O complexo impasse político no conflito rússia ucrãnia

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As causas da crise na Ucrânia são, sobretudo, geopolíticas e estratégicas. O que está em jogo não é, na realidade, a adesão da Ucrânia à União Europeia porque esta tem muito pouco a oferecer dificultando ainda mais o desenvolvimento do país. A Ucrânia só tem a perder. Muitas indústrias fecharão ou serão dominadas pelas multinacionais europeias e os pequenos agricultores serão arruinados. Porém, o que os Estados Unidos pretendem através da incorporação da Ucrânia à União Europeia, é, sobretudo, possibilitar que as forças da OTAN sejam estacionadas na fronteira da Rússia. O cenário futuro mais provável para o desfecho da crise política na Ucrânia é a divisão do país, com a Crimeia já incorporada à Rússia e a transformação do leste, centro-leste e sul da Ucrânia em uma região autônoma do governo de Kiev se for mantido o acordo da União Europeia com a Ucrânia ou ocorrer ou sua anexação à Rússia se a OTAN se fizer presente na Ucrânia. A guerra civil já iniciada na Ucrânia pode se transformar em um conflito militar envolvendo as forças da OTAN e da Rússia de consequências imprevisíveis.

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O complexo impasse político no conflito rússia ucrãnia

  1. 1. 1 O COMPLEXO IMPASSE POLÍTICO NO CONFLITO RÚSSIA-UCRÂNIA Fernando Alcoforado* Há três aspectos que precisam ser considerados na análise do conflito que envolve a Rússia e a Ucrânia no momento: 1) a origem comum dos povos russo e ucraniano; 2) a crise interna ucraniana; e, 3) a questão geopolítica. Sobre a origem comum dos povos russo e ucraniano, é importante destacar que Kiev foi o berço da civilização russa atual porque, no século IX, quando se formou o chamado Estado kievano ou Rus´ que amalgamava os eslavos orientais, não havia diferença entre grão-russos (os russos atuais), pequenos russos (os ucranianos atuais) e russos brancos (os bielo-russos atuais) que formavam um povo só (Ver o livro Os Russos de Angelo Segrillo. São Paulo: Editora Contexto, 2010, página 99). Segundo o diplomata e historiador brasileiro Moniz Bandeira, “até o século XII, a chamada Rus' Kievana, era uma confederação de tribos eslavas orientais, virtualmente a maior potência da Europa, ao abranger a atual Bielo Rússia e parte da Rússia. Em 1795, a antiga Rus's Kievana, ao oeste do rio Dnieper, que desemboca no Mar Negro, foi repartida. A Rússia anexou a maior parte da região, todo o Kanato da Criméia, e o Império Austro-Húngaro, sob a dinastia de Habsburg, dominou a outra, incluindo a Galitzia (Halychyna), na Europa Central, até 1918”. Após a Revolução Bolchevique em 1917, a Ucrânia constituiu-se como Estado nacional e, em 1922, somou-se à Bielorrusia e Transcaucasia, na formação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (Ver o texto Moniz Bandeira aponta aliança entre ONGs ocidentais e neonazistas na Ucrânia publicado no website <http://pcb.org.br/fdr/index.php?option=com_content&view=article&id=584:moniz- bandeira-aponta-alianca-entre-ongs-ocidentais-e-neonazistas-na- ucrania&catid=5:entrevistas-com-a-historia>. A extinta União Soviética da qual a Ucrânia era ligada industrializou-se por meio de uma integração estrutural envolvendo todas as suas repúblicas, com o objetivo de garantir uma maior estabilidade territorial. Após a queda do Muro de Berlim em 1989, os países do leste europeu encontravam-se muito interdependentes, fato este que se mantém ainda hoje em muitos aspectos. Atualmente, a Ucrânia depende comercial e economicamente da Rússia, sobretudo por esta lhe fornecer gás natural, fonte de energia primordial ao país, e por ser o principal comprador de inúmeras matérias-primas produzidas pela economia ucraniana. Além disso, no leste do país – onde ainda se fala russo – muitas empresas dependem das vendas para a Rússia. A Ucrânia, chamada, tradicionalmente, de "pequena Rússia", não pode se desprender da Rússia, da qual muito depende, sobretudo para seu abastecimento de gás. E sua adesão à União Europeia, permitindo o avanço da OTAN até as fronteiras da Rússia, tenderia evidentemente a romper todo o equilíbrio geopolítico da Eurásia, uma vasta região terrestre e fluvial, até o Oriente Médio que possibilita as comunicações do Mar Negro e de importantes zonas energéticas (gás e petróleo) com o Mar Mediterrâneo. A recente crise política na Ucrânia que levou à derrubada do presidente ucraniano, Viktor Yanukovich, é o resultado de uma instabilidade política que marca a região há vários anos. Quando a União Europeia propôs à Ucrânia assinar um tratado de livre- comércio, a Rússia, em contrapartida, ofereceu melhor acordo econômico e que, segundo algumas versões não confirmadas oficialmente, se o governo ucraniano não o aceitasse, ameaçou cortar o fornecimento de gás natural e a compra dos produtos
