Brasil: para onde caminhamos? 12ª edição da revista ULYSSES

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Brasil: para onde caminhamos? 12ª edição da revista ULYSSES

  1. 1. ano VI - nº 12 - fevereiro|março|abril 2013 Brasil: para onde caminhamos? 9 772179 472018Distribuição Gratuita Está na hora de pensar o que queremos para o futuro
  2. 2. Diretoria administrativa da Fundação Ulysses Guimarães Presidente: Eliseu Padilha Vice-Presidente: Edinho Bez Diretor Secretário: Edson Ezequiel Diretor Tesoureiro: Afrísio Vieira Lima Filho Secretário-Executivo: João Henrique de Almeida Sousa Diretores: Moisés Avelino, Wellington Coimbra Marinha Raupp, Waldemir Moka e Romero Jucá Diretores Suplentes: Osmar Terra, Aparecida M. Bezerra e Mauro Benevides Secretário-Executivo Adjunto: Francisco de Assis Mesquita Conselho curador da Fundação Ulysses Guimarães Presidente: Esacheu Cipriano Nascimento Membros: Michel Temer, Ronan Tito, Evandro Mesquista, Carlos Eduardo Fioravanti, Adenor Piovesan, Pedro Simon, Francisco Donato Jr., Wolney de Siqueira, Regina Perondi e Henrique Pires Suplentes: Rosemary Soares Antunes Rainha, Gleire Belchior de Aguiar Bezerra e Colbert Martins2 3
  3. 3. Expediente Cartas Índice 07 Editorial A impostergável definição de rumo Eliseu Padilha 08 para nosso desenvolvimento editor Entre aspas 10 Debate A crise financeira internacional 12 Thatiana Souza Conselho editorial Artigos jornalista responsável Michel Temer A crise nos países europeus (reg. prof. 3487-DF) Gastão Vieira João Henrique de Almeida Sousa 20 Artigos Itamar de Oliveira Sobre fraqueza e fortaleza ou sobre Waldemir Moka Carlos Eduardo Fioravanti da Costa 24 crise e oportunidade Capa Graziela R. Camargo Para onde caminha o Brasil frente à ciências políticas 30 economia mundial? Agência de Notícias Fundação Ulysses Notícias Jornalistas: Ana C. Silva, Jolie Castro Fundação homenageia Ulysses Guimarães (EAD), Paulo Marcial e Roberta Ramos 46 com um busto no Bosque dos Constituintes Fotos: OBrito News e Wendel Lopes Notícias Revisão de texto: Tayana Moritz Tomazoni Tecendo a Rede - Formando Projeto gráfico: Zoltar Design Ilustrações: Zoltar Design 50 um novo cidadão Impressão: Gráfica Pallotti Notícias Tiragem: 15 mil exemplares Fundação Ulysses Guimarães apresenta Distribuição gratuita 62 uma Proposta de Reforma Política Persona Ulysses por ele mesmo 64A Revista Ulysses é uma publicação Câmara dos Deputados, Anexo I, 26º andar Sala 04 Cátedratrimestral da Fundação Ulysses Guimarães. Cep: 70160-900 - Brasília/DF Discurso proferido na sessão Telefone: (61) 3216.9758 / 9759 90 de 5 de outubro de 1988A Ulysses não se responsabiliza pelos Fax: (61) 3325.5510 Fechamentoconceitos emitidos nos artigos assinados. revistaulysses@fundacaoulysses.org.br Ideias de crescimento para 100 o Brasil4 5
  4. 4. cartas@fundacaoulysses.org.br As revistas da Fundação são ótimas, Soubemos da existência da Revista aquitrazem recordações dos bons tempos de luta do em Curitiba.saudoso Doutor Ulysses. Como Ecologista que somos, fazemos Elisete Pereira – Aluna do Programa EAD de um trabalho junto a Escolas e Comunidades, e Paranavaí/PR vamos fazer uso da Revista em nossa Ong “O Despeertar da Consciência”, onde educamos as Estou relendo o Curso para Gestores crianças no interior do Paraná.Públicos Municipais - Módulo II - Poder Le- Parabéns pelo trabalho, temos certezagislativo, da Fundação Ulysses Guimarães Na- de que pelo Espirito do Grande Ulysses Guima-cional. O material está contribuindo muito para rães, vocês estarão ajudando em muito na Sus-o meu conhecimento e posterior mandato com tentabilidade.responsabilidade e entusiasmo para nosso povo. José Pedro Naisser – Ecologista, Curitiba/PR Vereador Luciano Salgado – Mediador do Programa EAD em Ibatiba/ES Saudações! Como não se orgulhar da nossa Funda- Sou professor na Unicamp desde 1975,ção Ulysses Guimarães? quando conheci o Dr. Ulysses. Participei de di- Carlos Quartezani – Mediador do Programa versos encontros com ele e com alguns de seus EAD em Conceição da Barra/ES amigos e correligionários, como Severo Gomes. Quando soube da notícia do desapareci- Parabéns a toda equipe da Fundação mento do helicóptero em que voava, e que pos-Ulysses Guimarães pelo trabalho maravilhoso! sivelmente caira no mar, escrevi um pequeno Rosemary Rainha – Presidente da verso em sua homenagem, nunca divulgado ou Fundação Ulysses DF publicado. De qualquer modo, e para qualquer fim Eu, Maria das Graças, fiquei muito feliz que julguem útil, segue abaixo:pelo meu partido estar financiando tão belíssi-mo curso aos seus. Nilo Peçanha abraçou esta Vai, Ulysses, navegar!causa, a da Formação Política, com muito cari- Para sempre navegar.nho. Espero que mais cursos sejam criados, elescapacitaram os servidores do município, inclu- Vira luz, farol, estrela, guia.sive eu mesma o fiz. Maria das Graças Soares de Oliveira - Ex- Vai com amor, prefeita de Nilo Peçanha/BA amor de Mora. Presidente Eliseu Padilha, tenho orgu- Vive, Ulysses! lho de você fazer parte do PMDB. Vive, Mora! Thiago Andrade- Aluno do Programa EAD em Ulysses, Mora, no mar... Queimados/RJ Oséas de Avilez – Campinas/SP
  5. 5. Editorial EditorialA impostergável definiçãode rumo para nossodesenvolvimentoA Revista Ulysses tem procurado cons- Nesta edição da Revista Ulysses, sob nhecimento, como este em que estamos viven- do cidadão brasileiro é muito deficitário ante as truir, de forma permanente, o debate a desafiadora interrogação “PARA ONDE CA- do, nossa capacidade para aproveitar a oportu- exigências da produção industrial no mercado de temas que digam respeito à cida- MINHAMOS?”, procuramos provocar o con- nidade estará diretamente relacionada ao nível globalizado. Como consequência, a cada ano, dania brasileira. A posição em que traditório e centrar o debate no atual cenário de conhecimento médio de nossa população, nosso mercado para a produção industrial perdenos encontramos e para onde nos dirigimos socioeconômico nacional, levando em conta os responsável direta pela qualidade e pela compe- expressão e peso.como nação, sob os pontos de vista político, so- competidores da América do Sul, da América titividade do que produzimos. Atualmente, nossa maior sustentaçãocial e econômico, são questões importantes a Latina, dos chamados BRICs e de todo o globo. Por isso, um Plano Nacional de Desen- econômica está amparada na competitiva pro-serem respondidas. A globalização da economia, desde sua volvimento, calcado, principalmente, em um dução e na oferta de “commodities”. Estas, no Com a absoluta globalização da infor- eclosão, tem resultado numa globalização de Plano Nacional de Educação – de Produção do entanto, têm espaço ou tempo de produção li-mação e, principalmente, da economia, não há crises, especialmente as denominadas “Crises Conhecimento – e em um Plano Nacional de mitados. A cada dia, nossa dependência de mer-mais limites aos quais tenhamos de nos atar, Econômicas”. Em tempos variados, diferentes Infraestrutura, mais do que antes, passa a ser cados para a comercialização de nossas produ-nem mesmo ao territorial, que corporifica insti- incertezas e conflitos abalaram economias em ferramenta indispensável para a inserção com- ções extrativista, agrícola e pecuária é maior e setucionalmente o Estado. Temos é que, de fato, todos os continentes, embora sejam neste mo- petitiva da produção nacional no cenário inter- sobrepõe à dependência da produção industrial.estar preparados para competir em todos os mento, a crise da União Europeia e a dos Esta- no e externo. A Confederação Nacional da In- Nação que almeje, de forma conse-quadrantes do mundo globalizado. dos Unidos da América a ocupar os maiores es- dústria (CNI) tem mostrado aos brasileiros que quente e viável, situar-se entre as mais desen- Não há mais espaço ou tempo para paços midiáticos globalizados. Inclusive agora, nossa indústria, por vários fatores, mas especial- volvidas do mundo, como de forma permanente ações improvisadas, tópicas ou tempo- hoje, uma grande crise econômica atinge algum, mente pela pouca qualificação de nossa mão temos buscado, não pode deixar de priorizar o rárias por parte dos atores ou até alguns estados nacionais. de obra, não tem conseguido crescer. A FIESP planejamento e a adoção das medidas que o via- deste novo cenário, tanto Nenhum caos econômico é produzi- sustenta direta e objetivamente que, pelos mes- bilizem. no que cumpre aos in- do da noite para o dia. Seus componentes são mos motivos, estamos vivendo um processo de A Fundação Ulysses Guimarães enten- teresses e projetos pri- construídos em um dado período de tempo, e desindustrialização. de que é missão sua na defesa da cidadania bra- vados, quanto no que os sinais de sua presença são palpáveis ao ob- As avaliações de nosso crescimento sileira, perguntar e também solicitar a cada um compete às ações servador mais atento. Contudo, sendo adotadas ante o cenário internacional – América do Sul, e a todos os brasileiros que repitam a pergunta da gestão pública. as necessárias medidas, o período de constru- América Latina, BRICs, etc. – tem comprovado proposta pela Revista Ulysses – “Brasil! Para É por isso que to- ção do caos pode ser interrompido. Este é um que não estamos conseguindo nos inserir entre onde caminhamos?” –, participando da constru- das as iniciativas dos exercícios diários e permanentes realizados os mais destacados países, nem entre os médios. ção da resposta a esta grande questão. e projetos terão por aqueles que assumiram a responsabilidade O sinal de alerta está soando há vários anos e Nós e as gerações de brasileiros que nos de ser, interna e de ditar os rumos socioeconômicos no campo seu sonido é cada vez mais forte. sucederão dependemos e dependerão de como externamente, privado e no setor público. No que diz respeito ao IDH e ao nível vamos corresponder à esta expectativa nacional. competiti- Sempre que existir uma crise, na mes- educacional – de formação – de nossa população vos. ma proporção, juntamente com ela, haverá uma estamos situados, invariavelmente, em inexpres- Eliseu Padilha oportunidade. Em tempos de Civilização do Co- sível posição. O nível médio de conhecimento presidente8 9
  6. 6. Entre aspas Entre aspas “U ma sociedade que não possui a ideia de nação dificilmente experimentará um desenvolvimento sustentável.”“O Brasil desacelerou por dois motivos em 2011 e 2012. Primeiro, a redução do crescimento da Luiz Carlos Bresser-Pereira, China e dos preços de algumas commodities. Novos Estudos Cebrap, 93, julho Segundo, a sobrevalorização do real, que 2012: 101-121 - Brasil, sociedade complicou o desafio do Brasil para ganhar competitividade.” nacional-dependente “S Jim O’Neill, economista da e comprares aquilo de que não careces, não tardarás Goldman Sachs, criador do a vender o que te é necessário.” termo BRIC Benjamin Franklin“O mais valioso dos capitais é aquele investido em seres humanos.” “O Alfred Marshall que distingue uma época económica de outra, é menos o que se produziu do que a forma de o produzir.” Karl Marx“O homem não teria alcançado o possível se, repetidas vezes, não tivesse tentado o impossível.” “L ogo que na ordem econômica não haja um balanço Max Weber exacto de forças, de produção, de salários, de trabalhos, de benefícios, de impostos, haverá uma aristocracia financeira, que cresce, reluz, engorda, incha, e ao mes- mo tempo uma democracia de produtores que emagrece, definha e“P ara se transformar em um país desenvolvido, o dissipa-se nos proletariados.” Brasil precisa cuidar bem da exploração do petróleo Eça de Queirós da camada pré-sal, melhorar a qualidade da educação pública, estabelecer regras para aumentar “A a atração de investimentos privados de longo prazo e acelerar a riqueza de uma nação se mede pela riqueza do redução da pobreza e da desigualdade.” povo e não pela riqueza dos príncipes.” Michael Reid, editor da revista britânica The Economist Adam Smith10 11
  7. 7. Debate O Bê-a-bá da Crise Mundial A HistóriaA crise financeira A desregulamentação dos mercados ganhou destaque na década de 70, influenciada pelas pesquisas dainternacional Universidade de Chicago e pelas teorias de Ludwig Von Mises, Friedrich von Hayek, Milton Friedman, entre outros. Porém, para entender o pensamento que fundamenta a desregulamentação, precisamos voltar ao final da Segunda Guer- ra Mundial, mais precisamente ao sistema emanado das confe- Graziela R. Camargo rências de Bretton Woods. As bases políticas do sistema Bretton Woods podem ser encontradas na confluência de vários elementos: nas experiên- cias nacionais da Grande Depressão, na concentração de poder em um pequeno número de Estados e na presença de uma potên- cia dominante capaz assumir um papel de liderança. A Grande Depressão da década de 1930 foi diagnosti- 13
  8. 8. Debate Debatecada como resultado da excessiva liberdade dos a taxa de câmbio de suas moedas dentro de um longo período recessivo nos EUA, o que ocasio-mercados e do sistema financeiro. Para saná-la, determinado valor indexado ao dólar, mais ou nou uma rápida disseminação da crise em nívelos governos nacionais passaram a realizar políti- menos a um por cento. Este valor, por sua vez, mundial. Este evento teve grande impacto nascas intervencionistas como forma de estimular estaria ligado ao ouro numa base fixa de 35 dó- finanças brasileiras porque os EUA, para se re-a economia e direcionar as forças produtivas do lares por onça. Nesse contexto, também foram capitalizarem (atraírem o retorno de dólares aosmercado. Neste contexto, surgiu o Estado de criadas duas instituições financeiras, o FMI e o EUA), aumentaram suas taxas de juros dramati-Bem-Estar Social, que, para além das interven- Banco Mundial. camente. Para o Brasil e outros países da Amé-ções econômicas, na forma de políticas fiscais e O sistema de Bretton Woods funcionou rica Latina, foi trágico, pois isso significou o au-monetárias, também criou sistemas de seguri- com relativa estabilidade até a década de 1970, mento de suas dívidas externas para com o paísdade social, como o que compreende o direito a quando alguns países começaram a questionar do norte, onde as taxas haviam sido prefixadas.auxílio desemprego e a aposentadoria. o papel dos EUA como fiduciário das finanças Com o objetivo de repensar as organi- A eclosão da Segunda Guerra Mundial, internacionais. zações internacionais e as regras do comérciomotivada pelos projetos de expansionismo e de Em 1971, diante de pressões crescentes internacional, formaram-se grupos informaisdomínio da Alemanha nazista, alertou os gover- na demanda global por ouro, Richard Nixon, en- de concertação financeira e econômica, comonos para a necessidade de concertação finan- tão presidente dos Estados Unidos, suspendeu o G7, em 1975, formado por Itália, Japão, In-ceira entre as nações. Meses antes de terminar unilateralmente o sistema de Bretton Woods, glaterra, França, Alemanha e Canadá – este úl- o Reino Unido e os EUA, aplicaram essas tesesa guerra, teve início uma série de conferências cancelando a conversibilidade direta do dólar timo se juntou ao grupo em 1976. Na época, antes mesmo de elas serem compiladas sob ointernacionais – das quais participaram as na- em ouro. havia um maior grau de incerteza nos regimes “consenso”. Líderes estatais como Ronald Rea-ções mais ricas do globo –, com o objetivo de Este ato unilateral do Presidente norte- de