Ainda temos juiz

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Ainda temos juiz

  1. 1. A esperança de um mundo novo...
  2. 2. O artigo de um juiz, recentemente publicado emjornal de grande circulação, transcrevendo umasentença judicial, é de causar emoção nas almasmais insensíveis. Seu artigo diz o seguinte: "Indaga-me, jovem amigo, se as sentenças podem teralma e paixão. O esquema legal da sentença não proíbe quetenha alma, que nela pulsem vida e emoção, conforme ocaso. Na minha própria vida de juiz senti muitas vezes que erapreciso dar sangue e alma às sentenças. Como devolver, por exemplo, a liberdade a uma mulhergrávida, presa porque trazia consigo algumas gramas demaconha, sem penetrar na sua sensibilidade, na suacondição de pessoa humana?
  3. 3. Foi o que tentei fazer ao libertar Edna, uma pobremulher que estava presa há oito meses, prestes a dar àluz, com o despacho que a seguir transcrevo: A acusada é multiplicadamente marginalizada: -Por ser mulher, numa sociedade machista... -Por ser pobre, cujo latifúndio são os sete palmos deterra dos versos imortais do poeta. -Por ser prostituta, desconsiderada pelos homens, masamada por um Nazareno que certa vez passou por estemundo. -Por não ter saúde. -Por estar grávida, santificada pelo feto que tem dentrode si.
  4. 4. “Mulher diante da qual este juiz deveria se ajoelharnuma homenagem à maternidade, porém que, na nossaestrutura social, em vez de estar recebendo cuidadospré-natais, espera pelo filho na cadeia.” É uma dupla liberdade a que concedo nestedespacho: liberdade para Edna e liberdade para o filhode Edna que, se do ventre da mãe puder ouvir o som dapalavra humana, sinta o calor e o amor da palavra quelhe dirijo, para que venha a este mundo, com forçaspara lutar, sofrer e sobreviver. Quando tanta gente foge da maternidade... Quando pílulas anticoncepcionais, pagas porinstituições estrangeiras, são distribuídas de graça esem qualquer critério ao povo brasileiro... Quando milhares de brasileiras, mesmo jovens esem discernimento, são esterilizadas...
  5. 5. Quando se deve afirmar ao mundo que os seres têmdireito à vida, que é preciso distribuir melhor os bensda terra e não reduzir os comensais... Quando, por motivo de conforto ou até mesmo pormotivos fúteis, mulheres se privam de gerar,Edna engrandece hoje este Fórum, com o feto que trazdentro de si. Este juiz renegaria todo o seu credo, rasgaria todosos seus princípios, trairia a memória de sua mãe, sepermitisse sair Edna deste Fórum sob prisão. Saia livre, saia abençoada por Deus... Saia com seu filho, traga seu filho à luz... Porque a cada choro de uma criança que nasce éa esperança de um mundo novo, mais fraterno, maispuro, e algum dia cristão...
  6. 6. O despacho vem assinado peloMeritíssimo Juiz João Batista Herkenhoff,livre-docente da Universidade Federal do Espírito Santo. Expeça-se incontinenti O Alvará de Soltura !!!
  7. 7. Ao ouvir o despacho desse magistrado, aesperança de um mundo novo e justo se desdobraà nossa frente. Esperança de um dia as leis humanas setornarem educativas e não punitivas. Esperança de ver as sanções proporcionais àsfaltas cometidas. Esperança de, num julgamento, ser levado emconta o passado de cada ser, sua infância, aspossibilidades que teve de educação, de saúde, decarinho, de afeto. Enfim, esperança de que ahumanidade atente para as leis de Deus e nelasbaseie as suas.
  8. 8. Minha amiga, meu amigo:Ao ler este artigo, podemos sentir a extremahumanidade e verdadeira justiça advinda destehomem digno e respeitável juiz. Isto nos faz crer quenem tudo esta perdido. Alguns amigos próximossabem que convivo com este problema das drogas amuitos anos e pouco se tem feito no sentido de minoraro sofrimento das famílias que possuem dependentesem seu meio. Os traficantes agem livrementecomprando a muitos com seu dinheiro, destruindomilhares de famílias e ceifando milhares de vidasjovens e superlotando nossos presídios.É preciso sim levar ao conhecimento de todos aextrema frieza com que a matéria é tratada.
  9. 9. Bom seria se tivéssemos seres humanos tão lúcidos econscientes com este meritíssimo juiz nas varas criminais,assim teríamos uma verdadeira justiça onde os menosfavorecidos pudessem também ser tratados como sereshumanos e readquirissem o direito de plena defesairrestrita. Quero assim prestar uma homenagem especial ao Dr. João Batista Herkenhoff, por suas palavras e por sua postura digna de um verdadeiro cristão. Cumprimento, outrossim, ao Jornal “A Gazeta do Povo”, de Curitiba, pela excelente matéria.

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