03 a interpretação literal e a alegórica

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03 a interpretação literal e a alegórica

  1. 1. A Interpretação Literal e a Alegórica 1 A INTERPRETAÇÃO LITERAL E A ALEGÓRICA Necessitamos definir tão precisamente quanto possível o quepretendemos dizer com os termos teológicos que empregamos Taisvocábulos como "literalismo", "alegorismo", "literal" e "tipológico", nãosão usados no mesmo sentido por todos os grupos. E isso causa confusãona comunicação de idéias. A Interpretação literal Primeiramente, o que se pretende afirmar com as expressões:interpretação "literal" e "literalismo"? O dispensacionalismo as definecomo "atribuir à linguagem o seu significado razoável e gramatical" ou"a forma natural, literal e gramatical, implicadas nas predições"(Chaferl); como "o significado literal, normal ou claro" (Ryrie2); o"significado primário, ordinário, normal e literal" (D. Cooper comocitado e aceito por Hal Lindsey3), Há aqui, contudo, uma suposição secreta subentendida que temvalor axiomático e fundamental para o dispensacionalismo: que aexegese literal de uma profecia do Velho Testamento "demanda" umcumprimento idêntico ou absolutamente literal. J. D. Pentecost declara:"De acordo com princípios estabelecidos de interpretação, o concertodavídico demanda um cumprimento literal. Isso significa que Cristo devereinar para sempre no trono e sobre o povo de Davi na Terra."4 Talconclusão seria válida apenas se o Velho Testamento fosse interpretadopor si mesmo, separado do Novo. Não obstante, o intérprete cristão é obrigado, por sua fé em Cristo, areconhecer o Novo Testamento como a interpretação autorizada daspromessas do Velho. Até aqui observamos que o escopo da interpretaçãoprofética da Bíblia para o cristão é mais amplo do que a tarefa de fazerexegese no Velho Testamento. Isso também inclui, o estudo da unidade
  2. 2. A Interpretação Literal e a Alegórica 2essencial de toda a Bíblia e os padrões de promessa e cumprimento nointer-relacionamento dos dois Testamentos. O erudito evangélico B. Ramm chama o termo "literalismo" deambíguo, porque para alguns ele se afigura negativamente como"letrismo". Por isso, distingue literalismo de interpretação "literal" aoextrair a expressão "literal" de seu dicionário (Websters), como sendo "adesignação socialmente reconhecida, costumeira e usual" das palavras.5Ele chama o método literal de "histórico-gramatical" ou "filosófico". Seuobjetivo é apenas exegese, "descobrir o significado original e a intençãodo texto"6 à luz da situação na qual ele foi primeiramente escrito semincluir o campo de aplicação e cumprimento. Esta distinção entreexegese e aplicação é crucial, pois elas não são, necessária e inteiramenteidênticas. As palavras das Escrituras não devem ser um fim em si mesmas,mas ao invés disso, servir como instrumento para transmitir um sentidoou uma mensagem. Palavras e significados nem sempre são sinônimos,como está claro nas figuras de linguagem ou na linguagem simbólica. Por isso, o ponto essencial é "extrair literalmente o significado daBíblia. Nossa consciência dor ser cativada pela Palavra de Deus!...Portanto, é o significado dessa Palavra que devemos procurar"7 A interpretação literal ou normal reconhece o simbolismo poéticoem sua tentativa "de atribuir à Escritura o seu significado original,divinamente intencionado", aquilo "que Deus queria que a passagemdesignasse no período em que foi escrita".8 A interpretação literal oufilosófica não fará justiça à peça de literatura como uma coisa habitual,mas a exegese literal sempre deve ser o ponto de partida necessário tantona literatura extrabíblica quanto bíblica. Todos os significadossecundários de documentos, como figuras de linguagem, alegorias, tipos,parábolas, etc., encontram o seu controle básico e o seu sentido nacamada literal da linguagem. A interpretação literal reconhecerá anatureza peculiar de cada gênero ou tipo de literatura com a qual ela lida.
