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BHATIA, V.K. Worlds of written discourse: a genre-based view.            London:Continuum, 2004. p.115-133.CAMPOS, F. C. A...
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Este trabalho apresenta os resultados de uma pesquisa em andamento sobre o perfil como gênero emergente. Para tanto, partindo das noções de gênero apresentadas em Swales (1990; 2004) e da concepção de Marcuschi (2005:13) de que os gêneros textuais que estão emergindo no contexto digital, em sua maioria, têm similares em outros ambientes, constatamos ser possível traçar um paralelo entre o perfil e o gênero carta. Nesta fase inicial da análise, discutiremos a existência, ou não, de marcas típicas do gênero carta pessoal de apresentação (cabeçalho, saudação, fecho, despedida, assinatura) e o seu efeito para o propósito comunicativo do perfil – fornecer um mecanismo para que os participantes possam se "conhecer a distância" visando ações de comprometimento entre o grupo.

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O perfil online como gênero em um curso a distância

  1. 1. SOARES, Doris de Almeida. O perfil on-line como gênero em um curso a distância.XV Congresso da ASSEL-Rio (UFRJ), p.1-16. 2009. ISBN 9788587043863Publicação em CD-ROM. O PERFIL ON-LINE COMO GÊNERO EM UM CURSO A DISTÂNCIA SOARES, DORIS DE A. (Escola Naval/ PUC-Rio)INTRODUÇÃO Nos ambientes virtuais de aprendizagem (AVAs), é comum a existênciade mecanismos para que os participantes possam se conhecer a distância,visando ações de comprometimento entre o grupo. No ambiente Teleduc, porexemplo, essa ferramenta é chamada de perfil e permite que cada participanteescreva um texto sobre si mesmo, acompanhado de uma foto digital, modelo3x4. Este texto fica disponível para todos os membros daquele curso, bastandoclicar no nome do participante escolhido, em qualquer área do ambiente paraacessá-lo. Como se apresentar por escrito de maneira informal em um AVA é umaprática social recente, nossa proposta é investigar esse tipo de produçãodiscursiva como um gênero emergente. Embasamos essa proposta em Marcuschi (2005, p.14), que aponta trêsaspectos que tornam a análise de gêneros emergentes relevantes. Primeiro,esses estão em franco desenvolvimento e seu uso é cada vez maisgeneralizado. Segundo, eles possuem peculiaridades formais, embora possamter contraparte em gêneros já estabelecidos. Por últimos, eles oferecem apossibilidades de se rever e repensar a nossa relação com a oralidade e aescrita. Portanto, buscando definir parâmetros para a caracterização do perfilcomo um gênero discursivo emergente, realizamos uma análise macro textualdos movimentos realizados em dezoito perfis produzidos em curso de curtaduração oferecido totalmente on-line e de modo assíncrono. A noção de gênerocom a qual trabalhamos e os resultados de nossa pesquisa são o foco desteartigo.
  2. 2. 2. GÊNEROS DO DISCURSO: DEFINIÇÃO Por mais de um século, a noção de gênero esteve fortemente associadaaos estudos de textos escritos que são a) primariamente literários, b)inteiramente definidos por regularidades textuais na forma e conteúdo, c) fixose imutáveis, e d) classificáveis de forma organizada em categorias esubcategorias mutuamente exclusivas (JOHNS, 2002, p. 3). Contudo, segundo Freedman e Medway (1994, p.1), o termo gênerotambém está relacionado ao reconhecimento das regularidades nos discursos,a partir de um entendimento social e cultural da linguagem em uso. Assim, apartir das décadas de 70-80, o termo passou a ser utilizado para designar umaárea de estudo cujo interesse é analisar a forma e a função do discurso não-literário, bem como servir de ferramenta para desenvolver práticaseducacionais nos campos da retórica, estudos composicionais, escrita emcontexto profissional, lingüística, e inglês para fins específicos (HYON, 1996, p.693). Nesta nova conceituação de gênero, as características (a-d), tidas comotradicionais, abrem espaço para abarcar as noções de contexto, conteúdo,papéis dos leitores/falantes e escritores/ouvintes, valores da comunidade,propósito comunicativo, entre outros (JOHNS, 2002, p.3). Deste modo, gêneropassa a ser um termo que se refere às respostas complexas dadas pelosfalantes às demandas do contexto social, sendo que estas podem ser orais ouescritas. Se pensarmos essas respostas a partir do conceito Bakhtiniano de quetodo dizer é uma réplica e não se constitui fora daquilo que chamamos hoje dememória discursiva, verificamos que, para produzi-las, recorremos aexperiências sócio-retóricas anteriores nas quais a linguagem verbal foinecessária para realizar algo. Conseqüentemente, todos nós costumamos tiraras palavras de outros enunciados (BAKHTIN, 1979/2003, p. 300) e, nesseprocesso, reconhecemos similaridades entre situações e padrõesorganizacionais recorrentes, ou seja, o que podemos chamar de gênerosdiscursivos. Os gêneros são fundamentais para a comunicação humana, pois nosajudam a realizar o que queremos dizer/escrever em dada situação, não só em
