Espiritualidade e Materialismo Espiritual

1.125 visualizações

Publicada em

Artigo do professor Marcelo Pelizzoli

0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
1.125
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
237
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
10
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Espiritualidade e Materialismo Espiritual

  1. 1. Reflexões breves sobre Espiritualidade e Materialismo Espiritual Marcelo L. Pelizzoli1 Síntese Trata-se aqui de refletir livremente sobre aspectos importantes na relação entreespiritualidade e materialismo espiritual, no sentido de indicar certos usos paradoxais daespiritualidade nos dias atuais, como ela pode ser dicotômica ou mesmo saudável, bem como acomplexidade do tema. Conceitos em jogo Espiritualidade não é um conceito tácito, claro. Remete a uma gama de significantes quedenotam a partir dos pressupostos de seu usuário; “pre-conceitos” culturais, históricos, emocionais,racionais, mentais de ordem diversa. Sabe-se que a palavra remete a espírito, em geral, entendidocomo algo imaterial, perene, volátil, etéreo, transparente, fantasmagórico, mas também a essência, aqual é o “espírito da coisa”; e substância fundamental. Na filosofia moderna era sinônimo de Razão,de um sentido maior do qual o homem é dotado enquanto consciência cognitiva. Não é o espíritoque possui o ser humano (como para os antigos), mas o contrário. A Razão arrasa a alteridade,aquilo que ela considera estranho na vida. Pode-se, com certo cuidado, afirmar que a dimensãoespiritual é parte que integra a ontologia do humano – sua essência, dir-se-ia em outras épocas. Oque não tem a ver necessariamente com alguém ser ateu ou agnóstico, mas com um modo de ser dascomunidades humanas que se se encontram em sua jornada em busca da dimensão do simbólico, dotremendum et fascinans da Natureza e suas energias. Alma é correlato de espírito, e remete à anima, algo animado, vivo, que tem vida dentro.Daí que o animal é a base do vivo; nós somos animais, seres vivos, do mundo. Mas, em geral, quemfala do espírito exclui o animal. As religiões monoteístas, muitas vezes, sofrem de uma doençamuito séria que é a dicotomia entre corpo e alma, entre mal e bem. A alma liga-se ao bem, e deveescapar da prisão do corpo, que é decaído (pecado original, queda, terreno), mal. A ideia de espirito,no ocidente, carrega a dicotomia por vezes quase esquizofrênica de oposição ao nível terreno, aocorpo. Para além da Idade Média, a carne ainda é sinônimo de pecado. Espírito e Alma remetem, em muitas línguas, à ideia de ar e vento, de sopro, de alento. Apalavra pneuma, do grego, indica espírito, mas também ar (daí pneu, de automóvel). Ruah emhebraico é também sopro. Na literatura religiosa este símbolo-ato é frequente; “Ele expirou”,“entregou o espírito”; “Deus soprou o espírito no primeiro homem”; “o espírito sopra onde quer”,etc. Como é que de uma visão tão ligada à realidade vital, natural, pode-se gerar visões tãofantasmagórico-metafísicas, sem conexão com a natureza ? Apesar das muitas opções, podemos entender espiritualidade inicialmente como a prática docultivo de si corpo-mental, em direção à potencialidades humanas fundamentais: sexualidade sadia,socialidade sadia, bem estar e ambiente sadio, saúde mental, minimum de autoconsciência eautonomia; coragem de viver e morrer, ou mesmo algum sentido razoável para viver a vida emtempos de crise e durezas. O que não exclui alguns aspectos de transcendência. Materialismo espiritual é um conceito novo, e remete ao seu principal promotor, ChogyamTrungpa, mestre tibetano da crazy wisdom surgida nos EUA, e autor do famoso livro Além domaterialismo espiritual. É um conceito muito poderoso para entender as artimanhas do ego emtempos narcísico-consumistas, onde a gratificação imediata impera, em que a salvação material epsíquica, ter-ser-em-seu-poder, impera. É um dos poucos mestres espirituais que conseguem criticaramplamente a sua própria corrente ou religião, e não apenas as outras. O remédio pode ser veneno, 1 PhD. Pós-doutor em Bioética. Professor do Mestrado em Saúde Coletiva; do Mestrado em DireitosHumanos e do Mestrado em Filosofia (UFPE). www.curadores.com.br
