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Caracteristicas dos programas de educação física escolar   guedes Caracteristicas dos programas de educação física escolar guedes Document Transcript

  • 49CDD. 20.ed. 371.26 613.7042 CARACTERÍSTICAS DOS PROGRAMAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR Joana Elisabete Ribeiro Pinto GUEDES* Dartagnan Pinto GUEDES* RESUMO O propósito do estudo foi desenvolver uma análise quanto ao tipo das atividades e ao nível deintensidade dos esforços físicos oferecidos aos escolares durante as aulas de educação física, numa tentativade estabelecer relações com os objetivos direcionados à promoção da saúde. Foram analisadas 144 aulas deeducação física, selecionadas aleatoriamente, de 15 diferentes escolas da rede de ensino do 1o. e 2o. graus domunicípio de Londrina, Paraná, Brasil. O tipo das atividades foi verificada por intermédio de um instrumentode observação direta, construído especificamente para essa finalidade. O nível de intensidade dos esforçosfísicos foi controlado mediante a monitorização da freqüência cardíaca. Os resultados encontrados indicamque os escolares se ocuparam por um tempo excessivamente longo com tarefas de organização e transição dasatividades ministradas. As atividades mais frequentemente selecionadas pelos professores envolveu a práticade esportes. Foram oferecidas aos escolares poucas oportunidades de participar em atividades voltadas aodesenvolvimento e ao aprimoramento da aptidão física. Os professores responsáveis pelas aulas em nenhummomento recorreram a exposição de conceitos teóricos associados à prática da atividade física relacionada àsaúde. O nível de intensidade dos esforços físicos administrados aos escolares foi menor que o limite mínimonecessário para que possa ocorrer adaptações funcionais voltadas a um melhor funcionamento orgânico.Conclui-se que são necessárias modificações nos atuais programas de educação física para que se possa levaros escolares a assumirem atitudes positivas quanto à prática da atividade física relacionada à saúde.UNITERMOS: Educação física escolar; Promoção da saúde; Programas de ensino.INTRODUÇÃO Uma das principais preocupações da comunidade científica, na área da educação física e dasaúde pública, vem sendo a busca de alternativas que possam auxiliar na tentativa de reverter a elevadaincidência de distúrbios orgânicos associados à falta de atividade física (Brodie & Birtwistle, 1990; Riddoch& Boreham, 1995; Sallis & McKenzie, 1991). Resultados de alguns estudos têm procurado demonstrar que, na sociedade atual, uma grandeproporção da população jovem e de adultos vem apresentando hábitos de vida que favorecem um cotidianomais sedentário, impedindo a realização de esforços físicos que possam garantir melhores níveis de saúdebiológica, psicológica e emocional (Barnekow-Bergkvist, Hedberg, Janlert & Jansson, 1996; Pate, Long &Heath, 1994; Telema, Laakso & Yang, 1994;). Além dos benefícios imediatos atribuídos a realização de esforços físicos adequados na infânciae na adolescência, evidências apontam que as experiências positivas associadas à prática de atividades físicasvivenciadas nessas idades se caracterizam como importantes atributos no desenvolvimento de atitudes,* Centro de Educação Física e Desporto da Universidade Estadual de Londrina.Rev. paul. Educ. Fís., São Paulo, 11(1):49-62, jan./jun. 1997
  • 50 GUEDES, J.E.R.P. & GUEDES, D.P.habilidades e hábitos que podem auxiliar futuramente na adoção de um estilo de vida ativo fisicamente naidade adulta (Kuh & Cooper, 1992; Powell & Dysinger, 1987; Sallis, Simons-Norton, Stone, Corbin, Epstein,Faucette, Iannotti, Killen, Klesges, Petray, Rowland & Taylor, 1992; Simons-Morton, Parcel, O’hara, Blair &Pate, 1988). Uma resposta a essa situação tem sido o desenvolvimento de iniciativas voltadas à redefiniçãodo verdadeiro papel dos programas de educação física escolar como meio de promoção da saúde (Devís &Velert, 1992; Fox & Biddle, 1989; Guedes & Guedes, 1994; Nahas & Corbin, 1992). Nesse particular, pareceexistir unanimidade entre as diferentes propostas quanto ao atendimento de duas metas prioritárias: a)promover experiências motoras que possam repercutir satisfatoriamente em direção a um melhor estado desaúde, procurando afastar ao máximo a possibilidade de aparecimento dos fatores de risco que contribuempara o surgimento de eventuais distúrbios orgânicos; e b) levar os educandos a assumirem atitudes positivasem relação a prática de atividades físicas para que se tornem ativos fisicamente não apenas na infância e naadolescência, mas também na idade adulta. O propósito do presente estudo foi analisar as características dos programas de educação físicaescolar oferecidos pela rede de ensino do 1o. e 2o. graus do município de Londrina, Paraná, Brasil, medianteobservações quanto ao tipo das atividades e ao nível de intensidade dos esforços físicos a que são submetidosos escolares, numa tentativa de estabelecer relações com os objetivos educacionais voltados à atividade físicacomo meio de promoção da saúde.MATERIAL E MÉTODO Para o desenvolvimento do estudo, os procedimentos de seleção da amostra obedeceram a umaseqüência de etapas, com a intenção de se obter uma amostra sistemática-aleatória que fosse representativa darede estadual de ensino do município. Para tanto, num primeiro momento, foi levantado o número de sériesde ensino da 5a. a 8a. série do 1o. grau e da 1a. a 3a. série do 2o. grau, separadamente por escolas. Segundo informações do Setor de Estatística do Núcleo Regional de Ensino da Secretaria deEducação do Estado, o município de Londrina - Paraná apresentava na ocasião da coleta das informações, anoletivo de 1996, por volta de 47 mil escolares envolvidos com a estrutura de ensino de 1o. e 2o. graus,distribuídos entre as 69 escolas pertencentes a rede estadual de ensino. Quanto à escolha daquelas escolas que foram envolvidas no estudo, decidiu-se por trabalharcom 20% dos estabelecimentos para cada série de ensino. O sorteio dessas escolas, dentre as 69 existentes, foidesenvolvido por um sistema de amostragem sistemática. Para tanto, procurando garantir maiorrepresentatividade ao sorteio sistemático empregado, elaborou-se uma listagem ordenando as escolas combase no número crescente de alunos matriculados, separadamente por série. Depois, a partir dessa disposição,sorteou-se de forma aleatória a primeira escola em cada série, e mediante a utilização de um procedimento dotipo zigue-zague, de conformidade com o número de escolares matriculados em cada escola/série, realizou-sea seleção das demais escolas em cada série de ensino - TABELA 1. TABELA 1 - Número de aulas de educação física analisadas. 