Pensar entre vidas...

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Pensar entre vidas...

  1. 1. Pensar entreVidas minúsculas: cartografia de sentidos e viveres; relatos de experiências Vívidas Janete Marcia do Nascimento1 Luciana Alves Pinto2IntroduçãoEste texto é um relato sobre uma oficina chamada Vida, desenvolvida com crianças desete a doze anos, estudantes de turmas do 3° e 4° Anos dos Anos Iniciais/EnsinoFundamental, de uma escola pública municipal situada no município de Toledo, noestado, no estado do Paraná, no Brasil. O tema da oficina surgiu do desejo3 de pensar ossentidos da palavra Vida entre as crianças, em diferentes aspectos. Assim, objetivou-secriar atividades que captassem intensidades vivenciadas pelas crianças, compreendendoos processos de elaboração de sentidos através do desenho, da pintura, da escrita e daleitura. Seu começo foi no ano de 2011 e algumas atividades continuam sendodesenvolvidas ainda neste ano. Seu título: Vidas minúsculas – cartografando viveresinfantis, inventado para significar a singularidade das vidas infantis com as quaisconvivemos no universo das salas de aula. Nosso desejo foi destacar a grandeza dasvidas das crianças, mostrando nas atividades desenvolvidas os viveres infantiscartografados a cada intensidade, em cada atividade. Esse o desejo deste texto.Conhecer a vida de cada um, reconhecer-se na vida de cada um, aprender com as outrasvidas, respeitar as vidas que se entrelaçam, entender e compreender os sentidos de1 Professora da Educação Básica/Anos iniciais/Ensino Fundamental. Bolsista pesquisadora do projetoEscrileituras – um modo de ler-escrever em meio à vida do Observatório de Educação–OBEDUC/Inep/Capes.Núcleo de Toledo/UNIOESTE–Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Contato: jmarcia15@yahoo.com.br.Pedagoga de formação; Especialista em Fundamentos da Educação, Mestre em Letras–linguagem e Sociedade(UNIOESTE/CASCAVEL/PR). Escrileitora iniciante, inquieta, curiosa e encantada pelas coisas sensíveis eintensas. Atenta ao devir criação. Amante da Literatura, da Arte, da Filosofia.2 Professora da Educação Básica/Anos iniciais/Ensino Fundamental. Bolsista pesquisadora do projetoEscrileituras – um modo de ler-escrever em meio à vida do Observatório de Educação OBEDUC/Inep/Capes.Núcleo de Toledo/UNIOESTE–Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Contato: luluzinhalap@hotmail.com.Pedagoga de formação; Especialista em Educação Especial na Educação Inclusiva/UNIPAN/Cascavel/PARANÁ.3 O desejo permeia o campo social, tanto em práticas imediatas, quanto em projetos muito ambiciosos. Por nãoquerer me atrapalhar com definições complicadas, eu proporia denominar desejo a todas as formas de vontadede inventar uma outra sociedade, outra percepção do mundo, outros sistemas de valores (GUATTARI; ROLNIK,1986, p.125). 1
  2. 2. Vidas. Esse foi o nosso grande desafio. Pois, como cartógrafos, segundo Kastrup (2009,p.61), nos aproximamos do campo como estrangeiros visitantes de um território que nãohabitávamos. O território, no sentido aqui delimitado, foi sendo explorado por olhares,escutas, pela sensibilidade aos odores, gostos e ritmos. O que se passou nos dias quevieram? A cada novo dia íamos sendo afetadas por aquilo que os afetava, sofríamos dosmesmos sofrimentos, bebíamos das mesmas descobertas, estabelecíamos elos. Osrizomas foram surgindo das intensidades vividas minusculamente, os mapas de vidas secartografavam infinitamente!Destacar-se-ão aqui os disparadores escolhidos para o desenvolvimento da oficina, osquais se consistiram em conversações, relatos de experiências vividas, elaboração desentidos orais e escritos sobre Vida, escrita em diários, elaboração de desenhos,cartazes, painéis e, finalmente, mostra de desenhos e produções. Importante mencionarque diversas atividades foram inventadas durante a oficina Vida.Pensar EntreVidasA sala de aula é um encontro com inúmeras vidas. Vidas que se refletem, que semanifestam, que se gestam, que se libertam, que se desejam, que se imaginam, que seconhecem, que se desconhecem, que brilham a cada olhar, a cada gesto de atenção!Vida? Quais vidas? Que vidas? Cruzam-se entre si e com outras vidas. Assemelham-se?Diferem-se? Repelem-se? Libertam-se? Aprisionam-se? Emocionam-se?De como tudo se passou...Vidas Minúsculas... Fevereiro. 