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A cidade modernista uma critica de bsb holston
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  1. 1. ISwmÉZS : :na . .x2 . C 'É OIAHOU OJNUM<É _owuaunkh mãe: : sã, m umantm se acaba RED «BWNÊMQOÉ WQTQND _N 3 ZOhMNOÊ MWÊYN _asa namo ma;
  2. 2. Ill. . os DIREITOS A CIDADE . CIDADES DE REBELIÃO A rua em Ouro Preto: propriedade privada e exposição pública 134 A inversão modernista . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. 137 A transformação do discurso cívico: o novo âmbito público de Brasilia . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. 141 TIPoLooIAs DE ORDEM, TRABALHO E MORADIA . ... ... ... ... ... .. . . 150 0 zoneamento das cidades: uma tipologia de forma e função 151 Os setores de trabalho no Eixo Monumental . . 158 A solução da superquadra . ... ... ... ... ... ... ... .. .. 170 A planta do apartamento. .. 185 A fachada dos edificios . 191 A RECUPERAÇÃO DA HISTÓRIA . 199 201 Povoando uma idéia: incorporação diferenciada O recrutamento dos pioneiros. Discursos de participação: a nação reinventada. O mercado de trabalho . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. Recrutamento . ... ... ... ... ... ... . . . Direitos, privilégios e poderes . Dos interesses a ação . 207 . 217 ' 22s . 254 . 257 A periferia ilegal . . 259 A periferia legal . . 273 Organização politico-administram o cluna de tranquilidade 274 Espaco e sociedade: o predomínio dos funcionários públicos 279 . o ABRASILEIRAMENTO DE BRASILIA . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. . . 289 A periferia no tempo e no espaço. A favela de Vila Chaparral . ... ... .. Rua Central, Sobradinho. A cidade familiarizada Observações finais. . . . 295 . 299 308 . 313 NoTAs . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... . . . . 319 BIBLIOGRAFIA . ... ... ... . . . 341 ILUSTRAÇÕES E TABELAS 349 INDICE REMISSIVO . ... .. . . . 353 PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA No inicio dos anos 80, quando comecei a planejar meu primeiro tra- balho de campo, era raro encontrar antropólogos americanos estudando a sociedade moderna. Esta situação revelava um problema de perspecti- va que eu queria reformular através da pesquisa que resultou neste livro. Deixei de lado meu treinamento para uma tese de doutorado em socieda- des tribais - sobre aborlgines australianos, para ser exato - que havia recebido nos primeiros anos de pós-graduação. Indo contra a tendência central da disciplina nos Estados Unidos, conclui que o futuro estava no desenvolvimento de uma antropologia da sociedade moderna. À medida que definia este projeto, o Brasil - e sua extraordinária modernidade, tão exuberante e perversa - atraiu-me. Fui estudar Brasilia como exem- plo de um processo moderno de construção nacional e do próprio mo- dernismo. ~ No inicio de meus dois anos de trabalho de campo em Brasilia, eu me indagava não apenas como um antropólogo deveria estudar o moder- nismo, mas também o que o modernismo teria a renovar na antropolo- gia. Enquanto deixava essas questões reclprocas se provocarem no desen- I rolar da pesquisa, Brasília acabou cristalizando para mim um paradigma! dimgdemidag: particularmente importante: a idéia de que governos na? cionais podem mudar a sociedade e manobrar o social através do imagi¡ nário de um futuro alternativo. Brasilia também colocou em foco o dile- ma inevitável desses projetos de modernidade, ou seja, que os paradoxos da prática da construção desse futuro subvertem suas premissas utópi- cas. Ao investigar esse dilema, dois outros problemas emergiram. De um lado, ficou claro que fatores utópicos não poderiam ser eliminados do planejamento, do imaginário do Estado, sem condena-los ao aprisiona- mento às condições existentes. Mas, de outro lado, se a utopia parece le- var à perversão ou a desconexão, como construir uma imagem de futuro emergente sem impor uma teleologia que descarna o presente? 3
  3. 3. Se a etnografia de Brasília fornece pistas para pensar essa grande pro- blemática modema, também impõe a antropologia um desafio básico: co- mo criar uma estratégia de pesquisa que gere um conhecimento detalha- do das experiências sociais de mudança - o tipo de conhecimento que deu renome à antropologia - sem reduzir a mudança a um exemplo lo- calizado e assim desconsiderar as condições mais globais que a motivaram? Responder a esta questão significa defender um novo tipo de antropolo- gia no estudo do mundo moderno, uma antropologia que não descarta nem dissolve as tensões entre futuros imaginados e condições existentes, como quase sempre acontece quando se segue o impulso de construir mo- delos explicativos coerentes. A antropologia permite escapar desta arma- dilha da coerência quando expõe e investiga as tensões através da etno- grafia, que é seu registro crítico. A antropologia, assim encarada, pode se tornar indispensável a planejadores de todos os matizes na formulação de seus modelos, pois demonstra que, quando ignorados ou mal- entendidos, esses processos e tensões das práticas sociais e históricas atro- pelam seus planos e subvertem suas politicas. Apesar de ser um estudo de caso, este livro tem o propósito mais am- plo de sugerir algumas das dimensões etnográficas e teóricas de uma an- tropologia da sociedade moderna no contexto de uma das suas principais formas políticas, o Estado-nação. Abordo esse tema a partir de duas pers- pectivas. De um lado, examine as tentativas de autoridades politicas mo- demas de criar e legitimar novas formas para a esfera pública, com novos sujeitos e subjetividades. Para tanto, privilegia os instmmentos e iniciati- vas - como arquitetura, planejamento urbano, administração burocrática, formas de propriedade, políticas de terra e códigos legais - por meio dos quais essas autoridades procuram forjar novas formas de associações co- letivas e hábitos pessoais; por meio dos quais, em outras palavras, ten- tam impulsionar suas sociedades para um futuro modemo - pós-colonial, democrático ou socialista, conforme o caso -, o que é sempre uma com- plexa orquestração de intenções. De outro lado, examina como os pro- cessos sociais intencionais e não-intencionais assim gerados inevitavelmente transformam os planos originais. lnvestigo também como as mobiliza- ções locais da sociedade de massas - seus movimentos sociais, reivindi- cações politicas, estética, consumismo e diferenças culturais - fortalecem, desencaminham, parodiam e pervertem essas agendas de construção na- cional. No entanto, foi impossível incluir no livro todas as contra-forInu- lações às agendas dos planejadores estatais que investiguei. Especifica- mente, reservei para outro estudo minha pesquisa sobre a extraordinária imaginação religiosa em Brasilia. Além disso, não suponho que A cidade modernista consiga esgotar todas as indicações que sugere para uma an- tropologia da modernidade. Mas gosto de pensar que toquei em preocu- pações centrais não só para o desenvolvimento deste projeto, mas tam- 4 bém para o planejamento de futuros altemativos, tanto americanos quanto brasileiros. Se essas preocupações determinaram o público - antes de mais na- da um público americano - para quem originalmente escrevi este livro, sua tradução para leitores brasileiros coloca-o num novo contexto inte- lectual e emocional. Digo emocional porque o livro confronta muitos ico- nes e mitologias do Estado brasileiro, além de muitas pessoas que se de- dicaram à sua construção, com as distopias do desenvolvimento de Brasí- lia. No entanto, ao revisar a tradução não me senti tentado a emudecer as criticas on revisar as conclusões, porque tentei argumentar com um pro- fundo senso de respeito por aqueles que contribuiram para o projeto de Brasília, especialmente os candangos. Mas o respeito não exclui a possi- bilidade de ser critico. Rejeito o moralismo que considera inapropriada a antropologia criticar os povos que estuda, com o argumento de que isso seria uma violação da relação de confiança na qual partes do trabalho de campo se baseia. Ao contrário, trabalhei para repensar a noção de crf- tica aplicável à etnografia. Espero que esta noção de critica etnográfica seja entendida não como pessoal ou dogmática, mas como o resultado de uma análise substantiva do próprio caso - como uma critica que pro- cede das premissas e paradoxos do projeto de Brasília, e do modo como este associa utopia e história. Ao revisar a tradução, lamentei a inevitável perda de alguns jogos de sedução com palavras, da ironia que se constrói numa frase moldada de maneira sutil, e que raramente sobrevive à tradução. Mas, ao mesmo tempo, também fiquei admirado com a competência e paciência do meu tradutor, Marcelo Coelho, que como um alquimista conseguiu transfor- mar meu inglês, que por vezes se torna denso' demais, num português pre- ciso e elegante. Tentei eliminar da tradução trechos que seriam óbvios para o leitor brasileiro, como informações sobre a localização de Brasilia ou o significado do termo brincadeira. Resisti ao impulso de atualizar da- dos, porque eles em geral sustentam argumentos que considero ainda vá- lidos e que sugerem bastante bem a direção do desenvolvimento subse- qüente de Brasília. Também não editei os agradecimentos originais, de modo a reiterar a importância para o livro daqueles mencionados. Quan- do cheguei ao Brasil pela primeira vez, tive a sorte de ser recebido na co- munidade de antropólogos brasileiros. O compromisso de muitos deles com os problemas contemporâneos de seu próprio país impressionou-me profundamente, em especial considerando-se a ausência deste compromisso na antropologia americana. Sei que a nova audiência de A cidade modemista vai achar alguns aspectos óbvios, outros obscuros, e outros ainda pouco convincentes. Gos- taria no entanto de enfatizar, seja qual for a recepção, que este livro não foi originalmente concebido ou escrito a partir da perspectiva de dicoto- 5
  4. 4. mias como eu/ outro, antropólogo/ nativo, ou americano/ brasileiro, que com freqüência tomam exóticos os objetos de estudo à medida que os criam. Nunca acreditei que o projeto de entender o outro, na tradição romântica da antropologia de buscar o nativo; fosse capaz de iluminar o eu. A mera justaposição dessas oposições não consegue provocar mais que um leve titilar. Tais dicotomias quase sempre pressupõem uma dis- tância e uma neutralidade que se revelam impossiveis em estudos do mundo modemo, nos quais o pesquisador vive com os pesquisados e em cuja his- tória ambos estão enredados. Isso não significa dizer que as experiências sejam idênticas, mas sim que estão fundamentalmente relacionadas e que a explicitação dessa relação deve fazer parte da pesquisa. Significa tam- bém dizer que ao estudar Brasilia tentei não criar um objeto exótico e se- parado para submeter às lentes da critica ou, ainda pior, do ridiculo, seja para americanos ou - vale a pena enfatizar - para brasileiros. Minha intenção não foi produzir um objeto de alguma forma separado da expe- riência modema que todos nós vivemos, em cidades transformadas pelo urbanismo modernista, do qual Brasília talvez seja o exemplo mais aca- bado. Ao contrário, procurei entender como Brasília revela com clareza excepcional um tipo de modernismo que também produziu ou refigurou inúmeras cidades americanas e todas aquelas em que eu mesmo vivi. As- sim sendo, apesar de ser diferente na sua etnografia, este estudo de Brasí- lia também se aplica a essas cidades e a seu urbanismo modemo. J. H. La Jolla, Califórnia março de 1993 I P I AGRADECIMENTOS Diversas instituições proporcionaram generoso auxilio a esta pesquisa sobre Brasília. O trabalho de campo, feito entre 1980 e 1982, contou com o apoio da Organização dos Estados Americanos, da Tinker Foundation e da Universidade Yale, sob os auspícios do Concilium on International and Area Studies e do Williams Fund for Anthropologicai Research. De 1983 a 1985, ñz pane da equi- pe do Helen Kellog Institute for International Studies, na qualidade de "junior faculty fellow". Essa bolsa permitiu que me concentrasse na elaboração da pri- meira versão deste estudo, apresentada como tese de doutorado ao Departamen- to de Antropologia da Universidade Yale. A essas organizações e aos seus mem- bros, meus sinceros agradecimentos. Ao longo de todas as etapas de meu doutorado, tive o grande privilégio de receber as criticas e o estímulo do professor M. G. Smith, meu orientador, e do professor Guillermo 0'Donnell. Os eventuais méritos da tese devem-se, em não pequena medida, aos padrões de exigência intelectual com que me confrontaram e às oportunidades que me deram para que eu tentasse atingi-los. Também sou grato aos outros membros do comitê de tese, os professores Alan Colquhoun e Harold Scheffer, por suas sugestões as versões iniciais do manuscrito. Além dis- so, gostaria de reconhecer as contribuições dos professores David Apter, Albert Fishlow, Frederic Jameson e Emilia Viotti da Costa. Sou particularmente grato ao professor Paul Rabinow por suas sugestões à primeira versão e ao professor Terence Turner por seus comentários ao manuscrito revisado. Uma voz, especialmente, foi meu guia não apenas ao escrever este livro mas também ao sobreviver a ele, a da colega antropóloga Teresa Pires do Rio Caldei- ra. Contar as vezes em que seu julgamento melhorou o meu, falar de seu trabalho na produção da primeira versão, falar da sua paciência e acuidade ao examinar minhas dúvidas seria dizer que sua presença me foi essencial. Neste trabalho, como em meus outros esforços. tive a sorte de contar com o apoio de meus pais Ruth e Marc Holston e de meu irmão Rand. Tenho um grande débito aos muitos que, no Brasil, me ofereceram hospita- lidade e ajuda. Em particular, quero agradecer ao professor Roberto Cardoso de Oliveira, que gentilmente me aceitou como pesquisador visitante no Departa- 7
  5. 5. mento de Ciências Sociais da Universidade de Brasília; ao professor Hélio Jagua- ribe e aos diretores do IUPEIU (Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Ja- neiro), que me apoiaram quando cheguei ao Brasil pela primeira vez; à dra. Mari- za G. S. Peirano. cuja amizade foi inestimável; ao dr. Jayme de Assis Almeida, que generosamente me pôs à disposição seu arquivo pessoal sobre os primórdios da história de Brasilia; e a Rodrigo Bhering Andrade, Milton Feferman, Gustavo Lins Ribeiro e Antonio Augusto G. S. Silva. Tenho uma dívida especial para com o povo de Brasilia, e todos aqueles com quem fiz amizade. que bondosamente acolheram a mim e às minhas incessantes perguntas, respondendo apaixonadamente sobre sua cidade. Se eles não tivessem insistido para que eu entendesse suas experiências em Brasilia. minha pesquisa não teria resultado em nada. Quero expressar sobretudo meu profundo respeito pelos pioneiros da nova capital. Gostaria que viessem a saber que, embora tenha feito uma avaliação critica de sua cidade, eles têm a minha admiração pela cora« gem e dedicação com que a construíram. Do mesmo modo. quero registrar que, embora critique seu trabalho em Brasília, os arquitetos Lúcio Costa e Oscar Nie- meyer também têm o meu respeito. Com grande competência e empenho, eles as- sumiram os riscos de tornar pública a sua visão de um novo Brasil. I O MITO DO CONCRETO í.
