Papafigo

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Papafigo

  1. 1. Papafigo de David Machado Santos Filho
  2. 2. Papa figo é uma figura lendária do folclore brasileiro, conhecida principalmente na Bahia. Hárelatos em que ele se parece com uma pessoa normal; para outros, teria unhas de ave de rapina, eorelhas e dentes de vampiro. Ele matava meninos e meninas mentirosos para chupar-lhes o sanguee comer-lhes o fígado (daí o nome, corruptela de papa-fígado). Isso porque ele sofria de umadoença rara (para alguns, o mal de Hansen, o que explicaria sua aparência grotesca), e acreditavaque sangue e fígado de crianças o curariam.
  3. 3. Papafigo Ele chegou vindo da direção do sol poente, que presenteava todos os que o aguardavam comum magnífico arrebol, coroando o horizonte daquela planície descampada ao lado do colégio. Ascrianças saiam naquele exato momento em direção a suas casas, após uma tarde de aulas. Seusemblante era simpático, a longa cabeleira vermelha era ainda mais realçada contra o sol poenteatrás dele. Trazia balas, doces, brinquedos, guloseimas e histórias maravilhosas. Muitorapidamente, assim que começou a contá-las, reuniu logo uma roda de crianças em volta para ouvi-lo atentos. Ele descrevia mundos subaquáticos, pedras falantes, árvores que guerreavam e protegiamas antigas florestas que, em suas próprias palavras, "cobriam isto tudo em volta que vocês veemagora, ocupados por feios prédios cinzentos". A conversa era empolgante. Muitos alunossimplesmente se esqueceram de voltar para casa: permaneceram lá, suportando um pequeno frionem tão intenso assim (naquele mês de julho o inverno estava realmente bastante ameno).Empanturram-se de açúcar enquanto ouviam aquelas histórias incríveis, de um tempo tão antigo quenenhum deles era capaz de conceber.---------- “Mais três garotos desaparecidos ontem, segunda-feira. Já são cinco, contando os outrosdois da última sexta-feira. Até o momento a polícia não tem nenhuma pista. Descarta-se a ideia desequestro, já que até o momento os desaparecidos são de famílias de classe baixa e médio-baixa,sem grandes recursos financeiros, o que elimina o resgate como possível motivação dos crimes.Voltaremos com um novo plantão assim que tivermos maiores detalhes deste terrível incidente.” Dona Zélia ficou realmente preocupada com o noticiário da TV local. Ela conhecia a mãede um dos desaparecidos, ela morava bem perto. Não seria melhor que o filho não fosse à escolapelo menos hoje? Ou enquanto durasse esta ameaça? - Cadu, toma cuidado filho! Não fale com nenhum estranho. - Relaxa, mãe! - respondeu no típico tom de um pré-adolescente, seguro de que o mundo lhepertencia. - Eu sei me cuidar! - Não vai sair por aí... - Mãe, tá cheio de polícia aí fora! Ninguém vai ser louco de tentar nada! - Saindo da aula, venha direto pra casa! - Ah, mãe! Não sou mais criança. Enquanto Cadu passava pelo portão de casa, Dona Zélia tentou reforçar o aviso,assustando o garoto: - Você sabe, direto pra casa, hein! Senão o Homem-do-saco... - Ah, Mãe!!! Brincadeira, né? - joga a mochila do lado direito do corpo e sai indignado emdireção à escola.==========
  4. 4. “Minha mãe tem cada uma!”, pensava Cadu, deixando a sala de aula em direção ao portãode saída do colégio. “Homem-do-saco? Ela acha que tenho quantos anos? Tenho doze, caramba! Jásou grande! Isso me assustava quando eu era criança. Agora não assusta mais!” Procurou pelos amigos, não encontrando nenhum. Onde teriam se escondido? Foram paracasa direto? Estariam também assustados com toda aquela história de desaparecimento? Continuoucaminhando para os portões. Atravessando os portões do colégio, vê uma rodinha de moleques a certa distância, nodescampado ao lado. “Vou só dar uma olhadinha”, pensou, incapaz de conter sua curiosidade.Reconheceu na rodinha o rosto do amigo Tico. Animado ele acenou de longe. Chamou Cadu,dando-lhe um empurrãozinho a mais para se decidir: - Chega aí, Cadu! - ele comia uma barra de chocolate, e o rosto parecia bem animado. - Essecara aqui está contando cada história