Menno simons sua vida e escritos

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Menno simons sua vida e escritos

  1. 1. Menno Simons- sua vida e escritos H. S. Bender John Horsch
  2. 2. Versão português: Carlos Neyrawww.elcristianismoprimitivo.com
  3. 3. ContenidoIntrodução.........................................................................iiiPrólogo...............................................................................vO sacerdote católico...........................................................1Conversão e renúncia ao catolicismo...............................15Atividades na Holanda.....................................................25Atividades no noroeste da Alemanha ..............................30Atividades em Holstein....................................................35A importância de Menno Simons.....................................49Resumo dos escritos de Menno Simons sobre a doutrinaCristã ...............................................................................521. A Autoridade das Escrituras........................................522. A Trindade de Deus.....................................................533. Cristo, Sua Divindade e Humanidade..........................544. A Encarnação...............................................................565. O Espírito Santo...........................................................576. O Pecado......................................................................587. A Expiação...................................................................598. Arrependimento...........................................................619. Fé..................................................................................6210. Justificação pela Fé....................................................6411. Regeneração...............................................................6512. A Santidade da Vida..................................................6713. A Igreja......................................................................6914. Separação do Mundo..................................................7115. Fraternidade Verdadeira.............................................72 i
  4. 4. 16. As Ordenanças...........................................................7417. Batismo......................................................................7518. A importância do Batismo.........................................7719. Batismo Infantil..........................................................7720. Salvação das crianças.................................................8021. O Erro da Regeneração Batismal...............................8122. A Ceia do Senhor. (Santa Ceia).................................8123. Disciplina...................................................................8224. Arrependimento no caso de Pecado Secreto..............8325. Chamada Missionária da Igreja..................................8426. Não Resistência..........................................................8527. Juramentos.................................................................8828. Pena Capital...............................................................8929. Não conformidade com o Mundo..............................9030. Liberdade de Consciência..........................................9131. Predestinação.............................................................9432. Aperfeiçoamento........................................................9433. Novas Revelações......................................................9634. Educação Superior.....................................................9635. Anti Ocultamento.......................................................9736. Atitude para com outras Denominações....................9737. Exemplos de consagração ao serviço do Senhor........9838. Trabalhando sob Dificuldades..................................10039. Perseguição..............................................................10240. Uma oração de Menno Simons................................105Um pouco de história.....................................................107Lista cronológica dos escritos de Menno Simons..........109 ii
  5. 5. Introdução Menno Simons converteu-se ao movimento“Anabatista” em 1536. Viajou por todo o Noroeste daEuropa animando e apoiando aos perseguidos, por meioda pregação, bem como escrevendo tratados quedefendiam a fé e estilo de vida que aqueles, que haviamabraçado a nova fé, levavam. Ainda sendo um sacerdotecatólico no princípio, Menno Simons se encontra fazendoperguntas a si próprio como nunca o havia feito antes.Foram três as razões da sua conversão ao“protestantismo”: A transubstanciação (conversão do pãono corpo de Cristo), o anabatismo (o segundo batismo), eo testemunho pessoal de seu irmão. Menno Simonsescreveu quase duas dúzias de livros e, folhetos que foramde grande ajuda para a dispersa e as vezes confundidairmandade. Se bem que, dizem muitos dos historiadores, MennoSimons não foi um grande teólogo, nem um grandeescritor, nem um grande organizador, porém, foi um líderque pregou a Bíblia de forma autoritária e com clareza.Muito se pode dizer quanto ao valor destes escritos nestaépoca em relação ao protagonista e ao escritor. A relaçãodo que se traduziu do holandês para o inglês e em seguidapara o espanhol, estes fatores fazem com que o livro seja oque é, um livro de riqueza espiritual e histórica. Se temos que destacar que a ênfase da igreja no mundoda tinta e do papel hoje é diferente, as estatísticas são maisdestacadas do que o esforço individual. Mas este livro nosfaz refletir, que apesar de que hoje em dia não sejammencionados líderes como Menno Simons, não sedescartam a sua existência e o presente será a testemunhada posteridade. iii
  6. 6. O quanto a igreja tem sido edificada por este exemplo édifícil dizer. A igreja continua crescendo graças a líderesque, como Menno Simons, fazem perguntas, reflexioname “colocam a sua mão no arado” e este livro é parte dessetestemunho. Desde 1936, quando se traduziu o livro do inglês para oespanhol, a igreja Menonita hispânica tem crescido. Comeste crescimento, foi trazido para o movimento“Anabatista”, iniciado no século XVI, uma nova dimensãoque não pode e nem poderá ser ignorada. Se bem que ahistória se repete, se repete com modificações. Osprotagonistas não são os mesmos e por tal razão a histórianão é a mesma. A única coisa que é idêntica, é amensagem do “Evangelho de paz e salvação,” quecomoveu a Menno Simons em 1536 e comove a líderescomo ele hoje em dia. Agradecemos a Carmen Palomeque pelo seu esmeradotrabalho de tradução ao espanhol, a comissão encarregadado projeto de publicação e além de terem feito este livrouma realidade. Arnoldo J. Casas 22 de novembro de 1978 Elkhart, Indiana iv
  7. 7. Prólogo Este livro vem preencher uma real necessidade no seioda Igreja Menonita na Argentina, e da literaturaevangélica em geral. Tem sido traduzido ao espanhol apedido da Convenção da referida igreja na ocasião doXXV aniversário (janeiro, 1942) de seu estabelecimentono país. Está destinado não somente aos membros das nossasigrejas, mas a todas aquelas pessoas que muitas vezes nostem perguntado: “Quem são e em que crêem osMenonitas?” Para maior informação destes leitores emparticular, incluiu-se um apêndice que consiste num breveresumo histórico dos Menonitas. Além da biografia completa de Menno Simons, contémresumidamente os princípios sustentados pela IgrejaMenonita expostos pelo seu organizador e baseados nasSagradas Escrituras, ponto de partida do que cremos epraticamos. As obras de Menno Simons tem sido traduzidas para oinglês na sua totalidade e compiladas em dois volumosostomos, e deles foram extraidos os parágrafos que seinsertaram nesta obra, ao pé de cada um dos quais seindica o tomo, a página e a coluna de onde foi extraido.De modo que: (I; 139b) significa que poderá encontrar-seo mesmo, em forma extensa, no tomo I, página 139,coluna b, da edição inglesa. Convém advertir que os referidos escritos datam de 400anos atrás e que ao produzir a versão para o inglês e emseguida para o espanhol, procurou-se conservar o estilooriginário, sacrificando as vezes a forma com estepropósito. v
  8. 8. Por considerá-lo de interesse para a maioria, traçamosseguidamente em linhas gerais, a personalidade do autordesta biografia e de seu colaborador, respectivamente: H.S. Bender Doutor em Teologia do SeminárioTeológico de Princeton, e da Universidade de Heídelberg,Alemanha; atual diretor de “The Mennonite QuarterlyReview”; Coordenador de Goshen College, Goshen,Indiana, E.U.A.; professor de História Européia, Teologiae Ciências Sociais do referido colégio. John Horsch, tradutor de trechos do holandês para oinglês; Historiador e escritor; chegou aos Estados Unidosem 1888 procedente da Baviera, Alemanha. Desde 1890tem publicado numerosas obras como editor e autor. Ostítulos (em português) de alguns de seus livros são: “OsMenonitas, sua História, Fé e Práticas”, 1893; “HistóriaAbreviada do Cristianismo”, 1902; “Menno Simons, suaVida, Obra e Ensinos”, 1916; “O Batismo de Crianças”,1917; “O Liberalismo Religioso Moderno”, 1920; “OPrincípio da Não-Resistência”, 1927; “História da IgrejaMenonita Européia” que acabava de escrever quando lhesurpreendeu a morte em 1941. Terminada a nossa missão, somente nos resta fazerchegar uma palavra de reconhecimento a todos quanto temtornado possível o surgimento desta obra, prestando a suacolaboração espontânea e desinteressadamente noconfronto com a versão inglesa, confecção do mapa que seinsere, correções e consultas. A todos eles a nossa sinceragratidão. E visto que o único motivo desta publicação é ser útil atantos quanto a leiam, se isto ocorrer, então os esforços daComissão de Publicações e da tradutora terão sidocompensados. Carmen Plomeque 1º de Abril de 1943. vi
  9. 9. CAPÍTULO I O sacerdote católico Em 1496, quatro anos depois do descobrimento daAmérica, nasceu um menino numa família de aldeõesholandeses que viviam no pequeno povoado deWitmarsum na província de Friesland ao noroeste daEuropa continental. O pai, cujo nome era Simón, chamou ao seu filhoMenno; de acordo com o costume daquela época, aomenino chamavam Menno Simons (O filho de Simón). Opovoado de Witmarsum está situado numa planície fértil,a meio caminho entre as cidades de Franeker e Bolsward,distante umas 10 milhas do Mar do Norte. Bem cedo os pais de Menno Simons decidiramconsagrar o seu filho ao serviço da Igreja, a IgrejaCatólica, e preparando-o para este serviço, confiaram-no acustódia do monastério mais próximo de seu lar,provavelmente o Monastério Franciscano de Bolsward.Devido a isto, consagrou-se durante longos anos aosexercícios espirituais requeridos para um monge e aotradicional curso de estudos teológicos exigidos aoscandidatos ao alto ofício de sacerdote. Durante estes anosde estudo, aprendeu muito bem a ler e a escrever o latim;aprendeu também o grego e chegou a conhecer bemmuitos manuscritos antigos em latim, especialmente osdos Pais da Igreja, como Tertuliano, Cipriano e Eusébio.Mas omitiu-se por completo de ler o maior de todos oslivros: A Bíblia. Até depois de dois anos da sua ordenaçãopara o sacerdócio, não se animou, com muita excitação aabrir as capas do volume proibido. 1
