Np2 cap36

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Prévia do capítulo 36 de Necrópolis 2 - A Batalha das Feras

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Np2 cap36

  1. 1. .36. A NTES D A TE M PEST A DE O rapaz colocou o athame sobre suas mãos espalmadas, posicionadasà frente do tronco, mantendo a simetria com os cotovelos para os lados.Cerrou os olhos e passou a expirar e inspirar com mais tranquilidade, co-locou os pés para dentro, próximos à virilha, e os joelhos apontados parafora da postura, e se concentrou. Primeiro limpou a mente de qualquerpensamento possível, depois canalizou a energia que sentia nascer em si,originando do estômago, queimando de dentro para fora e subindo pelopeito num nível que o levava ao êxtase. Seus sentidos se desprendiamdas coisas materiais, o efeito tomava novas formas no processo e ia além,arrebatando essências pessoais, até alcançar o estado mórbido que o faziaperder por alguns segundos a consciência da própria existência. Então, oathame reluziu seu ectoplasma vermelho, conectando-o àquele mundo eeste com a lâmina, permitindo-o alcançar a egrégora. A lâmina brilhava,despejando rajadas escarlates para os quatro cantos da choça onde estavaacomodado. Assim que entrava em simetria energética com a arma, eleprecisava mantê-la por uma hora, oscilando para mais ou menos. Verne saiu exausto do cômodo que os lycans tinham levantado paraele, perto da colina com arbustos e ribeirão. A chuva aumentava, atingindocom força o lago onde se banhava. Ali, aproveitou para refletir. O processode alinhamento ectoplasmático ainda o cansava, mas não como antes. Nãocomo há muitas semanas atrás, em Paradizo, no seu quarto do OrfanatoChantal. O treinamento forçado com Elói, ainda que rápido, parecia trazerresultados mais efetivos naquele momento, ele conseguia notar isso. Umaleve sensação de alívio e satisfação lhe banhava a alma. “Pling-ding.” O rapaz reconheceu o som de imediato. – Isis? – perguntou, sem avistar ninguém. – Você está aí? 252
  2. 2. – Oh! – respondeu ele, ou ela. O dedilhar foi interrompido. – Sim,Verne! O bardo andrógino estava sentado numa pedra que interferia no trajetodo ribeirinho até o lago, segurando a harpa. Seus cabelos loiros e pálidosestavam encharcados, colados em sua face delicada. Os olhos índigos seapertavam pelo incômodo da chuva sobre o rosto. A camisa cândida e acalça violeta, sempre limpas, agora estavam molhadas, com uma projeçãode barro subindo pelas botas brancas. – Desculpe-me, não tive a intenção. – cantou Isis. – Estava eu aqui,refletindo na natureza, vendo Solux desaparecer atrás das nuvens tempes-tuosas. Mas a chuva me acalma e me inspira. – Sem problemas, Isis. – disse Verne, enquanto se cobria com a toalhaque tinha trazido de seu mundo. – Está preparado para o que virá? – Sempre. Já cantei outras guerras, outras mortes. Tenho mais sanguenessas solas do que barro. – Ele, ou ela, se levantou, caminhando até ooutro, desviando das poças na grama fofa e molhada como se fosse umdançarino. – E, você, está preparado? Um trovão soou distante. – Acho que não. Mas estou disposto. – Isso é um começo. – sorriu tranquilo. – Gostaria de ter esse seu espírito calmo, Isis. – Verne vestia uma batalimpa dentro da choça, assistido pelo andrógino da entrada. – Ainda bem que não tem. Você precisará do espírito guerreiro nahora da batalha. – De repente, a tranquilidade do bardo se esvaiu, dandolugar a uma expressão tensa, meio triste. – E terá de sujar as mãos... – suavoz quase sumindo. – Isis tem razão. – zuniu Lupita, inesperadamente. Molhada, suja ecansada, estava ofegante, como se tivesse corrido até ali. – Agora precisode você. Verne recuperou sua mochila, prendeu o athame na cintura e, junto deLupita, que carregava Magma no colo, atravessou o caminho do ribeirinhoaté o Coração da Floresta. A tempestade ameaçava no horizonte. Duranteo trajeto, ele viu destacamentos de soldados-lobo se preparando sobre arelva, tomando suas posições. Em sua maioria, machos, alguns jovens epoucas fêmeas. A lycan lhe revelou que naquela região estavam presentesmais de trezentos guerreiros, prontos para o combate. Os demais haviamse espalhado para outras direções do Arvoredo Lycan. As ocas agora jaziamvazias, não havia mais o som dos filhotes brincando, da cantoria e alegriado povo da floresta, nem do porcellus estalando sobre o fogo. Somente o 253
