Site da internet:http://www.desmazelas.com.brE-mail: Fabyely_kams@yahoo.com.brLITERATURA DECORDEL
O Cachorro dos MortosLeandro Gomes de BarrosOs nossos antepassadosEram muito prevenidosDiziam: matos têm olhosE paredes te...
Enquanto o espanhol velhoAté não era ruimO filho deste espanholEra uma fera carniceiraVeio provocar namoroCom as filhas de...
Eu não sossegarei maisE nem me esquecerei delaFarei tudo para vencê-laPorém não caso com elaMas Valdivino temiaO pai dela ...
A fera foi emboscá-loOnde havia uma capoeiraCarregou um bacamarteFez duma árvore trincheiraDistante um quarto de léguaDa f...
Aquele tiro que deramDeixou-me sobressaltadaNo sertão naquele tempoPodia uma moça andarPassava dois ou três mesesSem nem u...
Dizendo: Tu gameleiroViste esta cena passada?És uma das testemunhasQuando a hora for chegadaNa última agoniaExclamou: Mons...
Contudo monstro, perdôo-tePorque fui e sou cristãA morte do meu irmãoA minha e de minha irmãTu hoje matas a mimOutro te ma...
Com uma mão na feridaE a outra mão estiradaValdivino tinha à noiteEscrito numa carteira:"Eu hoje hei de matarFloriano de O...
Lembrou-se o que AngelitaDisse antes de morrerPorém disse: Ele não falaComo poderá dizer?Calar chegou na fazendaUivando de...
Foi perguntar à mulherComo aquilo foi se dadoEla apenas lhe contouO que tinha passadoDeixando o anciãoAflito e impressiona...
Não havia uma pessoaQue dissesse: Eu vi matarDava dez contos de réisNa moeda que quisesseÀ pessoa que chegasseE seriamente...
Nem era bem conhecidoNo comércio da BahiaSó onde vendia lãAlguém lá o conheciaE o dono do açougueOnde ele vendia gadoO ban...
Em oitocentos e noveEstava a festa a terminarUm velho que ali passavaPassou naquele lugarAtrás desse caçadorVinha o cachor...
Serei o carrasco deleQuando ele à forca subirSebastião de OliveiraEra um pobre acreditadoA família deu exemploO filho um r...
Solta um uivo muito tristeComo quem pede vingançaComo quem pede debaldeSem ter daquilo esperançaNisso chegou um cavalheiro...
Os olhos também se queixamUm olhar diz o que senteAmeaça ou traiçãoPunição severamenteDeclara mágoa ou dorPorém o olhar nã...
Como quem dizia: NessesEncontrei o que queriaO povo todo da festaQuis a Valdivino lincharO bispo e o presidenteTratou de a...
O processo fica inválidoNão pode ser condenadoAí o senhor procuraO melhor advogadoEliziário pensouAquilo ser acertadoDo co...
Não havia mais recursoEstava tudo consumadoO réu dali a três diasIa ser executadoNão tinha mais o que apelarJá tinha sido ...
Ele que vai prevenidoTrata logo de saltarDisse Zeferino ao velho:O senhor deve aprontarUm cavalo bem ligeiroPara quando el...
Um deles que ali estavaEstrangulou ZeferinoPorque este tinha dadoEvasão ao assassinoPorém chegou o cachorroQuase na ocasiã...
Seguiu por uma veredaDescalço e todo rompidoOuvindo de vez enquantoCalar soltar um ganidoFoi sair bem no lugarQue o crime ...
E ia sempre visitá-loQuando a justiça o prendeuValdivino calculou:Eu o que devo fazerÉ ir para o quintalPor ali me esconde...
O general com aquiloFicou muito desgostosoAté o governadorFicou doente e nervosoO povo ao redor da forcaSó fazia lamentarQ...
Às cinco horas da tardeA justiça o enforcouO pai dele estava presoAssim que o sino dobrouAli soltando um suspiroNa mesma h...
Trazendo os louros de guerraÀ sepultura baixouO general quando soubeQue Calar era sumidoE que fazia três diasQue não era a...
Apontou só com a vistaO monstro que os crimes fezSeus olhos diziam ao públicoEsse matou todos trêsDeitou-se encostado às c...
Era o vigia da noiteUm minuto não dormiaNuma coisa que guardavaO velho cão não buliaSó quando os donos lhe davamEra que el...
