Fichamento - Roberta Brandalise

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FICHAMENTO: BRANDALISE, Roberta. A Televisão Brasileira nas Fronteiras do Brasil com o Paraguai, a Argentina e o Uruguai: um estudo sobre como as Representações Televisivas participam da articulação das Identidades Culturais no cotidiano fronteiriço. Universidade de São Paulo, 2011.
PROFESSOR: Professor Doutor Paulo Celso da Silva
ALUNO: Luiz Guilherme Leite Amaral. E-mail: luiz.amaral.mestrado@gmail.com

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Fichamento - Roberta Brandalise

  1. 1.   1   UNIVERSIDADE DE SOROCABA PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTU SENSU MESTRADO EM COMUNICAÇÃO E CULTURA FICHAMENTO: BRANDALISE, Roberta. A Televisão Brasileira nas Fronteiras do Brasil com o Paraguai, a Argentina e o Uruguai: um estudo sobre como as Representações Televisivas participam da articulação das Identidades Culturais no cotidiano fronteiriço. Universidade de São Paulo, 2011. PROFESSOR: Professor Doutor Paulo Celso da Silva ALUNO: Luiz Guilherme Leite Amaral. E-mail: luiz.amaral.mestrado@gmail.com p. 16 Há dez anos, quando surgiu a oportunidade para contribuir para o campo da Comunicação por meio do trabalho de pesquisa, entramos em contato com as obras de teóricos contemporâneos da Comunicação – dos Estudos Culturais Britânicos e Latinos, como Stuart Hall e Jesús Martin-Barbero. A partir destas leituras, aprendemos a atribuir sentido para a diversidade cultural registrada em nossas memórias e decidimos estudar a participação dos meios de comunicação de massa, tal como a televisão, no contexto fronteiriço. p. 16-17 No esforço de compreender os processos de comunicação existentes nas fronteiras, plasmados em meio a processos culturais e sociais mais abrangentes, seguimos a mesma orientação teórico-metodológica dos Estudos Culturais Britânicos e Latinos, enriquecida pelo nosso envolvimento com o ensino de Antropologia Cultural. p. 17 Essa perspectiva foi fundamental para “situar-nos” (Geertz, 1978) nesses contextos específicos, a fim de identificar as estruturas de
  2. 2.   2   significado em curso e suas bases sociais de importância por meio de uma “descrição densa” (Geertz, 1978). Do mesmo modo como a noção de “interpretação das culturas” de Geertz (1978) nos iluminou, também a teoria de Lévi-Strauss (1970) sobre a “colaboração das culturas” teimou em se fazer presente ao longo da pesquisa. p. 17 O objetivo geral desta pesquisa é aprender sobre o modo como a televisão brasileira participa da articulação das identidades culturais no cotidiano fronteiriço, estudando os casos de Ciudad del Este (Paraguai)-Foz do Iguaçu (Brasil), Paso de Los Libres (Argentina)- Uruguaiana (Brasil) e Rivera (Uruguai)-Santana do Livramento (Brasil). p. 18 Compreendemos que a proposta contemporânea de Jesús Martin- Barbero para estudar o objeto da comunicação por meio das “mediações culturais” (Martín-Barbero, 2001), bem como a abordagem contemporânea de Stuart Hall sobre o estudo das “identidades culturais” (Hall, 1999), são convergentes com a perspectiva antropológica, uma vez que ela também considera o universo simbólico indissociável da prática social, operando no sentido de dissolver a separação dessas instâncias para focalizar sua inter-relação dinâmica. p. 18 Elas não reduzem, portanto, os intrincados interesses e conflitos de diferentes grupos ou categorias sociais, ou mesmo a participação da televisão dentro desses contextos, a uma explicação unívoca, seja ela econômica, política ou de outra natureza, mas incorporam todos esses aspectos à análise, na medida em que são relevantes para compreender o objeto de estudo. p. 18 Conforme Lopes (2002), a pesquisa qualitativa é o laboratório das Ciências Humanas. Nesse tipo de trabalho não sabemos quantas pessoas procedem de determinada forma, mas sabemos que tal