conversão cambial, mas certa era a percep- gan e Margareth Thatcher, dos EUA e do Rei-construir um sistema de coordenação de esfor- americano deixou um vácuo de poder na gover- ção de que as mudanças só poderiam ser feitas no Unido respectivamente, ficaram conhecidosços e de consulta sobre medidas de resgate da nança financeira internacional, pois nenhuma pelas grandes locomotivas da economia, o que como sendo os baluartes do estado mínimo e daeconomia mundial. O objetivo era o de evitar, no outra organização internacional era vista com motivou a entrada da Rússia no grupo, em 1998, liberalização dos mercados. futuro, o recurso a soluções de força. condições de ocupar o lugar do sistema Bretton quando o grupo passou a ser intitulado de G8. Na América Latina, o consenso foi As conferências de Bretton Woods, por- Woods. Nas reuniões relativamente informais adaptado diferentemente para ajustar-se à rea-tanto, definiram o sistema de gerenciamento dessas grandes potências econômicas, surgiu lidade de cada país. No Brasil, o histórico eraeconômico internacional. Em julho de 1944, As origens imediatas da crise gradativamente o consenso de que o principal de sofrimento econômico devido ao aumentoforam estabelecidas as regras para as relações culpado das recorrentes crises vividas pelos unilateral das taxas de juros nos EUA, que fezcomerciais e financeiras entre os países mais As décadas de 70 e 80 são intituladas nos com- mercados era o Estado e o seu papel excessiva- o câmbio nacional aumentar drasticamente e,industrializados do mundo. O sistema de Bret- pêndios de história como décadas de crise inter- mente intervencionista, o que gerou a conclusão por consequência, abrir espaço para o fortale-ton Woods foi o primeiro exemplo, na história nacional; na América Latina, convencionou-se de que o Estado deveria ser esvaziado e tornado cimento da dívida externa. Por este motivo, omundial, de uma ordem monetária totalmente chamar a década de 1980 como “década perdi- “mínimo”. Os “dez mandamentos” provindos do Brasil adotou o receituário gradativamente, emnegociada, cujo propósito era o de governar as da”. Os estados voltaram a perseguir objetivos consenso de Washington, formulado em 1989, especial a partir do início da década de 1990,relações monetárias entre estados independen- individuais sem pensar nos problemas coletivos resumem o pensamento corrente dos países do quando teve início a onda de privatizações detes. que este processo poderia acarretar – mesmo G8. Eles deveriam passar a orientar a ação dos instituições estatais. Já a Argentina, com o Pre- O objetivo das conferências foi preparar tendo passado por duas guerras mundiais que ti- estados na relação com a economia por meio de: sidente Menem, adotou a agenda neoliberal –a reconstrução do capitalismo mundial. Assim, veram como pano de fundo a busca de recursos disciplina fiscal, redução dos gastos públicos, nomenclatura conferida à pauta da nova agenda730 delegados das 44 nações aliadas encontra- individuais sem considerar as consequências reforma tributária, criação dos juros de merca- liberal – quase que em sua integralidade, tendo,ram-se em Bretton Woods, New Hampshire, coletivas. Os maiores produtores de petróleo do e do câmbio de mercado, abertura comercial, inclusive, “dolarizado” sua economia, o que separa a Conferência monetária e financeira das – membros da OPEP (Organização dos Países investimento estrangeiro direto com eliminação mostrou um grande erro no longo prazo.Nações Unidas. Produtores de Petróleo) – decidiram aumentar o de restrições, privatização das estatais, desregu- Voltando ao caso do Brasil, a explica- A principal disposição do sistema Bret- preço do barril em 1973, em protesto aos EUA lamentação (afrouxamento das leis econômicas ção para que as adaptações provindas do neo-ton Woods foi impor a cada país a obrigação de pelo apoio prestado a Israel na Guerra do Yom e trabalhistas) e direito à propriedade intelectual. liberalismo fossem parcialmente adotadas seadotar uma política monetária que mantivesse Kippur. O aumento de 300% deu início a um Diversos países industrializados, como explica, em parte, pela realidade econômica e14 15
  9. 9. Debate Debatesocial existente na época. O Brasil caracteriza- emitidos com 100 anos de atraso, ou seja, seria mercado imobiliário dos Estados Unidos, que com um dinheiro que não existia.va-se historicamente por forte desigualdade na o caos. Porém, nada disso aconteceu, porque as estimulava os clientes de banco a tomarem em- A crise começou a se mostrar quando odistribuição da riqueza. Num contexto assim, empresas conseguiram atualizar seus softwares préstimos e a darem como garantia suas casas, óbvio passou a acontecer: os clientes subprimeso Estado tem papel fundamental na formulação em tempo. hipotecando-as. Como era de se esperar, com simplesmente não pagaram seus empréstimos.e na condução de políticas mais equitativas de O pior, contudo, ainda estava por vir. essa expansão, o mercado imobiliário entrou em Para alguns, o prejuízo significou perder suasdistribuição de renda. Por isso, esta função pri- Em 2001, os EUA, maior potência financeira crise. Bancos transformaram esses empréstimos casas (em ações de “foreclose”: despejo) e, paramordial, que é a de corrigir as “distorções” oca- global, sofreram uma série de ataques do gru- hipotecários em papéis e os venderam a outras muitos outros, significou acordar em um mar desionadas pela liberdade do mercado, nunca foi po islâmico e terrorista Al Qaeda. O primeiro instituições financeiras, que também acabaram dívidas. Como as pessoas que adquiriam os cré-abandonada pelo Brasil, nem por alguns outros alvo, as Torres Gêmeas nos EUA, símbolo do sofrendo perdas. Alguns dos maiores bancos dos ditos eram a fonte inicial do dinheiro, e como apaíses com características semelhantes às nos- poder americano sobre as finanças globais, fo- Estados Unidos anunciaram prejuízos bilioná- empresa que lhes emprestou o dinheiro ou quesas, o que mostrou que esta opção fora a mais ram atacadas por terroristas que sequestraram rios, como o Citigroup e o Merril Lynch, que lhes adquiriu o crédito “podre” acabou no pre-acertada, como se veria no longo prazo. aviões comerciais lotados com passageiros civis. perderam quase US$ 10 bi cada um no 4º tri- juízo também, ninguém recebeu o dinheiro que O mundo ficou em choque com a violência e a mestre do ano da crise. esperava receber.Os abalos financeiros do século crueldade dos ataques. Como consequência da crise imobiliá-XXI - A crise de 2008 Temendo a retração do consumo, entre ria, os preços dos imóveis caíram e reduziram- Consequências outros temores, claro! – situação que diminui a se também as garantias dos empréstimos. EmO século XXI teve início de maneira turbulen- produção e o investimento e traz a recessão –, suma, as financeiras americanas confiaram de Para as exportações: como os EUA estão entreta e um tanto assustadora. Na virada do século, o Federal Reserve (FED - Banco Central Ame- modo excessivo em clientes que não tinham os maiores consumidores e importadores dotemia-se o “bug do milênio” – um problema nos ricano) diminuiu as taxas de juros e passou a bom histórico de pagamento de dívidas nos últi- mercado global, todo o mundo é afetado. Paísessoftwares de grandes empresas que usavam o incentivar empréstimos e financiamentos para mos anos. que exportam para lá, como o Brasil, passam asistema de dois dígitos para definir o ano; assim, fazer consumidores e empresas gastarem mais. Os clientes inadimplentes passaram a exportar menos.ao virar o ano para “2000”, os computadores Com mais moeda circulando no mercado, maior compor os chamados “subprimes”: clientes de Para