  2. 2. e o veneno em certos casos pode servir de remédio. Esta consciência é fundamental para pensar asformas de espiritualidade e de religião hoje. É preciso considerar também que alguns modos deviver a religião podem ser anti-espirituais, podem ser neuróticos, escravizantes, alienantes, egoicos,afirmativos de um status quo violento, ou valores violentadores etc. De algum modo, o nosso foco aqui tem a ver com uma crítica ao que alguns autores, muitosdeles conservadores ou paranoides, chamam de New age, Nova era. Não uso este termo masentendo parte de seu sentido; e não o uso pois em geral é uma forma destes autores criticarem o quelhes ameaça em termos de novas visões, diversidade, fusão de ideias, culturas, espiritualidades. Ovalor das tradições é incontestável diante da fragilidade de muitas ideias e movimentosespiritualizantes e psi de hoje; contudo, isto não significa desconhecer a mudança do tempo, dacultura, das subjetividades e a necessidade de uma ampla liberdade e abertura de caminhos“estranhos”. O meu foco aqui será uma crítica ao materialismo espiritual, presente em formas religiosasou não de espiritualidade atuais, além de apontar a complexidade frente às possibilidades para areflexão sobre espiritualidade em tempos pós-modernos. Pontos e dicotomias a considerar Há um tipo de arquétipo, em parte das comunidades ou tradições, que falam de espírito, queé a ideia de ascensão. Quando eu era pequeno, ficava admirado com as imagens religiosas e decemitérios e santinhos e lembrancinhas post mortem, que representavam uma alma ou espíritosaindo do corpo, do caixão, das costas, da terra em direção aos céus, nuvens, paraísos, anjos,mundos espirituais. São representações muito sintomáticas que povoam a própria base dopensamento filosófico ocidental, por exemplo quando acentuamos que Platão separava totalmente ocorpo da alma, e o mundo visível do invisível, como se o que contasse fosse a possível realidadedisso e não os elementos simbólicos, filosóficos, que podem nos ensinar algo de nosso mundointerior e imagético. A ideia de espírito como algo a alcançar, e algo a elevar para cima, “trans-portar”, transmutar, “trans-substanciar”, é um arquétipo forte e com valores vigentes. Ele remete aoaspecto simbólico, psíquico, para além da prisão materialista das coisas a que nos apegamos, entreeles o nosso próprio corpo como se não fosse envelhecer, mudar, apodrecer, adoentar, mutilar,“monstrificar”, e enfim perecer. Assim, a elevação do sujeito como espírito, tem um valor para alémda neurose dicotômica entre Céu e Terra. Unir céu e terra é um ato simbólico antigo, de bem estardo sujeito no mundo, encontrando seu lugar, vocação, realização, dentro de um mundo desofrimento. É a negação do animal, do sexual, da energia da natureza e corpo, da ontologia damulher, do mal etc. que tornam esta operação falseada, frustrada, neurótica. Buscar a transcendênciaé algo humano, a questão é: como, a que custo, ou a custas de qual exclusão ? A boa transcendência não eleva somente a psique do sujeito, fazendo-o aceitar mais a vida ea morte, mas a consideração do lugar do Outro, do diferente, da alteridade. Se há um crivo para umaespiritualidade sadia, o primeiro, sem dúvida, é o grau de aceitação do outro, abertura, acolhimento.Uma transcendência feita a base do gueto, da autoproteção, da negação do animal, do sexo, dadiversidade, da alteridade, torna-se um perigo coletivo, neurose, infantilidade, intolerância. A mulher é mais “dada à carne”, diz esta tradição androcêntrica ou machocêntrica. Nojudaísmo bíblico antigo, é a mulher, como símbolo da natureza selvagem, que leva o homem, comosímbolo do espírito e depois da razão, a decair, a pecar, a errar. A mulher tem sido um problemapara o monoteísmo masculinizado. Ela não pode ser padre. Ela não tem o poder que os pastorestêm, mas lhes serve e obedece. Ela não é rabino, nem Deus, nem Cristo, nem Moisés, nem Maomé,nem Zaratustra. Há uma falha ontológica na mulher. A mulher é pedaço de homem; falta-lhe algumórgão de poder, falta-lhe inteligência, além de força física certamente. Escorre impureza da mulhertodo mês, como alguém que é “de Lua”, menstrual. 75 % das pessoas queimadas na fogueira daInquisição medieval eram mulheres, e destas boa parte parteiras – ou seja, as que estão mais