  3. 3. A Interpretação Literal e a Alegórica 3 Ramm compreende a interpretação "literal" das Escrituras como oposicionamento de forma independente entre os extremos do literalismo(ou letrismo) e o alegorismo (um método alegórico não controlado). Elenão aceita a pressuposição dispensacionalista de que a interpretaçãoliteral das predições do Velho Testamento também demanda umcumprimento literal. Explica: "Em nosso uso da palavra literal temos emmente literal no sentido filosófico".9 Nesse respeito, não há diferença entre os evangélicosdispensacionalistas e os da reforma. "A questão central na interpretaçãoprofética entre os evangélicos é esta: A literatura profética pode serinterpretada pelo método geral de exegese gramatical ou é necessárioum princípio especial?10 Este princípio especial tem sido normalmentechamado pelos evangélicos da reforma de "interpretação teológica". Esses eruditos afirmam que é absolutamente necessáriocomplementar as habituais interpretações gramatical e histórica com umaterceira (interpretação teológica), a fim de manter a unidade teológica ea dimensão espiritual de ambos os Testamentos. L. Berkhof chama estadimensão teológica de "o sentido mais profundo da Escritura"11 que nãoé um segundo sentido adicionado ao significado gramatical, mas é osentido próprio da Bíblia. Ele afirma: O verdadeiro significado das Escrituras nem sempre repousa nasuperfície. Não há verdade na alegação de que a intenção dos autoressecundários [Deus sendo o autor primário], determinado pelo métodogramático-histórico, sempre exaure o sentido da Escritura, e represente emtoda a sua plenitude o significado pretendido pelo Espírito Santo.12 Outros eruditos bíblicos também enfatizam que uma "exegese quenão alcança a teologia do texto é incompleta"13 e mesmo os profetas deIsrael tentaram esquadrinhar as suas predições (1 Pedro 1:10, 11),compelidos a confessar ignorância sobre as suas próprias visões (Daniel8:27; Zacarias 4:13) ou palavras (Daniel 12:8).14 Isto é, a exegesegramático-histórica não é suficiente para a interpretação das SagradasEscrituras. A exegese teológica também é necessária.15
  4. 4. A Interpretação Literal e a Alegórica 4 Seja como for, o dispensacionalismo rejeita categoricamente esseprincípio "teológico" da hermenêutica, porque este permitiria umacombinação entre Israel e a Igreja, empregando uma aplicação não literalao lado da exegese literal dos escritos proféticos do Velho Testamento.Contudo, precisamos considerar o fato de "que a identidade da frase [nascitações feitas pelo NT das profecias do VT] não implicanecessariamente absoluta correspondência de significado.16 O dispensacionalismo não quer negar a unidade das Escrituras, mascomeça de outra pressuposição. Não o Plano da Salvação, mas "a glóriade Deus é o princípio governante e o propósito global.17 Sobre a base daprimazia desse princípio doxológico, como seus propósitos divididospara Israel e a Igreja, os dispensacionalistas acusam todos os outrosevangélicos de um "erro redutivo" (Walvoord) e de comprometer oprincípio do literalismo, especialmente nos domínios da interpretaçãoprofética. C. I. Scofield afirmou inequivocamente que as seções proféticasespecíficas da Escritura devem ser interpretadas e aplicadas comabsoluto literalismo: "As profecias jamais podem ser espiritualizadas,mas são sempre literais".18 Tal literalismo absoluto na interpretaçãoprofética, não obstante, leva irrevogavelmente a uma interpretaçãoforçada. Não apenas Israel deve ser restaurado como uma naçãoteocrática, mas também Edom, Moabe e Amon o serão como nações,porque a predição diz assim: "Eles [os israelitas] se infiltrarão pelasencostas da Filístia, a oeste; juntos saquearão o povo do leste. Porão asmãos sobre Edom e Moabe, e os amonitas lhes estarão sujeitos" (Isaías11:14, NVI). Esse literalismo consistente não pode ser injustamentechamado de "a insanidade do literalismo".19 A posição cristã histórica reconhece que a exegese literal daEscritura veterotestamentária permite a aplicação tipológica comoempregada por Cristo e Seus apóstolos no Novo Testamento. Ela admiteque o Velho Testamento é "um livro cristão".20
