Varal 17

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Varal 17

  1. 1. ®Literário, sem frescuras! 1664- ISSN 1664-5243 Setembro/Outubro 2012—Ano 3 - Setembro/Outubro de 2012—Edição no. 17
  2. 2. Varal do Brasil setembro/outubro 2012 www.varaldobrasil.com 2
  3. 3. Varal do Brasil setembro/outubro 2012 ® LITERÁRIO, SEM FRESCURAS Genebra, verão/outono de 2012 No. 17bbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhuyuyuytuyhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhjkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrffffffffffffffmanajudyebeneogguaenejuebehadddddddddddddddddddddddddddmnheeƩpamƟngnrihssssssssssssssssssnerrrrrrrrrrrrrrekkkkkkkkkkkkkkkkkkkkbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhuyuyuytuyhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhjkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrffffffffffffffmanajudyebeneogguaenejuebehadddddddddddddddddddddddddddmnheeƩpamƟngnrihssssssssssssssssssnerrrrrrrrrrrrrrekkkkkkkkkkkkkkkkkkkkbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhuyuyuytuyhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhjkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrffffffffffffffmanajudyebeneogguaenejuebehadddddddddddddddddddddddddddmnheeƩpamƟngnrihssssssssssssssssssnerrrrrrrrrrrrrrekkkkkkkkkkkkkkkkkkkkbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhuyuyuytuyhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhjkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrffffffffffffffmanajudyebeneogguaenejuebehadddddddddddddddddddddddddddmnheeƩpamƟngnrihssssssssssssssssssnerrrrrrrrrrrrrrekkkkkkkkkkkkkkkkkkkkbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhuyuyuytuyhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhjkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk www.varaldobrasil.com 3
  4. 4. Varal do Brasil setembro/outubro 2012 EXPEDIENTERevista Literária VARAL DO BRASIL 1664-NO. 16 - Genebra - CH - ISSN 1664-5243Copyright Vários AutoresO Varal do Brasil é promovido, organizado e rea-lizado por Jacqueline AisenmanSite do VARAL: www.varaldobrasil.comBlog do Varal: www.varaldobrasil.blogspot.comTextos: Vários AutoresColunas:Daniel Ciarlini O CURTIDOR DE PELESFabiane Ribeiro Por Wilton PortoSheila Ferreira KunoIlustrações: Vários Autores Quando garoto, curtia o sol, Que curtia as peles estendidas noDesenhos animais: © ddraw - Fotolia com chão. Curtindo as peles, também curtia osDesenhos crianças/estações: © J-Sho - Fotolia sonhos,Foto capa: © Chepko Danil - Fotolia com De um dia nesta vida ter um lugar ao sol.Foto contracapa: © fotogestoeber - FotoliacomMuitas imagens encontramos na internet sem ter O sol que curtia as peleso nome do autor citado. Se for uma foto ou um Muito mais curtia os sonhosdesenho seu, envie um e-mail aqui para a gente De ser mais que um curtidor de pelese teremos o maior prazer em divulgar o seu ta- Na pele em que vivia.lento. O sol é vida, o sol é sonho,Revisão parcial de cada autor Mas viver no sol não é a única vida; Se Curtir as peles é oportunidade,Revisão geral VARAL DO BRASIL Oportunidade não é só em peles.Composição e diagramação: Viver ao sol – eis o verdadeiro curtir.Jacqueline Aisenman Curtiu e curte na pele que é dele. Porém, para curtir, o que se curte Nesta vida tão curta,A distribuição ecológica, por e-mail, é gratuita. A Antes, é viver no sol,revista está gratuitamente para download em Pois só ganha a vida quem nada repele.seus site e blog.Se você deseja participar do VARAL DO BRASIL (Do livro O CURTIDOR DE PELES).NO. 18 envie seus textos até 10 de outubro de2012 para: varaldobrasil@gmail.comO tema da edição no. 18 será livre. www.varaldobrasil.com 4
  5. 5. Varal do Brasil setembro/outubro 2012Convidamos as pessoas que gostam de escrever para falar da infância e o convite foi aceito pormuitos! Então aqui estamos, falando não só da Nossa Infância, mas da infância de todos. Desdeas infâncias felizes até a mais triste delas.Lembrar da infância não é fácil para todo mundo, assim também é falar dela. O que para muitosé algo gostoso e que pode se repetir escrevendo o que vem da memória, para outros pode serdoloroso demais. Por isto agradecemos a tantos que vieram, atenderam o apelo e falaram dainfância com alegria ou com tristeza.Quando se pensa em criança é automático: pensamos em doces! Vida doce, festa, tudo doce!Então fomos buscar algumas receitas culinárias que visitassem nosso paladar infantil, aqueleque, como um pequeno pecado, muitas vezes ainda provamos e adoramos!Como vocês devem ter percebido nossas férias foram alegremente interrompidas pela edição deum especial, o Varal do Amor. Foram publicados cinquenta autores. Mas recebemos muitos,muitos mais. E a sugestão de fazer uma sequência. Quem sabe? Quem sabe não faremos embreve?Atendemos com alegria, em meio a todas as histórias e poemas sobre a infância, o chamado daseriedade de uma publicação científica e publicamos o artigo de André Valério Sales intituladoParticularidade, Universalidade e Singularidade: definindo conceitos fundamentais para a Meto-dologia da Pesquisa em Ciências Sociais e que por ele será apresentado na universidade quefrequenta. Talvez um sonho de criança que se realiza!Em meio a tantas alegrias, uma notícia triste vem fazer parte do Varal. Nossa Livraria, infeliz-mente, encerrou suas atividades. Não foi possível manter o sonho de comercializar nossa novaliteratura, nossos novos autores aqui na Europa! Constatamos que pouquíssimos brasileirosaqui na Suíça buscam esta literatura. A grande maioria ainda se atém aos autores consagradosou prefere apenas adquirir os livros diretamente no Brasil quando vai em visita. Desta forma,profundamente tristes, fechamos as portas desta livraria que tinha o sonho de ver seus autoresbrilhando por aqui! Mas nem tudo foi perdido, pois depois do sucesso que foi nossa participa-ção no 26o. Salão Internacional do Livro de Genebra, os livros, cedidos por grande parte dosescritores presentes na livraria, estão sendo doados a várias bibliotecas suíças que demonstra-ram imenso interesse nos exemplares. São os novos autores brasileiros cruzando fronteirasatravés do Varal do Brasil!Estamos com as inscrições abertas para a seleção de textos para o livro Varal Antológico 3.Surpresos com a variedade e quantidade de textos a ler, nossos examinadores estão felizes deobservar a qualidade destes mesmos textos. E começamos a lamentar que as vagas sejam limi-tadas! Você ainda tem tempo para se inscrever e pode solicitar o regulamento através do nossoe-mail varaldobrasil@gmail.com . O livro Varal Antológico 3 terá revisão completa incluída e edi-toração pela Design Editora, símbolo de qualidade na edição de livros no Brasil.Amigos do Varal, nos preparamos para, em novembro, festejar nossos três anos de revista. Tra-remos o tema livre, festejaremos juntos. Esperando você para a festa de novembro, deixamosaqui esta revista especial sobre a infância! Uma boa leitura!Sua equipe do Varal www.varaldobrasil.com 5
  6. 6. Varal do Brasil setembro/outubro 2012◊ AFONSO MARTINI ◊ HELIO SENA◊ ANA MARIA ROSA ◊ HERNANDES LEÃO◊ ANA ROSENROT ◊ ISABEL CRISTINA SILVA VARGAS◊ ANDRÉ VALÉRIO SALES ◊ IVANE LAURETE PEROTTI◊ ARLETE TRENTINI DOS SANTOS ◊ JACQUELINE AISENMAN◊ AUDELINA MACIEIRA ◊ JOSANE MARY AMORIM◊ CARLA RENATA JORGE NEVES ◊ JOSÉ CAMBINDA DALA◊ CARLOS CONRADO ◊ JOSÉ CARLOS PAIVA BRUNO◊ CARLOS PINA ◊ JOSÉ HILTON ROSA◊ CLÉO REIS ◊ JOSSELENE MARQUES◊ CRISTINA CACOSSI ◊ JU PETEK◊ DANIEL C. B. CIARLINI ◊ JULIA REGO◊ DHIOGO JOSÉ CAETANO ◊ KARINE ALVES RIBEIRO◊ EDNA PIDNER ◊ KRISIANE DE PAULA◊ ELIANE ACCIOLY ◊ LARIEL FROTA◊ EMÉRITA ANDRADE ◊ LENIVAL NUNES ANDRADE◊ ELISE SCHIFFER ◊ LEONILDA YVONNETI SPINA◊ EVELYN CIESZYNSKI ◊ LÓLA PRATA◊ FABIANE RIBEIRO ◊ LÚCIA AMÉLIA BRULHARDT◊ FANI ◊ LUDMILA RODRIGUES◊ FELIPE CATTAPAN ◊ LUIZ CARLOS AMORIM◊ FRANCY WAGNER ◊ LUNNA FRANK◊ GERMANO MACHADO ◊ MARCELO BENINI◊ GUACIRA MACIEL ◊ MARCOS TOLEDO◊ HELENA AKIKO KUNO ◊ MARCOS TORRES www.varaldobrasil.com 6
  7. 7. Varal do Brasil setembro/outubro 2012◊ MADAL◊ MARIA EUGÊNIA◊ MARIA MOREIRA◊ MARIANE EGGERT DE FIGUEIREDO◊ MARILU F. QUEIROZ◊ MARINA VALENTE◊ MARINEY K◊ MÁRIO OSNY ROSA◊ MYRTHES NEUSALI SPINA DE MORAIS◊ MARIO REZENDE◊ MORGANA GAZEL◊ NORÁLIA DE MELLO CASTRO◊ ODENIR FERRO◊ RAIMUNDO CANDIDO TEIXEIRA FILHO◊ RENATA IACOVINO◊ RITA DE OLIVEIRA MEDEIROS◊ RO FURKIM◊ ROBERTO ARMORIZZI◊ ROZELENE FURTADO DE LIMA◊ SANDRA BERG◊ SARAH VENTURIM LASSO◊ SHEILA FERREIRA KUNO◊ SILVIO PARISE◊ SONIA NOGUEIRA◊ SONIA RODRIGUES◊ VALDECK ALMEIDA DE JESUS◊ VALQUIRIA GESQUI MALAGOLI◊ VO FIA◊ WILTON PORTO◊ YARA DARIN www.varaldobrasil.com 7