Chamou-o para não vê-loMorrer sem ter remissãoO velho Pedro caçavaToda noite com CalarMas ele só ia à caçaDepois que ia ao...
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Clássicos do Cordel ed.2 : O Cachorro dos Mortos - Leandro Gomes de Barros

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Este é um dos clássicos do Cordel de autoria de Leandro Gomes de Barros, um dos importantes nomes da Literatura de Cordel. Confira mais edições do Clássicos do Cordel em: http://www.desmazelas.com.br

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Clássicos do Cordel ed.2 : O Cachorro dos Mortos - Leandro Gomes de Barros

  1. 1. Site da internet:http://www.desmazelas.com.brE-mail: Fabyely_kams@yahoo.com.brLITERATURA DECORDEL
  2. 2. O Cachorro dos MortosLeandro Gomes de BarrosOs nossos antepassadosEram muito prevenidosDiziam: matos têm olhosE paredes tem ouvidosOs crimes são descobertosPor mais que sejam escondidosEm oitocentos e seisNa província da BahiaDistante da capitaltrês léguas ou menos seriaSebastião de Oliveiraali num canto viviaEle, a mulher e duas filhasE um filho já homem feitoO rapaz era empregadoE estudava direitoO velho não era ricoMas vivia satisfeitoAs duas filhas eram moçasBonitas e encantadorasLogravam na capitalO nome de sedutorasChamavam atenção de todosAs grandes tranças tão lourasEsse velho era ferreiroE ferreiro habilitadoVivia ali do ofícioPlantando e criando gadoPor três vezes enjeitouO cargo de delegadoHavia um vizinho deleEliaziário AmorimEsse tinha um filho únicoDa espécie de Caim
  3. 3. Enquanto o espanhol velhoAté não era ruimO filho deste espanholEra uma fera carniceiraVeio provocar namoroCom as filhas de OliveiraUma delas disse a ele:De nós não há quem o queiraEle disse: Tu não sabesQue meu pai possui dinheiroEm terras e criaçõesÉ o maior fazendeiro?Ela disse: O meu pai é pobrePlanta, cria e é ferreiroMinha mãe tece de ganhoNós vivemos de costuraMeu pai vive de sua arteE de sua agriculturaMeu irmão é empregadoPara que maior ventura?O sedutor conheceuSeus planos serem debaldeE só podia vencê-laPor meio de falsidadeQue é a arma mais própriaAonde existe a maldadeSaiu dali ValdivinoFedendo a chifre queimadoE Angelita ficouCom o coração descansadoNem disse aos outros de casaO que tinha passadoEle pensou em forçá-laMas pensou no resultadoDevido o pai de AngelitaSer muito consideradoO filho pelo governoEra tão conceituadoExclamou ele consigo:oO! Angelita és tão bela
  4. 4. Eu não sossegarei maisE nem me esquecerei delaFarei tudo para vencê-laPorém não caso com elaMas Valdivino temiaO pai dela e o irmãoQue o governo da provínciaTinha-lhe muito atençãoO rapaz era empregadoE tinha consideraçãoValdivino inda pensouQue matando FlorianoPodia calçar com ouroTodo governo bahianoAinda que entrasse em júriNão passava nem um anoOu poderia matá-loOculto numa emboscadaPorque ninguém vendo o crimeEle não sofria nadaDefunto não conta históriaEstava a questão acabadaHavia ali um enganoEntre Vitória e BahiaA divisão das provínciasAli ninguém conheciaSebastião de OliveiraEra o único que sabiaO governo da provínciaTendo aquela precisãoDisse um dia a FlorianoVocê vá em comissãoChamar seu pai para virMostrar a demarcaçãoValdivino de AmorimViu Floriano passarEscolheu o lugar próprioOnde pudesse emboscarDizendo dentro de si:Ele não pode escapar