  3. 3. próximas tanto do sexo, da Lua impura, bruxarias, do mistério da vida, do saber não médico-oficialpurgativo e “purificador”. Não obstante, quando vamos estudar a Mitologia como raiz junto com as formas maisantigas de religiosidade e religiões, o Deus-mulher vem muito antes do masculino, e logo emseguida encontramos o Deus que completa os opostos, homem e mulher ao mesmo tempo, dois emum. O feminino vem antes como formas de deusas e da Natureza, mãe, mater natura, acquamater.... O Deus homem e monoteísta é uma criação relativamente nova na história da humanidade,afirmada no judaísmo javeísta e depois no cristianismo. Em 90% do tempo do humanus não haviamonoteísmo nem Deus homem exclusivo ou preponderante, mas outros modelos2. Quando se fala em espiritualidade, em geral as pessoas pensam em religião. È assim. Asreligiões são em geral os espaços constituídos para viver a espiritualidade; porém, não podem seconsiderar o monopólio dela. Há um tipo de prisão que pode se formar desta ideia, remetendo aoextra ecclesia nulla salus, prisão dicotômica entre o dentro e o fora; se estou dentro da religião, ouna missa, ou no retiro, no templo etc. estou na presença, no espírito; se estou fora, estou no mundo,mundano. E assim, marca-se a fissão entre um e outro, bem como a sua oposição; o é assim quandotenho que combater um dos lados. Se sou religioso, combato o mundo, tanto quanto o “mal”, se souantirreligioso, posso querer combater o religioso, não o aceitando, e achando que o ateísmo é ocerto. Infelizmente, hoje a neurose maior esta do lado de grupos religiosos que – a semelhança detempos de trevas – começa a combater o diferente: homossexual, religiões afro, certas danças,símbolos, etc. Cria um bode expiatório para projetar seu mal estar, sua unilateralidade, pois nãoreconhece o mal dentro de si, e como parte da vida; não reconhece as emoções negativas, a raiva, oódio, a vontade de matar etc., não reconhece a loucura como parte de si, vendo-a então apenas nooutro. E é justamente por isto que se a vê, porque se tem ligação com ela, precisa-se dela, ou seja, éa nossa Sombra atuando3. O conceito de Sombra deve ser um aprendizado essencial para todo aquele que enceta ocaminho espiritual - que na verdade não é apenas um caminho especial, religioso, mas deindividuação, de maturação da psique, como dizia Jung. A espiritualidade, para muitos, é um modode camuflar, muitas vezes de modo inconsciente, sua fragilidade, seu lado mal, mortal, fracassado,seus medos e a raiva. Um forma de sublimação, diria Freud. Um engrandecimento espiritualizantedo ego. Uma fuga da carne trêmula e ambígua. O cultivo da espiritualidade, para ser sadio, precisaencontrar-se com o “Eu sem defesas”, e com a Sombra que se manifesta no ódio oculto ao outro, aodiferente, na inveja, na estratégia de vitimização de si ou de outrem, na crueldade com a natureza eno consumo dos animais; no olhar preconceituoso para com a mulher, ou os homossexuais; nasdepressões etc. A Sombra pode ser bastante perigosa, mais ainda para quem não lida com ela, não atorna algo consciente, não ouve de algum modo seus apelos, sejam eles considerados “selvagens”ou instituais, animais. A repressão grosseira da Sombra e do Desejo volta como “retorno doreprimido”, contra si e contra outrem. È preciso pagar algumas contas para estar de bem com aespiritualidade. Além do que, está não é somente romântica, divinizante, mas precisa as vezespassar pelo inferno humano de cada um e sua história pessoal. Deus, em tese, poderia ser visto não apenas como o lado bom do espírito, mas a base deonde se ergue tudo, bem e mal – aquilo que chamamos de mal vem também de Deus. Assim, Ele setorna maior do que a nossa dicotomia e nossas neuroses, e incorpora as energias da natureza, vida emorte, sem oposição. Neste viés, a importante simbologia e Mito em torno de Lúcifer sãoreveladores, pois preserva ainda pontos de sabedoria não dicotômica quando preconiza em especialque o ele é filho de Deus, ou seja, um anjo. E não qualquer anjo, mas um ser especial, que tinha umlugar especial ao lado de Deus. E decai. Apresenta-se, aqui, um lado terreno e natural do próprioDeus, como sua Sombra. O Mal vem do Bem; se é assim, obviamente há uma forte familiaridade2 Sobre isto, excelente livro é o de Karen Armstrong, Uma história de Deus.3 Cf. Pelizzoli, 2009.