  8. 8. Varal do Brasil setembro/outubro 2012 UM PEDAÇO DO CÉU jamais esquecerei. Por Ana Maria Rosa Fiquei parada no último degrau do corredor, fora do tempo, olhando aquele cenário irreal: a mesa grande, preta de tão encardida; as cadeiras escuras, Eu era muito criança. Devia ter uns seis fantasmagóricas; fuligem e pedaços de telha espa-anos, mas ainda me lembro daquela tarde. A trovoa- lhados por toda parte; o espelhinho do lavatório co-da veio muito rápida: de repente, o céu se fez negro, berto com uma toalhinha branca; a bacia de esmaltee um vento forte começou a sacudir a copa das árvo- cheia de água amarela; a pequena cristaleira com ores. Logo nossa mãe mandou que entrássemos. Fe- vidro quebrado expando os pratos de visita... A salachou as portas e janelas, cobriu os santos e os espe- e os objetos, tudo, envolto numa penumbra azuladalhos. Nós queríamos ver a chuva, porém ela nos fez e, ao mesmo tempo, banhado de luz. Não havia can-ficar quietos em seu quarto. Amedrontada, sentou-se deeiro aceso nem luz do sol. As janelas e portas es-toda encolhida na cama passando as contas do rosá- tavam fechadas. Mas uma luminosidade suave erio e rezando bem baixinho. Ficamos em silêncio acinzentada clareava tudo. Olhei e vi o teto, negroouvindo o ribombar dos trovões e as pancadas da de fuligem, com um buraco enorme e azulado. Porchuva no telhado. Parecia que o mundo estava se aquele buraco, entrava – na sala – o céu cinza-claro,acabando – diria minha mãe mais tarde. Nós, ao quase prateado, lavado de chuva...contrário dela, não tínhamos medo algum e adoráva- Não sei por quanto tempo quedei-me ali, re-mos chuva forte com relâmpagos e trovões. Mas, verente, olhando aquele pedaço de céu... e admiran-daquela vez, fiquei um pouco amedrontada com a do aqueles objetos pela primeira vez – em toda suaviolência da trovoada. Quando, finalmente, a chuva pobreza – envoltos numa feiura que, naquele mo-amainou, saímos do quarto. Era de tardinha, e a casa mento, me parecia inexplicavelmente bela. Aproxi-estava quase às escuras. Caminhávamos tateando as mei-me da mesa: o céu estava perto e pairava sobreparedes do corredor tentando enxergar através da minha cabeça. Como era possível aquilo? O céupenumbra. Logo, percebemos que a chuva e a venta- sempre fora tão inatingível, tão distante... E agorania haviam feito muitos estragos, pois havia muita estava tão perto, tão pequenino... meu céu. Acheisujeira e telhas quebradas pelo chão. Ao chegarmos que poderia tocá-lo com a mão se conseguisse umaà sala de jantar, percebemos que algo extraordinário escada bem alta para subir na cumeeira da casa...havia acontecido: o vento destelhara a cumeeira. Olhei mais um pouco e vi que sobre a mesa, nas cadeiras, no chão, em toda parte, havia pequeni- nas pedrinhas transparentes – cristaizinhos de luz... Quando eu os colocava na palma da mão (tão frios), logo eles desapareciam. Alguém falou em chuva de granizo. Disseram que aquelas pedrinhas eram de gelo. Gelo!? Na boca, elas derretiam... Eram de Não sei o que os outros viram, mas o que vi água! www.varaldobrasil.com 8
  9. 9. Varal do Brasil setembro/outubro 2012 Saí para o terreiro, e o chão estava salpicado nenhum som, apenas o Silêncio.por uma infinidade delas. O terreiro estava ilumina- Voltei à sala e olhei novamente cada coisa:do por milhares de pontos de luz, como se fossem os móveis, os objetos, as paredes, as portas, as jane-pedras preciosas ou pequeninos pedacinhos de estre- las, o telhado, o chão... E, de novo, era como se oslas. Eu escolhia os maiores, punha-os na mão e fica- visse pela primeira vez. Olhava meu pedaço de céu,va olhando até vê-los sumirem rapidamente restan- limitado pelas telhas, projetando-se para o infinito, edo apenas uma porçãozinha de água... Olhava ao meu coração se regozijava como se tocado por algomeu redor, e o mundo inteiro estava parado. Não sagrado. Uma vez li (Não me lembro quem disse,existia nenhum movimento: as quixabeiras, impassí- mas foi alguém do grupo que construiu Pampulha)veis, sobre o tapete de frutinhas escuras; as folhas que a Poesia às vezes passa num lugar – suave e fur-das bananeiras, rasgadas, imóveis; os porcos quietos tiva – quase como uma brisa. Porém, por alguns ins-como as varas negras do chiqueiro; as galinhas e os tantes, pode-se perceber sua presença. Acho que,perus, extáticos, a contemplar, filosóficos, aquele naquela tarde, a Poesia entrou pelo buraco no telha-mundo novo; o pássaro, preso na gaiola, encolhia-se do, iluminou os móveis toscos da sala, assoprou aem seu terno negro sem vontade de fugir... Não ha- água amarela da bacia, mirou-se nos cristaizinhos devia nenhuma cor: o capim, as juremas, os mandaca- granizo e fugiu... Foi embora antes que a escuridão,rus, os umbuzeiros e até as flores haviam descolori- já instalada na cozinha, invadisse a sala; antes que ado. E o céu cinza-prata – agora imenso – continuava menina de cabelos encaracolados, sentada no baten-próximo, redondo, abraçando tudo ao redor. O mun- te do corredor, pudesse compreender por que queriado inteiro era uma fotografia em preto e branco. guardar – como um tesouro – aquela sensação de beleza... de mágica. Lembro-me de que fugi pela penumbra do corredor e quedei-me na sala de visi- tas, bem perto do lampião. Em meu coração, havia uma imensa vontade de chorar. Teria a menina des- coberto a efemeridade da vida? Houve um momento em que minhas irmãsentraram, e fiquei sozinha lá fora. Só eu – uma cri-ança – sozinha naquele imenso mundo ártico... Eescutei as árvores, e escutei o gado, e escutei o ven-to, e escutei a fonte, e escutei o riacho. Não havia www.varaldobrasil.com 9
  10. 10. Varal do Brasil setembro/outubro 2012 Minha infância Por Luiz Carlos AmorimEsta noite acordei com a chuva batendo na minha janela. Não fiquei contrariado por ter acordado com obarulho dos pingos contra o vidro, porque gosto de chuva. Sempre gostei. Gosto de dormir com o tambori-lar dos pingos no telhado (morei a maior parte da minha vida em casas, graças a Deus!) ou na janela. Queeu me lembre, só fico chateado quando chove muito nas épocas da florescência do ipê, do jacatirão, doflamboaiã, da azaleia e do olho de boneca (um tipo de orquídea comum, em nossa região), pois as florescaem mais depressa porque ficam pesadas com o excesso de água e porque apodrecem.E quando a chuva me pega desprevenido no meio da rua, no inverno.Mas como dizia, choveu esta noite e os pingos na janela fizeram com que me reportasse a minha infância,já um tanto distante. O tamborilar que agora me traz uma sensação de paz e melancolia, naqueles temposde garoto, idos tempos, fazia com que eu e meus irmãos grudássemos nossos narizes nos vidros das janelase olhássemos para fora, com uma vontade enorme de sair e brincar, descalços, na água que corria ao ladoda casa e junto da calçada.Nossa mãe, no entanto, alerta, nos detinha. Mas em ela se descuidando um segundo, lá estávamos nós, fa-zendo festa debaixo da chuva, jogando água um no outro, estancando-a em pequenos lagos e soltando bar-quinhos de papel na corredeira, os cabelos escorridos e a roupa encharcada, com aquele ar de felicidadeque só criança tem.Aqueles dias se foram e eu não corro mais na chuva. Quando me molho ao apanhar chuva, fico aborrecidopor que vou chegar molhado em algum lugar. Não consigo mais ser criança como antes. E gostaria de po-der. Porque acho que ainda sou um pouquinho criança dentro deste corpo que vai envelhecendo e ficandocansado.Amanhã, quem sabe, talvez eu saia descalço e de peito nu, a cantar pela chuva. Se você encontrar um ma-luco molhado cantando e dançando na chuva, não se assuste. Pode ser que seja eu. www.varaldobrasil.com 10
  11. 11. Varal do Brasil setembro/outubro 2012 LEMBRANÇAS Diferente de outras aulas, Aguardava ansiosa, Por saber que neste dia, Muito mais aprenderia; Através da geografia,Por Carla Renata Jorge Neves O mundo conheceria, Numa viagem maravilhosa! Ao final desta viagem, Busco agora na memória Louvo a Deus por ter um dia,Lembranças da minha infância: Me levado à escola, Aos seis anos de idade, Onde os meus mestres queridos,Mesmo com toda adversidade, Me ensinavam a toda hora, Posso ver muita alegria Não somente a disciplina, Por ter podido um dia, Mas amor e alegria! Estudar com a tia Estela Linda, amiga e sincera! Hoje eu trago na bagagem, Estas lembranças comigo, Chego agora aos oito anos, Que me fazem voltar no tempo No romper de outra etapa, Relembrando bons momentos, Tenho agora a tabuada, Que passei com meus amigos! Sem conversa, sem bagunça, Tia Fauza com firmeza, Faz o aluno com certeza, Aprender a matemática! Tudo isso me levou, Quando na minha escolha, A escolher Pedagogia, Para poder fazer um dia, Algo pela educação, Já na flor da mocidade, Dando contribuição, Aos quatorze anos de idade, À criança, jovem e adulto, Vejo agora a alegria Tornando-os bons cidadãos! Na aula de geografia: Senhor Jorge com seu mapa Ministrando suas aulas, Com toda propriedade! www.varaldobrasil.com 11
  12. 12. Varal do Brasil setembro/outubro 2012BALÕES EM SÃO JOÃOPor Yara Darin Art de Analice Rodrigues UchôaBalões em São JoãoBalões aos aresBalões multicoresQue outrora no céu brilhavam, me fasci-navam.Sentia-me em liberdade, sensação de feli-cidadeAmores de verdade!Lembro o céu junino todo estreladoAs fogueiras , bandeiras e rojõesQue alegravam o meu coraçãoQuando em dia de São João !Tão belos balões já não existem maisTão-pouco tenho as alegrias de outroraE as que ficaram , tão somenteSão lembranças saudosas , gostosasDe uma época feliz de criançaQue o tempo não volta jamais... www.varaldobrasil.com 12