  10. 10. A ordenação de Menno Simons para o sacerdóciocatólico ocorreu no mês de março de 1524, aos 28 anos deidade, provavelmente na cidade de Utrecht, localidade dadiocese de Utrecht que incluia praticamente toda a atualHolanda na sua jurisdição. Sua primeira designação foi acura ajudante no povoado de Pingjum, próximo de seupovoado natal de Witmarsum. Ali oficiou por sete anos(1524-31) em segundo lugar entre os três párocos. Em1531, Menno foi transferido ao seu povoado natal, ondeoficiou como cura pároco até janeiro de 1536, quandodeclinou o seu serviço na Igreja Católica para unir-se aopequeno grupo de devotos irmãos evangélicos sob adireção de Obbe Philips, conhecidos pelo nome deAnabatistas ou Obbenitas. Os doze anos de serviço deMenno Simons na Igreja Católica transcorreramaparentemente, até onde é dado apreciar ao homem, nodesempenho do círculo ordinário de obrigações de umsacerdote católico num pequeno povoado. Ocupava o seulugar nas devoções regulares da Igreja, cumprindo com aalta cerimônia da missa tanto como com os outros ritos ecerimoniais. Rogava pelos vivos e pelos mortos, batizavaos filhos de seus paroquianos, consagrava matrimônios,recebia confissões, administrava penitências e em ocasiõespregava breves sermões referentes a devoção dominical dacongregação. Como os típicos sacerdotes de povoados dasua época, não levava o seu ofício e nem a sua vida muitoa sério. Dedicava pouco tempo ao estudo, e ao contráriodisso, como ele mesmo confessou, reunia os sacerdotessubalternos para “jogar cartas, beber e outras frivolidadesde todo tipo, como era o costume de homens tão inúteis”. Mas as aparências exteriores não mostram toda ahistória da vida de Menno durante os doze anos de seusacerdócio. Bem cedo certas dúvidas a respeito de algunsdogmas da igreja começaram a atormentar a sua 2
  11. 11. consciência, e a sua vida se tornava claramente maismiserável pela luta secreta interior que não cessou até orompimento dos laços que o unia com a Igreja Católica,quando partiu publicamente para a fé e liberdade doEvangelho. Vamos descrever esta luta que durou onzeanos. No primeiro ano do sacerdócio de Menno, em 1525, omesmo ano em que Conrad Grebel e sua irmandadefundavam a Igreja Menonita em Zurique (Suíça), umaséria dúvida começou a perturbar a vida frívola edespreocupada da sua cerimoniosa religião. Enquantocelebrava a missa, subitamente ocorreu-lhe a idéia dapossibilidade de que o pão e o vinho não setransformavam no ato no corpo e no sangue do Senhorcomo tinha ensinado ao povo. A princípio rejeitou opensamento como inspirado pelo demônio; mas não pôdelivrar-se da dúvida mesmo recorrendo ao aoconfessionário. Não se sabe claramente como MennoSimons chegou a duvidar do dogma da transubstanciaçãocomo era observado pela Igreja Católica. Possivelmenteentrou em contato com os ensinos de Martinho Lutero oude outros reformadores de alguma forma, seja por livrosou pela circulação de tais idéias de boca em boca. Já noano de 1521, um holandês chamado Hoen, haviacomeçado a ensinar que os elementos da Ceia do Senhornão se transformavam, mas que eram meros símbolos dosofrimento e da morte de Cristo. Mesmo que Menno tenhalido os escritos de Hoen ou não, o fato de que a dúvida aeste respeito existia na sua mente é uma evidência dainfluência que a Reforma havia começado a exercer nadistante Friesland, pois a atitude para com a missa era apedra de toque na nova heresia evangélica. Por cerca de dois anos Menno esteve atormentado pordúvidas a respeito da missa, antes de encontrar algo que o 3
  12. 12. orientasse. Finalmente decidiu procurar tranqüilidade pormeio de uma diligente investigação no Novo Testamento.Esta decisão foi um dos grandes passos na vida de Menno.Com efeito, foi o passo decisivo que certamente o levariaa conversão final, pois o princípio fundamental daReforma e do próprio Evangelho é que somente a palavrade Deus é a autoridade como fonte da verdade para fé evida. A determinação de Menno Simons de buscar nasEscrituras para resolver as suas dúvidas a respeito damissa, não significava uma decisão de abandonar aautoridade da Igreja, pois provavelmente ele esperavaencontrar nas Escrituras uma confirmação para os ensinosda Igreja. O verdadeiro problema surgiu quando Menno,tendo decidido abrir a Bíblia, descobriu que não continhanenhuma das doutrinas tradicionais a respeito da missa.Por meio desta descoberta, o seu conflito secreto chegouao clímax, pois foi compelido a decidir qual das duasautoridades seria suprema na sua vida: a Igreja ou asSagradas Escrituras. Havia sido ensinado pela Igreja quenão crer nas suas doutrinas significava morte eterna. Oquê devia fazer? Afortunadamente, como ele própriorepete, encontrou ajuda nas obras de Martinho Lutero,pois este dizia que a violação dos mandamentos doshomens nunca pode conduzir a morte eterna. Não se sabeem qual dos escritos de Lutero encontrou isto Menno,possivelmente no folheto de 1518, “Instrução em váriosassuntos”, ou talvez na importante obra escrita em 1520,intitulada “A Liberdade Do Cristão”. Quando Menno Simons aceitou o ponto de vista deLutero e se atreveu a negar o dogma da transubstanciação,tal como o observa a Igreja Católica, porque as Escriturasnão o ensinam, encontrou a forma de evadir-se dasdúvidas e lutas, uma forma de libertar a sua consciência e 4
  13. 13. a sua alma da morte eterna. Mas fazendo isto, entravainevitavelmente no caminho que o levaria para fora daIgreja Católica, visto que acatar as Escrituras em todoassunto de consciência equivalia a desprezar os princípiosfundamentais do catolicismo. Não obstante, ao fazer a suadecisão com respeito a missa, Menno não seguia o ensinode Lutero; ao contrário, expunha a sua própriainterpretação da Ceia do Senhor; não tornou-se luteranoem nenhum momento. O que sempre agradeceu a Luterofoi o princípio fundamental de considerar as SagradasEscrituras sobre qualquer outra autoridade humana. A decisão de Menno de seguir as Escrituras ocorreuprovavelmente por volta do ano de 1528. Isto não o levouao imediato abandono da Igreja Católica, pois a princípiodiscordava com ela únicamente no que se referia a missa,e não duvidava que poderia continuar sendo um católicoleal e ensinar um novo ponto de vista dentro da Igreja.Assim pois, como todos os outros reformadores, não seprecipitou em mudar a sua afiliação da Igreja. Semelhantemudança teria significado o abandono de uma boa posiçãocom a sua generosa entrada, e Menno “amava demais omundo, e o mundo a ele”, como dizia mais tarde, para darum passo tão radical. O fato é que estava ainda longe deuma compreensão real do Evangelho, longe de umaconversão espiritual. Os anos subseqüentes, desde 1528 a1531, foram no entanto, anos de gradual iluminação. Eledisse sobre as suas experiências durante este tempo: “pelailuminação e pela graça do Senhor cresci no conhecimentodas Escrituras e logo fui considerado por alguns, ainda queimerecidamente, como um pregador evangélico, a saber,alguém que prega sermões baseados nas Escrituras”.Alguns começaram a recorrer a ele “porque se dizia quepregava a Palavra de Deus e era um bom homem”. 5
  14. 14. O progresso de Menno no Evangelho foi lento. Um dospilares de sua fé católica havia sido derrubado: a missa;mas no entanto, continuava sem nenhum temorcelebrando-a como antes. Aparentemente era ainda umsacerdote leal. Ele nunca teria abandonado a IgrejaCatólica se um segundo ponto de sua fé católica nãotivesse vindo abaixo: o batismo. A queda deste segundopilar ocorreu gradualmente. É muito provável que tenhacomeçado com a leitura do livreto de um tal Billican,pregador na cidade de Nördlingen, ao sul da Alemanha,que advogava pela liberdade da idade para o batismo; pelomenos, Menno se refere a um livro sobre o batismo decertos pregadores de Nördlingen. O livro empregaargumentos dados por Cipriano, um dos Pais da primitivaIgreja latina do norte da África. A princípio, Mennoprestou pouca atenção quanto a esta questão, mas se viuobrigado a pensar seriamente sobre o batismo no ano de1531, enquanto estava ainda em Pingjum, a raíz de umestranho episódio na vizinha cidade de Leewarden. Em 20de março de 1531, certo alfaiate chamado Sicke Freerks,foi executado públicamente nesta cidade pela única razãode ter sido batizado pela segunda vez. “Soava estranho aosmeus ouvidos, disse Menno, que se falasse de um segundobatismo.” Mais estranho ainda pareceu-lhe quandointeirou-se de que o tal Freerks era um homem piedoso etemente a Deus, e que não acreditava que as Escriturasensinavam que as crianças devessem ser batizadas, masque ensinavam que o batismo deve ser administradoúnicamente aos adultos, sobre a confissão de sua fépessoal. Freerks era um alfaiate ambulante que havia sidobatizado na cidade de Emden, no leste de Friesland, porvolta do final do ano de 1530, por um pregador chamadoJuan Volkerts Trypmaker, que por sua vez havia sido 6
  15. 15. batizado e designado pregador na mesma cidade, por voltado começo do ano de 1530, por certo pregador leigoluterano chamado Melchior Hofmann. Comentava-se,além disso, que Hofmann havia sido batizadorecentemente pelos “Anabatistas” de Estrasburgo. Dequalquer forma, começou em 1530 a pregar o novobatismo e outras doutrinas similares dos “Anabatistas”tendo a Emden como ponto de partida. Deve-se mencionarque o Corpo principal de “Anabatistas” de Estrasburgo,tanto como o da Suíça, nunca tiveram nada que ver comHofmann. Pelo contrário; em 1538, em discussão públicacom os dirigentes da Igreja Reformada de Berna, Suíça,certos líderes “Anabatistas” suíços repudiarampúblicamente toda relação com Hofmann. Este, pregavaalgumas doutrinas fanáticas acerca da segunda vinda deCristo e o estabelecimento de um reino terreno de Deusem Estrasburgo, além de dar estranhas interpretações paraas profecias, inclusive designando a si próprio como osegundo Enoque. A doutrinas por ele ensinadas eramclaramente perversões do Evangelho, originadas na suafecunda imaginação, doutrinas que não havia aprendido deLutero, nem de Zwinglio, nem dos “Anabatistas”, nem denenhum outro pregador evangélico. Portanto, não se podechamar a Hofmann de “Anabatista” no mesmo sentido queaos Irmãos suíços ou aos Menonitas, apesar de que pregouo batismo sobre a confissão de fé, em vez do batismo decrianças pequenas. Menno Simons não sabia nada disto quando soube daexecução de Sicke Freerks. O que deve ter comovido a suamente foi o fato de que alguém estivesse disposto a morrerpor causa de um “segundo batismo”. Era possível que aIgreja Católica estivesse equivocada com respeito aobatismo, como o estava em relação a missa? Uma vezmais o sacerdote Menno se encontrava com um conflito 7
  16. 16. em sua consciência, causado pela nova dúvida queacabava de surgir. Mas desta vez já sabia como encontrara solução para o seu problema; como pregador evangélicorecorreu de novo a Bíblia em busca de luz. Ali, por muitoque procurasse não podia encontrar bases para o batismode crianças pequenas. Por último recorreu em procura deajuda a seu superior, o presbítero de Pingjum. Esteadmitiu depois de repetidas discussões com Menno, que obatismo infantil não tem fundamento bíblico, mas insistiuem que a razão aconselhava que era conveniente ejustificado. Mas Menno, que havia aprendido a aceitar oque as Escrituras diziam, não estava disposto a “crer nasua razão” únicamente; portanto foi mais longe na procurade ajuda, desta vez investigando diligentemente o que osPais da Igreja haviam dito a respeito. Estes afirmavam queas crianças necessitavam do batismo para limpar-se dopecado original. Mas comparando Menno estes ensinoscom as Escrituras, encontrou uma verdadeira contradição,pois estas ensinavam que o sangue de Cristo, o Redentor,e não a água do batismo, é o único que limpa do pecado.Os Pais da Igreja estavam, portanto, equivocados. Como último recurso Menno recorreu aos evangelistascontemporâneos, os Reformadores. Todos eles ensinavamque as crianças deviam ser batizadas, ainda que mostrandopara isto diferentes razões. Lutero insistia que as criançaspodiam ter fé, ao menos delegada a outros, e que deviamser batizadas na base desta fé. Butzer de Estrasburgo,exigia que as crianças fossem batizadas como garantia deque seriam criadas nos caminhos do Senhor, enquanto queBullinger da Suíça, argumentava que as crianças deviamser incorporadas ao povo do novo pacto mediante obatismo, assim como os judeus eram incorporados no seupovo mediante a circuncisão. Mas apesar das várias razõesapresentadas, Menno observou que todos omitiam dar 8