1o. Grau 2o. Grau 5a. Série 6a. Série 7a. Série 8a. Série 1a. Série 2a. Série 3a. Série Total 24 27 27 23 15 15 13 144 Com relação à escolha dos escolares, optou-se arbitrariamente por analisar dois deles em cadasérie de ensino, por escola sorteada para estudo, um de cada sexo. Para seleção dos escolares, procedeu-seinicialmente ao sorteio de turmas constituídas especificamente para o desenvolvimento das aulas de educaçãofísica, por série de ensino e, na seqüência, dentro de cada turma selecionada, sortearam-se os escolaresnecessários para compor a amostra. Rev. paul. Educ. Fís., São Paulo, 11(1):49-62, jan./jun. 1997
  • Características dos programas de educação física escolar 51 Para a exclusão de algum escolar sorteado para o estudo adotou-se como critério: a) recusa emparticipar do estudo; b) algum problema físico que o impedisse, temporária ou definitivamente, de seenvolver com as atividades programadas pelo professor; e c) ausência às aulas no dia marcado para a coletados dados. Nestes casos, procedeu-se a um novo sorteio para repor as eventuais perdas. As características quanto ao tipo das atividades desenvolvidas pelos escolares foram analisadaspor intermédio de um instrumento de observação direta, construído especificamente para essa finalidade. Aintensidade dos esforços físicos foi controlada mediante a monitorização da freqüência cardíaca ao longo detoda a aula de educação física. Na aplicação do instrumento de observação direta, as aulas de educação física foram divididasem 200 períodos de 15 segundos, o que totaliza os 50 minutos de duração previstos para cada aula. Em cadaperíodo de 15 segundos registrou-se o tipo da atividade em que os escolares sorteados para estudo estavamenvolvidos, de acordo com oito categorias:a) Administração/organização das atividades: situações em que os escolares recebiam instruções do professor quanto à disposição, organização e realização das atividades a serem executadas;b) Transição e/ou aguardando atividades: situações em que os escolares aguardavam o momento de participar das atividades ministradas ou em seu período de transição;c) Prática de habilidades/destrezas motoras: atividades a mão-livre ou com materiais diversos que solicitam prioritariamente a participação de variáveis coordenativas;d) Exercícios de aptidão física: realização de exercícios físicos que podem promover o desenvolvimento e o aprimoramento dos níveis de aptidão física, categorizados em exercícios aeróbicos, de força/resistência muscular e de flexibilidade;e) Jogos de baixa organização: atividades lúdicas estruturadas na forma de conteste que solicitam o envolvimento de regras simplificadas;f) Atividades esportivas: atividades direcionadas à prática de esportes, categorizadas em fundamentação - aprendizagem, domínio e aperfeiçoamento dos gestos esportivos - e no jogo propriamente;g) Dança/expressão corporal: atividades envolvendo música que solicitam diferentes formas de expressão corporal; eh) Conceitos teóricos: apresentação de informações envolvendo conceitos associados à prática da atividade física relacionada à saúde. A monitorização da freqüência cardíaca foi realizada mediante um sistema de telemetriaportátil, fabricado pela Polar Eletronic, modelo Vantage XL. Este sistema consiste de um pequenotransmissor com dois eletrodos, fixado na parte anterior do tronco, e um receptor utilizado como relógio depulso capaz de armazenar os sinais emitidos pelos batimentos cardíacos para futura recuperação através deinterface computadorizada (Leger & Thivierge, 1988). Previamente ao início das aulas de educação física os transmissores foram instalados nosescolares sorteados para estudo e, a cada 15 segundos, a freqüência cardíaca foi registrada continuamente atéseu final. Depois, utilizando-se dos recursos interpretativos que o sistema de telemetria computadorizadaoferece, foi traçado o perfil quanto à variação do comportamento da freqüência cardíaca ao longo de toda aaula. A equipe de avaliadores foi composta por quatro professores de educação física supervisionadapelos próprios autores. No entanto, apenas dois deles se envolveram diretamente com a coleta dos dados; osoutros dois se limitaram a auxiliar na disposição, preparação e acompanhamento dos avaliados.Anteriormente ao início da coleta definitiva dos dados, a equipe de avaliadores responsável pela tomada dasinformações foi submetida a um período de treinamento, na tentativa de minimizar ao máximo a influênciados erros intra-avaliador. Os avaliadores desempenharam sempre a mesma função durante todo o processo decoleta dos dados. Para desenvolver inferências quanto ao tipo das atividades que nortearam os programas deeducação física oferecidos aos escolares analisados, estabeleceu-se análise com base nos valores médios daproporção do tempo das aulas dedicado a cada atividade. Como indicador da intensidade dos esforços físicosoferecidos, optou-se pela classificação da freqüência cardíaca em quatro categorias, de acordo com a propostaidealizada por Swain, Abernathy, Smith, Lee & Bunn (1994): a) intensidade muito-baixa, abaixo de 119bat/min; b) intensidade baixa, entre 120 e 149 bat/min; c) intensidade moderada, entre 150 e 169 bat/min; e d)Rev. paul. Educ. Fís., São Paulo, 11(1):49-62, jan./jun. 1997
