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  1. 1. Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas Universidade Técnica de Lisboa AS MOTIVAÇÕES DA PARTICIPAÇÃO DO CIDADÃO NOS MEDIA: Um Estudo de CasosDissertação Apresentada para a Obtenção do Grau de Mestre em Comunicação Social Mestrando: Cheila Sofia Tomás Marques Orientadora: Professora Doutora Maria João Cunha Lisboa 2010
  2. 2. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos ÍNDICE GERALÍNDICE DE FIGURAS .............................................................................................................................6ÍNDICE DE TABELAS ............................................................................................................................6ÍNDICE DE GRÁFICOS ..........................................................................................................................6GLOSSÁRIO...........................................................................................................................................8INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................91. A CIDADANIA DA INFORMAÇÃO E PARA A INFORMAÇÃO.......................................................11 1.1. NUANCES DE UM NOVO CONCEITO: CIDADANIA DA INFORMAÇÃO E PARA A INFORMAÇÃO ....................11 1.2. O CIDADÃO JORNALISTA E O CONCEITO DE CIDADANIA DA INFORMAÇÃO E PARA A INFORMAÇÃO .........17 1.3. CIDADANIA DA INFORMAÇÃO E PARA A INFORMAÇÃO NO MUNDO.......................................................19 1.3.1. A importância e evolução do conceito no jornalismo internacional ....................................19 1.3.2. Casos concretos da participação dos cidadãos nos media no mundo...............................23 1.4. CIDADANIA DA INFORMAÇÃO E PARA A INFORMAÇÃO EM PORTUGAL .................................................26 1.4.1. A importância e a evolução da cidadania da informação e para a informação em Portugal ......................................................................................................................................................26 1.4.2. Casos concretos da participação dos cidadãos nos media em Portugal ...........................282. AS MOTIVAÇÕES DA PARTICIPAÇÃO DOS CIDADÃOS NOS MEDIA EM PORTUGAL ...........30 2.1. MOTIVAÇÃO .................................................................................................................................30 2.1.1. O que é a motivação social ................................................................................................31 2.1.2. As principais teses da motivação .......................................................................................32 2.1.2.1. As teorias de Maslow, McClelland e Herzberg............................................................34 2.1.2.2. As teorias de Watson, Skinner, Adams e Vroom ........................................................38 2.2. A PARTICIPAÇÃO DOS INDIVÍDUOS..................................................................................................41 2.2.1. “Eu” e a sociedade..............................................................................................................41 2.2.2. “Eu” e os media ..................................................................................................................43 2.3. CONCEPTUALIZAÇÃO DA PARTICIPAÇÃO DO CIDADÃO NOS MEDIA .....................................................453. METODOLOGIA ...............................................................................................................................50 3.1. A ESCOLHA DO TEMA ....................................................................................................................50 3.2. A METODOLOGIA ADOPTADA..........................................................................................................51 3.2.1. Problemática e modelo de análise......................................................................................53 3.2.2. Objectivos, pergunta de partida, e perguntas de investigação...........................................55 3.2.3. O inquérito por questionário ...............................................................................................57 3.2.4. Análise de Conteúdo ..........................................................................................................614. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ..............................................................................63 4.1. CARACTERIZAÇÃO DOS INDIVÍDUOS QUE PARTICIPAM ......................................................................63 4.2. MOMENTOS E CONTEXTOS SUSCEPTÍVEIS DE PARTICIPAÇÃO ...........................................................67 4.3. LOCAIS DE PARTICIPAÇÃO DOS INDIVÍDUOS ....................................................................................73 Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 4
  3. 3. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos 4.4. FORMAS DE PARTICIPAÇÃO ...........................................................................................................79 4.5. RAZÕES PELAS QUAIS OS CIDADÃOS PARTICIPAM ............................................................................84CONCLUSÃO .......................................................................................................................................89BIBLIOGRAFIA ....................................................................................................................................93ANEXOS .............................................................................................................................................105 Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 5
  4. 4. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos ÍNDICE DE FIGURASFigura nº 1. Pirâmide de Necessidades de Abraham Maslow .............................................................34Figura nº 2. Modelo de Análise das motivações da participação do cidadão nos media.....................54 ÍNDICE DE TABELASTabela nº 1. Factores Motivação-Higiene apontados por Herzberg .....................................................37Tabela nº 2. Jornais Online com Suporte de Participação do Cidadão em Portugal ...........................59Tabela nº 3. Categorização efectuada na Análise de Conteúdo ..........................................................62Tabela nº 4. Razões Mais Fortes da Participação dos Indivíduos de Esquerda ..................................75 ÍNDICE DE GRÁFICOSGráfico nº 1. Distribuição dos Suportes de Participação do cidadão por Distrito em Portugal ............59Gráfico nº 2. Género dos Indivíduos que Participam no Jornal i e no Jornal Póvoa Semanário .........63Gráfico nº 3. Habilitações Literárias dos Indivíduos que Participam no Jornal i e no Jornal Póvoa Semanário ....................................................................................................................................64Gráfico nº 4. Profissão dos Indivíduos que Participam no Jornal i e no Jornal Póvoa Semanário ......65Gráfico nº 5. Tendência Política dos Indivíduos que Participam no Jornal i e no Jornal Póvoa Semanário ....................................................................................................................................65Gráfico nº 6. Idade dos Indivíduos que Participam no Jornal i e no Jornal Póvoa Semanário ............68Gráfico nº 7. Fluxo de Participação dos Indivíduos no Jornal i e no Póvoa Semanário nos Últimos Seis Meses ...................................................................................................................................69Gráfico nº 8. Participação em Contextos de Situações Caricatas no Jornal i e no Póvoa Semanário nos Últimos Seis Meses ...............................................................................................................71Gráfico nº 9. Comportamento Adoptado aquando da Participação face ao Motivo da Participação Segundo a Análise de Conteúdo ..................................................................................................72Gráfico nº 10. Jornais em que os Indivíduos Participam Mais .............................................................74Gráfico nº 11. Tipo de Programa Televisivo em os Indivíduos Participam Mais..................................76Gráfico nº 12. Jornais Online onde os Indivíduos Participam Mais face à sua Idade ..........................77Gráfico nº 13. Canais Televisivos em os Indivíduos Participam Mais com Texto................................78Gráfico nº 14. Formas de Participação nos Media segundo os Indivíduos que Participam no Jornal i e no Póvoa Semanário ....................................................................................................................79Gráfico nº 15. Elementos Presentes nas Fotografias das Notícias Analisadas nos Últimos Seis Meses ......................................................................................................................................................80Gráfico nº 16. Elementos Presentes nos Textos Analisados nos Últimos Seis Meses .......................81Gráfico nº 17. Caracteres com Espaço dos Textos Produzidos pelo Cidadão no Jornal i e no Póvoa Semanário nos Últimos seis Meses..............................................................................................81 Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 6