2011. Manhã de quarta-feira. Trinta faces. Amedrontadas,assustadas, felizes, amadas, expostas, escondidas, atentas, desconectadas, descuidadas,emocionadas, apáticas, audaciosas, nervosas, tranquilas, tristes, vivas, mortificadas...Um misto de susto, desafio e esperança. Retrato de uma sala de aula; relatos da vida deprofessora. Na sala em frente, o quadro se desenha, repetindo-se a cena. Insiste, repele,pouco difere. O que há em comum? Escrileitoras numa tentativa desenfreada de 2
  3. 3. conhecer, escrever em meio à vida; vida que se desenha sob nossos olhares e sob osolhares de nossos pares. Vazio! Na bagagem, dois textos nos serviriam de norte: “Pistaspara o método cartográfico” e “Estratégias biográficas“.Como descobrir o que se esconde por detrás de cada rosto, expressão, gesto?“Entretanto, o gesto nunca é totalmente o que parece estar sendo. Apenas insinua algodo qual seu portador pouco sabe” (COSTA, 2011, p.133). “Vidas Minúsculas”, tentativasde biografemas de vidas. Conhecer, reconhecer a vida de cada criança; pesquisar vidas,ler vidas. “A leitura biografemática faz irromper a figura do leitor, não como curiosoempírico, mas como ator de uma escritura que já é ela mesma, a realização de uma vidapossível.” (COSTA, 2011, p.134). O texto surge como um desabafo, descompasso,tentativa de explicar o inexplicável, busca constante num território inconstante, busca donexo, daquilo que não se vê num primeiro olhar, daquilo que não se vê, mas se sente,contentamento descontente, viver livremente. Será? O que será? Como será? Não sei!Talvez jamais o saiba completamente, mas sou insistente, não busco respostas: buscosaídas; busco vidas! Então as encontro; e me encanto, me emociono, me decepciono;vejo um caminho em cada rosto, em cada momento, em cada sinal, em cada desenho,em cada história, muitos caminhos, que em algum momento se cruzam, se afinam, secompletam. E depois? Depois seguimos caminhos que nos levam a novos caminhos, avelhos caminhos. Seguiremos sempre!Vida. O que é?Por que elaborar e desenvolver uma oficina com o tema Vida? O que move sentimentos,intensidades, curiosidades sobre a mera constatação de que se está vivo em meio atantas vidas que se entrelaçam todos os dias na escola? Na sala de aula, a cada pedaçode tempo, durante uma ou muitas manhãs, os nervos se afloram na tentativa dereconstruir laços afetivos de convivência, de ânimo – e por vezes, de desânimo – pelaresponsabilidade que se tem como professoras sobre as vidas que se nos entregam,todos os dias. O que dizer sobre a vida escolar dessas crianças? Como definir, perante ascrianças as muitas vidas das quais todos nós estamos constituídos e repletos de normasde convivência em todos os grupos aos quais pertencemos? Como definir uma vida queadentra a sala de aula e sobre a qual pouco ainda se sabe? O que dizer do brilho nosolhos das crianças ao observar, dia a dia, o nascimento da vida das sementes de vegetaisnos experimentos que se fazem nas aulas de Ciências? Como compreender a curiosidade 3
  4. 4. das crianças pelas vidas que conhecemos juntos, nos diversos livros para os quais secriou o hábito de adentrar para viagens inusitadas durante o ano inteiro? Muitas são asperguntas. E é possível que se pudessem elaborar inúmeras respostas, igualmentequestionadoras. Costa (2010, p.47), ao questionar “e a gente entra numa vida como?”dirá, através de Alain Robbe-Grillet em Por um novo romance, ao comentar a obra doescritor Robert Pinget, que: “Trata-se de possíveis que erram pelos cantos – de vidaspossíveis, literaturas possíveis”. Pode ser, pois, que nas inúmeras possibilidades de darsentido à palavra Vida se possam considerar os encontros que se dão, diariamente,através dos conteúdos, atividades, brincadeiras, olhares