as finanças: as Bolsas mundiais, in-indadvertidamente entenderiam que havíamos a liquidez; mas, também, maior a especulação um segmento de renda mais baixa, para quem os cluindo a brasileira, sentiram o baque e tiveramretornado ao ano de “1900”. Clientes de ban- financeira mundial. empréstimos apresentam maior risco de inadim- perdas fortes. Na Europa e na Ásia, os índicescos veriam suas aplicações rendendo juros ne- A partir desta roda financeira, o crédito plência (quando o cliente não cumpre o contra- de ações regionais também expressaram perdas.gativos, credores passariam a ser devedores, e abundou não só nos EUA como no mundo todo. to ou, simplesmente, não paga o que deve). Esseboletos de cobrança para o mês seguinte seriam Empresas hipotecárias, bancos e financeiras segmento é constituído também de mutuários E o Brasil? começaram a emprestar e a financiar pessoas e (pessoas que retiram os empréstimos) que não empreendimentos, cada vez mais. Qualquer um conseguiam facilmente comprovar renda ou que Ao longo de todo o período da crise, falou-se em poderia retirar um empréstimo ou financiar um tinham algum histórico de inadimplência. “blindagem” da economia brasileira. O raciocí- imóvel. Surgiu a figura dos NINJAS (no Inco- Apesar de tudo, o mercado estava tão nio é o de que a demanda de países emergentes, me, no Job, no Assets – sem salário, sem empre- aquecido – ou seja, com crédito sobrando – que principalmente a da China, por matérias-primas go e sem ações) que, por menos confiáveis que o próprio crédito se tornou mais barato. Isso por- (setor em que o Brasil produz de forma abun- pudessem ser, ainda assim conseguiam acesso que, devido aos gastos dos americanos que ban- dante) manteria a economia brasileira aquecida ao crédito! cos e outras instituições financeiras começaram e impediria uma desaceleração maior. O con- Uma das principais fontes de consumo a adquirir das hipotecárias, aumentou a aquisi- sumo interno aquecido, em função da grande eram os imóveis. Consumidores compravam ção dos créditos denominados “podres”, ou seja, quantidade de crédito, ajudaria a contrabalan- casas com dois objetivos: possuir imóvel pró- dos créditos dos clientes subprimes. Para passar çar uma eventual redução das exportações para prio para dele fazer residência, e também rea- os “subprimes” adiante, estes créditos eram mis- os EUA. No plano financeiro, o Brasil encontra- lizar algum investimento com essa aquisição, turados aos de clientes “primes” (os que tinham -se relativamente estável, pois possui volume de já que, por meio do dinheiro de empréstimos, nome limpo na praça). Dessa forma, cada vez reservas internacionais que hoje está próximo de se comprava barato para revender o imóvel por mais empréstimos eram feitos (e incentivados), US$ 200 bilhões, o que ajuda os investidores a maior valor. Tudo isso era fruto da expansão do dando início a uma imensa roda de especulação manterem a confiança na capacidade do país de16 17
  10. 10. Debate Debatehonrar suas dívidas. consequências negativas”. Ao ser comparado com países consi- Um dos problemas é o deslocamentoderados desenvolvidos, como os europeus, o dos fluxos comerciais, que direciona investi-Brasil sai em vantagem. A crise mundial agra- mentos do exterior para o mercado brasileirovou os problemas financeiros de alguns países na tentativa de recuperar as perdas geradas emda União Europeia. Para diminuir os impactos outros mercados. Por exemplo, uma fábrica eu-da crise, os governos ajudaram os setores mais ropeia que tenha filial no Brasil pode gerar lucrofrágeis da economia com pacotes bilionários, aqui e mandar o dinheiro para o exterior. Essamedida que tentou evitar perdas de empregos movimentação é comum e ajuda a salvar ase atenuar os efeitos negativos das turbulências empresas europeias da crise, segundo Ricardono setor financeiro. Com a multiplicação de pa- Tadeu Martins, gerente de pesquisa da Plannercotes de ajuda, a arrecadação destes governos Corretora.diminuiu e eles ficaram ainda mais endividados. A zona do euro pode até atrapalhar a re- O caso da Grécia foi o mais complica- cuperação de diversos países europeus, mas nãodo. O país acumulou um rombo nas suas contas é a grande detonadora da crise no cenário inter-públicas equivalente a 12,7% do PIB (Produto nacional. A Europa foi a última a sair da crise ConceitosInterno Bruto: a soma de todas as riquezas pro- porque não tem a força do mercado brasileiro,duzidas por uma nação). Segundo o professor da que há meses vive a expansão da classe média.Fundação Getúlio Vargas, Antonio Gelis Filho, Para Frederico Turolla, professor do mestrado Desregulamentaçãohá algum tempo a Grécia já apresentava proble- em gestão internacional da Escola Superior demas financeiros: “A Grécia é um país que tem Propaganda e Marketing e sócio da consultoria A desregulamentação é a remoção ou a simplifica- Por exemplo, uma sociedade anônima pode ala-uma economia pouco competitiva se comparada Pesco, o Brasil não está tão ameaçado com a cri- ção de regras e normativas emanadas pelo governo vancar seu patrimônio líquido tomando dinheiroà média dos países da zona do euro, e ela tem se na eurozona: “O Brasil fez o dever de casa e que buscam restringir ou controlar o mercado. A emprestado. Quanto mais ela tomar empréstimos,gastos públicos muito grandes. É um país fre- se tornou protegido. O que vem pela frente não é desregulamentação é defendida por aqueles que de menos capital próprio ela irá precisar. Assim, aquentemente acusado de ser mal gerenciado”. tranquilo, mas não é desesperador”. acreditam que o mercado não necessita de interfe- empresa apresentará uma relação lucros (ou perdas)/ Pelas regras da União Europeia, as dí- A situação do Brasil está mais bem ana- rência de governos, uma vez que possui leis “invi- capital proporcionalmente maior, porque a basevidas públicas dos países membros não podem lisada no texto de Eduardo Lopes Júnior, “Sobre síveis”, que são intrínsecas ao seu funcionamento. será menor.ultrapassar o equivalente a 3% do PIB, e, caso Fraqueza e Fortaleza ou sobre crise e oportunida- Os que defendem a desregulamentação dizem que Uma empresa pode alavancar suas receitas compran-a violação desta regra venha a persistir por dois de”, também publicado nesta Revista. quanto maior a liberdade do mercado, maiores os do ativos fixos. Isso vai alavancar a proporção de cus-anos seguidos, os países poderão até ser expul- ganhos individuais e coletivos. tos fixos em relação aos custos variáveis da empresa,sos do bloco. Países como Espanha, Portugal, e a variação da receita irá resultar da maior variaçãoIrlanda e Itália estão entre os que possuem o Alavancagem nas receitas operacionais, isto é, da variação nas re-maior endividamento, bem acima do limite im- ceitas decorrentes da atividade principal da empresa.posto pela União Europeia, e também entre os Em finanças, alavancagem é o termo geral para Hedge funds frequentemente alavancam seus ativosque têm maior dificuldade de tirar as contas do qualquer ação que tenha por objetivo multiplicar usando derivativos. Um fundo pode, por exemplo,vermelho. a rentabilidade por meio de endividamento. O in- obter ganhos ou perdas sobre o valor de $20 milhões No Brasil, contudo, a crise não ocasio- cremento proporcionado através da alavancagem de óleo cru, depositando apenas $1 milhão comonará os impactos verificados em outras partes também aumenta os riscos da operação e a expo- garantia.do mundo, ainda segundo Gélis. “No Brasil, as sição à insolvência. As formas comuns de conse- Portanto, só existe alavancagem financeira se a em-preocupações se concentram no setor de ex- guir alavancagem são: tomar dinheiro emprestado, presa possuir capital de terceiros em sua estruturaportação e no dólar. Porém, em uma economia comprar ativos fixos e usar derivativos. de capital.mundial que já não está passando pela sua me-lhor fase, o crescimento brasileiro pode sofrer18 19