incrível! Você tem que ouvir! - olhando bem, Cadu concluiuque o amigo estava bem mais animado que o normal! O rapaz de cabelos vermelhos continuava falando. Mencionava uma festa com mágicos deverdade. “Nada de ilusionistas, nem truques. Falo de mágica mesmo! De flores brotando do fogo,serpentes vestidas de estrelas... este tipo de coisa”. Só então ele repara Cadu, novo na roda, ouvindocom olhos arregalados: - Quer um doce, garoto? - oferece o estranho rapaz de cabeleira vermelha, enquanto Cadutenta educadamente recusar. - Agora não! Depois! Os olhos do estranho parecem brilhar. - Muito bom, garoto! Muito bom! Você é diferente dos outros... Tico, ao lado de Cadu, ficou bastante entusiasmado com a ideia da festa: - Nesta festa mágica que você diz aí, vai ter garotas? - Várias delas! Uma mais bonita que a outra! - Conte mais disso pra gente! E continua contando as histórias para uma plateia vidrada, incapaz de piscar os olhos.---------- “Dois corpos foram encontrados!”, noticiava um plantão do jornal local, interrompendo anovela que Dona Zélia assistia atenta. “Os dois garotos, desaparecidos na semana passada, foramencontradas mortos no lixão da cidade. Apresentavam um corte costurado do lado direito doabdômen, e seus fígados haviam sido removidos. A polícia federal já foi acionada, e trabalham coma hipótese de tráfico internacional de órgãos. Os outros três garotos desaparecidos ontem aindanão foram localizados...” - Cadu! Cadê o Cadu? Onde está meu filho? Já deveria ter chegado!
  5. 5. - Calma, mulher! - Seu Mauro acabara de chegar, e tentava tranquilizar a esposa. - Não vápensar besteiras! Ele deve estar aprontando alguma com os amigos. Daqui a pouco ele chega! “Ainda é um mistério o motivo de apenas os fígados serem removidos, preservando-seintactos todos os outros órgãos. Segundo o investigador do caso, o Agente da Polícia FederalAfonso Chagas, isto não faz parte do ‘modus operandi’ de traficantes de órgãos, que normalmentetentam aproveitar o máximo possível de suas vítimas.” - Ouviu? Ouviu isso? Vou ligar para a polícia agora!! Ela tentou. Várias vezes! Mas as linhas estavam todas congestionadas, como era de seesperar naquela situação. O desespero começava a tomar conta daquela casa...========== Cadu não sabia ao certo o que o convenceu, mas caminhava agora lado a lado com oestranho. Foram duas, três horas ouvindo aquelas histórias maravilhosas? Não sabia ao certo, mas ofato é que era noite fechada de inverno agora, o sol já havia descido o poente há muito tempo! O estranho tinha uma mania bem estranha de bater com os nós dos dedos em todos os postese árvores que encontrava no caminho. Cadu estranhou muito aquilo, mas achou que não seriaeducado perguntar algo sobre esta mania maluca. - Você não gosta muito de doces, não é mesmo... Qual seu nome? - Cadu! - Cadu... - repetiu o estranho. - Nome bonito! Ele ainda se lembrava do apelo do amigo Tico, então vermelho como camarão evisivelmente alterado. O que havia naqueles doces? “Não vai, Cadu! Sua mãe vai ficarpreocupada!” Mas para ele eram todos um bando de medrosos. O estranho havia falado de umafesta mágica. Mais que isso, garantiu que haveria garotas lá. E o rosto do estranho inspirava tantaconfiança que o garoto o seguiu sem medo. Cadu, o destemido, que não tem medo de nada! Agoracomeçava a se arrepender... mas seria incapaz de fazer feio perante o estranho. - Não é muito longe, mas tem uma boa subida! Está bom das pernas? - Vamos lá! Poderia escalar o Everest. - disse o garoto confiante, cheio de coragem. Ele sabia que não deveria subir o morro, ainda mais com um estranho! Mas iria mostrarfraqueza? Lógico que não! E foi assim que ele acabou se perdendo em meio aos labirínticos becosdaquela favela, acompanhado de um estranho que o encorajava o tempo todo. - Relaxa, comigo você está seguro! Você nem imagina o que existe onde estou te levando! Seguiu morrendo de medo, mas confiando no novo amigo.---------- - Ah, graças a Deus! É meu filho, ele sumiu! Faz horas que devia ter chegado do colégio!Estou desesperada!