e encantamentos que seoferecem a cada dia, por crianças únicas, com olhares ávidos por experimentar outrosconceitos de vida.Seguindo e analisando a forma de escrita do citado crítico, essa é compreendida como“breves pedaços de realidade decomposta”, ligadas por um só princípio, que ele chamaráde vida – para Pinget, “não estaria no desenrolar das cenas, no seu enredo ou nanarrativa de acontecimentos, mas no que acontece desde que o romance inventa para siuma origem”. Entende-se então, segundo Costa, que, “se a vida começa por um ‘eunasci’”, é porque, a partir daí, dessa invenção, tudo se bifurca, toda uma coleção deinícios possíveis que se abre a partir desse primeiro enunciado (vida), numa escritura,seria, ela mesma, um vir a ser.Com a oficina Vida, foi possível observar o nascimento de um conjunto de possibilidades.Novos elos que se constituem das intensidades do vívido e do vivido. Talvez aqui seja olugar e agora seja o momento de escrevermos sobre Vidas que não são nossas, mas quese encontram entrelaçadas às nossas pelas possibilidades dos encontros que aindanascem das atividades que se compartilham, diariamente. Escrever, portanto, dar-se-ánum gesto desconfortavelmente confuso pelo medo de agonizar, de não dar conta deexpressar as intensidades dos sentidos de vida que se estão construindo durante aoficina. Observa-se, no entanto, que as atividades desenvolvidas na oficina ainda estãocriando para nós, crianças e professoras, sentidos de Vida referentes às vivênciasfundamentais como amor, amizade, carinho; as coisas que gostamos de fazer, comobrincar, ler; aulas de educação física, hora do recreio; sorvete; recreio no parque; vídeo-game, brinquedos, guloseima. Enfim. As coisas mais fundamentais que vivenciamos nodia a dia, tanto na escola quanto em casa, em nossas diversas outras Vidas. Chamamosde disparadores as formas de atividades que escolhemos para desenvolver durante aoficina Vida, os quais caracterizam iniciativas definidoras de orientações para criar,desenhar, pensar a Vida, por diferentes meios. Serão apresentados, a seguir, os 4
  5. 5. disparadores que ainda temos usado para a oficina que ora permanece em nossaspráticas.Rodas de conversaçõesAs rodas de conversas deram corpo a todas as atividades desenvolvidas na oficina Vida.A cada roda, novas descobertas e criações que se tornaram arte, brincadeiras, desenhos,leituras, sentidos orais e escrituras desenhadas, a cada vez que iniciávamos umaatividade diferente. As conversações permearam sentidos, criaram manias,transformaram-se em cobranças – entre as crianças quando alguém, de repente, sedeixava levar pelas tentações que atentavam contra a vida, como o desejo de machucarverbalmente o outro, o uso de palavras indelicadas que feriam os sentimentos do outro eque, de pronto, lembravam-nos do compromisso estabelecido entre as vidas queconviviam diária e cotidianamente. Dos sentidos, as constatações de que a vida seconstruía a cada dia. Para dar vida às conversas, trabalhamos com a memória. Para isso,trouxemos objetos pessoais sobre os quais muito conversamos acerca de suas origens,seus sentidos, suas intensidades, conhecendo a si e ao outro, reconhecendo na históriado outro um pouco da própria história. Através desses objetos pessoais, cada estudanteconta, reconta, inventa e apresenta sua história, a história que vive e que revive aocontar. Ao ouvir e ser ouvido criam-se elos... Semelhanças, sentimentos, sentidos. Foto 1: crianças expondo seus objetos pessoais, expressando suas memórias de Vida.Criando sentidos 5