  5. 5. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de CasosGráfico nº 18. Distribuição dos Motivos de Participação no Jornal i e no Póvoa Semanário nos Últimos Seis Meses face ao Uso de Fotografia e Texto como Material Preferencial de Participação ..................................................................................................................................82Gráfico nº 19. Objectivos da Participação dos Indivíduos nos Media Segundo os Nossos Respondentes...............................................................................................................................84Gráfico nº 20. Grau de Satisfação dos Indivíduos face aos Media Tradicionais segundo os Nossos Respondentes...............................................................................................................................85Gráfico nº 21. Importância que os Indivíduos dão à sua Participação.................................................85Gráfico nº 22. Motivos de Participação face ao Comportamento Adoptado quando Participam .........87 Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 7
  6. 6. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos GLOSSÁRIOBlog- trata-se de uma página pessoal ou uma espécie de diário online que é actualizada por uma pessoa ou por um grupo de pessoas com interesses comuns, e onde é possível deixar comentários.Fóruns- espaços de discussão e troca de conhecimentos online.Flogs- trata-se de um blog cujo conteúdo são as fotografias.Moblog- flogs actualizados por telemóvel.Podcasts- trata-se de uma forma de distribuição de arquivos- de som, vídeo ou imagem- digitais pela Internet.SMS- short message service, ou serviço de mensagem curta, é uma mensagem de texto trocada entre suportes de comunicação, sobretudo entre telemóveis.Vlogs- blogs feitos com vídeos.Webcam- Câmara de vídeo que transfere as imagens em simultâneo para o computador. É vulgarmente usada em serviços de mensagens instantâneas como o Skype ou o Messenger.Webzine- trata-se de um magazine, ou revista, online.Wiki- Suporte que torna possível adicionar, alterar, apagar ou reescrever conteúdos sem serem 1 exigidos grandes conhecimentos técnicos, sendo que o modelo mais conhecido é a Wikipédia .1 http://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%A1gina_principal Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 8
  7. 7. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos INTRODUÇÃO Esta dissertação foi realizada no âmbito do Mestrado em Comunicação Social do InstitutoSuperior de Ciências Sociais e Políticas, pertencente à Universidade Técnica de Lisboa. Trata-se de um estudo exploratório que surge devido à ausência de matérias e investigaçõesem Portugal sobre o citizen journalism, que nós assumimos como sendo cidadania da informação epara a informação. Procuramos entender o fenómeno e apurar quais as motivações para umindivíduo comum participar nos órgãos de comunicação social. Incidimos especificamente no pontode vista dos indivíduos que participam no Jornal i e no Póvoa Semanário, questionando-osdirectamente e analisando as suas notícias dos últimos seis meses. Vamos focar-nos nas novastecnologias e no seu papel face à emergência do conceito de cidadão da informação e para ainformação, conhecido vulgarmente como cidadão jornalista. O desenvolvimento da Internet e a vontade do cidadão participar activamente na sociedade,transporta-nos à realidade actual. De facto, a perda de credibilidade dos órgãos de comunicaçãotradicional, juntamente com as tecnologias e a vontade do cidadão em ser activo deixou um espaçoem aberto entre os jornalistas e a sua audiência. Esse espaço veio então ser ocupado pelo cidadãoda informação e para a informação, que embora não siga os procedimentos técnicos, éticos e legaisda profissão, tem um papel relevante na imprensa actual. Trata-se de alguém que está no sítio certoà hora certa. Tira uma fotografia ou grava um vídeo porque o jornalista muitas vezes não consegueestar no local ou pelo inesperado do acontecimento. Com a cidadania da informação e para a informação, qualquer pessoa pode participar nosmedia. Se em 2008 foram as imagens (produzidas pelos cidadãos) da agressão de uma aluna a umaprofessora que abriram os telejornais em Portugal, este ano a situação repetiu-se com o Terramotodo Haiti ou as cheias na Madeira. As fotos e os textos destes cidadãos fizeram a imagem domomento uma vez que espelharam as consequências dos cataclismos nas suas residências e países. Esta temática surge com a necessidade de compreendermos os motivos que estão por detrásda participação destes cidadãos. Pretendemos aprofundar o conhecimento sobre a cidadania dainformação e para a informação nos jornais online portugueses, diários e semanais, e saber quemparticipa, onde, quando, como e porque participa. Trata-se de conhecer quem é o cidadão dainformação e para a informação, onde está e que suportes e materiais usa e envia. Pretendemossaber se a motivação da participação é de foro altruísta ou egoísta e ainda que tipo de consequênciastem. Será que os motivos que suscitam a acção dos indivíduos provocam comportamentos pró-sociais, anti-sociais ou podem agir segundo instintos sociais?. Assim, a nossa pergunta de partida ésintetizada da seguinte forma: Quais as motivações da participação do cidadão nos media na perspectiva dos indivíduos que participam no Jornal de Notícias e no Póvoa Semanário? Quanto à estrutura da investigação, a mesma desenvolve-se em quatro capítulos. No primeirotemos a introdução ao fenómeno em estudo em Portugal e no mundo e a apresentação do conceitode cidadania da informação e para a informação. Em seguida, temos as questões inerentes ao Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 9
  8. 8. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casosconceito de motivação. Definimos a motivação, abordamos as principais teses do conceito, e ainda asrelações e a participação dos indivíduos na sociedade e nos media. Na terceira parte, damos aconhecer a metodologia seguida para respondermos à nossa problemática e às nossas linhas deinvestigação. Finalmente, vamos analisar os resultados dos questionários e saber quem, quando,onde, porquê e como é que os indivíduos participam nos jornais online. Aquando do início desta dissertação, atentámos ao facto de um problema bem formulado ser omais importante para o desenvolvimento da ciência, pois uma investigação pode ter um grande mérito sedesobstruir ou construir um caminho, contribuindo para o seu desenvolvimento. Por seu turno osobjectivos gerais que nos propomos concretizar vão ser: 1. Caracterizar o cidadão que participa. 2. Compreender quais os momentos e contextos susceptíveis de participação. 3. Saber quais os locais onde o indivíduo participa. 4. Verificar de que forma os indivíduos participam. Para a prossecução dos objectivos traçados, nesta dissertação vamos aplicar duas técnicasde pesquisa quantitativa: a análise de conteúdo e o inquérito por questionário. A análise de conteúdoserá fulcral para compreender quais os momentos e contextos susceptíveis de participação no Jornali e no Póvoa Semanário. O inquérito por questionário será necessário para que possamoscaracterizar o indivíduo que participa nos media (segundo o ponto de vista dos indivíduos queparticipam no i e no Póvoa Semanário), e para ouvirmos o cidadão dizer em que momentos econtextos participa, para sabermos quais os locais onde participa, e para sabermos de que formaparticipa. Finda a análise dos resultados, pretende-se ir ao encontro dos objectivos traçados e obteruma resposta face à nossa pergunta de partida. Resta então expor os factos e apresentar conclusõesempíricas. Se a ideia que previamente havia sobre o assunto estiver deturpada, permanece a certezada desmistificação de uma ideia infundada ou errónea. Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 10