  13. 13. Varal do Brasil setembro/outubro 2012Oração de uma criança abandonada Por Carlos Conrado Querido Papai do Céu, Não sei se o senhor tem barba Mas sei que não é igual a eu!... Queria estar contigo agora Pois aí deve ter pão de sobra E um lugar coberto neste céu, Para eu me deitar quando estiver cansado, Nestas nuvens parecidas com algodão. Senhor por ti junto minhas mãos E peço sabedoria de gente grande. Papai do Céu eu quero Que eu e meus irmãos possamos Ir à escola e deixar De pedir esmola para sempre. Dizem que o senhor Ama todo mundo, que não rouba e nem mente, Por isto vou te amar. Não tenho muito a te oferecer, Mas mesmo que eu continue nas ruas, Eu vou te honrar e agradecer Pois tu és o meu super-herói!... Senhor se eu me comportar Talvez eu ganhe mais Que uma bicicleta, talvez, Eu ganhe um lar. Querido Papai do Céu Abençoa todo mundo. Dá-me uma mãe para amar, Um peixinho e um cachorro E diz a quem precisa escutar Que o amor não é só namorar. www.varaldobrasil.com 13
  14. 14. Varal do Brasil setembro/outubro 2012 Por Fabiane Ribeiro ano seguinte, ela também não veio; nem no próxi- mo... Anos se passaram sem que ele tivesse notí- cias de sua amada. Ele já estava velho e cansado, quando, deitou-se na areia da praia e pediu que o mar carregasse seus olhos para que ela pudesse en- contrá-los. Dona de tudo o que ele já havia visto de mais belo, ela continuaria a guiá-lo por entre as mais lindas e inexploradas maravilhas da natureza. Assim, há um tempo que não se conta, nasceu, junto ao mar, a saudade e também o primeiro ser humano que não era mais dono de sua visão”. Conto 5 – A lenda dos olhos e da saudade Maria Isabel, a coordenadora do grupo, fe- chou o livro escrito em braile, dizendo: “Diz um velho pescador que há um tempo — Essa é a lenda dos olhos e da saudade.que não se conta, por aquelas bandas, existiu um Ela nos faz imaginar a vida do primeiro deficientejovem rapaz que costumava caminhar a beira-mar visual que existiu no mundo. Claro, é só uma histó-em todo fim de tarde. Ele levava sempre consigo ria. Como temos observado ao longo de nossa reu-uma gaita e a tocava, enquanto contemplava a nião, assim como o rapaz da lenda, nós também ve-imensidão das águas e o vazio do horizonte. mos o mundo, apenas de forma diferente... O rapaz disse ao sábio que seu coração oguiara até aquela praia. Então, ele ia para lá, todos Verdade ou não, em certo canto do mundo,os dias, na esperança de encontrar os motivos. em uma praia distante de tudo, os viajantes costu- Até que um dia, do mar ela surgiu. Uma bela mavam dizer que podiam ouvir o som de uma gaitamoça. Alguns dizem por aí que era uma sereia. Ou- a tocar, sem que ninguém estivesse por lá...tros dizem que era um anjo do mar. Mas para aque-le rapaz era apenas a dona do seu coração. Uma vezao ano, ela surgia e o arrastava até as profundezas.Então, juntos, eles contemplavam as maiores mara-vilhas da natureza: o mundo que existe abaixo daságuas do oceano, onde nenhum ser humano jamaisestivera. Em todos os outros dias do ano, o rapaz sen-tava-se junto a um rochedo e tocava sua gaita. Elesabia que a moça podia ouvi-lo, de onde estivesse.Ele apenas gostava de tocar para ela... E, a cada pôr-do-sol em que ela não vinha, ele derramava umalágrima no oceano, que se mesclava por entre aságuas infinitas. Por décadas, eles encontraram-se apenasuma vez ao ano. Até que a moça não apareceu. No www.varaldobrasil.com 14
  15. 15. Varal do Brasil setembro/outubro 2012 O CLUBE DOS VIRA-LATAS é uma organização não governa- mental, sem fins lucraƟvos, que mantém em seu abrigo ho- je mais de 400 animais que são cuidados e alimentados dia- riamente. Boa parte desses animais chegou ao Clube após atropelamentos, acidentes, maus tratos e abandono. Nosso objeƟvo é resgatá-los das ruas, tratá-los e conseguir um lar responsável para que eles possam ter uma vida feliz.Por que ajudar os animais? doações. Todos podem ajudar, seja divulgando o Clube, seja adotando um animal ou mesmo doandoVocê sabia que no Brasil milhões de cães e gatos vi- dinheiro, ração ou medicamentos. Qualquer doação,vem nas ruas, passando fome, frio e todos os Ɵpos de qualquer valor por menor que seja, é bem-vinda.de necessidades? Cerca deles 70% acabam em abri- As contas do Clube bem como o desƟno de todo ogos e 90% nunca encontrarão um lar. Parte será víƟ- dinheiro estão abertas para quem quiserma ainda de atropelamentos, espancamentos e to-dos os Ɵpo de maus tratos. BRADESCO (banco 237 para DOC)Infelizmente, não é possível solucionar este proble- Agência: 0557ma da noite para o dia. A castração dos animais de CC: 73.760-7rua é uma solução para diminuir as futuras popula- Titular: Clube dos Vira-Latasções mas não resolve o problema do agora. Sendo CNPJ: 05.299.525/0001-93 Ouassim, algumas coisas que você pode fazer para aju-dar um animal carente hoje: Banco do Brasil (banco 001 para DOC)Adotar um animal de maneira responsável Agência: 6857-8 CC: 1624-1Voluntariar-se em algum abrigo. Titular: Clube dos Vira-LatasDoar alimento (ração) e/ou remédios para abrigos. CNPJ: 05.299.525/0001-93Contribuir financeiramente com ONGs.Nunca abandonar seu animal (Saiba mais sobre o Clube em hƩp://fr- fr.facebook.com/ClubeDosViraLatas?ref=ts)Como o Clube vive? Somente de doações. Todas asnossas contas são públicas, assim como extratosbancários e notas fiscais.Como ajudar o Clube? Para manter esses mais de400 peludos em nosso abrigo, contamos hoje ape-nas o trabalho dos voluntários e com o dinheiro de www.varaldobrasil.com 15
  16. 16. Varal do Brasil setembro/outubro 2012 Meus animais de infância te era atendido. Vinham de onde estivessem ao ou- vir a voz de minha avó. Bom, com relação à dinastia canina, o primei- Por Renata Iacovino ro que me lembro é do Sheike, um pequinês. Mor- reu velhinho. Antes dele tiveram outros. Mas não me recordo, apenas de ouvir falar e pelas fotografi- Desde criança sempre ouvi que gato tem sete as.vidas. E uma das histórias que me fez crer nisto,aconteceu em casa, mas eu apenas ouvi falar, por-que era muito pequena, ou talvez, nem nascida. Soube que meu pai – até então, um não apre-ciador da raça felina domesticada – atirou pela jane-la de seu quarto, nosso gato Pelé, a uma altura demais ou menos 5 metros. O bichano sobreviveu, co-mo se nada tivesse acontecido. Que bom! Pelo me-nos não foi daquela vez. Foto de Renata Iacovino Mas tal antipatia durou pouco. Lembro-me sempre cercada de gatos, em casa.E testemunhei muitos deles no colo de meu pai, nosofá com a gente, enfim, verdadeiros donos e donasdo pedaço. Manoela veio como verdadeira rainha. Filhosdela também conviveram conosco, como o Riveli-no, o Bado, o Saci... Mas um vira-lata, em especial, era meu xodó Depois do Sheike, veio o Snoopy, uma mistu-(e creio, vice-versa). O Brito, que depois virou ra de fox paulistinha com sei lá o quê. Amoroso,Britz, que depois virou... ah, bem, deixa pra lá, eram mas sofreu muito, e todos sofremos junto, claro. Eletantos os nomes e apelidos que eu dava para um teve sinomose.único gato, que em minha memória estas coisas atése confundem, hoje em dia. Então veio o Ringo, este sim, um fox paulisti- nha. Muito alegre e brincalhão, mas com uma per- O Brito, ou Britz, ou... chegava da rua estropi- sonalidade muito forte. Ele tinha uma característicaado, sem um pedaço da orelha, muitas vezes, e vi- interessante: quando ia comer, gostava que o provo-nha correndo ao meu encontro. Era um amor só. To- cassem, até que ficasse bem nervoso e então comiado sujo, com resquícios da farra, parecia saber que loucamente, latindo, rosnando e mostrando os den-somente eu toleraria aquilo. tes. Gostava de tomar água na torneira do quintal. E quantas vezes ele desaparecia! Dois, três, Bastava abrirmos a torneira e ele estar por perto,quatro dias! Nós ficávamos preocupados, querendo pronto, já vinha dar bocadas nela com uma ganasaber seu paradeiro. E de repente lá estava ele. Da- que, a nós parecia estar se machucando, tamanha aquele jeito amassado, sujo e cambaleante, mas, cla- força que imprimia no gesto. Mas teve vários pro-ro, sempre com muita energia para recomeçar a far- blemas de saúde. O problema na coluna o fez ficarra gatuna. Um vira-lata branco e preto, um autêntico curvado, até que não podia mais saltar o tanto quecorinthiano, pois nesta época o Corinthians era uma gostava. Teve uma alergia que lhe tomou o corpode minhas paixões. inteiro, ocasionando falhas na pelagem rala, típica de sua raça. Minha avó – que morava conosco – tratava detodos os gatos e animais de casa, com especial cari- Outros animais habitaram nossa casa: dois grandesnho. Preparava “altos banquetes” para os felinos. jabotis (ou cágados) que viveram muitos anos noNaquela época não existia essa coisa de ração. Ela quintal e tinham, dentre suas preferências alimentí-ia à feira, comprava sardinhas e fazia um preparo cias, mamão e banana.todo especial para eles. Quando estava na hora do Neste mesmo quintal, dentro de um enormealmoço e os bichanos não se encontravam por perto, aquário construído no chão, em círculo, muitos pei-ela tinha um ritual de chamá-los, ao que prontamen- xes dividiram aquele espaço, durante muitos anos. www.varaldobrasil.com 16