  6. 6. Descobrimos, no decorrer da oficina, que falar sobre a Vida é muito mais fácil queescrever. As palavras saem facilmente; já a escrita necessita de recursos maiselaborados de representação. Então começamos falando... E como falamos! Cada alunose deixando ver, mostrando um pouquinho de si, falando o significado da palavra Vida e,às vezes, mostrando a vida que leva. Quando falamos, deixamos que os outros vejam oque temos na alma! E foi isso o que aconteceu: lemos almas! Conhecemo-nos, nossensibilizamos, nos apaixonamos! E através das histórias de vida de cada um e dosignificado da palavra vida para cada um de nós, percebemos as possibilidades derecomeços e novos começos para nossas próprias vidas e para a vida dos outros.Utilizamo-nos de disparadores diversos para desvendarmos a vida nas entrelinhas denossa existência. Desenhamos, pintamos, dançamos, cantamos, lemos, fabulamos eescrevemos. Os momentos vividos durante a oficina foram tornando-se necessários,felizes e livres. Gostamos da ideia de fazer parte daquele território.Palavras...Definir o sentido de vida, da palavra vida para si mesmo, através de outra palavra.Traduzir ao que a palavra vida remete, o que nela permeia, o que nela está presente.Explicar oralmente o motivo da escolha; escrever em fichas a palavra escolhida e junto aela o significado dela para si. Procurar no dicionário o significado da palavra escolhida ecomparar o significado encontrado com o que a palavra teve para si mesmo, antes desseencontro. Essa atividade nos fez perceber o quão importante é o contexto também nouniverso das palavras. Assim como nós, elas, sozinhas, possuem significados diversos,que podem ser transcriados, reinventados. Foto 3: Escrita de palavras que expressam Vida. 6
  7. 7. Escritas das histórias de Vida, escrita do minúsculoRetomando o objetivo maior desta oficina – a escritura de vidas –, propusemos àscrianças que escrevêssemos em diários; escritas do seu mundo, real e imaginário, do queé, do possível, daquilo que passa despercebido, daquilo que nem mesmo os olhares maisatentos conseguem ver. Escrita dos segredos, dos medos, dos sonhos, dos desejos, comoforma de melhorar a escrita. De melhorar a vida, pois à medida que escrevíamos nossosdiários, nos conhecíamos, as crianças confiavam-nos seus segredos, seus medos,alegrias; dúvidas, enfim. O elo tornava-se mais forte. Juntos, descobrimos que a Vidaestá presente na arte, na música, no medo, nas pessoas, nos objetos, nos livros, naquiloque somos, fomos e poderemos ser!Das diversas formas de ser, sentir e expressar sentimentos! Foto 4: Elaboração de cartazes que expressam Vida.Buscamos envolver a todos, de diferentes formas. Para isso, optamos por expressar emcartazes coloridos alguns sentidos de Vidas, por meio da leitura e ilustração de poesiasem homenagem ao Dia das Mães que se aproximava, e que previa uma apresentaçãoartística na Sessão Cívica da escola. Desenhou-se a vida colorida, viva, atenta como os 7
  8. 8. olhares das crianças, que se intensificavam sobre o branco do papel na vontade deexpressar os sentidos mais intensos dessa palavra em destaque.Vida por escrito...Foto 5: Sentido de Vida. Foto 6: Sentido de Vida.Dos sentidos orais e escritos – VidasEscrever sobre a vida foi tarefa construída aos poucos: nas produções de textos exigidascomo avaliações constantes dos avanços na escrita; nas cobranças diárias sobre ocuidado para não trocar as letras que insistiam manchar o branco do papel com o cinzada mistura lápis/dedo/borracha. Tantos desejos se desenharam! As vozes aflitas dasprofessoras assustadas por desejarem ver um cartaz bonito, limpo, colorido surgir nobranco do papel. As marcas das mãos minúsculas tocando a vida que nele surgia a cadadesenho, a cada cor. Os olhares minúsculos, atentos, apertados, críticos ao denunciaremo descaso de crianças que não desejavam expressar, naqueles momentos organizados,sentidos de vidas que muitas vezes ficaram no parque na hora do recreio, na correria, na 8
  9. 9. gritaria que ecoa por todo o espaço vívido da escola. Vida. O que é? Como desenharVida? Foto 8: Desenho e Escrita dos sentidos de Vida.Foto 7: Desenho e escrita dos sentidos de Vida. Que palavras são essas? O que significa,Como escrever palavras que expressem diariamente, a Vida? A minha? A tua? AVida? nossa?Foto cartazes 9