  9. 9. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos1. A cidadania da informação e para a informação 1.1. Nuances de um novo conceito: cidadania da informação e para a informação A Internet tem um papel indiscutível nas sociedades contemporâneas. Há agora uma novarealidade onde o tempo e o espaço foram redefinidos. A nova democracia digital, mediada pelastecnologias de informação e comunicação (vulgarmente conhecidas como TIC) e pelos computadores(Hacker e Dijk, 2001), permite-nos aceder à informação a qualquer hora e em qualquer lugar. Defacto, é notória a capacidade que a Internet tem para aumentar a velocidade no fornecimento deinformação, para facilitar a participação política, para permitir que novas comunidades políticasnasçam livres da intervenção do Estado, e para permitir aos cidadãos participarem na sociedade(Meraz, 2006). Para participar, os indivíduos recorrem então ao espaço (através do qual transmitem ainformação) e ao conhecimento. Com estes recursos, o exercício da cidadania é mais dinâmico pois oindivíduo social tem a capacidade de criar fluxos de informação personalizada e de se expor apenasàs fontes de informação que selecciona. As TIC permitem a existência de meios de expressão aquem não é profissional da comunicação, logo torna-se mais fácil ao indivíduo comum exercer a suacidadania. Os media assumem cada vez mais um papel determinante no fomento de uma cidadania activae o número de indivíduos que utiliza os espaços online dos media tradicionais tende a crescer,segundo um estudo das Nações Unidas (2005). Este novo fenómeno deve então ser encarado comoum dos instrumentos dos quais o jornalista dispõe para preencher um papel de activista político esocial caracterizado pela rejeição da corrupção, defesa dos direitos dos cidadãos, igualdade notratamento e na aplicação das leis e outros. Recorde-se que a sua actividade primária é observar edescrever eventos pois «move-se no campo da realidade e não no da fantasia. […] Nem sempreescreve sobre o que gostaria de escrever mas sobre o que é preciso que escreva» (Araújo, 1988:269). O jornalismo tem sido, indubitavelmente, «um dos principais instrumentos de construção dademocracia e de conquista de direitos de cidadania» (Kucinski, 2000: 2). Por outro lado, é «uma forçaactiva nos esforços conscientes para efectuar transformações históricas em benefício dahumanidade» (Hudec, 1981: 68), pois é o jornalismo que tem de «informar, combater o segredo deEstado, levantar polémicas, denunciar abusos de poder, corrupção e violação dos direitos humanos»(Idem). Mas a Internet, além de causar uma revolução na produção de notícias, fez com que ojornalista tivesse de aliar conhecimentos técnicos a uma boa redacção pois o que diz ou escreve,determina, ou influencia o que o público pensa e sobre o que pensa. Assim, é premente que ojornalista escreva de forma clara e concisa e que domine os suportes de redacção e difusão dainformação. A separação rígida entre os jornalistas e a audiência desaparece no mundo virtual pois «as TICacarretam 4 tipos de consequências: a tecnicização das relações, a mercantilização da comunicação,a fragmentação dos públicos, a mundialização dos fluxos de informação» (Chambat in Rieffel, 2004:48). Note-se que a tecnicização das relações diz respeito à grande diversidade de veículos de Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 11
  10. 10. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casoscomunicação presentes no nosso dia-a-dia (que vão desde um simples telemóvel a um computador),e a fragmentação dos públicos resulta de uma oferta alargada de produtos que consegue satisfazerinteresses particulares. De facto, no dealbar do novo século o jornalismo enfrenta novos desafios. Nos mediatradicionais surgem novos suportes de difusão de informação. Por outro lado, os indivíduos que sãodiariamente bombardeados com informação podem agora, com a Internet, seleccionar a informaçãoque querem receber e quando a querem receber. A sociedade tem agora novas necessidades e vaiidentificar os recursos que permitem alcançar os seus objectivos e satisfazer as suas necessidades.O principal recurso a que a sociedade civil vai ter acesso é a World Wide Web que fomenta a 2 3 4participação devido ao: factor multimédia , à hipertextualidade , à comutação em pacote , à 5 6sincronia , e, finalmente, à interactividade (Newhagen e Rafaeli, 1995). Note-se que, já em 1972,Dennis McQuail e outros autores defendiam que os media fomentavam um processo interactivo querelaciona os conteúdos de media, as necessidades individuais, as percepções, os papéis, os valorese o contexto social no qual uma pessoa se encontra (McQuail et al., 1972). Mas o significado deinteractividade mudou bastante desde 1972. Hoje, quando se fala em interactividade, referimo-nos à comunicação bidireccional ou 7multidireccional (Barbosa, 2001), e aos conteúdos gerados pelos utilizadores . Como tal, ainteractividade torna-se «uma das características mais proeminentes que distingue os media onlinedos media tradicionais» (Kopper in Barbosa, 2001: 5). Estas características são de facto visíveis efortalecem o reconhecimento da rede enquanto meio descentralizado e independente decomunicação para todos os indivíduos, permitindo a oponentes de várias esferas sociaisconfrontarem ideias directamente. Hoje, existem milhares de editores e autores que convivem emsimultâneo num espaço virtual onde o computador esconde o rosto dos envergonhados e altera osprocessos de socialização tradicionais. Se antes as pessoas discutiam, em reuniões, os problemasde uma dada empresa, hoje podem fazê-lo a partir de casa com uma webcam. Assim, a tecnologia«dotou-nos de um conjunto de ferramentas de comunicação capaz de nos transformar a todos emjornalistas, com custos reduzidos e, em teoria, com acesso a um público global» (Gillmor, 2004:14). Éprecisamente neste contexto que nos vamos deparar com um novo fenómeno que envolve aparticipação do cidadão comum nos media tradicionais e ainda nos novos media. O conceito de cidadão jornalismo surgiu «num momento em que o jornalismo americanoatravessava uma grave crise de credibilidade, com a consequente perda de leitores» (Gonçalves,2005: 3). Os poderes económicos e políticos estavam a dominar cada vez mais os media, pelo que setornou necessário combater esta realidade. Cientes deste poder na imprensa, os cidadãoscomeçaram a desenvolver novas formas de exercício da sua cidadania, com maior e mais activa2 Esta possibilita o envio simultâneo de ficheiros de texto, imagem, voz, animação e pintura.3 É um código digital presente nos textos online que permite completar a informação dada. No fundo o leitor ao clicar numa hiperligação sobre a ONU, por exemplo, é redireccionado para o site da organização onde pode ter mais informação sobre a mesma.4 Onde se percorre um caminho alternativo mais rápido quando está impedida a linha mais curta de contacto.5 Onde o acesso do ponto receptor depende da vontade e disponibilidade deste em atender e responder, sendo simultânea ou diferida no tempo.6 Esta permite aos indivíduos responder rapidamente a uma ideia publicada7 Conhecido também como user-generated content cuja sigla é UGC. Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 12
  11. 11. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos 8participação. No fundo, houve uma síndrome de esvaziamento , na qual os editores de jornais edirectores de estações de radiodifusão se aperceberam que, ao cortarem na quantidade e naqualidade dos trabalhos jornalísticos, podiam aumentar momentaneamente os lucros (Gillmor, 2004).Esta situação não se deteve nas questões de quantidade e qualidade. Agravou-se ainda mais pelasfusões dos órgãos de comunicação social, que à medida que cresceram negligenciaram o dever deinformar e prestar um serviço público aos cidadãos. O serviço público foi, em parte, esquecido, peloque houve um esvaziamento informativo que os cidadãos jornalistas vieram colmatar. Surge então aprimeira forma de jornalismo nesta área: o public journalism, que emergiu devido à perda deaudiência da imprensa escrita em prol da televisiva. Este tendia a combater a pressões políticas e«pretendia impor uma nova agenda de opinião e se tornar o intérprete dos cidadãos quanto àhierarquia dos problemas e à escolha das soluções pela comunidade» (Abreu, 2003: 6). Porém, foi nadécada de 70, que se evoluiu para o civic journalism (Abreu, 2003). Este tinha como cerne enalteceros valores democráticos e era «orientado para mobilizar, dar a palavra aos cidadãos comuns e aosresponsáveis por associações e comunidades» (Abreu, 2003: 6). O civic journalism acreditava que oconfronto de ideias e opiniões auxiliava na edificação de uma sociedade democrática, sendo que ojornalista desempenhava a função de mediador desse confronto. É assim que nasce um movimentono qual se dá prioridade a uma democracia directa e participativa onde se fundamenta a base docidadão jornalismo que hoje conhecemos. Na década de 90, com o aumento exponencial de espaços para a participação do cidadão nosmeios de comunicação social, este conceito ganhou novos contornos. A participação do cidadão nosmedia foi facilitada e, por outro lado, a comunicação tornou-se «sóbria, directa e objectiva» (Abreu,2003: 7). Pese embora o facto do seu desenvolvimento ter seguido fundamentos económicos eacompanhado a evolução das TIC, este «continua muito vulnerável às manipulações da indústriamediática» (Gonçalves, 2005:3), sendo que a palavra-chave deste fenómeno é colaboração. Há umacomunicação de um para um, de um para muitos, e de muitos para muitos (Dahlgren in Rieffel, 2004).Já não existe, no mundo virtual, uma fronteira que separa quem faz as notícias de quem as recebe.Os jornalistas têm agora milhares de cidadãos que os auxiliam na árdua tarefa de apurar, conhecer,reunir e até mesmo comentar informações – deu-se lugar à comunicação através de colaboração eda interactividade, tendo em conta a utilidade social. Este último conceito diz respeito ao facto de ojornalismo se dispor a servir «os interesses concretos dos cidadãos e a responder às preocupaçõesdos leitores ou da audiência referentes a emprego, habitação, educação, segurança, e qualidade devida» (Abreu, 2003: 5-6), associado à ideia de que o jornalismo trabalha para o público. Em linhas gerais, o cidadão jornalista é um indivíduo sem formação académica na área dejornalismo com uma vontade enorme de participação na esfera social. É alguém que usa os suportestecnológicos para levar a informação directamente da fonte para a audiência sem passarobrigatoriamente pelos media (Vollmer, 2007). É alguém que participa activamente na sociedadeatravés da recolha, análise e transmissão de notícias e informações. O âmago da sua acção écontribuir para a democracia através da publicação de informação independente, séria, verdadeira,8 Esta diz respeito à mercantilização do jornalismo que deixa de se preocupar tanto com a qualidade do trabalho informativo e com a sua função social, e passa a preocupar-se com a rentabilização da actividade, sucumbindo a ideais capitalistas. Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 13