  5. 5. A fera foi emboscá-loOnde havia uma capoeiraCarregou um bacamarteFez duma árvore trincheiraDistante um quarto de léguaDa fazenda de OliveiraO rapaz chegou em casaO velho tinha saídoFoi ver se achava um jumentoQue havia se sumidoUm amigo lhe escreveuQue lá tinha aparecidoO Floriano chegouDepois que o velho saiuNessa tarde não voltouCom a família dormiuDeu o recado à mãe deleDe madrugada seguiuCalar um cachorro velhoQue Sebastião criouQuando Floriano saiuCalar o acompanhouFloriano quis voltarPorém Calar não voltouPassava ali FlorianoA fera então enfrentou-oDisparou o bacamarteSem vida em terra lançou-oCalar partiu ao sicárioO assassino amarrou-oAs moças lá da fazendaOuviram o grande estampidoAngelita se assustouDizendo: O que terá sido?O tiro foi para o ladoQue seu irmão tinha idoAngelita convidouA sua irmã EsmeraldaDizendo: Vamos aquiA passeio pela estrada
  6. 6. Aquele tiro que deramDeixou-me sobressaltadaNo sertão naquele tempoPodia uma moça andarPassava dois ou três mesesSem nem um homem passarPor isso foram elas duasNão tinha o que recearIam ali conversandoSobre a aragem matutinaDisse Esmeralda à irmã:Olha para o céu, meninaEstás vendo aquelas estrelasComo têm a luz tão fina?Chegaram aonde o irmãoEstava morto na estradaO criminoso no matoAtirou em EsmeraldaE enfrentou AngelitaDizendo: Não diga nadaAngelita muito pálidaSem estar esmorecidaVendo os dois irmãos já mortosPor uma mão homicidaLhe disse: Monstro tiranoEu morro e não sou vencidaEle disse: AngelitaCom tudo isso sou teuFoi dar-lhe um beijo nos lábiosE Angelita mordeuEle cravou-lhe o punhalEla ali esmoreceuPondo a mão na punhaladaDisse: Monstro desgraçadoAquele velho cachorroQue está ali amarradoDescobrirá este crimeE tu serás enforcadoOlhou para o gameleiroQue tinha junto a estrada
  7. 7. Dizendo: Tu gameleiroViste esta cena passada?És uma das testemunhasQuando a hora for chegadaNa última agoniaExclamou: Monstro assassinoTirastes agora três vidasE não sacias o destino?Isso hei de te lembrarPerante o juiz divino!Não julgue que fique impuneEste sangue no desertoTu não vês três testemunhasQue estão aqui muito pertoEstás perante ao públicoIrão depor muito certoDisse Valdivino: És loucaQuem viu o que foi passado?Disse Angelita: Este cãoQue está ali amarradoA gameleira e as floresDirão no dia chegadoOlhou para o cão e disse:Olha, meu velho CalarTu dirá tudo ao juizSe ele te perguntarEssa velha gameleiraFica para te ajudarEssa flor que por elaHá festa aqui todo anoHá de tirar a justiçaDe uma suspeita ou enganoDirá ao juiz: Venha verQuem matou o Floriano!As três vidas que roubastePagarás com sua vidaTu hás de te arrependerDepois da causa perdidaUma lágrima vertidaSerá por teu pai vertida
  8. 8. Contudo monstro, perdôo-tePorque fui e sou cristãA morte do meu irmãoA minha e de minha irmãTu hoje matas a mimOutro te mata amanhãE pondo a mão sobre umaDas punhaladas que tinhaDisse a Calar: Se fugiresConsola a minha mãezinhaE diga-lhe que abençoeOs pobres filhos que tinhaEmbora que tu não falesPois não te foi concedidoMas um olhar bem lançadoDá idéia dum sentidoUm uivo e um olharPode ser compreendidoE ali cerrando os olhosQuase sorrindo expirouO assassino olhandoChorando se retirouDepois pensou: Isto é nada!...Com toda calma voltouJá estava frio o cadáverPorém nas faces mimosasVia-se perfeitamenteDesenho de duas rosasComo se fossem pintadasPor mãos das mais curiosasEm Esmeralda se viaO sangue ainda saindoVestígio de zombariaComo quem morre sorrindoComo criança que brincaFinge que está dormindoO rapaz banhado em sangueBem no meio da estradaÀ esquerda de AngelitaÀ direita de Esmeralda
  9. 9. Com uma mão na feridaE a outra mão estiradaValdivino tinha à noiteEscrito numa carteira:"Eu hoje hei de matarFloriano de OliveiraSe não matá-lo me matoSerá a minha derradeira"Datou-a e assinou o nomePegou a arma e saiuSe encostou numgameleiroA carteira escapuliuHavia um oco da árvoreNele a carteira caiuA fera não se lembrouDa testemunha ocularPerdendo aquela carteiraAlguém a podia acharEla na mão da justiçaQuem poderia o soltar?Porém uma força ocultaPermitiu que ele perdesseE a mesma força impôsQue dela se esquecessePara dizer a seu tempo:O assassino foi esse!Calar, o velho cachorroQue aquele espetáculo viaSoltando uivos enormesQue muito longe se ouviaRosnava, fitava os olhosDebalde a corda mordiaValdivino ali puxandoUm facão muito afiadoDescarregou no cachorroUm golpe encolerizadoErrou e cortou a cordaCom que estava amarradoValdivino ficou tristeVendo o cachorro correr