  5. 5. A Interpretação Literal e a Alegórica 5 O literalismo dispensacionalista não permite que Jesus providencieuma nova perspectiva para interpretar o Velho Testamento, por essarazão, ele é orientado basicamente para o Velho Concerto ao invés dacruz.21 A Interpretação Alegórica Em relação aos termos "alegoria", "alegorismo" e "alegórico", nãoobservamos nenhuma compreensão uniforme no seu uso entre osintérpretes cristãos. Prevalece um acordo geral na definição de alegoriacomo uma forma mais extensiva de uma metáfora ou de uma figura delinguagem. A alegoria é uma história que contém vários pontos decomparação. Conta a verdade em termos de narrativa. Alguns exemplosbíblicos são: A alegoria da velha geração sob a figura de uma casa sedeteriorando em Eclesiastes 12:37; de Israel como uma vinha trazida doEgito em Salmo 80:8-15; dos falsos profetas em Israel que construíammuros frágeis em Êxodo 13:8-16.22 Cristo usou alegorias em Suas parábolas do bom samaritano emJoão 10:1-16 e da vinha em João 15:1-8. Paulo escreve uma profundaalegoria a respeito da armadura do cristão em Efésios 6:11:17. Todasessas tencionam ser alegorias e reconhecidas como tais como umamaneira legítima de ensinar a verdade. Seria uma situação diferente se um intérprete alegorizasse umanarrativa claramente histórica na Bíblia. Tal alegorização transformaria anarrativa bíblica em um trampolim para ensinar uma idéia diferentedaquela pretendida pelo escritor bíblico. Quando uma interpretação alegórica arbitrariamente converte umanarrativa histórica em ensino de uma verdade espiritual ou teológica,essa alegorização especulativa é negativamente denominada"alegorismo". Impõe um significado ao texto bíblico que ele realmentenão tem. Ela é adicionada ao texto pelo intérprete apenas com o
  6. 6. A Interpretação Literal e a Alegórica 6propósito de edificação e para encontrar verdades espirituais e sentidosmais profundos. A alegorização foi um método muito popular entre os expositoresjudeus (especialmente Filo), entre os pais da Igreja Cristã primitiva e osteólogos escolásticos medievais.23 B. Ramm rejeita essas alegorizaçõesporque elas assumem um "significado plural da Escritura. A unidade desentido da Escritura elimina toda sua alegorização antiga e moderna".24 Entretanto, Paulo usa uma aplicação alegórica quando lida com ahistória de Sara e Agar de Gênesis 21 em Gálatas 4:24-31, a fim de"ampliar para os seus leitores o contraste entre a escravidão e aliberdade".25 Ele realmente declara em Gálatas 4:24 que interpreta anarrativa do Gênesis alegoricamente, isto é, "figurativamente" (NIV).Em 1 Coríntios 9:9, ele faz uma interpretação alegórica de um texto legalem Deuteronômio 25:4. Mesmo reconhecendo que esse procedimento é raro no NovoTestamento, ele nos impede de condenar cada interpretação alegórica deuma narrativa histórica ou de um texto legal. Paulo declara que nestecaso ele faz uma aplicação alegórica edificada sobre a verdade históricade uma narrativa particular em Gênesis e não em lugar dela. Ainterpretação alegórica como tal não pode ser descrita como "anti-histórica em caráter".26 Ela não deveria ser definida pelas suas aberraçõesem Filo, mas ao invés disso, pela sua alegorização homogênea quepermanece em harmonia básica com as doutrinas gerais cristãs. A crítica do método alegórico deveria, por essa razão, concentrar-seem seu mau uso, que tem perdido o respeito pela realidade histórica e aforma dos textos originais.27 Se a alegorização for definida como "ainterpretação de um texto em termos de algo mais, sem levar emconsideração o que esse algo mais representa"28, não haverá norma oupadrão pelo qual se possa determinar o que constitui umaespiritualização legítima ou ilegítima. Contudo, um erudito argumentouque a interpretação alegórica válida deve repousar em "uma analogiagenuína" entre o significado original e a aplicação feita.29 Tal
