Um psicólogo vira gari

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Texto sobre a experiência de um psicólogo em meio ao trabalho dos garis na cidade de São Paulo.

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Um psicólogo vira gari

  1. 1. 1 Um psicólogo vira gariFernando Braga da Costa, psicólogo formado pela Universidade de São Paulo, tornou-se figura notória na mídiaa partir do final de 2002.Correntes circularam pela Internet com seus relatos sobre os momentos que passou ao assumir o uniforme, avassoura de gari por oito anos.Atônitos, os internautas e demais pessoas que souberam da história por meio de jornais, revistas e tevês,começaram a escrever para o jovem pesquisador, que neste ano já está estudando o doutorado em PsicologiaSocial.Eu me emocionei muito com algumas cartas e telefonemas que recebi, diz Fernando que, apesar de toda a famarepentina, mantém os pés firmes no chão e conhece o verdadeiro propósito de toda a sua experiência.O perfil desta semana vem, excepcionalmente, no formato de entrevista, para que os leitores possam conhecermais a fundo o depoimento de Fernando.Confira abaixo:1) Responsabilidade Social: Como foi a experiência de se disfarçar de gari por oito anos?Fernando Braga da Costa: Tudo partiu de uma matéria (Psicologia Social II) da faculdade na qual os alunos dosegundo ano de psicologia precisavam se engajar numa tarefa proletária exercida por pessoas de classes pobres.Eu escolhi trabalhar com gari, pois é a profissão mais rejeitada pelas pessoas em geral.Quando as pessoas,mesmo no senso comum, se referem à profissão de gari ou de lixeiro, é sempre como a profissão maisdesqualificada que existe.Falam coisas do tipo: Fulano não serve nem para ser lixeiro, ou Se eu tivesse quetrabalhar de gari, preferia ser assaltante, bandido.A gente ouve isso muito por aí.Na hora que me propuseram otrabalho, foi a primeira profissão que me veio à cabeça.Então, eu vesti o uniforme todo vermelho, boné e camisae comecei a participar do grupo que varria o campus da USP.Chegando lá e apesar de não ter dito uma só palavrasobre minha origem, eu percebi que os garis sacaram que eu não era um novo gari contratado.Digo isso, porvários motivos, mas especialmente porque eles tinham uma atitude de me proteger, ao fazer pequenas coisascomo: a vassoura mais nova sempre tinha que ficar comigo, eles não queriam que eu fizesse trabalho de enxadaou com a pá e impediam que eu viajasse na caçamba da caminhonete (pois os garis vão na caçamba como sefossem ferramentas), eles queriam que eu fosse na cabine.O que explicaria isso?Só depois de muita insistência minha é que eles deixaram eu ir atrás com eles.Logo no primeiro dia, eu passeipor um ritual de passagem muito especial.Paramos para tomar café, mas não existia caneca, apenas uma garrafatérmica com a bebida.Havia um clima estranho no ar, os garis mal conversavam comigo, pois sabiam que eu erade outra classe.Um deles foi até o lixo e pegou duas latinhas de refrigerante.Cortou a latinha pela metade eserviu o café ali mesmo, naquela caneca improvisada, suja e grudenta.Eu nunca gostei de café, masintuitivamente senti que deveria tomá-lo, mesmo sabendo que aquela latinha estava no lixo, onde passa barata,rato, tudo.No momento em que empunhei a caneca, todos eles pararam para me assistir.Ficou um silêncioenorme no ambiente.E bebi.A partir daí, a indiferença deles e a ansiedade no ambiente evaporou.Eles passaram aconversar comigo, a contar piada e a brincar.Foi um rito de passagem mesmo.2) Como você era antes dessa experiência?Você cumprimentava as pessoas que ocupam esse tipo de funções?FBC-Sim.Isso sempre foi uma coisa muito dolorida para mim.Eu não entendia porque as pessoas não eramtratadas como seres humanos.Para mim, sempre foi uma situação constrangedora, enigmática.Então, quandosurgiu essa oportunidade, eu agarrei e fui agarrado por ela.Eu sempre vivi num bairro de classe média alta, numcondomínio de prédios onde crianças e adolescentes que eram acostumados a maltratar porteiros,faxineiras.Então foi uma coisa que sempre me chamou a atenção.3) Como foi que você resolveu ultrapassar a perspectiva de fazer apenas uma matéria (que dura um semestre) sedisfarçando como gari e partiu para oito anos de experiência?FBC - Eu comecei essa pesquisa em 1994 e nos dois primeiros anos eu não fui semanalmente trabalhar comogari.Estive lá num período mais esporádico. Então, a partir de 96, eu ia duas, três vezes por semana trabalhar