  10. 10. Lembrou-se o que AngelitaDisse antes de morrerPorém disse: Ele não falaComo poderá dizer?Calar chegou na fazendaUivando desesperadoDona Maria da GlóriaJá tinha levantadoQuando viu o cão uivandoAí cresceu-lhe o cuidadoE foi procurar os filhosOnde ouviu os estampidosCalar foi adiante uivandoCom enormes alaridosDona Maria da GlóriaIa aguçando os ouvidosComo não foi seu espantoQuando chegou no lugarOnde achou os filhos mortosSem nada ali atinarCalar sabia de tudoMas não podia falarVoltou Maria da GlóriaNum triste e penoso estadoJá Sebastião em casaA esperava sentadoNão sabia da desgraçaQue a pouco tinha se dadoPerguntou pela famíliaEla não pôde contarDisse apenas: Morreu tudoE apontou o lugarEstendeu-se para um ladoSem mais nada atinarSebastião de OliveiraFoi por onde a mulher veioAchou a poça de sangueOs filhos mortos no meioOlhou para o céu e disse:Oh! Meu Deus que quadro feio
  11. 11. Foi perguntar à mulherComo aquilo foi se dadoEla apenas lhe contouO que tinha passadoDeixando o anciãoAflito e impressionadoMontou num burro e saiuDali para a capitalQuando chegou na cidadeFoi ao quartel generalLá falou mais duma horaE nada disse afinalDepois de muita insistênciaO presidente entendeuPerguntou por FlorianoEle lhe disse: Morreu..Ele e a família toda!...E contou o que se deuA justiça foi atrásVer o que tinha se dadoEncontrou os três cadáveresNo chão em sangue banhadoCalar inda estava uivandoJunto dos mortos deitadoForam à casa de OliveiraVer se Maria da GlóriaDava um roteiro que ao menosSe calculasse uma históriaEla contou essa mesmaQue eles guardam na memóriaDona Maria da GlóriaDois dias depois morreuSebastião de OliveiraCom três dias enlouqueceuDentro de duas semanasTudo desapareceuA justiça da BahiaNão cessou de procurarEspalhou por toda parteSecretos a indagar
  12. 12. Não havia uma pessoaQue dissesse: Eu vi matarDava dez contos de réisNa moeda que quisesseÀ pessoa que chegasseE seriamente dissesseTeria mais um terrenoA pessoa que soubessePorém o crime se deuQuando ali ninguém passavaCalar sabia tudoPorque no crime ele estavaSe falasse descobriaDesejo não lhe faltavaImpressionava a todosHabitantes da cidadeComo deu-se aquele crimeNaquela localidadeFloriano de OliveiraTodo lhe tinha amizadeAtribuiu-se a um rouboPor algum aventureiroMas o rapaz costumavaA não andar com dinheiroQuestão de moça não eraEle era justiceiroOs moradores de pertoEram todos conhecidosCompadres dele e do paiE por eles protegidosTanto que se dando o crimeTodos ficaram sentidosEliziário era um dessesAbortos que tem havidoDesses que o pão que comeConsidera estruídoFazer-lhe o mal é pecadoFazer-lhe o bem é perdidoEsse era fazendeiroPorém dali não saía
  13. 13. Nem era bem conhecidoNo comércio da BahiaSó onde vendia lãAlguém lá o conheciaE o dono do açougueOnde ele vendia gadoO banco onde ele tinhaDinheiro depositadoTanto que deu-se esse crimeE dele não foi lembradoSentiu e chorou bastanteA morte do camaradaE não foi à missa delePor não ser de madrugadaPois só tinha uma camisaE essa estava rasgadaTambém procurou saberQual seria o assassinoNão sei se pelo dinheiroOu pelo próprio destinoMas nunca lhe veio na menteSer seu filho ValdivinoOnde deu-se o crime haviaDuas estradas em cruzDiziam que ali se achavamUmas flores muito azuisFormando uma lapa igualÀ do menino JesusOs baianos costumavamDesde daantigüidadeFazerem uma grande festaNaquela localidadeVéspera e dia de anoAli era novidadeNa capital da BahiaNão havia outro festimHavia missa campalOrquestra e botequimBailes naquelas latadasBem cobertas de capim