  • 52 GUEDES, J.E.R.P. & GUEDES, D.P.intensidade elevada, acima de 170 bat/min. Para sua análise, recorreu-se aos valores médios da proporção dotempo em que os escolares permaneceram em cada uma das categorias de freqüência cardíaca. O tratamento das informações foi realizado mediante a formação de três grupos de séries deensino: 5a. e 6a. séries do 1o. grau; 7a. e 8a. séries do 1o. grau; e 1a., 2a. e 3a. séries do 2o. grau. Averificação estatística quanto ao comportamento encontrado em ambos os sexos e nas séries de ensino deu-sepor intermédio do teste qui-quadrado (χ2) de homogeneidade das proporções médias observadas.RESULTADOS No tocante à duração das aulas de educação física, a TABELA 2 mostra os valores médios e osdesvios padrão do tempo em que os escolares analisados foram efetivamente envolvidos com as atividadesprevistas pelos professores responsáveis pelos programas. Ao comparar os valores entre ambos os sexos e asséries de ensino, mediante a estatística “F”, verifica-se que as diferenças observadas não são consideradasestatisticamente. TABELA 2 - Duração (minutos:segundos) das aulas de educação físicas analisadas. 1o. Grau 2o. Grau 5a./6a. Séries 7a./8a. Séries 1a./2a./3a. Séries Moças Rapazes Moças Rapazes Moças Rapazes Média 39,07 39,19 37,16 37,36 38,39 40,39 Desvio Padrão 5,18 5,17 6,19 5,59 5,31 5,26F séries = 1,278 (p<0,2481).F sexo = 0,680 (p<0,6189). As proporções média do tempo de participação dos escolares em cada categoria/subcategoria deatividade específica durante as aulas são apresentadas na TABELA 3. O teste do qui-quadrado revelou que asdiferenças observadas entre os sexos e as séries de ensino nas oito categorias/subcategorias de atividades nãosão significativas estatisticamente (p<0,05). TABELA 3 - Proporção média (%) do tempo de participação dos escolares em cada categoria/subcategoria de atividade específica durante as aulas de educação física. 1o. Grau 2o. Grau 5a./6a. Séries 7a./8a. Séries 1a./2a./3a. Séries Moças Rapazes Moças Rapazes Moças Rapazes1 Administração/organização 17,8 18,0 13,4 12,5 17,3 13,92 Transição/aguardando 36,9 38,0 32,9 30,4 31,5 34,43 Aptidão Física 3.1 Exercícios aeróbicos 5,7 5,0 13,3 12,4 9,5 7,9 3.2 Exercícios força/resistência 1,5 1,3 0,6 0,8 0,7 0,4 3.3 Exercícios flexibilidade 3,7 3,5 5,6 5,0 6,0 5,34 Habilidades/destrezas motoras 1,4 1,2 0,8 1,1 0,3 0,25 Jogos de baixa organização 7,1 6,6 9,7 9,4 4,4 3,86 Atividades esportivas 6.1 Fundamentação 7,7 4,7 8,0 9,2 6,6 4,0 6.2 Jogo propriamente 18,2 21,7 16,7 19,2 23,7 30,17 Dança/expressão corporal - - - - - -8 Conceitos teóricos - - - - - - Rev. paul. Educ. Fís., São Paulo, 11(1):49-62, jan./jun. 1997
  • Características dos programas de educação física escolar 53 Quanto à proporção do tempo das aulas em que os escolares se dedicaram a receber instruçõesassociadas à administração/organização das atividades, os resultados apontam valores entre 13 e 18%, ouaproximadamente de cinco a sete minutos. Em média, os escolares se colocaram a aguardar o momento departicipar das atividades ministradas ou em seu período de transição de 30 a 38% da duração das aulas, porvolta de 12 a 16 minutos. As informações associadas à proporção média do tempo dedicado as atividades dedesenvolvimento e aprimoramento dos níveis de aptidão física, revelam valores entre 10 e 20%, cerca dequatro a oito minutos em cada aula. A maior parte do tempo dedicado aos componentes motores da aptidãofísica foi atribuído a realização de exercícios aeróbicos, seguido dos exercícios físicos que exigem aparticipação da flexibilidade e da capacidade de força/resistência muscular. As atividades de habilidades/destrezas motoras foram as que ocuparam menor proporção dotempo das aulas de educação física observadas. Em média, não mais que 1%. Os escolares das séries do 1o.grau se envolveram com jogos de baixa organização entre 7 a 9% do tempo das aulas, entre três e quatrominutos, e os do 2o. grau em 4%, ou de um a dois minutos. No que se refere a dança/expressão corporal e aexposição de conceitos associados à prática da atividade física relacionada à saúde, em nenhum momento dasaulas de educação física os escolares analisados tiveram acesso a este tipo de atividade. Quanto à proporção do tempo dedicado as atividades esportivas, verifica-se que, embora nãosignificativa estatisticamente, esta é ligeiramente mais elevada entre os escolares das séries de ensino do 2o.grau, notadamente entre os rapazes. Nas séries do 1o. grau, em média, 26% do tempo de cada aula, por voltade 10 minutos, foi dedicado a prática de esportes. Nas séries do 2o. grau, essa proporção alcançou valoresaproximados de 30 a 34%, ou 12 a 14 minutos. Com relação às modalidades esportivas selecionadas pelos professores para serem apresentadasaos escolares - TABELA 4 - constata-se que, entre as moças, tanto nas séries do 1o. grau como nas do 2o.grau, a preferência foi pelo volibol, seguida do basquetebol, futebol/futsal e andebol. Entre os rapazes, nasséries do 1o. grau, optou-se com maior freqüência pelo futebol/futsal, acompanhado do volibol, basquetebol eandebol. Nas séries do 2o. grau a ordem de preferência passou a ser basquetebol, volibol, andebol efutebol/futsal. TABELA 4 - Modalidades esportivas selecionadas pelos professores para serem apresentadas aos escolares nos programas de educação física1. Modalidades 1o. Grau 2o. Grau Esportivas 5a./6a. Séries 7a./8a. Séries 1a./2a./3a. Séries Moças Rapazes Moças Rapazes Moças Rapazes Volibol 46,8 29,1 38,1 31,8 46,4 24,1 Basquetebol 31,5 23,9 32,4 21,8 35,5 47,3 Futebol/futsal 13,5 38,6 21,3 38,5 3,3 8,9 Andebol 8,2 8,4 8,2 7,9 8,9 13,3 Outras - - - - 5,9 6,4 1 Valores percentuais. Ao analisar a freqüência cardíaca apresentada pelos escolares - TABELA 5 - verifica-se que,nas 5a. e 6a. séries do 1o. grau, a maior proporção do tempo foi atribuido a esforços físicos de intensidadebaixa. Em valores aproximados, por volta de 40 e 44%, 16 e 18 minutos, para os rapazes e as moçasrespectivamente. Depois, nas séries subseqüentes, percebe-se uma nítida tendência a que os escolarespermanecessem mais tempo em níveis de freqüência cardíaca que traduzem esforços físicos de intensidademuito-baixa, particularmente entre os rapazes. As freqüências cardíacas equivalentes aos esforços físicos deintensidades moderada e elevada, apresentam proporções de tempo bastante similares entre os sexos e asséries de ensino, com valores médios por volta de 14 a 17%, cinco a sete minutos. As diferenças encontradasentre os sexos e as séries de ensino também não são apontadas em valores estatísticos.Rev. paul. Educ. Fís., São Paulo, 11(1):49-62, jan./jun. 1997