  6. 6. - Calma, senhora! Conte-nos tudo: quem é, de que colégio, desde quando desapareceu, comquem estava... - Este traficante de órgãos! Sei que ele pegou meu filho! Que eu faço? Que eu faço?!! - Não vamos nos precipitar, senhora! - Eu disse para ele não ir pra escola! Eu disse!! - e começa um choro convulsivo. SeuMauro precisa tomar o aparelho telefônico para continuar a conversa com o atendente da polícia. - Minha mulher está incapaz de continuar, eu lhes dou os detalhes. - Por favor, senhor... - Mauro! - Senhor Mauro, qualquer informação nos será útil. - Então... Nosso filho costuma sair 17:30 do colégio, e em no máximo 15 minutos está emcasa. Mas até o momento... - agora é ele que começa a soluçar. - Fiquem calmos! Mandaremos uma viatura até aí imediatamente. Podem fornecer oendereço?======== - Já tomou cerveja, Cadu? - Lógico que não! Meu pai não deixa. Por quê? - Só curiosidade! Nem escondido? - Nem escondido. - e pergunta, desconfiado. - Vai ter cerveja na festa? - Não vai ter não. Você é bem novo, né? Continuam caminhando, subindo ladeiras cada vez mais íngremes. “Mesmo alpinistas teriamdificuldade em subir aqui”, pensa Cadu. Olha para o abdômen do garoto. - Você não tem barriga d’água também, né? - Que é isso? O estranho olha a barriga reta do garoto: - Esquece! Você não tem...
  7. 7. Depois de atravessarem becos tortuosos, chegam ao alto do morro. Uma grande pedra negrase ergue no centro de uma espécie de praça, rodeada de construções mal acabadas de alvenaria ealgumas de madeira. - É aqui! - Aqui? - estranha Cadu. - Você precisa confiar em mim agora, Cadu. Nós vamos entrar! - Na pedra? - Sim, na pedra! Você acredita em Mágica? - remexe seu bolso, e tira uma pequena bolotaesverdeada dele. - Mas antes você tem que tomar isto aqui! Para entrar! Cadu olha desconfiado. Seria educado recusar? - As pessoas normais não veem a entrada. Procuram, procuram... mas não encontram nada.Porém ela existe! Mas você precisa tomar isto aqui, garoto! Para ver onde ela está. Cadu olha em volta. Há certa distância, vê uma rodinha de moleques fumando qualquercoisa malcheirosa. Pensa: "Vou fingir que tomo, e depois eu cuspo". Assim pega a bolinhaesverdeada oferecida pelo estranho e a leva à boca. Mesmo sem engolir, o efeito surpreendente émágico! Vê claramente uma abertura levando para dentro da rocha! Como não vira antes?Acompanhando o estranho de cabelos ruivos, ambos entram na pedra e encontram uma escadariaem seu centro talhada em rocha, que começam a descer. A paz jamaicana daquela roda é interrompida por uma observação inesperada. - Cê viu aquilo, maluco??? - um dos integrantes da rodinha, de pele bem negra e com umboné vermelho-vivo sobre a cabeça, dá o alarme. - Os caras entraram na pedra!!! Entraram napedra, cara!!! - Ah, Perê! Nem vem com história! - Sério! Eu vi! - Para de inventar coisas e passa logo esse cachimbo aí! Esse fumo tá bom mesmo... Quando o moleque se levanta da roda num pulo, fica claro que ele tem uma única perna.Salta em direção à rocha, passa as mãos incrédulo sobre a superfície negra. - Eles entraram por aqui! Eu vi! Juro!! Mas só havia uma parede de pedra sólida. Todos começam a rir. - Cê ta bem lôco mesmo, Perê! Acho que já fumou demais! - Eu vi! Eu vi! Juro! - Ah, Perê! - se impacienta um da turma. - Deixa de lorota e volta aqui, põe logo estecachimbo na roda de novo!