  14. 14. Em oitocentos e noveEstava a festa a terminarUm velho que ali passavaPassou naquele lugarAtrás desse caçadorVinha o cachorro CalarAbrigou-se numa sombraVinha muito esbaforidoFoi cheirar o pé da cruzQue o senhor tinha morridoCheirou a das duas moçasE depois soltou um gemidoEstava ali um generalO bispo e o presidenteCom o chefe da políciaHomem muito experienteTodos ficaram daquiloImpressionadamenteO general perguntouDe quem era aquele cãoRespondeu o velho Pedro:Este cachorro patrãoÉ do defunto OliveiraQue Deus dê-lhe a salvaçãoEste cachorro é o reiDos cachorros caçadoresAinda adora o lugarQue mataram seus senhoresSe fosse de madrugadaSeus uivos faziam horroresDisse o chefe de policia:Inda não se descobriuA morte de um patrícioQue tanto à pátria serviuFoi logo nesse desertoEm horas que ninguém viuDisse ali o presidente:Se ainda se descobrirO autor dessas três mortesEu juro por Deus o punir
  15. 15. Serei o carrasco deleQuando ele à forca subirSebastião de OliveiraEra um pobre acreditadoA família deu exemploO filho um rapaz honradoEra um rapaz distintoPor todo mundo estimadoEntão disse o general:Isso ainda é descobertoO crime foi muito ocultoFeito aqui neste desertoMas quando chegar o diaHá de saber-se por certoSe eu vivo for nesse tempoSerei o algoz mais forteSerei um dos que conduzPara o teatro da morteCom a minha própria mãoAmolo o ferro que o corteO cachorro ouvindo aquiloErgueu-se muito contenteFoi aos pés do generalFestejou o presidenteComo quem dizia: O crimeÉ punido corretamenteDisse o bispo: Esse cachorroÉ testemunha ocularEle viu quem fez as mortesSó faltava é ele apontarSe ele visse o criminosoPodia lhe denunciarDisse o velho: Esse cachorroFez uma coisa esquisitaTinha uma cobra enroscadaOnde mataram AngelitaEle despedaçou-a a dentesQuase que se precipitaDisse o velho: Esse cachorroAos pés da cruz se lança
  16. 16. Solta um uivo muito tristeComo quem pede vingançaComo quem pede debaldeSem ter daquilo esperançaNisso chegou um cavalheiroValdivino de AmorimAndava fora inda vinhaVer se alcançava o festimVinha num burro possanteAlvo da cor de jasmimAssim que o cachorro viuValdivino se apearRosnou e partiu a eleQuerendo lhe estraçalharSó não rasgou-lhe a gargantaDevido o velho pegarTremia o queixo e babavaFitando ali ValdivinoUivava como quem jáTivesse perdido o tinoSó faltava era dizer— Eis aí o assassino!E foi para o pé da cruzE ali pegou a uivarFitando os olhos no céuComo quem quer suplicarComo quem dizia: Oh! DeusVens que não posso falar!O bispo disse: ValdivinoVocê está descobertoO senhor foi autorDas mortes neste desertoAquele cachorro deuUm depoimento certoO monstro viu o perigoFez tudo para negarO bispo disse: Meu filhoNão há mentira em olharOs olhos são verdadeirosNão podem nada ocultar
  17. 17. Os olhos também se queixamUm olhar diz o que senteAmeaça ou traiçãoPunição severamenteDeclara mágoa ou dorPorém o olhar não menteO olhar daquele cãoEstá demonstrando a dorO sentimento profundoDa morte do seu senhorEle só falta falarE apontar o matadorNaquilo duas criançasQue estavam em brincadeiraUma delas se trepouNum galho de gameleiraTirando um ninho de ratoAchou nele uma carteiraO leitor deve lembrar-seDe um verso que aqui já leuVeja na véspera do crimeO que Valdivino escreveuE que no oco da gameleiraA carteira se perdeuAli trouxeram a carteiraEntregaram ao generalO bispo disse: SenhorO que lhe disse afinalEu não lhe disse que os olhosSó diz o que é legal?Valdivino descobriu tudoEm sua interrogaçãoCalar ali demonstravaTer grande satisfaçãoPulava um metro de alturaE rolava pelo chãoCorria escaramuçandoComo quem estava em foliaFestejou o generalCom demarcada alegria