  • 54 GUEDES, J.E.R.P. & GUEDES, D.P. TABELA 5 - Proporção média (%) do tempo de participação dos escolares em diferentes níveis de esforços físicos durante as aulas de educação física. Freqüência 1o. Grau 2o. Grau Cardíaca 5a./6a. Séries 7a./8a. Séries 1a./2a./3a. Séries Moças Rapazes Moças Rapazes Moças Rapazes < 119 bat/min 25,5 30,6 33,2 37,9 38,2 41,0 120 - 149 bat/min 44,1 40,4 35,0 31,7 29,9 26,6 150 - 169 bat/min 16,8 15,6 16,1 14,4 16,0 16,6 > 170 bat/min 13,6 13,4 15,7 16,0 15,9 15,8DISCUSSÃO Embora a educação física escolar não tenha como único objetivo oferecer uma formaçãoeducacional direcionada à promoção da saúde, o fato dos escolares terem acesso a um universo deinformações e experiências que venham a permitir independência quanto à prática da atividade física ao longode toda a vida, se caracteriza como importante conseqüência da qualidade e do sucesso de seus programas deensino. Ao considerar: a) a estreita relação existente entre a prática de exercícios físicos nas idadesmais precoces e a menor incidência de fatores de risco que podem levar ao aparecimento de distúrbiosorgânicos (Anding, Kubena, Mcintosh & O’brien, 1996; Armstrong, Balding, Gentle & Kirby, 1990;Després, Bouchard & Malina, 1990); b) a repercussão que as experiências motoras vivenciadas na infância ena adolescência apresentam na aquisição de hábitos de vida mais ativo fisicamente na idade adulta (Aaron,Dearwater, Anderson, Olsen, Kriska, & Laporte, 1995; Malina, 1995); e c) a significativa participação dosprogramas de educação física na estrutura escolar brasileira; torna-se importante verificar no que essesprogramas poderiam estar contribuindo para uma formação direcionada ao estabelecimento de atitudespositivas quanto à prática de atividade física relacionada à saúde. Com relação ao tempo efetivo em que os escolares foram envolvidos com as atividadesprevistas para as aulas, verifica-se que este foi por volta de 38 a 40 minutos. Ao levar em conta que noscurrículos escolares de 1o. e 2o. graus são disponibilizados 50 minutos para cada aula de educação física, épossível inferir que uma proporção relativamente elevada desse tempo, 10 a 12 minutos, foi dispendido comoutras atividades que não as associadas diretamente com os aspectos inerentes a disciplina. A ausência de diferenças em linguagem estatística na comparação da proporção do tempo dasaulas dedicadas a cada categoria/subcategoria de atividade ministrada pelos professores entre as séries deensino analisadas, oferece evidências de que os programas de educação física a que os escolares foramenvolvidos demonstram ser bastante semelhantes. Essa similaridade levanta suspeitas de que possa terocorrido superposições de itens específicos do programa entre as séries de ensino. No entanto, essa hipótesenão podera ser verificada por conta da falta de subsídios nesse sentido. Portanto, não tendo sido objeto deanálise no presente estudo, sugere-se a realização de observações futuras no sentido de obter informaçõesadicionais quanto ao tipo de experiências motoras e ao conjunto de conteúdos selecionados em cadacategoria/subcategoria de atividade, numa tentativa de caracterizar a disposição seqüêncial dos programas deeducação física ao longo das séries de escolarização. Os resultados encontrados revelam também, que as atividades desenvolvidas estavamestruturadas para uns poucos escolares se envolverem diretamente com a sua realização, enquanto um númerosignificativo deles ficavam inativos a espera do momento oportuno para sua participação. Além disso,constata-se que um tempo excessivamente longo foi dedicado aos aspectos de administração/organização dasatividades, caracterizando-se as aulas por longos períodos de inatividade física. Aproximadamente 50% dotempo efetivo das aulas, entre 19 a 20 minutos, os escolares se prestaram a receber instruções do professorquanto à organização e à realização das atividades a serem executadas, e/ou se colocaram a aguardar omomento de sua participação - FIGURA 1. Rev. paul. Educ. Fís., São Paulo, 11(1):49-62, jan./jun. 1997
  • Características dos programas de educação física escolar 55 Administração/Organização 15,5 Transição/Aguardando 34,5 Habilidades/Destrezas 1,0 Aptidão Física 14,0 Jogos Baixa Organização 6,7 Atividades Esportivas 28,3 0 10 20 30 40 Proporção Média (%) do Tempo de Aula FIGURA 1 - Proporção média (%) do tempo de participação em atividades administradas nas aulas de educação física. Como referencial comparativo, Simons-Morton, Taylor, Snider & Huang (1993), aoprocurarem estabelecer um perfil dos programas de educação física nas escolas norte-americanas, verificaramque, de um tempo médio de 35 minutos dedicado a cada aula, os escolares permaneciam inativos fisicamentea espera de uma nova atividade ou envolvidos com sua organização, não mais que sete minutos, ou 20% dotempo total. Com a intenção de maximizar o tempo disponível dos programas de educação física escolar,sugere-se que as atividades sejam organizadas de maneira a que os escolares permaneçam mais tempoenvolvidos efetivamente com as tarefas motoras. Estratégias como providenciar transições mais imediatasentre uma atividade e outra, organizar os escolares em pequenos grupos procurando oferecer melhoraproveitamento do material disponível e fornecer instruções e retroalimentações de maneira clara ecompreensível ao nível dos escolares, talvez possam elevar o tempo de participação dos escolares nas aulas. Alguns estudos têm demonstrado que, mesmo com escassos recursos materiais e limitações deespaço físico, intervenções desse tipo podem elevar de 40 a 50% o tempo de envolvimento dos escolares nasatividades físicas oferecidas nas aulas de educação física (Luepker, Perry, Mckinlay, Nader, Parel, Stone,Webber, Elder, Feldman, & Johnson, 1996; Mckenzie, Sallis, Faucette, Roby & Kolody, 1993; Simons-Morton, Parcel, Baranowski, Forthofer, & O’Hara, 1991). De outra parte, as atividades físicas mais frequentemente selecionadas pelos professores para asaulas envolveu a prática de esportes, seja mediante tarefas voltadas ao domínio dos gestos esportivos ou àprática do jogo propriamente. Ainda, na quase totalidade das aulas, deu-se preferência pelas quatromodalidades tradicionais de esportes coletivos - futebol/futsal, basquetebol, volibol e andebol - impedindodesse modo, que os escolares tivessem acesso à atividades esportivas alternativas que eventualmente possamapresentar uma maior aderência a sua prática fora do ambiente escolar. Reconhecendo as vantagens que uma prática adequada de atividade física podem apresentar aum melhor estado de saúde em indivíduos de qualquer faixa etária, frequentemente procura-se oferecer umaRev. paul. Educ. Fís., São Paulo, 11(1):49-62, jan./jun. 1997