  17. 17. Varal do Brasil setembro/outubro 2012Recordo-me que uma das coisas que mais me divertia era quando íamos limpar o aquário. Que farra! Mexer com água sempre foi algo que me atraiu, e fazer todo aquele procedimento, abrindo o batoque,escoando a água, tirando os peixes, limpando tudo, enchendo novamente o aquário (que nada tinha a vercom os aquários domésticos que conhecemos) e colocando os peixes de volta ao seu habitat, tudo aquilo erabem divertido e envolvia a todos nós. Acontece que, quase sempre, após a limpeza, algum peixinho morria,estranhando a água tão limpa. Este aquário cercava um grande viveiro, onde tínhamos periquitos de várias cores. Eu achava queaquele era um espaço enorme para as pequenas aves. Na parte de baixo do quintal, próximo de onde os jabotis ficavam, havia um galinheiro. Não cheguei aconhecer as galinhas. Apenas ouvi falar, também. Este espaço depois se transformou num orquidário. Lembro-me da goiabeira, dos limoeiros, das roseiras, da erva-cidreira, da hortelã, do manjericão e dosinúmeros insetos que ali habitavam. Recordações da casa da Rangel Pestana, lugar em que vivi boa parte de minha vida. INFÂNCIA Por Audelina Macieira Bonecas ao chão Carrinhos na estante meu conjunto de chá na sala de visita de minha mãe. Velotrol abusado eu deixo sempre tudo espalhado pela casa e não arrumo nada sou criança. Mamãe me acuda Ai! Ai! Ai! Quero merendar biscoitos recheados vou tomar banho com a Lili minha boneca de pano a noite vou falar com papai do céu que quando eu crescer quero ser bailarina. www.varaldobrasil.com 17
  18. 18. Varal do Brasil setembro/outubro 2012 Ta escurecendo, a mãe levanta e diz que vai passarPé-de-Moleque um café fresquinho. Aquele torrado no tacho, pisa- do no pilão e coado no saco de pano de algodão. Ai que gostoso. Café quentinho e tapioca com coco!- também bem cedinho... e o cheirinho da tapioca que a mãe assa e poe no pau, pra ficar durinha, crocante igual a bis- coito. Assim o moleque tem forca de correr o dia todo...Por Francy Wagner vai pra escola de bicicleta e no recreio joga bola com a molecada, tudo parente e amigo, primo, filho do padrinho, primo do primo do pai, da mãe, ... umaJunho. Mês das quadrilhas! Santo Antonio, São Jo- família grande...ao e São Pedro! Pé-de-moleque, gostoso torrado no forno da casa deBolo de milho, canjica, pé-de-moleque,... farinha... pelo tio Manoel, que faz os melhores da cidade! Ele também é o melhor pra torrar a farinha,Sabores da minha infância. Sabores do interior do o melhor forneiro da região. O moleque ajuda o tioCeara, da querida terrinha, onde se pula, dança, quando ele deixa.... torrar farinha é trabalho de res-brinca, corre, toma banho de lagoa, de riacho, de ponsabilidade. Tem que saber o ponto certo pra naorio, de mar, de chuva... deixar a farinha crua nem queimada. E o molequePé-de-Moleque, escurinho, dentro da palha da bana- fica ali, aprendendo o ponto certo... quando cansa,neira... daquela touceira que fica logo ali, no rego corre e vai brincar de pião ou de bilha com os pri-de agua que sai da pia da cozinha. Nunca falta água mos. Farinhada é uma festa.pra bananeira. E foi justo ali que nasceu aquele pe No final de semana, quando o pai não grita pra fazerde tomate frondoso, que a mãe vai catar um tomate nada, o moleque escapole cedo e vai pra lagoa.bem maduro pra temperar a panela do frango...aquele carijó... almoço do domingo! Lagoa cheia.Pé-de-Moleque, temperado com erva doce que o Inverno bom.moleque foi correndo comprar na venda do tio Jar- Fartura na porta do terreiro.bas. Pular da tabua, nadar ate o fundo, dar tainha naPé-de-Moleque, enfeitado de castanha de caju, da- agua. Depois correr e se salgar de areia só para tirarquelas que o moleque ajudou o pai a juntar debaixo em seguida noutra tainha.do cajueiral, assou na palha do coqueiro, o mesmo A mãe chega mais tarde com as meninas e coma-coqueiro do qual a mae quebrou o coco para tempe- dres. Ficam mais no raso.rar a tapioca de manha bem cedo. Castanha inteira épra venda, quebrada ou murcha é pra boca... do mo- A mãe nem se preocupa com o moleque. Aprendeuleque. a nadar ainda bebe de colo, ali mesmo nas aguas da lagoa... assim como a molequinha mais nova, que“Ah! Se se quebrar bem muita!”- sonha o molequeenquanto vai tirando o miolo da castanha quente e agora mesmo aprende a andar e cair sentada na bei-ficando com os dedos escurecidos, igualzinho ao ra dágua, e todos acham muita graça da braveza daseu pe, ali sentado ao lado da mãe e da irmã, debai- menininha.xo do cajueiro “da cozinha”, onde corre mais vento, Compadre Pedro vai matar um porco no sábado. Jáum ventinho fresco da tarde... convidou todo mundo conhecido para a matança... os homens vão logo de madrugadinha. A comadre www.varaldobrasil.com 18
  19. 19. Varal do Brasil setembro/outubro 2012só chega mais tarde, para ajudar a prima com o sarrabulho. E a molecada fica no cajueiral do terreno, brin-cando.Os pês vai ficar escurinhos, pretinhos... da cor do bolo: Pé-de-moleque!Da cor nossa de cada dia, pois tira o chinelo para correr e pegar o frango do almoço do domingo. Aquelecarijó, grandão que já tá querendo pegar as galinhas e briga toda hora com o galo... mãe não quer ele dereprodutor não.“Vai moleque, pega o frango carijó e bota no grajau!”- grita a mãe do pé da porteira da cozinha.E la vai o moleque, na carreira, atrás do frango ligeiro, que da cada rabiada, que deixa o moleque ali no péda moita. A mãe solta a “Traíra”, a cachorra da casa, pra ajudar. Sem a ajuda da Traíra o moleque não pe-ga o frango hoje não... acaba escapulindo pro mato, aí... adeus!Traíra segura o frango, mas não fere.O Carijó vai ficar no grajau até domingo cedinho, pra limpar. Agora a mãe vai botar só milho pra ele co-mer... e talvez um restinho do farelo...a sobra do balde da comida do porco... que também esta na engordapro batizado da pequena... vai ser na festa da santa. A mãe fez uma promessa.Só a tardinha a mãe grita: “Vai tomar banho menino, limpar esses pês e lavar a chinela! E não vai maispro terreiro hoje não!”Já faz tempo que o pai vendeu umas sacas de castanhas e comprou a televisão com a parabólica. Mas elesó deixa assistir depois que faz o dever de casa.O moleque so vai fazer o dever de casa, depois que toma banho a tardinha... quando a mãe grita! Nas sex-tas ele escapole cedo, pois a mãe vai pro terço na casa da comadre e ele vai brincar de bilha com os pri-mos.É mais divertido do que ficar ali, sentado na frente da televisão assistindo aquelas novelas. Novelas sãopara as mulheres... ele quer ser macho igual ao pai.Mas ainda esta muito cedo pra tomar uma meiotas na bodega do Chico. Então o jeito é brincar de bilha eapostar com quem vai dançar quadrinha esse ano. Ele esta pensando na prima, a Marli, filha da tia Janete.Ela ta ficando danada de bonita. E ele tá deixando de ser... moleque! www.varaldobrasil.com 19
  20. 20. Varal do Brasil setembro/outubro 2012 Peraltices de menina Por Lúcia Amélia BrüllhardtEla era uma menina muito sapeca que mordia todas as outrasmeninas na escola, fazendo amizades somente com os meninos.Certo dia, esteve precisando de dinheiro, e ninguémarranjava, então a menina peralta foi à feira do troca – troca, ven-der seu gatinho de estimação, chamado Foen. Um vizinho a viue avisou à família dela. Graças a Deus, ninguém comprou o coi-tado.Certa vez, na cidade em que morava, havia chegado a época docarnaval. Em cidades de interior, costumavam sair os papangus,homens vestidos de urso. Só que Lúlú ( apelido da menina peral-ta ) jamaishavia visto um mascarado, nem fantasiado de urso. Estavam andando na feira, quando aparece um cara ves-tido de diabo e outro de urso. Lúcia estava com mais duas crianças e ambas correram. Um menino se bor-rou todo e ela desmaiou, chegando a casa quieta, sem acordar ninguém, passando o maior sufoco, pois osoutros dois haviam se perdido na feira.Em uma outra ocasião, ela foi a uma cidade chamada Capoeiras, em dia de feira ( no interior do Nordeste).Lá havia uma convenção de partidos políticos. Sua mãe, na época, era escrivã eleitoral e estava presente.Lúlú vai até ela e pede dinheiro, porém a mãe nada lhe dá. Não esperou mais.Pegou o pandeiro de uma pessoa com necessidades especiais, (um cego), começou a cantar e tocar no meioda feira. Pegou as rapaduras de um senhor e saiu vendendo, mas não ficou com o dinheiro, deu o dinheirodas rapaduras vendidas ao cego.Aí que saudade dos meus tempos de criança, onde a inocência, humildade e esperança reinavam em meucoração.Aí que saudade das peraltices de outrora, que com o passar dos anos ficam somente registrados no livro damemória.Aquela menina peralta ainda habita em meu ser, amo muito ela e sempre que tenho oportunidade deixo elareviver e fazer suas PERALTICES DE MENINA.Esta menina peralta hoje se chama Lúcia Amélia Brüllhardt. VOCÊ SABIA?A revista VARAL DO BRASIL circula no Brasil do Amazonas ao Rio Grande do Sul...Também leva seus autores pelos cinco continentes! Quer divulgação melhor? Venha fazer parte do VARAL! Literário, sem frescuras! E-mail: varaldobrasil@gmail.com Site: www.varaldobrasil.com Blog: www.varaldobrasil.blogspot.com www.varaldobrasil.com 20