  11. 11. Artigo Artigo A crise nos países europeus -contexto e causas- Graziela R. Camargo A crise da dívida dos países europeus A estrutura da Eurozona como uma faz parte de uma contínua crise que união monetária (euro como moeda comum), tornou difícil, ou mesmo impossível sem união fiscal (por exemplo: diferentes taxas para alguns países da zona do euro, e regras para o setor público de pensão), contri- refinanciar suas dívidas governamentais sem a buiu para a crise e prejudicou a habilidade dos assistência de terceiros. líderes da União Europeia de responder a essa Desde 2009, começou a crescer entre situação. investidores o temor de que haveria um endi- Os bancos europeus devem um valor vidamento dos países europeus como resultado significativo de suas dívidas soberanas, valores do aumento dos níveis de débito, tanto privados tão altos que preocupações relativas à solvência quanto governamentais. E o temor se justificou: do sistema bancário e dos governos estão refor- houve, realmente, um “downgrading” (rebaixa- çando negativamente a percepção sobre a possi- mento) das dívidas governamentais dos países bilidade de solução da crise. europeus que provocou uma crise cujas causas Preocupações intensificaram-se de variaram de país para país. 2010 em diante. Neste ano, os ministros das Em diversas economias europeias, dé- finanças dos países europeus reuniram-se para bitos privados oriundos da bolha imobiliária fo- aprovar um pacote de resgate de €750 bilhões ram transferidos para dívidas soberanas como com o objetivo de assegurar a estabilidade fi- resultado dos socorros ao sistema financeiro e nanceira da Europa, tendo, para isso, criado o das respostas dos governos à desaceleração eco- Fundo Europeu de Estabilidade Financeira. nômica pós-bolha. Na Grécia, setores públicos Em outubro de 2011 e fevereiro de insustentáveis, como o dos pensionistas, contri- 2012, os líderes da Eurozona concordaram em buíram para o aumento da crise. estabelecer mais medidas para evitar o colapso20 21
  12. 12. Artigo Artigodas economias-membro. Este acordo incluiu porque levou especialistas à especulação contí- e os níveis de dívida dissolva-se a crise que ocasionou importante im-uma cláusula que garantia aos credores privados nua de um rompimento possível da zona euro. Tais políticas neokeynesianas têm sido pacto na política da União Europeia, causandoaceitarem um abate da dívida grega em 53.5%. No entanto, a partir de meados de novembro de criticadas por diferentes economistas, muitos mudanças de poder em vários países europeus,Para aumentar a confiança na Europa, líderes da 2011, o euro acabou sendo negociado de forma dos quais pediram uma nova estratégia de cres- mais notadamente na Grécia, Irlanda, Itália,União Europeia também concordaram em criar ligeiramente superior ao mês anterior, antes de cimento com base em investimentos públicos, Portugal, Espanha e França.o Compacto Fiscal Europeu, incluindo o com- perder algum terreno nos meses seguintes. financiados por taxas favoráveis ao crescimento. Muito se falou em fim da zona do euro,promisso de cada país participante de introduzir Três países foram significativamente Essas taxas seriam impostas sobre terras, pro- porém, este resultado é o mais improvável deuma alteração orçamental equilibrada. afetados – Grécia, Irlanda e Portugal. Suas dí- priedades, riqueza e instituições financeiras e todos, pois o aspecto político da formação su- Formuladores de política europeus vidas, à época, somavam coletivamente 6% do com base em uma nova taxa a ser proposta pela pranacional tem papel fundamental na estru-também propuseram uma maior integração da produto interno bruto. Em junho de 2012, a União Europeia para incidir sobre as transações turação das relações de poder na Europa e nogestão bancária com o euro, no que se refere à Espanha também passou a ser fonte de preo- financeiras. mundo.quantidade de depósito compulsório, à supervi- cupação, quando o aumento das taxas de juros Líderes da União Europeia concorda-são bancária e às medidas conjuntas para a re- afetou a habilidade de os espanhóis acessarem ram em aumentar moderadamente os fundos docapitalização ou a resolução de bancos falidos. os mercados de capital, levando o país a um res- Banco de Investimentos europeus para iniciar O Banco Central Europeu tomou me- gate dos bancos e à definição de outras medidas. os projetos de infraestrutura e aumentar os em-didas para manter os fluxos monetários entre Para tentar resolver os problemas mais profun- préstimos ao setor privado. Além disso, deman-bancos europeus ao diminuir as taxas de juros e dos desses desequilíbrios econômicos, países da dou-se das economias mais frágeis da Uniãoao prover empréstimos mais baratos a países em União Europeia concordaram em adotar o Pac- Europeia a restauração da competitividade porcrise. to Euro Mais, composto de reformas políticas meio da desvalorização interna de suas moedas Embora a dívida soberana tenha au- para melhorar a solidez fiscal e a competitivida- e dos custos relativos de produção.mentado substancialmente em apenas alguns de. Isso tem obrigado os países mais fracos Espera-se que essas medidas diminuampoucos países da zona euro, a crise tornou-se a elaborar medidas de austeridade cada vez o atual desequilíbrio nas contas correntes entreum problema para aquela área como um todo, maiores para diminuir os deficits nacionais os membros da eurozona e que, gradualmente, Referência: The Economist22 23
  13. 13. Artigo Artigo Sobre fraqueza e fortaleza ou sobre crise e oportunidade Eduardo Monteiro Lopes Jr. creditícia – foram interpretadas por coalizões gilidade das instituições políticas e o enorme pró-mercado como irresponsabilidades públi- distanciamento entre elas e as instituições do O repertório diário cas, incompetências político-administrativas, mercado. A crise, que começou a partir da in- prodigalidade orçamentária, prejudicial exu- capacidade sistêmica de atribuir ordem e esta- A berância das políticas do “welfare state”. Estas bilidade ao desenvolvimento capitalista em sua democracia, afirmam os compêndios consequências, provindas de um protoneosso- fase globalizante, aprofundou-se mais ainda, de história geral, nasceu na Grécia. cialismo antiliberal, foram inevitáveis. Não que deslocando-se do segmento das finanças para E lá também morreu. As manifesta- essa realidade não exista de fato, mas está longe o da economia real, de um continente a outro, ções maciças do povo grego foram de ser a principal causa da atual crise. De qual- até minar a crença nos próprios valores do li- qualificadas por seus representantes políticos quer forma, revitaliza-se a velha solução para as beralismo político e agravar a inoperância dos como movimentos desprovidos de legitimida- intermitentes crises do sistema capitalista: a so- governos democraticamente eleitos. A fragiliza- de e promovidos por uma plebe em estado de cialização das perdas. ção da política pelo mercado blindou a econo- histeria coletiva, incapaz de compreender a ra- Além da óbvia ingerência política dos mia com as intervenções estatais e ocasionou cionalidade indelével das forças do mercado. As oligopolizados interesses da finança global, a a impossibilidade da autoestabilização do mer- irresponsabilidades dos conglomerados finan- crise financeira internacional – agora a ameaçar cado pelo próprio mercado, o que demonstrou ceiros – por suas autoconcedida desregulamen- os próprios fundamentos macroeconômicos da a necessidade de intervenções públicas. A fra- tação, irrestrita alavancagem e insana expansão União Europeia – mostrou claramente a fra- queza do Estado, contudo, inviabilizou polí-24 25