  10. 10. Fragmentos de Vida – diálogos aos pedaçosOs fragmentos a seguir referem-se às vivências das crianças da turma da professoraJanete Marcia do Nascimento – 3º Ano A/2011 – e foram produzidos no decorrer do mêsde janeiro deste ano durante a elaboração do relatório das atividades desenvolvidas noinício do mesmo ano. Em seguida, serão apresentados os fragmentos de anotaçõesrealizadas pela professora Luciana Alves Pinto, durante o decorrer do ano de 2011, emseu diário de bordo. Tais fragmentos retratam a escrita das intensidades vividas duranteo caminhar da oficina, das emoções, dos sentimentos.Vidas minúsculas e minuciosasCrianças pequenas. Faixa etária de sete a nove anos. Algumas com onze, doze anos.Vários são os motivos para o atraso na vida escolar: características familiares, mudançasgeográficas, morte ou doença dos pais. Abandono de uma das partes. Nova formaçãofamiliar. Falta de casa para morar. Irmãos separados pelas separações dos pais.Sofrimento pela ausência dos membros da família. Mães que não aceitam os filhos, agravidez, a condição em que foram gerados. Imaturidade. Insegurança. Medo.Desconhecimento sobre os cuidados infantis. Filhos e avós! Vida marital precoce.Desemprego. Subemprego. Condições precárias de sobrevivência. Mortes por violênciana família. Carências afetivas. Amor pela escola. Admiração pela professora. Necessidadede chamar atenção para si. Crianças bonitas. Falantes. Silenciosas. Entusiasmadas.Apáticas. Famintas. Bem cuidadas. Desorganizadas. Limpas. Mal cuidadas. Cansadas.Sonolentas. Vivas!Leituras minúsculasLer a escrita no quadro de giz. Ler os trechos dos livros didáticos. Ler as tarefas de casa.Ler a expressão da professora. Ler as regras da escola. Ler os poemas no Dia das Mães.Interpretar. Conviver. Ler obras de arte. Ler os livros da professora. Dar um lar aos livrosbonitos, novos, cheirosos, velhos, usados, comprados no sebo, trazidos de casa, das 10
  11. 11. casas. Inventar casas para eles no armário. Sentir saudades da Alice (no país dasmaravilhas). Entrar na Bolsa Amarela (da Lygia Bojunga). Conhecer o cosmos com oPequeno Príncipe. Viajar para um castelo do terror. Conhecer monstros horripilantes. Lero diário das invenções de Leonardo da Vinci. Conhecer o menino marrom e seu amigo corde rosa (do Ziraldo). Ler as alegrias das crianças ao ler, ouvir, contar e escrever umahistória. Sentir saudades de ler. Ver algumas crianças aprender a ler. Escrever.Desenhar. Pintar. Fazer livros. Refazer histórias. Desenhar as histórias prontas. Mostrardesenhos e contar/escrever/ler as histórias que eles contam. Ler desejos de ler.Emocionar-se com leituras primeiras. Viver as histórias. Ser o minúsculo das vidas que sedesenham para mim. Olhar as leituras e gostar delas. Abrir envelopes com livros.Conhecer os livros das crianças. Compartilhar a alegria de quem recebeu livros peloCorreio. Ler vida! Escrita! Leitura! Ler juntos os livros que se tem. Contar que o númerode livros está engordando – como as vontades da Raquel, da Bolsa Amarela (BOJUNGA,2003). Ver crianças trazer os livros para ler na hora do recreio!. Emoção!Relatos vívidos e vividos I. Saudades “do” AliceUm aluno que ama livros, comentando sobre o livro Alice no país das maravilhas(SABUDA, 2010), que lemos inteiro, juntos, durante as aulas, duas vezes, de tanto queas crianças gostaram: – Professora, eu tô com uma saudade “do” Alice! – Você está com saudades de quem? – “Do” Alice, aquele seu livro lindo que nós lemos juntos, lembra? Traz ele de novo,pra morar mais uns tempos no nosso armário? II. Voltar para Bolsa AmarelaUma aluna pedindo, alguns dias depois de termos concluído a leitura compartilhada daobra A bolsa amarela: 11