  2. 2. 2 ucranianos, além de impor restrições alfandegárias. Esse episódio acirrou ainda mais as diferenças entre os dois principais grupos políticos ucranianos: os pró-ocidente e os pró- Rússia. A decisão do governo de Viktor Yanukovich de não assinar o tratado de livre- comércio com a União Europeia e sim com a Rússia foi o estopim que deu origem às violentas manifestações que levaram à sua deposição do poder. Após a derrubada de Viktor Yanukovich em fevereiro de 2014, houve a criação de um novo governo pró-União Europeia e anti-Rússia, que acirrou as tensões separatistas na península da Crimeia, de maioria russa, levando a uma escalada militar com ação do governo russo na região. A Crimeia realizou um referendo que aprovou sua adesão à Rússia, e o governo de Vladmir Putin procedeu com a incorporação do território, mesmo com a reprovação do Ocidente. Em maio de 2014, Petro Poroshenko foi eleito presidente da Ucrânia e um mês depois assinou o acordo com a União Europeia que foi o pivô de toda a crise. A assinatura ocorreu em meio a confrontos no leste do país, palco de um movimento separatista pró-Rússia, e a ameaças e críticas do governo da Rússia. Após a adesão da Crimeia à Rússia, regiões do leste da Ucrânia, de maioria russa, começaram a sofrer com tensões separatistas. Militantes pró-Rússia tomaram prédios públicos na cidade de Donetsk e a proclamaram como "república soberana", marcando um referendo sobre a soberania nacional para 11 de maio de 2014. A medida não foi reconhecida pelo governo da Ucrânia nem pelo Ocidente. O referendo chegou a ser realizado e a independência foi aprovada por 89% dos votos. Com a nova tensão na região, a Rússia pediu que a Ucrânia desistisse de todo tipo de preparativos militares para deter os protestos pró-russos nas regiões do leste ucraniano, já que os mesmos poderiam suscitar uma guerra civil. O governo da Ucrânia, entretanto, iniciou uma operação antiterrorista na região, para combater os separatistas, com milhares de mortes dos dois lados. A Rússia chegou a mobilizar tropas na fronteira, o que foi condenado por Kiev e pelo Ocidente. Parte das tropas foi retirada posteriormente, mas a tensão permaneceu na região. Após 16 horas de negociações, entre os dias 11 e 12 de fevereiro deste ano, foi assinado entre os separatistas, o presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, a chanceller alemã, Angela Merkel e o presidente da França, Francois Hollande um acordo de cessar-fogo e criação de zona desmilitarizada. Segundo o acordo assinado, a retirada da artilharia pesada com vista à criação de uma zona de desarmamento de até 140 quilômetros deveria começar no dia 16 de fevereiro. Dois dias depois que o cessar-fogo acordado entre líderes europeus entrou em vigor, conflitos entre o exército ucraniano e forças separatistas foram registrados em Debaltseve, cidade estrategicamente posicionada entre Donetsk e Lugansk, no Leste da Ucrânia. Desde a entrada em vigor da trégua, pelo menos cinco soldados ucranianos foram mortos e nove ficaram feridos em conflitos em Debaltseve e Mariupol, cidade portuária cobiçada pelos rebeldes. Milhares de soldados ucranianos foram cercados por forças rebeldes em Debaltseve. As causas da crise na Ucrânia são, sobretudo, geopolíticas e estratégicas. O que está em jogo não é, na realidade, a adesão da Ucrânia à União Europeia porque esta tem muito pouco a oferecer dificultando ainda mais o desenvolvimento do país. A Ucrânia só tem a perder. Muitas indústrias fecharão ou serão dominadas pelas multinacionais europeias e os pequenos agricultores serão arruinados. Porém, o que os Estados Unidos pretendem através da incorporação da Ucrânia à União Europeia, é, sobretudo, possibilitar que as forças da OTAN sejam estacionadas na fronteira da Rússia. O cenário futuro mais provável para o desfecho da crise política na Ucrânia é a divisão do país, com a Crimeia
  3. 3. 3 já incorporada à Rússia e a transformação do leste, centro-leste e sul da Ucrânia em uma região autônoma do governo de Kiev se for mantido o acordo da União Europeia com a Ucrânia ou ocorrer ou sua anexação à Rússia se a OTAN se fizer presente na Ucrânia. A guerra civil já iniciada na Ucrânia pode se transformar em um conflito militar envolvendo as forças da OTAN e da Rússia de consequências imprevisíveis. Uma hipótese que vem sendo aventada é a de que os Estados Unidos estão por trás da queda atual no preço do petróleo para afetar as economias de países inimigos como a Rússia, Irã e Venezuela. Ressalte-se que petróleo e gás natural contribuem com mais de 68% da receita de exportação da Rússia e mais de 50% do orçamento do governo. Por conta da queda dos preços do petróleo, a Rússia sofreu um violento ataque especulativo com a fuga de capitais do país da qual resultou uma vertiginosa queda do poder aquisitivo de sua moeda, o Rublo. O agravamento da situação econômica da Rússia resultante da queda do preço do barril de petróleo e o estrangulamento econômico resultante das sanções impostas pelos Estados Unidos e União Europeia poderão radicalizar o conflito com os Estados Unidos fazendo com que o governo russo decida pela intervenção militar preventiva na Ucrânia que poderia reforçar ainda mais o poder de Vladimir Putin no comando da Rússia mobilizando a nação contra o inimigo externo. * Fernando Alcoforado, 75, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona, http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (P&A Gráfica e Editora, Salvador, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011) e Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), entre outros.

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