  6. 6. 1 PREMISSAS E PARADOXOS A viagem rumo a Brasilia, através do Planalto Central, é uma jor_n_a_-: dade 5203x3050. Faz o viajante confrontar-se com a separação entre a . Êrasüia modernista? o Brasi , ii deitados _os dias; _entre os densos( N* : Eros-do litoral e o vazio do interior; entre o congestionamento e a meração das grandes cidades e os silenciosos horizontes do planalto; en- tre as praças do interior, com suas feiras e suas conversas, e os espaços vazios de Brasilia, onde não há praças nem feiras; entre a civilização e a fronteira; entre o subdesenvolvido e o incoerentemente moderno. Mi- grantes fazem essa viagem sobretudo em busca de vantagens econômicas. Procuram trabalho, salários mais altos, rápida ascensão e oportunidades especulativas na nova capital do país. Ainda que suas motivações sejam varias, todos compartilham o sentimento da separação existente entre a cidade e o resto do pais, que essa viagem faz perceber com nitidez. Para : o migrante, esta passagejnguejjrma ajdentidade tjejfgrasñiacomo uma i cidade de fronteira, como um projeto de desenvolvimento, como um cx- 'ãerimento uíópicdem urbanismo modemo, como um centro desgarrado ¡. de poder político, como um Eldorado de oportunidades. É também essa passagem que determina o contraste entre o velho Bra- l sil e o plano de criar um novo pais. Quando faltam cerca de quarenta quilômetros para terminar a travessia do planalto desolado rumo à capi- r tal, a paisagem se modifica abruptamente. A estrada se alarga. Outdoors anunciam lotes à venda. "Novo Brasil", “Novo Mundo", “Nova Amé- rica": assim se chamam as áreas residenciais ainda por construir. Uma escultura gigantesca e moderna surge do nada, indicando que algo está 1335 acontecer. Sem perceber sinais visíveis de povoamento ainda, o via- jante é subitamente enredado em um trevo rodoviário de proporções des- norteantes. Num movimento intencional, consciente, coreográfico, Bra- sília começa: uma via expressa de catorze pistas irrompe, ruidosa, diante dos olhos e arremessa o visitante na proclamada Nova Era do Brasil. ll
  7. 7. Brasília foi constmida para ser mais do que o simples símbolo dessa nova era. êeqpigjetL-: Egonsjrgção tinham ajntençãq decríar essa no- ¡ va eLa, transformando a sociedade brasileira. Este estudo analisa as duas_' premissas paralelas Vdessarinversão, no desenvolvimento - uma inversão ^ pela qual a forma e a organização urbanas são consideradas como instru- . mentos de mudança social. A primeira premissa é age que o plano para y uma nova cidade pode criar uma ordem social segundo a sua imagem; L our seja, uma ordem baseada nosrvalpres _que inspiraram o projeto. A se- gúndapremissa projeta a primeira como umplano de mudança no con- ? à texto do desenvolviAmentqna ignal. Propõe que a nova cidade venha a- ser um modelo de práticas sociais radicalmente diferentes. Sustenta que, se esse modelo puder servir como exemplo de progresso para o restante da nação, seria então possível não apenas generalizar suas inovações, mas também impelir o pais como um todo em direção ao futuro planejado que ele corporifica. Dessa maneira, os planejadores poderiam promover saltos no próprio processo de desenvolvimento, levando o país a queimar as etapas indesejáveis de sua evolução. Os capitulos subseqüentes deste i livro demonstram que ambas as premissas motivaram a construção de Bra- sllia em 1957 como a capital modernista de um país em incipiente proces- so de industrialização. Também mostram, contudo, que, como a ocupa- ' ção da cidade recém-construida se fez segundo o que ditava a prática da sociedade brasileira, essas premissas engendraram uma série de processos sociais que, de modo paradoxal mas inequívoco, vieram a destruir as in- tenções utópicas de seus idealizadores. Dois conjuntos de objetivos são visados nesta demonstração. Um diz respeito ao estudo de caso , de uma capital _modemista construída para _o 5 Brasil. Outro coloca a questão de como deveria ser um estudo antropoló- gico do modernismo e, de forma mais geral, do mundo modemo. São L vários os objetivos ligados ao estudo de caso: primeiro, o de prover um levantamento etnográñco - uma descrição baseada em minha pesquisa de campo - das conseqüências que tiveram as premissas fundadoras de Brasilia no desenvolvimento de suas ordens e desordens sociais; segundo, o de fazer uma análise das motivações e decorrências desses preceitos de planejamento. Assim, quando falo de uma análise das premissas, estou ' me referindo ao que elas pretendem, à sua coerência interna, aos instru- mentos e condições que trazem para a realidade, e às interpretações e pro- ' oessos sociais que elas despertam. Esse estudo exige que sejam ressaltadas as diferenças entre os vários componentes da cidade planejada: entre as s no que diz respeito à mudança social, corporificadas em sua concepção ur- banística, governo ao construl-la e ocupila. Avaliando o primeiro componente, apresento Braílliícõmmítemplo dos princí- ç pios da arquitetura e do planejamento urbano modernistas. Propostos por j [2 grupos de vanguarda na Europa Ocidental e na União Soviética, e adota- dos no Brasil, esses princípios constituem uma reconceitualização radical › da vida nas cidades. Brasilia é, provavelmente, sua mais completa reali-¡ zação prática. Entretanto, o que se encontra como uma totalidade em Bra¡ silia também está presente, em fragmentos de maior ou menor escala, por toda pane no mundo, já que, neste seculo de fenomenal crescimento ur- bano, a teoria, o debate, o ensino e a prática da arquitetura foram enten- didos em termos modernistas. Assim, não é uma generalização excessiva afirmar que a visão modernista de um novo modo de vida alterou funda- mentalmente o ambiente urbano onde vive cerca de metade da população mundial. Hoje, críticos pós-modernos asseveram que esse modemismo esta encerrado, que sua criatividade se exauriu. Eu sugeriria, entretanto, ' outro aspecto do problema: se o modemismo está morrendo, ele todavia continua a predominar, ao menos no Terceiro Mundo. Um estudo de Bra¡ sllia oferece, assim, a oportunidade de se avaliar seus pressupostos cen- trais, num contexto em que estes se encontram expressos com especial clareza. Analisando a segintda série de intenções - o plano govemamental de construir Brasilia -, levanto várias questões diferentes, mas relacio- iñdas entre si, a respeito do processo de desenvolvimento. De um lado, analiso o papel da arquitetura e do urbanismo modernistas em projetos de desenvolvimento que requerem intervenção maciça do Estado e coor- l denação centralizada. Este ponto é importante sobretudo em paises do l Terceiro Mundo, onde a estética modernista exerce fascínio sobregsmais , ' j diversas_sçxsxiioniaííizensãsntamçnte gesuattrtentêsêuglítícêã- ? ml y' explicar esse inusitado fascínio, sugiro algumas afinid des e re o mo- ' dernismo, engganto esté amento e reinscr . -M . . . -› -~ -- - . e -- '_ ãofeíquanto ideologia do desenvolvimento pela qual os govemoFquãIs- , e a oderniía- E quer que sejam suas tendências políticas, tentam reescrever' õria de 'seus países. De outro lado, examino Brasilia como exemplo de um tipo comum de projeto de desenvolvimento baseado num paradoxo. Retratando a ima- _ gem de um futuro imaginado e desejado, Brasília representou a negação _ das condições existentes na realidade braÍleira. Essa diferença utópica r' entre os dois e precisamente a premissa do projeto. Entretanto, e ao mes- mo tempo, o govemo o encarava como um meigrpara atingir esse fungo - como uiTinÊtñimento de mudança qúeteria, necessariamente, de se valer das condições existentes que ele negava. Meu objetivo ao analisar esse aparente paradoxo não é questionar a necessidade de utopias na ima- ginação de um mundo melhor. Na verdade, ao longo deste livro irei me contrapor à atitude de se abandonar a cogitação de futuros altemativos, característica do pós-modernismo. Pretendo antes determinar as manei-l ras pelas quais, na construção da cidade e na constituição de sua socieda-. 13
  8. 8. de, os paradoxos da utopia subve_rteram suas premissas originais. É nesta su vers o - na maneira pela qual a população de Brasilia tomou essas premissas em seus pontos contraditorios para reafirmar os processos so- " ciais e os valores culturais que a utopia pretendia negar - que está o foco i de minha etnografia. ' ANTROPOLOGIA E MODERNISMO Quando comecei meu trabalho de campo em Brasilia, em 1980, um j de meus objetivos era relacionar a atividade etnogréfigggom o conjunto i de atitudes criticas conhecido pelo nome de modernismo. Por este último termo, entendo as provocações das vanguardas! - dadaismo, surrealis- mo, construtivismo e futurismo, entre outras - que surgiram no contex- to do capitalismo europeu, colocando-se contra este e a sociedade bur- guesa. 0 que me atraiu para esses movimentos, enquanto antropólogo, era seu propósito subversivo: a despeito de suas diferenças internas, to- dos pretendiam romper com as imagens daquilo que a sociedade burgue- sa entendia ser o real e o natural; pretendiam desafiar o que se tomava por evidente, desfamiliarizar, desorientar, descodificar, desconstruir e de- sautorízar as categorias normativas, morais, estéticas e familiares da vida social. As vanguardas desenvolveram técnicas de choque - como a frag- mentação, a justaposição absurda e a montagem - não tanto para che- gar a um relativismo niilista, mas sobretudo para estimular uma atitude critica em face das racionalidades meios-fins vigentes na ordem cultural. Suprimindo o narcótico dos significados assumidos ou oficiais, espera- vam voltar as atenções do público para os principios sobre os quais estes significados eram construídos, e, desse modo, para a possibilidade de modifica-los. Em um estudo etnográfica do modernismo de Brasilia, julguei que _ poderia encontrar maneiras para imbuir a antropologia da energia critica j dessas vanguardas. Minha intenção era tomar o modernismmparaalém de seu âmbito usual da arte e da literaTtñi, e de suas interpretações geral? mente internas no campo da critica especializada, mostrando como ele terrmna por se relacionar a determinadas práticas sociais e desse modo se torna uma força no mundo social. Mais ainda, pensei &usasse; demons- tração iria não apenas dirigir minha atenção para a antropologia do mundo modemo, mas também enfatizar o potencial critico da etnografia. Que este potencial existe é algoÍ creio, com que a maioria dos antropólogos concorda; recentemente, Marcus e Fischer (1986: csp. 111-64) e Clifford “(1981) mais uma vez chamaram a atenção para isto. Se a antropologia tem sido tradicionalmente ligada ao esforço de familiarizar o estranho, › o exótico e o marginal, tomando-os compreensiveis por meio da descrição, 14 l da classificação e da interpretação, esse mesmo processo pressupõe um ¡ , complemento: o de que a familiarização do estranho venha a desfamilia- i rizar o familiar, deixando-o aberto a novas e inesperadas possibilidades¡ Essa idéia subversiva esta implícita em uma larga variedade de temas de importância central para a disciplina: o de que aquilo que se considera l como a ordem natural das pessoas e das coisas não e' natural ou dado, uidovculturalmentçjggatyo; o de que justapor o familiar e h ¡iu-raíewscrição sistemática da diversidade cultural do mundo I é erodir os preconceitos do primeiro, fazendo aumentar o respeito pelo , seguindo; o de que arranjos institucionais diferentes