  3. 3.   3   procedimento existe. p. 153 Os brasileiros utilizaram a memória da vivência no campo para distinguir o modo de vida rural do da urbana, sem no entanto considerar um deles superior ao outro. Apenas estabeleceram relações de identidade e diferença, por exemplo quando especificaram que na vida do campo era mais fácil reunir a família, sem todavia esquecer que ela também era mais sofrida, se comparada com a que ocorre na cidade. p. 154 Já́ para os paraguaios o universo simbólico relativo à ruralidade tem a ver com a manutenção das tradições guaranis de cultivo da terra e aciona a identidade nacional, uma vez que a vida no campo representa um espaço de luta contra os estrangeiros ali estabelecidos. A interferência estrangeira mais recente no meio rural paraguaio é exercida por brasileiros. E é por isso que eles podem ser representados pelos paraguaios como “imperialistas”, aqueles contra quem é preciso proteger-se para não subsumir, o que determina o acionamento da identidade nacional. Nesse sentido, para os paraguaios a ruralidade constitui um universo simbólico que configura um afastamento em relação aos brasileiros, havendo a necessidade de se sublinhar os limites. Porém, também é possível perceber a identificação de paraguaios em relação aos brasileiros, uma vez que estes também podem representar para aqueles os “irmãos latinos” – nesse caso, é a solidariedade latina que alimenta o uso do termo. p. 155 Os brasileiros não utilizam essa representação televisiva porque não se sentem ameaçados pelos paraguaios; suas preocupações giram em torno de outros aspectos como a mecanização da produção agrícola e as relações entre o rural e o urbano. Já́ os paraguaios apropriam-se da representação televisiva em torno da questão das disputas de terras
  4. 4.   4   para posicionarem-se em relação ao ponto de vista brasileiro. Eles utilizam o discurso televisivo porque se sentem ameaçados pelos brasileiros dentro de seu próprio território e, dessa forma, a televisão acaba participando do jogo entre as identidades culturais naquele contexto. p. 168-169 Este contexto de diversidade étnica em que paraguaios e brasileiros estão imersos medeia o modo como os entrevistados se apropriam do discurso televisivo. Primeiro, reconhecendo que as representações televisivas não dão conta da complexidade e heterogeneidade que experimentam cotidianamente na fronteira. Segundo, vendo nas narrativas ficcionais brasileiras pouca representação da diversidade étnica, mesmo em se tratando da diversidade da própria sociedade brasileira – isso chama a atenção de brasileiros e paraguaios, ainda que façam usos diferentes dela. No caso dos brasileiros, a diversidade étnica representada na novela é utilizada para reiterar a relação de alteridade entre os descendentes de imigrantes europeus da fronteira e os descendentes de africanos, também brasileiros. No caso dos paraguaios, a telenovela foi utilizada como forma de aprendizado informal acerca da história do Brasil. E, terceiro, o fato de os paraguaios se sentirem representados quando os guaranis são incluídos na narrativa tele jornalística, ao passo que os brasileiros sequer mencionam o tema, demonstra que os usos e apropriações das representações televisivas depende do jogo identitário em que os consumidores estão imersos. p. 180 Embora as apropriações e usos do discurso televisivo variem em diferentes situações entre paraguaios e brasileiros, os entrevistados de ambas as nacionalidades entendem que as representações televisivas não são inverdades. Contudo, compreendemos que a reiteração dessa lógica na formação discursiva da televisão brasileira