  12. 12. – Profe, você me empresta o seu “bolsa amarela” pra eu ler em casa? – Mas por quê? Nós acabamos de ler aqui na escola! – Ah, profe, mas é que eu quero tanto voltar pra dentro da bolsa amarela sozinha,lá em casa. Me empresta? - Tudo bem, eu empresto. III. Esse livro é antigo ou novo?Estávamos estudando histórias de vida. Biografias. Fizemos uma atividade de pesquisasobre pessoas conhecidas e desconhecidas. Surgiu então a ideia de conhecer o Leonardoda Vinci. Algumas crianças pesquisaram, trouxeram por escrito e lemos, juntos, para asdemais crianças, alguns fatos sobre a vida do artista/gênio. Mostrei então o livro Diáriodas invenções de Leonardo da Vinci (BARK, 2009). É um livro bonito, gordo, com aspectoenvelhecido. Um menino, bastante curioso, pegou o livro, virou, mexeu, analisou eperguntou, empolgado: “Profe, esse livro é velho ou é novo?”. Encantamento.Curiosidade. Descobertas. Leituras! IV. O mais importante não é cor por fora, mas o que tem dentro de nós!Lemos, juntos, a obra O menino marrom (ZIRALDO, 2009). As crianças gostaram deconhecer a história sobre a amizade entre o menino marrom e o menino cor de rosa.Conversamos sobre os valores abordados no texto, sobre as coisas que envolvem osrelacionamentos humanos. Contamos várias coisas que acontecem em nossas vidas eque nos envolvem com outras pessoas o tempo todo. Falamos sobre a relação humanaem todos os âmbitos da vida. Discutimos sobre o respeito mútuo que envolve osrelacionamentos humanos. As crianças ressaltaram os aspectos importantes nasamizades. Desenvolvemos atividades diversas durante semanas. Desenhos. Palavras.Frases. Textos. Conversas. Atitudes. Uma menina pediu para falar sobre a coisa que elamais gostou de aprender durante todas essas atividades. E disse a todos os presentes:“O mais importante não é a cor por fora, que as pessoas têm. Mas o que tem dentro denós!” 12
  13. 13. V. Agora eu já gosto de ler livro gordo!Aluna indisciplinada. Triste. Agressiva. Faltosa. Relatos de violência física. Desanimada.Apática. Tudo fazia para chamar para si toda a atenção, o tempo todo. Nada aempolgava. Depois de alguns meses começou a se interessar pelos livros. Começou apreocupar-se em concluir as atividades para pesquisar livros no armário. Parou de faltaràs aulas. Começou a chegar atrasada com justificativas de adultos: precisara cuidar dairmã, levar a prima à creche, tivera que adiantar o almoço. Mas ali estava ela. Centradanas atividades, nas leituras e nos livros. Despercebida de sua realidade e feliz dentro dasroupas e calçados de adultos! Nas aulas de biblioteca, lia vários livros. A princípio em vozalta, como que para certificar-se do que estivesse lendo. Depois sozinha, encolhida emalgum cantinho escondido. Mas sempre centrada nas leituras, nos livros. Às vezes, aolado da professora, como que para esbarrar e ser notada, ouvida, elogiada. Encantada.Feliz. Descobridora! Nos últimos meses de aula, disse-me, com brilho nos olhos: “Profe,agora eu melhorei, né? Eu até já gosto de ler os livros bem gordos. Eu adoro ler!”Marcante e inesquecível! Diferença! Rizoma? VI. Alguém não tá cuidando dos nossos livros!Com o tempo, no decorrer do ano letivo, as crianças passaram a cuidar e observar maisos livros. Passou a ser comum comentários como: “Alguém não cuidou do livro”. “Quandoeu o peguei já tinha essa sujeira aqui”. “Esse rasgado não fui eu quem fez!”. “Profe, temgente batendo no amigo com o livro”.Vida de professora – relatando intensidades no diário de bordoEPISÓDIO I: Aula de PortuguêsA aula de Português transcorria dentro do esperado. Atividade oral: selecionei algumasgravuras/figuras e pedi para que as crianças, conforme fossem passando as gravuras 13
  14. 14. (estavam sentadas em círculo), relatassem o que viam, o que aquela gravurarepresentava ou significava. A primeira gravura foi passando e, como já era esperado, ascrianças foram descrevendo o que viam: “Tem crianças”. “Tem skate”. “Tem meninos”.“São três meninos”. “Um está no muro”. “Dois estão brincando”. Até que Rudson viu algoalém das gravuras, além daquilo que os olhos curiosos das crianças puderam descreveraté aquele momento; enxergou sentimentos, realidade vivida, luta de classes...