podem preencher fun- ' ções similares; o de (Luc a cultura, _a história ergprodução daverdade são É dominios entrecortados_porrgaçõesrde poder; idéias, em suma, que rela- i íivizamíiífundamentos do "naturaW é do "real" onde quer que exista a pretensão de aponta-los como tais. . Contudo, se o modernismo e a antropologia compartilham determi- nadas intenções criticas, no sentido de abalar os valores da civilização oci- dental. o que torna problemático o seu inter-relacionamento é o fato de que, em larga medida, ambos os tipos de subversão resultaram em fra- 'x casso - ou, pelo menos, revelaram-se promessas não cumpridas. No estudo de caso de Brasilia, fica demonstrado que a arquitetura e o urba- nismo modernistas não apenas falharam, mas que também fortaleceram. muitas vezes, aquilo que pretendiam desafiar. O fato de que a antropolo- gia não estudou o Ocidente e a sociedade moderna com a seriedade utili- zada nos seus estudos sobre sociedades nâo-ocidentais, camponesas e tri- bais ressalta com evidência em qualquer das perspectivas apontadas por Marcus e Fischer (1986) em sua útil discussão sobre o "repatriamento da antropologia enquanto critica cultural". Mais ainda, se "o surrealismo é o cúmplice secreto [secret sharer] da etnografia", para usar a apropriada frase de Clifford (1981: S43), essa relação tem sido em larga medida des- oonsiderada e insatisfatoriamente desenvolvida nos escritos etnográñcos¡ 0 problema não é apenas que não tenhamos estudos etnograficos a l respeito da cultura ocidental para interagir com os de culturas não- ocidentais e para tornar especificos, dinâmicos e reciprocos os potenciais críticos que de algum modo possam possuir? Tampouco isto se deve - como argumentam, em linhas distintas, Foucault (1973) e Fabian (1983) - ao fato de as ciências da sociedade utilizarem as técnicas de observa- ção para controlar e distanciar seus objetos, no momento mesmo em que deles se apropriam enquanto objetos cientiñcos, sobretudo no que se re- fere àquilo que é concebido ou transformado em algo radicalmente ou- tro, como os loucos ou os primitivos. É também porque, além das impor- ' tantes críticas marxistas do capitalismo (e da antropologia) no Terceiro Mundo, o próprio projeto daquilo que uma antropologia da sociedade ocidental moderna poderia significar, e de como desenvolver uma pers- 15
  9. 9. pectiva antropologicamente crítica a seu respeito, só recentemente emer- giu como preocupação importante, ainda que não central. ” Ademais. muitas das etnogratias relacionadas a este projeto emergente invocam pa- râmetros pré-capitalistas, precontato, pré-coloniais. pré-modemos ou não- ocidentais para estruturar suas analises a respeito das circunstâncias pre- sentes. Assim, constroem seus estudos em termos contrastantes que, ema' bora importantes em suas áreas, têm reduzida relevância para a análisef da moderna vida urbana tanto em paises desenvolvidos como em subde¡ senvolvidos. Todavia, precisamente em função de seus respectivos fracassos, con-I siderei valioso, para pensar no meu encontro de campo com o moder- nismo, explorar seu fundamento comum com a etnografia. Por razõesâ @ediséutirei em breve, não estou sugerindo uma exploração no gênero das experiências de escrita que Marcus e Fischer (1986: 67-73) chamam de "etnografia modernista" ou que Clifford ( 1981: 563-64) chama de "et- nografia surrealista". Tampouco estou sugerindo uma história de seus fundamentos comuns, que outros aqui mencionados estão procurando ela- borar. Na verdade, estou propondo uma etnografia crítica do modernis- ma, sugerindo que é iitil pensar sobre os problemas de uma em relação l 1 com os de outro. Pois se precisei tratar empiricamente com as forças so- ç ciais que o modernismo mobilizou em Brasilia, julgo que, como antropó- logo, estava mal equipado para a tarefa. Acredito antes que meu encon- tro com o material de campo forçou-me a reconsiderar a adequação de meus parâmetros de pesquisa. Esses parâmetros tinham, em relação aos dados, uma série de pontos cegos que, percebi, surgiam em tomo de questões-chaves tanto para o modernismo quanto para a antropologia - como, por exemplo, a natureza do esforço critico, a constituição do con- texto, a noção de atuação histórica [historico] agency), e a politica da vi- da cotidiana. Desenvolvi, portanto, um conjunto de questões reclprocas¡ de modo a deixar que modernismo e antropologia se provocassem mu-Í tuamente: que problemas ocultos ou irresolvidos na etnografia poderianií ser sugeridos pelas pretensões e conseqüências da arquitetura e do plane¡ jamento modernistas em Brasilia? E o que significa estudar esse moder- nismo aritropologícamente? ' Uma provocação recíproca desse tipo envolve a questão do esforço cri- Lico em si mesmo. Se um de meus objetivos era obter um entendimento critico do modernismo, não poderia apenas avaliar suas pretensões nos mesmos termos em que haviam sido propostas. Leituras totalmente internas desse gênero são demasiado comuns no campo da crítica arquitetônica, muitas vezes feitas por arquitetos e urbanistas em defesa ou em apologia de suas próprias praticas. Por várias razões, contudo - em função, por exem- plo, do respeito praticamente internalizado do antropólogo com relação aos comentarios de seus informantes -, eu era também propenso a f l6 a história e a crítica da arquitetura com os vários discursos da arquitetu- ra, ou seja, com as proposições e manifestos dos próprios arquitetos. Mais l ainda, a antropologia tradicional dava-me pouca orientação no que se refere aos objetivos da critica. Se não pode haver posições neutras no estudo dos sistemas de poder e da desigualdade social, de que o antropó- logo também faz parte, quais deveriam ser os objetivos do esforço criti- co? Por exemplo, um dos efeitos sociais do urbanismo modernista e a despolitização dos que não são planejadores, uma vez que sua organiza- ção política se torna irrelevante, se não inoportuna. nas decisões sobre desenvolvimento urbano. Pretender uma analise critica do urbanismo que não fosse apenas interna exigiria mais do que simplesmente resgatar as vozes dos esquecidos. Embora isso seja crucial, e o valor desse resgate seja uma das mais apreciadas legitimações do trabalho do antropólogo, uma análise crítica não-interna teria de ir além de uma demonstração de que os marginalizados têm interesses conscientes e desempenham impor- tantes papeis no sistema social, cabendo aos planejadores respeita-los. Tais afirmações do não-hegernônico não bastariam para contrariar o dis- curso de poder dos planejadores. Na verdade, como pretendo mostrar em minha análise sobre Brasilia, um contradiscurso teriade demonstrar ! que o delírio de poder _no planejamento 3135315118. C16 própriptsondi- , - _ . . a# . - çõísías quais os urbanistas tropeçam e, em consequencia, condiçoespara ' a sua própria subversão, Com efeito, meuiobjetivo é produzir tal con- , íradiscurso, fundamentado precisamente na tensão que_ um estudo an- ' ri_orm tropologicamente : $519 mode 'sitio cria ntrc a tarefa etnogrifiga ! ações estudadas éh' objetivo de avaliar essas intenções ein terr_nos dejgus , _ resultadosf Outro problema que o estudo de Brasília leva a confrontar, central tanto para o modernismo quanto para a antropologia, é o da @gíria ' Na arquitetura e no urbanismo, o modemismo começa por se distanciar das normas e das formas da vida urbana burguesa, a qual ele tenta sub- verter propondo ao mesmo tempo um futuro radicalmente diferente e um meio para se chegar até ele. Trabalhando de forma retroativa, de seu fim imaginado em direção às precondições deste, tal visão da história é teleo; 1 sa teleologia tem varias conseqüênci i- ro lugar, ejigeig um dos. fundamentoLda arquiteturas dO yrbaaísmo¡ modernistas: tLtotagiescomeltpnlizjçãmnñmél_ _ _ , Win13¡ ' ginado corno arbasecrítica pela qual avaliar o presente. Corno carece, assíni, deruma noção dercontexto histórico, a visão modernista da histó- ria e paiídoxalmente desistoricizante. Uma crítica não-interna deveria, ' portanto, trabalhar na direção oposta: teria de historicízar o presente. Con-n tudo, esse tipo de contextualização não é usualmente enfatizada na an- tropologia clássica, cujas preocupações sincrônicas colocam a considera- 17 gistrar, _em seus pr prios termos, as ntenções das pgpii- . _
  10. 10. ção etnográfica em um presente atemporal. Atualmente se reconhece que essa orientação tende a ser desístoricizante e, nas últimas décadas, mui- tos etnógrafos se preocuparam em situar suas descrições em um contex- to histórico. 0 problema da história na antropologia é, contudo, mais complexo. Afinal, uma tarefa é prover uma linha histórica básica para a descrição feita; outra. considerar o presente @me produto de proces- ms históricos de tr_ Qrtigção. Um nográfico do modernismo õbl a, pois enquanto o modemismo segue a primeira tarefa na sua. critica das cidades capitalistas, deliberadamente renega a 1 nda agprgpor a possibilidade da transcendência. Desse modo, síñ- ' ? de me contentar com um presente desistoricizado, ou se tivesse de negligenciar os processos históricos, mesmo que estabelecendo um con- texto histórico, eu estaria inadvertidamente aceitando os critérios moder- nistas de mudança. Em segundo lugar, a visão teleolçmcadg história dispensa uma conf_ a_ sideração dos a entes_ 5 @as intenções, de suas origens di _ _ c e, o único tipo de atuação histórica queo odemis mo leva em conta é a intervenção do principe (chefe de Estado) e do gê- nio (arquiteto-urbariista) dentro das condições estruturais da tecnologia existente. Mais ainda, essa intervenção é na realidade uma superação da< história, pois atribui ao principe e ao gênio o poder de negar o passad mediante a referência ao novo futuro. Assim, arelação do modernismo com a históriavejstranhaniente abstrata. Para evitar a aceitação daquilo que pretende-avaliar, uma análise dos efeitos concretos da concepção ur- bana modemista de Brasilia teria, assim, não apenas de historigzar o pre- sente, mas teria também de considerar a atividadehistóÊÊomQum trechoqgdg ações gansfoínãlgm dos atores sociais (incluindo as tondades do govemo, os arquitetos e os urbanistas, mas sem se limitar a eles) e da força de condições estruturais (incluindo os planos e a tecno- logia, irÉÊeíÊe-lf-'tar a eles). Tal concepção também defende um lu- gar próprio para a antropologia no estudo do mundo moderno. Pois, em sua asserção de que o contexto social não é decisivo para o fazer históri- co, de que apenas as imposições do gênio são relevantes, o modernismo nega o valor daquilo que qualquer critica antropológica possa oferecer. Portanto, estudar Brasilia etnograficamente é não apenas conduzir a : in-Í topologia para novas direções, mas também subverter uma visão descon- textualizada da história, presente nas preocupações clássicas da disciplina. A arquitetura modernista pretende ser um movimento intemacional que faz o desenvolvimento nacional avançar ao construir novas cidadesJ as quais, por sua vez, transformam a vida cotidiana. A amplitude dessa , pretensão levanta para o antropólogo a dificil questão de como identify', car as unidades apropriadas de análise. Esse problema surge a partir do 1 enquaaiíenfo convencional dos estudos etnográficos em termos de uni- 18 J/ 'i dades isoladas no tempo e no espaço. Tal concepção é obviamente inade- quada para dar conta de práticas sociais, processos históricos e interpre- tações culturais