  3. 3. termos de conteúdo léxico-gramatical, mas, acima de tudo, levando em conta aadequação do discurso ao interlocutor, ao contexto e ao propósito dacomunicação (MOTTA ROTH, 2006, p.180). Nesta linha de pensamento, Swales (1990, p.58) define gênero comouma classe de eventos comunicativos cujos exemplares partilham os mesmos propósitos comunicativos. Estes propósitos são reconhecidos pelos membros experientes da comunidade e são a razão do gênero. Esta razão modela as estruturas esquemáticas do discurso e influencia e restringe as escolhas com relação ao estilo e conteúdo (..). Além disso, exemplares de um gênero exibem vários padrões de similaridade em termos de estrutura, estilo, conteúdo e público-alvo. Se as expectativas probabilísticas se realizam em uma alta proporção, o exemplar será visto como prototípico do gênero pela comunidade discursiva. Neste aspecto, parece haver um ponto de contato entre esta visão degênero e aquela apresentada por Martin e White (2005, p.32). Para estesautores, gêneros são a) processos sociais, pois participamos nos gêneros comoutros interlocutores, b) orientados para um objetivo, pois os usamos para fazercoisas, e c) realizados em estágios, pois é necessário seguirmos algunspassos para alcançarmos nosso objetivo comunicativo. Por conseguinte, anatureza de um texto sempre dependerá do contexto de situação e dasdiferentes escolhas lingüísticas que os falantes exercem levando em conta comquem se fala (a relação), em qual contexto (o campo), e por qual meio (omodo). Contudo, vale ressaltar que, por serem “atividades culturalmentepertinentes, mediadas pela linguagem” (MOTTA ROTH, 2006, p. 181), osgêneros estão sujeitos a sofrer um processo que Bakhtin (1979/2003) chamade transmutação, pois, na medida em que novas práticas sociais surgem,alguns gêneros primários saem de sua esfera de origem para outras,materializando-se na escrita. Baseando-nos no senso comum, é possível imaginar que, antes dainvenção da escrita, as pessoas já falavam sobre si. Pode-se então concluirque as apresentações pessoais por escrito seriam gêneros secundários, saídosda esfera oral para a esfera escrita e, mais recentemente, para o meio digital.
  4. 4. Para corroborar esta visão, cito a idéia de Marcuschi (2005, p.13) de que osgêneros produzidos no contexto digital, ou gêneros emergentes, em suamaioria, têm similares em outros ambientes, tanto na oralidade quanto naescrita. Contudo, as características específicas do meio e o propósito dacomunicação trazem novas possibilidades e restrições para a organizaçãodessa produção, o que pode torná-la peculiar. Portanto é interessante tentar traçar um paralelo entre o discursoapresentado em forma de perfil, candidato a gênero emergente, e outrosgêneros bem estabelecidos, como a carta.3. ASPECTOS EM COMUM ENTRE O PERFIL E A CARTA O (supra)gênero carta é definido por Paredes Silva (1997, p. 121) como“uma unidade comunicativa” onde há a “concretização das estruturas deinformação sob uma organização típica, para uso em contextos específicos”.Este gênero está em circulação desde os primórdios das civilizações e, paraBazerman (2006, p.83), (...) com sua comunicação direta entre dois indivíduos dentro de uma relação específica em circunstâncias específicas (...) parece ser um meio flexível no qual muitas das funções, relações e práticas institucionais podem se desenvolver - tornado novos usos socialmente inteligíveis, enquanto permite que a forma de comunicação caminhe em novas direções. Em linhas gerais, a carta é uma unidade funcional utilizada em contextosonde haja a ausência de contato imediato entre emissor e destinatário. Apesarde esta apresentar determinadas marcas tais como cabeçalho/data, assinatura,e expressões para a saudação, fechamento e despedida, o seu corpo permiteuma diversidade de tipos textuais, conteúdos e propósitos comunicativos(PAREDES SILVA, 1997, p. 121). Deste modo, podemos ter uma tipologiadescritiva em uma carta promocional que anuncia um novo produto, ou umatipologia narrativa em uma carta pessoal. Há também a possibilidade de umamesma carta abrigar mais de uma tipologia, dependo dos propósitoscomunicativos e intenção do emissário.