– Professora, eu vejo que esses meninos não são iguais, não pertencem à mesma classe.Dois estão brincando e um está catando lixo reciclável.Meu Deus, vibrei! Aquela criança ali, bem na minha frente, transformou a minha simplesaula num grande debate e fez, a partir do seu olhar, da sua realidade, da sua voz, comque outros colegas enxergassem o que outrora seus olhos cerrados para além do queparece visível não viram. Leram as entrelinhas; ousaram ver; saíram de suas “zonas deconforto”; despertaram! Após fervorosa discussão mediante tantas outras gravuras,solicitei que todos escolhessem uma e escrevessem sobre ela. O Rudson escolheu aquela,a que gerou o encantamento de todos, que transformou a aula.EPISÓDIO II: Uma conversa vale mais que mil aulas!Tentando compreender o porquê de uma mesma criança ter atitudes tão diferentes nummesmo dia, comecei a conversa questionando:– F., será que existe outro F. no 3º ano e eu não estou sabendo?– Não, profe, sou eu mesmo!– Então me explica, F., por que aqui comigo você é tão querido, bom aluno, e no recreio,nas aulas de outros professores você é tão diferente?– É que eu gosto de você, profe!– E o que lhe faz gostar de mim?– Você me respeita, me entende! Posso ir agora?– Pode. É claro que pode! 14
  15. 15. Nessa ocasião, lembrei-me do texto das pistas, mais precisamente da pista 3.“Cartografar é acompanhar processos” (Virginia Kastrup). Em um trecho, falava-se sobrecriar elos. Nessa conversa, constatei que entre eu e o F. existia um elo.EPISÓDIO III: ContradiçõesAcompanhar processos, fazer cartografia, tornar-se parte, respeitar individualidades,criar um coletivo, estar aberto para novos pontos de vista, novas experiências, habitar oterritório existencial, ter afeto com o local de trabalho, com os envolvidos, cartografar...Como reagir quando ouvir:– Você está se envolvendo demais com seus alunos, com seu trabalho. Isso pode lheprejudicar! Pense nisso!EPISÓDIO IV: Histórias de Vidas!Como atender a cada ser indivíduo, com sua história de vida, seus bons e mausmomentos, seus acertos, suas esperanças e desencantos, e cumprir com todas asobrigações e normas impostas pelo “sistema”? Luta diária? Questionamento diário?Dúvida diária? Busca diária?EPISÓDIO V: Dia das mãesNão se trata de trabalhar datas comemorativas, e sim de trabalhar a figura materna...Mas o que é ou quem é a figura materna?Trinta alunos, trinta histórias... E que histórias!Mãe que ensinou o filho o que é ser mãe!Mãe que trouxe o filho ao mundo e só!Mãe que não sabe-se o que é, quem é, onde está. 15
  16. 16. Em tempos modernos, informatizados, qual o conceito de mãe?Um aluno diz:– Mãe é a pessoa que cuida!A professora pergunta:– O que é cuidar?O aluno responde:– Cuidar!A professora questiona:– Como?Os alunos respondem:- Fazer comida, dar roupas, brinquedos!A professora questiona:– Só?Os alunos respondem:– Dar carinho!– Cuidar quando está doente!– Fazer carinho!– Amar!– Se preocupar!– Proteger!A professora diz:- Então vamos escrever uma carta para essa pessoa que vocês descreveram!Alguns escreveram para ela.EPISÓDIO VI: ResgateJá faz algum tempo que não paro para escrever, mas sinto que hoje, independente dasoutras obrigações que tenho, vou recolher-me aos meus pensamentos e registrar os 16
  17. 17. últimos acontecimentos. Tenho uma nova companheira de oficina e isso tem me trazidonovas oportunidades e expectativas. Compartilhamos de muitas ideias e ansiamos porobjetivos senão comuns bastante próximos. Temos trabalhado juntas com minha turmado 3º ano e finalmente percebo que eles estão mergulhados de corpo e alma nessatentativa de aproximá-los da Filosofia. Digo isso especialmente devido a comentáriosfeitos por eles após nossa última oficina.Trabalhamos com a obra de LIPMAN, com a ideia de nome, e para isso realizamos umaoficina que trabalhava como essa ideia de nome foi constituída, convencionada em nossasociedade. Utilizamos a obra literária Marcelo, marmelo, martelo, de Ruth Rocha, paraenvolvê-los na discussão e compreensão de que tudo e todos têm nome, e que isso setrata de uma convenção. Após a oficina, os alunos ficaram inquietos e questionando-se arespeito daquilo que haviam vivenciado. No dia seguinte, um aluno que havia faltado nodia anterior e por esse motivo não participou da oficina, ao deparar-se com as fichascontendo os questionamentos utilizados durante a mesma, que estavam expostas naparede, perguntou a seus colegas:– O que são estas