  2. 2. 2com o pessoal.Eu tive um primeiro dia de trabalho como gari com experiências muito importantes.Uma delas,em particular, foi a seguinte: uma certa vez, quando estava trabalhando como gari, tive que passar pelo Institutode Psicologia da USP - passei pelo térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, pela biblioteca, desci a escada,passei em frente ao Centro Acadêmico, em frente à lanchonete, e tinha muita gente conhecida.O pessoal passavacomo se estivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão.Eu fiz todo esse trajeto e ninguém, emabsoluto, me viu ou olhou para mim.Eu tive uma sensação muito ruim.O meu corpo tremia como se eu não odominasse.Fui almoçar e voltei para o trabalho atordoado.Foi naquele momento que senti na pele a coisa daInvisibilidade Social.A minha intenção inicial era estudar a humilhação social, porém, a invisibilidade passou aser algo que se apresentava com muito mais força na minha pesquisa, era um campo de trabalhoinédito.Invisibilidade é um conceito que eu formulei.Não existia isso.É uma coisa que todo mundo vê e ninguémfala.Isso fez com que eu procurasse meu professor antes de terminar meu trabalho.Na época, eu procurava meengajar em algum trabalho de iniciação científica e eu perguntei: Tem como eu estudar isso?E o professor disse:Tem, só que você vai ter que ficar trabalhando de gari.Fiquei feliz quando ele disse isso, porque era o que eumais queria.Então esse trabalho ganhou um status extra-curricular.Era uma coisa assim, eu tinha muito prazer emestar com eles e eles, por sua vez, sempre que me encontravam pelo campus da universidade, me perguntavam:Eaí, Fernando?Quando é que você volta?Você não vai mais trabalhar com a gente?Eles se ressentiam da minhaausência.Aí, fui ficando.A experiência se prolongou porque trouxe muitos frutos para mim.4) Sucintamente, como você pode definir qual o objetivo central desse trabalho?Ele é estritamente acadêmico ouvai além disso?FBC - Não.Ele é um trabalho inclusive com características nada acadêmicas.Ele é um texto que se tornou muitoliterário.São histórias que eu conto, e a partir das histórias surgem as interpretações sobre os fenômenospsicossociais.Ele é um texto que em si você vai reconhecer poucos aspectos de uma estrutura acadêmicarígida.Na verdade, eu sempre me ative a essa questão do tipo: Será que ninguém vê que ali tem gente?Eu querochamar a atenção das pessoas, sacudir suas estruturas.Mas, ao mesmo tempo, tem traços científicos muito bemdefinidos.Quando comecei o projeto era uma coisa assim de denúncia bem ingênua.Mesmo quando euquestionava as coisas, eu fazia de forma muito pouco estruturada.E a grande modificação, o grande progressoque eu tive em todos esses anos aconteceu quando eu percebi que os fatos falam por si.Eu não preciso ficardizendo assim: devemos tratar os garis com mais humanidade.Em nenhum momento eu digo isso.Chacoalhar aspessoas é importante sim, mas é melhor deixar que o próprio fato interpele a pessoa.5) Você está escrevendo um livro sobre isso?FBC - Depois que o trabalho começou a ter repercussão, eu comecei a receber muitos e-mails perguntando ondeé que se compra o livro.Eu defendi o trabalho em novembro de 2002, então eu não tive nem tempo de pensar empublicação.O que eu fiz foi apresentar o trabalho de dissertação de mestrado à editora da USP e requeri apublicação do livro.Mas esse pedido foi feito apenas na semana passada.Não sei como as coisas vão ocorrerdaqui para a frente.Temos que esperar.6) Como é que você se sente com toda a repercussão que o seu trabalho tomou?FBC - Tem muita coisa acontecendo.Se eu digitar meu nome na Internet aparecem trocentas coisas hoje.Não tem como controlar.Me ligaram sábado passado dizendo que o Luciano Huck falou da minha pesquisa noprograma dele, porque parece que tinha um gari participando das provas e ele comentou que tinha um psicólogocom uma pesquisa assim, tipo elogiando.Então, eu me sinto assustado, porque as pessoas têm me ligado deManaus, Aracajú, Rio Grande do Sul. Eu não imaginava que fosse ter repercussão uma coisa dessas.Euimaginava que ia fazer esse trabalho muito mais para me satisfazer pessoalmente do que academicamente,porque o encontro com os garis foi um encontro personalizado, curativo para mim, muito importante.Teve umjornalista que me ligou para uma reportagem e me contou a seguinte história: Eu estava na pós-graduação lá naPUC em Porto Alegre quando entrou uma faxineira na sala de aula, já com alguns alunos e ninguém falou comela.Eu lembrei do que você disse e falei boa noite para ela.Ela ficou muito contente, até sorriu para mim.Entãopergunto: era isso que você queria com sua pesquisa?Na hora que ele contou isso, me senti comovido porque aspessoas estão registrando o sentido mais nobre desse trabalho.Outra pessoa de Goiânia me contatou dizendo quehavia assistido minha entrevista TV Educativa.Ele se ateve muito ao momento em que o entrevistador meperguntou se em algum momento eu me senti psicólogo dos garis.No programa, eu respondi que de maneira