  5. 5. No caso do perfil, ao buscarmos em que situações se faz necessáriauma apresentação em primeira pessoa do singular por meio de uma descrição,dois contextos com propósitos comunicativos um pouco diferentes emergem: acarta de apresentação formal que acompanha o Currículo Vitae e a carta deapresentação informal trocada entre estudantes de idiomas em paísesdiferentes, através de programas do tipo penpal, ou penfriend. Com relação às cartas de apresentação formal que acompanha umcurrículo, Bhatia (1993; 2004) afirma que estas pertencem a esfera do discursopromocional e são persuasivas por natureza, pois “almejam obter do leitor umadada resposta, neste caso uma convite para uma entrevista de emprego”(BHATIA, 1993, p.145). Por conseguinte, o propósito comunicativo, as escolhasléxico-gramaticais e os movimentos realizados têm por objetivo descrever eavaliar, de modo positivo, o autor da carta. Da mesma forma, o propósito do perfil é fornecer uma auto-descrição demodo a persuadir os outros membros do grupo a interagirem mais diretamentecom o autor, ou pelo menos, aceitarem as suas futuras contribuições no cursocomo válidas e pertinentes. Desta forma, o autor negocia o seu acesso àcomunidade discursiva na qual ele pretende ser aceito. Visto por este ângulo, há realmente um propósito comunicativo emcomum em ambos os gêneros. Contudo, a informalidade e a não-competitividade do contexto de produção do perfil faz com que o discurso nãoprecise ser necessariamente pontuado por um alto grau de adjetivação positivapara que os sujeitos sejam apreciados. Neste aspecto, o caráter informativo doperfil se aproxima do das cartas de apresentação informal entre penfriends. Segundo o site http://www.ehow.com/how_13423_write-first-letter.html,que oferece esse serviço, é recomendado que o escritor a) seja amistoso eeducado, b) partilhe informações sobre si mesmo que ele ache interessantespara os outros, c) diga quem é e o que faz, incluindo informações sobre idade,educação e carreira, d) mencione seus hobbies favoritos, animais deestimação, ou qualquer coisa que evoque um interesse partilhado com seunovo amigo, e) evite tópicos controversos, f) não sobrecarregue o leitor commuita informação, revelando-se aos pouco, f) faça perguntas que os outros
  6. 6. possam responder, e g) deixe sua personalidade mostrar-se pela escolha daspalavras e das descrições que usar. É interessante notar que este guia oferece pistas ao autor sobre comatingir seu propósito comunicativo, ou seja, estabelecer laços amistosos com odestinatário e persuadi-lo a levar a interação à diante, mantendo acorrespondência. Assim, é mencionada qual deve ser a escolha do tom dotexto (a) e o que é, ou não, apropriado realizar neste contexto de situação (b-g). Não obstante, assim como na carta de apresentação, o contexto deprodução da carta ao penfriend não é exatamente o mesmo do perfil queiremos analisar neste estudo, pois enquanto o primeiro envolve membros deculturas diferentes interagindo em um idioma que, muitas vezes não é o seu, ecom um propósito de propiciar uma prática lingüística, no segundoencontramos sujeitos que partilham o mesmo contexto cultural, ou seja, sãotodos brasileiros, envolvidos com diversas áreas da educação, e que desejamconstruir conhecimentos novos a partir das interações no AVA.4. QUESTÕES TEÓRICO-METODOLÓGICAS Segundo recomendação de Berkenkotter e Huckin (1995, p. 2), osgêneros devem ser estudados nos seus contextos sociais de uso real, cabendoao analista prestar atenção às