  3. 3. rosnar dos lycantropos e o barulho empapuçado de suas caminhadas nagrama atacada pela chuva incessante. – Vai soar meio óbvio, – disse Verne, enquanto seguia a lycan por umaplanície nua e castanha abaixo. – mas você me parece mais tensa do quetodos nós juntos! – É a chuva. – Lupita deixou seu olhar se perder por alguns instantes.– Esse clima nublado, o céu encoberto completamente... – O lamaçal vai prejudicá-los? – Ele escorregou num trecho da descida,arranhando cotovelo e coxa, mas ela o segurou antes que o rapaz estatelasseonde não devia. – Não. Nosso problema não é a água, é Nyx. – Verne não compreen-deu, então a lycan continuou: – A Senhora da Noite tem influência diretasobre os lycantropos. Quando transformados, a luz de Nyx triplica a nossaforça. Teríamos vantagem se o céu estivesse limpo. – Ela empurrou umagrande folha de pinheiropreto que lhes atrapalhava e então seguiu por umcaminho apertado, com pedregulhos fazendo vez de estrada, machucandoseus pés. – Com essa chuva, não teremos influência nenhuma. Justo agora,que mais precisamos! – Mas foi Raul quem deu o Uivo de Guerra em resposta aos gnolls.Ele poderia ter avaliado o clima, esperado um tempo melhor para guerrear. – Era a intenção. – Lupita revelou. – Mas Hoärr é esperto, um grandeestrategista. Enviou dezenas de assassinos para matar nosso líder duranteesses dias que você esteve viajando. Com isso, o canalha sabia que Raulreagiria logo. E... Bem, foi o que aconteceu. Verne praguejou. Realmente os lycans estavam sem sorte. Além dadesvantagem numérica, a chuva. Uma péssima sensação devorava seucoração de dentro para fora. – E o Violador? – Está protegido por dois guardas do Líder da Tribo de Sangue. Rufuse Rico também defendem sua teoria da conspiração de Juan com os gnolls.Então, concordaram em mantê-lo distante do campo de batalha. – Já é algo. – Ele queria respirar aliviado, mas sabia que era tardedemais para isso e para qualquer outro tipo de boa sensação. – Afinal, paraonde estamos indo, Lupi? – O esconderijo. O casal chegou até um descampado. O terreno formava um semicírculoe findava num grande pedaço de montanha que subia até um precipíciorepleto de árvores cobrindo o céu. Estavam muito abaixo do Coração, maisabaixo ainda de toda a floresta. Mas era nos pés daquela montanha que se 254
  4. 4. encontrava a entrada para o esconderijo: um buraco há muito escavado,com largura para duas pessoas passarem por vez. O jovem Vipero olhouatentamente para o túnel estofado de mantimentos e notou o quão profun-do era, num sem fim de escuridão e terra, iluminado apenas por archotesalocados de modo estratégico. Avistaram de través o sacerdote rústico. Zenon Arriola, o Líder daTribo Negra, gritava ordens para sua matilha responsável por aquele túnel,enquanto fêmeas e seus filhotes se abrigavam em segurança no esconderijo. – Arriola deixará metade de seus soldados-lobo guarnecendo este lugar.– disse Lupita. – E como você mesmo se dispôs, protegerá junto deles aqui. – Sim, eu o farei! – bradou o rapaz, tentando trazer a coragem de voltapara aquele cenário, enquanto apertava o punho contra o athame. Suariase a chuva não levasse seu suor embora. – Estou... preparado – revelou,sem certeza. – Não está. Ninguém nunca está. – disse ela, triste. Trovejou, agora mais próximo. E de novo. Eles ouviram murmúrios familiares, que depois ganharam formas maisclaras. Buscando a origem das vozes, a dupla viu o xamã na presença doLíder Lycan e outros dois Vrhovni Volkodlak ao seu lado. – Ih, o Senhor da Noite tem razão! – zuniu Ochoa para os líderes. Estavasentado em posição de lótus sobre a terra úmida, vestindo seus andrajos desempre, segurando o cajado com tranquilidade. Talvez o único, dentre astribos, realmente tranquilo naquela situação. – O Coração da Floresta seráo foco de ataque do Líder Gnorr. – É o lugar mais protegido de todo o Arvoredo, xamã. – sussurrouParanhos Tercero, serenamente. – Matarei o maldito do Hoärr antes dele chegar até o nosso Coração!– vociferou Raul, nitidamente aflito, quase a fera que viria a se tornar. – Ih, prestem atenção! – continuou o xamã, indiferente as reações doslíderes. – O Arbac Apuhc não deve ser tocado. Deve se manter enterradojunto do Tratado Verde até o fim desta guerra. Se perdermos, pelo menosele estará a salvo. – Não perderemos! – disse o Líder Lycan novamente, quase um uivo.Verne ficou arrepiado. – O tesouro já foi enterrado pela matilha do Senhor da Noite, senhorsoberano. – disse Estevan Escobar, o Branco, respeitosamente. – Muitobem enterrado, muito bem protegido, lhe asseguro. Ainda era o meio da tarde em Necrópolis, mas já escurecia no Arvo-redo Lycan. 255