  • 56 GUEDES, J.E.R.P. & GUEDES, D.P.predominância bastante acentuada das modalidades esportivas tradicionais aos programas de educação físicaescolar com o objetivo de alcançar adaptações fisiológicas satisfatórias e levar os escolares mais tarde a setornarem adultos ativos fisicamente. No entanto, mais recentemente, a literatura tem revelado que os esforçosfísicos provenientes da prática de esportes tradicionais, por serem intermitentes por curtos períodos de tempoe com predonimância de esforços anaeróbicos, podem apresentar limitados benefícios orgânicos (Crowhurst,Morrow, Pivarnik & Bricker, 1993; Strand & Reeder, 1993; Stratton, 1995). Ademais, a possibilidade delevar as crianças e os adolescentes a se tornarem adultos ativos fisicamente mediante a prática de esportes,poderá ser bastante remota em razão desses não conseguirem apresentar as mesmas facilidades quanto aodomínio das habilidades específicas exigidas em sua prática, diminuindo desse modo, o nível de interesse poresse tipo de atividade física. Por intermédio de um importante estudo sobre o nível de aderência a prática da atividade física,Sallis, Hovell, Hofstetter, Faucher, Helder, Blanchard, Caspersen, Powell & Christenson (1989) observaramque aqueles indivíduos que eram mais ativos fisicamente mediante a prática de esportes quando jovens, nãoeram os mais ativos ao alcançarem a idade adulta. Pelo contrário, eram sim, espectadores assíduos decompetições esportivas, contudo, a maioria deles, totalmente sedentários. Portanto, parece razoável supor que as atividades esportivas devem ser consideradas menosinteressantes para os propósitos de promoção da saúde por dois motivos básicos. Primeiro, as característicasde seus esforços físicos pouco contribui para se alcançar as adaptações fisiológicas necessárias a um melhorfuncionamento orgânico; e segundo, não prediz sua prática ao longo de toda a vida, em razão dasmodificações verificadas nos níveis de interesse em idades mais avançadas. Os resultados encontrados no presente estudo confirmam evidências apresentadas na literatura,de que os currículos tradicionais de educação física escolar têm procurado enfatizar a prática de esportes, emdetrimento a outros tipos de atividade física que podem repercutir de maneira mais efetiva à aquisição dehábitos permanentes voltados a uma vida ativa fisicamente (Faucette, McKenzie & Patterson, 1990; Pate,Pratt, Blair, Haskell, Macera, Bouchard, Buchner, Ettinger, Heath, & King, 1995; Sleap & Warburton, 1992). Mesmo sendo o tipo de atividade que ocupou maior proporção do tempo efetivo das aulas,provavelmente esse tempo pode ser considerado insuficiente para o domínio dos gestos esportivos de umaforma mais eficiente. Segundo Simons-Morton (1994), apesar dos processos de aprendizagem, fixação eaperfeiçoamento das habilidades motoras serem relativos a cada sujeito, o fator determinante para se alcançaro domínio de destrezas específicas é a quantidade de repetições de sua prática. Portanto, de maneiraespeculativa, ao levar em conta que o tempo médio destinado as atividades esportivas foi de dois a quatrominutos para os exercícios específicos de domínio dos gestos esportivos e de sete a 12 minutos para os jogospropriamente, para se obter maior efetividade na prática dos esportes seria necessário um tempo maior que oobservado. Quanto às atividades direcionadas ao desenvolvimento e ao aprimoramento dos níveis deaptidão física, observa-se que, em média, os escolares se dedicaram a realização de exercícios físicosespecificamente para essa finalidade por volta de quatro a sete minutos. Nesse sentido, torna-se importantedestacar que, diferentemente do que ocorreu com as atividades esportivas, nem todas as aulas observadasincluiram atividades de aptidão física. Ainda, quando as incluiram, poucas vezes contemplaram, numa mesmaaula, exercícios voltados aos três componentes da aptidão física relacionada à saúde: resistência aeróbica,força/resistência muscular e flexibilidade. A despeito dessas informações, parece ter ficado evidenciado queas atividades de aptidão física relacionada à saúde não se constituiram como prioridade pelos professoresresponsáveis pelos programas. Considerando o tempo médio em que os escolares se envolveram com os chamados exercíciosaeróbicos, por volta de dois a quatro minutos por aula, pode-se argumentar que esses não poderiam serclassificados como aeróbicos em razão de sua menor duração. No entanto, para efeito do presente estudo,esses exercícios foram codificados como aeróbicos em função de a priori assumirem esse intento, por seremdesenvolvidos na forma de caminhadas/corridas de baixa à moderada intensidade. Contudo, convém destacarque, as adaptações no sistema aeróbico deverão ocorrer no organismo, das crianças e dos adolescentes,somente mediante exercícios físicos com adequada duração (Rowland, 1996). A pequena quantidade de exercícios físicos classificados como aeróbicos nas aulas observadas,foi apresentada aos escolares quase que exclusivamente na forma de caminhadas/corridas em um pequenoespaço físico delimitado pelos professores, ao passo que os exercícios de força/resistência muscular e de Rev. paul. Educ. Fís., São Paulo, 11(1):49-62, jan./jun. 1997
  • Características dos programas de educação física escolar 57flexibilidade foram realizados mediante monótonas rotinas calistênicas. Ao admitir que um dos legítimosobjetivos dos programas de educação física escolar é levar os jovens a incorporarem hábitos permanentes queos tornem ativos fisicamente, em sua seqüência de atividades deverão ser contemplados uma variedade dediferentes exercícios físicos na tentativa de mostrar diversos caminhos para se alcançar esse intento,considerando o uso de recursos disponíveis na comunidade. Rotinas criativas envolvendo elementos demotivação adequados deverão estabelecer um ambiente favorável a prática da atividade física, ao mesmotempo que procura suprir as necessidades de realização dos exercícios físicos indispensáveis aodesenvolvimento e ao aprimoramento da aptidão física relacionada à saúde. Ao consultar a literatura, se, por um lado, verifica-se em alguns estudos que menos de 10% dotempo total das aulas de educação física tiveram como meta principal a realização de exercícios físicosvoltados a aptidão física (Faucette et alii, 1990; Metzer, 