82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais

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82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais

  1. 1. Stuart Ha
  2. 2. " jetoria de Stuart Hall como inte- al comec.ou no bojo da reelabo- i do que e ser de esquerda, depois errota pela Uniao Sovietica do .mento antiestalinista na Hungria, 1956. Continuou nos anos 60 e em meto a preocupac.ao com a cente influencia dos meios de unicac,ao na cultura, ao mesmo 30 democratizadora e — segundo dic,ao bem-pensante, de esquerda Je direita — avittante. E nesse )do que preocupaooes ferninistas cismo entram explicitamente DA DIASPORA seu repertorio. Sua trajetoria IDENIIDADES E MEDIATES CULTUIAIS agua, nesses ultimos vinte s, na preocupagao em repensarjltura no meto de uma globali- io complexa e contraditoria. Esse momento em que as identidadesurais se tornam lances discursivosfundamental tmportancia para:m os faz. E nessa ultima fase, a deilizar a globaliza^ao e as politicas:urais, que Halt tornou-se uma dasicipais referencias atuais sobredimensoes politico-cutturais dabalizagao, vistas a partir da dias-a negra. Ao longo desse caminho,.I! foi protagonista dos EstudosIturais, com seu projeto de pensarultura em urn precario e vital equi-rio entre a valoriza^ao do trabalho
  3. 3. STUART HALL DA DIASPORA IDEN1IDAOES E MEDIATES CUL1URAIS Liv SOVIK Adelaine La Guardia Resende Ana Carolina Escosteguy Claudia Alvares Francisco Rudiger Sayonara Amaral BrasiliaBelo Horizonte Representacao daEditora UFMG UNESCO no Brasil 2003
  4. 4. © 2003 dos originals em ingles by Stuart Hall© 2003 da traducao by Editors UFMGEste livro on parte dele nao pode ser reproduzido por qualquer meio sem autorizatao cscrita do CREDITOS DOS TE3 i Idien^fdades eEditor. culturaisO autor e responsavel pela escolha e pela apresentacao dos fatos contidos nesla publicafao e pelasopinioes aqui cxpressas, que nao sao necessariamente as da UNESCO e nao compromeiem aOrganizacao. As designates empregadas e a apresenta9ao do material nao implicam a expressao dequalquer opiniao que seja, por parte da UNESCO, no que diz respeito ao status legal de qualquer pais, PARTE 1 - CONTROV^RSLterrii6rio, cidade ou area, ou de suas autoridades, on no que diz respeilo S delimitacao de suas < 198681/05)fronteiras ou de seus limites. pensando a diaspora: reflexoes sobre a terra no exterior HALL, S. Thinking the Diaspora: Home-Thoughts from Abroad. Small Axe H179d Hall.Stiiari v. 6, p. 1-18, Sept., 1999. Da diaspora: Identidades e mediacoes culturais / Stuart Hall; © Indiana University Press. Organizacao Liv Sovik; Traducao Adelaine La Guardia Resende ... let all. - Belo Horizonte: Editora UFMG; Brasilia: Representacao da UNESCO no Quest5o multicultural Brasil, 2003. HALL, S. The Multi-cultural Question. In: HESSE, Earner (Org.). Un/settled 4M p. (Humanitas) Multiculturalisms. London: Zed Books, 2000. ISBN: 85-7041-356-4 Quando foi o p6s-colonial? Pensando no limlte I. Identidade Social 2. Cultura 3. Etnologia I. Sovik, Liv HALL, S. When Was "The Post-colonial"? Thinking at the Limit. In: CHAMBERS, 11. Resende, Adelaine La Guardia III. Tftulo IV. Serie Iain; CURTI, Lidia (Org.). The Post-Colonial Question: Common Skies, Divided CDD: 306 Horizons. London: Routledge, 1996. CDU: 316Catalogacao na publicacao: Divisao de Planejamenlo e Divulgacao da Biblioteca Universilaria - UFMG PARTE 2 - MARCOS PARA OS ESTUDOS CULTURAISED1TORACAO DE TEXTO: Ana Maria de MoraesPROJETO GRAFICO: GI6ria Campos - Mangd • Estudps Culturais: dois paradigmasCAPA: Stuart McPhail Hall, diptico de Dawoud Bey, acervo da National Portrait Gallery, Londrcs. Reprinted by permission of Sage Publications from Stuart Hall, "Cultural Studies:REV1SAO E NORMALIZACAO: Simone de Almeida Gomes "-* Two Paradigms", in Media, Culture and Society, 2, 57-72, 1980. "VISAO DE PROVAS: Cida Ribeiro e Lfvia Renala L. Salgado © Sage Publications 1980. -tRh .TSAO TfiCNICA: Liv Sovik 1 ^.V "PRODUCAO GRAFICA: Warren M. SantosFORMATAgAO DO MIOLO: Cassio Ribeiro Significant), representacao, Ideologia: Althusser e os debates pos- estruturalistas.UN1VERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAISReitora: Ana Lucia Almeida Gazzola 50 HALL, S. Signification, Representation, Ideology: Althusser and the Post- Structuralist Debates. Critical Studies in Mass Communication, v. 2, n. 2,Vice-Reitor: Marcos Borato Viana Sistema Integrado p. 91-114, June 1985. Used by permission of the National CommunicationEDITORA UFMG de Bibliotecas/UFES Association.Av. Antonio Carlos, 6627Ala direita da Biblioteca Central - lerreo - ^Estudos Culturais e seu legado teoricoCampus Pampulha31270-901 - Belo Horizonte/MG HALL, S. Cultural Studies and Its Theoretical Legacies. In: GROSSBERG,Tel.: (31) 3499-4650 . Fax: (3D 3499-4768 Lawrence et al. (Org.). Cultural Studies. New York: Routledge 1992www.editora.ufmg.br cditora@ufmg.br p. 277-286.CONSELHO EDITORIAL CONSELHO EDITORIAL DA : Para AUon White: metaforas de transformacaoTITULARS UNESCO NO BRASIL HALL, S. For Allon White: Metaphors of Transformation. In: WHITE, Allon.Antonio Luiz Pinlio Ribeiro, Bcairiz Rezende Danlas, Jorge Wertliein, Juan Carlos Tedcsco, Carnival, Hysteria and Writing. Oxford: Clarendon Press, 1993. Reprinted byCados Antonio Leite Brandao, Heloisa Maria Murgel Cecilia Braslavsky, Adarna Quane,Starling, Luiz Otavio Fagundes Amaral, Maria das Celio da Cunha permission of Oxford University Press.Gracas Santa Barbara, Maria Helena Damascene eSilva Megale, Romeu Cardoso Guimaraes, Organizacao das Nafoes Unidas para aWander Meio Miranda (Presidente) Educacao, a Ciencia e a Cultura PARTE 3 - CULTURA POPULAR E IDENTIDADESUPLENTES Representacao no BrasilCristiano Machado Gontijo, Denise Ribeiro Scares, SAS, Quadra 5 Bloco H, Lote 6, Ed. CNPq/ -r Notas sobre a desconstrucao do "popular"Leonardo Barci Castriola, Lucas Jose Bretas dos IBICT/UNESCO, 9° andarSantos, Maria Aparecida dos Santos Paiva, Maurflio 70070-914 - Brasilia - D E - Brasil HALL, S. Notes on Deconstructing "the Popular".Nunes Vieira, Newton Bignotto de Souza, Tel.: (55 61) 321-3525 Fax: (55 61) 322-4261 © History Workshop Journal, 1981, by permission of Oxford University Press.Reinaldo Martiniano Marques, Rkardo Castanheira UHBRZSuncsco.org.brPimenta Figueiredo
  5. 5. O problema da ideologla: o marxismo sem garantias D M N OHALL, S. The Problem of Ideology: Marxism Without Guarantees. In:MATTHEWS, B. (Org.). Marx: 100 Years on. London: Lawrence & Wishart,1983, P- 57-84.A relevancia de Gramsci para o estudo de raca e etnicidadeHALL, S. Gramscis Relevance for the Study of Race and Ethnicity. Journal ofCommunication Inquiry, 10 (2), 5-27.© 1986 by Sage Publications. Reprinted by permission of Sage Publications, Inc. "negro" e esse na cultura negra?HALL, S. What is This "Black" in Black Popular Culture? Este livro tern suas origens na vinda de Stuart Hall ao© 1998 Black-Popular Culture: Discussions in Contemporary Culture #8,edited by Michele Wallace. Reprinted by permission of The New Press. Brasil, quando proferiu uma palestra na sessao de abertura(800) 233-4830. (Led. Seattle: Bay Press, 1992.) do VIII Congresso da Associate Brasileira de Literatura Comparada, realizado na Bahia em julho de 2000. Portanto,PARTE 4 - TEORIA DA RECEPgAO sinceros agradecimentos se fazem a Diretoria da ABRALIC,< na gestao de 1998-2000, particularmente a sua presidente,Reflexoes sobre o modelo codificacao/decodifica^aoHALL, S. et al. Reflections upon the Encoding/Decoding Model. In: CRUZ, Evelina Hoisel, e a vice-presidente, Eneida Leal Cunha. AJon; LEWIS, Justin. Viewing, Reading, Listening. envergadura deste livro deve muito ao interesse da Editora© 1994 by Westview Press. Reprinted by permission of Westview Press, amember of Perseus Books, LLC. UFMG em publica-lo. Adelaine La Guardia Resende foi uma excelente parceiraCodificacaWdecodificacao de trabalho. Ela traduziu para um portugues claro e proximoHALL, S. Encoding/Decoding. Culture, Media, Language-, Working Papers inCultural Studies, 1972-1979- London: Hutchinson/CCCS, 1980. do original a maioria dos textos e revisou comigo todos eles. A revisao tecnica de textos repletos de metaforas, termino-PARTE 5 - STUART HALL FOR STUART HALL logias conceituais especializadas e referencias tiradas de objetos os mais diversos — que passam por Volochinov, aA formacao de um intelectual diasporico: uma entrevlsta com StuartHall, de Kuan-Hsing Chen banda The Police e Hamlet— encontrou nela uma interlocu-HALL, S.; CHEN, K.-H. The Formation of a Diasporic Intellectual: an tora sempre disposta a discutir o que poderia parecer meroInterview With Stuart Hall by Kuan-Hsing Chen. In: MORLEY, David; detalhe, concordando, discordando e recomendando solucoes.CHEN, Kuan-Hsing (Org.). Stuart Hall: Dialogues in Cultural Studies-London: Routledge, 1996. Recebi generosas contribuicoes, tambem, de Nilza Iraci, na revisao de "Que negro e esse na cultura negra?" e na transposicao para o portugues do Brasil de "Estudos culturais e seu legado teorico", e de Itania Gomes em "Codificacao/ Decodificacao". Esta obra talvez tivesse naufragado nao fosse a dispo- sicao de Stuart Hall de sugerir textos e ver publicado no Brasil um livro unicamente de sua autoria, coisa rara. Seu apoio ao projeto, sua generosidade em comentar a apresen- tacao e sua correspondencia precisa e bem-humorada durante os dois anos em que este livro foi gestado, foram preciosos incentives ao trabalho e ao bom humor.