  14. 14. Artigo Artigoticas governamentais e intergovernamentais, culos estruturais ao crescimento sustentado, ou se, a economia brasileira chegou ao quase limite juros, elevando o custo da rolagem da dívida pú-agravando a crise. Por consequência, estratégias seja, sempre preservou com inclusão social as do pleno emprego, gerando, inclusive, pressões blica e da obtenção de crédito pelas empresas eanticíclicas recessivas, sem respaldo político, barreiras à expansão produtiva por meio da am- inflacionárias, estas resultantes da combinação famílias. Dentro dessa perspectiva, quem pro-enrijeceram políticas públicas de estabilização. pliação dos mercados de consumo e de trabalho. do aumento da demanda agregada e das limi- move o chamado “crowding out” (deslocamentoA expansão sistêmica da crise, por sua vez, de- Não melhoraremos, mas também não piorare- tações à expansão produtiva, especialmente da do crédito disponível ao custeio do estado) sãosacreditou ainda mais as instituições políticas, mos muito nossa situação econômica. O fato é mentalidade rentista de nossos (pseudo)em- os próprios detentores do fator “capital”. As cau-revitalizando o credo neoliberal. O ciclo vicioso que deixaremos de crescer. preendedores. Agora não há argumentos eco- sas da crise podem ser interpretadas, inclusive,se renova. Os efeitos da crise sobre o mercado de nomicistas razoáveis a defender a manutenção como uma espécie de contestação (não legal) ao trabalho estão longe de ser catastróficos. De da taxa de juros básica da economia brasileira monopólio do Estado de emitir moeda e esta-O tamanho do tombo 1995 a 2010, o incremento médio da força de em patamares incivilizados. Inclusive, talvez até belecer seu valor, isto é, um tipo de oposição às trabalho no Brasil foi de pouco mais de 2% ao fiquem mais claros os entraves recíprocos entre suas prerrogativas de determinar a liquidez naAgora se indaga quando a recessão, já interna- ano, enquanto no triênio mais turbulento da distribuição de renda (= mercado consumidor economia. É que a banca internacional passoucionalizada, atingirá o Brasil. Entretanto, mais crise (2008-2010) houve um crescimento de ampliado) e cultura oligopolística de nossos mer- a ter o poder de criar títulos de capital de altaimportante do que o exercício corriqueiro de 1,72% da população economicamente ativa, cados. liquidez, e baratos, sem a devida coordenaçãofuturologia (quando?) seria a tentativa de saber isso em um contexto de manutenção das taxas com as políticas macroeconômicas monetárias.“como” a crise afetará o desenvolvimento brasi- de crescimento demográfico em torno de 1% O tamanho de nossos erros Mas isso é uma digressão.leiro para, a partir daí, começar-se a pensar em ao ano. Ademais, entre 2006 e 2008, houve Não é apenas o “spread” bancário (custo dorespostas adequadas. Iniciemos, pois, com um uma contínua redução do desemprego total, de A cultura rentista dos capitalistas brasileiros, capital, do crédito) que mina a expansão produ-pouco de senso comum: “Quanto maior o su- 15,9% e, após o fatídico ano de 2008, o aumento além de engendrar uma estrutura de mercado tiva brasileira e que, por ironia do destino, tornajeito, maior o tombo”. Este ditado popular nos do desemprego chegou a 16,9% (dados do Ban- oligopolizada, sempre estimulou a eficiência os efeitos da desaceleração econômica bem me-sugere que é razoável afirmar que os efeitos re- co Mundial). No agregado, a crise gerou 1% de subótima do fator de produção menos acessível nos prejudiciais nesse período de crise mundial.cessivos da crise internacional serão tão preju- incremento do desemprego em 2009. a nossa economia e, hoje, em escassez global A inabilidade distributiva de nossa economiadiciais quanto maior vier a ser a desaceleração O ganho de renda dos trabalhadores (em função das altas taxas de risco) – o capital. cumulada, com a tendência oligopolizante deeconômica brasileira. Portanto, saber o “como manteve-se, apesar da desaceleração resul- A fase de acumulação primitiva do capital na- nosso sistema produtivo limita tanto a expansãoserá” pressupõe saber o “como foi”. tante de fatores extraeconômicos em 2011 e cional – mediante a superexploração da força de dos mercados quanto os efeitos recessivos da Sempre fomos pequenos, por isso nosso 2012. Um desses fatores diz respeito ao adia- trabalho, seja por meio da escravidão, seja pelo crise. Como nosso mercado consumidor nuncatombo não trará mais do que alguns arranhões. mento da entrada no mercado de trabalho por histórico achatamento da base salarial do traba- foi pujante, em virtude de nossa “africana” dis-De fato, entre 1995 e 2011, o Brasil teve um jovens que ampliaram o tempo de dedicação à lho livre – nunca foi superada, o que determi- tribuição de renda, a demanda por bens de altocrescimento médio de seu PIB na ordem de educação. Embora não possamos afirmar que nou: a manutenção da alta intensividade da mão valor agregado (bens duráveis e semiduráveis)3,15%, abaixo do crescimento apresentado pe- essa extensão educacional venha a se traduzir de obra na economia, o baixo teor tecnológico sempre esteve restrita a uma minguada classelas nações em desenvolvimento da América La- em trabalhadores mais qualificados, é certo que de nossas empresas, a dependência a mercados afluente, cuja propensão marginal ao consumotina e Caribe (3,22%) – dados da CEPAL (Co- tal externalidade fez reduzir a oferta de mão de e a bens de baixo valor agregado e a exploração limitou-se ou ao acesso a bens importados, oumissão Econômica para a América Latina) que obra historicamente abundante, bem como fez prestamista da dívida pública. A mentalidade a uma produção nacional sem perspectiva dedemonstram pífio incremento no crescimento sustentar a renda salarial deste grupo. Além das prestamista majora o custo do capital na medida ampliação maciça. Mesmo no contexto da as-médio do PIB da América Latina em relação mudanças no perfil da mão de obra, a elevação em que eleva o risco das operações de crédito a censão da classe “C” a um novo patamar deao índice médio mundial (2,81%), medido pelo do salário mínimo como política nacional de re- fim de torná-lo altamente dependente do endi- consumo, a indústria, em geral, demonstrou suaBanco Mundial. Isto posto, no quesito cresci- distribuição da renda agregada tornou o vetusto vidamento constante daquele agente econômico limitação em elevar a oferta e, com isso, mante-mento econômico e, por conseguinte, no que se costume de (sub)emprego de trabalhadores do- que detém o monopólio legal da emissão de mo- ve níveis de preço relativamente altos. Sem umrefere aos efeitos da recessão mundial, o Brasil mésticos, economicamente insustentável para eda de curso forçado e da estipulação de seu va- vasto mercado consumidor para incentivar a ex-apresenta “vantagens” por seu atraso histórico. A muitos lares e, para outros, um incentivo à for- lor pela taxa de juros básica: o Estado. Ademais, pansão produtiva, as empresas preferem manterdesaceleração econômica mundial não provoca- malização da relação empregatícia. a pressão emissionista sobre o governo para ad- suas restritas fatias de mercado e sua taxa derá uma desaceleração de efeitos devastadores na Não corremos o risco de superprodução, ministrar seu endividamento promove inflação, lucro fundada na relativa inelasticidade, tantoeconomia brasileira, que sempre manteve obstá- pois na quadra imediatamente anterior à da cri- o que, por sua vez, exige nova majoração dos da demanda quanto da oferta. Com o passar do26 27