que se originam de uma teia complexa de relações não apenas entre sistemas sócio-econômicos locais e nacionais, mas também entre diferentes grupos sociais cujas diferenças interagem historicamen- te. Também inadequados são os estudos sincrônicos da vida cotidiana, que pressupõem a reprodução das diferenças existentes. Faz mais sentido, na verdade, dizer que as unidades de analise e seus métodos não podem ser determinados de antemão e que, a cada passo, ¡ terão de ser negociados entre a multiplicidade dos fatores relevantes. Es sa complexidade significa que o desafio metodológico de meu estudo de caso é captar a formação da ordem social de Brasilia, e a estrutura de CVBXIÊ S QUE O ivam seu esenvo vimcn 0, COHID DÍOCCSSOS ICIBCÍOIIZÍS no-espaçofnítínñlõu seia, proces_ §íi3it_u_ras çyalmes. d aiialí ' (seja asáelãsses trabalhadoras, seja a capital n10- J , dernistacmrrõ um todofseja uma única rua) se definem num ativo com- prometimeigçgrgm os processos de unidades/ cognatg (como, porcxem- pTÊÍs' elites burocráticas, amapital barroca no Brasil, ou o sistema de tráfego). Assim, não é suficiente tomar apenas o ponto de vista do gover- no, dos planejadores, ou dos trabalhadores, tanto quanto seria o de um único bairro. Antes, a complexidade do caso exige cortes atravésglasçlasses e justaposições intergrupais a fim_ _de se, analisanomatiriaLo desafio, assim; é criar uma "estrutuia conceitual interativa de pesquisa que origine um entendimento detalhado dos processos de mudança cultural e social, sem rcduzi-los a um exemplo isolado e, desse modo, impossibilitando o entendimento da complexidade das condições que os criaram. , Dado esse objetivo, coloquei primeiramente o problema da pesquisa como uma questão de entender d s§_e_s_do_mgdgij_ni_s_- _ mo d_e›_B__rasf1ía estãoligadasapráticas soç e portanto se tornam forças ngundosocial_ Segundo, organize¡ esse projeto em termos de cinco pers- pectivas interativas e que cruzam as classes sociais: as de contexto, de in- tenção, de ínstrurnentalidade, de contradição e de processo 7 . Neste ponto, apenas as quatro primeiras exigem comentário adicional. 0 estu- do do c respeito à identificação das condições (sociais, cultu- I rais, econômicas e politicas) dentro das quais Brasilia foi proposta, pro- duzida e recebida pela sociedade brasileira. Também identifica a conste- lação de preocupações que motivaram seus idealizadores e habitantes. Os contextos que julgue¡ mais relevantes para os problemas da pesquisa são: l) aqueles em que Brasilia adquiriu legitimidade enquanto empreendimento nacional, estabelecendo os termos de sua validação e uma comunidade de especialistas para elabora-los; 2) aqueles nos quais o modernismo se ' impôs como o modelo dominante da cidade moderna e do desenvolvimento por meio da urbanização; 3) aqueles em que as ambições brasileiras encon- 19
  11. 11. traram realização num projeto modemista, vinculando concepções de de- senvolvimento próprias do primeiro, do segundo e do terceiro mundos; e 4) aqueles em que sistemas de poder politico, institucional e econômico mobilizaram tais ambições para estabelecer algumas das restrições estru- turais do projetoÊ Uma concepção adequada daquilo que move o desenvolvimento de Brasília a partir de principios modernistas tem de incluir os modos pelos quais os principais atores interpretam esses contextos. Uma maneira im- portante de fazer isso é considerar que o projeto gerou discursos, afir- mações, textgs, planos, modelos. desenhos etc. , os quais definiram as_i_rt-_ tenções dos envolvidos. Essas intenções são fundamentais para nosso es- i tudo porque tornam possiveis e legitimam as intervenções táticas de que ' a população faz uso para dar ao desenvolvimento de Brasilia sua confi- guração particular de formas e de forças. A arquitetura é, em si própria, um campo de intenções - visando a mudança da sociedade, a reformu- lação da vida cotidiana, a exibição de status, a regulamentação da cons- trução civil e assim por diante - o qual acarreta novas intenções, tendo todas sua dose de conseqüências sobre o mundo. A intencionalidade cons- titui uma pane do mundo social que só pode ser negligenciada à custa de uma visão reducionista e determinista do desenvolvimento histórico. Neste estudo de caso, enfocarei as intenções tais como elas se manifestam l na produção de vários tipos de textos, e procurarei sempre liga-las a pes- soas e grupos especificos, assim como a suas práticas sociais e circunstân- cias históricas. ” As intenções _engendram, ademais, instrumentos para sua realizago, e podemos estuda-los enquanto tais. Podem ser de vários tiposTaürlanta de um edificio (expressando uma intenção e também contendo uma série de instruções para leva-la a cabo), um certo tipo de racionalidade, um contrato imobiliário. Uma forma de encarar o modernismo de Brasilia é vê-lo como um discurso sobre o bom governo de uma sociedade, que propõe a arquiteturae Voiurbarúsmo como instrumentos para muda-la e administra-la. Esse tipo de proposição tem uma longa história na cultura ocidental. Desde os tratados renascentistas sobre a natureza da arquite- tura e da cidade e as Leis das Índias de 1573, regulamentando a descober- ta e o povoamento do Novo Mundo, a arquitetura e o planejamento ur- bano têm tido preeminência entre as modemas técnicas de govemo visan- do a ordem ideal da sociedade e sua manutenção. Sua instrumentalidade diz respeito não apenas a questões práticas, tais como evitar epidemias, congestionamentos de tráfego e rebeliões de rua, mas também às de co- mo estimular a família e a virtude cívica. Será parte importante deste es-I tudo entender o que caracteriza os instrumentos de mudança e de organi- zação social de Bñsilia, e como eles se concretizaram em processos sociais. ; 20 J á que constituem a auto-interpretação do modernismo de Brasilia, tais intenções e instrumentos serão essenciais para esta análise. Uma ana- lise critica não pode, todavia, simplesmente tomar como suas as catego- › rias elaboradas para uso próprio pelos teóricos do modernismo. Na ver- L dade, a analise deve distanciar-se de uma visão interna como essa. e eu já sugeri algumas das dimensões desse distanciamento. Não obstante, parece-me haver dois grandes perigos numa interpretação que se distan- cia demasiado: o redutivismo e o dogmatismo. Discutindo os problemas relacionados com o que ele chama de "interpretação alegórica", Jame- son (1981: 22) observa que o primeiro deles ocorre quando "os dados de uma determinada linha narrativa são radicalmente empobrecidos quan- do reescritos de acordo com o paradigma de outra narrativa [seu exem- plo é o da experiência cotidiana e da fantasia individual reduzidas aos termos da psicodinâmica freudianal. a qual é tomada como o código bá- sico da primeira ou como Ur-narrativa, e proposta como o signijícado último, oculto ou inconsciente, da primeira". De uma forma ou de ou- tra, as recentes criticas pós-estruturalistas às interpretações psicanalítica, marxista e estruturalista enfatizaram esse ponto. Já a critica dogmática parece menos uma questão de reescrita quanto de pretensão à verdade. Ela avança uma posição altemativa contra aquela que está sendo critica- da e assevera que demonstrar a verdade do que apresenta e prova sufi- ciente de que a posição do oponente e falsa: “Eu estou certo, e portanto você tem de estar errado". Para refutar uma outra, necessita apenas a prova, ou mesmo a pretensão, de que é verdadeira. Embora permanecen- do extema a seu objeto, críticas desse tipo são, em geral, acusadas de im- por critérios irrelevantes de avaliação, de ignorar as condições existentes, e de ser arrogante. O modernismo na arquitetura é, ele próprio. muitas vezes representativo dessa critica dogmática das cidades e das sociedades do capitalismo burguês. . Para evitar tais acusações, uma crítica do modernismo não pode nem repudia-lo de imediato nem reduzi-lo a alguma outra coisa. 0 que se tor- na necessário é um metodo de avaliação similar ao que os teóricos da Es-r cola de Frankfurt chamam de "critica imanente" ou "dialétn: a".7 Esse; procedimento pane da substância daquilo que está para ser' criticado e detennina qual percepção ela tem de si mesma (suas premissas, intenções, - categorias, instrumentos e assim por diante). Em seguida. deduz suas con- _ seqüências, implicações e decorrências, as quais utiliza para reexaminar o objeto investigado. Essa reavaliação revela suas lacunas e paradoxos. k Como observa Biirger (1984: liv), uma das importantes descobertas desse método é a de que, "para a critica dialética, as contradições na teoria cri- ticada não são indicações de insuficiente rigor intelectual [. ..] mas uma indicação de um problema irresolvido. ou de um problema que continuou oculto". É nesse sentido que a critica procede de dentro, derivando seus 21
  12. 12. ¡' jeto. É uma vantagem profícua, e é nesse sentido que focalizarei minha › A discussão subseqüente introduz, de duas formas, os parâmetros que orientam esse objetivo. Oferece uma visão geral do presente estudo em termos do referencial de pesquisa esboçado acima, e apresenta o pla- no da análise. estímulos dos paradoxos da teoria criticada. Acompanhando tais para- doxos e os problemas por eles revelados, ela sugere não apenas um novo entendimento mas também novas possibilidades para a análise de seu ob- analise crítica de Br ' 'a em sua , estrutura de premissa e paradoxo. Na ' tÊrdade, meu interesse nessa estrutura é mostrar como seus problemas irresolvidos, suas lacunas e contradições vêm derrubar os grandes planos, A 'DEM DE BRASÍLM criando condições para sua própria transformação. É esta crítica imanente que distingue meu projeto de etnografia criti- 7 ca das experiências de escrita que mencionei acima e que terminaram iden- tiñcadas com o pós-modemismo na antropologia. Esses experimentos con- centram sua atenção critica nas varias estratégias textuais que devem or- gí-anizaimialríêr" Taütogglepreseiítação cultural. Seu objetivo 'mais , stiñcar a noção de que essa representação possa ser transparente, ou seja, sem artifícios. Seu foco é, portanto, a produção do texto, a maneira pela qual este se constrói no encontro entre o etnó- grafo e o nativo a partir de muitas vozes, verdades parciais, observações desarticuladas, perspectivas cambiantes e outras fragmentações no tra- balho de campo. Assim, concebem a etnografia como um experimento de escrita precisamente para, de um lado, revelar os artifícios e fraturas de sua própria construção e, de outro. demonstrar que a maior parte des- sas fraturas e artifícios tendem a ser eliminados dos relatos normativos . de outras culturas, quando estes são apresentados como descrição objeti- va, feita pelo etnógrafo onivídente, intrépido e repleto de autoridade. Tais críticas foram muito úteis para me ajudar a entender a prática da etnografia. Concordo. todavia, com Rabinow (1985: 12) quando este afirma que, "se nos últimos cinco anos vimos trabalhos importantes que nos mostram caminhos especificos para além da transparência da lingua- gem, penso que é o momento de tomarmos esses avanços e retornarmos ao mundo". É nesse sentido de um retorno ao mundo que pretendo dei- xar a dimensão crítica de meu estudo sobre Brasilia emergir da analise de caso. Pois, se a etnografia pode seryconcebida como um contradiscur- J so no estudo do7node riismo_ de Brasília, então sua critica deve ser desedn-i vorvtdanos termos de uma avaliação das pretensões em jggqe aliizge' suas conseqüências. A autãñTsÊÉrETãÉHt-ica deste empreendimento re-l side não Tanto na escrita de um texto, ou no ato de erodir epistemologias positivistas, mas sim no reconhecimento e, sem dúvida, na ênfase de uma tensão entre o objetivo de apresentar o ponto de vista de quem está sendo 'i lia, é necessário, primeiramente, visualizar a cidade como uma ímipole ' uma enorme extensão vazia. 