  6. 6. u M O APRESENTACAO PARA LER STUART HALLP AjfR T E CONTROVERSIAS JH. PENSANDO A DIASPORA REFLEXOE5 SOBKE A TERRA NO EXTERIOR 25 A QUESTAO MULTICULTURAL 51 QUANDO FOI O P6S-COLONIAL? PENSANDO NO LIMITE 101P A>K T E MARCOS PARA OS ESTUDOS CULTURAIS ESTUDOS CULTURAIS DOIS PARADIGMAS 131 S1GN1FICACAO, REPRESENTACAO, 1DEOLOGIA ALTHUSSER E OS DEBATES POS ESTRUTURALTSTAS 160 ESTUDOS CULTURAIS E SEU LEGADO TE6RICO 199 PARA ALLON WHITE METAFORAS DE TRANSFORMAgAO 219 T E CULTURA POPULAR E IDENTIDADE NOTAS SOBRE A DESCONSTRUgAO DO "POPULAR" 247 O PROBLEMA DA IDEOLOGIA O MARXISMO SEM GARANT1AS 265
  7. 7. A RELEVANCIA DE GRAMSCI PARA O ESTUDO DE RA£A E ETNICIDADE 294 QUE "NEGRO" £ ESSE NA CULTURA NEGRA? 335T E TEORIA DA RECEP£AO APRESENTA^AO REFLEXOES SOBRE O MODELO DE CODIFICAgAO/DECODIFICAgAO UMA ENTREV1STA COM STUART HALL 353 PARA m STUARl HALL CODIFICAgAO/DECODIFICAgAO 387 STUART HALL FOR STUART HALL A FORMAgAO DE UM INTELECTUAL DIASP6RICO CLQiito de origem dps Estudos_Culturais reza que Stuart LIMA ENTREVISTA COM STUART HALL, DE KUAN HS1NG CHEN 407 Ha]i_e__seju_pai. Foi^dirjetor_^Q_X£atre_for_jC_Qntej2r3^_ajy Culturaj_J?tudies (CCCS)jda Universidade de Birmingham, na Inglaterra, durante seu periodo mais fertil, qsjuios 70. Na verdade e um dos pais, pois o mito de origem inclui Richard Hoggart, Raymond Williams e, as vezes, E. P. Thompson nesse papel. Mas foi Stuart Hall quern assumiu os Estudos Culturais como projeto institucional na Open University, e continuou, periodicamente, a se pronunciar sobre os rumos de algo que se tornou um movimento academico-intelectual internacional. Ao mesmo tempo, Stuart Hall recua diante da autoridade que Ihe e atribuida. Faz de seu estatuto paterno^uma van- tagem de testemunha ocular (cf. LT).1 Ou ironiza-o, como fez em palestra no congresso da Associacao Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC), em Salvador, em julho de 2000, ao falar da importancia, para ele, de ler Roger Bastide e Gilberto Freyre nos anos 50. Os_Estudos Culturais teriam origem, inclusive^_b£asileira. O recuo de Hall e indicacao de uma atitude peculiar diante do trabalho intelectual, pela qual os antepassados e contemporaneos teoricos sao, a um so tempo, aliados, interlocutores, mestres e adversaries, de cuja forca Hall se apropria, sem se preocupar em denunciar pontos fracos ou demonstrar devocao filial as suas ideias. Npjnelhor sentido brasileiro, Hall e antropofago. Deglutiu
  8. 8. Marx, Gramsci, Bakhtin. Saboreou Louis Althusser, Raymond final dos anos 50 e inicio dos 60, que incluiu E. P. Thompson,Williams, Richard Hoggart, Fredric Jameson, Richard Rorty, Raymond Williams, Raphael Samuel, Charles Taylor, muitosJacques Derrida, Michel Foucault, E. P. Thompson, Gayatri deles originahos jas^margens, seja por motives de classe ouSpivak, Paul Gilroy, com algo de len Ang, Cornel West, Homi geografia-^Essa "nova esquerda" se cristalizou a partir^dosBhabha, Michele Wallace, Judith Butler, David Morley, assim acontecimentos de 1956: a invasao sovietica da Hungria e a crise do Suez, quando as forcas israelitas, francesas e brita-como ingeriu Doris Lessing, Barthes, Weber, Durkheim e Hegel. nicas atacaram o Egito do nacionalista arabe Nasser. Nao se Existem eventualmente duas excecoes a metafora antro- identificava nem com o stalinismo, com o qual os membrospofagica para o Hall leitor. Ele e filho amotinado de F. R. do Partido Comunista estavam alinhados com diversos grausLeavis, grande defensor do canone literario como moralmente de entusiasmo, nem com o nacionalismo britanico, com seusuperior a cultura de massa que dominou a critica literaria projeto imperialista. Nessa perspectiva_critica. Hall foi editorbritanica nosvanos 30 a 50 do seculo XX. E se filia ao metodo da New Left tft^wMte 19_^aJJ26l^j^e as prioridades de Gramsci, dentre as quais esta fazer um Tfiscussao sobre novas^cornpreensoes de classe social, _mpvi-trabalho teorico que contribua para uma ideologia e uma IrrenTos^spciais eTp.olitica, da ,questao... do..des_armamentocultura "populares", em contraposicao a cultura do bloco de nucleate — a partir dos disturbios raciais no bairro Nettingpoder (cf. NP), ao mesmo tempo em que se desconfia do Hill em 1958 — sobre a incipiente tjuestao .racial britanica. alcance politico limitado do trabalho intelectual. Quando Stuart Hall participou da fundacao, em 1964, do Centre for colocado na posicao de grande mestre e exaltado por aquilo Contemporary Cultural Studies (CCCS)j_da Universidade de que escreveu, Hall desconversa, pois.^maisjmportante do Birmingham, que deu o nome de(Estudos_C_ulturai^a uma que criar discipulos e alimentar o debate sobre_a_ tematica^ _f^rma_de_pensar sobre cultura^ Financiado parcialmente com bla^Ue^e^jnTcomerrtario sobrelflmportancia do seu ensaio os lucres das vendas de The Uses^fJLiteracy, de Hoggart, "Que negro e esse na cultura negra?", reforcou a metafora sobre o consume cultural da classe operaria inglesa, ele antropofagica ao dizer: "Help yourself." Sirva-se. dirigiu o Centre nolTseus primeiros quatro anos. Foi no -- _ na_ de uma periodo sob a direcao de Stuart Hall, de 1968 a 1979, que se familia de classe media, adquiriu, ainda jovem, consciencia consolidaram os Estudos Culturais, a partir de uma preocu- "da contradicao da cultura colonial, de como a gente sobre- pacao politica e do projeto de colocar em bases teoricas mais vive a experiencia da dependencia colonial, de classe e cor, solidas as leituras de "textos" da cultura, que incluiam desde e de como isso pode destruir voce, subjetivamente" (FID). o fotojornalismo 2 e programas de televisao, ate a ficcao O movimento pela independencia da Jamaica fez parte do romantica consumida por mulheres e as subculturas juvenis ambiente em que ele cresceu, ao passo que a Segunda Guerra britanicas (leia-se teds, mods, skinheads, rastas) as vesperas Mundial foi fundamental ao suscitar nele, estudante secun- do movimento punk. 3 darista, uma consciencia historica e geografica como contexto O pensamento de Hall passa por conviccoes democraticas das preocupac.6es anticoloniais de sua geracao. Enquanto seus e pela agucada observacao da cena cultural contemporanea. colegas pretendiam estudar economia, ele se interessou mais A maioria de seus textos teoricos responde a uma conjuntura pela historia e sonhou em ser escritor. Em 1951, foi estudar especifica, incluindo ai um momento da discussao teorica literatura em Oxford "e "acabou n"a~o" mais voltando a morar sobre a cultura. Deixam clara sua ligacao com o projeto na Jamaica. - de formular "estrategias culturais que fazem diferenca e Num primeiro momento, Hall se associou a jovens cari- deslocam (shift) as disposicoes de poder" (QN). Desloca- benhos que formaram a primeira gerac.ao de uma inteli- mento, alias, e a imagem que Hall faz da relacao da cultura gencia negra, anticolonialista. Mais tarde, fez parte de um com estruturas sociais de poder; pode-se fazer pressoes grupo fundamental para a formacao da New Left inglesa, do atraves de politicas culturais, ern uma (guerra~de posicoes", 10 11
  9. 9. mas a absorcao dessas pressoes pelas relacoes hegemonicas ser "desenterradas delicadamente de seu solo concrete e dede poder faz com que a pressao resulte nao em transfor- sua especificidade historica e transplantadas para um novomacao, mas em(deslocamentoP)da nova posicao fazem-se terreno, com muito cuidado e paciencia" (RG). Ao fazernovas pressoes. isso, as ideias se tornam uteis para pensar ra£a e etnicidade As pressoes se efetuam dentro de uma situacao complexa. em outros climas e epocas. Em outro momento, comparaEm um trecho do texto intitulado "Que negro1 e esse na o ambiente de trabalho do CCCS a uma estufa (FID) altamentecultura negra?", Hall explica o dificil quadro em que se faz seletiva, onde os Estudos Culturais puderam ser cultivadospoliticas culturais negras e se produz cultura: em condicoes otimas, embora artificials. Teorizar^significava responder a enigmas e lidar cpjn^^jmj^oo^d^jiQY^s^m^vi^ nientos sooais., No~CCCS tratou-se de travar uma luta com e Etnicidades dominantes sao sempre sustentadas por uma eco- nomia sexual especifica, uma figuracao especifica de masculi- contra teorias, como se fosse Jaco com o anjo (cf. LT). Lutar nidade, uma identidade especifica de classe. Nao existe garantia, com as teorias dessa forma significava nao aceitar sua autori- quando psocuramos uma identidade racial essencializada da dade como se fosse divina. O trabalho teorico e um corpo-a- qual pensamos estar seguros, de que sempre sera mutuamente corpo com outros teoricos, sua autoridade e seus discipulos, libertadora e progressista em todas as outras dimensoes. [...] De sua historia e mudancas de rumo. E um jogo agonistico, mas fato nao € nada surpreendente a pluralidade de antagonismos nao e uma mera brincadeira, pois e fundamentalmente util e diferencas que hoje procuram destruir a unidade da politica negra, dadas as complexidades das estruturas de subordinacao na busca de respostas a questoes complexas que grupos e que moldaram a forma como nos fomos inseridos na diaspora sociedades enfrentam. Pois, para Hall, o social ainda existe, negra (QN). sim, e como Deleuze, ele entende que as teorias sao caixas de ferramentas a serem usadas em seu beneficio. Ressaltam-se as tensoes: a pergunta sobre identidade negra Com a preocupacao de fazer dialogar uma teorizacaoa que se refere o titulo do artigo reverte para a consideracao