  5. 5. – Ih, não é só isso! – disse Ochoa. – Vocês, qualquer um de vocês, sódeve usar o Arbac Apuhc em última instância. Esse tesouro é uma entidadeviva e saberá se for utilizado para fins escusos. – Não mexeremos nele, Ochoa! – rosnou Raul, já caminhando paralonge. – Ih! Em algum momento, talvez, seja necessário usá-lo. – sorriu. Aágua da chuva demorava a descer por sua face, se perdendo entre as rugas.– Mas esse momento ficará claro para o lycan certo, na hora certa. Paranhos e Estevan pediram a licença do Soberano das Grans e passa-ram por ele, na direção do Coração da Floresta, bem acima. No caminho,estavam Verne e Lupita. – Oh! – o Líder da Tribo de Prata se mostrou surpreso. – Não é este omorto-que-voltou de que tanto nosso povo falou? – Sou Verne Vipero, da Terra. – afirmou. Postou-se de forma segura,cabeça erguida, com um olhar feroz somente para o Líder Lycan. Sabiaque tinha de se impor perante ele. – Terrestre. – era o Líder da Tribo das Neves. – Torço para que nãomorra novamente nesta guerra. – E o cumprimentou com um aceno res-peitoso, partindo dali. Paranhos o seguiu. Raul permaneceu. Ambos se encaravam com seriedade. Sem perceber,Lupita deu longos passos para trás, temerosa. Magma regougava baixinhoem seu colo. – Menino. – Raul Sanchez I. Tão logo falou, o rapaz retirou o athame da cintura com velocidade,ajoelhou e enterrou a ponta da lâmina na terra fofa. Abaixou a cabeça e seconcentrou em silêncio, com os olhos fechados. O Líder Lycan e Lupitaficaram curiosos, aguardando o próximo ato. Esperaram. As gotas da forte chuva começaram a diminuir quando se aproxima-ram do corpo de Verne, diluindo no ar milímetros antes de tocarem suabata. Uma fina energia vermelha começava a envolvê-lo, deixando os doislycans com a pele formigando pela proximidade. Lupita quase interveio,esperando uma má reação. Ele se levantou, abriu os olhos escarlate peloectoplasma ativo e deixou o Líder da Tribo da Garra sentir o calor de seupoder, agora sob controle. Ou quase. Então, o rapaz guardou o athame de volta na corda da cintura e suaenergia cessou, até dissipar-se gradualmente. A lycan respirou com alívio,e Magma saltou do colo dela, correndo empolgado até os pés de seu dono. Raul sorriu. Era a primeira vez que ele via aquilo. 256
  6. 6. – Eu, o morto-que-voltou, humano da Terra, lutarei a sua guerra. Aolado do seu povo. Não tente me impedir. – murmurou Verne com seriedade. – Você ainda é fraco, ainda é um menino e ainda é um terrestre. –rosnou o Líder Lycan, ao coçar o farto bigode. – Mas tem coragem, temvontade e uma faca brilhante. Isso eu respeito. – Colocou sua enorme mãosobre o ombro do rapaz e o apertou. – Mas, Verne Vipero, no campo debatalha, lute como um lycan. Deixe a besta florescer em você, não perdoeseus inimigos. Eles não o perdoarão. Verne assentiu. Postou sua mão sobre a de Raul, também com respeito,e disse: – Sou o seu soldado! O Líder Lycan se mostrou satisfeito, retomou a subida até o Coraçãojunto dos outros líderes e, sem olhar para trás, ordenou: – Lupita, lembre-se de, após essa guerra, e independente dos resultadosdela, dar ao menino o título de Lycan-Honorário. Depois de tudo, gostariade tê-lo como um membro do povo da floresta. – E sumiu ladeira acima. Verne ficou ali, parecendo meio abobado. Mas obteve sua primeiravitória. Conseguiu o respeito de Raul, o irredutível. A lycan se reaproximou,com aquele sorriso triste. – Que honra, hein? – ela disse. Trovejou bem ali, assustando os filhotes de dentro do túnel. – Darei o meu melhor, Lupi. Eu prometo. Lupita o beijou. Seus lábios estavam quentes, mesmo na chuva fria.Transmitindo sua paixão para a alma do novo guerreiro. Inevitavelmente,Verne se sentiu revigorado. Nunca estaria pronto para a guerra, mas estariapresente nesta, e faria o que achava certo. Ela depois o encarou profundamente, seus olhos enterrados no dele,chorosa. – Espero que essa não seja a última vez que fazemos isso. As nuvens sufocaram os céus. O dia se tornou noite. A chuva deu lugarà tempestade. E junto da tempestade, a guerra chegou. 257

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