formas pelas quais os usuários manipulam osgêneros para propósitos retóricos particulares. Portanto, a proposta destetrabalho, que se encontra na sua fase inicial, é responder a seguinte questão: Em que medida o discurso produzido em forma de perfil tem características que tornam possível descrevê-lo como um gênero emergente derivado do (supra) gênero carta? Para buscar responder a esta indagação, iniciamos o estudo peloarcabouço apresentado por Swales (1990), que sugere que a análise devedefinir categorias (movimentos) que reflitam os propósitos comunicativos notexto. Segundo Upton e Connor (2001, p. 317), as formas prototípicas dosgêneros podem ser geradas e estudadas a partir da análise dos movimentos,
  7. 7. definidos como unidades semântico-funcionais de textos que podem seridentificáveis a partir de seus propósitos comunicativos e de suas fronteiraslingüísticas. Assim, “estes movimentos descrevem as funções (ou intençõescomunicativas) que porções particulares do texto realizam em relação à tarefacomo um todo” (UPTON E CONNOR, 2001, p. 317). Porém, vale lembrar que os propósitos comunicativos não devem sertomados como “um método imediato ou rápido para separar discursos emcategorias genéricas”, mas sim como “resultados analíticos valiosos a longoprazo” (SWALES, 2004, p. 72), pois “muitos textos ou transcrições podem nãoestar fazendo aquilo que parecem, ou aquilo que tradicionalmente assumimosque estejam fazendo” (SWALES, 2004, p. 73), daí a necessidade de revisitar otermo “propósito comunicativo” para abarcar não somente a análise textual(estrutura, estilo, conteúdo e propósito), mas o contexto de produção e quem oproduz. Levando em conta a complexidade da análise sugerida por Swales(2004) e a pequena extensão deste artigo, por ora, concentraremos nossaanálise na identificação da existência, ou não, de marcas típicas do gênerocarta pessoal de apresentação (cabeçalho, saudação, fecho, despedida,assinatura). Porém, antes de iniciarmos uma análise propriamente dita dos gênerosvirtuais, Marcuschi (2005, p.26) recomenda que devemos observar osambientes, ou entornos virtuais, em que esses gêneros se situam. No caso do perfil, esclarecemos que a sua criação é feita clicando-se nonome do aluno, disponibilizado em uma lista no AVA, pois esse é um hyperlinkpara a tela onde aparecem a) uma caixa de texto na qual o perfil será digitado,b) o espaço para uma foto 3 x 4, e c) as instruções para que o autor fale umpouco sobre o seu trabalho, sua família, seus amigos, lugares interessantes, eo que gosta de fazer. Vale ressaltar que este espaço disponibiliza um editor de texto muitorudimentar, pois não permite alteração tipológica de nenhuma espécie (negrito,sublinhado, itálico, cores, tamanho e tipo de fonte). Estas alterações poderiamser utilizadas como recursos expressivos multimodais pelo autor para
  8. 8. personalizar o seu texto. A foto, recurso nem sempre usado pelo autor, é umsuporte visual que ajuda os participantes a terem uma imagem mais concretado interlocutor, especialmente na hora de estabelecer as interações dentro docurso, pois a abordagem é centrada no aluno.5. ANÁLISE DOS DADOS Para este artigo, analisamos dezoito perfis, sendo quatorze escritos pormulheres (77,8%) e quatro por homens (22,2%), matriculados em um curso adistância online de 60 horas de duração. Os participantes têm entre 21 a 62anos, sendo que a maioria está na faixa entre 30-40 anos e é composta depós-graduados.5.1 A Carta de apresentação pessoal e o perfil: elementos em