complexa e sofisticada com as demandas de segmentos socials,critica da etnicidade dominance; a id_entidade_jiegra_. e_ gtra- JHtal^transferiu-se. em 1979. de Birmingham_para a_Opjgn t inclusive dgjgenero e orien- University, uma instituicao de ensino superior na qual adultostacao sexual. A politica identitaria essencialista aponta para obtem diplomas universitarios atraves de uma combinacaoalgo pelo qual vale lutar, mas nao resulta simplesmente em de educacao a distancia e seminaries intensivos. De la dirigiu,libertacao da dominacao. Nesse contexto complexo, as com exito, esforcos para^institucionali7:ar Qg_EsjLudos Culturaispoliticas culturais e a luta que incorporam se trava em muitas britanicos, fazendo deles abordagem que engajavafrentes e em todos os niveis da cultura, inclusive a vida coti- os intelectos nao so na estufa. mas tambem em_camposdiana, a cultura popular e a cultura de massa. Hall ainda mais amplo_s_da_p_opulacao britanica cujo_aces_^J_e_ducacag acrescenta um complicador, no final do texto: o meio mercan- superior era Umjtado ou recente, Nos anos 80 e 90, veio a tilizado e estereotipado da cultura de massa se constitui de aceitacao dos Estudos Culturais no meio academico britanico representacoes e figuras de um grande drama mitico com o e sua incorporacao pela industria editorial como linha de qual as audiencias se identificam, .e^mais uma experiencia producao academica e de interesse geral, com boas vendas._de_ fantasia do que de auto-reconhecimento. Finalmente, Stuart Hall assistiu a um crescente interesse pelos A construcao por Hall do problema e argumento sobre Estudos^Culturais fora da Gra-Bretanha, por estudlosos nos politicas culturais negras coloca em pauta uma constelacao mais diversos lugares, principalmente no enorme e rico meio de ideias em tensao umas com as outras, criando uma espe- universitario dos Estados Unidos. cie de cama-de-gato ou ponte pens^l. O proprio Hall usa Q__trahajho_d£_Hall focaliza a "questao paradigmatica da metaforas diferentes para descrever seu trabalho. Ja fez teoria cultural", ou seja, "c.Qrno_!pensar, de forma nao redu- jardinagem teorica com as ideias de Gramsci, que podem .^as. re 1 acqes_ejitre_^i^ociaj/.__ejp_simholico" (AW).12
  10. 10. O pensamento tern um peso especifico, pois o_discurso teorico rasura" (metafora derridiana, a qual Hall recorre frequente- £ uma^ratica^ultu^l^ntica^que se faz^comapretensao de mente) da constatacao de ingenuidade. Este intelectual, intervir em uma discussaojnais ampja ; por natureza, ajteoiia lembra, trabalha em duas frentes. Deve saber mais do que o tern ess^pote^noal^de^ntervgngao. Quando reve a questao intelectual tradicional, estar "na vanguarda do trabalho te6- da~ ideblogia, Hail diz: "Tambem quero coloca-la [a ideologia] rico intelectual" e, ao mesmo tempo, repassar seu saber para enquanto um problema geral — um problema para a teoria intelectuais fora da academia. Os intelectuais tradicionais porque tambem e um problema para a poKtica e a estrategia." se colocam ao lado do conhecimento e interesses sociais (PI)- A teoria e uma tentativa de solucionar problemas poli- ja estabelecidos. Os intelectuais organicos sag comprome- ticos e estrategicos; nao uma elaboracao a partir deles. ^A tidos com un^^abglho inteteclu^ teoria e uma tentativ^^de_^aber_algo__que, por sua vez, leva sociais e economicas. a um novo ponto de partida em um p_r_ocesso_se.rn.pj:ejnac.a- No mesmo texto, apresentado a uma plateia de academicos Bacfo de~Tndagag"ao~e~descoberta; nao_e um sistema_ _C[ue norte-americanos, na conferencia sobre cultural studies na util.na A University of Illinois at Champaign-Urbana, em 1990, Hall diferenca de enfase e importante e esclarece por que, para afirma a necessidade de uma compreensao politica dos Hall, a teoria e "um conhecimento conjuntural, contestado Estudos Culturais que leve em conta a "sujeira do jogo e local", mais do que uma manifestacao da vontade de ver- semi6tico", a qualidade "mundana" do que esta em jogo, dade (LT). Por esta razao, o legado teorico do CCCS nao toma seu arraigamento em fenomenos sociais que incluem em- a forma de um referencial teorico, na visao de Hall, mas de presas e classes sociais, nac.6es e generos. O riso de superio- um posicionamento sobre o que significa fazer trabalho inte- ridade perante o romantismo nos primordios dos Estudos lectual serio hoje. Essa postura entende os Estudos. Oolturais Culturais encontra seus limites em novas metaforas: QJL como projeto que implica o_envolyimento com — e a consti- Estudos CuJturai-S—nascejram impuros. nao como denomi- tuicao teorica de — forc.as de mudanca_econ 6m icaj^ social. nac.ao ou igreja academica. Metaforas regem a compreensao Os textos neste livro seguem as convenc,6es do genero da situacao retratada, e a compreensao do que esta em jogo teorico-academico. Podem ser lidos em busca de concei- passa pelas tensoes que a comparacao metaforica suscita. Mas tuac,6es de hegemonia, ideologia, agenciamento politico, as metaforas nao sao somente a forma elegante que Hall tern art.iculac.ao, globalizacao, por exemplo, ou, em uma leitura de dizer varias coisas ao mesmo tempo. Sao, em si, reconheci- mais transversal, a perspectiva de Hall sobre. a relacao entre mentos de que a substancia, a materialidade da vida social, ao©•os meios de comunicacjio e a cultura, o lugar da historia no mesmo tempo escapa e e captada na linguagem, Os Estudos_ estudo da cultura contemporanea, a sua epistemologia ou, Culturais se fazem na propria ...tggsaoentre_a discursividade e ainda, a maneira pela qual le questoes das etnicidades domi- putras questoesj^ujsjrnp^^ nantes e de genero. Essas leituras e outras se enriquecerao ramente abarcadas pela textualidade critica" (LT). Um tema ao levar em conta a consciencia de jjall dametafora xomn que capta essa tensao claramente e o da _mistura_ cultural, caminho e limite de_compreensao. Em "Estudos Culturais e me^tic^gejrj^JubrjclJ^rjacL-Hall afirma o valor estrategico dos sexT le gacTote orico " t relata que "a~b~usca de uma pratica insti- discursos de identidade negra diante do racismo, com suas tucional que pudesse produzir um intelectual organico" foi a multiplas raizes nos diversos niveis da formacao social: poli- metafora que orientou o trabalho do CCCS nos anos 70, tico, economico, social, cultural. Ao mesmo tempo, em um embora nao se conseguisse identificar o "movimento historico movimento que parece paradoxal, enfoca_sempjre .o jogo emergente" no qual o intelectual organico se inseriria. Tam- da diferenca, a differance, a natureza intrinsecamente hibri- pouco, no CCCS, se teria reconhecido tal intelectual organico dizac|a_de_ toda tdegtidade e das_i.d^XLtj.da_d£sldias,po^ricjt.s que se procurava produzir, diz. A metafora gramsciana de ernesp,ec . O paradoxo se desfaz quando se entende que *r————- trabalho intelectual presente em Birmingham esta "sob a .a (Tdentidade)e um lugar assume, uma costura de 14 15
  11. 11. e coatexto, e nao uma essencia ou substancja a esclarecem suas preocupacoes teoricas. Nos ajudam a entenderser examinada. os paralelos entre as circunstancias de Gramsci e o contexto Outra tensao entre discursos e suas circunstancias, obser- contemporaneo do estudo de raca e etnia. Mapeiam o terrenovada no trabalho de Hall, e gerada pela consciencia da no qual as ideias de Gramsci cresceram.posicao, da tensao entre quern narra e o que e narrado no No entanto, a elaboracao da posiclo (positionality) naotrabalho critico-teorico, uma consciencia tipica da atual cri- deve ser confundida com uma especie de extrapolac.ao teo-tica cultural. A abordagem de Hall a essa questao responde, rica de questoes particulares. Nem se deve entender que _ode um lado, a qualquer tendencia de desarraigar as teorias reconhecimento da localizagao historica seja uma questao dedos problemas aos quais se dirigem, em um processo de reconhecer e, portanto, de neutralizar a subjetividade comoexcessiva abstracao. Esses excesses, frequentemente, levam ponto de partida de qualquer discurso. Ao contrario, quernao determinismo e reducionismo. Sobre esse tema, Hall escreve teoria precisa gj]j££4ec-QsJJrmtes de sua experiencia"lutou" com(Marx> o economicismo do marxismo classico. e, em um esforc.o de imaginacao, de abstrac/ao, comunicar-se Seu engajamento com Marx foi por se sentir atraido por uma alem delas. Afirma Hall em "Estudos Culturais e a politica teoria~dcTcapital e classe social, de poder e exploracao, da da internacionaliza^ao": pratica da produc.aq de conhecimentos criticos; mas discor- dava do espae/o relativamentejgecrueno destinado-a-cultura, a Sempre se deve ter consciencia da forma especifica da propriaIdeblogia e ao simboligo^elo marxismo classico, e do euro- exisiencia. As ideias nao sao simplesmente determinadas pela centrismo implicito no modelo de transformacao capitalista de experiencia; podemos terjxleias fora da propria experiencia.. Marx, pois ignora o fato de que as potencias metropolitanas Mas precisamos reconhecer tambem que a experiencia tem uma impuseram o capitalismo nas colonias, ele nao evoluiu rumo forma, e se nao refletirmos bastante sobre os limites da propria as colonias de forma organica, "a partir de suas proprias trans- experiencia (e a necessidade de se fazer um deslocamento conceitual, uma traducao, para dar conta de experiencias que formacoes".