  5. 5.   5   sobre a fronteira e o Paraguai é muitas vezes pouco contextualizada e, no jogo identitário, parece participar negativamente da conformação da autoestima do povo paraguaio e reforçar, no imaginário social brasileiro, um estereótipo negativo em relação aos paraguaios. Ressaltamos ainda que o estilo de vida brasileiro retratado nas narrativas ficcionais brasileiras, consumidas pelos paraguaios, reforçam a representação de que seus vizinhos de território tem mais poder aquisitivo do que eles e povoam o imaginário de paraguaios que almejam a distinção social – que muitas vezes a buscam por meio do consumo de mercadorias na cidade brasileira, participando assim do espelhamento constante do jogo identitário fronteiriço. p. 214 O cenário político contemporâneo, no entanto, ainda não tem colaborado para reforçar a identidade nacional. Pelo contrário, a figura do atual presidente da república, que simbolizava a “esperança” (Lúcia, 45; Gonzalo, 38; Augusto, 47), passou a representar a “traição” (Augusto, 47) de valores nacionais – como os valores familiares e os religiosos partilhados na cultura paraguaia. Contudo, ainda há “esperança” de que o presidente anti-herói “compense” (Mário, 22) a “dor que causou” (José, 56), trabalhando pelo bem-estar nacional, como de fato tem tentado fazer ao batalhar a renegociação do acordo que envolve a Usina de Itaipu, em benefício dos paraguaios. p. 215 No imaginário social brasileiro, os paraguaios estão associados à desonestidade, sobretudo pela fama de “falsificadores”. O estereótipo foi construído historicamente, é reproduzido em larga escala na televisão brasileira (como no programa de humor que analisamos) e participa da construção da identidade que os brasileiros atribuem aos
  6. 6.   6   paraguaios. Isso também certamente não corrobora para o reforço da identidade nacional paraguaia, bem como do da identidade fronteiriça, uma vez que afeta negativamente a autoestima do povo paraguaio e, muitas vezes, no cotidiano fronteiriço, alimenta relações de preconceito do brasileiro em relação ao paraguaio, tal como desenvolveremos mais adiante. p. 226 De modo geral, brasileiros e paraguaios resistem às representações televisivas brasileiras que retratam constantemente a região ou o Paraguai como um espaço em que “as leis não parecem valer” (conforme o paraguaio Gonzalo, 38) ou como “uma zona de operações ilegais, bastante contrabando e até tráfico de drogas, de armas (...)” (conforme o brasileiro Adilson, 58), que “sempre aparece quando alguém tem que fugir do país” (Paula, brasileira, 26) e “aparece como sinônimo de falso, desonesto” (Diego, brasileiro, 23) ou “lugar de crime, de criminoso” (Mayara, paraguaia, 37). p. 253 Compreendemos que essas narrativas televisivas participam do jogo identitário fronteiriço da seguinte forma. Há mais de duas décadas, as representações televisivas vêm reiterando um estereótipo que, na verdade, foi construído anteriormente, uma vez que, como vimos, fazem parte da identidade fronteiriça as relações comerciais que podem ser caracterizadas como de contrabando, embora os próprios fronteiriços repudiem essa atividade quando realizada em larga escala e para benefício de estranhos ou não fronteiriços. O que acontece é que, apesar de ocorrerem outras referências a respeito do Paraguai ou da região fronteiriça nas narrativas televisivas, as relacionadas à ilegalidade são mais frequentes e os crimes retratados têm se tornado cada vez mais graves. E ainda assim, quando surgem outras representações, poucas delas contam algo de positivo sobre o
  7. 7.   7   povo ou a região – são ressaltados os aspectos negativos – e elas dificilmente saem do plano do estereótipo. p. 253-254 Por fim, compreendemos ainda que as representações televisivas que envolvem atividades ilegais não colaboram para o reforço da identidade fronteiriça porque é comum serem utilizadas para alimentar relações preconceituosas e estigmatizantes, dos brasileiros em relação aos paraguaios. Ainda assim, observamos que mesmo nessas situações, a solidariedade fronteiriça não chega a desaparecer, permanece o interesse comum de cultivar a identidade regional associada a sentidos positivos. Até porque, os mesmos brasileiros fronteiriços que, por vezes, atribuem aos paraguaios o sentido de desonestidade, temem que eles mesmos sejam