0 Distrito Federal é uma área Tlõniertros quadrados demarcada aproximadamente no centro do Planalto Central. Em seu redor há cerca de 2 milhões de quilômetros quadrados de cerrado, estendendo-se sem variação significante entre mil e 1300 metros acima do nível do mar. Esse vasto platô representa 23% da área do pais, e em 1980 abrigava apenas 6% de sua população, con- centrada sobretudo em cidades e postos agrícolas avançados das _zonas pioneiras. O resto da população, esparsamente distribuído, sobrevive da atividade pastoril ou da agricultura de subsistência. 151a épocaem que «Bra- sília foi construida, a densidade populacional média da regiao era infe- rior a uma pessoa por quilômetro quadrado. Hoje, é de apenas quatro pessoas (IBGE, 1981 b). Quando se viaja por essa planura desolada, qual- quer interrupção da paisagem - uma palmeira retorcida ou uma cadeia essatradição, dUsQBHIaãBP <ÍE°ÊP_9Ê'Q°. "°“FÊB Béãisfiej? ? ° Y““9,¡ Ele/ Brasilia, erguido a quase mil quilõmetrosíídistância da costa brasi-Q Íeira, a qual, na metáfora de frei Vicente do Salvador (1931: 19), a civili- zação brasileira ficou, por mais de quatro séculos, “arrauhando como caranguejos". _ _ Desde a metade do século XVIii, a idéia de transferir a capital do Bra- sil para o interior desabitado foi o S,0_¡11_'L0 de 9,131305 YÍSÍQÉIEÊ' Eles de" xaram a Brasilia o legado de uma mitologia do Novo Mundo em que a construção de uma capital no Planalto Central seria o _meio de_ desenía- . Em, nglgsçímgntggg_ u_i'r_ia¡_g5a_rt_ti_e_C_l1i1ÍZ3EãQ, l1llE1.Ea_¡? LQ @abundan- gLa, um desses visionarios, o italiano João Bosco, tornou-se o padroeiro de Brasília devido a uma profecia desse gênero. Segundo os intérpretes de sua revelação, ele vislumbrou o lugar da cidade, 75 anos antes de sua construção. como sendo o da 'EHQÍÍTQWÊPÍÂÊ- Em 3° de HSOStQdC 1533, o santo sonhou quexestava atravessando os Andes de trem, rumo ao Rio 'dÉÍãiTeirBÍemÊompanhia dê um guia celestial. Quando cruzaram o Pla- nalto Central, eles divisaram não apenas a superfície, mas também seus aspectos subterrâneos: estudado, e o deíãonipanhar seusparadoxos na pratica so_ fal. Sua auto- rêflêxão consiste menos em questionar o projeto da etnografia como uma ' apresentação autoritária de fatos, e mais na tarefa de ir além dessa ques- ; v tão para desenvolv_er a etnografia como um registro crítico - uma espé- cie de práícaíibversiva - Em Éqüalíí particulares. 22 23 de nuvens volumosas - torna-se uma bem-vinda presença de vida. É a c' Para entender as intenções presentes no projeto de construir Brasi# _ a lv
  13. 13. Eu via as entranhas das montanhas e o fundo das planícies. Tinha sob os olhos as riquezas incomparáveis [. ..] as quais um din serão descobertas. Via numerosas minas de metais preciosos e de carvão fóssil, depósitos de petró- leo tão abundantes que jamais já se viram em outros lugares. Mas não era tudo. Entre os paralelos 15 e 20 graus, havia um leito muito largo e muito extenso, que partia de urn ponto onde se formava um lago. Agora, uma voz disse repetidamente: quando se vierem a escavar às minas escondidas no meio destas montanhas, aparecerá neste sítio a Terra Prometida, donde fluirá lei- te e mel. Será uma riqueza inconcebível. (Citado em Silva 1971: 34) A interpretação oficial sustenta que a topografia dessa visão cones- pondiíríàsalmêfite ã do sitio de Êrasllia, construída entre o décimo quinto e o décimo sexto graus de latitude, e que o "lago que se formava" seria o lago artificial da cidade, o Paranoá. Mais ainda, como escreve um dos pioneiros de Brasilia e historiador local: "Para confirmar mais uma vez que São João Bosco estava se referindo à nossa capital, a Grande Civili- zação que ora surge no Planalto Central do Brasil, o Santo afirmou que aqueles sonhos descritos seriam vividos na terceira geração" (Silva 1971: 35). Em Brasilia, considera-se que esse prognóstico indica um periodo de 75 anos, o que estabelece o final dos anos 50 como a data em que a profe- cia se cumpriria: exatamente o momento em que Brasília foi construída. A profecia de João Bosco é um dentre os vários mitos de fundação of'- cialmente reconhecidos nos monumentos e nos livros de história da cida- de. Esses mitgsgqyfersões diversas d mesmojíma: apresentam Brasilia dggnyolvimentoinvertido no qual a capital cria a civilização sobre a qual ; exerce uma radiosa soberania. ' A mitologia do Novo Mundo complementa a fundação de Brasília - ~ - - l como um instrumento de desenvolvimento olít oenrsmêflllcf- Desde a o último qiíartfel do século XV1ll, reformadores, revolucionários e esta- distas propunham a transferência da capital para o interior como meio tlemvçgaudesenvolver e assegurar a posse do vasto sertão brasileiro. Era uma proposta defendida por pessoas com objetivos politicos tão diferen- tes quanto o autocrático marques de Pombal, o revolucionário Tiraden- tes, o patriarca da Independência José Bonifácio de Andrada e Silva, e o diplomata Varnhagen. Desde seus primórdios, a "idéia de Brasilia" (tal Í como é chamada) teve a caracteristica peculiar de atrair, como a imagem de um novo Brasil e como estÀatégia de_ desenvolvimento, o interesse de 9 perspectivas políticas radicalmente difereÊtíe" ines/ mo violentamente opostas entre si. Essa idéia por fim obteve forma legal na primeira Cons- tituição republicana de 1891. Seu artigo terceiro reservou uma área de 1_ 14 400 quilômetros quadTadÉs no Planalto Central para a instalação da futura capital federal. Ao debaterem este artigo, os parlamentares argu- mentaram que a mudança da capital para o interior iria permitir ao go- verno estabelecer a soberania sobre todo o território do Brasil, longe da 24 v* ' ccgílàxcnle c_ív izador do_ Planalto É ntral, como pfenunciadora de um i vimento. Por várias razões, Kubitschek deu a Brasília Pñmldade “mma ' d t ues navais. Ao mesmo tempo sustentavam costa calam” e arscfpiâareiãlaaiíilrtegracão nacional ao estimular o desenvol- q. ” a ': ,“d: :,°: ;Ê, ,os do interior, gerando eixos de crescimento econômico n : unpaenir do centro em direção aos mais longínquo: pontos do pais. Durante os sessenta anos seguintes, esse preceito constitucional rece- t ão 'ntermitentez comissões foram encarregadas de : :Âmf : aeirrfva : :apital em 1892, 1946 e 1953; seu mandato legal f ' reiterado nas constituições de 1934 e 1937 e na Assembleia Consti- oi tuinte de 1946; dois _P: :lifglêãsásãlrgâãloeãleíããg É fellslllaíê-Ctâügã. mm decretos para mile a fundamental foi simbolicamente colocada no lu- ”. Emdwzztumg fe r a cidade-satélite. Esse histórico de acomodações S” ou e hojãexlíã : :Institucional indica a incerteza com que as autori- Êesapíiãrcfãsuzíãsicionavam diante da mudança da capital. Dissuadiam- - ~ - ' ' também, ã nas O1V1d0S no projeto, mas 11:13; ãfiíicipalmente, os riscos DOHIÍCOS de 9111?¡ 39d” 11m? , Êãrefa, 93° : uma uca probabilidade delser completadardurante uma única admi- msu-agi). 'Pois é um fato bastante conhecido na política brasileira _que projetos de obras públicas que ficam inacabados ao fim de uàna adrlnlms- tração são mais provavelmente ndicularizados e abandona os Pe 0 E0- ' t d e levados adiante. Vemílãflãlvli: eemolggls a idéia de Brasilia encontrou 910110 °°° “a 93171113' nha presidencial de Juscelino Kubitschek. Ele iniciou sua candidatura com o compromisso de construir a nova capital. Depois de sua e1ei9ñ9› _atmdfl esse compromisso tomou-se o principal projeto de sua administracao ([956.61), a “meta-síntese”, como ele a chamava, de seu Programa de lVle- tas para o desenvolvimento do paÍS~ E559 Píüfama ¡CSPOHÚÊ às “W135 do desenvolvimentismo, formuladas durante a década deiQPelê (ZÉ-M- (Cínissão Economica para a América Latina, órgão das_ Nações Unidas) e no Brasil pelo ISEB (Instituto Superior de Estudos Erasileiros). Destaca- va a industrialização dirigida pelo Estado como o meio pelo qualos paises subdesenvolvidos poderiam alcançar_ 1417140 Ç'°5°lm°'“° ã°°"°"“°9 e u: : posição mais vantajosa no comércio internacional. A versao de Kubitsc e_ enfatizam o nacional¡ _o brasileiro, estabelecendo metas de desenvolvi- _ mento destíiílís ; impelir o Pais-Dam 315m d” balmm d° subdesemml. em seu programa. Em primeiro lugar, ele argumentava que a construção¡ Jg da capital daria origem tanto à [QÉCÂTÊÇÉQ ¡IECÍQEÚ (l limÊgmçã° pela: ln: riorizaçào" era um de seus slogans) como ao tligvglylfffylllyí¡ 3:8'” a levando o mercado nacional às regiões de economia de subsistência. Em segundo lugar, ele sustentava ql-_le Brasilia im PgÍlEJE-“w paço nacional 691.99 ! HEIIQXEEÉEÉIEP Pa** “. *°. °'P°”“ . ° ° . feçbnomia e sendo ao mesmo tempo o marco decisivo na tratetóna tem- poral do pais rumo à sua emergência como uma grande nação- 25 V Q l
  14. 14. _ No plano de Kubitschek, essas inovações devenam cm" uma ¡nv sao no desenvolvimento: não apenas elevariam o Centro Oe t' 'er- ¡Fdeseíviívimento dorsudeste (isto é do Rio de Janeiro e dseeSÊo PNE] . _ _ - ao a - lo). mas, o que sena mais importante, conduzíriam o resto do paísua °mP°“h3"5° "a5 ¡HOVHÇÕCS introduzidas Por Brasilia. Assim esta se tor naria um “pólo de desenvolvimento" nacional uma "pedrayjogada pará . . 318! andas de progresso", como a retórica desenvolvimentista a definia 5 ma as mais s ' ' ^ . . _' é ucintas e dissemmadas imagens dessa pretendida inversão a que consta do mapa l. l. Desde 1956, aparece sob várias versões em Boa Vista Fortaleza Naiul um Branco Rttllf Cuiabá. . 