  18. 18. Como quem dizia: NessesEncontrei o que queriaO povo todo da festaQuis a Valdivino lincharO bispo e o presidenteTratou de acomodarGarantindo que a justiçaHavia de o castigarSaiu preso ValdivinoCalar o acompanhouO velho Pedro chamavaMas ele não escutouVoltou quando ValdivinoPreso nos ferros deixouO general ao sairOrdenou ao cozinheiroQue desse ao velho CalarUm bom lombo de carneiroPorque merecia muitoAquele bom companheiroO criado deu o lomboCalar nem para ele olhouSaiu o povo da festaE o lombo lá ficouO cachorro veio comerÀ noite quando voltouA mulher de EliziárioSabendo o que aconteceuDeu-lhe um ataque tão forteQue ela no chão se estendeuPassou a noite sem falaNo outro dia morreuJuvenal um espanholParente de EliziárioChegando lá disse ao velho:— você é milionárioCompre três ou quatro médicosQue provem ele está varioPorque ele estando várioNão poderá ser julgado
  19. 19. O processo fica inválidoNão pode ser condenadoAí o senhor procuraO melhor advogadoEliziário pensouAquilo ser acertadoDo contrário ValdivinoIa ser executadoE tinha toda certezaEle morrer enforcadoDirigiu-se à capitalProcurou advogadoEste arrumou cinco médicosSendo o réu examinadoProvaram que há quatro anosEle era tresloucadoO bispo e o presidenteConsultaram ao generalMandaram vir quatro médicosNo reino de PortugalE fizeram na BahiaUma junta especialVieram de PortugalQuatro médicos escolhidosQue por dinheiro sem contaNão seria iludidosEsses homens de caráterJamais seriam vendidosE examinaram o réuCada médico de per siTodos disseram que nuncaHouve tal loucura aliNem sequer nervoso haviaTodos juraram aíFizeram novo processoDepois dele examinadoE estando pronto o processoValdivino foi julgadoA sentença que pegouFoi para ser enforcado
  20. 20. Não havia mais recursoEstava tudo consumadoO réu dali a três diasIa ser executadoNão tinha mais o que apelarJá tinha sido julgadoO velho quase sem jeitoSem nada mais conseguirTentou o último meioA fim do filho fugirMas só dos degraus da forcaPodia se escapulirEntão soube que o carrascoEra um tal de ZeferinoUm calibre mais ou menosIgual o de ValdivinoTinha os três dons da desgraçaCovarde, vil, assassinoEra um mulato laranjoDe aspecto aborrecidoO couro da testa deleSempre se via franzidoOs cabelos bem vermelhosRosto largo e não compridoFoi o velho EliziárioA esse tal ZeferinoVer se ele podia darEvasão a ValdivinoDizendo: Ele pula da forcaE depois toma destinoPegue dez contos de réisQue lhe dou adiantadoE se tiver a fortunaDele não ser enforcadoDar-lhe-ei mais vinte contosO dinheiro está guardadoEntão disse Zeferino— Isso é difícil arranjarPorém quando ele subirEu finjo me desculpar
  21. 21. Ele que vai prevenidoTrata logo de saltarDisse Zeferino ao velho:O senhor deve aprontarUm cavalo bem ligeiroPara quando ele saltarMontar-se logo e correrAntes do povo chegarEu hoje direi a eleTudo que está planejadoQue cor será o cavaloQue há de está selado?— Diga que é o poldro brancoEm que ele andava montandoValdivino quando soubeEsta consulta que haviaFicou como uma criançaChorava ali de alegriaJurando no mesmo instanteQue Calar lhe pagariaEntão quando chegou o diaEstava o povo aglomeradoValdivino de AmorimIa ser executadoTudo ali estava esperandoVê-lo morrer enforcadoPresente ao estado maiorQue vinha presenciarSubiu Valdivino à forcaZeferino foi laçarPorém ele se encolhendoConseguiu dali saltarE saiu como uma flechaEntre o povo se meteuSe montando no cavaloDali desapareceuInternando-se no matoNum instante se escondeuO povo indignou-seCom a fuga de Valdivino