  7. 7. A Interpretação Literal e a Alegórica 7alegorização pressupõe a unidade e a continuidade da revelação bíblica.Em outras palavras, na alegorização falsa não há relacionamentodependente, nem base analógica, nenhuma harmonia existente entre otexto e o seu "algo mais" místico com o qual ele está relacionado. A alegorização de Filo e a rabínica eram ilegítimas porquerelacionavam o texto sagrado à tradição oral dos pais. Jesus condenouessa alegorização quando disse aos líderes religiosos de Seus dias queeles haviam anulado a Palavra de Deus pelas suas próprias tradições(Mateus 15:6). Da mesma forma, a alegorização patrística e medievaldas Escrituras eram ilegítimas, pois não estabeleciam um relacionamentodependente entre o texto bíblico e a tradição católica romana. Essa foi a razão pela qual Lutero e Calvino explicitamenterejeitaram o método de alegorização como princípio de interpretação dasEscrituras. Os reformadores partiam do pressuposto de que o Velho e oNovo Testamentos estão organicamente relacionados um ao outro. Adespeito das diferenças na forma de administrar a graça de Deus, os doisTestamentos são substancialmente os mesmos. Ambos ensinam aredenção pelo mesmo Mediador e Redentor, ambos têm uma esperança euma filiação com o mesmo concerto, sumariado nas palavras: "E eu sereio teu Deus e tu serás o meu povo." Por causa dessa unidade fundamental em Cristo e dessacorrespondência ou analogia teológica, é legítimo interpretar o Velho emtermos de Novo. Alguns, contudo, se recusam a fazer distinção entreuma interpretação alegórica que é homogênea com a totalidade dasEscrituras e uma interpretação tipológica. Por isso, parece mais corretoconcluir que a alegorização incidental de Paulo "repousa em umaestrutura tipológica e não é alegoria no sentido usual judaico ouhelênico".30 Na alegorização de Paulo da história de Sara e Agar (deGênesis 21) em Gálatas 4:24-31, ele enfatiza o significado teológico queé comum – a base analógica – tanto da história do Velho Testamento e dasituação histórica de Jerusalém (Judaísmo) presente, quanto da Igreja.
  8. 8. A Interpretação Literal e a Alegórica 8 O que o dispensacionalismo ensina em relação à interpretaçãoalegórica? Ele acusa os não dispensacionalistas de alegorização ouespiritualização quando se fala em interpretação de profecia e,conseqüentemente, de inconsistência no uso que faz da interpretaçãoliteral. Ryrie assevera, "Os dispensacionalistas reivindicam aplicar o seuprincípio literal à toda a Escritura, incluindo à profecia, enquanto os nãodispensacionalistas não o aplicam à profecia".31 É realmente verdade que o dispensacionalismo aplicaconsistentemente o seu princípio de literalismo "à toda a Escritura"? Asanotações da Scofield Reference Bible freqüentemente aplicam ainterpretação alegórica (figurativa) e a tipológica às narrativas do VelhoTestamento. Os exemplos seguintes são encontrados na New ScofieldReference Bible (1967). O livro inteiro de Cantares de Salomão (ouCântico dos Cânticos) tem uma interpretação tripla: (1) do amor deSalomão pela Sulamita; (2) "como uma revelação figurativa do amor deDeus pelo Seu povo do concerto, Israel, a esposa do Senhor (Is. 54:5-6;Jr 2:2...)"; (3) "como uma alegoria do amor de Cristo por Sua noivacelestial, a Igreja (2 Cor 11:1-2; Ef. 5:25-32)" (P. 705; ênfaseacrescentada). Aqui, o dispensacionalismo oficial e explicitamente adota oprincípio da alegorização de uma narrativa do Velho Testamento, mesmode um livro inteiro. Como justificativa para essa alegorização em grandeescala de oito capítulos do Cântico dos Cânticos, ele afirma que o amordo Noivo divino, "simbolizado aqui pelo amor de Salomão", segue "aanalogia do relacionamento matrimonial" (p. 705; ênfase acrescentada). Dessa forma, o dispensacionalismo adota uma interpretaçãoalegórica ou espiritualizada de todo livro histórico do Velho Testamentona base de uma dupla analogia: (1) A analogia do concerto conjugal e ado concerto de Deus com Israel. (2) A analogia do concerto de Deus comIsrael e a do amor de Cristo por Sua Igreja. Essa é uma duplaalegorização de uma história de amor: primeiro, em relação a Israel;segundo, em relação à Igreja de Cristo. As referências bíblicas