1989; Sleap & Warburton, 1992); por outro,encontra-se estudos evidenciando que por volta de 35% do tempo das aulas foram destinados a essafinalidade (Simons-Morton et alli, 1993). Provavelmente, essas diferenças ocorrem em função de uma faltade caracterização mais clara quanto ao verdadeiro papel da educação física na estrutura escolar. Via de regra,as aulas de educação física têm procurado enaltecer conteúdos que privilegiam a competência atlética, com afalsa idéia de que dessa maneira se está contribuíndo para tornar os jovens mais ativos fisicamente. Alguns estudiosos da área têm defendido a posição de que, ao se recorrer a estratégias dessetipo, é improvável que qualquer impacto positivo em termos educacionais possa ser alcançado, em razão dasatividades atléticas atenderem apenas alguns poucos jovens dotados geneticamente para a prática desse tipode atividade física, em detrimento da grande maioria dos escolares que necessitam prioritariamente deestímulos físicos voltados tão somente à melhoria e à manutenção de suas condições de saúde (Rothig &Prohl, 1991; Sallis & McKenzie, 1991; Simons-Morton et alii, 1988). As atividades envolvendo jogos de baixa organização também ocuparam uma proporção dotempo efetivo das aulas observadas bastante pequeno, entre 4 e 9%. Com isso, percebe-se a menorpreocupação dos programas com as atividades lúdicas que, no período de escolarização, podem contribuir demaneira decisiva para cultivar o gosto pela prática da atividade física. Nessas faixas etárias, os jovensapresentam grande espontaneidade pela prática de atividades físicas (Devís & Velert, 1992). No entanto, seesse interesse não for atendido mediante experiências motoras compatíveis com seu nível dedesenvolvimento, onde prevaleça sobretudo as atividades lúdicas, gradualmente tendem a se afastar, optandopor alternativas que envolvem atividades sedentárias. Se a atividade física for valorizada e encorajada porintermédio de recursos lúdicos nas idades mais jovens, o potencial para a sua prática ao longo de toda a vidadeverá ser substancialmente maior. Um outro elemento importante observado, é o fato dos professores responsáveis pelas aulas deeducação física, em nenhum momento, terem recorrido a atividades envolvendo dança/expressão corporal e aexposição de conceitos associados à prática da atividade física relacionada à saúde para desenvolver seusprogramas. As experiências de prática da atividade física a que são submetidos os escolares, tornam-se,entre outros, aspectos fundamentais a serem controlados nos programas de educação física. Contudo, se oobjetivo estabelecido for alcançar metas educacionais direcionadas à atividade física relacionada à saúde,torna-se imprescindível que seus conteúdos deixem a superficialidade das atividades práticas e se aprofundemem uma base de conhecimentos que possa oferecer aos escolares acesso as informações direcionadas aodomínio de conceitos e referenciais teóricos. Provavelmente, a falta de uma fundamentação mais consistente quanto aos princípiosrelacionados ao binômio: atividade física e saúde, tem levado os jovens e a sociedade de maneira geral a umnível de desinformação desencadeando a falta de interesse pela sua prática. Dessa forma, com base nopressuposto de que o desenvolvimento de atitudes positivas quanto à prática da atividade física relacionada àsaúde, durante os anos de escolarização, é um importante requisito para uma participação voluntária maisefetiva na idade adulta (Powell & Dysinger, 1987; Sallis & McKenzie, 1991), torna-se imperativo a adoçãode estratégias de ensino que possa contemplar não apenas os aspectos práticos, mas também, a abordagem deconceitos e princípios teóricos que venha proporcionar subsídios aos escolares no sentido de tomaremdecisões quanto à adoção de hábitos saudáveis de atividade física a serem cultivados por toda a vida. A princípio, a proposta de desenvolver conteúdos de fundamentação teórica por intermédio dosprogramas de educação física escolar, pode esbarrar em uma série de dificuldades, visto que, atualmente, umaRev. paul. Educ. Fís., São Paulo, 11(1):49-62, jan./jun. 1997
  • 58 GUEDES, J.E.R.P. & GUEDES, D.P.quantidade significativa dos professores de educação física não apresentam uma formação profissionaldirecionada a esse tipo de ensino. A idéia de que as aulas de educação física devem atender exclusivamenteos aspectos práticos da atividade física, vem sendo difundida ao longo do tempo, e hoje, para muitos, ébastante complicado imaginar uma possível modificação dessa situação. Porém, ao persistir a posição de queos programas de educação física escolar existem apenas para levar os jovens a se envolverem exclusivamentecom a prática da atividade física, parece que essa área do ensino deverá continuar enfrentando enormesdificuldades para justificar perante a sociedade a existência de uma disciplina na estrutura escolar de menorrelevância educacional. Quanto à intensidade dos esforços físicos, existe consenso entre os estudiosos da área de que,as modificações fisiológicas que podem repercutir favoravelmente a um melhor estado de saúde, ocorremsomente quando o organismo é submetido a esforços físicos de adequada intensidade por algum tempo(Paffenbarger & Lee, 1996; Pate et alii, 1995; Rowland, 1996; Sallis, 1995). Nesse sentido, Simons-Morton(1994) sugere que programas apropriados de atividade física, destinados à promoção da saúde em crianças eadolescentes, deverão envolver movimentos dinâmicos com participação dos grandes grupos musculares, por20 minutos ou mais, três a cinco vezes por semana e com intensidades moderadas da ordem de 60 a 70% dafreqüência cardíaca máxima prevista para idade, ou, em valores médios, entre 150 e 170 bat/min. Os resultados encontrados no estudo indicam que, em média, não mais que 16% do tempo dasaulas de educação física, por volta de seis minutos, os escolares monitorados apresentaram freqüênciacardíaca equivalente a esforços físicos de intensidade moderada. Ademais, aproximadamente 69% do tempo,28 dos 40 minutos de duração média das aulas, os escolares foram envolvidos em esforços físicos de muito-baixa à baixa intensidades. Em outro extremo, cerca de 15% do tempo, seis minutos, os escolares foramlevados a realizar esforços físicos de intensidade elevada - FIGURA 2. Portanto, embora esforços físicos deintensidades adequadas, por vezes, foram administrados aos escolares, sua duração foi demasiadamenteinsuficiente, não alcançando o limite mínimo necessário para que possa ocorrer adaptações funcionaisvoltadas ao melhor funcionamento orgânico. Intensidade Muito-Baixa (FC < 119 bat./min.) 34,4 Intensidade Baixa (FC 120 - 149 bat./min.) 34,6 Intensidade Moderada (FC 150 - 169 bat./min.) 16,0 Intensidade Elevada (FC > 170 bat./min.) 15,0 0 5 10 15 20 25 30 35 40 Proporção Média (%) do Tempo de Aula FIGURA 2 - Proporção média (%) do tempo de participação em diferentes níveis de esforços físicos durante as aulas de educação física. Rev. paul. Educ. Fís., São Paulo, 11(1):49-62, jan./jun. 1997