caracterizados dessa forma pelo restante do povo brasileiro, simplesmente, pelo fato de viverem na fronteira Ciudad del Este-Foz do Iguaçu. p. 265 É relevante apontar ainda que embora sejam diversas as apropriações e usos da ficção televisiva seriada brasileira no contexto fronteiriço, o consumo comum da telenovela gera sociabilidade entre paraguaios e brasileiros, é pauta de diálogos no cotidiano e participa da memória coletiva dos fronteiriços. Nesse sentido, podemos dizer que a telenovela brasileira aproxima paraguaios e brasileiros, exceto quando ela constrói sua narrativa utilizando estereótipos negativos sobre os paraguaios. p. 324 Embora ao longo de nosso trabalho de campo não tenham surgido informações sobre práticas semelhantes por parte do exército brasileiro em Uruguaiana, é importante apontar que, por estar localizada numa fronteira quase que equidistante de Porto Alegre, Buenos Aires, Montevideo e Assunción, desde a sua fundação a
  8. 8.   8   cidade foi planejada para servir ao Brasil como um ponto estratégico comercial e militar. Para servir a fins militares, por exemplo, quase que todas as suas ruas foram construídas de modo retilíneo e são largas como se fossem avenidas – a fim de permitirem a passagem de tanques de guerra se necessário, tal como levantamos em nossos estudos anteriores (2002 e 2006) –, bem como as quadras da região urbana da cidade são padronizadas em suas medidas, com 110 metros quadrados. Interessante é que a cidade fundada pelos farroupilhas foi planejada desse modo ainda no século XIX, sendo a primeira do Brasil a ser projetada com essas características. p. 235 De acordo com o que compreendemos, essas representações televisivas colaboram para gerar distanciamentos que perpassam as relações argentino-brasileiras nessa fronteira em todas as suas dimensões, inclusive em relação aos aspectos que abordamos nesse estudo. Por outro lado, os fronteiriços apontaram como positiva a representação das relações entre brasileiros e argentinos nas narrativas ficcionais brasileiras. Tal como compreendemos, principalmente por meio da caracterização positiva do povo argentino ou da Argentina, as narrativas ficcionais colaboram para gerar aproximações nas relações sociais cotidianas inter-fronteiriças. p. 236 Entre os inúmeros exemplos mencionados pela nossa amostra, nos quais a televisão brasileira sublinha a rivalidade entre o Brasil e a Argentina, abordaremos as disputas políticas e econômicas entre esses países, especialmente retratadas nas narrativas noticiosas sobre os desacordos do Mercosul. Apontaremos também exceções do telejornalismo brasileiro a esse tipo de representação. Trataremos ainda de representações televisivas em que essa rixa é construída a partir do futebol. E apresentaremos exemplos em que essa rivalidade
  9. 9.   9   é explorada na propaganda de televisão. p. 338 Os argentinos apontaram ainda que a rivalidade pode ser “saudável” para os negócios em alguma medida, mas que no caso das relações argentino- brasileiras “mais prejudica do que ajuda”, principalmente esse tipo de “golpe” que um país desfere no outro, e essa rivalidade entre brasileiros e argentinos também foi caracterizada como uma “irracionalidade”. p. 339 É válido registrar ainda que, uma década depois de iniciarmos nossos estudos na fronteira Uruguaiana-Paso de los Libres, compreendemos que a participação das narrativas noticiosas da televisão brasileira no cotidiano fronteiriço ainda ocorre preponderantemente por meio da construção de representações em que o Brasil e a Argentina estão em lados opostos de interesse. No retrato das relações econômicas e políticas entre esses dois países, e especialmente das contendas em torno do Mercosul, essas narrativas ainda sublinham a rivalidade entre brasileiros e argentinos, caracterizando-os como adversários e, com isso, ainda colaboram para o reforço das identidades nacionais no cotidiano fronteiriço, em detrimento da identidade regional ou fronteiriça. Evidentemente, as notícias das disputas comerciais entre Brasil e Argentina, entranhadas da ideia de competição ou de conflito, são fundadas na realidade. p. 351 A colaboração entre brasileiros e argentinos com respeito ao carnaval é algo que já se mostrava relevante na pesquisa que realizamos em 2006, quando tivemos a oportunidade de entrevistar uma família brasileira de afrodescendentes que, na ocasião, morava em Paso de los Libres em decorrência de seu envolvimento com a concretização do carnaval libreño. Essa família nos contou que enfrentava