  17. 17. provas bíblicas para o batismo de crianças pequenas; cadaqual seguia o seu próprio critério. Havendo chegado nofinal da sua intensa busca sem encontrar provas queapoiassem o batismo de crianças na Palavra de Deus,Menno chegou a conclusão de “que todos estavamequivocados a respeito” - a Igreja Católica, os sacerdotesde Pingjum, os Pais da Igreja, os Reformadores, e quesomente o batismo sobre a confissão de fé era bíblico. Esta importante determinação foi a mais significativana carreira de Menno Simons porque ela selou a rupturacom a Igreja Católica e o levou por último ao círculo dos“Anabatistas”. A salvação pelo sacramento do batismo é apedra angular sobre a qual está constituido todo o sistemada religião católica; é possível permanecer católico aindanegando a doutrina da transubstanciação, mas como sepode manter a fé numa Igreja cujo meio essencial desalvação é negado? Por outro lado, únicamente os“Anabatistas” entre os grupos religiosos dessa época,negavam a necessidade do batismo para crianças ebaseavam a condição como membro da Igreja numaexperiência pessoal de salvação, da qual a água dobatismo constituía um mero símbolo exterior; portanto,Menno algum dia encontraria o meio de chegar até eles. No entanto esta crítica determinação ocorridaaparentemente no ano de 1531, não levou a Menno a umaimediata ruptura com a Igreja na qual exercia o sacerdócioe da qual conseguia o seu sustento. Passariam cinco anosmais, antes que a separação ocorresse. A pesar de que,como Menno afirma enfáticamente, suas novas crençasrelativas ao batismo (assim como a anterior mudança deinterpretação da Ceia do Senhor) as havia recebido depoisdo estudo das Sagradas Escrituras sob a direção doEspírito Santo, pela graça de Deus, suas recentesconvicções não o levaram a uma ação imediata. Parece 9
  18. 18. que havia pequenos grupos de “Anabatistas” navizinhança, mas Menno Simons não se associou com eles.Ao contrário, quando ofereceram a promoção ao cargo decura de Witmarsum, aceitou sem vacilar. As grandesvantagens que lhe atribuiam. moviam o seu “afã de lucrar”disse Menno e continuou sem temor, na vida dupla de“hipócrita”, continuando no ofício da missa e no batismode crianças. O próprio Menno explica o motivo da suadebilidade, pois disse que apesar de seu conhecimento dasEscrituras, não frutificava devido a sua vida carnal. Aquiloque havia mudado a sua mente, não havia afetado o seucoração; a Palavra de Deus ainda não estava nele. Elepróprio descreve a hipocrisia da sua vida nesses dias compalavras duras: “Confiando na graça, procedia como um malvado. Eracomo uma sepultura cuidadosamente branqueada.Exteriormente, para os homens, eu era moral, casto,generoso; nada poderia desaprovar-me. Mas interiormenteestava cheio de ossos de mortos. Procurava a minhaprópria comodidade e honra mais zelosamente do que aTua justiça, honra, verdade e a Tua Palavra.” A oposição entre a convicção e a prática no que serefere ao batismo e a Ceia do Senhor não deixaram aonovo pastor de Witmarsum em repouso mais do que oantigo cura de Pingjum. A consciência de Menno ocondenava continuamente e sofria por causa desteconstante conflito secreto. O assunto do batismo tornou-senovamente atual por volta do um ano depois da chegadade Menno a Witmarsum, pela entrada de alguns“Anabatistas” na comunidade. Menno disse que ele nuncaviu as pessoas que “haviam rompido com a Igreja comrespeito ao batismo”, não soube onde estavam nem deonde vinham. Menno ainda permanecia inativo. 10
  19. 19. Finalmente ocorreu um fato mais grave na suaparóquia, quando alguns da seita de Münster chegaram aWitmarsum e “enganaram a muitas almas piedosas donosso povoado”. Isto ocorreu em 1534, pois o governorevolucionário de Münster não se instalou até fevereiro domesmo ano. O grave erro da “perversa seita de Münster” como ele achama repetidas vezes, foi uma questão séria para Menno.Visto que os enormes danos causados pelos Münsteritasfoi a causa final para a ruptura de Menno com oCatolicismo e a sua adesão aos “Anabatistas”, e visto quea luta contra esse movimento fanático por todos os meiosao seu alcance foi a preocupação principal de Mennodurante os anos de 1534 e 1535, será bom fazer uma breveresenha das características do Münsterismo. Jan Matthys, um padeiro pouco instruido maspresunçoso, de Kaarlem, Holanda, foi um membro dopequeno grupo de seguidores de Melchior Hofmann quehavia organizado os “Melchioritas” no ano de 1531.Quando Hofmann foi feito prisioneiro em Estrasburgo emmaio de 1533, perdendo por conseguinte a condução deseus seguidores, certos elementos indesejáveis começarama adquirir influência e gradualmente a assumir a direçãodo grupo. Matthys foi o principal deles. Tinha umapoderosa personalidade, cheio de ódio para com as classessuperiores e possuidor de uma imaginação capaz demaquinar os mais fantásticos atos. Teve êxito ao fazerrecair o comando sobre si mesmo, arrastando a muitos dosMelchioritas consigo a um programa radicalmenterevolucionário; no entanto, alguns como os irmãos Obbe eDirk Philips de Leewarden e outros, rejeitaramplenamente as estranhas novas doutrinas de Matthys desdeo princípio e recusaram ter alguma coisa a ver com ele,apesar de serem ameaçados com perseguições. Com 11
  20. 20. efeito, Obbe Philips tomou a direção do grupo deMelchioritas que rejeitavam as estranhas tendências deHofmann, assim como as de Matthys e trataram deconstruir a sua fé baseados únicamente numa sãinterpretação das Escrituras. Enquanto isso, Jan Matthys percebeu que a classetrabalhadora evangélica da cidade de Münster emWestfalia, ao noroeste da Alemanha havia sacudido adominação das classes altas, inclusive a do BispoCatólico. Aguilhoado pela idéia de que isto lhe ofereceriaa oportunidade de assentar uma base segura para a suacampanha contra as “ímpias” classes enaltecidas, mandouimediatamente agentes que conseguiram predispor a seufavor aos “pregadores evangélicos” Rothman e Roll emjaneiro de 1534. Rapidamente o próprio Matthys foi para acidade, tomando-a sob o seu controle com a delirante ehistérica aprovação da população e prometendoestabelecer o reino de Deus na terra, a nova Jerusalém.Quando foi morto, João de Leiden tomou o seu lugar econstituiu a si próprio como rei. A assombrosa doutrinaanunciou então que, visto que o reino de Deus haviachegado, a justiça seria administrada aos infiéis peloscrentes e membros do novo reino. Mandaram “Apóstolos”em quantidade desde Münster convidando aos “crentes”de todas as partes a comparecer na Nova Jerusalém e aparticipar de suas bênçãos. Milhares acreditaram noanúncio e aceitaram o convite de imediato, e ainda quemuitos deles foram presos no caminho, centenas chegaramna cidade. No entanto a duração do reinado de Münsternão seria muito comprida; o sítio em volta da cidade,ordenado pelo exército do Bispo de Münster em março de1534 conduziu na captura e derrubada do “Reino” emjunho de 1535, depois de terríveis sofrimentos eindescritíveis cenas de brutalidade. 12
  21. 21. Infelizmente, a doutrina de vingança e de destruiçãodos infiéis pelos crentes, havia aumentado nos círculosdos Melchioritas primitivos da Holanda, e portanto,organizaram revoluções e conspirações em outros lugaresfora de Münster com os desastres conseguintes. O terrívelveneno do fanatismo revolucionário de Jan Matthys e deJoão de Leiden continuou na sua ação implacável entre osperseguidos e maltratados Melchioritas da Holanda. Menno Simons entrou em contato com a “perversãoMünsterita” no ano de 1534. Algumas das almas mais piase devotas entre os seus paroquianos, sem dúvida, algumasdaquelas que haviam sido influenciadas pelas suaspregações e com as quais se sentia espiritualmenteidentificado, foram arrastadas pelo fanático erro dosMünsteritas. Até o seu próprio irmão se encontrava entreeles. Apesar de que Menno havia adotado o princípio dobatismo de adultos, não podia nem suportar a idéia de teralgo em comum com os Münsteritas. Admitia que tinhamum zelo elogiável, mas declarava que cometiam graveserros em seus ensinos. Afetou-o profundamente ver queestas abomináveis doutrinas encontravam adeptos entre osseus paroquianos e decidiu entregar-se completamentepara combatê-los. A luta contra a influência Münsterita foi a preocupaçãoprincipal de Menno por cerca de um ano. Colocava tantaenergia na acusação pública que deles fazia em seussermões, que logo conquistou a fama de hábil para “calarmuito bem a voz de seus inimigos”. Em suas visitaspastorais procurava não somente salvaguardar aos queestavam em perigo e enganados, mas também resgataraqueles que haviam deslizado. Conseguiu também,celebrar uma conferência secreta e uma pública com “doispais da perversa seita”. Finalmente Menno decidiu levaralém aquela luta, escrevendo. O resultado de seus esforços 13
  22. 22. foi um folheto, escrito provavelmente a princípios de1535, ainda que impresso pela primeira vez em 1627, sobo título: “Prova clara e indubitável, baseada nas SagradasEscrituras contra a abominável e terrível blasfêmia deJoão de Leiden.” Neste folheto, Menno atacavigorosamente o enaltecimento do “Rei” João a umaautoridade divina, e prova que o uso de armas pelosMünsteritas era um grave pecado, contrário a vontade deDeus para a Igreja e contrário também ao espírito deCristo. Apelava aos verdadeiros cristãos de todas as partesa separar-se de tais abominações e a seguir o exemplo deCristo. 14
  23. 23. CAPÍTULO II Conversão e renúncia ao catolicismo (1535-1536) Mas enquanto Menno lutava vigorosamente a boabatalha da verdade contra o erro dos Münsteritas, seintroduzia cada vez mais profundamente num sérioconflito interno. Ele havia se preocupado em resgatar asalmas piedosas que discordavam da Igreja Católica, deenvolver-se nas heresias dos Münsteritas, e únicamentelhes proporcionava algo melhor, não apareceria diantedeles como um simples defensor e apoiador da IgrejaCatólica? E quando, seus amigos católicos usavam o seunome e os seus argumentos para combater aosMünsteritas, não estava permitindo comparecer comoaliado da manutenção do império das trevas na dita Igreja?Quanto mais êxito tinha em esmagar aos Münsteritas,tanto mais intolerável para a sua consciência se tornava asituação. O clímax do conflito se produziu quando sobreveio atragédia da Velha Abadia próxima de Bolsward, ondecerca de três mil almas extraviadas perderam a vida, entreeles seu próprio irmão carnal. O grupo era um dos citadosanteriormente, que estavam impregnados do venenorevolucionário dos Münsteritas e haviam decidido erigir asua própria cidade em refúgio e começar a campanha parao estabelecimento do reino de Deus em Friesland. Emmarço de 1535, uma grande companhia de 3.000 pessoashavia se apoderado de um velho monastério (Oude 15