  12. 12. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casosinteressante e relevante (Bowman e Willis, 2003). Apresenta conteúdos informativos (de texto,imagem e som), onde exprime novas perspectivas e informação que, de outro modo, não teriam 9visibilidade na esfera pública . Este não exclui o que é produzido pelos jornalistas. Contribui, atravésdos seus conteúdos e com uma maior liberdade na produção e veiculação de informação, para ojornalismo. Nesta nova participação social, podemos ouvir sistematicamente as histórias e ideias doscidadãos, pelo que estes também são livres de escolher o assunto que vão cobrir. O cidadão procuratambém seleccionar livremente os suportes através dos quais dá a conhecer aos outros as históriasrelativas a questões importantes da sua comunidade, procura enquadrar a informação de modo a queseja claramente perceptível, fomentar a discussão pública, e divulgar e propor soluções paraeventuais problemas que existam na comunidade. Tende a apresentar novas perspectivas de umdeterminado problema, e presta sistemática e continuamente atenção à forma como os comunicamcom o público (Lambeth, Meyer e Thorson, 1998). Segundo o estudo de Serena Carpenter (2008), oscidadãos jornalistas optam por citar fontes não oficiais (60.6%), ao passo que os jornalistas onlinegeralmente usam fontes oficiais (75%). Isto sucede porque os jornalistas têm maior acesso a fontesoficiais. Segundo Gans, os jornalistas «têm maior acesso a fontes oficiais e as fontes não oficiaisrequerem mais tempo para serem localizadas» (Gans in Carpenter, 2008: 19). Em Portugal, porexemplo, o acesso a documentos administrativos (fonte oficial) é regulado pela Lei n.º 46/2007 de 24de Agosto- Lei de Acesso aos Documentos da Administração. De acordo com o artigo 5.º, «todos,sem necessidade de enunciar qualquer interesse, têm direito de acesso aos documentosadministrativos, o qual compreende os direitos de consulta, de reprodução e de informação sobre asua existência e conteúdo». Quanto às restrições ao acesso, estão presentes no artigo 6.º da mesmaLei, e compreendem, por exemplo, o acesso a documentos que possam comprometer a segurançainterna e externa do Estado, ou ainda documentos que respeitem a matérias que estão em segredode justiça. Esta participação do cidadão no jornalismo depende da colaboração e permite umenriquecimento e democratização do trabalho do jornalista e da informação, pois pode produzir ainformação sem as pressões económicas ou políticas a que os jornalistas estão, geralmente, sujeitos.Ana Carmen Foschini e Roberto Romano Taddei (Foschini e Taddei, 2006), dizem que os indivíduosque participam na imprensa podem ser: publicadores (os que têm páginas pessoais como blogs,flogs, vlogs, ou que produzem podcasts com notícias, independentemente do assunto abordado);observadores (quem está preparado para, a qualquer momento, registar um acontecimentoinesperado); militantes (os que defendem uma causa ou se dedicam a um tema com grande fervor);comentadores (os cidadãos jornalistas que se manifestam na web através de comentários queinserem nos blogs, nos flogs, nos vlogs, nos fóruns, nas comunidades e nos websites dacomunicação social); e, finalmente, podem ser editores (os que seleccionam as notícias e participamnas comunidades ou sites colaborativos, onde podem existir links, ou ligações, para outros sites).Note-se que um cidadão jornalista pode, por exemplo, ser publicador e comentador ao mesmo tempo.9 O primeiro caso mediático a surgir deste jornalismo foi o caso Mónica Lewinsky, apresentado inicialmente num blogue, o Drudgereport, de Matt Drudge, sob a forma de notícia. Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 14
  13. 13. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos J.D. Lasica (2003) também desenvolveu uma divisão do fenómeno tendo em contas suportesusados para a publicação de informação. Este distingue: a participação do público (onde se integramos comentários feitos nos blogs, o uso de fotografias e filmes ou os textos feitos por moradores de umdado local ou por comunidades); os websites jornalísticos independentes, como o Drudge Report; oswebsites de notícias feitas por utilizadores (como o OhMyNews e o WikiNews); os websites de mediacolaborativos ou participativos (por exemplo o Slashdot e o Kuro5hin); e, finalmente, os websites detransmissão pessoal (onde se inserem os podcastings -de áudio ou vídeo -, os blogs, os fotologs e osvlogs). Tendo também em conta os suportes usados para publicação de informação, o autor ChrisCarroll (2006) define quatro categorias de cidadão jornalista. Na primeira estão inseridos os cidadãosque possuem uma máquina fotográfica, ou que usam o seu telemóvel e tiram fotografias ou gravamvídeos de acontecimentos (sejam eles de grande envergadura ou eventos locais) para depoisenviarem para os media. A segunda categoria respeita ao cidadão que quer cobrir as suascomunidades locais ou virtuais e produz conteúdos direccionados aos seus objectivos. Finalmente,temos os militantes que lutam por causas políticas. Estes são os cidadãos que participam num chatou comentam as notícias de um jornal ou blog. Pese embora o facto de este autor dividir o cidadãojornalista em categorias e aceitar que este exista, não acredita que este venha a substituir ojornalismo tradicional (Idem). O conceito de cidadão jornalista tem sido analisado por diversos estudiosos, alguns com visõesanálogas e outros com visões antagónicas. Mas um conceito que é comum encontrarmos é odefendido por Bowman e Willis (2003). Segundo eles, este fenómeno consiste: «no acto de um cidadão, ou de um grupo de cidadãos que desempenham um papel activo no processo de recolha, no acto de informar, na análise e difusão das notícias e da informação. A intenção desta participação é fornecer a informação independente, credível, exacta, extensa e relevante que uma democracia necessita… é um fenómeno emergente no qual existe pouca ou nenhuma intervenção editorial e os constrangimentos formais das rotinas jornalísticas a ditarem as decisões dos colaboradores» (Bowman e Willis, 2003: 36). Um dos mais activos e fervorosos defensores do cidadão jornalista defende que a interacçãodo público com a produção de notícias é uma oportunidade e não uma ameaça ao jornalismo(Gillmor, 2004). Admite ainda que o seu público sabe mais sobre o seu quotidiano do que o própriojornalista. Na obra Nós, os Media (Gillmor, 2004), o autor defende que o conceito de jornalismo opensource está intimamente ligado com os novos media e com o facto de estes permitirem a actoresheterogéneos o acesso à rede. Quem também é adepta deste conceito é Catarina Moura, que diz queo jornalismo open source permite a divulgação de pontos de vista díspares e isentos (Moura, 2002). Importa ressalvar a posição de Jay Rosen, outro defensor acérrimo da participação do cidadão 10nos media. O autor do blog Pressthink , que dá particular enfoque às questões do jornalismo na “erada Internet”, diz que estamos perante uma acção de cidadão jornalismo quando os indivíduos queanteriormente eram conhecidos como audiência, empregam as ferramentas dos media tradicionais e10 http://journalism.nyu.edu/pubzone/weblogs/pressthink/ Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 15