^ Decorre desse engajamento com Marx a distingao pessoalmente nao tivemos), provavelmente vamos falar a partir recorrente, em Hall, entre a determinacao (determinacy) do continente da propria experiencia, de uma maneira bas- enquanto condicao e gama de possibilidade, enquanto loca- tante acritlca. Eu acho que isso acontece nos estudos culturais lizacao e orientacao historicas, de um lado, e a determinacao hoje. 5 (determination) que implica em um modelo de sistema eco- nomico capitalista integrado e autotransformador, que A imagem do iludido, ilhado, falando a partir de seu arrasta outras dimensoes da sociedade consigo, definindo-as proprio continente, coincide com as criticas frequentes de no caminho. Hall ao "puramente discursive" e a "fluencia teorica" (LT). Hall Novamente,(ijnimscrpode servir de Hustracao de como a explica o que separa o discurso teorico fluente das questoes distincao funciona em Hall. Um breve relato biografico desse de "poder, historia, politica" que esse discurso ignora, citando sardenho, que migrou para o norte da Italia e se envolveu sua experiencia como diretor do CCCS na epoca do surgimento com o movimento operario e o Partido Comunista em Turim, explosive do feminismo, quando descobrkr que "falar de abrir e feito em "A relevancia de Gramsci para o estudo de raca e mao do poder e radicalmente diferente de ser silenciado" (LT). etnicidade". Mesmo depois de abandonar o nacionalismo Mas a questao nao e de opor a experiencia vivida ao discurso, de sua juventude a favor do comunismo, Gramsci pensou a de tal forma que a subjetividade autorize o discurso, mas reco- relacao entre setores camponeses e industriais, e as desi- nhecer que o trabalho de elaborac.ao e produ^ao de cultura, gualdades regionais criadas a partir de relacoes internas em todos os ambitos, e de interesse publico, politico. "colonials", conforme Hall as qualifica. A localizacao de Evidentemente, sempre ha diferentes interesses em jogo. Gramsci na Italia em uma conjuntura historica especifica, uma Em Hall, F. R. Leavis e uma referenda negativa recorrente e descricao do caminho que adotou e os problemas que tratou 16 17
  12. 12. representa interesses politicos e teoricos antagonicos, ate diasporico € constitutiva de seu trabalho, enquanto ele falamesmo porque a relacao entre a cultura e a sociedade do centre da Europa.contemporanea e o foco de interesse de ambos. Leavis^e O conteudo deste livro pode ser percorrido com diversosreferencia negativa porque aposta na Civilizacao (europeia) mapas e, entre eles, foram pensados pelo menos quatro: a Qe nos classicos da literatura como antidoto aos efeitos dis^ussag^da^dejiJldacIe rulniral, da questao racial e donefastos da publicidade e da cultura de massa. Memoravel racismq;-aformagao do campo de interesses, a abordagemfrase, escrita por Q. D. Leavis, mulher, colega e adepta de e o acumulo de cojjjiecimentos que se apresentam comoF. R.<Leavis>, resume, em uma caricatura involuntaria, a valo- "Estudos CulturaisVa questao da contestacao a hegernoniarizacao ~do canonico do Leavisism e seu horror diante_da_ oJ[turalnj_sociedade mediatica e de jconsumo;; p^dialogo;3cultura de massa. Sobre a epoca de Shakespeare, Marlowe e critico de Hall com cqrrentes cpntejmppj;aneaA.de_p£nsjamentoa drarfiaturgia elizabetana, Q. D. Leavis escreveu: "As massas sobre cultura,. Os textos, lidos a partir de perspectivas di-tiveram os mesmos divertimentos que seus superiores... versas, criam uma topografia de varios niveis de abstracao,Felizmente, nao tinham escolha."6 A critica recorrente de Hall tons e prop6sitos, de problematicas e preocupagoes teoricasao "puramente discursive", de um lado, e a F. R. Leavis, de diferentes. Comecam com tres ensaios sobre importantesoutro, convergem sobre esse ponto: a sua limitacao aos questoes atualmente em debate.valores e ao "continente" academicos. O ensaio "Pensando a diaspora" aborda identidades cari- O elitismo cultural e o moralismo no estilo dos Leavis benhas diasporicas sob as condicoes contemporaneas detendem a ser coisa do passado na discussao teorica, embora globaliza^ao. Hall examina os mitos de origem, sua necessi-continuem fazendo parte do senso comum, presentes no dade e perigos quando levados ao pe da letra; pensa a Africadesprezo pelo discernimento ou gosto popular. O eurocen- como elemento que sobreviveu e como meio de sobrevi-trismo ainda esta vivo nos pressupostos e discursos da midia vencia na diaspora, dgfende_a hibridiza^ao ou "impureza"e da cultura de massa, a historia colonialista se recicla nos cultural enquanto a "forma emi que odiscursos publicos contemporaneos. Ao definir-se como Assim, a velha politica identitaria de reivindicacao, resposta^inteleclual diasporico", Hall escolhe o lugar que o discurso e negociacao e vista contra um pano de fundo em que aseurocentrico destina a ele, um lugar de negro. Por isso, este intervencoes das margens nunca consolidam uma posie.aoHvro nao tern so um conjuntodeensaios nos quais Hall final, essencial, embora sua afirmacao tenha o que Halltrabalha a questao de raca e racismo, como "Que negro e chama de "repercussoes reais e conceituais" em um processoesse na cultura negra?", "A relevancia de Gramsci para o que envolve nao so a conhecida globalizac.ao economica, masestudo de raca e etnicidade" e "Pensando a diaspora". Quern as dimensoes culturais de fluxos migratorios, a producaoo ler tambem vai encontrar o tema de raca e racismo na artistica e as raizes, novas e antigas. Em "A questao multi-discussao da ideologia em "Significacao, representacao, ideo- cultural", Hall discute as mudancas culturais e politicas nalogia: Althusser e o debate pos-estruturalista". Vai encontrar Gra-Bretanha sob a rubrica abrangente do "multicultural" ereferencias ao legado cultural do colonialismo e reflexoes procura proper uma politica identitaria em uma epoca desobre hierarquias, sua construcao historica e eventuais des- globalizacao contradit6ria, que evite os extremes do indivi-tinos em praticamente todos os ensaios. Hall nao e um teo- dualismo liberal e do relativismo cultural. Embora se dirija arico que se dedica ao "negro-tema", que Guerreiro Ramos situac.ao britanica, marcada por ondas recentes de migracaodefine como "coisa examinada, olhada, vista".7 Tampouco e das antigas colonias, pode ser uma contribuicao para a re-um grande mestre cuja preocupacao com questoes raciais flexao sobre aspectos teoricos da politica cultural brasileira possa ser entendida como uma especie de hobby militante. e as transformacoes do discurso identitario nacional. Fala desde uma dupla diaspora, africana no Caribe e cari- JQuando foi o pos-colonial?" defende o paradigma pos- benha na Gra-Bretanha. Assim, a perspectiva do critico como colonial contra o "retorno do reprimido". o eurocentrismo,18 •Lotf 19
  13. 13. e demonstra a importancia atribuida por Hall nao_s6 as poli- Em "A formacao de um intelectual diasp6rico", uma entre- ticas culturais, mas a "politica da teoria" e os rumos do debate vista que pode, com proveito, ser lida em primeiro lugar, Hall"Intel ectuaf. fala das condicoes pessoais, institucionais e historicas de Em "Estudos Culturais: dois paradigmas", de 1980, Hall seu trabalho. Finalmente, em "Codificacao/Decodificacao" avalia os Estudos Culturais ate entao. Examina os pontos uma teoria da recepgao da televisao, talvez seja o texto maisTortes e traces da abordagem culturalista a cultura, a ideo- classicamente teorico, pois e de um alto mvel de abstracao logia e sua articulacao a outros niveis de praticas sociais, e ja gerou muitos estudos e discussoes por contornar a focalizando sobretudo o trabalho de Raymond Williams e seu tradicao behaviorista na pesquisa de audiencia. Publica-se dialogo com E. P. Thompson. Depois, avalia a abordagem junto com "Reflexoes sobre o Modelo Codificar/Decodificar", estruturalista de Althusser e Levi-Strauss. O texto foi escrito em que Hall coloca os termos do modelo em contexto histo- na epoca de uma polemica de E. P. Thompson contra os rico e avalia seus pontos fracos e fortes. althusserianos. Para Hall, Thompson chegava perto demais Estes doze ensaios e as duas entrevistas sao publicados da evocacao de uma experiencia em estado bruto como em uma conjuntura especifica, no Brasil. A identidade racial lastro da narrativa historiografica e da ideologia e abando- brasileira e as formas brasileiras de racismo estao no centra nava precipitadamente &• contribuicao de Althusser.8 "Signifi- do debate politico-cultural. Estao nos discursos dos meios de cacao, representacao, ideologia", de 1985, da continuidade comunicacao e nos produtos culturais de massa, em pronun- ao debate em torno de cultura e ideologia, relembrando o ciamentos oficiais e nas universidades, onde a propensao a Althusser de A favor de Marx, e fazendo sua critica a partir estudar as tendencias sociais como se fossem externas foi de teorias da linguagem de Bakhtin/Volochinov.9 "Estudos. interrompida pela proposta de cotas para alunos negros nas Culturais_e^s_eu legado teorico", publicado em 1992, ^e urn universidades, feita por diversas instancias de governo. As texto mais^metodologico e politico, e faz o balalico mais^ politicas federals para a educacao superior vem provocando recemejdos Estados--Culturais. "Para Allon White: metaforas um debate sobre o lugar social e institucional do trabalho de transformacao" analisa a "virada lingiiistica" nos Estudos intelectual, sobre o qual Stuart Hall tern tanto a dizer. A Culturais com o impacto de Bakhtin. selegao dos textos foi