  8. 8. Saci Pererê, vulgo Perê, volta com a pulga atrás da orelha. Que ele viu os caras entrarem napedra, isto ele viu! Fumava há bastante tempo, sabia muito bem separar o que era alucinação do queera real. E o que ele viu era real! Os dois caras, um garoto e um rapaz de pernas tortas, literalmenteENTRARAM na pedra!... A descida era interminável! Cadu ainda não tivera chance de cuspir a bala de estranho sabor.Não era doce, nem azeda, nem salgada, nem amarga... Mas tinha um gosto! Ele não saberia explicarqual, mas tinha! Uma palavra lhe surgiu na cabeça. Ele tentou afastar como absurda, mas nãoconseguiu: a bala tinha um gosto de “verde”! Gosto de “verde”? Sim, agora estava claro: a balatinha “gosto de verde”! A descida só não se dava em completo breu porque uma luz alaranjada parecia vir do fundodaquele poço, ladeado pela escada em espiral. - Põe a mão na parede, vai se sentir mais seguro! A parede parecia ser de granito, também esculpida em rocha sólida. Mesmo material daescadaria. Estava úmida, aqui e ali aparecia um pouco de limo. Mas, apesar disto, os degrauspermaneciam incrivelmente secos! Logo Cadu descobriu o porquê: entre a parede e a escada emespiral havia sido escavada uma pequena valeta, que acumulava a água que escorria pelas paredes ea levavam diretamente para baixo, preservando secos os degraus de granito. “Por que aqui embaixotudo parece ser de granito, se a pedra por onde entrei era bem negra?”, ele pensou. Bom, era nuanova, a noite estava bem escura. Provavelmente a pedra só parecia negra naquelas condições defraca iluminação. Continuou descendo... O estranho vigiava Cadu o tempo todo, desconfiado de algo. Enfim Cadu aproveitou ummomento de distração e cuspiu a “bala verde”. Mas, embora não a tendo engolido, uma sonolênciaseguida da clara impressão de que as paredes se moviam e respiravam indicava que o pouco do queconsumiu fez algum efeito. Desabou desacordado. Felizmente o seu acompanhante, atento, osegurou. Colocou-o dentro de um saco de estopa que trazia escondido, e continuou descendo com ogaroto nas costas, dentro deste saco.---------- O novo dia mal havia amanhecido quando o investigador Afonso subiu o morro em buscade informações. Os amigos do garoto deixaram claro que ele e o desconhecido ruivo seguiram emdireção à favela! Como era de se esperar, na favela ninguém viu nada, ninguém sabia de nada...Um garoto e um rapaz de cabelos ruivos? "Imagina, doutor! Por aqui não passou ninguém assimnão..." Mas um moleque de pele bem negra usando boné e bermuda vermelhos se apresentou. Naverdade, quase é impedido pelos amigos, aflitos: "Vê lá o que vai falar, cara! Ele é polícia,entendeu? Polícia!" Mas o moleque se apresentou ao investigador apesar de todas asrecriminações dos amigos. Só que seus olhos vermelhos injetados fizeram com que o investigadornão desse, logo de cara, muita importância ao que ele porventura teria para dizer. Ainda assim,ouviu! No pé em que estavam as coisas, qualquer informação era informação. - Eu vi bem assim, doutor! Um menino e um rapaz de cabelo vermelho! Eles entraram napedra!
  9. 9. Entraram na pedra? Que história era esta? Que alucinação louca aquele “nóia” veio lhedescrever? Olhou os olhos vermelhos do moleque. Seria ocasião de dar logo um flagrante? Melhornão, havia algo muito mais importante para resolver naquele momento. Hora ou outra alguém iriapegá-lo. Continuou ouvindo: - Pedra? Quem? Que pedra? - com sede, pega uma garrafinha plástica com um resto deágua mineral ao fundo. Havia falado com muita gente, não havia pregado o olho desde que aquelamãe aflita avisou de um novo desaparecimento. A madrugada inteira acordado, falando compossíveis testemunhas. Estava com a boca seca. - O rapaz mais velho tinha pernas bem tortas... - Perê olha triste sua perna única,mostrando que ainda não estava superada sua deficiência, e completa: - Mas pelo menos ele tinhaduas... Tortas ou não, ele tinha duas... - Tortas? Como assim? Um ruivo de pernas tortas? Animou-se um pouco. Aquela descrição bem incomum reduzia bastante seu campo debuscas! Quantos ruivos de pernas tortas deveriam existir por aquelas redondezas? O investigadorabre a garrafa, toma o último gole, e coloca a garrafa plástica vazia sobre o capô da viatura. Perêolha apavorado para a garrafa. Vê-se claramente terror em seus olhos! Corre como ninguém seriacapaz de imaginar que alguém de uma única perna fosse capaz de correr. Afonso faz uma cara de“quê foi que houve?” para os amigos do moleque, que estavam em volta observando tudo(certamente para terem certeza de que ele não entregaria nenhum deles): - É uma maluquice do Perê, doutor! - Maluquice? - Um desses negócios que os psicólogos falam, sabe? Como chama mesmo? “Fobóide”,“fobina”... - Fobia! - completa Afonso, querendo demonstrar cultura. - Isso aí! Fobia! -Fobia de quê? -Uma coisa bem doida mesmo! O Perê morre de medo de garrafas vazias! Foge delas comoo diabo fugindo da cruz! Além de ter medo de peneiras também... Comprovado: estava lidando com um maluco! Tratou logo de descartar o depoimento inútilde sua caderneta. Uma testemunha com um medo irracional de peneiras e garrafas vazias nãopoderia mesmo ser muito confiável...======== Cadu acorda dentro de um saco de estopa, pendurado num gancho nas paredes do fundodaquele poço. - Ele recusou mesmo os doces?