  • Características dos programas de educação física escolar 59 Esses achados reforçam evidências encontradas em estudos anteriores, envolvendo amostraspertencentes a mesma população de escolares, que apontam elevados índices de comprometimento quanto aodesempenho motor e à quantidade de gordura corporal que possam satisfazer os critérios de saúdeestabelecidos para crianças e adolescentes (Guedes, 1994). Tudo indica que a menor proporção do tempo destinado a esforços físicos de algum significadoà promoção da saúde, possa estar associada às circunstâncias que envolveram as atividades curriculares. Dotempo total das aulas de educação física observadas, uma porção significativa foi atribuídapredominantemente as tarefas de organização e transição das atividades, refletindo em uma menordisponibilização de tempo às atividades que podem exigir esforços físicos mais vigorosos. Em comparação com estudos existentes na literatura, verifica-se que resultados similares foramobservados em realidades de estrutura escolar diferentes (Faucette et alii, 1990; Strand & Reeder, 1993;Stratton, 1995). Desse modo, a despeito da atividade física relacionada à saúde ser universalmentereconhecida como um importante objetivo dos programas de educação física escolar (Armstrong & Biddle,1992; Devís & Velert, 1992; Fox & Biddle, 1989; Nahas & Corbin, 1992; Pate & Hohn, 1994; Sallis &McKenzie, 1991), infelizmente encontram-se evidências indicando que os esforços físicos a que são expostosos escolares nas aulas de educação física, não vêm repercutindo de maneira adequada para se alcançar níveismais elevados de aptidão física relacionada à saúde. Reforçando essa posição, alguns estudos detectaram que as intensidades dos esforços físicossolicitados nas aulas de educação física são, muitas vezes, inferiores as observadas em situações espontâneasde atividades voluntárias, ou nos próprios intervalos das aulas no ambiente escolar (Saris, 1986; Simons-Morton et alii, 1991; Sleap & Warburton, 1992). Um aspecto que chama atenção quanto à intensidade dos esforços físicos, são as indicações deque as moças durante as aulas se mantiveram por tempo maior em limites de freqüência cardíaca mais elevadaque os rapazes. Todavia, esse fato pode não significar necessariamente maior permanência de tempo ematividades físicas que solicitam esforços físicos mais intensos. Em um interessante estudo, Stratton (1995)procurou comparar as variações observadas na freqüência cardíaca durante a realização de diferentes tipos deatividade física entre escolares de ambos os sexos. Os resultados revelaram que as moças apresentavamvalores de freqüência cardíaca mais elevados na realização de esforços físicos menos intensos, além denecessitar de um tempo mais prolongado para sua recuperação pós-esforço. Em vista disso, não se pode descartar a possibilidade da maior proporção de tempo em que asmoças permaneceram em níveis de freqüência cardíaca mais elevada no presente estudo, ser resultante deadaptações fisiológicas ao esforço físico inerente ao sexo feminino nessa faixa etária, e não em conseqüênciada realização de esforços físicos mais intensos por um tempo também mais prolongado.CONCLUSÕES Diante dos resultados encontrados pode-se concluir que os programas de educação físicaescolar analisados apresentaram limitada relação com os objetivos educacionais voltados à atividade físicacomo meio de promoção da saúde. No que se refere aos aspectos didáticos, além de um aproveitamentoinadequado do tempo dedicado às aulas, as atividades propostas aos escolares parecem não ser as maisindicadas para o desenvolvimento de atitudes positivas quanto à aquisição de hábitos de prática da atividadefísica que possa persistir ao longo de toda a vida. Enquanto por volta de 50% do tempo atribuído as aulas, os escolares se ocuparam com tarefasde organização e transição das atividades apresentadas, permanecendo por longo período inativosfisicamente, no restante do tempo, ocorreu um predomínio da prática de esportes competitivos. Em nenhummomento, se verificou qualquer preocupação com o desenvolvimento de experiências educacionais quepudessem conduzir os escolares ao domínio de conceitos associados à prática de atividades físicas e suarelação com a saúde. Quanto aos aspectos fisiológicos, os escolares se dedicaram muito pouco tempo a realização deesforços físicos que podem induzir à adaptações voltadas a um melhor funcionamento orgânico. Os esforçosfísicos se caracterizaram como sendo de curta duração e de baixa à muito-baixa intensidades, inviabilizandoportanto, o alcance de benefícios satisfatórios quanto ao desenvolvimento e ao aprimoramento dos níveis deaptidão física relacionada à saúde.Rev. paul. Educ. Fís., São Paulo, 11(1):49-62, jan./jun. 1997