  15. 15. Artigo Artigotempo, as empresas se acostumam a funcionar Mas crise também é oportunidade – pelo menos com o que já possuímos; inverter a lógica sistê- política de preços máximos sem subvenções oudentro desses mercados restritos e cativos em em chinês, em que crise e oportunidade são re- mica da mediocridade sem subverter a ordem subsídios seria uma opção viável e barata. Dessaque a “percepção de valor” (preços relativos) é presentadas pelo mesmo ideograma. Para debe- política; mudar as instituições para transformar forma, as tarifas externas poderiam ser automa-distorcida. Daí a influência recíproca entre ofer- lar a crise, sejamos, pois, oportunistas. Sejamos a cultura econômica que nos relega ao atraso. ticamente reduzidas quando os preços superas-ta agregada limitada e mercado consumidor res- oportunistas, porém, sem sermos imediatistas. Nossa estrutura tributária incentiva a sem um limite máximo, tornando-os prejudi-trito. Isenções fiscais apenas concentram renda, prin- ineficiência, tanto do Poder Público quanto das ciais à renda dos consumidores ou à eficiência A manutenção dos níveis de produti- cipalmente em uma estrutura produtiva oligo- empresas. Reformá-la, porém, pressupõe novas produtiva dos mercados. Assim, os empresáriosvidade das empresas abaixo da quantidade efi- polística como a nossa. Elevação dos tributos políticas distributivas para as receitas dos entes veriam um limite à transferência de custos ope-ciente e acima do nível de preços de equilíbrio sobre a importação transfere a renda do consu- federados. A solução de tal dilema seria a cons- racionais aos preços, isto é, aos consumidores.apenas reforça as vantagens setoriais da estru- midor para as empresas e promove a ineficiência tituição de um sistema de válvulas de compen- Por meio desse mecanismo, transformar-se-ia,tura oligopólica e reduz ainda mais o poder de produtiva. Políticas econômicas recessivas não sação que diluam os impactos da redução pro- além do mais, a política de comércio exterior emcompra do mercado consumidor. Esse contexto promovem o crescimento, assim como o aumen- gressiva dos tributos sobre as receitas públicas. política interna de contenção inflacionária semlimita o crescimento econômico e, por ironia do to dos gastos de custeio do governo somente re- Que tal a criação de um fundo de com- custo ou ônus político (políticas anticíclicas).destino, ocasiona sua desaceleração. forçam a ineficiência da máquina pública. Não pensação entre IPI e ICMS? Como o ICMS é Poderíamos sugerir, ainda, uma políticaNossa fraqueza é nossa fortaleza. existem soluções simples, mas sim soluções tó- atualmente embutido no preço do produto, ter- de aumento da renda das famílias (consumido- picas politicamente viáveis. Temos de fazer mais -se-ia que igualá-lo ao IPI (imposto cobrado por res), seja por meio da criação de faixas adicionaisO tamanho de nosso futuro fora do preço) para tornar tais impostos recipro- de contribuição para o IR – de maneira a distri- camente compensáveis. Desse modo, as políti- buir de forma mais justa essa carga tributária –, cas tributárias dos entes federados convergiriam seja por intermédio de restituições maiores para gradualmente (termo importantíssimo para a contribuintes menores, estas custeadas pelo Política): sempre que se alterassem as alíquotas término das isenções aos custos de educação e do IPI ou do ICMS, deveria haver uma acomo- saúde particulares, ou aos rentistas imobiliários. dação recíproca entre União, Estados e Muni- Contudo, isso se traduziria em mais pressões cípios, uma vez que todos teriam de redistribuir políticas e financeiras sobre os governos federa- as perdas de receita participativa que há nesses dos. Devagar com o andor. impostos. Dessa forma, a convergência traria, Somos o que esperamos para nosso fu- gradualmente, maior previsibilidade para as em- turo. Com os olhos no porvir e os pés no presen- presas e reduziria seus custos tributários. te, definimos nosso caminho em um mundo em O ICMS e o IPI assim “sincronizados” crise. Tamanho é documento sim, porém é tam- poderiam servir à compensação do famigerado bém uma percepção subjetiva. O tamanho do “Custo Brasil”, caso fossem cobrados após a de- nosso futuro dependerá de nossa capacidade de dução dos custos operacionais da Receita Ope- imaginá-lo agora; dependerá também da espe- racional Bruta, isto é, após os descontos do ônus rança transformada em força; uma força capaz da ineficiência de nossos portos, estradas, ferro- de transpor a crise, as dificuldades do presente e vias, crédito (spread), etc. O Poder Público seria as nossas fraquezas. A oportunidade faz-se nos- assim punido com a redução de sua receita tri- sa fortaleza. butária. Entretanto, como não se pode criar um incentivo à ineficiência empresarial, que não se esforçará a cortar custos, faz-se indispensável a adaptação da política de comércio exterior como Se você quiser trocar ideias, ferramenta de política de concorrência e, por- enviar críticas ou sugestões ao tanto, de eficiência produtiva. Mas como? autor, escreva para: Conectar as tarifas alfandegárias a uma eduardo.ml.pol@gmail.com 29
  16. 16. Capa Capa ce divulgado pelo IBGE demonstrou um cres- vidade. Ganhos de produtividade que sejam ro- cimento de apenas 0,1% entre janeiro e março; bustos o bastante para compensar uma série de um crescimento fraco que apontava um proces- excessos na remuneração dos chamados "ativos" so de desaceleração da economia em 2012. de economia, fato que se observou principal- No 2º trimestre de 2012, a economia mente na última década. É como se nós dissés- brasileira voltou a cair, pois as medidas do go- semos que valores e preços subiram, mas que as verno (redução de juros e do IPI para alguns irresponsabilidades financeiras foram maiores setores da economia) não resultaram no cres- do que o aumento da produtividade. No limi- cimento econômico esperado: nos últimos doze te, a produtividade é o que ancora fundamen- meses, o PIB brasileiro cresceu apenas 1,2%. talmente os valores da economia. Então, a pri- Para onde caminha O que esperar para 2013? Como será o meira dimensão indica que há menos inovação Brasil do futuro? Como vencer os desafios eco- e, consequentemente, menor produtividade em nômicos e sociais de uma nação que ocupa a 7ª escala global do que deveria haver. A segunda o Brasil frente à posição entre as maiores do mundo e a 84ª no dimensão da crise também é muito importante. ranking de desenvolvimento humano da ONU? Ela diz respeito àquilo que eu gosto de chamar Para entender um pouco mais sobre o assunto, de "incontinência administrativa" em relação economia mundial? a Revista Ulysses convidou para uma entrevista aos grandes bancos, às grandes seguradoras, o diretor do BRICLab da Columbia University, aos grandes agentes financeiros do mundo. Vou em Nova York, o doutor e mestre em Sociologia explicar melhor: a incontinência administrativa das Relações Internacionais, Marcos Troyjo. surge da incapacidade dos bancos centrais e das atiana Souza Segundo o professor, não dá para ser o autoridades monetárias em colocar molduras no Brasil do futuro com baixa produtividade e com comportamento desses atores financeiros. Re- os outros países dependendo apenas de nossas sultado: a irresponsabilidade financeira na cria- commodities. Para ele, o futuro do Brasil come- ção de produtos sem nenhuma vinculação com N os últimos anos, o Brasil ocupou ça de fato apenas no dia 1º de janeiro de 2015. o mundo real acabou agravando aquilo que nós lugar de destaque nos noticiários “O país precisa de um pacto estratégico. Para poderíamos chamar de "crise". Esta, pela etimo- nacionais e