  10. 10. - Sim senhor! - Ótimo! Bom trabalho! Sabe como açúcar me faz mal, não é mesmo? Ele ainda não controla plenamente seus músculos, mas pode ver claramente a cena macabrapelas aberturas do saco. Meu Deus, por que será que ele não conseguia mover um único músculo?Percebeu estar numa grande câmara no fundo daquele poço com escada em espiral. Há uma espéciede bancada de pedra no centro, e um garoto sobre ela, com o abdômen exposto. Viu que estavaacordado, mas... por que não reagia? Provavelmente pelo mesmo motivo que ele mesmo nãoconseguia mover um dedo. - Você sabe muito bem que eu não sou sádico, nem perverso, não é? Simplesmente nãotenho escolha, entende? Preciso fazê-lo! - O senhor paga, eu faço meu serviço: trago-te os garotos. Nada mais me interessa! Nãoestou aqui para julgar nada! Executo o trabalho pelo qual fui pago para fazer, nada mais do queisso! Na verdade, não sinto um pingo de simpatia por esta gente, que fez minha florestadesaparecer... - Sei sei... Mas queria deixar isto bem claro, porque... Bom, vamos lá! É quando Cadu vê as unhas. Que unhas medonhas! Afiadíssimas, como unhas de ave derapina! - Traficante de órgãos... Que absurdo! Que rótulo ridículo! Só idiotas não sabem que ofígado é uma glândula hipertrofiada, e não um órgão! Com as unhas afiadíssimas, corta o abdômen do garoto na diagonal. De cima para baixo,entre o peito e o umbigo, seguindo as costelas em direção ao hipocôndrio direito. O pobre garotoestá visivelmente horrorizado, mas não demonstra sentir dor. Enfiou a mão por baixo das costelas, etirou de lá uma massa arroxeada, ainda pingando sangue. Levou à boca, deu uma boa mordida, mascuspiu longe o pedaço arrancado. - Argh!!! Este está estragado!! Olhou com fúria o assistente de cabelos ruivos. - Quantos anos tinha este garoto? Você perguntou se ele bebia? - Senhor, eu... posso ter esquecido... - Incompetente! - joga o fígado recentemente extirpado do garoto na parede. Vendo que ogaroto sangrava sem parar, explode: - Fecha logo este aí, pra não fazer muita sujeira!!! Odeio cheirode sangue com álcool! Obediente, o rapaz ruivo começa a costurar o corte enorme no abdômen do garoto. - Me passe aquele outro. É quando Cadu percebe existir outro saco pendurado ao seu lado. E ele agora sabia muitobem qual era o conteúdo dele... O primeiro garoto (agora claramente sem vida) é retirado do “altarsatânico”. Um garoto novo é colocado no lugar, igualmente atordoado. "Por que eles não fogem??",
  11. 11. Cadu se pergunta. Mas não é a pergunta correta. O que ele deveria perguntar, na verdade, deveriaser: "Por que EU não fujo?" O ritual macabro se repete, iluminado por aquela luz alaranjada diabólica que pareciaemanar das próprias paredes do lugar. Ele crava as unhas no lado direito do garoto, retira um fígadode cor arroxeada, leva à boca, e diz, satisfeito: - Ah, este está maravilhoso! - Cadu percebe claramente agora os dentes afiados do carrasco,tintos de sangue vermelho. - Como eu estava faminto!! - esfrega o fígado no rosto com satisfaçãoinsana. Quando se pergunta mais uma vez, apavorado, "Por que não fujo?", Cadu percebe quecomeça a controlar parcialmente seus movimentos.