92¡ . .e . (voiania 125 _ Rio de . lutlcim Saio Paulo L iiniiha l-'lnriiiiiópiilii Porin Alegre Mapa l. l Distância: entre Brasilia e a: capitais dos estudos Este mapa com fre quência ilustra a¡ discussões sobre "Brasília e o desenvolvimento nacional" Em um manual de estudos ' ' - - ma 7 _ 30011115 Para alunos do primeiro grau, por exemplo, ,me a R¡; “¡â:5é'” t" Seguinte paisagem: "A mudança da capital trouxe progresso para 5 e" “'05” 9 4' 9"" 15W" Pam 0 povoamento e desenvolvimento de gran- de Parte do território brasileiro A no *p [ r - ¡odu as regiões do Bras"" (Pemgine : t: : :PEIBOJISIIB por grandes rodovias a 26 João Pcxson Pubiicações tão diferentes como cartilhas de escola primária e relatórios governamentais sobre desenvolvimento regional. sugerindo a existência de ligações extensas entre Brasília e as diferentes capitais brasileiras, o mapa retrata Brasilia como um instrumento para criar não apenas a for- ma de um Estado centralizado mas também a civilização que este iria ad- ministrar. Contudo, tanto quanto o projeto de colonização que o mapa representa, suailigações ierritoriaissão na maioria imaginárias. São ape- nas represeríñções gráficas da distância linear, ainda não construídas sob r nenlíiíñaTõrfnãÍCóístitü m, enquanto tais, um mapa de intenções a res- ~ peito dos eixos do desenvolvimento econômico, os vetores da consolida- l ção politica, e os meios do progresso - em suma, um mapa da nação imaginária que com Brasíliaüse pretendia criar. ' " ' * ' * " ZCünrndoí quando oigoveíno Kubitschek anunciou em 1956 sua deci- ' são de transferir a capital para Brasilia, e audaciosamente fixou a data de 2l de abril de 1960 para sua inauguração, encontrou oposição de to- _ dos os lados. Imprensa, lideranças parlamentares, politicos locais de todos os matizes, e mesmo os jornais populares escarneceram do projeto como pura insensatez. Essa oposição compreendia quatro segmentos. Primei- ro, aqueles que eram simplesmente céticos quanto à capacidade do go- verno de construir uma cidade "no meio do nada". Em segundo lugar, muitos tinham dúvidas sobre a possibilidade de a capital, mesmo se sua construção fosse iniciada, ficar pronta durante o mandato de Kubitschek. Argumentavam que a construção jamais seria concluída pela administra- ção seguinte, ficando apenas como uma ruína incompleta e fabulosamente cara. Um terceiro grupo sustentava que todo o projeto era uma loucura do ponto de vista econômico, pois iria alimentar a inflação, deixando-a escapar de qualquer controle. Sugeria que se o governo de fato quisesse comprometer os recursos do pais em gigantescos projetos de desenvolvi- mento, haveria muitas outras regiões, a começar por aquelas já habita- das, necessitando de atenção prioritária? Mesmo o sentimento popular contra a capital descrevia o Planalto Central como um lugar irreal, habi- tado, no máximo, por indios - o que significa dizer, uma população que dificilmente se poderia considerar "brasileira" - e, portanto, inadequa- da para ser a sede do govemo federal. ” Kubitschek e seus aliados reagiram com uma hábil e bem-sucedida _ campanha para legitimar a construção da cidade. Essa legitimação com- binava uma mitologia do Novo Mundo e a teoria do desenvolvimento, _ associando afundação da capital à fundação de um novo Brasil. Ao lon- _ g5 da história brasileira, essa vinculação teve vários nomes, incluindo Nova Lisboa, Petrópole, Pedrália, lmperatória, Tiradentes, Vera Cruz e, por ñm, Brasília - cada nome simbolizando as intenções de seus proposito- res. Kubitschek e seus arquitetos amalgamaram essas intenções numa única A proposição retórica, expressa tanto na concepção modernista da cidade como no plano govemamental para ocupa-la. 27
  15. 15. OS INSTRUMENTOS DE MUDANÇA Os blocos de apartamentos de uma siiperquadra são todos iguais: a mesma fachada, a mesma altura, as mesmas facilidades. todos construldos sobre pilotis. todos dotados de garagem e construídos com o mesmo material, o que evita a odiosa diferenciação de classes sociais, isto e, todas as familias vivem em comum, a alto funcionário público, o médio e o pequeno. Quanto aos apartamentos há uns maiores e outros menores em número de cômodos, que são distribuidos, respectivamente, para familias conforme o número de dependentes. E por causa de sua distribuição e inexistência de discriminação de classes sociais, os moradores de uma superquadra são for- çados a viver como que no âmbito de uma grande familia, em perfeita coe- xistência social, o que redunda em beneficio das crianças que vivem, cres- cem, brincam e estudam num mesmo ambiente de franca camaradagem, ami- zade e saudável formação. [. ..] E assim e educada, no Planalto, a infância que construirá o Brasil de amanhã, já que Brasilia é o glorioso berço de uma nova civilização. (Brasília 1963 165-811: i5) Esta descrição de uma "perfeita coexistência social" não provém de um romance utópico, nem dos anais do socialismo fourierista. É, ria ver- dade, tirada da revista da empresa estatal que planejou, construiu e ad- ministrou Brasilia, de um "relatório" sobre as condições de vida na nova capital. Apesar disso, apresenta uma premissa fundamentalmente utópi- ca: a de que a concepção e a organização de Brasilia deveriam transfor- "nTar a sociedade brasileira. Mais ainda, faz isto de acordo com as cori- venções do discurso utópico: por meio de uma comparação implícita com as condições sociais existentes, e de sua negação, também implícita. Nes- te caso, as entrelinhas referem-se ao resto do Brasil, onde a sociedade es- tá perversamente estratiñcada em classes sociais, onde o acesso aos servi- ços e equipamentos urbanos é distribuido diferencialmente conforme as classes, e onde a organização residencial e a arquitetura são marcas pri- márias de situação social. Brasilia é apresentada não apenas como a anti'- tese dessa estratificação, mas também como seu antídoto, como o "ber- ço" de uma nova sociedade. Assim, quando os planejadores da cidade dores públicos de nivel inferior vivem “a mesma vi- da em comum" com funcionários mais qualificados, não e por assumi- rem que tal igualitarismo já existe como um valor básico na sociedade brasileira. Sabem que não. Na verdade, estão pressupondo o valor que eles querem criar entre os habitantes, sobretudo as crian , de Brasília. Para completar essa deliberada petição de principios, que parece funda- mental para esse gênero de discurso, expressam essa intenção como um fato, como uma transformação que e descrita no presente: alegam que, em Brasilia, já está negada a distribuição desigual de vantagens em fun- ção das diferenças de classe, de raça, de emprego, de riqueza e de fami- lia, que estrutura a vida urbana em outras partes do pais. 28 0 mecanismo desta negação e' a sua corpoíificação na orsanizacãg residencial da cidade. Está não apenas na distrib os dê @do com as necessidades de cada um, mas também, e principalmente, em seu próprio projeto. Assim, os planejadores afirmam que a_ “alaga- de" ou a estandardização dos BIQWÊTEÊQÊÊÍQUÍIHÕHÍCW 'Élntííç' 3 “mm” niinaçrão social. Por meio desta corporificação das intenções, propõem ' ¡fníírãação instrumgmal entre arquitetura _gsçcie/ rladgtãas 17655035 que moiaíifiiessesxpredios serãoTforçãdaÊ' a adotar as novas formas de ex- ~ periência social, de associação coletiva e de hábitos pessoais que essa ar- quitetura representa. Essa condução forçada de mudanças radicais nos valores e nas relações sociais é o instrumento essencial que os planejado- ¡es de Brasilia esperavam empregar no estabelecimento de suas prescri- ções igualitárias para uma nova sociedade brasileira. além disso, ao pl_a- ngjaxem uma cidade inteira, um ambiente completo, viam essa conduçao como uma c_apagel da evoluçíoivg, na qual caberia; air¡ , quitetos e urbanistas delinear os traços fundament s da sociedade _ _Xflsoíigodeste estudo, examino a materialização dessaslintençog na arquitetura e no urbanismoTfísiTfense _Começo pela identificação das râiíteúlectuais do roieírgglgjârasili_ enqiignt dade modernista, des- cos de afimdade com expe men s ru os e cut? - peus no campo do urbanismo moderno. FocallzT seu oíjetivo politico » 1› õi7riia_rVas cidades do capitalismo iñãiít P01' CXÍCD' ' aímciedãercíiítã ir¡ seguida', “reíacionõ-esses traiíoÉ-Eãsicos @É as intenções dos planejadores de Brasília no sentido de mudar a SO: ' , ciedade brasileira, e analiso suas propostas especificas. Estas baseiam-se ' "ñãnírñjmposições modemistas básicas que visam redefinir as ' funçoes- chave» da vid¡ uwana; 1) organizar a cidade'em zonas_e_x_clus_ivas e h9_ i mogêneas de atividade, baseadas numa tipologia prÍÉterminada de ñin- , ñÉsÍrban/ aíe formas de construção; Ziconcéntrar a funçao do traballio enmiação com assentamentos dispersos de dormitório; _3) instituir um novo tipo de arquitetura e organização residenciais; 4) criar uma cidade verde, uma cidade no parque; e 5) impor um novo sistema de circulaçao V1.. de tráfego. Analisada em separado no capitulo 4, esta última proposta nlo só elimina o sistema de ruas como espaço público e a multidão urba- - na que as ruas tradicionalmente veiculam nas cidades brasileiras; destrói ' também a estrutura arquitetônica do tipo de cidade que o modernismo H er atacar. Para entender o significado dessa transformação. estudo a a em cidades pré-industriais brasileiras - a Ouro Preto do século XVlll 6,0 Rio do seculo XlX. Nessas cidades, a rua define um contexto para a 'Vida social. nos termos de um contraste entre os espaços públicos e os 'Gãífícios privados. É este contexto, ou contraste. que Brasilia subverte¡ Avalie essas propostas conforme as alegações contidas nas premis- básicas de Brasilia. Essa avaliação se faz em diversos niveis de análi- 29
  16. 16. ;i- v( l , JD , u- u, i1_ f , du «f» . » M _Aç, n_¡_mt. ui›w _ _ se. De um ladodríneu objetivo é proporcionar uma visão de_com_g__as pro postas dos plantfadores estruturam a cidade ctmst/ ruida. De outro, exa i rrüñír as conseq ncias dessa estrutura no desenvolvimento da sociedade, L _ brasiliense. No primeiro caso, analiso as decorrências dessas propostas] " u enfocando sua coerência e suas contradições internas. Por decorrências , i i -' refiro-me às condições que derivam tanto da definição como do modo de expressão das intenções dos planejadores, em outras palavras, das pro- postas e dos valores que supostamente incorporam. Essa análise é hídr- tanfñãfa questionar uma-afirmação simplista, muitas vezes feita pelos próprios planejadores: a de que suas intenções estão mais ou menos per- feitamente realizadas em seus planos. Essa asserção lhes possibilita acu- sar forças extemas, fora de seu controle, pelo fato de seus planos terem dado errado. Contudo, a análise das decorrências reveladuas series de __ questões que solapam essaasserção no caso de Brasilia. Primeiro, deve-i . nios consí/ QÇL? ? Qüalnres que os planejadores acreditavam estar/ cggre- ( tizarííõem suas propostas¡ Por exemplo, iremos verificar se um progra-' › araÊterizado como igualitária, socialista ou coletivista pode ser intemamente contraditado se procura reestruturar as relações residen- 'ciais mas negligencia as relações de trabalho. Segundo, devemos exami- ' nar se os planejadores estavam enganados a respeito da real na ureza do programa social _a_ que__suas _propostas fazem referência. Deve ds deter-l, ' minar se suas propostas são os instrumentos corretos para alcançar os fins p ' desejados, ou se contradizem as intenções que supostamente concretiza¡ vam, e, portanto, se representam, uma vez construída a cidade, valores Í muito diferentes daqueles imaginados. A NEGAÇÃO DA NEGAÇÃO 0 segundo tipo de avaliação volta-se para as conseqüências do pl_a- * i nejamento no que se refere ao desenvolvimento da sociedade brasiliense. à Eñõírífênha sido concebida para criar um tipo de sociedade, Brasilia i foi necessariamente construida e habitada por outra - pelo resto do Bra- i sil, que se pretendia negar. O desenvolvimento social de Brasilia é impul¡ sionado pelas tensões e contradições entre as duas sociedades. Examino esse desenvolvimento nos termos de uma reação dosbrasilienses às desfa- miliarizações contidas nas suas pro-postasiirbanisticas e arquitetônicas - tanto em face das conseqüências involuntárias desuas contradições inter- nas quanto das suas realizações voluntárias. Analiso duas faces dessa rea- ção: como os bras' ' nses igterpretaram a negação que Brasilia opunha i, ' avidinas outras c_1 des brasileiras, e que tipo de processos sociais e_c_ul- turais essa interpretação gerou: Esses processos revelam que o paradoxo É do desenvolvimento de Brasi a não é o de que suas premiss/ ãsradicais 30 fracassaram em produzir al o de novo, mas, na verdade, que o que elas Í @nham contradisse o gue era pretendido. ' 7 Á piiñira geraíãb de migrantes, na Brasilia recém-inaugurada, ex- pressava suas reações de um modo capaz de sugerir a amplitude desse pa- radoxo. Cunharam a expressão “hrasilitd”, para descrever o impacto de Brasilia como um