comum Iniciamos esta subseção com uma descrição dos elementos textuaistípicos do (supra)gênero carta pessoal, a saber: cabeçalho/data, saudação(vocativo), fecho, despedida, assinatura, e a sua presença nos perfis aquiestudados. Sabemos que a função do cabeçalho é estabelecer a data e a cidadeonde o autor se encontra no momento da escrita. No caso do perfil, estasinformações se fazem conhecidas por outros meios. A data aparece assim queo perfil é preenchido e o local de onde se escreve será, ou não, revelado nocorpo do texto, pois, apesar de este ser um dado pedido nas instruções para opreenchimento do perfil, fica a cargo do autor seguir a sugestão ou não. O uso da saudação nas cartas é elemento obrigatório e é feito em linhadestacada, acima do corpo do texto. Sua função retórica é iniciar um diálogocom o leitor, pois ao mesmo tempo em que define quem é o destinatário, servede cumprimento àquele que lê, iniciando assim um turno que se encerra ao fimda carta. Geralmente, encontramos termos como caro sr. ou prezada sra. comosaudações mais formais e querido (filho, Pedro), meu (amor, netinho), olá,(Maria) como saudações informais. No corpus aqui estudado onze (61.2%)
  9. 9. escritores optaram por abrir o perfil com um cumprimento ao leitor, sendo queesta ocorrência só foi observada nos perfis escritos por mulheres. Nenhumhomem fez uso de saudação alguma, iniciando seu texto diretamente pelonome (perfis 3, 8, 9) ou data de nascimento (perfil 5). As fórmulas usadas são, na verdade, aquelas mais comuns no contextooral, oscilando entre um maior distanciamento entre interlocutores, como em“olá, colegas!”1 (perfil 13) e maior proximidade como em “Olá meninos emeninas” (perfil 1); “Olá pessoal,” (perfis 2, 18); “Olá!” (perfis 7, 10, 14); “Olá,”(perfis 4,11); “Oi, pessoal!” (perfil 12); “ Oi Gente!” (perfil 6); “Oi!” (perfil 17).Vale à pena notar que “Olá Pessoal,” (perfil 18); “Oi, pessoal!” (perfil 12) e“Olá!” (perfil 7) se encontram na primeira linha do corpo do texto e que oprimeiro exemplar tem uso de maiúscula em “pessoal”. Desta forma, o usodestas saudações não está de acordo com as regras formais de uma carta. Outro ponto é a escolha entre “oi” ou “olá”, seguidos por ponto deexclamação. Como nenhuma escolha lingüística é gratuita, percebe-se asaudação “olá” como menos intimista do que “oi”. Contudo, esta se torna maisenfática e alegre ao ser seguida por um ponto de exclamação, nos remetendoa uma situação de interação oral. Estas formas ajudam a estabelecer o tominformal do texto. Quando não há a saudação, esse estabelecimento de umvínculo com o leitor-alvo parece não ser tão explícito. Outros dois elementos ajudam a criar este vínculo. São eles o fecho e adespedida. O fecho tem como função retórica sinalizar para o leitor que oenunciado está chegando ao fim e a despedida sinaliza a partida doenunciador. No fecho, nas cartas informais, o enunciador pode expressar quenão há nada mais a ser dito por ele em várias expressões tais como “bem, éisso”, ou “já escrevi de mais”, além de expressar seu desejo de ter umaresposta em breve usando “escreva logo, tá” ou “mande notícias”, por exemplo.Para se despedir, pode usar expressões como um abraço, que é mais distante,ou beijos, que é mais próximo. No caso dos perfis, o fecho foi realizado em apenas seis (33,4 %) deles,sendo que a metade foi realizada por homens. Considerando que na amostra1 Nas transcrições apresentadas, mantivemos o uso de maiúsculas e pontuação conforme aparecem nosexemplares em análise.