  24. 24. Kloster) nos subúrbios da cidade de Bolsward,encerrando-se nele. Não puderam suportar por muitotempo o assédio das forças governamentais e depois que1.300 haviam perecido, o resto foi capturado e executadoem 7 de abril. O exemplo destas “pobres ovelhasextraviadas” como as chama Menno, dando seu sangue e asua vida pela sua fé, apesar de ser uma fé falsa, produziuuma extraordinária impressão na alma de Menno Simons.Não podia afastar este pensamento. Eles haviam dado assuas vidas por um erro, enquanto que ele não estavadisposto a dar absolutamente nada pela verdade, somentepor temor de perder a sua reputação e seus ganhosfinanceiros, continuava fazendo parte de um sistema que asua consciência repudiava. Se tivesse tido a valentia dechegar ao fim, renunciando a doutrina e práticas católicas,e constituindo-se no pastor dessas ovelhas errantes, talvezteria conseguido salvá-las por advertí-las da aproximaçãoda tragédia. Sentia que o sangue deles caia sobre a suaconsciência, queimando-o e fazendo-o ver o seu opróbio.“O sangue dessa gente, dizia, tornou-se para mim umacarga tão pesada que não podia suportá-la nem encontrardescanso para minha alma”. Era verdade que havia faladocontra algumas das abominações do sistema papal, mas,no entanto não havia feito uma ruptura definitiva comtodo o sistema. A tragédia da Velha Abadia colocou a Menno naencruzilhada; agora observava claramente o seu dever.Como servo de Deus não podia escapar daresponsabilidade de guiar as ovelhas errantes, e comoalguém que professava obediência e a crença em Deus,não devia vacilar mais e deveria tomar a cruz daperseguição e do sofrimento, qualquer que fosse o custo.Não podia continuar indo contra a sua consciência econvicções. 16
  25. 25. E foi neste estado de ânimo que Menno se voltou àDeus com gemidos e lágrimas, clamando por graça eperdão, clamando por um coração puro e valentia parapregar o Seu santo nome e Palavra com toda a verdade.No relato da sua conversão Menno descreve a mudança deseu coração com as seguintes palavras: “Meu coraçãotremia dentro de mim. Rogava a Deus com lágrimas egemidos que concedesse a mim, pobre e atribuladopecador, o dom da Sua graça, e que criasse um coraçãolimpo dentro de mim pelos méritos do precioso sangue deCristo, que perdoasse a minha vida ímpia e egoísta e meinvestisse de sabedoria, sinceridade e valor para pregar oSeu glorioso e bendito nome e a Sua santa Palavra semadulterações e que manifestasse a Sua verdade e a Suaglória”. O Senhor foi misericordioso com ele; a decisãofoi feita e Menno surgiu depois desta experiência com osentido de uma divina missão, a nova vida. Alguns temcriticado a Menno por ter retardado tanto a sua decisão,mas tal crítica não é muito justa. A luz completa se fêznele gradualmente e não de forma repentina, pois era detemperamento sereno e não fácilmente excitável emutável. O importante de comprovar é que uma vezconvencido, Menno o fazia desde o profundo de suanatureza, e que uma vez tomada uma determinação, nãovoltava atrás. A mudança foi tão profunda, radical ecompleta, e deu-lhe um sentido tal de sua divina missão,que foi capacitado pela graça de Deus para chegar a serum líder inspirado, um formidável e forte torreão para oseu amargurado e perseguido povo, por mais de vinte ecinco anos. Na realidade, comparado com Lutero eZwinglio, não desmerece Menno Simons na magnitude desua ruptura com Roma, especialmente quando lembramosque Martinho Lutero contava com a poderosa proteção do“Eleitor da Saxônia” e não estava em perigo a sua 17
  26. 26. reputação e nem os seus ganhos financeiros com amudança, enquanto que Zwinglio não se moveu até terconseguido o apoio do Cantão de Zurique, cujo bemremunerado pastor continuou sendo até a sua morte nocampo de Cappell. A decisão de Menno de romper por completo com aIgreja Católica provavelmente ocorreu em abril de 1535,pouco depois da tragédia de Bolsward. De repentecomeçou a pregar abertamente desde o seu púlpito emWitmarsum as verdades que talvez havia ensinado antesem particular; a doutrina do arrependimento, da verdadeirafé, do batismo de crentes, da verdadeira Ceia do Senhor.Ousava agora atacar públicamente todas as falhas daIgreja, porque havia procedido calculadamente parasalvaguardar a si próprio. Aparentemente decidiu utilizar aIgreja de Witmarsum como tribuna da sua nova mensagemtodo o tempo que lhe fosse possível, o mesmo que haviamfeito Lutero em Wittenberg e Zwinglio em Zurique. Éadmirável que durante nove meses permitiram-lhe fazê-lo,segundo o seu próprio testemunho. Durante estes novemeses sustentou uma dupla campanha; por um ladoempenhava-se por livrar as pessoas das abominaçõesMünsteritas, e por outro, procurava afastá-las de suasantigas crenças para a verdadeira fé do Evangelho. Veja adescrição que ele faz da sua atitude e atividades duranteestes nove meses: “Em resultado, comecei em nome do Senhor a pregarpúblicamente desde o púlpito, a doutrina do verdadeiroarrependimento, a guiar as pessoas pelo caminho apertado,e com o poder das Sagradas Escrituras, a denunciar todopecado e impiedade, toda idolatria e falsa adoração, e aanunciar o verdadeiro culto, também o batismo e a Ceiado Senhor de acordo com os ensinos de Cristo, com oalcance que para este tempo havia adquirido pela graça de 18
  27. 27. Deus. Além disso, advertia firmemente contra cada umadas abominações Münsteritas, a saber: rei, poligamia,reinado terreno, armas, etc., durante mais de nove meses,em que o Senhor me concedeu o Seu Espírito paternal,ajuda e poder para que voluntariamente renunciasse ao“bom nome”, honras e reputação que disfrutava entre oshomens e me afastaria de todas as abominações doAnticristo, missa, batismo infantil e a minha vida inútil, ede bom grado me submeteria a aflição e a pobreza, sob acruz de meu Senhor. Em minha debilidade temendo aDeus, busquei a companhia dos piedosos e, mesmo sendopoucos em número, encontrei alguns que tinham um zeloelogiável e defendiam a verdade.” “Eis aqui, querido leitor, que o Deus da bondade, pelaabundância da Sua graça derramada sobre mim, pecadormiserável, primeiro tocou no meu coração, dando-me umamente nova, humilhou-me em Seu temor, ensinou-me aconhecer a mim mesmo, fez-me voltar do caminho demorte, e me conduziu, benigno, pelo caminho estreito davida na comunhão de Seus Santos. A Ele seja a glória parasempre. Amém.” Mas a posição de Menno como pregador evangéliconum púlpito e paróquia católicos, não se manteria pormuito tempo. A sua completa separação da Igreja era uma questão detempo. A data exata de seu batismo não é segura;possivelmente tenha sido um pouco depois da suaconversão em abril, mas é muito provável que não tivesseocorrido até depois da separação pública da Igrejaocorrida nove meses depois. Durante este período detempo teria introduzido mudanças nas cerimônias esacramentos da Igreja, assim como no conteúdo da suapregação. É possível que a missa tenha se transformadonum simples serviço de comunhão em comemoração da 19
  28. 28. paixão e morte do Salvador e certamente o batismo debebês tenha cessado. Finalmente Menno compreendeu quenão podia continuar em contato com a velha Igreja, com“Babel” mesmo que fosse de forma puramente externa.Portanto, voluntariamente, sem compulsão “abandonouBabel e ingressou na verdadeira Igreja, a casa de seuSenhor”. E isto ele fez por meio da renúncia do seu cargode sacerdote e do seu púlpito, e abandonando o povoadode Witmarsum por outra residência. O dia exato da suarenúncia a Igreja papal foi provavelmente no domingo 30de janeiro de 1536. Presume-se que foi a Leewarden parainformar a Obbe Philips da sua decisão, pois Menno disseque primeiramente olhou ao seu redor em busca dehomens tementes a Deus. Durante os meses seguintes da sua separação, o queMenno desejava mais do que qualquer outra coisa, erapensar serenamente no alcance da sua decisão e ler aPalavra de Deus, meditar nela e resolver algumas questõesteológicas que ainda o preocupavam. Uma delas eraquanto a encarnação. Parece que tinha conhecimento decertos pontos de vista peculiares de alguns dos irmãos,tomados originariamente de Melchior Hofmann, e queriaresolver por si próprio o que deveria crer. O problema queo preocupava era o seguinte: Como pôde a impecávelnatureza divina de Cristo ser encarnada na carnepecaminosa dos descendentes do caído Adão? Por causado seu ardente desejo de conhecer a verdade e a suagrande repugnância a incredulidade e ao erro, Menno seencontrou em sério conflito. Jejuou e pediu a Deus que “sedignasse a revelar-lhe o mistério da concepção do Seubendito Filho” já que isto era necessário para alívio da suacarregada consciência. As tentativas para conseguir ajudados irmãos, não foram satisfatórias. Depois de váriosmeses Menno considerou que havia conseguido uma 20
  29. 29. solução adotando a teoria da encarnação, mediante a qualCristo adquiriu existência em Maria, mas não nasceu dacarne de Maria. Era similar ao ponto de vista de Hofmann.Menno adotou esta teoria especialmente para satisfazer asi próprio e raramente falava muito dela, exceto quando sevia forçado a fazê-lo em debates públicos com seusinimigos que a consideravam como o seu ponto fraco.Lamentava-se repetidas vezes de ter que debater, contra assuas inclinações, sobre este assunto. É interessanteadvertir que a extravagante idéia de Menno sobre aencarnação, não foi aceita pelos Menonitas suíços e que,ainda que continue exercendo influência entre algunsgrupos Menonitas alemães do norte da Holanda, estateoria nunca encontrou aceitação em nenhum credoautorizado ou confissão da Igreja Menonita. No ano seguinte da renúncia pública de Menno a IgrejaCatólica em janeiro de 1536, transcorreu no retiro, comojá relatado acima. Parece que Menno não se estabeleceuem nenhum lugar. Vestígios das suas viagens durante estetempo tem se conservado na história dos mártires queforam castigados anos depois por terem dado hospedagema ele. Viajou de Witmarsum a Leewarden, e de novo aWitmarsum e depois a Groningen. Por volta do final doano, parece ter se estabelecido num refúgio próximo dacidade de Groningen ao noroeste da Holanda, pois deacordo com velhas tradições, ali foi ordenado ancião oubispo. Menno deixa de mencionar o lugar da sua ordenaçãoou os nomes dos que o ordenaram, mas relatadetalhadamente a experiência que o levou a comissãofinal. Deve-se ter por certo que depois da sua separação,Menno continuou ensinando e pregando cada vez quetinha oportunidade, mas não havia assumido 21