  9. 9. A Interpretação Literal e a Alegórica 9apresentadas sustentam essa interpretação alegórica dupla como umahermenêutica legítima. Porém, isso significa a aceitação de uma analogia teológica básicaentre a velha e a nova dispensação, o velho e o novo concertos, o Velhoe o Novo Testamentos. Portanto, essa correspondência dupla éteologicamente não heterogênea ou dissimilar, mas homogênea ousimilar uma a outra. A Scofield Reference Bible também interpreta outras passagens doVelho Testamento alegoricamente. O cordão escarlate que Raabeamarrou na janela de sua casa em Jericó (Josué 2:21) é aplicadaalegoricamente por causa de sua cor vermelha "da segurança através dosacrifício (Heb 9:19-22)" (p. 261). Muitos intérpretes rejeitam essealegorismo como uma espiritualização ilegítima. A passagem de Israelatravés do rio Jordão (em Josué 3) é vista como "uma figura de nossamorte em Cristo (Rom 6:3-4, 6-11)" (p. 261). A narrativa de José em Gênesis 37-45 é alegorizada por causa das"muitas analogias" entre a sua história e a de Cristo, com a conclusão de"que José era um tipo de Cristo" (p. 53). Por isso, Asenate, a esposaegípcia de José, "retrata a Igreja (p. 59, sobre Gênesis 41:45). A esposade Isaque, Rebeca é considerada "um tipo da Igreja" (p. 34). No livro de Rute, Boaz "aponta para Cristo; Rute retrata aquelesque entram em uma nova vida através da confiança Nele" (p. 317). Eva,a quem Adão chamou "Mulher", para indicar que esta fora tomada "dohomem" (Gênesis 2:23), recebe a seguinte interpretação: A mulher é umtipo da Igreja, a noiva de Cristo (Ef 5:25-32)" (p. 6). Torna-se bem claro que o dispensacionalismo constantementereconhece tipos cristológicos, eclesiológicos e analogias nas narrativasveterotestamentárias, com um apelo à confirmação do NovoTestamento.32 É altamente notável a aceitação do princípio cristológico-eclesiológjco de tipologia e alegorização para a interpretação do VelhoTestamento, enquanto o seu próprio axioma dogmático declara que Israele a igreja são basicamente dissimilares e incongruentes um ao outro. Por
  10. 10. A Interpretação Literal e a Alegórica 10isso, considera a Igreja meramente como um ínterim, um fenômeno quenão foi visto e intencionado pelo Velho Testamento. O dispensacionalismo tenta harmonizar esta aparente inconsistênciade princípios opostos – que a Igreja de Cristo não é predita no VelhoTestamento, enquanto, não obstante seja ali prefigurada – pelo artifícioda divisão das Escrituras em duas seções separadas que requerem doisprincípios diferentes de interpretação: a História e a Profecia dentro doVelho Testamento. A história de Israel deve ser interpretada tipológica ealegoricamente na visão de Cristo e da Igreja, e a profecia de Israel deveser interpretada exclusivamente por um literalismo que se recusa areconhecer qualquer tipo ou figura da Igreja. Enquanto osdispensacionalistas se ufanam de seu literalismo, provam sercontraditórios.33 O dispensacionalismo opera basicamente com dois cânonesdiferentes para interpretar o Velho Testamento: o princípio cristológico-eclesiológjco sobre a base da autoridade do Novo Testamento para aparte histórica, e o princípio do literalismo para as partes proféticas, quefundamentalmente nega o cumprimento cristológico-eclesiológjco. O que motiva essa hermenêutica dispensacionalista contraditória eduplamente conflitante do Velho Testamento? Qual a base para este(autoridade desafiadora do Novo Testamento) literalismo em relação àprofecia de Israel? É a visão peculiar dispensacionalista da revelação einspiração da profecia de Israel: "a profecia é a História pré-escrita"34, ounas palavras de C. I. Scofield, "As Escrituras históricas têm umsignificado alegórico ou espiritual... [nos escritos proféticos] nósalcançamos a base do absolutamente literal".35 Aqui, enfrentamos a franca admissão de que o princípio doliteralismo não é aplicado coerentemente "à toda a Escritura" pelodispensacionalismo, como Ryrie declarou, mas apenas a uma parteselecionada: a profecia. Qual a justificativa dessa mudança para o literalabsoluto nos domínios do cumprimento de cada palavra profética do