influenciada por essa conjuntura poli- Preocupagoes com o popular permeiam os textos. "Notas tica, cultural e academica e tambem pela preocupacao em sobre a desconstrucao do popular", escrito logo ap6s a apresentar boas traducoes de textos, ja consagrados ou mais vitoria eleitoral de Margaret Thatcher, faz uma discussao recentes, relacionados a esses e outros temas atuais — poli- conceitual e historica do que seja o popular. "Que negro e ticas culturais democraticas, por exemplo. esse na cultura negra?" e um exemplo claro do metodo anali- Espera-se, com esta publicacao, que Stuart Hall possa ser tico de Hall e seu interesse por "politicas culturais que lido com a delicadeza, paciencia e cuidado que ele dedicou facam diferenca"; forma o nexo para uma resposta a per- a Gramsci, Althusser, Bakhtin e muitos outros, e que seja gunta do que resta de "negritude" quando a industria cul- proveitosamente discutido, explicado, questionado e contes- tural a acolhe. "O problema da ideologia: o marxismo sem tadp em sua adequacao a situacoes brasileiras e latino- garantias" e a chave da relacao um tanto fora-de-moda de americanas. Sirvam-se. Hall com o marxismo em epoca pos-marxista e apres.enta a compreensao de Hall de que|Tcle~nTiffadelt s5o jituacoes.j "A Liv Sovik relevancia de Gramsci para o estudo de raca e etnicidade", encomendado pela Unesco para um coloquio sobre racismo Rio de Janeiro, outubro de 2002 em 1985, apresenta a posi^ao de Hall sobre Gramsci e faz a transigao entre seu pensamento anterior, mais ligado a ide- ologia, e o atual, que passa pela identidade e o discursive. 20 21
  14. 14. NOTAS1 As iniciais maiusculas entre parenteses se referem aos titulos dos seguintesensaios contidos neste livro: Estudos Culturais e seus legados teoricos(LT); Para Allon White: metaforas de transforrnacao (AW); Notas sobre adesconstrucao do "popular" (NP); O problema da ideologia: o marxismosem garantias (PI); A relevancia de Gramsci para o estudo de raca e etnici-dade (RG); Que "negro" e esse na cultura negra? (QN); A formacao de umintelectual diasporico (FID).2 HALL, Stuart. The Determinations of News Photographs. Working Papers inCultural Studies, CCCS, n. 3, 1973-3 Cf. HALL, Stuart; JEFFERSON, Tony (Org.). Resistance Through Rituals.-Youth Subcultures in Post-War Britain. London: Hutchinson/CCCS, 1976.4 Esta descricao se baseia em "Estudos Culturais e seu legado teorico", mas odebate de Hall com Marx e o marxismo se encontra em maior profundidadeem "O problema da ideologia", (ambos se encontram neste volume) e emensaios anteriores, tais como: "Marxs Notes on Method; A Reading 1 of the1857 Introduction" (in: Working Papers in Cultural Studies 6, Birmingham,University of Birmingham, p. 132-171, 1977); "Culture, the Media and theIdeological Effect1" (in: CURRAN, James (Ed.). Mass Communication andSociety. London: Edward Arnold, 1977. p. 315-348); "The Hinterland ofScience: Ideology and the Sociology of Knowledge" (HALL, S.; LUMLEY,B.; MCLENNAN, G. (Ed.). On Ideology. London: Hutchinson/CCCS, 1978.Traducao brasileira: Da ideologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1980).5 HALL, Stuart; CHEN, Kuan-Hsing. Cultural Studies and the Politics of Inter-nationalization: an Interview With Stuart Hall. In: MORLEY, David; CHEN,Kuan-Hsing (Org.). Stuart Hall: Critical Dialogues in Cultural Studies.Londres: Routledge, 1996. p. 401.6 Citado por John Storey in: SIM, Stuart (Org.). The A~Z Guide to Modern CONTROVERTSLiterary and Cultural Theorists. Londres: Prentice Hall/Harvester Wheatsheaf,1995. p. 255-7 GUERREIRO RAMOS, fntroducdo critica a sociologia brasileira. Rio deJaneiro: Editora da UFRJ, 1995. p. 215.8 Cf. THOMPSON, E. P. The Poverty of Theory. Londres: Merlin Press, 1995/1978; HALL, Stuart. Defense of Theory. In: SAMUEL, Raphael (Org.). PeoplesHistorv and Socialist Theory. London: Routledge & Kegan Paul, 1981;THOMPSON, E. P. The Politics of Theory. In: SAMUEL, Raphael (Org.).Peoples History and Socialist Theory. London: Routledge & Kegan Paul,1981. "Quern precisa de identidade?", ja publicado no Brasil, leva a discussaomais adiante, deixando de lado o termo "ideologia" e discutindo subjetivi-dade e discurso identitario, o social e o simbolico, Lacan e Foucault. In:SILVA, Tomaz Tadeu da (Org.). Identidade e diferenca. Petropolis: Vozes,22
  15. 15. PENSANDO A DIASPORA REFIEXOES SOBRE A TERRA NO EXTERIOR A ocasiao desta palestra foi o quinquagesimo aniversariode fundacao da Universidade das Indias Ocidentais (UWI).Mil novecentos e quarenta e oito foi tambem, por acaso, oano em que o SS Empire Windrush, um navio-transporte,chegava as Docas de Tilbury no Reino Unido, trazendo seucarregamento de voluntarios caribenhos que retornavam delicenc a, junto com um pequeno grupo de migrantes civis. Esseevento significou o comeco da migracao caribenha para aGra-Bretanha no pos-guerra e simboliza o nascimento dadiaspora negra afro-caribenha no pos-guerra. Seu aniversarioem 1998 foi comemorado como simbolo "da irresistivelascensao da Gra-Bretanha multirracial".1 A migracao tern sido um tema.constante na narrativa cari-benha. Mas o Windrush iniciou uma nova fase da formacaodiasporica cujo legado sao os assentamentos negros cari-benhos no Reino Unido. Meu objetivo aqui nao e oferecerum relato hist6rico da evolucao dessa diaspora — emborasua dificil historia mereca ser melhor conhecida no Caribe,ate mesmo (ouso dizer) estudada mais sistematicamente.O destino dos caribenhos que vivem no Reino Unido, nosEstados Unidos ou no Canada nao e mais "externo" a historiacaribenha do que o Imperio foi para a chamada historiainterna da Gra-Bretanha, embora esta seja a forma como, defato, a historiografia contemporanea os construa. Em todocaso, a questao da diaspora e colocada aqui principalmente
  16. 16. por causa da luz que ela e capaz de lancar sobre as complexi- Contudo, seria errSneo ver essas tendencias como alsodades, nao simplesmente de se construir, mas de se imaginar singular ou nao ambiguo. Na situacao da diaspora, as identi-a nacao [nationhood e a identidade caribenhas, numa era de dades se tornam multiplas. Junto com os elos que as ligam aglobalizacao crescente. uma ilha de origem especifica, ha outras forcas centripetas: As nacoes, sugere Benedict Anderson, nao sao apenas ha a qualidade de "ser caribenho" [West-Indianness] queentidades politicas soberanas, mas "comunidades imaginadas".2 eles compartilham com outros migrantes do Caribe. (GeorgeTrinta anos apos a independencia, como sao imaginadas as Lamming afirmou uma vez que sua geracao — e, incidental-nacoes caribenhas? Esta questao e central, nao apenas para mente, a minha — tornou-se "caribenha", nao no Caribe, masseus povos, mas para as artes e culturas que produzem, onde em Londres!) Existem as semelhancas com as outras popu-um certo "sujeito imaginado" esta sempre em jogo. Onde lagoes ditas de minoria etnica, identidades "britanicas negras"comecam e onde terminam suas fronteiras, quando regional- emergences, a identificacao com os locais dos assentamentos,mente cada uma e cultural e historicamente tao proxima de tambem as re-identificacoes simb61icas com as culturas "afri-seus vizinhos e tantos vivem a milhares de quilometros de canas" e, mais recentemente, com as "afro-americanas" —"casa"? Como imaginar sua relacao com a terra de origem, a todas tentando cavar um lugar junto, digamos, &. sua "barba-natureza de seu "pertencimento"? E de que forma devemos dianidade" [Barbadianness].pensar sobre a identidade nacional e o "pertencimento" no Os entrevistados de Mary Chamberlain tambem falamCaribe a luz dessa experiencia de diaspora? eloquentemente da dificuldade sentida por muitos dos que Os assentamentos negros na Gra-Bretanha nao sao total- retornam em se religar a suas sociedades de origem. Muitosmente desligados de suas raizes no Caribe. O livro Narratives sentem falta dos ritmos de vida cosmopolita com os quaisof Exile and Return, de Mary Chamberlain, que contain tinham se aclimatado. Muitos sentem que a "terra" tornou-sehistorias de vida dos migrantes barbadianos para o Reino irreconhecivel. Em contrapartida, sao vistos como se os elosUnido, enfatiza como os elos permanecem fortes.3 Tal qual naturais e espontaneos que antes_ possuiam tivessem sidoocorre comumente as comunidades transnacionais, a familia interrompidos por suas experiencias diasporicas. Sentem-seampliada — como rede e local da memoria — constitui o felizes por estar em casa. Mas a historia, de alguma forma,canal crucial entre os dois lugares. Os barbadianos, sugere interveio irrevogavelmente.ela, tern mantido vivo no exilio um forte senso do que e Esta e a sensacao familiar e profundamente moderna dea "terra de origem" e tentado preservar uma "identidade des-locamento, a qual — parece cada vez mais — nao preci-Cultural" barbadiana. Esse quadro e confirmado por pesquisas samos viajar muito longe para experimentar. Talvez todos nosrealizadas entre os migrantes caribenhos em geral no Reino sejamos, nos tempos modernos — apos a Queda, digamos —Unido, o que sugere que, entre as chamadas minorias etnicas o que o filosofo Heidegger chamou de unheimlicheit— literal-na Gra-Bretanha, aquilo que poderiamos denominar "identi- mente, "nao estamos em casa". Como Iain Chambers eloquen-ficacao associativa" com as culturas de origem permanece temente o expressa:forte, mesmo na segunda ou terceira geracao, embora oslocais de origem nao sejam mais a unica fonte de identifi- Nao podemos jamais ir para casa, voltar a cena primariacacao.4 A forca do elo umbilical esta refletida tambem nos enquanto momento esquectdo de nossos comedos e "autentici-numeros crescentes de caribenhos aposentados que retornam. dade", pois ha sempre algo no meio [between}. Nao podemosA interpretacao de Chamberlain e de que "uma determina^ao retornar a uma unidade passada, pois so podemos conhecer o passado, a memoria, o inconsciente atraves de seus efeitos,de construir identidades barbadianas autonomas na Gra- isto e, quando este e trazido para dentro da linguagem e deBretanha (...) se permanecerem as tendencias atuais, podera la embarcamos numa (interminavel) viagem. Diante da "flo-ser potencializada e nao diminuir com o tempo".5 resta de signos" (Baudelaire), nos encontramos sempre na26 27