  30. 30. responsabilidade definitiva alguma, nem a direção dacongregação, desde que abandonara Witmarsum. Enquanto estava entregue ao estudo e a escrever no seuretiro de Groningen, seis ou oito dos irmãos foram erogaram-lhe que aceitasse o cargo de ancião ou pastorprincipal e bispo da Congregação. O tempo deste chamadofoi “por volta de um ano depois que abandonou o papado”quer dizer, durante o inverno de 1536-37. Não era fácilpara Menno aceitar o oferecimento; ainda queconsiderasse um dever ajudar na condução “dos tementesa Deus”, também sabia o que devia esperar do mundo seaparecesse públicamente como o guia deles. Portantopediu tempo para orar e considerar o assunto. Quando osirmãos pouco depois repetiram o chamado, Menno cedeu,mas não sem alguma luta. Ele descreve a sua resoluçãocomo segue: “Quando o ouví (ao chamado), o meu coração secomoveu profundamente. Rodearam-me o temor e oreceio. Por um lado via os meus escassos talentos, agrande falta de conhecimentos, a minha natureza fraca, atimidez da minha natureza, a grande perversão, adissolução, a crueldade e a tirania do mundo, as grandes epoderosas seitas (as igrejas perseguidoras do estado), aastúcia de muitos homens e a indescritivelmente pesadacruz que, sim, começava a pregar e a sentiria; e por outrolado reconhecia que a necessidade, a miséria e a avidezdas almas piedosas e devotas eram incomensuravelmentegrandes, pois havia visto com toda clareza que vagavamcomo inocentes ovelhas que não tem pastor. Quando aquelas pessoas anteriormente mencionadasinsistiram com seus rogos e a minha própria consciênciame acusava em vista da necessidade já mencionada,consagrei o meu corpo e a minha alma ao Senhor,encomendando-me a Sua direção e comecei no seu devido 22
  31. 31. tempo (depois de ser ordenado para o ministério daPalavra), conforme a Sua Santa Palavra a ensinar, abatizar, a trabalhar com os meus minguados talentos nocampo do Senhor, ajudando na construção da Sua SantaCidade e Templo e a reparar os muros destruídos”. A ordenação deve ter ocorrido possivelmente em 1537,e foi quase certamente efetuada por Obbe Philips. A importância da ordenação de Menno Simons para acondução da congregação do norte da Holanda conhecidanesse tempo com o nome de Obbenitas, mal pode-seavaliar devidamente. Como o próprio Menno confessa, ospoucos que haviam permanecido fiéis as doutrinas bíblicasevangélicas, sob a direção de Obbe e Dirk Philips ehaviam resistido a tentação de seguir as fanáticasdoutrinas de Jan Matiz, estavam desanimados eespalhados, esperando ansiosamente um líder poderoso. Opróprio Obbe perdeu o ânimo e finalmente abandonou oseu cargo de bispo, afastando-se por completo daCongregação poucos anos depois, talvez em 1541. Muitosdos que haviam sido arrastados pela corrente Münsterita,desiludidos pelo trágico fim do “reinado” estavamdesorientados como ovelhas sem pastor. Talvez fossemganhos de novo para o Evangelho. Além disso, alguns caudilhos fanáticos tratavam aindade promover movimentos radicais apesar do fracasso deMünster e colocavam em perigo a fé de muitos. O chefedeles era Jan de Batenburg cujo violento programa devingança degenerou cada vez mais, tornando-se emsimples vandalismo. No ano de 1536, em Bocholt,Westfalia, aconteceu uma assembléia destes Anabatistasrevolucionários. Até David Joris, a quem Obbe Philipshavia ordenado como bispo quase simultaneamente comMenno, voltou atrás convertendo-se num fanáticovisionário e extático, cuja imprudente interpretação das 23
  32. 32. Escrituras estava igualada com o seu caráter ímpio ehipócrita. Não é exagerado afirmar que a preservação dos“Anabatistas,” da Holanda e Alemanha, de uma completaaniquilação, ou pelo menos de ser absorvidos pelofanatismo dos Batenburgueses e Davidienses e a reuniãoem torno de uma norma de vida pura e fé evangélica, sedevem em grande parte a fecunda ação de Menno, quecedeu ao prematuro chamado de seus piedosos irmãos, eque entregou o coração, a alma e o corpo a Deus, tomandosobre si a “pesada cruz” de seu Senhor em fiel,irrenunciável e consagrado ministério até a sua morteocorrida em Wüntenfelde, Holstein, en 1561. 24
  33. 33. CAPÍTULO III Atividades na Holanda (1536-1543) O campo de ação designado a Menno na época da suaordenação não estava aparentemente limitado em nenhumsentido. Contava-se com ele para que visitasse aos irmãosespalhados, pregasse, batizasse, e restabelecesse a Igrejade Deus em qualquer oportunidade que tivesse.Naturalmente, procurou cumprir com a sua missão,primeiramente nas comarcas próximas. Foramconservadas poucas informações relativas as atividades deseus primeiros cinco anos de ministério. Convém lembrarque, apesar de ter contraido matrimônio em 1536 ou em1537 com uma tal Gertrudis, não teve residência fixa, masviajava continuamente. O seu primitivo campo deatividades estendia-se desde Friesland Oriental, ondebatizou a certo Pedro João, em Oldersum, em 1536, para opoente através das províncias setentrionais de Groningen eFriesland Ocidental. Nestas últimas, passou a maior partedo tempo até 1541. O próprio Menno fala de um homem a quem haviabatizado em Friesland Ocidental e que fora executado em8 de janeiro de 1539, por tê-lo hospedado. Por volta do ano de 1539, escreve Menno, “um homemmuito piedoso e temente a Deus, chamado TjardReynders, foi feito prisioneiro onde eu vivia, por ter merecebido secretamente em sua casa, apesar de eu ter sidoum homem sem lar, sem amigos, e sem a consideração deninguém. Pouco depois foi condenado e torturado no tornoe depois de dar um valente testemunho da sua fé, morreu 25
  34. 34. como um esforçado campeão do Senhor, na semelhançado Seu Mestre. Sempre havia sido considerado até pelosseus inimigos, como um homem piedoso e irrepreensível”. Menno viajou a Friesland Ocidental várias vezes aoano até 1541 e tão eficaz foi o seu trabalho, que logo foireconhecido como o líder notável dos “Anabatistas” naprovíncia. As autoridades provinciais haviam tentado semresultado por vários anos, extirpar a “maldita seita”,chegando finalmente a conclusão de que não conseguiriamo seu objetivo até que Menno fosse tirado do meio.Paraeste fim, propuseram um plano a Maria, Regente dosPaíses Baixos, que consistia em induzir a certos“Anabatistas” prisioneiros, a que traíssem a Menno,entregando-o para as autoridades em troca de sualiberdade, mas não tiveram êxito. A nota datada de 19 demaio de 1541, onde se esboça o plano a seguir, mostravividamente os perigos a que se expunha Menno em seustrabalhos. “Mui serena, justa, honorável; mui poderosa Rainha,mui graciosa Senhora. Nos oferecemos humildementepara servir a Vossa Majestade. Mui graciosa Senhora;apesar do erro da maldita seita dos Anabatistas que nosúltimos cinco ou seis anos tem prevalecido nestas terras deFriesland, mas que agora, louvado seja o Senhor, devido apublicação de certos editos e as execuções que serealizaram contra tais transgressores, teria sido certamenteaniquilada e extirpada, a não ser por um tal MennoSymonsz, ex-sacerdote, dirigente principal da precitadaseita e que desde uns três ou quatro anos anda comofugitivo, transitando durante estes últimos tempos duas outrês vezes por ano nestes lugares e enganando muitaspessoas incautas e simples. Para localizar e prender a estehomem, temos oferecido grandes somas de dinheiro, masaté o presente momento, sem resultado algum. Portanto 26
  35. 35. pensamos em oferecer e prometer perdão e misericórdia aalguns que tem sido enganados (pelos Anabatistas) e quedesejam a graça (retratando-se da sua fé), se conseguir acaptura de Menno Simons. Como não queremos ter aousadia de fazê-lo por conta própria, é que desejamos daraviso a Vossa Majestade, rogando que nos comunique obeneplácito de Vossa Majestade e a ordem que nósesperamos com impaciência e dispostos a executar namedida de nossas forças, da qual o Deus Todo-poderoso étestemunha. Que Ele conceda a Vossa Majestade muitasaúde e um longo império. Escrita em Leewarden, em 19de maio de 1541. Os humildes e obedientes servos deVossa Majestade em Friesland”. O oferecimento de recompensas pela detenção deMenno foi anunciado em cartazes espalhados por toda aprovíncia de Friesland Ocidental, mas sem surtir o efeitodesejado e tampouco conseguiu afastar a Menno de suasatividades pela região. Por último, o Imperador Carlos V,foi induzido a publicar um edito contra Menno em 7 dedezembro de 1542, no qual era oferecida uma recompensade 100 moedas de ouro pela sua cabeça e além disso,proibia prestar-lhe ajuda ou hospedá-lo de qualquer formae ler seus livros. Todos os seus seguidores foramigualmente perseguidos e presos. A qualquer um queentregasse a Menno para as autoridades, lhe seriaperdoado qualquer crime que tivesse cometido. A severidade destes editos prova a intensidade dasperseguições que suportaram Menno e seus partidáriosnesta época. Menno tinha pleno conhecimento dos riscosque corria, mas continuou trabalhando muito comindeclinável zelo e coragem. Seu espírito se manifestounos seguintes parágrafos de um folheto que escreveu nestaépoca: 27
  36. 36. “E sobre tudo, orai por vosso pobre e diligente servoque é procurado com muito empenho para ser entregue amorte, a fim de que Deus, Pai misericordioso, o fortaleçacom Seu Espírito Santo e o livre da mão dos queinjustamente procuram a sua morte, se essa é a SuaPaterna vontade; e se não é, que lhe conceda em todatribulação, tortura, sofrimento, perseguição e morte,coragem, determinação, sabedoria e fortaleza” No ano de 1541, Menno estabeleceu o seu campo deação ao sul de Amsterdã e no território vizinho conhecidocomo província do norte da Holanda. Ali passou a maiorparte do seu tempo durante os anos de 1541 a 1543, seminterromper o seu contato com Friesland e Groningen.Mesmo tendo batizado muitos em Amsterdã e nosarredores, somente foi conservado o nome de dois deles:Lucas Lamberto e o livreiro João Claeszoon. Ambospereceram como mártires em 19 de janeiro de 1544, poucodepois que Menno abandonou a região. Claeszoon ouClaasen fazia circular os escritos de Menno e certamentepublicou alguns deles. Além disso, era ministro ordenado. Durante os cinco anos de trabalho nos Países Baixos,Menno se ocupou muito em difundir as suas obras, queforam num total de sete. Cinco delas eram pequenosfolhetos, variando entre vinte e sessenta páginas dotamanho de um livro de tamanho mediano. Os dois maisimportantes foram “Os Fundamentos da Doutrina Cristã”,livro de duzentos e cinqüenta páginas, escrito em 1539, e“Da Verdadeira Fé Cristã” de cento e sessenta páginasescrito em 1541. “Batismo Cristão” publicado em 1539tem também certa importância. Todas as obras desteperiodo da vida de Menno são exposições substanciais dedoutrinas fundamentais, como arrependimento, fé, novonascimento, santidade, e temas similares. Não eramtratados eruditos, mas sim, livros simples, adaptados ao 28
  37. 37. cotidiano das pessoas e apropiados para as grandesnecessidades da época. Por essa razão foram amplamentelidos e prestaram um esplêndido serviço fortalecendo a féde muitos que estavam perturbados e desorientados pelosnumerosos conflitos da ocasião. Não é estranho, pois, queas autoridades se preocupassem tanto por destruir osescritos de Menno, e que impusessem severas penas aosque os lessem ou os distribuissem. 29
  38. 38. CAPÍTULO IV Atividades no noroeste da Alemanha (1543-1546) Compreendendo que um vasto campo de ação lhe eraoferecido no noroeste da Alemanha onde os severos editosdo Imperador e da Regente não tinham vigor, Mennoabandonou definitivamente a Holanda no final do ano de1543, depois de sete anos de árduo e frutífero trabalho. Osrestantes 18 anos de sua vida, os dedicou em levantar aIgreja do noroeste da Alemanha, território vizinho do lesteda Holanda. A extensão comparada de seus trabalhos nosdois países demonstra que Menno foi menos Holandês doque Alemão, durante seus 25 anos de serviço como bispoMenonita, fato que muito raramente é reconhecido comose deve. As perseguições eram muito menos severasnestes territórios do que no leste da Holanda,primeiramente porque o Imperador, que era adeptocatólico, exercia muito pouco poder e influência ali, e emsegundo lugar porque muitos dos dirigentes e da nobrezamenor eram partidários da tolerância. A vida de Menno naAlemanha pôde dividir-se em três períodos desiguais quevamos estudar separadamente. l), Alguns meses emFriesland Este; 1543-1544. 2), Dois anos no bispado deColônia; 1544-1546. 3), Quinze anos em Holstein e naregião costeira do Báltico. No princípio do inverno de 1543-1544, Menno com asua família aparece no leste de Friesland onde governava acondessa Anna, sendo a sua capital a cidade costeira de 30