---------- Incapaz de conseguir qualquer informação útil na favela, o investigador volta para o últimolugar em que o garoto fora visto. O sol já havia nascido há alguns minutos. Dezenas de amigos doCadu, preocupados, já se encontravam no local para contribuir com qualquer ajuda que fossepossível oferecer, qualquer informação pertinente que pudesse ajudar o investigador. Muitos sedecepcionaram com a figura de Afonso, esperando de alguma forma acompanhar o trabalho dealgum tipo de “Sherlock Holmes”, com cachimbo, uma lupa na mão, casaco marrom. Era tambémo ídolo de infância de Afonso! O que o levou a seguir a atual carreira. A realidade foi cruel...Vários foram os golpes que recebeu ao perceber, caso após caso, que a realidade não era assim tão“bonita”, interessante e previsível por indução lógica quanto a ficção... - A gente estava aqui, doutor! - de fato, as marcas em forma de roda na terra não deixavamdúvidas. - Como era ele? Este estranho? - Um rapaz de cabelos bem vermelhos! - a cabeça de Tico ainda doía muito, e o inspetor,observador perspicaz, não deixou de notar isto. - Ele ofereceu algo a vocês? - Alguns doces, mas o Cadu não comeu! “Típico!”, pensou Afonso. “Traficante tentando conquistar novos usuários oferecendoguloseimas recheadas de drogas para os garotos! Achava que a moçada de hoje estava maisesclarecida, mas parece que não...” E, do fundo da alma, emerge aquele ódio: “Ah, se eu pego estecanalha!!” Mas, apesar de tudo, ele realmente não conseguia ver ligação nenhuma entre aquilo etráfico de órgãos... - Pra onde mesmo eles seguiram? - Pra direção da favela, doutor! Ele seguiu aquela direção, procurando pegadas. A terra era seca e dura, de forma que elenão teve sucesso. Continuou seguindo naquela direção. Enfim encontrou o que queria: terraúmida! Se procurasse direito, encontraria o que queria!========
  12. 12. - Me traz o saco novo, e joga estes outros dois aqui junto com o de ontem! No lugarcombinado, você sabe onde! Cadu tremeu sem parar: o próximo saco era ele! A tremedeira não passou despercebida! - Você deu a verdinha pra ele? - Sim, senhor! - Viu ele engolir? De novo, o ruivo percebe que provavelmente tinha feito besteira. - Ele pode ter cuspido... sem que eu visse... O urro desumano deixou até o ruivo de cabelos em pé! - Traz assim mesmo, incompetente! Estou dois dias em jejum! Você só me trouxe fígadosestragados até agora...-------- Havia pegadas recentes naquele terreno argiloso. Levavam à favela, indicando que suaprimeira intuição estava correta. Mas havia algo muito estranho aqui. Eles caminhavam lado alado, não é? Foi o que disseram os amigos do garoto, e até mesmo aquele maluco de bonévermelho. De fato havia marcas de tênis indo em direção ao morro. Havia mais pegadas ao ladodestas. De pés descalços. Acompanhavam as primeiras? Bom, de fato eram paralelas. Mesmadireção, só que seguiam sentidos opostos: as pegadas de tênis IAM para a favela; as descalçasVINHAM da favela...======== Cadu tentou resistir. Mas, fraco, acabou permitindo que o rapaz ruivo lhe enfiasse outra"verdinha" goela abaixo. O fato dele ter cuspido a primeira só fez o efeito durar menos tempo, masele ainda estava atordoado o bastante para não conseguir resistir. Engoliu a segunda sem resistência.E sem perceber, era ele quem estava agora deitado sobre aquele altar do demônio. - Senhor, por favor, sei quem você é! Vamos conversar! - ele ainda controlava parcialmenteos músculos faciais. - Garoto. - começa a dizer com frieza o Papafigo. - Não costumo conversar com minharefeição...---------- - Não sei o que viram. - começou o investigador. - Mas as evidências das pegadas provamque o garoto não saiu acompanhado! Os garotos foram drogados, estou quase certo que este"acompanhante" que afirmam ver foi pura alucinação! - Mas EXISTIU alguém, não é, inspetor?