  4. 4. entre os pólos. A crença de molde dicotômico e projetivo, quando acirrada, canalizou muitassombras – males, emoções negativas, lados obscuros, violências e ruindades de todo tipo humanas –para cima de uma figura imaginária, em forma de espírito(s) e todo um reino chamado “do mal”,que passa a ser o culpado último por trás dos pecados e maldades humanas, bem como do fato deque nós somos mortais, afinal de contas foi o demônio em forma de cobra (natureza terrena) queestimulou nossa queda do “paraíso”. Para um crente fanático, é muito difícil aceitar este fatosimples, de que o mal que ele condena vem do Deus onisciente e bondoso em que ele acredita napureza; de igual modo, aceitar o fato simples de que todos, crentes ou não crentes, têm perdas,sofrimentos, fracassos, depressões, doenças e todas estas coisas dos humanóides ou terráqueos. Entre idealismo-espiritualismo e materialismo-racionalismo balança-se uma das maioresdicotomias do pensamento ocidental; algo próximo ao peso da dicotomia bem e mal, terra e céu,homem e mulher. Os idealistas apresentam uma espiritualidade desencarnada, negadora da Sombra,da sexualidade, da energia animal, das emoções e do que chamam de “irracional”. Temem o caótico,e por vezes fogem do racional, entrando em verdadeiros fanatismos. Criam mundos ideais,perfeitos, ao qual os seguidores terão de entregar-se para ascender. Criam outros mundos, criam ospleiadianos4 (seres extraterrestres), os graus de perfeição em seus guetos míticos, as curasquânticas. São por vezes canalizadores de energias de Andrômeda, acedem a contatos comAtlântida, a cidade perdida; dizem ter pressentido UFOs ou OVNIs e que a Nasa tenta “esconder averdade”. São “iluminados” que vendem cursos de toda ordem, pois descobriram um filão, o dosofrimento dos incautos e ingênuos, dos quais os “canalizadores”, “iluminados”, estão acima. Materialismo espiritual descarado Numa das faces grosseiras do materialismo espiritual, temos o simples e descarado ganho decapital com a criação de empresas, filiais e franchising de templos, como nas igrejas chamadaspentecostais, ou crentes (e que pregam universalidade, amor etc.), e uma gama de ramificações quesão criadas como possibilidades novas de mercado para novos “pastores” e agregações pastoreirasque abrem novos flancos. O enriquecimento livre e alguns problemas com impostos já colocoualguns destes pastores em maus lençóis; não obstante, em nome da liberdade religiosa e deagremiação, e do poder do dinheiro sinônimo de boa equipe de advogados, contadores eestrategistas econômicos, estas entidades conseguem em geral realizar os seus objetivos econômicossem problemas. Quando um religioso coloca como ponto fundamental o dinheiro, o sucesso, o ego,então temos aí a face grosseira do materialismo espiritual, bem visível. Muitos pastores e fieistentarão justificar este enriquecimento com o velho chavão calvinista de que quem é rico o é porqueno fundo é “abençoado por Deus”. Deus quer a sua riqueza, e se você sofre, ou está pobre demais, éque você não tem sido um bom fiel, ou não tem feito expulsões de demônios suficientemente, ounão tem pago os 10% com seu carnê santo em dia. Tecnicamente, isto se chama teologia da prosperidade. Se você prosperar, é porque é bomfiel e contribuinte, se não, é por sua culpa, falha, erro, pecado, falta de fé e de lastro na sua “igreja”. Outro ponto, um pouco mais sutil, mas que em geral não abre mão igualmente do preço apagar, são algumas formas de “espiritualidade” esotéricas ou grosseiramente míticas, de modelo4As Plêiades são um grupo de estrelas na constelação de Touro. Distam 440 anos-luz da Terra. Para ir àestrela mais próxima, Proxima Centauri (fica a 4 anos-luz da Terra, ou seja, 40 trilhões de km !),precisaríamos de 100 mil anos viajando com a velocidade de 50 mil Km por hora, com o foguete maisavançado que temos ! Para alguém vir das Plêiades para a Terra, precisaria de 10 milhões de anos viajando.Apenas isso. Além do mais, o que vemos no espaço, a maioria dos objetos, não existe mais, pois são imagensde um passado, de luzes que estão ainda viajando depois de o objeto se modificar ou mesmo terdesaparecido. A única possibilidade de um “pleiadiano” vir para a Terra é pela imaginação fértil de alguém.Mesmo se o indivíduo fosse um “espírito de luz”, estaria ele com energia e disposição para viajar 440 anossem parar e chegar a um planeta cheio de loucuras e seres tão diferentes dele ?