  10. 10. temos quatro exemplares produzidos por membros do sexo masculino, éinteressante notar que 75% utilizaram este recurso, enquanto que somente14,2% das mulheres usaram o fecho nos seus perfis. Com relação a estes seisperfis, o movimento fecho + despedida foi encontrado na metade deles. Naverdade, só o perfil 1 apresentou ambos saudação e fecho, sendo esterealizado por uma mulher. O fechamento foi realizado de formas diversas. No caso de “Acreditoque é isso pessoal,” (perfil 1), o enunciador complementa o fechamento falandode suas expectativas com relação a interação no curso, usando o pronomes“nós” (possessivo de 1ª pessoal do plural) e “juntos’, demonstrando, assim,estar consciente da sua inserção ativa em uma comunidade colaborativa deaprendizagem. Observe: Acredito que é isso pessoal, espero que juntos possamos trocar e receber informações que servirão de alicerce para a construção e ampliação de nossos conhecimentos (perfil 1). Além disso, encontramos a despedida “um forte abraço a todos” quereitera a observação de que há leitores múltiplos (todos), não tão íntimos,endereçados pelo enunciador. Outro perfil onde este reconhecimento de leitores múltiplos ocorre é noperfil 8, onde o fecho diz: “Bom, estou a vossa disposição e meu MSN éxxxxx”2. O uso de vossa seria de causar estranheza, pois é um pronome muitoformal, se no próprio texto o enunciador não dissesse que mora no Brasil hápoucos anos. Apesar de a sua nacionalidade não ser revelada por ele,podemos inferir que talvez se trate de um falante de português europeu, poisneste o uso de tu e vós é mais comum do que no português brasileiro. Mesmoutilizando uma forma que não é comum no discurso informal, fica clara a suaintenção de se mostrar como alguém aberto a se corresponder com outrosmembros do grupo. Este fecho é seguido pela despedida “abraço a todos”,mostrando novamente que ele tem interlocutores múltiplos em mente.2 Endereço omitido propositadamente por nós para preservar a identidade do autor do perfil.
  11. 11. O perfil 9 também segue o movimento fecho + despedida para leitoresmúltiplos, usando o fecho como arremate do enunciado. Ele diz: “Bem,basicamente é isso” e se despede com “Saudações a todos”. No caso,“saudações” é um termo mais encontrado em contextos formais e podefuncionar tanto como vocativo quanto despedida e, portanto, distancia o leitordo enunciador. A noção clara de interlocutor não aparece no perfil 5, que usa ofechamento como uma conclusão, sendo esta a última linha do texto. Ele diz:“Bem, acredito que as informações acima ajudaram meus colegas a terem umanoção ainda que parca de mim”. O uso de “meus colegas” ao invés de “vocês”,por exemplo, passa a impressão de que ele não tomou os colegas comoleitores-alvo do seu texto e nem se inseriu no grupo, criando um maiordistanciamento. No caso do perfil 18 (“Acho que é só...”), o uso de reticências sinalizahesitação, e no perfil 16 (“E acho que é isso!”) a exclamação sinaliza que oenunciador é enfático quanto a sua colocação. Em ambos os casos não hádespedia. Com relação ao movimento despedida, além dos três já destacados, eletambém ocorre nos perfis 3 (“Um abraço e um bom curso a todos!”) e 14(“Abraço a todos. Um bom curso para todos nós”), onde não houve nemsaudações nem fechos, e no perfil 6 (“Um abraço e bom curso!”), onde sóhouve a saudação. No cômputo geral, notamos que três despedidas foramrealizadas por mulheres e duas por homens, sendo que a escolha léxico-gramatical de todos foi muito similar: enviar abraços e votos de bom curso. Istotalvez sinalize que os participantes tenham lido os perfis dos colegas antes deescreverem seus próprios, buscando descobrir como os outros membros dacomunidade estavam realizando essa tarefa comunicativa. Com relação a esta percepção, observamos que estes perfis forampreenchidos na seguinte ordem:
  12. 12. DATA PERFIL DESPEDIDA 04/04/2008 16:13:23 perfil 8 Abraço para todos 07/04/2008 07:11:47 perfil 3 Um abraço e um bom curso a todos! 08/04/2008 18:24:15 perfil 14 Abraço a todos. Um bom curso para todos nós. 11/04/2008 13:02:18 perfil 6 Um abraço e bom curso! 