  13. 13. Ele ficou furioso. - Agente da Polícia Federal, por favor! - Certo, Agente Afonso! Me desculpe... - Mas é certo que tal estranho VEIO da favela, as pegadas provam isto! Vêm desta direção!Para onde ele foi depois? Um policial chega com a notícia. - Encontramos mais pegadas, pés descalços que combinam com os primeiros! - Ótimo! Pra onde foi o sujeito? - Foi na direção oeste! - Vamos lá! Sigam as pegadas! Vamos encontrar este canalha!!!========== - Papafigo! Minha avó costumava me contar estas histórias... - com muita dificuldade, Cadutentava coordenar suas ideias. - Papafigo, papafigo, papa... - o controle começou a lhe escaparrapidamente, impregnado como estava seu corpo pela substância alucinógena e anestesiante daquelabala verde. Seria efeito da droga, ou Cadu viu uma lágrima de arrependimento descer pelo rosto de seucarrasco? Parece ter ouvido um murmúrio bem baixinho: “Sinto muito, garoto! Mas é você ou eu..”Tanto faz agora, Papafigo não iria desistir de seu intento. De fato Cadu estava anestesiado. Nãodiria que não sentiu nada quando aquelas unhas rasgaram sua barriga: sentiu sim, mas não era dor.Parecia mais como se estivessem rasgando um pano sobre sua pele, e não que estavam rasgando suaprópria pele. Mesmo não sentindo dor, era incapaz de ver a própria barriga sendo aberta. Não podiaaguentar a terrível visão. Tombou a cabeça para o lado. Foi quando viu os pés do rapaz de cabeleiravermelha, ao lado do altar. Estaria vendo coisas? Não, ele estava bem certo do que vira: os pés dorapaz apontavam para TRÁS!!!---------- - Dona Zélia! Lamentamos dar esta notícia, mas... Encontramos outro corpo! Acreditamosque seja teu filho... Meus pêsames, senhora. Mas precisamos que reconheça o corpo. Sentimosmuito... Mesmo padrão dos anteriores: o corpo apareceu com um corte suturado no abdômen, sem ofígado! Mesmos responsáveis, ao que tudo indicava! Mas, ainda agora, completo breu! Nenhumapista. - O Papafigo! Foi o Papafigo!! Seis fortes policiais mal conseguiam segurar a mãe ensandecida pela dor que agoradeixava o necrotério.
  14. 14. - Minha mãe sempre falou dele! O Papafigo pegou minha criança! Ah Deus! Que dor!!!!Que dor!!!========== - Nossa presença aqui começou a ficar perigosa, meu caro Curupira! - Fiz algo errado, Senhor Papafigo? - Muita coisa! Eu diria tudo! Mas isto não importa agora... - seu estômago roncava. -Precisamos procurar rápido novos ares. Este Rio de Janeiro é povoado demais, precisamos fazer istoem cidades mais calmas, do interior... Onde os sumiços não irão repercutir tanto assim. - Bom... Continuo contratado, não é? - Lógico que sim! Apesar das besteiras imperdoáveis, ainda confio muito mais em você parafazer isto do que em qualquer outro. Aquele Pererê sem noção, por exemplo, que quase nosentregou... Acha que o trocaria por ele para fazer o serviço? Curupira se sentiu lisonjeado. - Estou ao seu dispor, Senhor Papafigo! Quando aquelas duas figuras saem de dentro da pedra negra, não percebem que a certadistância, atrás de uma moita, eram observadas. Perê não se atreve a sair, apavorado, mas cutuca oamigo ao lado: - Viu só! Saíram da pedra! Eu sei o que vi! - Não vi nada, Perê? Quem saiu da pedra? - Aqueles dois caras ali, maluco! - Que dois caras? Eu hein!! Tá cada dia pior! Acho que tá na hora de você parar com isso,Perê! O saci continua observando incrédulo àquelas duas figuras se afastando. Estaria vendocoisas mesmo? Papafigo e Curupira seguem caminhando. Ambos abandonam o morro, em busca de umanova cidade do interior do Brasil mais segura para Papafigo continuar satisfazendo sua fomeimplacável por fígados saudáveis de garotos jovens... FIM

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