  5. 5. espiritualista que desencarna da matéria, da carne, de uma base consistente de realidade física eracional. Vejamos um exemplo típico disso: “The Melchizedek method. Este método nos foi presenteado por Toth – um grande MestreAscencionado em 1997, através de (fulano de tal...). Segundo Toth, esta técnica foi praticada naTerra na antiga Atlântida, dentro dos templos de autoconhecimento superiores. O nome dado a estetrabalho faz referência a Lord Melchizedek, o Logos Universal, um dos responsáveis junto aMetraton e Arcanjo Miguel pela organização dos mundos celestiais de Deus (YHWH)”. E, logo em seguida, vejamos as promessas do referido curso (de preço bem caro): “Ativação do corpo de luz Merkaba do Holograma do Amor, Compreensão do temponatural (calendário maia), Ativação dos chackras na freqüência 13-20-33, Cura, purificação erejuvenescimento dos 7 corpos, Técnicas para regeneração corporal, Consciência de abundância,O novo mudra de consciência de unidade holográfica, Acesso e avanço do tempo-espaço contínuo,Equilíbrio holográfico dos chackras, Bi-locação holográfica, Codificação das 5 línguas chavessagradas: egípcio, tibetano, chinês, hebraico e sânscrito através da glândula pineal, Ativação daAnkh (antigo símbolo egípcio) pelo ponto zero do corpo, Técnica de limpeza holográfica através daContagem 33.” Nem o mais fantasioso filme de ficção científica teria tal capacidade de imaginação; bemcomo o mais estratégico vendedor do mundo não teria tal capacidade de invenção sutil depossibilidades para o seu produto, espiritual, terapêutico e mágico no caso. Por outro lado, a atitude racionalista, vigente em especial na academia e centros de pesquisa,“jogam a criança com a água do banho fora”; extirpam funções humanas importantes, como asdimensões emocionais, intuitivas, sensitivas, da sabedoria populares, e da experiência não-metódica, ou mesmo espiritual. A depender de um destes pólos, estamos em um “beco sem saída”,numa “sinuca de bico”. Gravitar entre estes dois pólos é o mesmo que ir da direita até a esquerdaextremista, ou vice-versa, como temos vários exemplo no Brasil, os quais aos olhos inocentes podeparecer estranho; contudo, trata-se de uma energia neurótica semelhante. Os racionalistas seescondem por trás da mascara da razão, da luz racional ou das leis matemático-físicas do mundo. Oidealista põe a cabeça no céu, o racionalista poe o céu e o mundo na cabeça. Os dois representam,segundo Reich, uma mesma face da moeda doentia do saber ocidental, seja filosofia, seja ciência,sejam movimentos religiosos ou mitológicos. Um hora adora-se fantasmas, outra, matéria, coisas,razões, teorias. Teme-se demais perder as referências do ego e seu grupo. Este é um tema candente e importante hoje. Trago outro exemplo, o do filme O Segredo(patrocinado por um grupo espiritualista que aparece no filme), um entre tantos deste tipo que estãotomando a mídia. Trata-se da invasão sem pudor do materialismo espiritual nas telas, da auto-ajudade “alto” nível, já que nos livros entrou bem antes. O filme em pauta promete um verdadeiroparaíso na mente e na terra, pela confiança em dimensões como a da abundância, prosperidade, acrença no progresso, pregando que a pobreza no mundo tem como causa base a mentalidadenegativa das pessoas. Trata-se de um filme sem responsabilidade social, desprovido deargumentação e base em fatos plausível, sem lastro na realidade mundial, abrindo mão da criseecológica, política e econômica atual. Trata-se uma negação grosseira da realidade, e dos modoshumanos de agir no mundo, até porque nega a alteridade da vida, caindo num certo determinismoindividualista, acoplado a uma visão quântica de rede. Pegando frases pérolas de autoresconsagrados e de grandes tradições