  14. 14. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casostêm os instrumentos necessários para informar outros elementos da audiência (Rosen, 2008).Todavia, Jay Rosen interroga-se se os blogs podem conter jornalismo. Segundo ele, por vezes, osblogs contém materiais que podem ser considerados jornalismo (Rosen, 2005), mas isso vaidepender do seu autor, ou autores, e do objectivo do blog. Numa visão mais pessoal e menos técnica, Chris Carroll descreve o cidadão jornalista comoalguém novo e inocente que actua de forma independente. Tem muitas ideias novas face àdemocracia e ao jornalismo e tem um verdadeiro respeito pela verdade (Carroll, 2006). Para AlziraAbreu, este deve ser encarado como uma forma de os jornalistas exercerem uma função de activistaspolíticos, cuja preocupação passa também pela «rejeição à corrupção, defesa dos direitos doscidadãos, igualdade no tratamento e na aplicação das leis...» (Abreu, 2003: 14). Munish Nagar porsua vez diz que este fenómeno permite que tanto um amador como um jornalista possam trabalhar epublicar o seu trabalho em igualdade de circunstâncias (Nagar, 2007). Segundo Axel Bruns, um dosobjectivos do cidadão jornalista é: «contribuir para uma visão pública mais extensa e exacta em problemas específicos. Este movimento vê, especialmente os jornais e os seus sites web como peças instrumentais no desenvolvimento de uma nova forma de ‘povo cívico’ onde as soluções para os problemas existentes são encontradas através de debates construtivos gerados e conduzidos por editores e jornalistas nas suas páginas» (Bruns, 2005: 23). Apesar de o cidadão jornalista ser um amador, deve seguir regras, como por exemploentrevistar, ouvir os dois lados de um assunto, confirmar sempre a informação, ter cuidado com o queescreve e com as acusações que faz, comparar os dados oficiais com os dados de outras fontes, elutar pela credibilização do que escreve (Foschini e Taddei, 2006). Tem também de respeitar o direitoà imagem, o direito de reprodução e os direitos autorais (Idem). Outra situação que se insurge nestepanorama é a tensão entre a lógica económica de construir plataformas de participação do cidadão(de modo a atrair comunidades cada vez maiores de utilizadores), versus a lógica profissional querespeita à autoridade no controlo dos fluxos de informação (Lewis, Kaufhold e Lasorsa, 2009). Estespodem constituir um perigo para os modelos de negócio que dominam a difusão de informação,porque não estão ligados a nenhuma empresa, logo não estão sujeitos a pressões e políticasempresariais. Serena Carpenter acrescenta que «os cidadãos jornalistas podem ser menos afectadospelas forças do mercado […] porém podem ser mais afectados por constrangimentos extramedia (porexemplo, as audiências, os anunciantes e fontes)» (Carpenter, 2008: 5). Note-se que, devido ao factodos cidadãos puderem gravar vídeos, tirar fotografias e escrever blogs, registou-se uma perda dehegemonia dos media tradicionais (Meraz, 2006). De facto, continua a ser fulcral o controlo dos conteúdos publicados por estes indivíduos,porque a sua actividade não é objectiva e não segue as normas deontológicas do jornalismo. Énecessário filtrar a informação produzida pelos cidadãos para que o público tenha acesso a umainformação credível e bem redigida. Pode haver a propensão dos cidadãos para escreverem artigosde entretenimento sem qualquer pesquisa porque a maioria dos cidadãos jornalistas não temqualquer formação pelo que não seguem as normas de objectividade, clareza e investigação Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 16
  15. 15. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos(Gladney et al. 2007). Tal como diz Lillie Bush, no estudo de Lewis, Kaufhold e Lasorsa, «osacontecimentos não podem ser encarados como factos quando não existe nada que os suporte comofactos» (Bush in Lewis, Kaufhold e Lasorsa, 2009: 12). Se as informações não forem confirmadas eas normas profissionais não forem respeitadas, estes indivíduos apenas contribuem para umacacofonia geral da informação, porque muitas vezes ela é falsa e mistura-se com informaçõesverídicas, tornando-se difícil distinguir o que é verdadeiro e o que é falso, o que é importante e o queé acessório. A questão da credibilidade impõe-se pelo que o cidadão jornalista tem de relevar «acredibilidade tendo em conta o discurso jornalístico» (Salwen et al., 2009: 149). Contrariamente, no estudo de Lewis, Kaufhold e Lasorsa (Lewis et al., 2009) podemosobservar que os editores dos jornais analisados discordam da existência de um cidadão jornalista. Oseditores fazem uma distinção clara entre os jornalistas profissionais e o público, e encaram aactividade como uma actividade vedada a profissionais. Estes editores permitem, contudo, aparticipação dos cidadãos embora não os deixem escrever artigos. No fundo, os editores alegam que«todas as ideias de histórias são tratadas por escritores profissionais e não por cidadãos jornalistas»(Lewis et al., 2009: 11). 1.2. O cidadão jornalista e o conceito de cidadania da informação e para a informação A par do conceito de cidadão jornalista (citizen journalism), têm também sido usados outrosque descrevem o fenómeno. Eles são o conceito de jornalismo em rede ou networked journalism(Jarvis, 2007), o jornalismo de raiz ou grassroots journalism (Brambilla, 2005), o jornalismo amador eo jornalismo participativo (Bowman e Willis, 2003), o jornalismo colaborativo, e, finalmente, ojornalismo open source ou de código aberto onde estão, por exemplo, as wikis- Wikipédia,wikinotícias e outros (Gillmor, 2004). Note-se que, se nos blogs o único controlador da informação é opróprio criador do mesmo, já nos sites de jornalismo colaborativo e de jornalismo open source há umadministrador ou editor que filtra a informação recebida e disponibilizada online. Há que atentar,ainda, que o cidadão jornalista só se cruza com a cidadania, na medida em que os indivíduosassumem o seu espaço na sociedade ao participar e colaborar na produção de informação atravésdos novos media. Apesar de vários autores defenderem os conceitos acima mencionados, consideramos quenenhum deles se enquadra verdadeiramente na essência do fenómeno, nem o exprime de formaabrangente. O network journalism e o jornalismo open source prendem-se essencialmente com aprodução de conteúdos e partilha online. No entanto, não consagram os conteúdos, como fotografiaspor exemplo, que são enviados directamente para as estações de televisão e que não são partilhadosonline. Já o grassroots journalism prende-se com a participação na produção e publicação deconteúdos na web de cidadãos que geralmente não participam nas decisões da sociedade, logo nãocontemplam a produção de conteúdos de um político, por exemplo, que está no local certo à horacerta. Neste sentido acaba por reduzir esta forma de exercício da cidadania aos indivíduos que nãotêm poder decisório. Na realidade, qualquer pessoa, independentemente da sua influência e podereconómico, pode produzir conteúdos para os media. Finalmente, o jornalismo amador e o Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 17
  16. 16. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casosparticipativo, focam-se essencialmente nos blogs e no contributo de indivíduos que não têm qualquerformação jornalística. Aqui há uma clara lacuna no que respeita aos indivíduos que têm formaçãojornalística e que não exercem a profissão. Estes também podem produzir conteúdos. Não têmcarteira profissional, mas têm o know-how, logo não devem ser excluídos como produtores deconteúdos para os media. O jornalismo colaborativo é mais abrangente, pois existe uma colaboração entre o indivíduoque produz uma fotografia, por exemplo, e o jornalista que a trata e publica. Contudo, tambémexistem casos em que um indivíduo produz uma “publi-informação”, ou seja, uma informação queinvariavelmente defende um produto, uma ideia ou ideal. Nesse caso, o conceito torna-se um poucoambíguo. Finalmente, o uso da palavra “jornalismo” em todos os conceitos é de todo errado. Ojornalismo continua a ser feito por jornalistas e será sempre jornalismo. O que se modificou foram asformas do público se exprimir e exercer os seus direitos de cidadania. Estamos perante uma novaforma de participação dos cidadãos nos media e na sociedade, e não de uma nova forma dejornalismo, pelo que usar o termo “jornalismo” pode confundir. De facto, o jornalismo «é uma coisaum bocadinho diferente: é utilizar as técnicas jornalísticas para fazer uma notícia- confirmar ainformação, haver uma investigação própria, um tratamento próprio» (Granado in Coelho e Palhares,2005). Exposto isto, é necessário descrever o carácter dessa colaboração, pelo que propomos umnovo conceito: cidadania da informação e para a informação. Este parte da informação para ainformação, ou seja, o facto (que é a base da informação) é captado e divulgado pelo indivíduo queposteriormente a envia para os media. Por seu turno, estes divulgam-na contribuindo para ainformação do público em geral. O público sabe à partida que está a aceder a informação e não apublicidade ou propaganda. Por outro lado, pelos mesmos motivos que deixámos o conceito geral decidadão jornalista, passamos a falar em cidadão da informação e para a informação. Esta designaçãoparece-nos ser mais realista também porque esta é uma nova forma de exercício da cidadania queincide nas formas de produção e de difusão da informação e de conhecimento, e porque o cidadãoque envia imagens e outros documentos para uma redacção pode ser apenas uma testemunha ouuma fonte de informação. O cidadão da informação e para a informação não é jornalista. Não tem carteira profissional,não segue as normas legais e deontológicas, nem as regras formais na elaboração e difusão deinformação. Ressalve-se que, por vezes, também recorre à comunicação social para se informar epara validar o que produz. Noutros casos fornece pistas para o jornalista desenvolver um dadoacontecimento. É alguém que tira uma fotografia ou faz um vídeo de um evento que testemunhou eenvia para uma redacção, completando o trabalho do jornalista. Na sua bandeira ergue ideais como opluralismo, a independência, a transparência ou a imparcialidade, pelo que enriquece o trabalho dojornalista. Por outro lado, contribui para o aprofundamento da democracia e o alargamento do espaçopúblico, pois produz e faz chegar ao público informação que de outro modo não seria possível. Trazpara a esfera mediática assuntos que nunca teriam notoriedade ou espaço nos media tradicionais,revitaliza a vida pública porque favorece o debate público, e contribui para a comunidade se conhecere agir em prol de uma efectiva cidadania. Acreditamos que neste fenómeno o que é relevante é o Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 18