  • 60 GUEDES, J.E.R.P. & GUEDES, D.P. Em síntese, apesar das limitações por se tratar de uma amostragem regional, as evidênciasacumuladas mediante o desenvolvimento do estudo sugerem que os escolares envolvidos com os atuaisprogramas de educação física escolar não estão sendo estimulados de maneira adequada quanto ao tipo deatividade e à intensidade/duração dos esforços físicos, que possam repercutir favoravelmente a um melhorestado de saúde. Ainda, também não estão sendo preparados para assumirem valores e atitudes que lhespermitam adotar um estilo de vida mais saudável e ativo fisicamente, durante e após o período deescolarização. Talvez, essa situação possa ser atribuída ao fato dos professores de educação física, que atuamna rede escolar, estarem pouco familiarizados com os modernos conceitos associados à atividade física e àsaúde no contexto educacional. ABSTRACT CHARACTERISTICS OF THE SCHOOL PHYSICAL EDUCATION PROGRAMS The purpose of this study was to develop an analysis concerning the types of activities and thelevel of intensity of physical efforts administered to students during physical education lessons in order toestablish a relationship with the objectives directed to promote health. A total of 144 physical educationlessons in 15 different schools from the city of Londrina, Parana, Brazil, selected at random, was used in thestudy. The types of activities were determined through observation instrument. Heart rate monitoring wasused to measure the level of intensity of physical efforts. Results indicated that the students spend largeportions of class time in activities of organization and waiting for a turn. The students were reported toparticipate more frequently in sports activities. They usually had few opportunities to engage in physicalfitness-related activities. Health-related physical activity instructions were not given in the physical educationlessons. The levels of intensity of physical efforts observed were lower than the minimum requirements toprovide health benefits. It was concluded that modifications in the physical education programs are needed toprovide positive attitudes toward health-related physical activity in the students.UNITERMS: School physical education; Health promotion; Teaching programs.NOTA1. Estudo realizado com apoio do CNPq.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASAARON, D.J.; DEARWATER, S.R.; ANDERSON, R.; OLSEN, T.; KRISKA, A.M.; LAPORTE, R.E. Physical activity and the initiation of high-risk health behaviors in adolescents. Medicine and Science in Sports and Exercise, v.27, n.12, p.1639-45, 1995.ANDING, J.D.; KUBENA, K.S.; McINTOSH, W.A.; O’BRIEN, B. Blood lipids, cardiovascular fitness, obesity, and blood pressure: the presence of potential coronary heart disease risk factors in adolescents. Journal of the American Dietetic Association, v.96, n.3, p.238-42, 1996.ARMSTRONG, N.; BALDING, J.; GENTLE, P.; KIRBY, B. Estimation of coronary risk factors in British schoolchildren: a preliminary report. British Journal of Sports Medicine, v.24, n.1, p.61-6, 1990.ARMSTRONG, N.; BIDDLE, S. Health-related physical activity in the national curriculum. In: ARMSTRONG, N. New directions in physical education. Champaign, Human Kinetics, 1992. v.2: Towards a national curriculum. p.71-110.BARNEKOW-BERGKVIST, M.; HEDBERG, G.; JANLERT, U.; JANSSON, E. Physical activity pattern in men and women at the ages of 16 and 34 and development of physical activity from adolescence to adulthood. Scandinavian Journal of Medicine and Science in Sports, v.6, n.6, p.359-70, 1996. Rev. paul. Educ. Fís., São Paulo, 11(1):49-62, jan./jun. 1997
  • Características dos programas de educação física escolar 61BRODIE, D.A.; BIRTWISTLE, G.E. Children’s attitudes to physical activity, exercise, health and fitness before and after a health-related fitness measurement programme. International Journal of Physical Education, v.27, n.2, p.10-19, 1990.CROWHURST, M.E.; MORROW, J.R.; PIVARNIK, J.M.; BRICKER, J.T. Determination of the aerobic benefit of selected physical education activities. Research Quarterly for Exercise and Sport, v.64, n.2, p.223-6, 1993.DESPRÉS, J.P.; BOUCHARD, C.; MALINA, R.M. Physical activity and coronary heart disease risk factors during childhood and adolescence. Exercise and Sport Sciences Reviews, n.18, p.243-61, 1990.DEVÍS, J.D.; VELERT, C.P. Nuevas perspectivas curriculares en educacion física: la salud y los juegos modificados. Barcelona, Inde Publicaciones, 1992.FAUCETTE, N.; McKENZIE, L.; PATTERSON, P. 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  • 62 GUEDES, J.E.R.P. & GUEDES, D.P.SALLIS, J.F.; SIMONS-NORTON, B.G.; STONE, E.J.; CORBIN, C.B.; EPSTEIN, L.H.; FAUCETTE, N.; IANNOTTI, R.J.; KILLEN, J.D.; KLESGES, R.C.; PETRAY, C.K.; ROWLAND, T.W.; TAYLOR, W.C. Determinants of physical activity and interventions in youth. Medicine and Science in Sports and Exercise, v.24, n.5, p.S248-57, 1992. Supplement 6.SARIS, W.H.M. Habitual physical activity in children: methodology and findings in health and disease. Medicine and Science in Sports and Exercise, v.18, n.3, p.253-63, 1986.SIMONS-MORTON, B.G. Implementing health-related physical education. In: PATE, R.R.; HOHN, R.C. Health and fitness through physical education. Champaign, Human Kinetics, 1994. p.137-45SIMONS-MORTON, B.G.; PARCEL, G.S.; BARANOWSKI, T.; FORTHOFER, R.; O’HARA, N.M. Promoting physical activity and a healthful diet among children: results of a school-based intervention study. American Journal of Public Health, v.81, n.8, p.986-91, 1991.SIMONS-MORTON, B.G.; PARCEL, G.S.; O’HARA, N.M.; BLAIR, S.N.; PATE, R.R. Health-related physical fitness in childhood: status and recommendations. Annual Review Public Health, v.8, p.403-25, 1988.SIMONS-MORTON, B.G.; TAYLOR, W.C.; SNIDER, S.A.; HUANG, I.W. The physical activity of fifth-grade students during physical education classes. American Journal of Public Health, v.83, n.2, p.262-4, 1993.SLEAP, M.; WARBURTON, P. Physical activity levels of 5-11-year-old children in England as determined by continuous observation. Research Quarterly for Exercise and Sport, v.63, n.3, p.238-45, 1992.STRAND, B.; REEDER, S. Using heart rate monitors in research on fitness levels of children in physical education. Journal of Teaching in Physical Education, v.12, n.2, p.215-20, 1993.STRATTON, G. Measuring 12-13 year old children’s physical activity levels during indoor European handball lessons: combining systematic observation and heart rate techniques. Journal of Human Movement Studies, v.29, p.35-49, 1995.SWAIN, D.P.; ABERNATHY, K.S.; SMITH, C.A.; LEE, S.J.; BUNN, S.A. Target heart rates for the development of cardiorespiratory fitness. Medicine and Science in Sports and Exercise, v.26, n.1, p.112-6, 1994.TELEMA, R.; LAAKSO, L.; YANG, X. Physical activity and participation in sports of young people in Finland. Scandinavian Journal of Medicine and Science in Sports, v.4, n.1, p.65-74, 1994. Recebido em: 12 jun. 1997 Revisado em: 07 ago. 1997 Aceito em: 22 ago. 1997 ENDEREÇO: Joana Elisabete Ribeiro Pinto Guedes R. da Lapa 300 - Higienópolis 86015-060 - Londrina - PR - BRASIL Rev. paul. Educ. Fís., São Paulo, 11(1):49-62, jan./jun. 1997