04/05/2008 17:36:13 perfil 1 Um forte abraço a todos Tabela 1: despedidasNota-se que o primeiro perfil só apresenta na despedida abraço, já o segundoexpande esta e deseja bom curso. O terceiro segue a mesma tônica, masorganiza a enunciação em dois períodos simples. O quarto e o quintoapresentam o movimento inverso, encurtando a informação apresentada,sendo que o perfil 6 ainda mantém os votos enquanto o último, escrito um mêsapós o início do curso, retoma a forma do primeiro perfil preenchido. Destaco ainda que os perfis 3 e 14 apresentam o pronome “todos”,indicando a consciência de leitores múltiplos. O enunciador do perfil 14 vaialém e se insere no grupo usando nós. O reforço dos votos é realizado nosperfis 3 e 6 por meio do ponto de exclamação. A assinatura na carta formal é feita uma linha abaixo do fim do corpo dotexto e serve para ratificar quem é o autor do texto. No caso dos perfis, este foio elemento menos utilizado, sendo identificado em apenas quatro exemplares,todos escritos por mulheres, nas seguintes combinações: Perfil 1: saudação/ fecho/ despedida/assinatura Perfil 6: saudação/despedida/ assinatura Perfil 10: saudação/assinatura Perfil14: saudação/ despedida/assinatura Apesar de seu uso pouco expressivo, nota-se que em todos os casos,quem optou por assinar fez uso de uma saudação. Porém, na maioria dosexemplares onde houve saudação, a assinatura não se faz presente.5.2 Considerações gerais sobre a análise Os exemplares analisados neste trabalho parecem indicar que não háum consenso por parte dos usuários sobre como o perfil deve ser apresentado
  13. 13. no que concerne os elementos de abertura e fecho, daí a presença dasdiferentes combinações dos movimentos obrigatórios no gênero carta, que foi oparâmetro para esta análise. Isto pode se dever ao fato de o perfil escrito emum AVA, como prática social, ser uma forma discursiva recente onde ascomunidades que fazem uso dele ainda estão buscando nos gêneros mais bemestabelecidos, como a carta de apresentação e, possivelmente, nasapresentações orais informais, uma forma de realizar os seus propósitoscomunicativos. O resultado é um texto que pode conter estes em maior oumenor escala, conforme ilustra a tabela 2. Número do PERFIL Elementos do gênero carta 1 Todos os 4 6, 14 3 dos 4 3, 8, 10 2 dos 4 2, 4, 5, 7, 9, 11, 12, 13, 15, 16, 17, 18 1 dos 4 Tabela 2: presença das aberturas, despedidas, fechos e assinaturas nos perfis Também é observável nas amostras uma flexibilidade com relação àapresentação formal, especialmente no que concernem as regras depontuação e paragrafação. Notamos em alguns exemplares a falta de pontofinal nos enunciados aqui destacados (perfis1, 8, 10), o uso de letra maiúsculade forma não usual (perfil 15) e a saudação junto ao corpo do texto (perfis7,12, 15), o que pode indicar que neste gênero não há uma preocupação emdemonstrar um domínio formal da língua materna para que o sujeito sejaapreciado pela comunidade a qual deseja pertencer. Destacamos ainda o fato de todas as saudações observadas terem sidoescritas por mulheres, o que é um dado interessante, e que, no nossoentender, talvez tenha algum tipo de relação com a natureza mais emocionalda mulher. Também é interessante o fato de que, apesar de os homens nãofazerem uso das saudações, a maioria faz uso de fechamento, enquanto asmulheres não. Estas evidências podem ser melhor analisadas se relacionadas
  14. 14. aos estudos do discurso ligados à questão da representação da voz masculina/feminina, e a representação do self, o que é inviável neste pequeno artigo.6. CONSIDERAÇÕES FINAIS E ENCAMINHAMENTOS FUTUROS A análise ora apresentada representa, apenas, a fase inicial da tentativade caracteriza o perfil como gênero. Destacamos que, segundo o modelo deSwales (1990), identificar os propósitos comunicativos e os movimentosretóricos realizados não é o suficiente para a determinação de um gênero. Hátambém de se cuidar das realizações léxico-gramaticais típicas destesmovimentos, pois, dentro da visão de gênero aqui apresentada, estas escolhasestão diretamente ligadas ao sucesso ou fracasso do exemplar em atender asexpectativas da comunidade discursiva, do contexto de produção e dos seuspropósitos comunicativos. Deixamos registrado, porém, que a próxima fase de análise já seencontra em andamento, tendo por objetivo observar os movimentos retóricosem cada um dos exemplares bem como as ocorrências léxico-gramaticaisrecorrentes. Contudo, devido ao escopo deste artigo, as considerações acerca de osdemais aspectos observados serão alvo de escritas futuras.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASBAKHTIN, M. (1979). Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes,2003.BERKENKOTTER, C; HUCKIN, T. Suffer the little children: learning thecurriculum genres of school and university. In: Berkenkotter, C; Huckin,T.:Genre knowledge in disciplinary communication: cognition/culture/power.Hillsdale, N.J.: Lawrence Erlbaum, 1995. p.151-163.BHATIA, V.K. Description to explanation in English for professionalcommunication-application of genre analysis. In: Boswood, T., Hoffman, R. andTung, P., (eds.) Perspectives on English for professional communication, CityPolytechnic of Hong Kong: Hong Kong, 1993. p.133-157.