  21. 21. Varal do Brasil setembro/outubro 2012VARAL ANTOLÓGICO 3Abriram-se as inscrições para a seleção para o livro VARAL ANTOLÓGICO 3 a ser lançado em2013.Os interessados deverão enviar textos (no mínimo um, no máximo 5) num total de quatro pági-nas A5, letra Times New Roman 12, espaço 1.Todos os textos serão examinados por uma Comissão Examinadora composta de escritores ecríticos que acompanham e/ou participam do Varal do Brasil.Os textos selecionados serão comunicados por e-mail a cada autor e farão parte do livro VaralAntológico 3 mediante participação cooperativa.O tema será livre e os textos podem ser: contos, crônicas ou poemas (todos os três em todas assuas variações).Para o regulamento completo escrever para : varaldobrasil@gmail.com www.varaldobrasil.com 21
  22. 22. Varal do Brasil setembro/outubro 2012 Vale à pena estudar Por Helena Akiko KunoJennifer era uma garota muito estudiosa, mas nos últimos tempos estava muito distraída. Um dia sua pro-fessora Isabel aplicou uma prova de Matemática e enquanto Jennifer respondia as questões, suas amigasSofia e Rute não paravam de lhe pedi as respostas.No dia seguinte a professora entregou a prova corrigida e quando Jennifer pegou a sua, ela não quis acredi-tar, a nota era 4,5 !!!.Jennifer ficou tão preocupada que passou mal. Sua mãe Keila foicorrendo buscá-la na escola e a levou ao médico. Como haviamuitas crianças na clinica, Jennifer demorou a ser atendida, tem-po suficiente para ela melhorar, o que foi constatado pelo médi-co. No entanto, o médico alertou que poderia ser um resfriadoque estaria por vir.À noite em casa, Jennifer contou a sua mãe que havia tirado notabaixa na prova de Matemática. Ao receber a notícia sua mãe fi-cou brava, mas resolveu ajudá-la entregando todos os dias 10páginas de lições até a próxima prova.No dia da segunda prova de Matemática, Jennifer disse para suasamigas:- Não me peçam respostas porque eu não vou dar, pois já foi malna outra prova.Então suas amigas colaboraram e não pediram respostas.No dia seguinte, a professora novamente entregou a prova corrigida e quando Jennifer recebeu a sua, elagritou:- Jennifer, 10 !!!Jennifer festejou dentro da sala de aula e todos ficaram felizes.Jennifer não parava de gritar:◊ Vale à pena estudar!!! www.varaldobrasil.com 22
  23. 23. Varal do Brasil setembro/outubro 2012 O Riacho * mentia que sim. À noite, na hora de dormir, quase não consegui chegar até a cama, à dor era tanta, meu coração Por Ana Rosenrot dava a impressão de estar batendo no meu pé, que estava cada vez mais inchado; eu sabia que Acho que eu devia ter no máximo sete anos; precisava fazer alguma coisa, mas continuava relu-estava passando o feriado− como sempre fazía- tante em pedir ajuda; foi quando ouvi a porta domos−, no sítio de meus avós e estava fazendo o quarto abrir-se suavemente e vi minha avó aproxi-que mais gostava naquele tempo: andar descalça mar-se segurando sua enorme caixa de primeirosdentro do riacho. socorros −minha velha conhecida−, sentar-se na Sabia que levaria a maior bronca da minha beirada da cama, segurar meu pé delicadamente,mãe se fosse pega, pois ela havia me proibido de examinar o local, pegar uma pinça grande na cai-fazer aquilo, por considerar a brincadeira boba e xa, arrancar o caco de vidro num único puxão, lim-perigosa. Não que eu corresse um sério risco de par o sangue, aplicar mercúrio-cromo –o que doeume afogar, já que o riacho não tinha mais que um mais− e colocar um pequeno curativo; livrando-mepalmo de profundidade, mas ela temia que eu me finalmente daquele tormento. Fiquei ainda maismachucasse com alguma coisa cortante ou perfu- feliz por saber que não sofri sozinha, pois minharante, que eventualmente poderia haver na areia avó e eterna cúmplice me observara o dia todo eque lhe cobria o fundo. esperou a hora certa para salvar-me, como sem- O problema é que eu não conseguia resistir pre.à sensação deliciosa de caminhar naquela areiafria, enquanto o movimento da água −geladíssima−massageava meus pés, as flores que nasciam namargem, perfumavam tudo ao redor, era tanta core tanta luz, que minha imaginação corria solta, cri-ando milhões de aventuras. Naquele dia em especial, o lugar estava lin-do, havia chovido à semana toda e agora o sol bri-lhava novamente, criando reflexos coloridos no fun-do do riacho; eu queria aproveitar cada segundo,antes que alguém sentisse minha falta ou que mi-nhas primas mais velhas −e muito chatas− chegas-sem, tomando conta de tudo e querendo dar or-dens; o que sempre acabava com as minhas brin-cadeiras. Então andei para o lado mais afastado,onde as árvores ocultavam a visão do riacho eafundei os pés na areia com vontade; foi quandosenti uma dor repentina, um cutucão na sola do pé A autora com um ano de idadedireito e percebi imediatamente que estava ferida;fui pulando num pé só e sentei-me na margem, pa-ra poder ver o que tinha realmente acontecido, fi-quei em pânico quando vi o que era: um caco de Depois ela levantou-se, deu-me um beijo navidro estava fincado dentro da carne do pé e eu testa e me fez prometer nunca mais fazer aquilonão conseguia puxá-lo para fora, nem podia ter novamente; isso se tornou mais um de nossos mui-noção do seu tamanho, pois somente uma ponti- tos segredos. E claro, eu cumpri a promessa comnha estava visível. prazer, pelo menos até o feriado seguinte. Mesmo sem ter nenhum sangue saindo, fi- Como sinto saudades desta época especial;quei morrendo de medo e quis gritar por ajuda, hoje, após tantos anos, não existem mais meusmas como queria a todo custo evitar um castigo avós, nem o amor verdadeiro, ou aquela cumplici-pela desobediência, fiquei quieta apesar da dor; dade desinteressada, que deixamos de encontrarsaí do riacho, andando o melhor que pude, calcei quando nos tornamos adultos; o riacho secou e aminhas sandálias, fui para dentro da casa dos realidade muitas vezes assusta; mas minha infânciameus avós e passei o restante do dia sentada, as- viverá para sempre, escondida bem no fundo da mi-sistindo televisão; o que fez com que todos estra- nha alma, que jamais deixará de ser criança.nhassem, pois quando eu ia ao sítio, não paravaquieta nem por um minuto e naquele dia até asprovocações das minhas primas – como elas eramchatas−, eu aguentei calada; várias vezes me per- *Para meus saudosos avós S.O. e M.I.O.guntaram se eu estava bem e forçosamente eu www.varaldobrasil.com 23
  24. 24. Varal do Brasil setembro/outubro 2012 CARRO DE BOI mão, conduzia com perfeição as parelhas de bois e sabia o nome de todos. Quando seu tio descobriu ficou zangadoPor Vó Fia e disse: vamos ver se você aprendeu mesmo, carregou o carro com sacas de milho e man- Durante o ano todo Cidinha estudava no dou que ela guiasse os bois até o pátio da fa-Grupo Escolar Quincas Tenório, o único exis- zenda, ela fez tudo certo e o tio achou muitatente na cidade de São João da Serra; ela fre- graça no final; para alegria de Cidinha ele per-quentava as aulas do turno da manhã, voltava mitiu que ela conduzisse o carro carregado atépara casa e depois do almoço brincava um a cidade e foi um divertimento para a comuni-pouco na rua com as crianças vizinhas, em se- dade a passagem de um carro de bois, condu-guida ia ajudar sua mãe no trabalho diário de zido por uma menina.fazer doces, sequilhos, roscas e bolos de en- Cidinha estava no céu, usando a vara decomenda para as festas do lugar, dona Isaltina ferrão com sabedoria ela enfileirava os bois, deera a melhor doceira da região. vez em quando tirava o chapéu de palha que Ajudando sua mãe a pequena Cidinha usava e cumprimentava o alegre publico, seuajuntava o útil ao agradável, útil porque estava tio todo orgulhoso seguia atrás do carro e seaprendendo uma profissão e agradável porque aproveitava do sucesso da sobrinha, distribu-ela gostava de ajudar dona Isaltina no preparo indo sorrisos para todos; chamando os boisdos doces; estudando e trabalhando, a menina pelos nomes ela os enfileirava e seguiam emesperava ansiosa pelas férias de fim de ano, perfeita ordem e o carro pesado cantava comépoca em que ia para a Fazenda Casa Verde os eixos untados de óleo.de propriedade de seu tio Lucio, lá ela se di- De repente apareceu dona Isaltina muitovertia muito, mas o que mais gostava era do zangada, tomou a vara de ferrão da filha, di-carro de bois. zendo: era só o que faltava, uma filha carrean- Aquele carro enorme puxado por três jun- do como um moleque, mocinhas de família nãotas de bois era o sonho de Cidinha, ela passa- trabalham como carreiro ou carreira, sei lá co-va o ano todo esperando a hora de ser levada mo dizer; lugar de menina é na escola estu-por ele até a fazenda e criando coragem para dando ou na cozinha aprendendo arte culináriafazer um pedido inusitado ao severo tio, mas para ganhar a vida e no futuro agradar ao ma-os dias passavam, as férias terminavam e o rido; virou-se para o irmão e disse: Cidinhamisterioso pedido não era feito, mas naquele não volta mais em sua fazenda Lucio e nuncaano ela se chegou ao tio e disse: tio Lucio me vou te perdoar, ai terminou o sonho da menina.deixa conduzir os bois do carro? Ele tomou umsusto e disse: onde já se viu?Com a insistência da sobrinha ele explicou:meninas não conduzem bois de carro, esse éum serviço reservado aos homens, por isso sediz que o condutor se chama carreiro e o meni-no que vai à frente se chama candieiro, tudono masculino, entendeu Cidinha? Entender elaentendeu, mas desistir não desistiu, porque elasempre sonhara em conduzir um carro de bois;o carreiro era o Francelino e o candieiro era oTinim. Os dois eram amigos da menina e duran-te a lida carreando coisas variadas, deixavamque ela viajasse de carona em cima da carga evarias vezes foram advertidos pelo patrão, quenão achava próprio de mocinhas aquela ma-nia; pela amizade Francelino resolveu ensinaros mistérios da condução dos bois a Cidinhae em pouco tempo ela com um chucho na www.varaldobrasil.com 24