  10. 10.   10   preconceito racial em seu cotidiano na cidade argentina, assim como ocorria na cidade brasileira, mas nos levou a entender que o racismo não se manifestava no meio carnavalesco da cidade, por razão das contribuições que eles traziam para a festa argentina. Compreendemos, portanto, que o carnaval não anula as diferenças entre brasileiros e argentinos ou o preconceito racial entre brancos e não brancos, mas mesmo assim, ao ser partilhado pelos fronteiriços, gera identificação entre eles. p. 362 Ao sublinhar a rivalidade entre brasileiros e argentinos no âmbito do futebol – caracterizando Pelé e Maradona como adversários, satirizando Maradona , ou de alguma outra forma –, a televisão brasileira participa do jogo identitário fronteiriço colaborando para o reforço das identidades nacionais, em detrimento de outras formas de identificação. Além disso, essas narrativas de gênero noticioso, humorístico ou outros, tanto quanto os próprios jogos de futebol entre argentinos e brasileiros, medeiam as relações sociais cotidianas nessa fronteira reforçando o sentido de rivalidade. Isso colabora para afastar os fronteiriços ou para imprimir às relações entre eles um caráter de conflito que se manifesta de diversas formas: agressões físicas, agressões verbais de cunho racista, extorsão por parte de autoridades, entre outras. p. 367-368 A partir das colaborações de nossa amostra compreendemos que eles mesmos entendem que essas propagandas são construídas com base na caracterização constante dos brasileiros e dos argentinos como rivais no imaginário social argentino e brasileiro. Compreendemos também que essas propagandas, tal com outras representações televisivas que sublinham essa rivalidade, participam do jogo identitário fronteiriço reforçando as identidades nacionais em
  11. 11.   11   detrimento de outras formas de identificação. Depreendemos também que, especialmente quando essas representações se constroem fazendo uso da figura de Maradona, considerado um símbolo da nação argentina, elas colaboram para gerar o afastamento entre os brasileiros e argentinos que vivem nessa fronteira, ou para imprimir às relações entre eles um caráter de conflito.(…) Por outro lado, essa mesma observação e os próprios entrevistados também nos fornecem elementos para compreendermos que essa realidade entranhada de rivalidade se configurou historicamente com a participação, dentre outros fatores, da ação dos Estados nacionais, do futebol e dos próprios meios de comunicação de massa que reafirmam constantemente essa caracterização. p. 536 Compreendemos que a narrativa televisiva participa da memória da família uruguaia e as produções de sentido construídas a partir da representação televisiva são positivas, uma vez que o país é caracterizado como o lugar de onde um tesouro foi roubado. Os termos “diamantes” e “tesouro” associam o Uruguai ao sentido de riqueza e a narrativa se desenvolve em torno de uma caça ao tesouro, relacionando o país à ideia de aventura. p. 537 (...) o Uruguai foi mencionado na narrativa como o destino de um fugitivo, o que nos remete imediatamente ao estudo de caso Paraguai-Brasil e à caracterização daquela fronteira como o rumo a ser seguido pelos criminosos foragidos. (...) a apropriação da narrativa ocorreu no sentido de associar o Uruguai novamente aos “diamantes”. p. 537 (...) o Uruguai é pouco retratado na televisão brasileira e, diante da recuperação da memória da representação do país em O Mapa da Mina (associada aos “diamantes”), a entrevista citou outra narrativa