  17. 17. encruzilhada, com nossas historias e mem6rias ("reliquias pelo Grande Exodo — "o movimento do Povo de Jah" secularizadas", como Benjamin, o colecionador, as descreve) que os livrou do cativeiro, e do retorno a Terra Prometida. ao mesmo tempo em que esquadrinhamos a constelacSo Esta € a wr-origem daquela grande narrativa de liberta^ao cheia de tensao que se estende diante de n6s, buscando a linguagem, o estilo, que vai dominar o movimento e dar-Ihe esperanca e redencao do Novo Mundo, repetida continua- forma. Talvez seja mais uma questao de buscar estar em casa mente ao longo da escravidao — o Exodo e o Freedom Ride.1 aqui, no unico momento e contexto que temos...6 Ela tem fornecido sua metafora dominante a todos os dis- cursos libertadores negros do Novo Mundo. Muitos creem Que luz, entao, a experiencia da diaspora lanca sobre as que essa narrativa do Velho Testamento seja muito maisquestoes da idencidade cultural no Caribe? Ja que esta e uma potente para o imaginario popular dos povos negros do Novoquestao conceitual e epistemologica, alem de empirica,_o Mundo do que a assim chamada estoria do Natal. (De fato,que a experiencia da diaspora causa a nossos modelos de naquela mesma semana em que esta palestra foi proferidaidentidade cultural? Como podemos conceber ou imaginar a no campus Cave Hill da UWI, o jornal Barbados Advocateidentidade, a diferenca e o pertencimento, apos a diaspora? — antecipando as comemoracoes da independencia — atri-Ja que "a identidade cultural" carrega consigo tantos tragos buiu os tftulos honorarios de "Moises" e "Aarao" aos "paisde unidade essencial, unicidade primordial, indivisibilidade e fundadores" da independencia de Barbados, Errol Barrow emesmice, como devemos "pensar" as identidades inscritas nas Cameron Tudor!)relacoes de poder, construidas pela diferenca, e disjuntura? Nessa metafora, a historia — que se abre a liberdade por Essencialmente, presume-se que a identidade cultural .seja, ser contingent^ — e representada como teleologica e reden-fixada no nascimento, seja parte da natureza, impressa atraves tora: circula de volta a restauracao de seu momento origi-do parentesco e da linhagem dos genes, seja constitutiva de nario, cura toda ruptura, repara cada fenda atraves dessenosso eu mais interior. E impermeave! a algo tao "mundano", retorno. Essa esperanca foi condensada, para o povo cari-secular e superficial quanto uma mudanga temporaria de benho, em uma espe"cie de mito fundador. Pelos padroesnosso local de residencia. A pobreza, o subdesenvolvimento, usuais, trata-se de uma grande visao. Seu poder — mesmoa falta de oportunidades — os legados do Imperio em toda no mundo moderno — de remover montanhas jamais deveparte — podem forgar as pessoas a migrar, o que causa o ser subestimado.espalhamento — a dispersao. Mas cada disseminacao carrega Trata-se, e claro, de uma concepcao fechada de "tribo",consigo a promessa do retorno redentor. diaspora e patria. Possuir uma identidade cultural nesse Essa interpretacao potente do conceito de diaspora e a sentido e estar primordialmente em contato com um nucleomais familiar entre os povos do Caribe. Tornou-se parte do imutavel e atemporal, ligando ao passado o future e onosso recem-construido senso coletivo do eu, profundamente presente numa linha ininterrupta. Esse cordao umbilical e oinscrita como subtexto em nossas historias nacionalistas. que chamamos de "tradicao", cujo teste e o de sua fidelidadeE modelada na historia moderna do povo judeu (de onde o as origens, sua presenca consciente diante de si mesma, suatermo "diaspora" se derivou), cujo destine no Holocausto "autenticidade". E, claro, um mito — com todo o potencial— um dos poucos episodios historico-mundiais comparaveis real dos nossos mitos dominantes de moldar nossos imagi-em barbaric com a escravidao moderna — e bem conhecido. narios, influenciar nossas a^oes, conferir significado asMais significante, entretanto, para os caribenhos 6 a versao nossas vidas e dar sentido a nossa historia. da hist6ria no Velho Testamento. La encontramos o analogo, Os mitos fundadores sao, por definicao, transistoricos: nao crucial para a nossa historia, do "povo escolhido", violenta- apenas estao fora da historia, mas sao fundamentalmente mente levado a escravidao no "Egito"; de seu "sofrimento" aistoricos. Sao anacronicos e tem a estrutura de uma dupla nas maos da "Babilonia"; da lideranca de Moises, seguida inscric.ao. Seu poder redentor encontra-se no futuro, que28 29
  18. 18. ainda esta por vir. Mas funcionam atribuindo o que predizem Americo Vespucio e a figura masculina dominante, cercadoa sua descrigao do que ja aconteceu, do que era no principle. pela insignia do poder, da ciencia, do conhecimento e daEntretanto, a historia, como a flecha do Tempo, e sucessiva, religiao: e a "America" e, como sempre, alegorizada comosenao linear. A estrutura narrativa dos mitos e ciclica. Mas uma mulher, nua, numa rede, rodeada pelos emblemas de 9dentro da historia, seu significado € frequentemente trans- uma — ainda nao violada — paisagem exotica.formado- E justamente essa concepcao exclusiva de patria que Nossos povos tem suas raizes nos — ou, mais precisa-levou os servios a se recusarem a compartilhar seu territdrio mente, podem tracar suas rotas a partir dos — quatro cantos— como tern feito ha seculos — com seus vizinhos muful- do globo, desde a Europa, Africa, Asia; foram forc.ados a semanos na Bosnia e justificou a limpeza etnica em Kosovo. juntar no quarto canto, na "cena primaria" do Novo Mundo.E uma versao dessa concepcao da diaspora judia e de seu Suas "rotas" sao tudo, menos "puras". A grande maioriaanunciado "retorno" a Israel que constitui a origem da disputa deles e de descendencia "africana" — mas, como teria ditocom seus vizinhos do Oriente Medio, pela qual o povo pales- Shakespeare, "norte pelo noroeste".10 Sabemos que o termotino tem pago um prec.o tao alto, paradoxalmente, com sua "Africa" e, em todo caso, uma construcao moderna, que seexpulsao de uma terra que, afinal, tambem e sua. refere a uma variedade de povos, tribos, culturas e linguas Aqui entao situa-se o paradoxo. Agora nossos ma-les cujo principal ponto de origem comum situava-se no traficocomegam. Um povo nao pode viver sem esperanc.a. Mas de escravos. No Caribe, os indianos e chineses se juntaramsurge um problema quando interpretamos tao literalmente mais tarde a "Africa": o trabalho semi-escravo [indenture]as nossas metaforas. As questoes da identidade cultural na entra junto com a escravidao. A distinc.ao de nossa culturadiaspora nao podem ser "pensadas" dessa forma.8 Elas tem e manifestamente o resultado do maior entrelagamento eprovado ser tao inquietantes e desconcertantes para o povo fusao, na fornalha da sociedade colonial, de diferentescaribenho justamente porque, entre nos, a identidade e elementos culturais africanos, asiaticos e europeus.irrevogavelmente uma questao historica. Nossas sociedades Esse resultado hibrido nao pode mais ser facilmente desa.-sao compostas nao de um, mas de muitos povos. Suas gregado em seus elementos "autenticos" de origem. O receioorigens nao sao unicas, mas diversas. Aqueles aos quais de que, de alguma forma, isso faga da cultura caribenha nadaoriginalmente a terra pertencia, em geral, pereceram ha muito mais que um simulacro ou uma imitac,ao barata das culturastempo — dizimados pelo trabalho pesado e a doenga. A terra dos colonizadores nao precisa nos deter, pois obviamentenao pode ser "sagrada", pois fbi "violada" — nao vazia, mas este nao e o caso. Mas a logica colonial em funcionamentoesvaziada. Todos que estao aqui pertenciam originalmente a aqui e evidentemente uma "crioulizacao" ou do tipo "trans-outro lugar. Longe de constituir uma continuidade com cultural", no sentido que Mary Louise Pratt da ao termo,os nossos passados, nossa relacjio com essa historia esta seguindo a tradifao de alguns dos melhores textos teoricosmarcada pelas rupturas mais aterradoras, violentas e culturais da regiao.11 Atraves da transculturafao "gruposabruptas. Em vez de um pacto de associagao civil lenta- subordinados ou marginais selecionam e inventam a partirmente desenvolvido, tao central ao discurso liberal da dos materials a eles transmitidos pela cultura metropolitanamodernidade ocidental, nossa "associac,ao civil" foi inaugu- dominante". E um processo da "zona de contato", um termorada por um ato de vontade imperial. O que denominamos que invoca "a co-presenca espacial e temporal dos sujeitosCaribe renasceu de dentro da violencia e atraves dela. A via anteriormente isolados por disjunturas geograficas e histo-para a nossa modernidade esta marcada pela conquista, ncas (...) cujas trajetorias agora se cruzam". Essa perspecttvaexpropriate, genocidio, escravidao, pelo sistema de engenho e dialogica, ja que e tao interessada em como o colonizadoe pela longa tutela da dependencia colonial. Nao e de produz o colonizador quanto vice-versa: a "co-presenca,surpreender que na famosa gravura de van der Straet que interapao, entrosamento das compreensoes e praticas,mostra o encontro da Europa com a America (c. 1600), frequentemente [no caso caribenho, devemos dizer sempre]30 31