internacionais, em es- que isso possa acontecer, é necessário um con- logia grega, significa um momento de julgamen- pecial na área econômica, pois vi- senso em relação ao papel que o Brasil quer ter to, um parar para pensar. Eu também acho que nha decolando para alcançar céus cada vez mais no mundo, não somente aquilo que queremos crise é algo inerente às economias de mercado, altos. Mas, no segundo semestre do ano de para o mundo, mas o que queremos do mun- ao jogo de oferta e demanda, e ao momento do 2012, o país aterrissou e passou a ouvir do. Eu tenho a impressão de que nós não temos capitalismo que hoje nós estamos percebendo críticas pela constante desacele- essa noção muito clara”, afirmou. não apenas no Brasil, mas no mundo todo. Na ração econômica experimentada realidade, nós estamos vivendo uma espécie de nos últimos meses. Um cenário Nesta edição da Revista Ulysses, estamos transição. Eu gosto muito de uma definição de apático para uma nação que havia tratando do tema Economia, em especial crise que é atribuída ao Antonio Gramsci: “crise crescido no ano de 2010, chegando a sobre a crise financeira e econômica no é o momento em que aquilo que é velho ainda 7,5% do Produto Interno Bruto (PIB), mundo e no Brasil. Como o senhor enxer- não morreu. E aquilo que é novo ainda não nas- e que havia apresentado média de cres- ga essa crise hoje? ceu”. cimento de 4,5% no período de 2004 a 2010. Marcos Troyjo – Ela é, sobretudo, uma crise de E como o senhor enxerga a crise? Em 2011, o PIB atingiu apenas 2,7%, duas dimensões. A primeira dimensão é a mais despencando em relação aos anos anterio- fundamental: o mundo vem carecendo de ino- Marcos Troyjo – Nós, talvez, tenhamos de en- res e, no primeiro trimestre de 2012, o índi- vações capazes de gerar aumentos de produti- xergar a crise mais como uma fase de transição30 31
  17. 17. Capa Capa do que como parâmetros macroeconômicos essenciais, como ou o senhor ainda acha que os emergen- do Rutherford B. Hayes; e a monarca britânica, uma situa- responsabilidade fiscal, metas de inflação e su- tes estão sendo muito influenciados pelas era a rainha Vitória. E, quando isso acontecer ção de gran- perávit primário. Muitos ainda agregam a esse grandes potências, por exemplo, pelo G8? com a China, nós vamos ter outro fenômeno: des ameaças tripé a opção pelo câmbio flutuante. Ou seja, o Qual a sua visão em relação a isso? a maior economia do mundo, que será a da ao sistema Brasil macroeconomicamente estava muito bem China, ainda assim será uma economia pobre, econômico preparado para fazer frente às ondas negativas Marcos Troyjo – Eu sou estudioso de relações porque quando ela ultrapassar os EUA, ela vai global. Ali- que vinham de fora. Agora, a crise já está num internacionais e vou falar um pouco conceitual- ter uma renda per capita de em torno de 12 mil ás, acho que segundo momento, que tem menos a ver com os mente a partir dessa área. Creio que existe uma dólares por habitante, que é mais ou menos a já estivemos vírus financeiros e mais com a questão da pro- diferença entre sistema internacional e ordem renda per capita que o Brasil tem hoje. O Brasil, próximos a dutividade e da inovação. E, neste caso, o Brasil internacional. O sistema internacional é o con- quer queira, quer não, ainda é um país pobre. um perigo é muito vulnerável. junto daquelas instituições que foram construí- É um país de renda média relativamente baixa. maior em das de modo a permitir mais governança global. Agora, sem dúvida alguma, a parte importante 2008 – com a Por que o Brasil é vulnerável em produti- Quais são estas instituições? O Fundo Mone- da ordem econômica internacional está migran-eclosão dos aspectos imobiliários e financeiros vidade e inovação? tário Internacional, o Banco Mundial, a Orga- do para os países ditos emergentes. Vamos a al-da crise, sobretudo nos EUA e na Europa – e, nização das Nações Unidas e a Organizaçãono ano passado – com o grande temor que girou Marcos Troyjo – Porque a produtividade brasi- Mundial do Comércio. Acho que no sistemaem torno dos efeitos colaterais e multiplicado- leira nos últimos 25 anos tem-se expandido de internacional, nós ainda estamos vivendo umares das crises de dívidas soberanas em países uma maneira muito mais tímida se comparada situação que é muito parecida na sua arquitetu-como a Grécia, Espanha e até mesmo a Itália. à situação de alguns de nossos competidores ra com o desenho criado na segunda metade dosAcho que um pouco disso já passou e o panora- como a China, o Chile e a Coreia do Sul, ou anos 40. Não houve uma grande atualização dasma parece ser um pouco melhor para 2013. No seja, nós não temos expandido a produtividade instituições desde lá. O diretor-geral do Fundocaso do Brasil, nos últimos quatro anos, fomos na mesma proporção que os mercados emergen- Monetário Internacional, por via de regra, conti-menos afetados pela crise por duas razões. A pri- tes mais dinâmicos. Talvez este seja o grande nua sendo um europeu; o diretor-geral do Bancomeira se relaciona ao fato de o perfil externo da desafio brasileiro; caso contrário, a continuada Mundial é sempre um americano; o Conselhoeconomia brasileira ser razoavelmente pequeno. expansão da economia brasileira vai depender de Segurança da ONU tem os mesmos cincoSe nós somarmos tudo aquilo que o Brasil im- de dois fatores: do continuado aumento do ape- membros permanentes desde há muito tempo.porta com o que ele exporta, não chega a 20% do tite do mercado interno pelo consumo – acho Ou seja, não há muita atualização no sistemanosso Produto Interno Bruto (PIB). Ou seja, nós que hoje existe o consenso de que nós já es- internacional. Contudo, do ponto de vista da or-somos um ator pequeno no cenário do comér- tamos chegando muito perto de um limite de dem internacional e, mais especificamente dacio internacional e, de maneira proporcional, o crescimento baseado no aumento do consumo ordem econômica internacional, que diz respei-comércio exterior é componente razoavelmente do mercado interno – e da demanda externa to aos pesos relativos de cada um dos países, aílimitado de toda nossa atividade econômica. Por pelos produtos em que o Brasil tem vantagem nós temos uma mudança brutal. Veja o caso davia de regra, privilegiamos muito mais o merca- comparativa, como é o caso do minério de ferro, China. Dez anos atrás, a China tinha uma eco-do interno do que o mercado externo. A segun- dos minerais, dos produtos agrícolas e de alguns nomia do tamanho da economia da Itália. Hoje,da razão para sermos menos acometidos pela produtos de proteína animal. Ou seja, não dá a China tem uma economia de 7,6 trilhões decrise mundial é que ela eclodiu num instante para ser o Brasil do futuro com baixa produtivi- dólares. Se a China continuar a crescer com nú-em que as contas macroeconômicas brasileiras dade e com outros países dependendo apenas meros entre 7% e 9% nos próximos dez anos, elaestavam em ordem, ao contrário do que ocor- de nossas commodities. vai ultrapassar os EUA como maior economia doreu em outros momentos históricos. O Brasil mundo, o que é uma coisa rara na história. A úl-tem sustentado uma grande reserva cambial, Quando fala sobre as potências emer- tima vez que isso aconteceu foi em 1871, quan-uma baixa relação entre dívida externa e PIB e gentes, o senhor identifica de fato uma do os EUA ultrapassaram o Reino Unido. Parauma boa relação entre dívida externa e exporta- mudança nesse locus, isto é, no papel você ter uma ideia de quanto tempo faz, naquelações. Inclusive, recentemente, o Brasil adotou decisório dessas potências emergentes, época o presidente americano era o desconheci-32 33

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