  11. 11. A Interpretação Literal e a Alegórica 11Velho Testamento? O uso dessa hermenêutica dupla é ensinado no NovoTestamento? O dispensacionalismo aceita o relacionamento teológico edependente entre a História de Israel do Velho Testamento (pessoas,eventos redentivos, etc., como tipos da Igreja) e a Igreja de Cristo,embora rejeite esse relacionamento dependente entre a profecia de Israele a Igreja. A alegação é feita, "O Concerto davídico demanda umcumprimento literal. Isto significa que Cristo deve reinar sobre o povo eno trono de Davi aqui na Terra para sempre".36 A aplicação do concerto de Davi ao presente reino messiânico deCristo sobre a Igreja a partir do Seu trono de graça celestial (cf. Atos2:30-36; 1 Coríntios 15:25; Efésios 1:20-23) é rejeitada pelodispensacionalismo como uma alegorização ou uma hermenêutica erradada interpretação profética. Para os livros históricos e poéticos do VelhoTestamento o método alegórico e tipológico é adequado porque há umabase analógica. Mas, para a interpretação profética, esse método doNovo Testamento é amplamente rejeitado pois, supostamente não háqualquer base analógica entre Israel e a Igreja. O dispensacionalismo não pode admitir um relacionamentodependente entre a profecia e a Igreja Cristã. As conseqüências doliteralismo dispensacionalista podem ser sumariadas como segue: Resumidamente, as palavras de Paulo devem ser interpretadas de talmaneira que não conflitem com as esperanças e reivindicações dosSionistas! A gloriosa era presente de pregação do Evangelho da graça deDeus a toda a criatura deve ser considerada como uma mera interrupçãotemporal no programa do Velho Testamento para a glorificação de Israel.37 Daí a pergunta: O Novo Testamento usa o método cristológicotipológico apenas para as partes históricas do Velho Testamento e mudapara o método de "absoluto literalismo" para as seções proféticas deste?Como o Novo Testamento interpreta as perspectivas proféticas dosconcertos abraâmico, mosaico e davídico? Apenas quando essasperguntas forem corretamente respondidas se poderá adquirir o "padrãoobjetivo" a fim de julgar se a hermenêutica dupla dispensacionalista é
  12. 12. A Interpretação Literal e a Alegórica 12adequada ou especulativa, uma construção moderna que exalta o seucânon extrabíblico de interpretação acima da autoridade do NovoTestamento. . Sumariando, mantemos a validade dos princípios gramático-históricos e teológicos da exegese para toda a interpretação da Escritura.Reconhecemos os princípios de revelação progressiva, especificamenteentre os profetas do Velho Testamento e as testemunhas de Jesus Cristodo Novo (Hebreus 1:1-2; João 1:7-18). Aceitamos a unidade essencial de ambos os Testamentos quepermite ao significado de qualquer parte da Escritura – incluindo aprofética – ser inteiramente determinado pela totalidade da Bíblia. Essa hermenêutica clássica protestante conhecida como princípio daSola Scriptura, parece ser aceita como um axioma da fé por todos oscristãos evangélicos conservadores.38 Referências Bibliográficas: 1. L. S. Chafer, Systematic Theology (Dallas: Dallas Seminary Press,1947), vol. 4, pp. 259, 288. 2. Ryrie, Dispensacionalism Today, p. 96. 3. Hal Lindsey, The Late Great Planet Earth (New York: Bantam, 1973),p. 40; citando David Cooper, When Gods Armies Meet the Almighty in theLand of Israel. 4. J. D. Pentecost, Things to Come (Findlay, Ohio: Dunham Pub. Co.,1961, p. 112. 5. Ramm, Protestant Biblical Interpretation, pp. 114, 119vv. 6. Ibid., p. 115. 7. R. H. Stein, The Method and Message of Jesus Teachings(Philadelphia: Westminster Press, 1978), p. 10. 8. J. Barton Payne, Encyclopedia of Biblical Prophecy (New York:Harper and Row, 1973), p. 43. 9. Ramm, Protestant Biblical Interpretation, p. 241. 10. Ibid., p. 244 (Itálicos de B. Ramm).