espirituais, principalmente orientais, apela para um tipo deconsumo espiritual, energético, mítico, burguês. È feito na base da cultura narcísica norte-americana, e aposta no pensamento mágico de que se você desejar e mentalizar muito vai conseguiro que quer, desde uma vaga de estacionamento em lugar lotado, até uma casa, ou o seu primeiromilhão de dólar. O apelo é tão forte que até pessoas com bom grau de educação caem nestes contosde fadas. Há elementos disso também presentes em filmes como Quem somos nós (What the bleepdo you know), ou ainda Como conhecer Deus, que sintomaticamente começa mostrando casinos deLas Vegas, e é carreado por Deepak Chopra, guru de muitos artistas norte-americanos, tal como ofalecido Michel Jackson. Assim caminha a humanidade. Toda pessoa tem direito às suas crenças, sem limites; e os
  6. 6. que enxergam nestas crenças algum engodo, perigos ou alienações, têm igualmente o direito decriticá-las, até mesmo para que elas passem pelo crivo da crítica e da conversação aberta. Espiritualidade encarnada Segundo Levinas, a “espiritualidade é a fome do outro”. Em duplo sentido; em primeiro anecessidade real dos meus próximos ou conterrâneos ou citadinos que encontro na rua de seremacolhidos, terem o que comer dignamente, terem um cuidado básico para seguir vivendo. Ou seja,“a fé sem obras é morta”, diz são Tiago no Novo Testamento. O “inferno está cheio de boasintenções” e de fé, as vezes fé demais. A questão é que tipo de fé é esta, apenas egóica, neurótica,salvífica, medrosa, desencarnada ? Em segundo lugar, é a fome de outrem, de como precisamos dosoutros, uns dos outros para viver, como o sentido comunitário, gregário, da boa convivência, dogrupo, é fundamental para a vida de cada pessoa. O eu somente se faz eu a partir do outro, do olharde outrem (Lacan), que me institui dentro de um lugar dos humanos, a família, minha identidade,minha narrativa de onde venho, a que pertenço e qual sentido de vida neste contexto em que surgi eestou. Espiritualidade sem alteridade é, em geral, um fracasso, uma jogada ilusória. A dimensãosocial, ecológica, cidadã, política, da espiritualidade é fundamental. Não significa que é necessárioser um militante da política convencional, mas significa que devo responder ao mundo que merodeia, injustiças, consumo insalubre e destrutivo, crise urbana e ecológica etc. Algumas religiões conseguem atingir mais os pobres, outras, mais os ricos e classe média.Exemplo disso é o budismo no Brasil, o qual atinge muito pouco as classes baixas, salvo algunspoucos e bons exemplos. Isto não é um apenas um desmérito ou mesmo mérito (já que as classesaltas têm mais acesso à educação, cultura e em tese seria mais consciente e menos massificada), masalgo que deve fazer pensar: por que uma religião se concentra nas classes altas e médias, e por queoutra se concentra nas classes baixas. O catolicismo, neste aspecto, é mais amplo. Um bom exemplo do aspecto encarnado e de mística política está na teologia da libertação,nas CEBs e na igreja popular engajada que surgiu no Brasil nos anos 70 em diante. Significou umarenovação da arcaica romanização católica, em prol da vida das comunidades oprimidas pelo Brasilafora. Esta face da igreja católica teve um papel importante também na luta por direitos no país,além de influenciar positivamente na política em prol da boa cidadania e emancipação. Nãoobstante, em vista da crise e assoberbamento do capitalismo atual, esta face diminuiu sua força einfluência. No momento atual, parece que estamos sendo levados por uma avalanche de sociopatia,que atinge do mundo empresarial aos governos, chegando às religiões e espiritualidades daprosperidade. Já o termo “espirituoso” indica para alguém com espirito lúdico