  12. 12.   12   na qual o “Uruguai” e os “diamantes” fazem parte do enredo. p. 540 Compreendemos que, com esta passagem, a narrativa colabora para construir o sentido de que, tantos as disputas de fronteira e as competições comerciais, quanto as alianças entre brasileiros e uruguaios, são recorrentes nas relações entre os dois povos. p. 541-542 Assim, compreendemos que na formação discursiva da narrativa o povo de origem hispânica é visto como “escória”. Acreditamos que essas representações são construídas desde os discursos fundadores dos países, sob influência das matrizes coloniais ibéricas que disputavam entre si o domínio deste território. p. 548 (...) “a tradição do gaúcho é nossa também porque demorou muito para se acertar as fronteiras na campanha, os uruguaios dizem que lá é que surgiu o gauchismo, mas a verdade é que o Rio Grande do Sul tem muita mescla com os castelhanos, como na família do Bento Gonçalves. Mesmo assim, eu entendo que a amizade com eles era vista como tradição mesmo, ainda hoje se vê um pouco disso”. p. 548 O meu marido fez muitos negócios com brasileiros, mas sempre ficava alerta para que não se aproveitassem e eles também pareciam ter a mesma preocupação. p. 549 (...) nós já fizemos parte do Brasil, somos amigos dos brasileiros mas tivemos que lutar pela nossa independência e ainda hoje de outras formas estamos ligados e dependemos um do outro, mas nem sempre somos tratados como irmãos. p. 549 Percebemos que a perspectiva histórica, representada em alguma medida na narrativa, participa da desconstrução do estereótipo de que o Uruguai é o país amigo e de que essa é a fronteira da paz. p. 550 (...) ao longo destes estudo havíamos identificado outras ocasiões nas quais as produções de sentido dos entrevistados contradisseram o estereótipo.
  13. 13.   13   p. 551 Na família brasileira, a narrativa colaborou para produzir sentidos em torno da formação étnica da fronteira. p. 552 Célio estabelece que o “gauchismo” ou a “tradição do gaúcho” é cultura comum no Uruguai e no Rio Grande do Sul. Entretanto, apesar de produzir sentidos que reforçam a identidade fronteiriça, ao enfatizar que a cultura gaúcha é partilhada por uruguaios e brasileiros, ele utiliza a narrativa para ressaltar que “mesmo assim, eu entendo que a amizade com eles era vista como traição”, referindo-se ao modo como os gaúchos ou “rio-grandenses” representados na minissérie atribuíram a Bento Gonçalves o epíteto de traidor. p. 553 (...) trampitas são mentiras ou delitos que os fronteiriços comumente cometem para utilizar as instituições brasileiras e uruguaias a seu favor, como por exemplo, nascer em um país e se registrar em outro, mentir que mora do lado brasileiro da fronteira para poder trabalhar em Santana do Livramento, obter aposentadoria nos dois países, ou ainda, casar de um lado da fronteira e permanecer solteiro do outro a fim de continuar a usufruir algum tipo de pensão. p. 554 Ao se apropriar da Narrativa, uma das entrevistadas uruguaias produz sentidos sobre a formação étnica da região fronteiriça e sobre a relação com o meio rural. Suzana afirma que “o que nos une é o mesmo que nos separa”, ou seja, o que aproxima brasileiros e uruguaios é o sentimento de pertença ao mesmo grupo étnico (“somos todos gaúchos”), assim como o modo de vida regional que ainda tem muito a ver com a produção rural (“vivemos muito do campo”). p. 554 Ao se apropriar da narrativa, a uruguaia Emília primeiro reproduz o sentido do estereótipo de amizade que circula na fronteira. Ao dizer “somos todos amigos dos brasileiros”, ela caracteriza que as relações entre uruguaios e brasileiros são positivas. (...) Apesar de Emília