perguntas?E os colegas responderam:– São perguntas que utilizamos na aula de Filosofia.E comentaram sobre como a aula/oficina havia ocorrido, contando sobre a dinâmicautilizada, sobre a obra “Marcelo, marmelo, martelo”, e então o aluno questionou:– Mas nós já conhecíamos este livro e já sabíamos que todas as coisas têm nome!E obteve como resposta o seguinte comentário:- Sim, mas dessa vez estávamos pensando o porquê, discutindo.Relato isso porque algumas falas me chamaram atenção devido aos termos utilizados:aula de Filosofia, pensando o porquê, discutindo... Acredito que estamos nosaproximando do nosso objetivo. E conseguindo que percebam a importância e anecessidade de se pensar o porquê de todas as coisas. 17
  18. 18. Foto 9: Ler sobre a vida... A curiosidade de Marcelo, Foto 10: Escolhendo leituras... Vida, viveres vívidosmarmelo, martelo.Considerações VívidasContinuamos a escrever a Vida, das vidas, nas vidas e entreVidas, que se cartografamminusculamente, a cada dia nas atividades que se construíram e que ainda sobrevivemàs tentativas constantes.Vida. O que é? Diremos que vida é o que flui, o que revive dia a dia nas atividades eintensidades que quase se podem tocar ao serem vistas nos olhares ávidos por vida dascrianças que, como estudantes do ensino fundamental, passam a dar sentido às nossasvidas de professoras. Invadem nosso sono, colorem nossos sonhos ao fazer parte denossa vida, ao correrem nas nossas veias como o alimento que nos mantém de pé, diáriae insistentemente. Repetidamente. São corpos vivos, vívidos, animados, a movimentar-se num vai e vem ritmado. Angustiado. Disparado.Gostamos de pensar que pensar a vida com e entre as crianças requer coragem,animação, sorrisos constantes e broncas, às vezes desconfiguradas diante do apeloinocente de uma criança viva: “Profe, lê um livro pra gente?” O que fazer? O que dizer?Como não sorrir – e às vezes até chorar – de desespero pelo medo de não conseguir serprofessora, no sentido que o termo requer: aquela que ensina os conteúdos curricularese que poderá, ao final do ano, aprovar as crianças para a série seguinte. Como discernir,fantasia e realidade diante das vidas que se criam, recriam, fazem e refazem sentidos 18
  19. 19. vívidos para este termo vividamente construído a cada instante: Vida é isso. Esse devirrespirar. Criar. Olhar. Viver!ReferênciasAQUINO, Julio Groppa e CORAZZA, Sandra (Orgs.). Abecedário educação da diferença.Campinas, SP: Papirus, 2009.BARK, Jaspre. Diário das invenções de Leonardo Da Vinci. São Paulo: CirandaCultural, 2009.BOJUNGA, Lygia. A bolsa amarela. 33ª Ed. Rio de Janeiro: Ed. Casa Lygia Bojunga, 2003.COSTA, Luciano Bedin da. Estratégias biográficas: biografema com Barthes,Deleuze, Nietzsche e Henry Miller. Luciano Bedin da Costa, Porto Alegre: Sulina,2011.________________________. O destino não pode esperar ou o que dizer de umavida. In: FONSECA, Tania Mara Galli e COSTA, Luciano Bedin (Orgs.). Vidas do Fora –habitantes do silêncio. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2010.DALAROSA, Patrícia. Apud: Heuser, Ester Maria Dreher (org.) Caderno de Notas 1:projeto, notas & ressonâncias. Cuiabá: EdUFMT, 2011. 120 p.KASTRUP, Virginia. Pistas do método da cartografia: Pesquisa-intervenção eprodução de subjetividade / Orgs. Eduardo Passos, Virgínia Kastrup e Liliana daEscóssia. – Porto Alegre: Sulina, 2009. 207 p.OLIVEIRA, Marcos da Rocha. Biografemática do homo quotidianus: o senhoreducador – Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-graduação em Educação,Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre: 2010.ROCHA, Ruth. Marcelo Marmelo Martelo e outras histórias. Ed. Salamandra, SãoPaulo: 1999.SABUDA, Robert. Alice no país das maravilhas. / Lewis Carrol; [adaptação] RobertoSabuda; (Trad. Cynthia Costa.) São Paulo: Publifolhinha, 2010. 19
  20. 20. ROLNIK, Suely; GUATTARI, Félix. Cartografias do desejo. Editora Vozes, Petrópolis, 1986.ZIRALDO, O menino marrom. São Paulo: Melhoramentos, 2009. 20

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