  39. 39. Emden. Nesta época o país se encontrava em transição, docatolicismo para o protestantismo, motivo pelo qual os“Anabatistas” foram temporariamente tolerados. Anna acabara de autorizar (1543) a João a’Lasco, umReformador Zwingliano nativo da Polônia que haviatrabalhado ativamente na província desde 1540, a queorganizasse a planejada Nova Igreja Protestante doEstado. O lugar exato em que Menno se estabeleceu ao chegarem Friesland é desconhecido, sabendo-se únicamente quenão foi em Emden, ainda que ali houvesse uma bemorganizada congregação ou irmandade, estabelecida sob adireção de Obbe e Dirk Philips. Devido a tolerância do governo da condessa Anna,várias seitas se estabeleceram em Friesland além dos“Mennonitas”. Entre elas se encontravam osBatenburgueses que, como seguidores de Jan vanBatenburg ainda sustentavam as sangrentas doutrinas deMünster; os Davidienses, seguidores do fanático evisionário David Joris, colaborador dos irmãos Philips,dos quais separou-se em 1536. Quando João a’Lasco começou o seu trabalho dereformador em Friesland em 1543, logo advertiu sobre asdiferenças entre as seitas fanáticas e revolucionárias e ospacíficos e relativamente ortodoxos Menonitas.Sériamente interessado sobre qual deveria ser o tratamentoque deveria dar a todos eqüitativamente, alegrou-se muitoao saber por intermédio de vários irmãos, da chegada deMenno Simons como líder na província e o convidou a irpara a capital para participar de uma entrevista sobrequestões teológicas. Esta entrevista, chamada por algunsde debate ou disputa, apesar de não ter passado de umadiscussão semipública, aconteceu com o beneplácito das 31
  40. 40. autoridades, de 28 a 31 de janeiro de 1544, na capela deum monastério Franciscano Reformado de Emden. Váriosministros da Reforma e outros estiveram presentes. Foramnecessários três dias para tratar de todos os tópicos emdiscussão, que foram os seguintes: a encarnação de Cristo,santificação, batismo, pecado original e chamada deministros. Em dois assuntos, pecado original esantificação, Menno e a’Lasco coincidiam; nos trêsrestantes não houve acordo possível. O próprio Mennotestemunhou que foi tratado com bondade e que a únicacoisa que se lhe pediu foi que apresentasse uma exposiçãoescrita da sua fé diante das autoridades, que teriam assimuma informação segura e autorizada dos princípios queMenno e seus seguidores sustentavam. O prometido informe foi apresentado por Menno trêsmeses mais tarde com o título de “Breve e clara confissãoe instrução Bíblica.” Divide o seu conteúdo (cerca desetenta páginas) em duas das doutrinas mais discutidas: aencarnação e a chamada ao ministério, e promete umaexposição posterior do terceiro ponto, ou seja do batismo.Este último informe não foi apresentado; a’Lasco fez apublicação da exposição de Menno sem o seuconsentimento. Pretendeu, ao fazer isto, usá-la como armacontra os Menonitas, enquanto que Menno estavaconfiante que conseguiria com ela o reconhecimento dasautoridades ou pelo menos a sua tolerância. A’Lascopublicou uma refutação a esta exposição num livro escritoem latim, que apareceu em Bonn no ano seguinte (1545).Tempos depois, en 1554, Menno replicou num livro deaproximadamente cem páginas, intitulado “Clara eIncontrovertível Confissão e Demonstração.” A atitude de a’Lasco para com os Menonitas foi umtanto confusa. Sem dúvida advertiu as autoridades que nãopermitissem que se radicassem no território, líderes como 32
  41. 41. Menno, ainda que parecia estar disposto a concedertolerância aos membros, e tomava cuidado ao distingui-losde grupos tão radicais como os Batenburgueses. Quando a condessa Anna em 1544, sob a pressão daHolanda emitiu um edito desterrando a todos os“Anabatistas”, a’Lasco a persuadiu para que o modificasseno sentido de expulsar aos extremistas e conceder aos“Mennistas” um tratamento mais benigno, submetendo-osao controle de a’Lasco; mas finalmente a expulsão foidecretada. Este decreto modificado em 1545, é deinteresse histórico por tratar-se do primeiro documento noqual o nome de “Mennistas” ou Menonitas foi usado parareferir-se aos seguidores de Menno Simons. Por volta de 1544, possivelmente em maio, Mennoabandonou Friesland Oriental para procurar refúgio e pazno território ou bispado de Colônia: Duas razõesimpeliram a Menno para as terras do Reno. Uma,possivelmente foi a existência nesse território denumerosas e florescentes congregações dos Irmãos. Aoutra foi a política de tolerância do Arcebispo Hermanvon Wied, que era favorável a Reforma, e que nessa épocaestava empenhado em transformar o arcebispado numprincipado luterano. Os dois anos (1544-1546) que permitiram a Mennoresidir no território de Colônia, até que Herman von Wiedfosse deposto pelos seus inimigos católicos em 1546,estão entre os mais pacíficos e frutíferos de sua vida. Asescassas informações que se preservaram de suas viagense ocupações, revelam que os seus livros foramamplamente distribuidos e lidos e que o seu nome e famacresceram rapidamente. Em seus escritos posterioresMenno faz referência a certas experiências que ocorreramali, mencionando o fato de ter sido convidado a discutircertas questões teológicas com pregadores de Bonn, no 33
  42. 42. Reno, e também com pregadores de Wesel no território deCleve. Em Bonn, as autoridades, influenciadas pelosrelatos de a’Lasco e de seu amigo Hardenberg, finalmenterejeitaram o plano; enquanto que os pregadores de Wesel,em sua resposta ao oferecimento de Menno,comunicavam-lhe que receberia instruções do verdugo,apesar de que previamente haviam avisado a um dosamigos de Menno, que estavam dispostos a recebê-lo paradiscutir questões doutrinárias. Vestigios de seus trabalhos na Renânia (Território doReno) conservaram-se nas confissões e testemunhos dealguns mártires. Entre os lugares mencionados quepregou, figuram Fischerwerst e Illekoven. Neste último,Menno viveu com um diácono chamado Lemke. Ummártir foi executado por transportar a Menno Simons e aoutros dois homens num bote desde a sua casa emFischerwerst pelo rio Mosa a Roermornd. Quando obenigno governo do arcebispo Herman chegou ao seu fimpor ter sido deposto, começando a derrota dos príncipesprotestantes na guerra de Smalcald em 1546, e ocatolicismo se restabelecendo em toda a província, entãoMenno se viu obrigado a abandonar Colônia. 34
  43. 43. CAPÍTULO V Atividades em Holstein (1546-1561) Forçado a abandonar os territórios do Reno, Mennofugiu com sua esposa enferma e com seu pequeno filhopara o território de Holstein, que ficava ao noroeste deHamburgo, sobre a costa do Báltico. Já alguns pequenosgrupos de Menonitas fugindo da perseguição na Holanda,haviam procurado refúgio nesta região, que estava sob asoberania do rei da Dinamarca, e por isso, fora do alcancedas leis anti “Anabatistas” do império. Ignora-se o localonde Menno tenha se estabelecido na sua chegada. Mesmotendo vivido por um tempo na cidade de Wismar; a suaresidência definitiva foi o pequeno povoado deWuestenfelde, não distante de Oldesloe, a meio caminhodas cidades Hanseáticas de Hamburgo e Lübeck. Aprimeira evidência da presença de Menno em Holstein foia sua participação num debate teológico em Lübeck em1546, com Nicolás Blesdijk, genro e prosélito do célebreDavid Joris e líder da seita dos Davidienses. David Joris, flamengo, nascido em Bruxelas, foi umdos caráteres mais conhecidos e interessantes produzidospela Reforma. Rapidamente tornou-se Luterano ardente,mas em 1541 caiu sob a influência dos ensinos deMelchior Hofmann e se uniu ao grupo dos Melchioritas.Mais tarde uniu-se aos Obbenitas e parece que foiordenado ministro por Obbe Plillips antes que MennoSimons se unisse ao grupo. No entanto, quando Joris secontaminou com as doutrinas Münsteritas e adotou astendências fanáticas, por volta do ano de 1536, os 35
  44. 44. Obbenitas o expulsaram. A partir desse momento, Jorisiniciou um movimento de partidários que foramconhecidos com o nome de Davidienses, mesmo nuncatendo sido numerosos. Finalmente em 1544, oprimidopelas perseguições e tribulações, os abandonou e adotandoo nome de João de Bruxelas, refugiou-se em Basel, ondemorreu em 1556. O ensino de Joris era uma estranha mistura defanatismos teológicos e paradoxos. Pretendia ter recebidouma chamada divina para ser profeta e estabelecer o reinode Deus na terra, sobre o qual ele deveria reinar como oterceiro David. Chegou tão longe em sua doutrina, atémesmo ensinando que a obra e revelação de Cristo nãoeram suficientes e que as Sagradas Escrituras seriamsubstituidas pelas suas próprias obras literárias inspiradas,que continham a revelação final de Deus. Seu conceito dopecado carnal era tal que ensinou que o homem interiornão era afetado pelo que a carne fizesse, e portanto asobras mais grosseiras que esta cometesse, não seriamconsideradas como pecado. Como conseqüência desteensino, apareceram entre os Davidienses muitos pecados eimoralidades, incluindo adultério e poligamia. Menno havia atacado a David Joris e seus ensinosdesde o primeiro momento. Incitado pelos ataques deMenno nos “Fundamentos”, Joris escrevreu-lhe uma cartadesafiando-o a preparar-se para um grande debate. Mennoreplicou energicamente ao desafio de Joris numa vigorosacarta escrita em 1542, onde indicava que um maiorcontato entre os dois era impossível, visto que cada umestava sobre plataformas radicalmente opostas, já queMenno seguia a Cristo e a Sua Palavra, enquanto que Jorisseguia os seus estúpidos e egoístas sonhos e alucinações.Logo pedia a Joris que deixasse de escrever-lhe, pois não 36
  45. 45. iria ler mais nem uma de suas cartas até que aprendesse arespeitar e a honrar a Palavra de Cristo. Quando Joris desapareceu do mundo, assumindo opseudônimo de João de Bruxelas, colocou-se um fim aquestão pessoal, mas não ao conflito entre Menno e osDavidienses. Numa casa de campo próxima de Lübeck,Menno participou de um longo debate com o jámencionado Nicolás Blesdijk, no qual tratou-se dobatismo e de outras questões. Menno foi apoiado nodebate por Dirk Philips, Leonard Bouwens, Gillis deAachen e Adam Pastor. Foram impressas versões destedebate, mas parece que foram perdidas. No entanto,Blesdijk descreve o encontro em vários de seus livros,especialmente em um publicado em 1546 sob o título“Vindicação e Refutação Cristã ... da carta escrita porMenno Simons”. Entre os diversos pontos de discrepânciaentre Davidienses e Menonitas, destaca-se um. Menno eseus fiéis sustentavam que a doutrina da Igreja e de suacorreta organização e disciplina, era um dos princípiosmais importantes do Cristianismo, enquanto que osDavidienses não queriam aceitar nada disto. Para eles, ainterpretação individual e Espiritual (como a chamavam)das Escrituras, era o centro e a base da doutrina Cristã. A presença de outros quatro irmãos no debate deLübeck com Blesdijk, faz supor uma cooperaçãoorganizada entre os Menonitas dessa época. É umaevidência para crer que os bispos dessa época começavama realizar reuniões ou conferências ocasionais e quetinham um plano de cooperação, por meio do qual sedesignou a cada um, um território determinado onde eraresponsável direto pelo trabalho pastoral, disciplina ebatismo dos novos convertidos. Foi designado paraBouwens o oeste (Holanda), Gillis de Aachen recebeu oterritório do Reno, Dirk Philips, a região de Dantzig e seus 37