  17. 17. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casosconteúdo (a imagem, o som ou a informação de um determinado texto). A pessoa que o produz éapenas um cidadão que exerce o seu direito de cidadania fomentado pelos novos media. Estesparticipam activamente na sociedade quando produzem vídeos e outros materiais, e expõem as suasopiniões e visões sobre o que os rodeia. 1.3. Cidadania da informação e para a informação no mundo 1.3.1. A importância e evolução do conceito no jornalismo internacional As ferramentas, sobretudo online, disponíveis para o cidadão da informação e para ainformação são fundamentais para a divulgação do seu trabalho. O material produzido por estesindivíduos é tratado e publicado sobretudo através da Internet, pois é um meio simples, com baixocusto e de fácil acesso a todos os cidadãos. Segundo Abreu (2003), é através de suportes como osblogs, os flogs, os moblogs, os vlogs, os podcasts, a wiki, o e-mail e, finalmente, os fóruns, que ocidadão da informação e para a informação publica o seu trabalho e se submete à opinião de outros. Um dos exemplos da sua participação é a Wikipédia. Fundada em 2001, este é um suporte quevive da constante actualização da informação por parte das pessoas que consultam site e tem comocaracterísticas a verificabilidade e o controlo (Lima, 2006). É um suporte que permite que quemparticipa seja também guardião da veracidade das informações publicadas, uma vez que pode corrigiros erros que encontra. Esta função dos participantes actua ainda como inibidor de actos devandalismo online pois os perpetradores desses actos sabem que caso publiquem uma informaçãoerrada esta é corrigida dentro de minutos. Logo, estes perpetradores optam por procurar locais mais 11 12vulneráveis (Gillmor, 2004). Outros exemplos são a wikinotícias , o Creative Reporter , o 13NowPublic , onde os cidadãos interessados podem inscrever-se e participar através do envio detextos, imagens ou sons. O NowPublic permite aos cidadãos publicarem as suas próprias notícias elinks para as histórias mais relevantes nos media. No Creative Reporter, os cidadãos são,inclusivamente, pagos segundo a quantidade de vezes que a sua página é vista, e o participantepode ainda consultar as estatísticas referentes ao número de visitas que a sua página recebeu e oscomentários de que foi alvo. Mas foi no ano de 1997 que o projecto de Rob Malda marcou o início da era do jornalismo open 14source. O Slashdot situa-se entre a webzine e o fórum e vai «permitir que várias pessoas (além dosjornalistas) escrevam e, sem a castração da imparcialidade, dêem a sua opinião, impedindo assim aproliferação de um pensamento único» (Moura, 2002: 1/2). Este suporte contribui para umadiversificação de perspectivas face a um dado assunto, e ajuda a trazer a público assuntos que deoutro modo não seriam conhecidos. Assim é um fórum noticioso, diversificado e plural que «contribuipara a gestão dos factos, das ideias, das opiniões; não só tem voz, como dá voz» (Nogueira, 2002:2). Neste site, o cidadão, que pode permanecer anónimo se assim o desejar, envia o material que11 http://pt.wikinews.org/wiki/P%C3%A1gina_principal12 http://www.creative-reporter.com/13 http://www.nowpublic.com/14 http://slashdot.org/ Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 19
  18. 18. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casosquer ver publicado e, se este for considerado pertinente e actual, é escolhido e posteriormentepublicado por um dos seus editores. Devido à qualidade de muitos dos comentários, criou-se aindaneste site um sistema de pontuação dos comentadores, sendo que os mais pontuados são,logicamente, os mais lidos. Conquanto, o projecto mais emblemático e bem sucedido do cidadão da informação e para a 15informação, é o projecto desenvolvido na Coreia do Sul. O OhMyNews foi lançado a 22 de Fevereirode 2000, conta com mais de 50.000 repórteres, e trabalha sob o slogan “todo o cidadão é umrepórter”. Tem um formato mais tradicional, onde os cidadãos produzem notícias locais e sãoremunerados sempre que o seu trabalho é publicado, logo transformam-se em jornalistas pois sãoremunerados e seguem directrizes editoriais. Neste projecto, o trabalho é coordenado por editoresprofissionais que também os ajudam a melhorar as capacidades do cidadão da informação e para ainformação. Quando adere ao OhMyNews, o cidadão compromete-se a respeitar a sua autoridadenomeadamente no que respeita à gestão das notícias. Deve também comprometer-se a partilhartodas as informações sobre os artigos que envia, deve comunicar se um artigo já foi publicado noutroórgão de comunicação, deve revelar as fontes usadas no seu trabalho, e deve ser responsável poreventuais casos de plágio ou uso indevido de algum material. Quando publica mentiras ou notícias decarácter difamatório deve ainda ser legalmente responsabilizado (Brambilla, 2005). De facto, esteprojecto tem tanta credibilidade que, em 2003, teve um papel fundamental na política. Apoiouclaramente Roh Moo Hyun, candidato à presidência da Coreia, pelo partido reformador. Este apoiocontribuiu para a sua eleição e como prova de apreço, Hyun «concedeu sua primeira entrevista aoOhmyNews, em detrimento aos três maiores jornais coreanos que se filiavam a um viés conservador»(Brambilla, 2005: 3). O sucesso do projecto do jornalista Oh Yeon Ho, ditou mesmo a sua expansão (com o 16OhMyNews International ) e a abertura do OhMyNews Citizen Journalism School. O OhMyNewsInternational tem como editor Todd Thacker que é também responsável por confirmar as informaçõesdas notícias enviadas pelos cidadãos, editar os textos, escrever os títulos, e analisar os pedidos deadesão de novos indivíduos. Neste suporte internacional trabalham apenas cinco pessoas, sendo queapenas duas delas são jornalistas (Brambilla, 2005). O cidadão é protagonista de uma acção criativana recolha, confirmação, análise e transmissão de uma informação, logo enquadra-se no jornalismoparticipativo (Bowman e Willis, 2003). O OhMyNews contribui para a democratização da actividadejornalística (Brambilla, 2005) e o envio do material faz-se com o auxílio do OMNI System, que é «umsistema de publicação disponibilizado aos cidadãos-repórteres formalmente cadastrados no site»(Brambilla, 2005: 4). Dentro desse sistema, os indivíduos encontram o Reporter Desk que tem osformulários necessários à redacção dos artigos, as mensagens dos jornalistas, o código de ética e 17ainda outras informações tais como o dinheiro que vai receber com cada artigo. Quanto aoOhMyNews Citizen Journalism School, este é um centro comunitário de educação dedicado aoensino da cidadania da informação e para a informação, sendo que as aulas incluem técnicas de15 www,ohmynews.com16 http://english.ohmynews.com/17 Essa quantia varia entre 2.000 e 20.000 Wons (a moeda oficial da Coreia) tendo em conta a importância da notícia e o local que ocupa no site. À data de 9 de Janeiro de 2010, 1 Won equivalia a 0,00062 euros. Consultar http://pt.exchange-rates.org/converter/KRW/EUR/1. Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 20