  15. 15. BHATIA, V.K. Worlds of written discourse: a genre-based view. London:Continuum, 2004. p.115-133.CAMPOS, F. C. A.; SANTORO, F. M.; BORGES, M. R. S.; SANTOS, N.Cooperação e aprendizagem online. Rio de Janeiro: DPeA Editora, 2003.FREEDMAN, A.; MEADWAY, P. Locating Genre Studies: Antecedents andProspects. In: FREEDMAN, A.; MEADWAY, P.(eds). Genre and the NewRhetoric. London: Taylor & Francis, 1994. p.1-22.HYON, S. Genre in three traditions: implications for ESL. TESOL Quarterly, 30:4, p. 693-722, 1996.JOHNS, A. M. Introduction: Genre in the classroom. In: JOHNS, A. M. (ed).Genre in the classroom: Multiple Perspectives. Mahawah, N.J: LawrenceErlbaum, 2002. p. 3-13.JONÁSSON, J. On-line distance education - a feasible choice in teachereducation in Iceland? M. Phil. thesis, University of Strathclyde, 2001. Disponívelem http://starfsfolk.khi.is/jonj/en/skrif/mphil/thesis.pdf e acessado em 20 dejunho de 2009.MAINGUENEAU, Dominique. Termos-chave da análise do discurso. Trad.Márcio Venício Barbosa e Maria Emília Amarante Torres Lima. Belo Horizonte:Editora UFMG, 1998.MARCUSCHI, L. Gêneros textuais emergentes no contexto da tecnologiadigital. In: MARCUSCHI, L A.; XAVIER, A. C. (orgs.) Hipertexto e gênerosdigitais. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005.MARTIN, J. R.; WHITE, P. R. R. The Language of Evaluation: Appraisal inEnglish. London: Palgrave, 2005.MOTTA-ROTH, D. Questões metodológicas em análise de gêneros. In:Karwoski, A.M; Gaydeczka, B; Britto, K.S (orgs) Gêneros textuais:reflexões eensino, 2ª ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2006. p.179-202.PAREDES SILVA,V. L. P. Variações tipológicas no gênero textual carta. In:KOCH, I. V.; BARROS, K. S. M. de (orgs.) Tópicos em lingüística de texto eanálise de conversação. Natal: EDUFRN,1997. p.118-124.SWALES, J. M. Genre Analysis: English in Academic and Research Settings.Cambridge: CUP, 1990.SWALES, J. M. Research genres: exploration and applications. Cambridge:CUP, 2004.
  16. 16. UPTON, T. A.; CONNOR, U. Using computerized corpus analysis to investigatethe linguistic discourse moves of a genre. English for Specific Purposes. 20:4,p. 313-329, 2001.Sobre a autoraDoris de Almeida Soares é Doutora em Estudos da Linguagem (PUC-Rio) eProfessora Assistente de Língua Inglesa no Centro de Ciências Sociais daEscola Naval, onde também atua no curso de inglês on-line oferecido por essainstituição. Com Mestrado em Interdisciplinar de Lingüística Aplicada (UFRJ), éautora do livro Produção e Revisão Textual: Um guia para professores deportuguês e de língua estrangeira (Ed. Vozes, 2009). É também pesquisadoraexterna do Projeto LingNet.

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