  46. 46. arredores ao longo do Báltico, enquanto que Mennoretinha o distrito central desde Friesland Oriental aHolstein e era reconhecido como chefe entre os bispos.Acredita-se que Dirk Philips era bispo desde antes queMenno fosse ordenado em 1536. Gillis de Aachen foiordenado bispo por volta de 1542, enquanto que Bouwensnão o foi até 1551. Infelizmente o líder primitivo dos“Anabatistas”, Obbe Philips, havia se desanimado em1541 e havia abandonado a causa pela qual serviu comtanto empenho. Menno o considerava um apóstata. Os bispos já mencionados, junto com outros, sereuniam oportunamente em vários lugares. Em taisassembléias informava-se sobre as condições dosdiferentes campos, discutiam-se problemas, resolviam-sesérios casos de disciplina e ordenanças para a Igreja. Areunião de Lübeck de 1546 na ocasião do debate comBlesdijk, é a primeira que se recorda. Pelo menos duasoutras assembléias foram realizadas no ano seguinte,1547, sendo uma em Emden e outra em Goch. O assunto principal que foi considerado nestas reuniõesfoi o erro da doutrina que se havia colocado públicamenteno ensino de Adam Pastor (Roelof Martens) um dosdirigentes que havia sido ordenado em 1542 por MennoSimons e Dirk Philips. Pastor discordava quanto adivindade de Cristo, pois sustentava que Cristo não existiacomo Filho de Deus antes da sua vinda ao mundo, e queera divino depois da Sua encarnação únicamente nosentido de que Deus morava nele. Aceitava a autoridadeda Bíblia como Palavra de Deus, mas buscava apoio paraa sua heresia em certas interpretações particulares. Naprimeira reunião de 1547 em Emden, os bispos tinhamesperança de que Pastor voltaria a sua primitiva posiçãodoutrinária. Apesar disso, a esperada mudança nãoocorreu e portanto, na segunda reunião do mesmo ano em 38
  47. 47. Goch, Pastor foi excomungado. Ele acusa a Menno pelasua excomunhão, ainda que existam evidências de que foiDirk Philips quem pronunciou as palavras do anátema emnome de todos. A princípio Pastor obteve êxito garantindo algunsprosélitos e causando alguns distúrbios na Igreja. Paraopôr-se a influência das suas idéias, Menno escreveu em1550 um folheto sobre a deidade de Cristo, intitulado“Confissão do Deus Trino”. Em termos seguros afirma oensino bíblico sobre este tema e previne a Igrejaenergicamente contra a nova doutrina, que é umaperversão da doutrina fundamental do Evangelho. Ofolheto de umas vinte páginas circulou entre as igrejas emforma de manuscrito. Mais tarde os irmãos de Groningenimprimiram uma cópia. O último encontro de Menno e Adam Pastor ocorreu nodebate de Lübeck em 1552. O propósito da excomunhãode 1547 foi duplo; primeiramente proteger a Igreja esegundo, fazer com que o homem considerasse o erro doseu caminho, com a esperança de restabelecê-lo.Esperando que Pastor fosse persuadido a voltar, Mennoconcordou com a entrevista em 1552. De acordo como oinforme do próprio Pastor, o esforço foi em vão. Poucodepois se tem notícias dos seguidores de Pastor. Depois deum período de atividades na Renânia e em Westfalia,Pastor morreu em Münster. Seus seguidores, que nãoforam muitos, desapareceram gradualmente. Tem se dito antes que o território designado a Mennocomo bispo, compreendia o pastorado da região do norteda Alemanha, o leste de Groningen até a Prússia,incluindo Friesland Oriental, Oldenburg, Holstein,Mecklenburg e possivelmente a Pomerânia. As suasviagens as vezes chegaram até fora destes territórios. Em1547 assistiu a reunião de anciãos em Goch; em abril de 39
  48. 48. 1549 esteve em Friesland Oriental próximo de Leewarden;e no verão de 1549 visitou aos Irmãos na Prússia. Estavisita é narrada pelo próprio Menno numa carta aosirmãos daquele lugar, datada de outubro de 1549. A cartaconsiste principalmente num chamado para manter a paz ea união que havia sido restabelecida entre eles depois queuma séria controvérsia teve fim com a visita de Menno, noverão anterior. Menno tinha apenas acabado de chegar de dirimir asdificuldades na Prússia, quando sentiu necessidade defazer uma viagem para as congregações ocidentais comuma missão similar. A influência do ensino herético dePastor acerca da deidade de Cristo, ainda causavadistúrbios, e haviam surgido novas dissidências sobre aaplicação do anátema nas excomunhões. Sobre ambostópicos Menno escreveu dois folhetos em 1550. O dirigidocontra Pastor já foi mencionado; o segundo se intitulava“Uma Exposição Clara da Excomunhão”. Este último, deumas quarenta e cinco páginas foi distribuido entre asigrejas em forma de manuscrito. Não foi impresso até1597. Versava sobre o objeto, prática e alcance doanátema e estava dirigido diretamente contra aqueles quedesejavam aplicá-lo únicamente em questões espirituais.No transcorrer da sua viagem ao ocidente, ocorreu umaconferência em Emden em 1549, na qual, entre outrascoisas um dos ministros, Francis Kuyper, foiexcomungado por Menno devido a que sustentava pontosde vista sem base bíblica sobre a justificação pela fé eoutros pontos. Fora os dois breves folhetos de 1550 (que não foramimpressos de imediato) escassas cartas muito breves equatro petitórios curtos escritos em 1551 e 1552, Mennonão publicou nada de importância entre 1541 e 1554,exceto a sua “Réplica a Gellius Faber” em 1552, um livro 40
  49. 49. com duzentos e cinqüenta e cinco páginasaproximadamente. Uma das razões foi talvez, o fato deencontrar-se muito ocupado com as suas viagens e com ocumprimento de suas obrigações como bispo, que não lhedeixavam tempo livre para escrever. Outra razão terá sidoa dificuldade de conseguir editores que imprimissem osseus livros. Os quatro petitórios mencionados estavamdirigidos de forma geral para as autoridades civis e aoshomens entendidos e mestres das igrejas Reformadas doEstado e Luteranas da Alemanha. A finalidade destespetitórios era refutar a acusação de heresia e de fanatismoque recaiam constantemente sobre os Menonitas. NelesMenno assegurava com termos mais enérgicos que nemele nem os seus paroquianos tinham relações de nenhumanatureza com Münster, e que o seu único propósito era serfiéis Cristãos e crentes verdadeiros da Bíblia. Tambémsolicitava debates públicos nos quais teria a oportunidadede refutar as falsas acusações de seus inimigos. A “Réplica a Gellius Faber” anteriormentemencionada, era uma extensa exposição de seis assuntosfundamentais: a chamada de obreiros, batismo, ceia doSenhor, anátema, igreja e encarnação. Faber, PastorReformado de Emden, junto com a’Lasco havia atacado asdoutrinas dos Menonitas, ainda que sem dirigir os seusataques especialmente contra Menno. Este é o livro maisextenso de Menno, ainda que de escassa importância, poisnele somente repete as doutrinas expostas anteriormente.O mais importante nele é o relato que faz da suaconversão e chamada ao ministério, que foi reimpressomais tarde em separado. Durante o inverno de 1553-1554, Menno passou umatemporada na cidade Hanseática de Wismar na costa doMar Báltico entre Lübeck e Rostock. Ali alternou com acongregação Menonita, ainda que se esforçava por manter 41
  50. 50. incógnito o lugar da sua residência. Apesar da suaintenção de manter o segredo, se viu envolvido de formasumamente interessante numa discussão teológica comdois ministros Reformados. Aconteceu mais ou menosassim. Uma embarcação com refugiados procedentes deLondres, que haviam abandonado a Inglaterra por causadas perseguições, chegou no porto de Wismar em 21 dedezembro de 1553. Os Menonitas da cidade foram osúnicos dispostos a socorrer os refugiados necessitados,cuja embarcação havia ficado bloqueada no gelo a poucadistância da costa. Durante estas comunicações os doisgrupos se viram envolvidos numa discussão doutrinária detal magnitude, que o chefe dos refugiados, HermanBackereel, pediu uma entrevista com Menno Simons. Istoocorreu em 26 de dezembro de 1553. Sentindo anecessidade de apoio, o grupo de Reformados chamoupara ajudá-los a Martin Micron de Norden em FrieslandOriental, um de seus dirigentes. Menno e Micronmantiveram duas extensas discussões na presença demuitos amigos e interessados; ambas se realizaram na casaque Menno habitava, em 6 e 15 de fevereiro de 1554,respectivamente. Os tres debates: o mantido comBeckereel e os dois com Micron, foram realizados no maisestrito segredo e sob a promessa do grupo de Reformadosde não revelar para as autoridades, o refúgio de Menno. Odebate de 6 de feverereiro tratou sobre o batismo,encarnação, juramento, divórcio, chamada de ministros,exercício da autoridade civil, e terminou amistosamente.O segundo, a pedido de Micron, que conhecia o pontofraco de Menno, ficou reduzido exclusivamente a questãoda encarnação e terminou com aborrecimentos para ambasas partes. Não se deu a conhecer a versão destes debatesaté 1556, em que Micron publicou um livro intitulado:“Um Relato Verídíco” que contém uma versão parcial e 42
  51. 51. até certo ponto falsa, do ocorrido, incluindo acusaçõespessoais contra Menno. Este, respondeu-lhe logo depoiscom “Réplica Clara e Concretizada” de cerca de duzentaspáginas, uma das obras mais extensas de Menno. Doisanos depois, em 1558, Micron voltou ao combate com olivro intitulado: “Chamado a Prestar Contas” (AReckoning). Imediatamente depois do debate com Micron em 1554,Menno participou em outra importante reunião emWismar, mas de caráter muito diferente; uma conferênciade bispos e dirigentes da Igreja Menonita. Vários casos dedisciplina haviam criado dificuldades, pelo quais tornavanecessária uma assembléia de pastores para garantir emanter a unidade e harmonia na Igreja. O resultado daconferência foi uma série de nove resoluções que tratavamsobre assuntos como: o matrimônio com pessoas alheias aIgreja, aplicação do anátema, utilização dos tribunais dejustiça, porte e uso de armas, e a necessidade deautorização da Igreja e do bispo para pregar. Infelizmenteo texto em que foram preservadas estas resoluções, estátão adulterado que é impossível conhecer com toda acerteza o seu conteúdo original. Sete bispos participaramnesta reunião presidida por Menno. Assistiram entreoutros, Dirk Philips, Leonard Bouwens e Gillis deAachen. Sobre a aplicação do anátema, as resoluçõesforam muito severas; tanto, que numa conferênciacelebrada em Estrasburgo, em 1557, os irmãos da Suíça esul da Alemanha decidiram redatar uma resoluçãodiscordando com as de Wismar e enviar dois delegados aMenno Simons para solicitar-lhe que moderasse a atitudeadotada pelos bispos do norte da Alemanha. A crescente pressão exercida pelas autoridades civiseclesiásticas de Wismar contra os Menonitas fez com quefinalmente Menno resolvesse abandonar a cidade. Por esta 43