  25. 25. Varal do Brasil setembro/outubro 2012 PARTICIPAÇÃO NO VARAL • E em novembro, aniversário do Varal! A revista Varal do Brasil completará 3 anos e conta com você para festejar! O tema será livre e você po- de se inscrever até 10 de outubro (as inscrições podem ser encerradas antes, dependendo do número de participantes). • E para janeiro de 2013 vamos falar da natureza, do planeta, dos animais, da vida: em janeiro nosso tema será o Planeta Terra, porque falar de nosso planeta nunca será demais! Textos até dez de dezembro. Você pode escrever na forma que desejar: verso ou prosa! Haicai? Trova? Poema? Crônica? Conto? Mi- niconto? Soneto? Que outras mais você faz? Mostre pra gente! Traga sua poesia, sua visão da vida, seus sonhos, para o VARAL! Venha conosco! Varal do Brasil: Literário, sem frescuras! FAÇA SUA ESTA CAUSA! ADOTAR É ANIMAL AJUDANIMAL, GRUPO DE AJUDA E AMPARO AOS ANIMAIS DO ABC www.ajudanimal.org.br www.varaldobrasil.com 25
  26. 26. Varal do Brasil setembro/outubro 2012 Nossa infância Por Karine Alves Ribeiro Nossa infância é nosso começo, começamos grandes ou começamos pequenos. Às vezes nos ferem tantas regras, que parecem inúteis e quando crescemos, são a nossa salvação.Nossa infância serena, alegre, intensa, livre com horário para voltar para casa, ou desligar a TV. Tudo isso é saudável... Nossa infância agredida, pisada, humilhada, violentada, trucidada, esquecida, esta é podridão... Sim, apodrece-se o fruto antes mesmo de cair no chão... Colhe-se o limo, se não há aderência entre pais e filhos, irmãos e irmãs. O Amor é criança de olhos vivos, alegres, tranquilos. Criança é luz acesa, praiana, colorida. Luz é Deus, é vida, é criança que renasce cheia de amor. www.varaldobrasil.com 26
  27. 27. Varal do Brasil setembro/outubro 2012 BRIGADEIRO Ingredientes 1 colher(es) (sopa) de manteiga 2 lata(s) de leite condensado 1 xícara(s) (chá) de chocolate granulado 4 colher(es) (sopa) de chocolate em pó Modo de preparo Numa panela junte o leite condensado, a manteiga e o chocolate em pó. Misture bem até incorporar tudo. Leve ao fogo brando mexendo sempre. Utilize panela defundo grosso. Quando a massa começar a se desprender do fundo da panela (o tem-po varia de acordo com a panela) passe a massa para um prato untado com mantei- ga e deixe esfriar. Unte as mãos com manteiga e enrole os brigadeiros, passando-os no granulado. Coloque em forminhas de papel. www.varaldobrasil.com 27
  28. 28. Varal do Brasil setembro/outubro 2012PÉROLAS AOS PORCOS Você não aprendeu isso na escola? -Aquele negócio doido de falar uma coisa que- rendo dizer outra né? Mas vô você não respon- deu minha pergunta: deu ou não pérolas pros seus porcos? -Você não acabou de dizer que sabe o que é um ditado popular, uma metáfora? Então “dar pérolas aos porcos” quer dizer que não adianta dar pra uma pessoa, alguma coisa da qual ela não precisa, ou A louca percebe-se tão vivida, que não conhece o valor. Os porcos são bastante gulosos, comem de tudo que encontram, por isso Lamenta a falta de força e reclama engordam tão rápido. Pérolas são joias que agra- Já não aguenta o peso pra empurrar na subida, dam muito as mulheres, os porcos até podem en- golir, mas isso não vai fazer diferença nenhuma. Nem segurar a carga, pra na descida Elas serão eliminadas junto com as fezes e vão se Evitar que escorregue e caia na lama! misturar naquela lama toda. -Eca!!! Que nojo!! .....Vô, se as pérolas são joias que podem até entrar na barriga do porco, Por Lariel Frota fazem uma viagem grande lá dentro e depois saem junto com o coco inteirinhas, elas continuam sendo valiosas, ou se transformam em coco também? -O dia hoje será bem divertido hein? Acho dahora vocês se juntarem pra uma boa comilan- -É disso que to falando. Como elas não seça. Igual no nosso condomínio, não precisa de transformam em alimento, são eliminadas exata-muito motivo pra uma churrascada. mente como foram engolidas, ou seja, se eram pé- rolas verdadeiras, continuam tendo o valor que as -No nosso caso o motivo principal é um tra- pérolas verdadeira têm!balho importante, depois a gente aproveita paracolocar a conversa em dia, e saborear as coisas bo- -Só que muuuuuuitas sujas e fedorentas né?as que as mulheres preparam no fogão a lenha! -Mas o valor delas não mudou concorda? É só -Já sei vão vacinar os porquinhos do tio lavar bem direitinho e pronto.Roberto né? -Hum...entendi....mas se ninguém nunca achar -Oito leitoas deram cria, e ele está com uma as pérolas que os porcos por acaso engoliram, e de-porção de leitõezinhos pra vacinar, vamos dar uma pois cag…ops, desculpe ai, eliminaram no meioforça. Daí a gente fica sabendo das novidades, as daquela sujeira toda do chiqueiro….mulheres trocam receitas e a criançada brinca, na- -Elas continuarão sendo pérolas valiosas, escon-quela correria danada de um lado pro outro. didas, camufladas, enterradas, mas ainda assim se- -Todo mundo se dá bem no final né? Vô você rão para sempre, pérolas valiosas.já alimentou porcos? -Vô, nossa que vento forte!. Levantou um -Claro Guto, muitas vezes. Hoje já não crio montão de folha seca, viu que legal, aquela ali pare-porcos, mas não é pra me gabar não, a minha cria- ce uma pipa voando bem alto, ufa!!! Está tudoção era conhecida como a mais bem cuidada da re- voando iiuuuuuuuuuuuuu!!!!gião. -É mesmo tempo de bater essas ventanias. Fe- -Então você já deu pérolas pros seus porcos cha os olhos até o vento passar. Tem muito ciscocomerem? voando, se um deles entra no olho arde que é uma barbaridade. -Pérolas aos porcos? -Ainda bem que passou rápido! Olha vô fez até -Sim vô.. Escutei a mamãe falando pro papai nuvem de pó bem fininho, será que essa poeira todaque não adiantava ele falar daquele jeito com por- pode chegar lá no meio daquelas nuvens branqui-teiro do prédio, que é o mesmo que dar péro- nhas???las pros porcos. -Isso é difícil de saber você não acha? -Ah, isso é um ditado popular, uma metáfora. www.varaldobrasil.com 28
  29. 29. Varal do Brasil setembro/outubro 2012 -Seria bem legal heim? Já pensou, um punhado de terra fininha subir, subir bem alto e che-gar nas estrelas? -Mesmo chegando lá, continuaria sendo apenas uma nuvem de pó, não virariam estrelas. -Igual as pérolas no meio do coco dos porcos né? -Como assim? -Ora vô preste atenção: se a pérola continua sendo pérola, não perde seu valor mesmo enterrada na su-jeira, o pó de terra não ganha valor, nem brilho, mesmo que chegue bem alto!!! Sabe mais o que acabeide descobrir? -Não, mas estou bem curioso pra saber. -Acho que a mamãe falou errado sobre o tal ditado popular.Se as palavras que meu pai falou pro por-teiro eram tão valiosas como as pérolas, ficarão enterradas bem no fundão da cabeça dele, escondi-dinhas por muito tempo. Quem sabe um dia fuçando a caixa de pensamentos ele não desenterra e final-mente entende o valor delas né???? RECEITA DE BALA DE GOMA (JUJUBAS) Ingredientes: 1 colher (sobremesa) de essência do mesmo sabor da gelatina 3 envelopes de gelatina sem sabor (35 gramas) 2 copos de água 1 caixa de gelatina com sabor (85 gramas) 1 kg de açúcar cristal Modo de Fazer: Dissolva a gelatina sem sabor em 2 copos de água, adicione a gelatina com sabor e mexa até dis- solver. Leve ao fogo por 1 min., não esquecendo de sempre estar mexendo. Após, adicione o açúcar e mexa para dissolver bem. Coloque a essência e mexa até ferver. Despeje a calda em um prato untado com óleo. Deixe descansar por 24 horas fora da geladeira. Corte as balas em cubinhos e passe no açúcar cristal. Guarde as balas por 3 dias antes de consu- mir, esse período é necessário para que a bala adquira mais consistência. Fonte: hƩp://www.mundodasdicas.net/ www.varaldobrasil.com 29