e vivo. Há também aexpressão “presença de espírito”, que indica ter consciência, lucidez no que está acontecendo,presença de percepção e ação diante dos acontecimentos. Para C. Trungpa, tanto quanto para Freud,uma espiritualidade que não tem senso de humor corre maior risco de neurose. Poder rir de simesmo é um ato sadio, tanto quanto poder rir dos apegos, do que passou. Sinal de leveza e de quese começa a perceber que tudo muda, passa, nada fica, e que o que damos peso de realidade não temtodo o peso que damos. Neste espirito, pode-se perceber o uso que se faz das máscaras. Para mim,poder rir da própria religião, espiritualidade, ou ter representações dos deuses palhaços, indica umgrau de espiritualidade sadia, lúcida, acolhedora da diferença. As formas de espiritualidade têmmuito a contribuir com o nosso crescimento como pessoa, social, sensível, amorosa, de valores,ecológica etc., desde que se tenha um crivo de consciência e de distanciamento das armadilhas doego, por vezes inflado espiritualmente, ou desesperado, ou iludido. Somos buscadores espirituaispois buscadores da vida diante da imensidão da alteridade. Breve conclusão Assim, para abordar a questão da espiritualidade é preciso encarar de frente às seguintesquestões problemáticas: materialismo espiritual, exclusão da mulher, afastamento da natureza,
  7. 7. dicotomias, perda do corpo, da sexualidade, jogo da culpa, abandono metafísico da terra,idealização, ciência e filosofia racionalista, papel das religiões, monoteísmo e politeísmo, emespecial a questão da psicológica da Sombra, entre outros. Como breve conclusão, creio que podemos pensar e experimentar a espiritualidade comoindividuação, como psiquismo, maturação da psique. O conceito de espírito tem relação com apsique, em especial aquele elemento ou disposição, ânimo, que remete ao conceito de Self, como oelemento mais profundo e centro da nossa personalidade, que tantas faces e máscaras apresenta,pois não somos seres unos e simples, nem máquinas, nem apenas matéria, nem também espíritofantasmagórico, mas seres complexos, no tempo, que buscam se cultivar a cada momento, seresabertos, errantes e acertantes, felizes e sofredores. Assim, pode-se pensar a espiritualidade - paraalém do materialismo espiritual - como caminho de vida, de dar sentido a sua vida, na luta porinstituições justas e em uma vida boa e pacífica nas comunidades em que vivemos, incluindo o quechamamos de “meio” ambiente. BibliografiaPELIZZOLI, Marcelo L. A emergência do paradigma ecológico. Petrópolis: Vozes, 1999._____________. Levinas: a reconstrução da subjetividade. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002._____________. O eu e a diferença: Husserl e Heidegger. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002._____________. Homo ecologicus. Caxias do Sul: EDUCS, 2011._____________(Org.). Bioética como novo paradigma. Petrópolis: Vozes, 2007._____________(Org.) Cultura de paz – educação do novo tempo. Recife: EDUFPE, 2008._____________(Org.) Cultura de paz – a alteridade em jogo. Recife: EDUFPE, 2009._____________(Org.) Cultura de paz – restauração e direitos. Recife: EDUFPE, 2010._____________(Org.). Caminhos da saúde – a integração mente-corpo. Petrópolis: Vozes, 2010._____________(Org.) Novos paradigmas em saúde. Recife: EDUFPE, 2011._____________(Org.) Diálogo, mediação e práticas restaurativas. Recife: EDUFPE, 2012._____________(Org.) Novas visões em saúde. Recife: EDUFPE, 2012._____________& SAYÃO, Sandro. (Orgs.) Fragmentos do humano. Recife: EDUFPE, 2012._____________In: Sayão, Sandro. (Org.) Faces do humano: mascarados, sofredores,consumidores. Recife: EDUFPE, 2010.TRUNGPA, Chogyam. Além do materialismo espiritual. SP: Cultrix, 2002.www.curadores.com.br

×