  22. 22. Um deles que ali estavaEstrangulou ZeferinoPorque este tinha dadoEvasão ao assassinoPorém chegou o cachorroQuase na ocasiãoSoltou dois ou três latidosSaiu de venta no chãoSessenta e três praças foramTambém em perseguiçãoPorém Valdivino iaEm bom cavalo montandoTinha grande desvantagemDe não ter saído armadoE Calar no rastro deleGania muito vexadoFoi preso EliziárioComo autor da evasãoO povo não o matouPorém foi para a prisãoE o bispo que saiuPedindo à populaçãoEra meia-noite em pontoValdivino ainda corriaO cavalo já cansadoQue nada mais resistiaE o cachorro CalarDe vez enquanto latiaValdivino conhecendoQue nada a ele valiaE o cachorro CalarSeu rastro não deixariaPensou em suicidar-seSó assim descansariaDentro do mato apoiou-seE amarrou o cavaloEncostou-se numa pedraSentiu alguém acordá-loNisto o cavalo espantou-seEle não soube pegá-lo
  23. 23. Seguiu por uma veredaDescalço e todo rompidoOuvindo de vez enquantoCalar soltar um ganidoFoi sair bem no lugarQue o crime tinha havidoEle viu a gameleiraQue sombreava a estradaFloriano de OliveiraAngelita e EsmeraldaSebastião de OliveiraE dona Maria prostradaViu vir uma carruagemNela vinha um magistradoQue saudou os três vultosDepois de ter se apeadoExclamou: Sangue inocenteBreve hás de ser vingado!Tornou a tomar o carroSe montando foi emboraNesse momento CalarVem com a língua de foraFestejou todos os vultosE voltou na mesma horaUm dos vultos chamou eleO cachorro estacouValdivino não ouviuO que o fantasma falouSó ouviu foi dizer: VolteE o cachorro voltouO criminoso pensouQue ali não escapariaLembrou-se duma pessoaQue morava na BahiaPois tinha onde ocultá-loQue nem o cachorro viaEra um compadre e amigoA quem ele protegeuQue com dinheiro do paiEsse tal enriqueceu
  24. 24. E ia sempre visitá-loQuando a justiça o prendeuValdivino calculou:Eu o que devo fazerÉ ir para o quintalPor ali me esconderOu ele ou a mulher deleUm há de me aparecerE saiu o assassinoChegando lá se escondeuNão houve ali quem o visseQuando o dia amanheceuO compadre veio foraE ele lhe apareceuValdivino lhe pediuQue não o deixasse morrerDisse o velho Roberto:Eu tenho onde te esconderPorém ninguém mais daquiDisso não pode saberQuatros dias decorriamE o assassino escondidoDebaixo dumas madeirasEstava ele metidoO pai dele na cadeiaJá ia ser concluídoNum dia de quarta-feiraO velho Calar chegouA força ainda estava armadaCalar ali a olhouCravando a vista no céuUm uivo triste soltouVeio ali o presidenteQue trouxe um pão e lhe deuCalar olhou para eleCheirou-lhe os pés e gemeuBotando o pão entre as mãosDeitou-se e ali comeuChegou a força do matoNão trazendo o criminoso
  25. 25. O general com aquiloFicou muito desgostosoAté o governadorFicou doente e nervosoO povo ao redor da forcaSó fazia lamentarQue o pai do assassinoDeverá se executarTudo pedia ao governoQue o mandasse enforcarO cachorro levantou-seComo quem está chamandoFoi à casa de RobertoNa porta ficou uivandoOlhava para RobertoPartia a ele rosnandoO general com aquiloFicou bastante nervosoE disse ao governador:Estou muito receosoQue ali naquela casaEstá oculto o criminosoEntão a força cercouToda casa de RobertoO cachorro só faltavaEra dizer: Está pertoO general disse a ele:O senhor está descobertoRoberto ali descobriuOnde o assassino estavaDebaixo das madeirasO monstro se conservavaFoi levado ao pé da forcaOnde o povo lhe esperavaContou tudo que se deuAntes de ser enforcadoOs vultos que viu nas cruzesA quem tinha assassinadoO segredo do cachorroE o carro do magistrado