  14. 14.   14   considerar que os dois países “dependem” ou estão “ligados” um ao outro, mesmo na atualidade ou “ainda hoje”, ela descontrói o estereótipo de amizade ao pontuar “mas nem sempre somos tratados como irmãos”. p. 556-557 A partir de suas apropriações da narrativa, a uruguaia Vanessa produz sentidos sobre a formação étnica da região. Ela se refere aos imigrantes mais recentes como “outros povos” ou “eles”, destacando que os recém-chegados “não tomam mate” e “nem apreciam a lida no campo e os animais”. p. 557 (...) a mesma entrevistada uruguaia pondera que “já teve muito derramamento de sangue para chegarmos à paz”, indicando um passado de desentendimento, guerra e morte – como evidencia o uso do termo “sangue”, em oposição à atualidade em que impera a concórdia e a “paz”, que é congruente com o estereótipo que identificamos circulando na fronteira. Porém, em seguida, ela mesma desconstrói, em alguma medida, o sentido de paz ao dizer “mas se você ver bem, ainda temos brigas e ciúmes”. p. 558 Logo no início de nosso trabalho de campo, nos demos conta que os brasileiros e os uruguaios que vivem na região da divisa atribuem ao Uruguai a conotação de país amigo e a essa região o epíteto de fronteia da paz. Esses sentidos circulam na região configurando um estereótipo positivo a partir do qual os fronteiriços comumente constroem suas representações acerca das relações entre uruguaios e brasileiros. Identificamos que a configuração do estereótipo está associada ao discurso fundador do Uruguai como nação independente, em 1828, quando foi associado ao sentido de diplomacia ou visto como ponto de estabilidade entre Argentina e Brasil, sendo inclusive caracterizado como um “algodão entre cristais” por um dos mediadores britânicos que participou das
  15. 15.   15   negociações que levaram à independência do país. p. 559 Desse modo, entendemos que apesar de recentemente circularem por essa fronteira as caracterizações de amizade e paz, configuradas de modo estereotipado, a rivalidade entre uruguaios e brasileiros, fundada discursivamente ainda no período colonial, segue fazendo parte no imaginário fronteiriço. E assim, as apropriações, e usos da narrativa ficcional brasileira participam do jogo identitário fronteiriço reforçando, por um lado, a ideia de que a formação étnica regional é semelhante, bem como os costumes e modos de produção adotados, e por outro, gerando uma reavaliação do sentido de cordialidade ou de relações pacíficas entre uruguaios e brasileiros, uma vez que a amostra utiliza a minissérie para ressaltar os conflitos ou disputas existentes entre os dois povos. Com isso, os entrevistados sublinham os limites nacionais e dão pistas de que a solidariedade implicada na identidade fronteiriça cede espaço para afastamentos ou desconfiança, principalmente no âmbito da produção e comercialização de bens de consumo primários, um tema bastante relevante para os fronteiriços. p. 561 Acreditamos que com esse trabalho conseguimos também tratar de temas relevantes, sobretudo para os argentinos, os brasileiros, os paraguaios e os uruguaios que vivem em regiões de fronteira e que consomem a televisão brasileira cotidianamente, uma vez que nos propusemos a conhecer a sua realidade e a pluralidade de vozes que a constitui, confrontando as representações televisivas que eles mesmos consideraram pertinentes, com suas próprias representações sociais acerca dessa mesma realidade. (…)as narrativas televisivas brasileiras medeiam as relações sociais entre argentinos e brasileiros, paraguaios e brasileiros, e entre uruguaios e brasileiros, bem como