  19. 19. no interior de relates de poder radicalmente assimetricas".12 Em Barbados, como esperado, senti maior aproximacao comE a 16gica disjuntiva que a colonizacao e a modernidade a Inglaterra e sua disciplina social implicita — como certaocidental introduziram no mundo e sua entrada na hist6ria vez ocorreu, incidentalmente, mas nao mais, na Jamaica.que constituiram o mundo, apos 1492, como um empreendi- Contudo, os habitos, costumes e a etiqueta social especificosmento profundamente desigual, mas "global", e fez do povo de Barbados sao claramente uma traducao, atraves da escra-caribenho aquilo que David Scott recentemente descreveu como vidao africana, daquela cultura do engenho, intima e de"os recrutas da modernidade".13 pequena escaia, que reconfigurou a paisagem barbadiana. No inicio dos anos 90, fiz uma serie de TV chamada Sobretudo em Trinidad, as complexas tradicoes do "Ocidente"Redemption Song [Cancao da Redencao] para a BBC, sobre e do "Oriente" — das Rainhas do Carnaval Indiano, dasos diferentes tributaries culturais dentro da cultura cari- barraquinhas de roti, pao indiano, no local do carnaval, ebenha. 14 Nas visitas que fiz em relacao a serie, o que me das velas Diwali brilhando na escuridao de Sao Fernando, esurpreendeu for" a presenca dos mesmos elementos rastrea- o ritmo nitidamente hispanico-catolico de pecado-contricao-dores basicos (semelhanca), junto com as formas pelas quais absolvicao (o baile da terca-feira de carnaval seguido pelaestes haviam sido singularmente combinados em distintas missa da quarta-feira de cinzas) tao proximo ao carater deconfiguracoes em cada lugar (diferenca). Senti a "Africa" mais Trinidad. Em toda parte, hibridismo, differance.proxima da superficie no Haiti e na Jamaica. Ainda assim, a O conceito fechado de diaspora se apoia sobre umaforma como os deuses africanos haviam sido combinados com concepcao binaria de diferenca. Esta fundado sobre aos santos cristaos no universe complexo do vodu haitiano construcao de uma fronteira de exclusao e depende daconstitui uma mistura especifica, que apenas se encontra no construcao de um "Outro" e de uma oposicao rigida entre oCaribe ou na America Latina — embora haja analogos onde dentro e o fora. Porem, as configuracoes sincretizadas daquer que sincretismos semelhantes tenham emergido na identidade cultural caribenha requerem a nocao derridianaesteira da colonizacao. O estilo da pintura haitiana frequen- de differance— uma diferenca que nao funciona atraves detemente descrito como "primitivista" e, na verdade, uma das binarismos, fronteiras veladas que nao separam finalmente,mais complexas representacoes — em termos visionarios — mas sao tambem places de passage, e significados que saodessa "dupla consciencia" religiosa. O ilustre pintor haitiano posicionais e relacionais, sempre em deslize ao longo de umque filmamos — Andre Pierre — fazia uma prece a ambos os espectro sem comeco nem fim. A diferenca, sabemos, edeuses, cristao e vodu, antes de iniciar seu trabalho. Como o essencial ao significado, e o significado e crucial a cultura.pintor jamaicano Brother Everald Brown, Pierre via a pintura Mas num movimento profundamente contra-intuitivo, a lingiiis-como uma tarefa essencialmente visionaria e "espiritual". tica moderna pos-saussuriana insiste que o significado naoEle cantava para nos a "historia" de sua tela — "santos" pode ser fixado definitivamente. Sempre ha o "deslize" inevi-negros e viajantes em trajes brancos e torcos cruzando "O tavel do significado na semiose aberta de uma cultura, enquantoRio" — enquanto pintava. aquilo que parece fixo continua a ser dialogicamente reapro- Senti-me proximo a Franca tanto no Haiti quanto na priado. A fantasia de um significado final continua assom-Martinica, mas ha Francas diferentes: no Haiti, a "Franca" brada pela "falta" ou "excesso", mas nunca e apreensivel nado Velho Imperio, cuja derrota foi causada pela Revolucao plenitude de sua presenca a si mesma. Como argumentaramHaitiana (a fusao explosiva da resistencia escrava africana e Bakhtin e Volochinov:das tradicoes republicanas francesas na demanda pela liber-dade sob Toussaint LOuverture). Na Martinica, a "Franca" do A plurivalencia social do signo ideologico e um tra^o da maiorNovo Imperio — do Republicanismo, do Gaullismo, do "chic" importancia (...) na verdade, e este entrecruzamento dos indicesparisiense, atravessado pela transgressao do "estilo" negro e de valor que torna o signo vivo e m6vel, capaz de evoluir.as complexas afiliacoes ao "ser franees" de Fanon e Cesaire.32 33
  20. 20. O signo, se subtraido as tensoes da luta social (...) ira infalivel- reconfiguracao nao pode ser representada como uma "volta mente debilitar-se, degenerara em alegoria, tornar-se-a objeto ao lugar onde estavamos antes", ja que, como nos lembra de estudo dos filologos.15 Chambers, "sempre existe algo no meio".18 Esse "algo no meio" e o que torna o proprio Caribe, por excelencia, o exemplo de Nessa concepcao, os polos binarios do "sentido" e do "nao uma diaspora moderna.sentido" sao constantemente arruinados pelo processo mais A relacao entre as culturas caribenhas e suas diasporasaberto e fluido do "fazer sentido na tradugao". nao pode, portanto, ser adequadamente concebida em termos Essa logica cultural foi descrita por Kobena Mercer como de origem e copia, de fonte primaria e reflexo palido. Tern deuma "estetica diasporica": ser compreendida como a relacao entre uma diaspora e outra. Aqui, o referencial nacional nao e muito util. Os Estados- Numa gama inteira de formas culturais, ha uma poderosa dina- nacao impoem fronteiras rigidas dentro das quais se espera mica sincretica que se apropria criticamente de elementos dos que as culturas floresc.am. Esse foi o relacionamento primario codigos mestres das culturas dominantes e os "criouliza", entre as comunidades politicas nacionais soberanas e suas desarticulando certos signos e rearticulando de outra forma "comunidades imaginadas" na era do dominio dos Estados- seu significado simbolico. A forca subversiva dessa tendencia nacao europeus. Esse foi tambem o referencial adotado pelas hibridizante fica mais aparente no nivel da propria linguagem (incluindo a linguagem visual) onde o crioulo, o patois e o politicas nacionalistas e de construcao da nagao apos a inde- ingles negro desestabilizam e carnavalizam o dominio lingiiis- pendencia. A questao e se ele ainda constitui uma estrutura tico do "ingles" — a lingua-nacao [nation-Ianguagd do meta- util para a compreensao das trocas culturais entre as dias- discurso — atraves de inflexoes estrategicas, novos indices poras negras. de valor e outros movimentos performatives nos codigos A globalizacao, obviamente, nao e um fenomeno novo. Sua semantico, sintatico e lexico.16 historia coincide com a era da exploracao e da conquista europeias e com a formacao dos mercados capitalistas mundiais. A cultura caribenha e essencialmente impelida por uma As primeiras fases da dita historia global foram sustentadasestetica diasporica. Em termos antropologicos, suas culturas pela tensao entre esses polos de conflito — a heterogeneidadesao irremediavelmente "impuras". Essa impureza, tao frequen- do mercado global e a forca centripeta do Estado-nagao —,temente construida como carga e perda, e em si mesma uma constituindo juntas um dos ritmos fundamentals dos primeiroscondigao necessaria a sua modernidade. Como observou certa sistemas capitalistas mundiais.19 O Caribe foi um dos seusvez o romancista Salman Rushdie, "o hibridismo, a impureza, cenarios chave, dentro do qual lutou-se pela estabilizacao doa mistura, a transformac.ao que vem de novas e inusitada_s sistema europeu de Estados-nacao, alcanc.ado em uma seriecombinac.6es dos seres humanos, culturas, ideias, politicas, de acordos imperiais. O apogeu do imperialismo no final dofilmes, cancoes" e "como a novidade entra no mundo". 17 seculo dezenove, as duas guerras mundiais e os movimentosNao se quer sugerir aqui que, numa formagao sincretica,os elementos diferentes estabelecem uma relacao de igual- pela independencia nacional e pela descolonizacao no seculo vinte marcaram o auge e o termino dessa fase.dade uns com os outros. Estes sao sempre inscritos diferen-temente pelas relacoes de poder — sobretudo as rela^oes de Agora ela esta rapidamente chegando ao fim. Os desen-dependencia e subordinacao sustentadas pelo proprio coloz volvimentos globais acima e abaixo do nivel do Estado-nacaonialismo. Os momentos de independencia e pos-colonial, nos minaram o alcance e o escopo de manobra da nacao e, comquais essas historias imperials continuam a ser vivamente isso, a escala e a abrangencia — os pressupostos panopticosretrabalhadas, sao necessariamente, portanto, momentos de — de seu "imaginario". Em qualquer caso, as culturas sempreluta cultural, de revisao e de reapropriagao. Contudo, essa se recusaram a ser perfeitamente encurraladas dentro das34