  13. 13. A Interpretação Literal e a Alegórica 13 11. Ver discussão por L. Berkhof, Principles of Biblical Interpretation(Grand Rapids, Mich.: Baker Bock House, 1964), capítulo 7, pp. 133-166. Ascitações são da página 134. 12. Ibid., pp. 59, 60. 13. J. Bright, The Authority of the Old Testament Interpretation (GrandRapids, Mich.: Baker Book House, 1977), p. 171. 14. Payne, Encyclopedia of Biblical Prophecy, p. 5; cf. p. 45. 15. F. F Bruce em Bakers Dictionary of Theology, p. 293. 16. R. B. Girdlestone, A Systematic Guide to Biblical Prophecy (GrandRapids, Mich.: Kregel, 1955), p. 87. Ver, por exemplo, o capítulo 7. 17. Ryrie, Dispensacionalism Today, p. 102. 18. Citado em C. B. Bass, Backgrounds to Dispensacionalism (GrandRapids, Mich.: Baker, 1977; reimpressão de 1960), p. 150. 19. A. B. Davidson, Old Testament Prophecy (Edinburgh: T. & T. Clarke,1905), p. 476. 20. Ramm, Protestant Biblical Interpretation, pp. li1, 223. 21. Ver Bass, Backgrounds to Dispensacionalism, p. 151. 22. Ver M. S. Terry, Biblical Hermeneutics (New York: Eaton & Mains,1890), pp. 214vv. 23. Ver exemplos do rabi Aqiba que acreditava no princípio de que umsignificado místico deveria ser encontrado em cada letra da Escritura, em F. W.Fartar, History of Interpretation (New York: E. P. Dutton, 1886), pp. 71-77; sobrea alegorização de Filo, ver pp. 139-152; sobre o Escolasticismo, pp. 266-274. 24. Ramm, Protestant Biblical Interpretation, pp. l11, 123. 25. A. B. Michelson, Interpreting the Bible (Grand Rapids, Mich.: Wm. B.Eerdmans Pub. Co., 1963), p. 231. 26. Ver J. Barr, Old and New in Interpretation (New York: Harper andRow, 1966), pp. 103vv; argumenta que a interpretação alegórica não ébasicamente diferente da interpretação tipológica dentro do Novo Testamento.Conferir também F. F. Bruce em Bakers Dictionary of Theology (1973), p.293, "Uma forma de alegorização é a interpretação tipológica..." 27. Barr, Old and New in Interpretation, pp. l15-117. Também C. H. Dodd,The Bible Today (Cambridge University Press, 1946), p. 16. Também C. H.Dodd, The Old Testament in the New (Philadelphia: Fortress Press, Facet BocksBS 3, 1971), pp. 5-8.
  14. 14. A Interpretação Literal e a Alegórica 14 28. H. A. Wolfson, Philo, vol. l (Cambridge: Harvard University Press,1947), p. 134. 29. P K. Jewet, "Concerning the Allegorical Interpretation of Scripture",WTJ 17 (1954): 120. Citação da p. 13. 30. E. E. Ellis, The Pauline Use of the Old Testament (Grand Rapids,Mich.: Wm. B. Eerdmans Pub. Co.,1957), p. 127; cf. pp. 5vv. 31. Ryrie, Dispensacionalism Today, p. 90. 32. Ver NSRB, p. 6, para a definição dispensacionalista de um tipobíblico, baseado na "explícita autoridade do NT." 33. Ver O. T. Allis, Prophecy and the Church (Philadelphia: Presbyterianand Reformed Pub. Co., 1974; reimpressão de 1947), p. 21. 34. A. C. Gaebelein, The Prophet Daniel, pp. 1, 166; como citado emAllis, Prophecy and the Church, p. 26. 35. Scofield Bible Correspondence Course (Chicago: Moody BibleInstitute), pp. 45-46, como citado em Bass, Backgrounds toDispensacionalism, p. 150. 36. Pentecost, Things to Come, p. l12. Ver, contudo, uma interpretaçãomais bíblica em The Last Things, pp. 17-18 de G. E. Ladd. 37. Allis, Prophecy an the Church, p. 50. 38. E. g. B. Ramm, Protestant Biblical Interpretation, p. 105, afirma:Toda a Sagrada Escritura é o contexto e a guia para a compreensão daspassagens particulares da Bíblia." J. W. Wenham, Christ and the Bible(Downers Grove, III.: Inter-Varsity Press, 1973), p. 10: "Tanto no caso daBíblia quanto no mundo da natureza, as partes devem ser compreendidas apartir do todo, não o todo a partir das partes. Uma teologia criada por Deusdemanda uma metodologia centralizada Nele." C. C. Ryrie, The Basis of thePremilennial Faith (Neptune, N. J.: Loiseaux Brothers, 1966), p. 37: "Ela [aanalogia da fé na Escritura] não apenas usa passagens paralelas, mas tambémregula a interpretação de cada passagem em conformidade com o teor globalda verdade revelada... A aplicação desse princípio hermenêutico significa aharmonização de toda a Bíblia." Quanto à posição Adventista do Sétimo Diasobre a "sola Scriptura", ver L. E. Froom, Movement of Destiny (Washington,D. C.: Review and Herald Pub. Assn., 1971), capítulo 5.

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