  16. 16.   16   participam do jogo identitário que se desenvolve entre eles. p. 562 Quanto mais mergulhamos no jogo entre as identidades culturais que se desenvolvem nessas fronteiras, mais o consideramos situacional. Demonstramos ao longo desse estudo que, dependendo das representações construídas em suas narrativas, e das apropriações e usos que os fronteiriços fazem delas, a televisão brasileira colabora para imprimir às relações entre eles um caráter de identificação ou de alteridade, ora sublinhando as identidades nacionais, ora reforçando a identidade regional ou fronteiriça. p. 562 Considerando sempre quais são as representações construídas em suas narrativas e quais são as apropriações e usos que os fronteiriços fazem delas, demonstramos também que a televisão brasileira colabora para aumentar ou diminuir a sociabilidade inter-fronteiriça, por vezes contribuindo para imprimir a essas relações um caráter de aproximação ou de distanciamento, e em alguns casos, cooperando para imprimir a elas um caráter de solidariedade ou de conflito. p. 562 Nesse sentido, destacamos que no caso da fronteira Paraguai-Brasil, a televisão brasileira associa preponderantemente o Paraguai, os paraguaios ou a região de fronteira que estudamos à falsificação, ao contrabando, ao roubo, à fraude, à fuga de suspeitos e ao tráfico. p. 563 Entre as representações menos frequentes no telejornalismo constam uma reportagem e uma nota, nas quais os paraguaios se reconhecem a partir da identidade guarani, e que retratam uma reunião de índios guaranis de vários países, realizada para discutir a preservação de suas áreas de terra; duas nas quais o paraguaio sem-terra é considerado um invasor ou uma ameaça para o brasileiro proprietário de terras no Paraguai; uma em que os paraguaios são associados à
  17. 17.   17   pobreza; e outras que tem a ver com o futebol e com as relações políticas e econômicas entre o Paraguai e o Brasil – e mesmo nesses casos encontramos algumas representações negativas do Paraguai, dos paraguaios ou dessa fronteira. p. 563 No caso da fronteira Argentina-Brasil, destacamos que com respeito às relações argentino-brasileiras no âmbito político e econômico, e especialmente em torno do Mercosul, bem como na seara do futebol, e particularmente em torno das figuras de Pelé e Maradona, a televisão brasileira caracteriza essas vinculações preponderantemente como de rivalidade e o argentino é representado como concorrente ou adversário do brasileiro. Isso ocorre em propagandas, em um programa de humor e, principalmente, nas narrativas de gênero noticioso que estudamos. p. 563-564 Já as narrativas ficcionais que estudamos não só distanciam-se do sentido de rivalidade constantemente atribuído às relações entre argentinos e brasileiros e da caracterização do argentino tal qual um adversário, como associam o povo argentino e seu país ao alto nível cultural, à sofisticação e ao requinte, especialmente no que concerne à mulher argentina, e apresentam ainda a Argentina como um destino turístico proeminente. p. 564 No caso da fronteira Uruguai-Brasil, destacamos que para nossa amostra, a televisão brasileira retrata preponderantemente o Uruguai como um “país amigo”, essa fronteira como a “fronteira da paz”, e as relações uruguaio- brasileiras como “boas”. Nesse sentido, entre outras matérias que estudamos, destacaram-se as de um programa de jornalismo temático que retratou o Uruguai como um destino turístico de muita beleza e com recursos naturais benéficos à saúde.
  18. 18.   18   Nele, os uruguaios foram caracterizados como um povo que vive em harmonia com a natureza e que é amigo dos brasileiros. p. 564-565 Estudar os processos de comunicação intercultural mediados pela televisão, na complexidade e na heterogeneidade das realidades fronteiriças, entre outros aspectos que já consideramos aqui, nos permitiu identificar quando as representações televisivas dessas realidades refletem ou refratam os interesses dos diversos grupos que interagem socialmente no cotidiano dessas fronteiras. Isso nos permitiu compreender também como operam os estereótipos positivos e negativos no cotidiano quando reafirmados pela televisão, assim como pudemos entender como as representações televisivas participam da manifestação de atitudes racistas de brancos em relação a não brancos.

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