  30. 30. Varal do Brasil setembro/outubro 2012Minha Avó Passarinho poucos foi perdendo a lucidez, variando, o que fi- nalmente me fez entender a poesia que há nas avós. Seu enterro foi uma ocasião de reencontros. A famí-Por Marcelo Benini lia reunida e os tantos conhecidos formavam uma pequena multidão exultante na dor e na alegria. DoO que há de mais remoto no mundo são as avós. lado de dentro da sala onde se dava o velório, haviaAntes delas, pairam apenas sombra, bruma e esque- contrição, choro e corações cheios de saudade. Docimento. Quando estiveres dirigindo à noite, em lado de fora, abraços, casos relembrados e até al-alguma estrada vicinal a caminho de casa, e se, por guns risos ousados demais para a ocasião. Tenhomeio minuto, apagares completamente os faróis do certeza que naquele dia minha avó soube compreen-carro, entrarás em contato com teus antepassados der as contradições humanas.que espreitam para tomar posse de ti. Se vires um Somente quando fecharam o caixão é que nos de-cavalo baio atravessando a estrada, sabereis que é mos conta de que a perderíamos para sempre. Queuma sombra vinda do mundo que antecede as avós. nunca mais tomaríamos café com bolo na mesa deAs avós são como um Tratado de Tordesilhas entre sua cozinha. Que nunca mais seus filhos se reuniri-vivos e mortos: à esquerda delas é melhor não pores am na varanda para contar as histórias da infância.os pés para não imolar o descanso dos esquecidos. O cortejo subiu em silêncio as ruelas íngremes doAs avós, entretanto, tornam o mundo tangível. De- cemitério de Cataguases. Passamos pela sepulturapois delas é que começa a grande aventura de ser onde meu avô descansava e, alguns metros além,menino. paramos para o definitivo adeus. Vi o choro nosTinha um pouco de medo de minha avó e repugna- olhos de alguns tios e a perplexidade nos olhos devam-me a pele encarquilhada, a voz rascante e a alguns primos que, como eu, eram enfim apresenta-tosse provocada pelo excesso de cigarros. Criança dos à morte.tem, entre tantas maldades, essa de não compreen- Quando o caixão desceu, houve grande tristeza.der e amar os velhos. Mas um dia eles se vão e aí Eram os últimos instantes do dia e o sol já se ia porcomeçam os arrependimentos. Eu me senti culpado de trás do morro. Em frente à cova havia um peque-por desejar que ela não aparecesse nunca enquanto no arbusto iluminado pelos raios do fim da tarde.eu me regalava em sua cadeira de balanço. Também Inesperadamente, um passarinho pousou no arbusto,me arrependi de tantas vezes ter jogado futebol per- virou o pescocinho e cantou com tanta doçura queto dos seus vasos de gerânio. Sei que ela nunca me comoveu a todos. Cantou breve e voou como fazemperdoou por isso e pelas marcas de bola deixadas sempre os passarinhos. Percebi então que minhanos muros brancos da casa, que, confesso, me de- avó havia partido.ram enorme prazer.Minha avó morreu de enfisema pulmonar. Antes,porém, definhou vários anos sobre a cama. Aos www.varaldobrasil.com 30
  31. 31. Varal do Brasil setembro/outubro 2012 HISTÓRIA DE UM AMOR E UM NOME Por Norália de Mello CastroNossa Infância é o tema proposto para o Varaldo Brasil de setembro 2012. Tema difícil paramim, que posso dividir em duas histórias distin-tas:1ª. Filha de um espírita convicto que brigou comseu irmão cônego católico, o inventor do nomeNorália, por ter roubado sua filha para batizar, (História escrita para o grupo Love Quilts, para ex-sem autorização dos pais, o que resultou num plicar o significado do nome.)romance escrito pelo pai, de uma briga ferrenhaentre os irmãos, através de inúmeras cartas es-critas, com filosofias diferentes. Norália só vol- Hoje vou contar uma história de amor emtou a ver o tio padrinho aos 8 anos de idade. Esta tópicos, para melhor compreensão, e, também, con-briga aguçou na menina e na jovem toda uma trolar a emoção intensa dessa história em mim.procura da VERDADE, que até hoje procuramais e mais. Tornou-se a eclética que é, nem ca- SÉCULO XX:tólica, nem espírita. DÉCADA DE VINTEDo pai ficou marcado o seu conceito de Liberda- No final da década de 20, a família estavade, principalmente a religiosa. Ele pregava que encantada por conhecer a bela esposa de um de seusreligião é de fórum íntimo de cada ser humano, e rapazes: jovem, bonita, simpática, muito comunica-que cada um escolhe a Verdade que melhor lhe tiva, essa jovem conquistou totalmente a família doresponder. marido. E sua primeira viagem ao Sul de Minas foi total sucesso.2º. A outra história marcante de sua infância, foi Quando souberam que a bela jovem tinhaa de seu próprio nome, escrita para o Love Qui- uma irmã, começaram a brincar em casar a irmãlts, grupo de bordadeiras ao qual pertence, e que com mais outro rapaz da família. hoje apresenta aqui. Um dos rapazes gostava de brincar com jun- ção de nomes e fazer monogramas. Por sinal, ele desenhava monogramas belíssimos! Um dia, entrou cozinha adentro, eufórico, gritando: www.varaldobrasil.com 31
  32. 32. Varal do Brasil setembro/outubro 2012 A bela jovem Francelina era minha tia; DÉCADA DE 50Magnólia, minha mãe; Noraldino, meu pai. O espo-so de minha tia era primo de meu pai. Norália, jovem muito ruiva e muito branca, Quando “fizeram” o casamento de meu pai, meio tímida, mas alegre, tem um choque grandelá no Sul de Minas, ele era ainda um jovem adoles- com o nome que recebera. Este nome e a sua ima-cente e minha mãe uma garota de seus 12 anos de gem jovem muito ruiva, faziam-na ser vista comoidade, morando em Capela Nova, hoje Betim, parte estrangeira, uma gringa legítima dos países do Nor-da Região Metropolitana de Belo Horizonte. te, com um nome diferenciado. Era comum lhe per- E a brincadeira parou por aí... Mas, hoje, guntarem de que país era. Ela levava na brincadeirapensando nesse episódio, imagino que tais nomes e respondia:tenham mexido na sensibilidade do adolescente en- - Sou uma gringa legítima!volvido, até mesmo inspirado – e muito! – suas fan- Era comum também lhe perguntaremtasias amorosas. “Como?”, ao dizer ao interessado como se chama- va.DÉCADA DE TRINTA Ao telefone, então, era um desastre: e lá vi- nha o “Como?” Noraldino, meu pai, um lindo jovem, vem Por isso, na maioria das vezes, ela respon-para a Capital, para continuar seus estudos e fazer dia:faculdade. Vai à casa do Primo, da Francelina, e lá - Nora, apenas Nora.conhece a “famosa” irmã, Magnólia, uma linda jo- E o assunto morria por ai. Porém, Noráliavem loira de olhos azuis, no auge de seus 17 ani- gostava muito de ter o nome Norália: de tão fácilnhos. Meu pai, ainda estudante de Direito, traba- grafia, mas de pronúncia que confundia.lhando como bancário, perdidamente apaixonado,começa a namorar Magnólia e se casam um ano Norália veio a ter uma grande decepçãodepois. mesmo quando aquele lindo jovem moreno que na- morava, por quem era apaixonada, chegou a ela um Esperando seu primeiro filho, Noraldino dia e disse:conta para Magnólia a invenção do nome da filhaque ele gostaria de ter e ambos sonham com a vinda - Encontrei o seu nome no livro O Egípcio.da Norália. Magnólia, até então, não sabia dessa Ele está lá inteirinho.história. Mas, quem chegou... foi um menino! Não - É mesmo? – respondeu ela – Vou procu-se decepcionaram com a chegada do menino, pois rar, vou ler o livro.planejaram logo ter outro filho, para vir a menina. E o apaixonado sorriu. Ele lhe chamava deE Norália chegou no segundo parto de Magnólia, Lia, abreviatura de seu nome que é “nora” maisque acabou tendo 6 filhos ao todo. “lia”. Era Lia pra cá e pra lá, nos passeios, nos www.varaldobrasil.com 32
  33. 33. Varal do Brasil setembro/outubro 2012nos bailes, nos cinemas... e como Norália era apai- deixava as coisas acontecerem e pronto.xonada! Adquiriu imediatamente o livro e – sôfrega– devorou suas mais de 500 páginas. Entretanto, apersonagem com o seu nome não aparecia! Quaseno final do livro, de repente, Norália parou, sua res-piração sumiu, ela ficou em estado de choque. - Então é isso?! Não sou personagem?! Sou Noraldino adorava contar essa história doum mundo de estrume? nome da filha: ele amara Magnólia antes mesmo de Trêmula, fria, respiração desenfreada, ela conhecê-la; dizia que tinha de casar-se com ela parasentiu o ódio entrando dentro dela, com uma força que Norália existisse.extraordinária, da raiva à mais profunda indigna- - Mas, gente, – dizia Noraldino, soltandoção. Ela, pela primeira vez, não foi ao encontro do gargalhadas – o nome da filha já existia, mas elajovem moreno: odiava-o ao extremo. No livro, nu- nasceu 4 anos depois que casei com a minha Mag-ma passagem, um personagem “ficara atolado até nólia! – e gargalhava – Sim, 4 anos depois! A mi-as lias”, num bom Português quer dizer: “ficara ato- nha Magnólia era pura! – e gargalhava.lado até as fezes”. Ele adorava contar sua história, seu amor E Norália mandou o jovem moreno à merda. por sua esposa e o nascimento precoce de Norália.Terminou aí essa história de amor juvenil. Noraldino é nome de origem árabe; e Mag- nólia, de origem romana. O nome de origem roma- na na família é compreensível, pois temos ascen- dência italiana; contudo, o nome de origem árabe,DÉCADA DE 60 nunca entendi, pois não temos nenhum ancestral árabe. Ou será que temos e não sei? O nome de Desde o episódio do livro, Norália começou meu pai veio por causa de um famoso da família,a pesquisar e observar seu nome tão diferente. Não que foi senador e governador interino de Minas, naconheceu ninguém com o mesmo nome; nem em década de 40, mas que, acima de tudo, foi um gran-listas do Tribunal Eleitoral, encontrou alguma No- de educador, que fez as bases do Ensino que temosrália. As pessoas continuavam a perguntar hoje. Noraldino tinha muito orgulho de seu nome“COMO?” quando ouviam o seu nome. Amigos igual ao do primo famoso. Tinha orgulho mesmo.tinham mania de pôr apelidos nela: Lia, Nora, Mas, ao seu nome, o mais próximo que No-Norô, Nono, Lalaia, Nô; e assim foi que chegou a rália encontrou, foi numa revista argentina lançadacontabilizar 21 apelidos! Porém, constatou também nessa década em Buenos Aires: Norali, revista fe-que os apelidos não colavam. Normalmente quem o minina. Penso que o pai Noraldino queria que apunha é que a chamava assim. Teve até gente que filha ficasse famosa, assim como o primo famoso:achou que seu nome fosse pseudônimo. Norália que fardo ela carregava! www.varaldobrasil.com 33