  19. 19. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casosentrevista, workshops de jornalismo online, e programas de reciclagem para jornalistas profissionais.Esta é a primeira escola do cidadão da informação e para a informação e tem capacidade paraacolher 100 estudantes. O corpo docente é formado por jornalistas da imprensa, da rádio e datelevisão e outros especialistas da área da comunicação que diariamente incutem nos cidadãos oespírito de participação na esfera mediática. O OhMyNews marcou definitivamente uma mudança narelação entre o cidadão e a notícia, sendo que, apesar da existência de gatekeepers, dá voz aosindivíduos que podem agora escrever sobre assuntos que de outro modo não teriam visibilidade nosmedia tradicionais devido a contingências editoriais, económicas e políticas. De facto «o povocoreano acolheu a ideia como em resposta à repressão sofrida no recente regime autoritário»(Brambilla, 2005: 11). Mas há também serviços criados por cidadãos que competem directamente com os media 18 19 20tradicionais. Estes são o Craiglist , o Backfence e o Chicagocrime . O primeiro foi criado em 1995por um estudante universitário, e é uma ferramenta de classificados nos Estados Unidos da 21América . Já o Backfence é um projecto onde os indivíduos escrevem notícias sobre factos queacontecem na sua área de residência. Finalmente, o Chicagocrime mistura informações do site dapolícia de Chicago com a informação da Câmara Municipal. Foi criado por um morador e tem comocerne mostrar aos seus vizinhos os locais onde é mais frequente a ocorrência de crimes. Devido aesta competição directa, os media tradicionais sentiram alguma pressão para se adaptarem. Logo,tiveram que dar voz ao cidadão jornalista ao abrirem nos seus espaços online, canais para a 22participação do cidadão. Ainda nos Estados Unidos da América no site Assignment Zero , Jay Rosenapela à participação do leitor através da mensagem «Citizen Journalism wants you!». No Reino Unido, esta abertura verificou-se, sobretudo, em 2005. Durante os atentados deLondres, a BBC publicou inúmeras fotos tiradas pelos cidadãos. Estas foram essenciais para contarao mundo a violência com que o Reino Unido foi atacado. Seria muito difícil um fotojornalista tercaptado estes momentos, pelo que o contributo do cidadão preencheu esse vazio. A BBC reconheceuisso ao usar as suas fotografias e vídeos com o maior respeito e apreço. Com a crescente vontade de participação do indivíduo na esfera mediática, do outro lado do 23oceano, surge o projecto da CNN- o iReport . Este projecto, que mereceu um momento humorístico 24por parte de Jon Stewart em The Daily Show , dá espaço mediático ao cidadão comum, permite aosindivíduos enviar material de áudio e vídeo digital para os noticiários das suas regiões, e permite queesse material seja comentado. O envio é feito por e-mail ou directamente para o site da CNN, logo 25tem como base o modelo do YouTube , ou seja, o cidadão tem apenas de fazer o upload do vídeo,ou outro material, que quer divulgar no site iReport. O iReport não tem qualquer intervenção dos18 http://www.craigslist.org/about/sites19 http://www.backfence.com/20 https://www.chicagocrimecommission.org/Default.aspx21 Esta ferramenta concorre com os classificados dos jornais americanos.22 http://zero.newassignment.net/23 http://www.ireport.com/recent-updates.jspa24 STEWART, Jon, “CNN iReport”, 27 de Setembro de 2006, em The Daily Show, disponível em http://www.the dailyshow.com/video/index.jhtml?videoId=127018&title=headlines-cnn-ireport , consultado em 10 de Janeiro de 2008.25 Surgiu em 2005, pertence ao Google e permite a divulgação de vídeos. Está disponível em: http://www. youtube.com/ Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 21
  20. 20. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casoseditores da estação CNN, mas tem uma secção onde dá algumas informações para se fazer uma boareportagem. Devido ao sucesso deste projecto, a cadeia de notícias norte-americana criou ainda um 26 27novo website, o CNN Exchange , e alargou o iReport ao Second Life . Note-se que o Second Lifeou o YouTube podem desempenhar um papel relevante na democracia ao permitirem a divulgação deinformação por qualquer cidadão (Vollmer, 2007). 28 O YouTube e o Flickr , são os serviços mais relevantes no que concerne à publicação epopularização de cidadãos da informação e para a informação. Um exemplo da importância do Flickrfoi o acontecimento de 11 de Outubro de 2006 em que o jogador de beisebol Cory Lidle colidiu com oseu avião contra um prédio na cidade de Nova Iorque. O Yahoo usou, antes das agências de notíciaspossuírem fotos do acidente, uma fotografia de um dos seus utilizadores, Jonathan Keller, em que 29mostrava dois andares do prédio em chamas . Essa foto estava na página inicial de Jonathan Kellerque no espaço de dias foi visto mais de dez mil vezes (Felliti, 2008). Por outro lado, o YouTubetambém é um exemplo do impacto das tecnologias no panorama informativo. A 16 de Abril de 2007, oestudante Jamal Albarghouti gravou um filme do massacre da faculdade Virgínia Tech onde 30morreram 33 pessoas . Nesse vídeo é possível ouvir os tiros que provocaram a morte do atiradorCho Seung-Hui (Felitti, 2008). Assim, também as redes sociais que se geram na Internet permitemque as pessoas estabeleçam relações através do uso de tecnologias (Royal, 2008). É através delas 31 32 33que os indivíduos participam em sites como o MySpace , o YouTube, o Facebook , o Friendster , o 34 35Hi5 ou o Bebo . 36 Em França, o CitizenSide também assume o seu papel neste fenómeno da participação do 37cidadão nos media. No FAQ (Frequently Asked Questions) do CitizenSide, podemos ler que quandoas fotografias são exclusivas e retratam um furo jornalístico, podem ser vendidas para os mediatradicionais. Todavia, existe a preocupação de não vender as fotografias como exclusivos de modo apoder vender-se a vários órgãos de comunicação social, pelo que quando as fotos são efectivamente 38publicadas, o autor da mesma é pago no espaço de 60 dias . Esta estratégia pode parecer inocente,mas de facto integra uma estratégia económica que incentiva os cidadãos a voltarem a usar oCitizenSide para vender o seu material.26 Este alberga os vídeos e materiais áudio enviados pelo cidadão e está disponível em http://edition.cnn.com/excha nge/ireports/spotlight.html27 O Second Life é uma espécie de planeta online onde os indivíduos são representados por avatares (pequenos bonecos virtuais), e onde existem tribunais, espectáculos ao vivo, lojas, negócios e quase tudo o que existe na vida real. Está disponível em: http://secondlife.com/28 Pertence ao Yahoo e permite a divulgação de fotografias. Está disponível em: http://www.flickr.com/29 http://www.flickr.com/photos/83369484@N00/267217431/in/photostream/30 http://edition.cnn.com/video/#/video/us/2007/04/16/sot.va.tech.shooting.barghouti.cnn31 Nasceu em 2003 com o intuito de divulgar as músicas de vários artistas desconhecidos. Está disponível em: http://www.myspace.com/32 Permite a partilha de fotografias, chat e outros, e está disponível em: http://www.facebook.com/33 http://www.friendster.com/34 Permite a partilha de fotografias e está disponível em: http://www.hi5.com/35 Permite a partilha de fotografias, vídeos e música e está disponível em: http://www.bebo.com/36 http://www.citizenside.com/37 http://www.citizenside.com/en/info/faq.html38 O cidadão que produziu a imagem ficam com 75% do valor do seu trabalho, sendo que o CitizenSide fica com uma pequena parte. Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 22
  21. 21. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos Já no Brasil, a situação repete-se através da Globo que considera que todo o contributo é bem 39visto. Têm um espaço denominado G1 , no qual o cidadão comum pode participar. Nesse espaçoqualquer internauta pode colaborar com as suas notícias, vídeos e fotos, e existe inclusivamente uma 40listagem dos artigos mais lidos. Outro exemplo no Brasil é o FotoRepórter do Estadão que diz aocidadão: «se você tem um celular com máquina fotográfica embutida, ou vive com uma câmara digital 41a tiracolo, abra os olhos e fique esperto» . Este projecto nasceu após os atentados de 7 de Julho emLondres. De facto, as redacções de todo o mundo receberam inúmeras fotografias, o que fez osprofissionais do Estadão perceberem as potencialidades que a participação do cidadão tinha nopanorama informativo. A vantagem que este site oferece é a remuneração dada aos indivíduos pelasua colaboração, podendo estes ver o seu material ser vendido a órgãos de comunicação social emtodo o mundo (Correia, 2008). Para participar basta enviar uma sms para o número 49700 ou enviarum e-mail. Note-se que se as fotografias forem apenas publicadas no Estadão, não serãoremunerados. Ao longo dos tempos, tal como foi demonstrado, o fenómeno da cidadania da informação epara a informação evoluiu, sendo que tem uma relevância ímpar no jornalismo. No dealbar do novoséculo e em parte devido às TIC, o consumidor de notícias levantou-se e disse que quer participar nasociedade. Quer ser os olhos e os ouvidos dos jornalistas quando estes, pelo imediatismo dosacontecimentos, não estão presentes. 1.3.2. Casos concretos da participação dos cidadãos nos media no mundo A participação dos cidadãos nos media contribui indubitavelmente para relatos emocionados. Écada vez mais frequente vermos imagens amadoras nos nossos ecrãs. O cidadão está muitas vezesno local certo à hora certa, acabando por dar ao jornalismo imagens que seriam muito difíceis para osjornalistas obterem. A audiência começa a abandonar o seu papel de consumidor e a assumirtambém o papel de produtor de conteúdos. Um exemplo bastante claro desse acesso de quem não éprofissional ao jornalismo é, tal como recorda Dan Gillmor, o caso do 11 de Setembro de 2001.Segundo ele, «as notícias estavam a ser produzidas por pessoas comuns [...] e não apenas pelasagências de notícias ‘oficiosas’ que, tradicionalmente, costumavam produzir a primeira versão dahistória» (Gillmor, 2004: 12). Todavia, a participação dos cidadãos nos media não começou no 11 deSetembro. Aquando do assassinato do presidente John Kennedy, a 22 de Novembro de 1963, Abraham 42 43Zapruder , também participou nos media com o vídeo . Este foi o autor das imagens com melhorângulo do momento em que a bala atirada por Lee Harvey Oswald entrou na parte de trás da cabeçado presidente Kennedy. Esta gravação, embora não possuísse qualquer som, tornou-se na imagem39 http://g1.globo.com/40 http://www.estadao.com.br/41 http://www.estadao.com.br/fotoreporter/oquee.shtm42 Zapruder era um fabricante de roupas femininas nos Estados Unidos.43 http://www.youtube.com/watch?v=1G_Zxup7esU Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 23