trauma. “Brasilite" é uma descrição amblgua, por in- cluir tanto reações negativas como positivas em face da cidade planejada (entrevistas, Brasilia, 1980-82). Todavia, em relação às premissas utópi- cas da cidade, essa ambigüidade vem apenas revelar um duplo paradoxo. Os aspectos negativos " tenções desfamiliarizadoras contidas na concepção de Brasilia. Rejeitain EEQQEÀQ B_as'il7urbano›, tal como coinuTríeiÍte expres na oíaniz ção e na arquitetuÊfda cidade. Assim, esses migrantes não apenas 'consi- deravamgigirgtpgasas "mesmaifaghadas", como também julgavam que a estandargiíagçãg produzia não a igualdadeLmas o anonimato entre os habitantes. Mais ainda, rejeitavama nústura de classesisociaisein' uma 'mesma superquadra, enca/ rando-a como fator explosivofõãpaz de desen- cadear conflitos entre vizinhos que possuíam valores e estilos de vida ir- reconciliavelmente distintos. Além disso, ao mesmo tempo em que apre- ciavam a ausência de congestionamentos de tráfego, reclamavam que a 'irrigação das ruas e das esquinas também eliminava algo de que gosta- vam nas cidades, os agrupamentos de pessoas. Sem a agitação das ruas, Êrasflja lhes_ parecia 'Ífria". Embora a separação 'ésiããbiai' entre as fun- ções de trabalho, moradia, lazer e tráfego produzisse uma clareza na orga- nimcão urbana. reduzáaanmesmotemizo 9 “S” dl? eâpaco. criando apenas ' um vaivém direto entre casa e lugar de traballio. Desse ponto de vista, os migrantes usavam o termoÚbrasilite" para se referir a seus sentimen- tQs com relação a umama cotidiana destituida dos prazeres - as distra- ' 't° $ã° dasín- ' l i i ções, as conversas, os ilertes e os pequenos rituais - da vida nas ruas . em outras cidades brasileiras. ' Essa rejeição da cidade utópica levou-os a reafirmar esquemas con- ceituais familiares a respeito da vida urbana - familiarizando uma cida- de desfamiliarizada. Assim, repudiaram a intenção d' 'lano piloto, cori- tTãÍia a exisTê-ncia de ruas, VOÍEÊ ãTijÉrÍ-telde suas lojas para a' calçada epara o trânsito. Ainda quaiixiitadarapenas a alguns setores comerciais, essa conversão reproduzia a vida da rua de comércio tradicional, em lu- gares onde a arquitetura pretendia nega-la. Embora não_ pudessem modi- ficar a fachada de prédios residenciais, :niños _bgurggatas _de alto escalão míldaramjgpara o outro lado do lago, onde construíram casas indivi- aims. Muitas vezes com considerável ostentação e com vários estiloside arquitetura, essas casas exteriorizam o status, a riqueza e a personalidade de seus donosem fachadas elaboradas, que negam a estética modernista'. Mais ainda, julgando uma "mesma vida em comum" intolerável, a elite 3¡ l i r-
  17. 17. abandonou a idéia de construir clubes igualitários nas superquadras, co- mas havia' sido planejado. En¡ vez disso, muitos se associaram em clgbes privados, organizados de acordo com critérios exclusivistas, antitéãticos aos ideais utópicos da organização residencial de Brasília. Em conseqüên- , cia, um aspecto importante dessa estrutura coletiva que se havia planeja- do entrou em colapso. Assim, ao rejeitar a negação dos padrões estabe- lecidos da vida urbana, os brasilienses reafirmaram processos sociais e ' valores culturais que_, o desenlxigííbanístico pretendia destruir. O que re- sultou não foi, obviamente, o velho Brasil, mas tampouco foi a cidade imaginada. Quando encaramos os aspectos positivos da “brasilite", vemos que " a resposta não foi menos paradoxal. A idéia de Brasilia negava duas ve- _ zes o velho Brasil: negava seu subdesenvolvimento assim como sua vida 4 urbana. Ainda que os brasiliense: rejeitassem a desfamiliarizaçãodesta i iiÍiiria, de forma pouco surpreendente aceitavam a negação do subdesen- volvimento. Assim, suas descrições da "brasilite" têm este aspecto posi- tivo: de forma consistente, apreciam as oportunidades econômicas e os padrões de vida mais altos que caracterizam a cidade. Que essas condi- ções devessem fazer parte de seu trauma é uma medida de como incon- gruentemente moderna é a cidade no Brasil. Nestas considerações positi-l vas, destacam-se acima de tudo as que dizem respeito à oportunidade eco- ¡ nômica. Sua ênfase nas possibilidades de trabalho traz a luz o papel doí Estado não apenas enquanto construtor e incorporador da cidade, mas¡ também, como discutiremos no capitulo 5, enquanto instância de esma- gadora presença no que diz respeito ao oferecimento de empregos e de: serviços urbanos. Ilustrarei brevemente a seguir os beneficios desse ofe-l recimento. Faço-o neste ponto não apenas porque isso revela o que os habitantes apreciam em Brasilia, mas sobretudo porque sugere uma cork_ cl/ usão paradoxal: a de que, buscando alcançar o desenvolvimento econô mico, o govemo reiterou algumas das condições sociais básicas do subde-J senvolvimento que ele inicialmente procurava eliminar. De diversas maneiras, o censo de 1980 confirma a posição proerni- nente que Brasilia ocupa como lugar de trabalho no conjunto do pais. Dá conta, por exemplo, que o_ Distrito Federal tem, de todos os estados e territórios do Brasil, a lnaior proporção de pessoas na força de traba- lho. " O censo também registra que "a proporção de mulheres economi- camente ativas é maior, e a proporção de crianças e adolescentes na força de trabalho é menor, do que em qualquer outro lugar. ” Mais ainda, co- mo indica a tabela 1.1, a remuneração do trabalho em Brasília tende a ser maior: a proporção dos que ganham acima de cinco salarios minimos é cerca de duas vezes maior do que a média nacional, enquanto a porcen- tagem dos menos remunerados é significativamente menor. Assim, uma porcentagem bem maior da força de trabalho situa-se, em Brasilia, numa faixa de renda média. 32 TABELA l. l População ocupada por renda mensal (em salários mínimos): Brasil, São Paulo, Distrito Federal (1980); Sobradinho, DF (1980); São Miguel Paulista, SP ([977) Renda Porcentagem da população ocupada mensal (salarios Distrito São Miguel mfnimos) Brasil São Paulo Federal Sobradinho Paulista < l-3 77,2 64,6 63,4 71,9 80,2 >5 11,9 17,1 22,3 12.8 6,7 5-10 7,2 11.0 10,8 9,4 [3,4]" >1o 4,7 6,1 11,5 3,4 [3,3]” Fontes: Para o Brasil, São Paulo e Distrito Federal, IBGE l981a; para Sobradi- nho, dados não publicados do censo, IBGE 1980; para São Miguel Paulista, Cal- deira 1984: 73 (tabela 10). Nara: 0 salário mlnimo em maio de 1977 era Cr¡ 1106 (USS 78,20) e, em maio de 1980, Cr! 4150 (USS 78,73). ' De cinco a sete salários mínimos. " Mais de sete salários minimos. Num pais onde mais de três quartos da população são pobres, as con- dições relativas de pobreza urbana são urna consideração crucial. Se se compararam essas condições em Brasilia com as de outras cidades brasi- leiras, até mesmo a relativa prosperidade de sua população pobre toma- se evidente. Como a maioria dos brasileiros pobres vive na periferia das grandes cidades, a tabela 1.1 contrasta urn dos bairros típicos da perife- ria de São Paulo, São Miguel Paulista, com uma das cidades-satélites de Brasilia, Sobradinho. Embora os números da população pobre em am- bos sejam assustadores, como porcentagem da população total são nota- damente mais baixos em Sobradinho. Mais significativo ainda é o fato de que a proporção dos que ganham acima de cinco salários mínimos men- sais é aproximadamente o dobro. Além dos baixos rendimentos, a mais importante condição de pobreza na periferia das cidades brasileiras é a falta de serviços urbanos básicos. Também neste caso, os serviços nos bair- ros da periferia brasiliense são visivelmente melhores do que os de São Pau- lo. Clomparem-se alguns dos serviços na periferia mais pobre de São Paulo, tecnicamente denominada por um estudo da Emplasa de Área VIII (onde está localizada São Miguel Paulista), com os da mais pobre cidade-saté- lite de Brasilia, Ceilândia. ” No final da década de 1970 e inicio da de 1980, apenas 19% das residências na Área V111 tinham esgoto; 5%, tele- fone; 80% contavam com serviço de coleta de lixo; e 25% das ruas, em sua maioria sem calçamento, tinham luz elétrica. Em contraste, em Cei- 33 Ç.
  18. 18. lãndia 60% possuíam esgoto; 11%, telefone; lO0"7n, coleta de lixo; e 74% das ruas tinham iluminação. ” No que tange à educação, São Miguel Pau- lista tinha uma escola de primeiro grau para cada 1429 crianças em idade escolar, enquanto em Ceilândia havia uma escola para cada 1080 crian- ças e. em Sobradinho, uma para cada 499. Tomadas em conjunto, essas condições comprovam um dito bastante conhecido na capital: é melhor ser pobre ein Brasília do que no resto do pais. i f a õ ' Quando consideramos as condições urbanas e as oportunidades de emprego oferecidas no Plano Piloto - a cidade modernista propriamen- te dita -, distinguindo-as das existentes nas cidades-satélites (mapa l.2), ñca evidente que la a qualidade de vida, medida segundo esses critérios, é excepcional. Não apenas os serviços de infra-estrutura são excelentes; o que torna a situação extraordinária para os padrões brasileiros é o fato de que pode ser aplicada para a cidade inteira. Entrevista após entrevista, os habitantes registram essa diferença básica: o Plano Piloto está livre dos problemas que afligem outras cidades do Brasil - congestionamen- to, altas taxas de criminalidade, miséria onipresente, precariedade dos ser- viços urbanos, poluição. 0 Plano Piloto está a salvo de "toda essa desor- dem". Pelo contrário, na capital "as coisas funcionam"; o cotidiano de trabalho é “fácil", a vida de todo dia é "tranqüila". Quando se acres- centam a estas vantagens as oportunidades, a segurança, os salários e gra- tificações dos empregos públicos, a “boa vida" de Brasilia é bem seduto- Planaltina AR v1 o Plano Piloto Taguatinga Gun? D Núcleo Bandeirante Mapa l .2 Plana Pílula, cidades-satélites e regiões administrativas do Distrito Fe- deral, 1980. 34 ya; ou seja, na avaligão de seus habitantes, as VÀÍHÍQQBHS práticas supe- il ram o sentimÊntoAde desfamiliarização. Especialmente quando se leva em _l conta a progressiva deterioração das 'condições urbanas em outras partes do país no decorrer das duas últimas décadas, os atrativos da "ordem" que reina em Brasilia terminam superando - rapidamente, às vezes - a sensação de perda que os residentes do Plano Piloto em geral experi- mentam em relação a suas cidades de origem. sem dúvida, é dificil julgar opiniões desse tipo. Todavia, assim co- - mo as avaliações desfavoráveis a Brasília se manifestam em processos so- ciais: ações e atribuições de status', também as avaliações favoráveisse Éfletem desse modo. Uma indicação disso é ovfato de as pessoas que têm possibilidade de deiiar a cidade - como os que ocupam altos postos na burocracia federal, sobretudo em nivel ministerial - preferirem lá per- manecer. Essas pessoas normalmente têm "cargos de confiança", ou se- ja, são nomeadas e, portanto, dependem. para sua permanência no pos- to, da sorte de seus superiores. Como resultado, não apenas têm maiores oportunidades de ascensão profissional, como também perdem seus em- pregos com mais facilidade do que os outros burocratas, especialmente quando há mudança de governo. Como também têm possibilidade de ar- ranjar trabalho em outros lugares, desenvolvi pesquisas em diversos mi- nistérios para saber se tais funcionários iriam deixar Brasilia quando ti- vessem de largar seus empregos. ” Os resultados mostram que a escolha era, por larga margem, a de permanecer na capital, o que conseguiriam obtendo nomeações similares em outras instituições governamentais. A l relutância que demonstram em se mudar de Brasilia desmente a idéia de uma elite burocrática "aprisionada" na cidade. Na verdade, indica que Í a elite brasiliense consiste no corpo estável daqueles que circulam. como ãTlíkndogamicamente", nas posições privilegiadas da burocracia. Contudo, a permanência dessa elite sugere um paradoxo perturba- dor: consideradñeín relaçãocom a pobreza das cidades-satélites, os pri- 2 vilégios do Plano Piloto contradizem as premissas que nortearam a funda- _ cão da cidade. Pois os planejadores queriam fazer de Brasilia um exemplo; - de progiesso, negando as condições do subdesenvolvimento na constru- ção e na ocupação da cidade - e não simplesmente deslocando-as do li- toral para o interior, transportando-as das grandes cidades para Brasilia, ou transpondo-as para outra escala. Todavia, a simples existência das' cidades-satélites, onde vivem quasegrêsquartos dTjíõpulação do Distrito Fpedweral, subverte essa intenção, reproduzindo a distinção entre o centro privilegiado e a periferia destituida - um dos traços mais básicos do res- (o do Brasil urbano e do subdesenvolvimento que os planejadores de Bra- silia queriam negar ao construir seu novo mundo. 35 P. ) / _-