  26. 26. Às cinco horas da tardeA justiça o enforcouO pai dele estava presoAssim que o sino dobrouAli soltando um suspiroNa mesma hora expirouEstando morto o assassinoO deitaram sobre o chãoO cachorro olhou-o bemChamando tudo atençãoSoltou dois ou três latidosQue espantou a multidãoQuando a justiça ordenouPra ser o corpo inhumadoSobre os pés do generalCalar caiu mui cansadoTalvez querendo dizerGeneral, muito obrigadoO general foi ver águaAo cachorro ofereceuAli o velho CalarDois litros dágua bebeuTrouxeram-lhe uma fritadaPorém ele não comeuFestejando o generalAs pernas dele abraçouDirigiu-se ao presidenteA mesma ação obrouDepois desapareceuNovo destino tomouFoi direitinho ao lugarQue o horrendo crime se deuNo pé da cruz de AngelitaEle cavou e gemeuO velho Pedro chamou-oMas ele não atendeuDeitou-se entre as três cruzesSua vida liquidouNas condições dum guerreiroQue da batalha voltou
  27. 27. Trazendo os louros de guerraÀ sepultura baixouO general quando soubeQue Calar era sumidoE que fazia três diasQue não era aparecidoMandou gente procurá-loFicando muito sentidoSaíram cinco ou seis praçasEm procura de CalarO general tinha ditoNão voltem sem o acharTragam ele direitinhoNão o façam maltratarOs praças foram ao lugarOnde o crime tinha havidoOnde a família OliveiraTinha toda sucumbidoBem no pé duma das cruzesTinha o velho cão morridoTinha posto termo a vidaO maior dos lutadoresO que em sua existênciaViu o horror dos horroresQue sem falar descobriuQuem matou os seus senhoresO general quando soubeDa forma que o tinham achadoMandou fazer uma covaE nela foi enterradoUm dos amigos mais firmesQue no mundo foi criadoE nas mortes dos senhoresEle afirmou ter açãoProvou que tinha amizadeAo velho SebastiãoA morte só foi vingadaPor sua perseguiçãoSó não fez foi dizer nadaMas provou por sua vez
  28. 28. Apontou só com a vistaO monstro que os crimes fezSeus olhos diziam ao públicoEsse matou todos trêsDeitou-se encostado às cruzesQue tinham edificadoTinha morrido há três diasE nem sequer estava inchadoComo quem dizia: AgoraPosso morrer estou vingadoMais de duzentas pessoasAssistiram enterrar eleDevido à grande firmezaQue tinha se visto neleMuitas flores naturaisDeitaram na cova deleAgora vejam leitoresQuem era o velho CalarE como SebastiãoUm dia pôde o acharEle tinha cinco diasO dono ia o matarEntão o velho OliveiraAchou ser ingratidãoMatar aquele inocenteEmbora fosse ele um cãoPorém disse: A caridadeNão se faz só a cristãoE levou-o para casaDisse à mulher que criasseDizendo: Pode ser bomAlgum dia inda caçasseQuando nada da fazendaTalvez os bichos espantasseDe fato, Calar criou-seE era um cão caçadorMaracajá e raposaTinha dele tal pavorQue passava muito longeDa fazenda do senhor
  29. 29. Era o vigia da noiteUm minuto não dormiaNuma coisa que guardavaO velho cão não buliaSó quando os donos lhe davamEra que ele se serviaA família do OliveiraÀs vezes a conversarA velha dizia aos filhos:Esse cachorro CalarTem expressões de pessoaQue conhece seu lugarEm casa do dono eleDe noite nada chegavaUm bacurau que voasseEle se erguia e ladravaDo poleiro das galinhasAté coruja espantavaComo era muito bomO dono sempre caçavaPorém a vizinho algumA noite acompanhavaE só ia para o matoQuando o senhor lhe chamavaDepois de terem morridoOs senhores de CalarO pobre cão toda noiteIa para aquele lugarOlhava para as três cruzesLevava a noite a uivarLatia e fitava o céuQue causava pena e dóVia sangue no capimEle cobria com póNão queria ir para casaPassava a noite ali sóO velho Pedro dos AnjosVizinho de SebastiãoAchou que aquele animalMerecia compaixão
  30. 30. Chamou-o para não vê-loMorrer sem ter remissãoO velho Pedro caçavaToda noite com CalarMas ele só ia à caçaDepois que ia ao lugarAos pés daquelas três cruzesNão deixava de uivarAssim morreu o CalarFicou também descansadoEra um cão porém deixouO nome imortalizadoMorreu depois de livrarQuem já o tinha livradoLeitor não levantei falsoEscrevi o que se deuAcreditem que este fatoNa Bahia aconteceuDepois de lutar entãoRolou Calar sobre o chãoOnde seu senhor morreuJuazeiro, 19 de janeiro de 1960Material

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