  21. 21. fronteiras nacionais. Elas transgridem os limites politicos. mapear e mais semelhante a um processo de repeticao-com-A cultura caribenha, em particular, nao foi bem servida pelo diferenga, ou de reciprocidade-sem-comeco. Nessa perspec-referencial nacional. A imposicao de fronteiras nacionais tiva, as identidades negras britanicas nao sao apenas umdentro do sistema imperial fragmentou a regiao em entidades reflexo palido de uma origem "verdadeiramente" caribenha,nacionais e linguisticas separadas e alheias, algo de que ela destinada a ser progressivamente enfraquecida. Sao o resul-nunca mais se recuperou. A estrutura alternativa O Atlantico tado de sua propria formacao relativamente autonoma. En-negro, proposta por Paul Gilrqy, e uma potente contranarra- tretanto, a logica que as governa envolve os mesmos proces-tiva a insercao discursiva do Caribe nas historias nacionais ses de transplante, sincretizacao e diasporizacao que anteseuropeias, trazendo a tona as trocas laterais e as "semelhancas produziram as identidades caribenhas, so que, agora, operamfamiliares" na regiao como um todo que "a historia nacionalista dentro de uma referenda diferente de tempo e espaco, umobscurece".20 cronotopo distinto — no tempo da differance. A nova fase pos-1970 da globalizac.ao esta ainda profunda- Assim, a musica e a subcultura dancehall (salao de baile)mente enraizada na^s disparidades estruturais de riqueza e na Gra-Bretanha se inspiraram na musica e na subculturapoder. Mas suas formas de operacao, embora irregulares, sao da Jamaica e adotaram muito de seu estilo e atitude. Mas agora tem suas proprias formas variantes negro-britanicas emais "globais", planetarias em perspectiva; incluem interesses seus proprios locais. O recente filme sobre dancehall, Baby-de empresas transnacionais, a desregulamentacao dos rher- mother, se localiza "autenticamente" na zona de mistura racialcados mundiais e do fluxo global do capital, as tecnologias e do centro pobre de Harlesden, nas ruas e clubes, nos estudiossistemas de comunicacao que transcendem e tiram do jogo de gravacao e locais de shows, na vida das ruas e zonas dea antiga estrutura do Estado-nacao. Essa nova fase "transna- perigo do norte de Londres.21 As tres garotas ragga,22 suascional" do sistema tem seu "centro" cultural em todo lugar e heromas, compram suas roupas exoticas em outro suburbioem lugar nenhum. Esta se tornando "descentrada". Isso nao de Londres, o Southall, que e familiarmente conhecido comosignifica que falta a ela poder ou que os Estados-na^ao nao Pequena India. Essas differances nao deixam de ter efeitostem funcao nela. Mas essa funcao tem estado, em muitos reais. Ao contrario de outras representacoes classicas doaspectos, subordinada as operacoes sistemicas globais mais dancehall, esse filme traca um mapa das lutas das tres garotasamplas. O surgimento das formacoes supra-nacionais, tais para se tornarem DJs de ragga — dessa forma trazendo paracomo a Uniao Europeia, e testemunha de uma erosao progres- o centro da narrativa a controvertida questao da politicasiva da soberania nacional. A posicao indubitavelmente hege- sexual na cultura popular jamaicana, onde outras versoesmonica dos Estados Unidos nesse sistema esta relacionada ainda a escondem atras de um biombo nacionalista cultural.nao a seu status de Estado-nacao, mas a seu papel e ambi9oes O documentario de Isaac Julien, The Darker Side of Black,globais e neo-imperiais. foi filmado em tres locais — Kingston, Nova lorque e Londres. Portanto, e importante ver essa perspectiva diasporica Talvez seja essa relativa liberdade de lugar que o permitada cultura como uma subversao dos modelos culturais tradi- confrontar a profunda homofobia comum as distintas vari-cionais orientados para a nacao. Corno outros processes globa- antes do gangsta rap sem cair na linguagem degenerada dalizantes, a globalizacao cultural e desterritorializante em seus "violencia inata das galeras negras" que hoje desfigura oefeitos. Suas compressoes espaco-temporais, impulsionadas jornalismo domingueiro britanico.pelas novas tecnologias, afrouxam os lagos entre a cultura e A musica dancehall e hoje uma forma musical diasporicao "lugar". Disjunturas patentes de tempo e espaco sao abrupta- incorporada — uma das varias musicas negras que conquistammente convocadas, sem obliterar seus ritmos e tempos dife- os coracoes de alguns garotos brancos "quero-ser" de Londresrenciais. As culturas, e claro, tem seus "locais". Pore"m, nao e Gsto e, "quero-ser negro"!), que falam uma mistura pobre demais tao facil dizer de onde elas se originam. O que podemos patois de Trench Town, hip-bop nova-iorquino e ingles do36 37
  22. 22. leste de T «Hr-^ e para os quais o estilo negro" e simples- j Lonares, *- r variedade de estilos do seculo vinte, desde o figurative e omente o equivai«=n simb6hco de um moderno prestigio ^•tivalente *- e iconografico ate a abstracao. Suas obras mais importantesurbano. (t ^-i-irn nue /c claro 4^ eles nao sao a unica ,especie ,comum da . , demonstram uma variedade ampla de influencias formais e ide britanica. Existem tambem os skin-heads, tatuados de fontes de inspiracao — os mitos, artefatos e paisagensde suastica frequentadores dos suburbios brancos abando- guianenses, os motivos, a vida selvagem, os passaros e osnados tais como Eltham, que tambem praticam "giobalmente" animals pre-colombianos e maias, o muralismo mexicano, assuas manobras violentas nos jogos de futebol internacionais, sinfonias de Shostakovitch e as formas do expressionismocinco dos quais esfaquearam ate a morte o adolescente negro abstrato caracteristicas do modernismo pos-guerra britanicoStephen Lawrence nunia parada de onibus no sul de Londres, e europeu. Seus quadros desafiam caracterizacoes, seja simples-simplesmente porque ele ousou trocar de onibus no "terri- mente do tipo caribenho ou britanico. Essas telas vibrantes,torio" deles.)23 O que hoje se conhece como jungle music em explosivamente coloridas, com suas formas cosmicas e trafosLondres e outro cruzamento "original" (houve muitos, desde indistintos de formas e figuras tenues, mas sugestivamenteas versoes britanicas do ska, da musica so«/negra, do reggae, embutidas nas superficies abstratas, claramente pertencem amusica two-tone e de "raizes") entre o dub jamaicano, o historia essencial do "modernismo britanico", sem jamaiship-hop de Atlantic Avenue, o gangsta rap e a white techno terem sido oficialmente reconhecidas como parte dela. Sem(assim como o bangra e o tabla-and-bass sao cruzamentos duvida, seu namoro com a musica e a abstracao europeias,entre o rap, a techno e a tradicao classics Indiana). na mente de alguns, modificaram suas credenciais como pintor Nas trocas vernaculares cosmopolitas que permitem as caribenho". Contudo, sao os dois impulses funcionando em conjunto, sua posicao de traducao entre dois mundos, variastradicoes musicals populares do "Primeiro" e do "Terceiro" esteticas, muitas linguagens, que o estabelecem como umMundo se fertilizarem umas as outras, e que tern construido artista excepcional, original e formidavelmente moderno.um espaco simbolico onde a chamada tecnologia eletronicaavancada encontra os chamados ritmos primitivos — onde No catalogo produzido para a retrospectiva de Williams, oHarlesden se torna Trench Town —, nao ha mais como tracar critico de arte Guy Brett comenta:uma origem, exceto ao longo de uma cadeia tortuosa edescontinua de conexoes. A proliferacao e a disseminacao E claro que a sutileza da questao — a complexidade dade novas formas musicals hibridas e sincreticas nao pode mais historia que ainda esta por ser escrita — e que a obra deser apreendida pelo modelo centro/periferia ou baseada Aubrey Williams teria que ser considerada em tres contextos diferentes: o da Guiana, o da diaspora guianense e caribenhasimplesmente em uma nocao nostalgica e exotica de recupe- na Gra-Bretanha, e o da sociedade brit&nica. Esses contextosracao de ritmos antigos. E a historia da produfao da cultura, teriam que ser considerados um tanto separadamente e em de musicas novas e inteiramente modernas da diaspora — e seus inter-relacionamentos complexos, afetados pelas reali- claro, aproveitando-se dos materials e formas de muitas dades do poder. E todos teriam que ser ajustados em relacao tradicoes musicals fragmentadas. ao proprio desejo de Williams de ser simplesmente um artista moderno, contemporaneo, o par de qualquer outro. Num Sua modernidade necessita, sobretudo, de ser enfatizada. momento ele poderia dizer: "Nao gastei muita energia nesse Em 1998, o Institute de Artes Visuals Internacionais e a Galeria negocio de raizes. (...) Prestei atencao em uma centena de Whitechapel organizaram a primeira maior retrospectiva da coisas (...) por que devo isolar uma filosofia?" Em outro obra de um grande artista visual caribenho, Aubrey Williams momento: "O cerne da questao inerente a minha obra desde (1926-1990). Williams nasceu e trabalhou por muitos anos como menino foi a condicao humana, especificamente em relacao a situacao guianense." 24 agronomo na Guiana. Subseqtientemente, viveu e pintou, em diferentes estagios de sua carreira, na Inglaterra, na Guiana, O que dizer entao sobre todos aqueles esforcos de recons- na Jamaica e nos Estados Unidos. Seus quadros incluem uma trucao das identidades caribenhas por um retorno a suas fontes38 39

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