  19. 19. Mais ainda, se examinarmos de novo a tabela l. l, perceberemos que essa subversão desenvolveu-se de modo perverso: o desenvolvimento da sociedade brasiliense não apenas reproduziu as ordens sociais do meio cir~ cundante em sua capitãlfõxemplar. mas também exagerou as distorções presentes no resto do país. Esse exagero fica nítido quando comparamos a proporção dos que têm rendimentos altos em relação aos que recebem salários médios. Vemos que a notável concentração dos que recebem aci- ma de cinco salários minimos no Distrito Federal não se deve a uma pre› dominância dos que se situam na faixa média entre cinco e dez salários. Nessa faixa, a proporção verificada em Brasilia não se diferencia da de São Paulo, e Sobradinho, na periferia, quase chega a representar o distri› to inteiro. Na verdade, é devido à faixa dos rendimentos mais elevados, acima de dez salários minimos mensais, que o Distrito Federal ganha nas comparações: sua proporção é o dobro da de São Paulo, duas vezes e meia a do Brasil, e três vezes e meia a de Sobradinho. Como discutiremos num capítulo posterior, a distribuição espacial da população de alta renda é Ç absolutamente concentrada: encontra-se, de modo avassalador, em Bia- silia - isto é, no Plano Piloto e nas residências do lago -, e nããñas' cidades-satélites. Importa ressaltar que, na medida em que essa concentração se aplica i¡ a todas as áreas da cidade, as desigualdades sociais que dai' decorrem es- tão associadas a uma extraordinária estratificação espacial entre centro ' i e periferia, Mais ainda: di tribuição de renda revela apenas em Íiãrte¡ a amplitude dessa diferenciação. Com efeito, as disparidades entre Brasi- lia e seus satélites são ainda mais graves, uma vez que a boa vida na capi- tal baseia-se, num grau considerável, em beneficios funcionais - as "mor- domias" - que elevam ainda mais os rendimentos dos burocratas de eli- te em todos os setores de governo. Conforme seu nivel, esses funcioná- rios contam com moradia, carro, comida, telefone e empregados - os quais, evidentemente, vêm das cidades-satélites. ” ' ' 'dades Ligerem que o êxito _da "grdenif em Brasilia de- sirgnifi ativo, do fato de se manterem as forças da "de- sordem" fora da capital e na periferia. Assim, seus altos padrões de vida parecem basear-se num tipo de estrutura social dual. A parte 3 deste livro' analisa o desenvolvimento dessa sociedade estratiñcada e mostra que ela' subverteu de maneira inequívoca as premissasjundadoras do governo. i O fato de Brasilia ser uma cidade burocrática, onde os planejadores go- vernamentais tiveram tanto o poder quanto os recursos para levar adian- te seus planos, indica que as próprias iniciativas governamentais em or- ganizar a cidade promoveram tal subversão. A parte Ill demonstra a for- ça desse paradoxo no desenvolvimento da sociedade brasiliense. 36 2 UTOPIA ARQUITETÔNICA Brasilia é tomada, neste livro, como um estudorde caso da cidade modernista tal como proposta pelos manifestos dos Congres Internatio- ' , ,._J _ nafuídhkrchitecture Moderne (CIAM). Corponfica, em sua forma e or- , ' ganização, a premissa de transformação social dos CiAM, ou sejaía de j' _ que a arquitetura e o urbangmq modernos sao os , meios para a criaçao i de novas formas de associação coletiva, de hábitos pessoais e_de vida co» , l ti 'anaÍ Este capítulo delineiaios traços bãsicosdo modelo de cidade dos CIAM e coloca a concepção de Brasilia no contexto histórico do moder-_ nismo vanguardista. O "PEDIGREE" DE BRASÍLIA Brasilia é uma cidade dos CIAM. Na verdade, é o exemplo mais com- pleto já constniido das doutrinas arquitetônicas e urbanísticas apresenta- das pelos manifestos dos ciAM. De 1928 até meados da década de 1960,_ os ClAM constituíram o mais importante fórum internacional de debates sobre a arquitetura modema. Os encontros e as publicaçoes dos ClAM fir- maram um consenso entre os profissionais de todo omundo a respeito dos problemas essenciais da arquitetura. dando espeçial atenção aos da cidade moderna. 0 Brasil estava representado nesses congressos desde 1930, e Lúcio Costa e Oscar Niemeyer puseram em prática os principios dos CIAM com notória clareza! Demonstra-se com facilidade que a concepção de Brasilia deriva das l propostas dos CIAM. Em seu manifesto mais significativo, A Carta de Ale-l nas, os objetivos do planejamento urbano são definidos a partir de qua- tro funções: "As chaves para o planejamento urbano estão nas quatro funções: moradia, trabalho, lazer (nas horas livres), circulação" (Le Cor- busier 1957 [194112 art. 77). A última função, "circulação". estabelece 37
  20. 20. l "uma comunicação proveitosa entre as outras três" (ibid. , art. 81). Em um encontro posterior, o CIAM aumentou o número dessas funções, in- cluindo um "centro público" de atividades administrativas e cívicas. Os planejadores sêreferem à organização dessas funções em tipologias de atividade social e de forma de construção pelo nome de "zoneamento". 0 que distingue o zoneamento modernista dos que o precederam é a idéia - de que a vida urbana pode ser entendida, para fins de planejamento, em termos dessas quatro ou cinco funções e, 'o que é mais irñnpoñnte, que l estas deveriam ser organizadas em setores mutuamente excludentes den- tro daieidade. Juntamente com acirculaçãõ, essa organizaçããdetÉF-lina tanto a ordem interna como a forma geral da' cidade dos CIAM: f ' Considere-se agora o plano de Brasília (figs. 2.14.2): é uma ilustra- ção perfeita de como o zoneamento dessas funções pode gerar uma cida- de. Um cruumento de vias expressas determina a organização e a forma da cidade exatamente como Le Corbusier (l971a [192412 164), o mentor dos CIAM, preconizava em uma publicação anterior: "Correndo de nor- te a sul, e de leste a oeste, formando os dois grandes eixos da cidade, ha- verá grandes artérias para o tráfego de alta velocidade em uma única di- reção" (fig. 2.3). Superquadras residenciais são colocadas ao longo de um dos eixos; áreas de trabalho ao longo do outro. 0 centro público se localiza num lado do cruzamento entre os dois eixos. A área de recreação toma a forma de um lago e um cinturão verde rodeia a cidade. Et voilà - planejamento urbano total. Compare-se, agora, a vista de Brasilia com a das duas cidades ideais de Le Corbusier, Uma Cidade Contemporânea para Três Milhões de Ha- bitantes, de 1922, e A Cidade Radiosa de 1930 (figs. 2.4213). Estes dois projetos tomaram-se protótipos para o modelo dos CIAM definido na Car- ta de Atenas. Notem-se as similaridades explícitas entre ambas e Brasilia: o cruzamento de vias expressas; as unidades de moradia com aparência e altura uniformes, agrupadas em superquadras residenciais com jardins e dependências coletivas; os prédios administrativos, financeiros e comer- ciais em torno do cruzamento central; a zona de recreação rodeando a cidade. 0 “pedigree" de Brasilia é evidente. Tais comparações não têm o objetivo de diminuir a originalidade de Lúcio Costa ou de Oscar Niemeyer ao darem forma final às propostas . dos CIAM. Cada projeto arquitetônico tem sua propria história e sua “an- gústia de influência". Mais ainda, háídiferenças entre os projetos de Le Corbusier e Brasilia. A arquiteturfdememeyer, por exemplo, é nitida- ' mente mais leve e mais icônica que a de Le Corbusier, e o plano de Lúcio Costa inclui iiTn centro pjibliço - a quinta função, que ainda não havia Ç sido definida quando Le Corbusier criou suas cidades ideais. Tampouco estas comparações pretendem sugerir que o projeto de Lúcio Costa não merecia ter sido escolhido, entre os 26 candidatos que participaram do 38 , guarani A sam Culturll , sdnr n: uma: b s”, .k Fan-nona¡ e Banco¡ 7 Sant Comníill n Sant a. Hum q um a: wro- TV | D Sam de Exame ¡¡ Pnçl MMHP¡ n. 0mm* u aum u. mm e rails: :- um cum: mwm : :Í zmmaiinzminaa minimum I m . n. malagueta. : , _ . âà u Mamãe ~ wwmwi. 5 no. 11mm¡ sum-im , zi. :animou n. Clube a: entre n. taum-i de Onibus u. In: Clube ~ 25. warm. Praldmnll u. iam m» 11. Área Dm Far». GM! u Mmwnn 19. cantam Fig. 2.1 Lúcio Costa, plana piloto de Brusúia. 1957. ' O * . HÚVEW . M_ ñb_ "í m7; _v Fig. 2.3 Le Corbusier, Uma Cidade Contemporânea para 'Iiês Milhões de Habitantes "W111i em perspectiva, 1922.
  21. 21. Fig 2.4 Le Corbusier, Uma Cidade Contemporânea pan Três Milhões de Habitantes perspevti va, 1922. 'i4 'Cidade ' vista da grande via exprma arterial. À esquerda ea direi- ta, aredtftí-ios administrativos. Ao funda os museus e universidada. Vê-re o conjunto dos arranhacéu¡ banhado em luz e ar" (le Corbusier 1937: 36). Fig. 2.5 Le Corbusier. Uma Cidade Contemporânea pan¡ Três Milhões de Habitantes, perspectiva, 1922. "Uma rua correndo sozinha ao longo de um grupo recortado de ha- bitações (seis de doi: andares) Os recortes' criam uma bnprmão arquitetônica unica. um eco distante das tipicas 'rtras-carredari Jbdajanela de cada apartamento (dos dois la- dos) da' para o parque" (Le Corbusier 1937: 36). F ig. 2.6 Vista aérar da Asa Sul, amam, 1981. Fig. 2.7 Visit¡ aérea do cruzamento dos Elm¡ Raidencial e Monumental; Plataforma e 7ênnínal E Rodoviário; esetores de Diversões, Bras/ lia. 19.91. p, , Fig. 2.8 Bixo Monumental vista do Congrsso e da v: V” Esplanada dos Mnirtérios a partir do Supremo Tribunal na Pmm dm- 77iêv Andam: Brasúia 1080 1 . Í s. r › 'x _ d 5 _ . Ás. s, 4-. .. ›F› 1 9 cgrbmier maquete da Cidade Rndiosa Fig. 2.10 Le Corbusier, maquete da Cidade Ig. . › muda sem, miriam-rh! , 1930 "Em zona: de Radiosa mostrando a setor residencial. 1930. mas ' habitação como sta, as ruas não têm daculpas para existir. A cidade tornou-se uma cidade verde. 54mm¡ usados pelas criança. : evtãa situados em _ parques. Adolescentes e adultos podem praticar __ , r** , aportar ao ar livre apenas saindo de sua. : casas. _ ' ° 4 Canos circulam em algum outro lugar - onde são 'V4 r _ úteis para alguma boba" (Le Corbusier 1939: 33) 4;. .. .a Fig. 2.12 Vista de prédios de apartamentos e playground da Superquadnz 108 Sul, Brasilia, 1980. Fig. 2.11 Vista dox setores residenciais da Asa Sul, “Wma, 1981. Wa. 2.13 Vista aerea dassuperquadrus aos, 307. ! O8 e 107 da Asa Sul. Brasília. 1981.

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