  52. 52. razão mudou a sua residência durante o verão ou o invernode 1554 para uma localidade ocidental, próxima a cidadede Oldesloe, entre Lübeck e Hamburgo. Certo nobre,chamado Bartolomé von Ahlefelt que vivia nasimediações, permitia desde 1543 que os Menonitas quefugiam da perseguição se refugiassem em suas terras,chamadas “Fresenburg”. Um impressor Menonita deLübeck que tinha uma imprensa clandestina na qualimprimia grande número de livros Menonitas assim comoBíblias e concordâncias, que eram distribuidas a distânciastão afastadas como Amsterdã, também se viu forçado aprocurar um lugar mais seguro para as suas atividades.Primeiramente foi para Oldesloe, onde confiscaram-lhedez tonéis de livros, e finalmente a Freseriburg, ondepossivelmente chegou no final de 1554. Ainda que não setenha provado, é possível que este impressor fosse o editorde Menno, ou talvez o próprio Menno, já queefetivamente, Menno foi de Wismar a Lübeck e dali paraOldesloe e finalmente a Fresenburg. É mais provável noentanto, que o impressor fosse um generoso membro daIgreja e amigo de Menno, pois é bem conhecido que estepermaneceu pobre até o fim de seus dias. Nesta épocaMenno se estabeleceu em Wuestenfelde, povoado doterritório de Fresenburg. Como a perseguição estava se fortalecendo na regiãocircundante, os Menonitas, em número cada vez maior,encontravam um seguro refúgio sob a proteção do Barãovon Ahlefelt em Fresenburg e Wuestenfelde. O rei daDinamarca tratou de persuadir a von Ahlefelt que mudassea sua política de tolerância e que expulssasse aos Irmãos,mas ele se opôs, pois havia sido favoravelmente comovidoem seus dias juvenis pela firmeza dos Menonitas, sobperseguição, sofrimento e morte. Em Fresenburg eWuestenfelde, Menno encontrou tempo e tranqüilidade 44
  53. 53. para revisar muitos dos seus primeiros escritos e traduzí-los do original para o dialeto que se falava nessa comarca,chamado “Oosterche” ou dialeto oriental. Todas as suasobras posteriores foram escritas neste dialeto. Um total dedez livros e folhetos foram impressos em Lübeck eFresenburg durante os anos 1554-1561. Os últimos anos da vida de Menno foram bastanteamargurados por causa de sérias e as vezes gravescontrovérsias entre as igrejas do Oeste sobre assuntos dedisciplina, particularmente a respeito da severidade naaplicação do anátema e a separação dos membrosexcomungados. Já em 1550, no seu pequeno livro sobre“Excomunhão” Menno havia expressado o seu desejo deevitar aborrecimentos posteriores por causa desta questão.As divisões mais graves ocorreram depois da morte deMenno. As primeras notícias desta grave controvérsia chegaramao conhecimento de Menno em 1555 na forma de umacarta de cinco irmãos “de boa reputação” que viviam emFraneker Oeste e Friesland Oeste, na qual relatavam quealguns desejavam que não se aplicasse a excomunhão semtrês admoestações prévias, exceto em casos de pecadomuito grave. Menno aprovou este procedimento maismoderado mesmo contra os que exigiam uma imediata erude excomunhão sem admoestações. Outro assunto que originou grandes aborrecimentos foio de isolar-se ou evitar as pessoas excomungadas,particularmente tratando-se de membros da mesmafamília. Como a polêmica crescia, foram enviadas aMenno carta atrás de carta desde a Holanda, rogando-lheque falasse algo a respeito. Leonard Bouwens apoiava osextremistas na sua exigência e quando finalmenteexpulsou a uma mulher casada de Emden, porquerecusava afastar-se de seu marido, Menno se viu obrigado 45
  54. 54. a tomar uma determinação. Numa carta datada de 12 denovembro de 1556, protesta energicamente contra ascrenças e práticas extremas. Fez uma viagem de Holstein aFriesland Ocidental, na esperança de promover a unidadee a harmonia, mas conseguiu êxito somente em parte, poisa divisão pareceu ter persistido. Voltou a Wuestenfeldecom o coração dolorido e quebrantado pelo lamentávelestado em que se encontrava a Igreja que amava com todaa sua alma. Seus sentimentos estão bem expressos numacarta dirigida ao seu cunhado Reyn Edes em 1558: “Reyn,meu irmão! Se pudesse estar contigo ainda que fossesomente por meio dia para contar-lhe algo da minha dor,aflição e amargura e da pesada carga que tenho quesuportar pelo futuro da Igreja ... Se Deus Todo-poderosonão tivesse me fortalecido durante o ano passado, comocontinua fazendo, eu teria perdido o juízo. Não há nadasobre a terra que ame mais do que a Igreja; e éprecisamente por ela que devo padecer toda esta aflição”. A posição definitiva de Menno a respeito daexcomunhão criaria para ele novas dificuldades comoutros grupos de Menonitas da Renânia e sul daAlemanha. Em abril de 1556, antes que fosse a FrieslandOcidental, dois membros dos territórios do Reno,chamados Zylis e Lemke, junto com outros, o haviamvisitado em Wuestenfelde a fim de discutir a questão doanátema e da separação. Eles se inclinavam a uma menorseveridade. Deixaram a Menno somente parcialmenteconvencido, mas consentiu em considerar o assunto afundo e explicá-lo diante de alguns irmãos do sul daAlemanha em procura de conselho. Menno entregou aZylis uma exposição escrita da sua posição para apresentaraos referidos irmãos. Quando em 1557 manifestaram a opinião final deMenno a respeito da separação diante de uma importante 46
  55. 55. assembléia em Estrasburgo, a qual assistiram cerca decinqüenta bispos de muitos lugares, encontraram umaenérgica e negativa reação. A assembléia resolveu rejeitara separação dos cônjuges por excomunhão de um deles eredatou uma carta dirigida a Menno e a seus colegas donorte da Alemanha, contendo uma veemente súplica afavor de maior indulgência quanto a romper todo tipo derelações com os excomungados. Na carta expressavam oseu ardente desejo de estarem unidos e em paz com seusirmãos do norte. Também manifestavam o seu desacordocom a teoria pessoal de Menno a respeito da encarnação. A apelação da conferência de Estrasburgo seria em vão.A unidade não foi conseguida, pois os irmãos do norteeram implacáveis no que se referia a separação. No ano de1558, Menno e Dirk Philips publicaram os respectivostratados sobre o assunto em discussão. No tratado deMenno intitulado: “A Excomunhão” estava claramenteexposta a sua severa atitude sobre a separação, que incluíaa ruptura de todos os laços humanos, até os do matrimônioe da família, devendo ocorrer únicamente no caso deexcomunhão da Igreja. Este folheto provocou sériascontrovérsias. Zylis e Lemke encabeçaram a oposição,pelo que Menno se viu obrigado a publicar um folhetocontra eles em janeiro de 1560, intitulado: “Réplica aZylís e Lemke”. Neste folheto que foi o seu último escrito,Menno defende a sua posição e finalmente anuncia quenão poderia continuar considerando irmãos a tais homens. A vida de Menno depois deste episódio, não foi muitolonga. A sua saúde nunca havia sido muito boa, e a vidade asperezas e privações, bem como o peso das igrejas,minaram a sua escassa resistência, particularmente depoisde ter fraturado uma perna em Wismar, o qual o obrigavaa usar muletas as vezes. A morte o alcançou em seu leitode enfermidade em 31 de janeiro de 1561, exatamente 47
  56. 56. vinte e cinco anos depois da sua renúncia ao catolicismoem Witmarsum. A sua esposa o havia precedido na morteentre os anos 1553 e 1558, assim como dois filhos, ummenino e uma menina; somente uma filha sobreviveu. Foisepultado em seu próprio jardim em Wuestenfelde.Infelizmente não se pode determinar com exatidão o lugar,devido a devastação de Wuestenfelde durante a Guerrados Trinta Anos, ainda que se tenha estabelecido o maisaproximadamente possível em 1906, data em que se erigiuum modesto memorial em testemunho da obra de Menno aserviço de Deus e da Igreja que tanto amou. 48
  57. 57. CAPÍTULO VIA importância de Menno Simons Menno Simons não é o fundador da Igreja Menonita.Esta foi fundada em Zurique, Suíça, em janeiro de 1525por Conrad Grebel, Félix Manz, George Blaurock eoutros, onze anos antes que Menno renunciasse aoCatolicismo. Tampouco fundou a Igreja da Holanda. Sealguém merece este título, é Obbe Philips que em 1533começou a congregar aos Irmãos em Friesland. Masapesar disto, existe uma razão histórica para que a IgrejaMenonita ostente o nome de Menno Simons, pois emtempos de grande necessidade Menno foi o guia enviadodo céu que encaminhou os escassos e espalhados crentes,dando-lhes o exemplo que necessitavam, em fé, espírito edoutrina. Foi ele quem os dirigiu com segurança e os fezpassar a salvo por épocas de tribulação “apesar de perigos,fogo e espada”. A grandeza de Menno não reside tanto na suaeloqüência, ainda que era um bom orador, nem na sua arteliterária, ainda que podia escrever bem para o povocomum. Não era um grande teólogo, ainda que sabiaapresentar os ensinos da Bíblia com força e claridade.Tampouco foi um grande organizador, ainda que prestouum verdadeiro serviço para a nascente Igreja mediante aorientação que deu a bispos e pastores. Mas Menno foi umdos grandes líderes religiosos de sua época e de sua nação,talvez o mais notável dos Países Baixos, em seu tempo. Asua obra e influência tem tido um valor permanente nahistória da Igreja que leva o seu nome e através delas, asua importância tem chegado ao maior número de igrejaslivres da Inglaterra e da América. 49
  58. 58. A grandeza de Menno Simons reside em três fatoresessenciais: seu caráter, seus escritos, sua mensagem. Seucaráter constituiu uma força firme, segura, construtiva, noslongos e duros anos de perseguição e angústia, desde 1535a 1560, com a sua profunda convicção, devoçãoinabalável, valor intrépido, e serena confiança. Seusescritos, ainda que pareçam ao considerá-los em conjunto,repetidos e insignificantes, incluem alguns tratadosadmiráveis para a época, sutís, simples, bem ajustados aoseu propósito.Chegaram ao povo comum no seu devidotempo e foram poderosos agentes para a edificação efortificação da Igreja e para conseguir novos aderentes.Mas, mais do que tudo, foi a mensagem de Menno, o quefez dele o grande líder de uma grande causa. Nãoconstruiu um novo sistema de Teologia, nem descobriuum princípio novo, nem algum que tenha sido por umlongo tempo esquecido; alcançou, simplesmente uma claravisão dos ideais bíblicos fundamentais: o ideal dasantidade prática e o ideal do alto posto da Igreja na vidado crente e na causa de Cristo. Sobre a base do primeiro ideal, lutou por uma genuínae constante mudança de vida e de prática cristã comoCristo a ensinou e viveu; a vida de justiça, santidade,pureza, amor e paz. Para ele, o Cristianismo era algo maisdo que uma mera fé; era fé e obras. E este Cristianismoprático significava para Menno o abandono absoluto porparte do cristão, de todo tipo de contenda e guerra, emfim, do uso da força em qualquer forma, assim como acompleta separação do pecado da sociedade mundana. Oideal da Igreja que Menno sustentava, era o princípio dadoutrina e vida cristãs em seu conceito cabal. Para ele, aIgreja era a representante e agente de Cristo no mundo, ecomo tal, devia manter-se santa e pura na vida e doutrina edar um fiel testemunho até a Sua segunda vinda. Estes 50
  59. 59. ideais de Menno tem sido os principais nos quatrocentosanos de história menonita, porque também tem sidocompartilhados pelos Menonitas Suíços e Alemães do sul,e constituem o canon da Igreja Menonita. Deles surgiu aidéia da completa separação da Igreja e do Estado, datolerância e liberdade de consciência, de normas sociais emorais elevadas, da pregação e prática da paz, da absolutasoberania de Cristo sobre os seus neste mundo, ideaistodos avançados para a sua época, mas que ainda hoje emdia constituem legítimamente a possessão comum e muitoapreciada de uma grande parte do Protestantismo Inglês eAmericano. Não é tanto pela grandeza de Menno Simons, ohomem, nem pelas suas proezas humanas, que rendemoseste tributo de admiração; a nossa admiração é dirigida agrandeza dos ideais e convicções que possuia a sua alma egovernavam a sua vida, e que tem sido motivo de bênçãopara inumeráveis seres desde os seus dias. 51

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