  34. 34. Varal do Brasil setembro/outubro 2012DÉCADA DE 90 tra como substantivo comum (não entendeu muito o quê isso quer dizer e nem se interessou; (pensou: “Talvez fosse igual às lias...”) e uma escritora na Turquia, que parece ser cristã. Ainda irá fazer mais pesquisa, principalmente da Norália Turca... Finalmente, Norália encontrou uma outra Fato é que este inesperado e único encontroNorália, dentista, no interior de Minas. Ao saber com outras Norálias fez levantar esta história: umadessa, identificou rapidamente a mãe dela, que co- história de amor único de meus pais, que viveramnhecera quando ainda criança e – por coincidência 54 anos juntos até a morte dele. Foram felizes, vivi-– casou-se com outro Noraldino. Essa mãe conhe- am em harmonia; nunca vi meus pais brigarem,cia a história do nome Norália e com o esposo cha- nunca brigavam na frente dos filhos. Meu pai foimado Noraldino foi fácil para ela dar este nome um eterno apaixonado por Magnólia, totalmentepara a segunda filha. Já o nome Norália, não mais dedicado à esposa e filhos; a família vinha semprepesava a ela: a vida correu, outros amores vieram e em primeiro lugar para qualquer tomada de decisãoela passou a achar tudo natural com o seu nome. sua. E Magnólia foi uma companheira e tanto, total- Na Internet, encontrou outras Norálias, no- mente vivendo para a família e meu pai.me usado, embora não comum, em países latinos ena América Central; encontrou uma menininha em E, eu, Norália, filha de Noraldino e Magnó-Samoa e uma empresa na Noruega. Mas, Norália lia, ao escrever tudo isto, percebo, mais uma vez,continuava quase que única: em nenhum grupo so- como fui amada por meus pais: deram-me um lindocial em que esteve, encontrou igual. e diferente nome para marcarem – e muito! – sua história de amor, que começou antes deles se co- nhecerem.SÉCULO XXIAno de 2009 Ao fazer o FLICKR na Internet, Noráliaqueria que saísse o seu nome: flickr Norália e, pelaprimeira vez, viu seu nome ser rejeitado, porque jáexistia outro flicker Norália. Pela primeira vez, en-controu uma barreira por existir outra Norália. Sen-tiu alegria e curiosidade; esta última levou-a a pes-quisar. Encontrou três Norálias: uma argentina, ou- www.varaldobrasil.com 34
  35. 35. Varal do Brasil setembro/outubro 2012 sempre soube dividir o pouco que meu pai conse-Confiança no meu pai guia trazer para dentro de casa. E, assim, a gente vivia, viveu e sobreviveu a todas as intempéries,Por: Valdeck Almeida de Jesus mesmo as mais difíceis. A união nos manteve um grupo coeso, marchando junto, com o mesmo objetivo: sobreviver junto. Ho-Meu pai era analfabeto e por isso trabalhava na ro- je, cada um a seu modo, tenta levar adiante as liçõesça, derrubando madeira, carregando peso e servindo daqueles tempos difíceis e quase insuportáveis. Atu-de burro de carga para fazendeiros. A lembrança almente eu patrocino pessoas que passam por situa-que tenho dele era toda tarde chegando do trabalho, ções semelhantes as que passei, e incentivo serescansado, com uma roupa surrada e suja de terra. Eu humanos a se tornarem melhores, a se estabelece-e minha irmã Valquíria ficávamos sentados na porta rem no mundo, graças ao incentivo à leitura e à es-esperando por ele, o Velho João, como chamáva- crita.mos o nosso saudoso pai. Muitas vezes, apoio de outras formas, que não vemDe longe avistávamos e corríamos para encontrá-lo ao caso relatar aqui. Mas a vida é isso, uma correnteantes mesmo de ele chegar em casa. Nos bolsos ele em que cada um tem uma importância e um valor.sempre trazia balas, compradas na venda de "Seu Se um fraqueja, o dever dos demais é se unir àqueleJúlio", que ficava no caminho para casa. Era uma menos resistente para que ele prossiga e faça a cor-festa. Eu e minha irmã ficávamos muito alegres rente não se quebrar... Afinal, se um se perde o res-com aquele presente de todos os dias. tante pode sucumbir junto. Então, não resta alterna-Uma vez eu fiz alguma travessura da qual não me tiva senão ser um corpo só, junto com todos os ou-recordo e meu pai puxou o cinto para me dar uma tros corpos... e seguir, sempre, num único objetivo,surra. Eu estava na porta da frente, que tinha uma qual seja o do bem comum.escada de dois degraus para descer. De tanto medo Em tempos de egoísmo e falta de solidariedade, pa-de apanhar eu me joguei escada abaixo, caí e ralei rece utópico se pensar em coletividade. Mas nãotoda a barriga, que ficou sangrando. Meu pai disse posso deixar o sonho dos meus pais se diluírem na"vem, que eu não vou te bater mais". Confiei no que falta de crença das pessoas, nem posso desanimarele disse e fui até ele, que me pegou e fez carinhos. diante de mentiras e falsidades. Meu objetivo naEsta foi a lição que aprendi, a confiar no meu pai. vida é muito maior do que curtir momentos e terQuando ele dizia uma coisa, ele cumpria. prazer fugaz. Penso para a eternidade e planejo mi-Nossa vida foi muito dura, difícil, de falta de comi- nha vida pensando num horizonte cada vez maisda e de tudo. Mas aprendemos que a vitória não real. O horizonte da vida eterna, do amor e da paz.vem fácil, sem uma luta, sem um planejamento.Meu pai era um lutador e esta garra a gente apren-deu logo cedo. Em tempo de chuva, nossa casa alu- MEU PAIgada se enchia de água e éramos obrigados a correr Meu pai, João Alexandre de Jesus, era um trabalha-para nos abrigar na casa de vizinhos. dor braçal. Pouco eu sei dele, somente que nasceuA solidariedade entre pessoas que necessitam até do em Santo Antônio de Jesus, cidade localizada nobásico para sobreviver sempre é mais forte. Mas recôncavo baiano. Dali ele partiu para Jequié, co-aprendemos que não é somente nos momentos difí- nhecida como Cidade Sol, onde conheceu minhaceis que devemos ser companheiros e solidários. No mãe Paula Almeida de Jesus e se casou. Antes, po-dia a dia, até nas horas alegres, devemos estar jun- rém, ele já tinha esposado outra mulher, com a qualtos, somando, compartilhando, dividindo, oportuni- teve seis filhos.zando a cada irmão ou amigo a vencer, ser vitorio- Um homem firme, rude, mas ao mesmo tempo hu-so. mano e carinhoso. Muitas saudades do meu velho...Viver em comunidade exige dedicação e planeja- O que me consola é que as lições que ele me passoumento, sempre. Assim, cada um somando o pouco jamais serão esquecidas. Ele foi um exemplo de ho-que tem, vai construindo, tecendo uma sociedade nestidade, perseverança e persistência. Apesar demais justa e mais igualitária, menos preconceituosa não ter condições de estudar, incentivou quando eue menos segregadora. A união eu aprendi dentro de fui para a escola. O sonho dele e de minha mãe,casa, quando a pouca comida era dividida por todos, Paula Almeida de Jesus, também falecida, era quepara que nenhum ficasse com fome... Minha mãe os filhos trilhassem um caminho menos árduo na vida. www.varaldobrasil.com 35
  36. 36. Varal do Brasil setembro/outubro 2012E, graças ao esforço deles, todos os oito filhos conseguiram se dar bem e conquistar um lugar ao sol.Hoje eu moro em Salvador, minha irmã Ivonete mora em Santo Amaro da Purificação, Valquíria e Vivaldomoram em Jequié, Valdecy mora em Vitória da Conquista e Valdir, Valmir e Vitório moram em São Paulo.Todos bem de vida, graças aos estudos. É uma vitória que poucas famílias alcançam. Mas, graças a Deus,nossa família se orgulha de sua origem e não esquece o passado, exemplo para nosso futuro e de nossosfilhos. Assim, trilhando o caminho indicado pelos meus pais, sigo em frente e incentivo a tantos quantos euencontro pela vida a estudar e a lutar por seus sonhos. QUER ESCREVER CONOSCO? PEÇA O FORMULÁRIO PELO E-MAIL VARALDOBRASIL@GMAIL.COM E ENVIE JUNTAMENTE COM SEU TEXTO PARA ESTE MESMO E-MAIL! TODA PARTICIPAÇÃO NO VARAL É GRATUITA E A DISTRIBUIÇÃO DA REVISTA ELETRÔNCIA, EM PDF, TAMBÉM É GRATUITA! VARAL DO BRASIL, LITERÁRIO SEM FRESCURAS! www.varaldobrasil.com 36

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