  3. 3. 3alguma, que eles sim que tinham sido meus psicólogos.Eles me curaram de algumas doenças burguesas, entreoutras coisas.E esse cara de Goiânia me escreveu, por e-mail, dizendo que tinha sido catador de papel e hoje játinha feito universidade, era bem de vida, mas tinha vergonha de dizer para os amigos que tinha sido catador depapel.E quando ele viu minha entrevista, disse que ficou com vergonha porque não sabia o nome do porteiro doprédio dele.Naquele momento mesmo, ele desceu somente para perguntar o nome do porteiro do prédio.Entãoassim, esse tipo de repercussão, por mais diminuta que seja é uma repercussão maravilhosa, porque todopsicólogo tem esse interesse humano.Então, não me interessa coisas como, por exemplo, a produtora do JornalNacional que queria me convencer sobre a importância de dar entrevista.Ela dizia: Você vai falar para 50milhões de pessoas.Mentira.Quem vai falar é o Jornal Nacional, não eu.Vai meu nome lá, como especialista quefala em razão daquilo e tal, mas é um alcance banalizador da experiência.Quando o pessoal da imprensa entra emcontato comigo, tento deixar claro que o interesse parte deles para mim.Eu não quero aparecer por causa dapesquisa, entende?Porque tem jornalista que liga e acha que eu tenho que abrir as pernas, e dar entrevista comose estivesse me vendendo. É disso que eu tenho medo.7) Como você se sente em relação a todo esse processo, emocionalmente falando, com relação à experiência emsi, à sua relação com os garis, e com relação ao feedback das pessoas nos últimos tempos?FBC - De fato, tudo aquilo que me fez estar com eles e mesmo quando estou escrevendo a respeito disso, é ummomento quando entro num estado que não é meu estado de vigília normal.A cada dois minutos escrevendosobre essa experiência, me são exigidos outros 10 minutos chorando.Eu já tive, várias vezes, de parar de escreverao lembrar dos fatos, pois é uma experiência emocionalmente carregada.Acho que eu comecei a perceber melhoros meus comprometimentos, assumi mais de perto as minhas dificuldades, reconheci melhor as muletas nasquais a gente se apóia e nos torna pessoas muito vazias.Quando me refiro que a experiência me curou de doençasburguesas, estou me referindo a diferença de visões.Exemplo: quando eu chegava lá de manhã cedo paratrabalhar com eles e olhava aquele céu azul, bonito e elogiava a beleza desse céu, eu percebia que eles ficavamnum silêncio absurdo.Eu não entendia aquilo.Até que um dia sentei num ponto de ônibus com um dos garis e elevirou-se para mim e disse: Nossa, Fernando, dá uma olhada para o céu.Aí eu olhei e tava aquele céu debrigadeiro, como dizem, azulzinho, às 7 da manhã o sol já ardia.E ele completou: Nossa, o tempo tá ruim,hein?Aí é que eu me toquei, que para essas pessoas é tudo muito relativo.Aquele céu azul é maravilhoso paraquem está trabalhando dentro do escritório com ar-condicionado.Mas para eles é sinônimo de esforço e desgasteredobrado.Então, me habituei a me questionar sobre a realidade dessas pessoas.E me dei conta de muitas outrasconvenções burguesas.Me referi muito mais a essa percepção, do que a coisas materiais.Eu não sou contra oconforto e a tecnologia, mas acho que a tecnologia deveria servir à todo mundo e não a apenas meia dúzia.8) Você consegue traçar um paralelo entre sua pesquisa e uma atitude que envolva Responsabilidade Social?FBC - Me chateia ver que a estrutura acadêmica deixa de produzir algo relevante.Tem trabalhos feitos só paraficarem parados, simplesmente tomando poeira na estante da biblioteca.Eu conheço muitas pesquisas que nãoservem absolutamente para nada, e que não têm um propósito em si.Portanto, penso que quando há umaassociação muito verdadeira entre a ação do pesquisador e a pesquisa em si, a gente pode dizer que existeresponsabilidade social nisso.

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