagemlocalizado e temporalizado. Podemos aprender desde vários lugares,ao mesmo tempo, on e offline, juntos e separados. Como nosbancos, temos nossa agência (escola) que é nosso ponto dereferência; só que agora não precisamos ir até lá o tempo todo parapoder aprender.As redes também estão provocando mudanças profundas naeducação a distância. Antes a EAD era uma atividade muito solitáriae exigia muito auto-disciplina. Agora com as redes a EAD continuacomo uma atividade individual, combinada com a possibilidade decomunicação instantânea, de criar grupos de aprendizagem,integrando a aprendizagem pessoal com a grupal.A educação presencial está incorporando tecnologias, funções,atividades que eram típicas da educação a distância, e a EAD estádescobrindo que pode ensinar de forma menos individualista,mantendo um equilíbrio entre a flexibilidade e a interação.Alguns problemas na integração das tecnologias naeducaçãoA escola é uma instituição mais tradicional que inovadora. Acultura escolar tem resistido bravamente às mudanças. Os modelos
  3. 3. de ensino focados no professor continuam predominando, apesar dosavanços teóricos em busca de mudanças do foco do ensino para o deaprendizagem. Tudo isto nos mostra que não será fácil mudar estacultura escolar tradicional, que as inovações serão mais lentas, quemuitas instituições reproduzirão no virtual o modelo centralizador noconteúdo e no professor do ensino presencial.Com os processos convencionais de ensino e com a atualdispersão da atenção da vida urbana, fica muito difícil a autonomia, aorganização pessoal, indispensáveis para os processos deaprendizagem à distância. O aluno desorganizado poderá deixarpassar o tempo adequado para cada atividade, discussão, produção epoderá sentir dificuldade em acompanhar o ritmo de um curso. Issoatrapalhará sua motivação, sua própria aprendizagem e a do grupo, oque criará tensão ou indiferença. Alunos assim, aos poucos, poderãodeixar de participar, de produzir e muitos terão dificuldade, àdistância, de retomar a motivação, o entusiasmo pelo curso. Nopresencial, uma conversa dos colegas mais próximos ou do professorpoderá ajudar a que queiram voltar a participar do curso. À distânciaserá possível, mas não fácil.Os alunos estão prontos para a multimídia, os professores, emgeral, não. Os professores sentem cada vez mais claro odescompasso no domínio das tecnologias e, em geral, tentam seguraro máximo que podem, fazendo pequenas concessões, sem mudar oessencial. Creio que muitos professores têm medo de revelar suadificuldade diante do aluno. Por isso e pelo hábito mantêm umaestrutura repressiva, controladora, repetidora. Os professorespercebem que precisam mudar, mas não sabem bem como fazê-lo enão estão preparados para experimentar com segurança. Muitasinstituições também exigem mudanças dos professores sem dar-lhescondições para que eles as efetuem. Freqüentemente algumasorganizações introduzem computadores, conectam as escolas com aInternet e esperam que só isso melhore os problemas do ensino. Osadministradores se frustram ao ver que tanto esforço e dinheiroempatados não se traduzem em mudanças significativas nas aulas enas atitudes do corpo docente.A maior parte dos cursos presenciais e on-line continua focadano conteúdo, focada na informação, no professor, no alunoindividualmente e na interação com o professor/tutor. Convém que oscursos hoje – principalmente os de formação – sejam focados naconstrução do conhecimento e na interação; no equilíbrio entre oindividual e o grupal, entre conteúdo e interação (aprendizagemcooperativa), um conteúdo em parte preparado e em parte construídoao longo do curso.
  4. 4. É difícil manter a motivação no presencial e muito mais novirtual, se não envolvermos os alunos em processos participativos,afetivos, que inspirem confiança. Os cursos que se limitam àtransmissão de informação, de conteúdo, mesmo que estejambrilhantemente produzidos, correm o risco da desmotivação a longoprazo e, principalmente, de que a aprendizagem seja só teórica,insuficiente para dar conta da relação teoria/prática. Em sala de aula,se estivermos atentos, podemos mais facilmente obter feedback dosproblemas que acontecem e procurar dialogar ou encontrar novasestratégias pedagógicas. No virtual, o aluno está mais distante,normalmente só acessível por e-mail, que é frio, não imediato, ou porum telefonema eventual, que embora seja mais direto, num curso àdistância encarece o custo final.Mesmo com tecnologias de ponta, ainda temos grandesdificuldades no gerenciamento emocional, tanto no pessoal como noorganizacional, o que dificulta o aprendizado rápido. As mudanças naeducação dependem, mais do que das novas tecnologias, de termoseducadores, gestores e alunos maduros intelectual, emocional eeticamente; pessoas curiosas, entusiasmadas, abertas, que saibammotivar e dialogar; pessoas com as quais valha a pena entrar emcontato, porque dele saímos enriquecidos. São poucos os educadoresque integram teoria e prática e que aproximam o pensar do viver.Os educadores marcantes atraem não só pelas suas idéias, maspelo contato pessoal. Transmitem bondade e competência, tanto noplano pessoal, familiar como no social, dentro e fora da aula, nopresencial ou no virtual. Há sempre algo surpreendente, diferente noque dizem, nas relações que estabelecem, na sua forma de olhar, naforma de comunicar-se, de agir. E eles, numa sociedade cada vezmais complexa e virtual, se tornarão referências necessárias.

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