  22. 22. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casosamadora mais valiosa da história, sendo que acabou por ser comprada pelo governo norte-americano 44em 1999 pelo valor de dezasseis milhões de dólares (Felitti, 2008). A participação do cidadão sempre se fez sentir, embora essa presença passe muitas vezesdespercebida. Em França, por exemplo, no ano 2000, as imagens do voo da Air France cujo tanquede combustível rebentou na pista de aterragem do Aeroporto Internacional Charles de Gaulle foram 45recolhidas por um amador . No ano seguinte, em 2001, os atentados de 11 de Setembro seriam umadata marcante para todo o mundo. Os embates dos aviões nas duas torres do World Trade Center teriam sido invisíveis aos olhosdo mundo se o cidadão da informação e para a informação não estivesse lá. Em Nova Iorque aspessoas nas ruas corriam, as que estavam no World Trade Center tentavam escapar do fogoatirando-se das janelas, os bombeiros e a polícia faziam o que podiam e mostravam-se incrédulosperante o que estavam a ver, e os cidadãos estavam lá prontos a filmar. Jamais nos esqueceremosdas imagens do embate dos aviões nas torres, as torres a caírem, e ainda das pessoas nas ruas acorrerem ensanguentadas ou cheias de pó no rosto. Pó esse que tapava como podia a tristeza dequem naquele dia perdeu um familiar, um ente querido, e um compatriota. Estes foram astestemunhas e os produtores dos testemunhos visuais do maior evento terrorista na históriacontemporânea. Todavia, a 7 de Março de 2004, os atentados de Espanha iriam captar, mais uma vez, aatenção do mundo para o contributo valioso dos cidadãos. Estes pintaram mais um quadro doterrorismo. Pese embora o facto das bombas colocadas no metro terem sido activadas através detelemóveis, foi também através deles que o mundo conheceu mais um dos rostos do terrorismo(Meraz, 2006). Mas 2004, ficaria ainda marcado por outro evento que impulsionaria ainda mais ofenómeno da participação dos cidadãos nos media. Em Dezembro de 2004, foi o Tsunami (que afectou a Tailândia, a Indonésia e outros), quedespertou a atenção dos indivíduos. Os turistas munidos de câmaras de filmar e telemóveis foram osolhos e os ouvidos deste desastre. Foram eles que espelharam as consequências de uma naturezaimprevisível através da publicação de imagens na imprensa e através da publicação de fotografias depessoas desaparecidas em suportes como o Flickr (Meraz, 2006). Steve Outing recorda ainda quejornais como o The Guardian (da Grã-Bretanha) reuniram o material produzido pelo cidadão dainformação e para a informação e publicaram no seu site (Outing, 2005). Muitos sites de cidadãos(incluindo blogs), foram ainda utilizados como murais de desaparecidos e como forma de reunirfundos para ajudar na reconstrução das zonas afectadas (Meraz, 2006). No ano seguinte, no dia 7 de Julho de 2005, os atentados no metro de Londres seriam o moteda participação dos indivíduos nos media. Adam Stacey foi o responsável pela imagem maismarcante dos atentados que vitimaram 52 pessoas. É uma imagem onde um homem cobre o narizcom a blusa à saída de uma das carruagens do metro, com as portas semi-abertas. A foto de Stacey 46foi publicada na sua conta Moblog e, por estar disponível sob uma licença da Creative Commons,foi possível publicá-la em jornais de todo o mundo (Felitti, 2008). Segundo Mark Glaser, durante o44 http://query.nytimes.com/gst/fullpage.html?res=9D0CE7D71730F936A3575BC0A96F95826045 http://www.youtube.com/watch?v=BEHoaYMsP9Q46 http/moblog.co.uk/view.php?id=77571 Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 24
  23. 23. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casosevento a Wikipédia foi actualizada mais de 5.000 vezes (Glaser, 2005), o que vem enfatizar o facto deos cidadãos quererem efectivamente contribuir para a informação. Neste evento, foram as imagensde indivíduos comuns que encheram as páginas dos jornais e ilustraram reportagens televisivasdurante dias. Embora a qualidade das imagens fosse reduzida, esta espelhava a visão das vítimas. Meses mais tarde, a 29 de Agosto, o cidadão empreenderia novos esforços. No FuracãoKatrina, muitos cidadãos que não estavam no local empreenderam esforços para encontrarem umabrigo para os desalojados. Esta acção marcou, inevitavelmente, o fenómeno da cidadania da e paraa informação. O fenómeno ganhava novos contornos, pelo que além de participar nos media, oindivíduo comum tinha também ambições de cariz humanitário e social. Dina Mehta, uma blogger daÍndia assegura que ficou surpreendida porque mesmo a kilómetros de distância pôde ajudar: «o queme espanta é que posso despender o meu tempo, estando no Mumbar na Índia em casa sentada naminha sala de estar, e estar a ajudar aqueles que procuram informações sobre os seus entesqueridos que estão desaparecidos no outro lado do mundo» (Mehta in Meraz, 2006: 23). Umapontamento pertinente é que, devido ao acidente, Ethan Zuckerman, Zack Rosen e Jon Lebowsky, 47 48em conjunto com os sites Salesforce e CivicSpace , desenvolveram um projecto denominado 49KatrinaPeopleFinder Project cujo objectivo era «combinar todas as bases de dados de pessoasdesaparecidas e de painéis de mensagens numa única base de dados» (Meraz, 2006: 27). Esta tevecomo âmago servir como motor de busca e auxiliar na resolução do problema das pessoasdesaparecidas. No Brasil, no dia 4 de Março de 2007, foi o caso de Priscila Aprígio, a menina de 13 anosbaleada à saída de um banco no bairro de Ibirapuera, que fez as manchetes dos jornais. Mas, mais 50uma vez, as imagens eram amadoras. No horário nobre da televisão brasileira, em cerca de quatrominutos, eram mostradas as imagens captadas pelos telemóveis de três testemunhas que gravaramo momento da morte da menina de 13 anos. Embora fossem imagens de baixa qualidade, estasprenderam milhões de espectadores às televisões. Outro caso marcante no Brasil foi o acidente com 51um jacto no dia 5 de Novembro de 2007. A Globo publicou um vídeo de um leitor que mostrava umacasa em chamas resultado do avião que caiu na região de Santana, na Grande São Paulo. Em 1975, Timor Leste foi vítima de um genocídio por parte das tropas indonésias. Este facto foiignorado pela imprensa mundial. Não havia Internet e os timorenses não tinham câmaras paramostrar o que se estava a passar. Porém em Setembro de 2007, no Myanmar, a situação foi umpouco diferente. O governo de Myanmar há muito que proibiu os jornalistas estrangeiros detrabalharem no país, pelo que a única forma da informação relativa a protestos só pôde ser dada aomundo através de telemóveis, das câmaras de filmar, dos blogs, dos vídeos colocados no YouTube, eoutros. Quando se aperceberam das potencialidades da Internet no que respeita à divulgação dasatrocidades praticadas no país, as autoridades decidiram bloquear o acesso à Internet, espalharamvírus, fecharam cybercafés, cortaram as ligações telefónicas e até mesmo a electricidade nas zonas47 http://www.salesforce.com48 http://www.civicspacelabs.org/49 http://www.katrinalist.net50 http://jornalnacional.globo.com/Jornalismo/JN/0,,AA1474593-3586-645975,00.html51 http://g1.globo.com/VCnoG1/0,,MUL169467-8491,00-VIDEO+LEITOR+FILMA+CASA+EM+CHAMAS+APOS + QUE DA+DE+JATO+EM+SP.HTML Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 25
  24. 24. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casosde conflito. Este caso espelha a importância do cidadão como fonte do jornalismo, todavia esteapenas forneceu material aos media mundiais. Tal como foi demonstrado, o cidadão tem ao longo do tempo contribuído para pintar a históriada humanidade dando ao jornalismo imagens emocionantes, muitas de fraca qualidade é certo, massem dúvida todas com uma enorme carga emocional que ajudam o jornalismo a contar a novidade.Note-se ainda que em já no início de 2010, no dia 12 de Janeiro e 27 de Fevereiro, o cidadão dainformação e para a informação teve um papel preponderante ao retratar o momento dos sismos noHaiti e no Chile, respectivamente. Através das suas imagens conseguimos ver a violência dos abalose as consequências dos mesmos. Estamos ainda no primeiro trimestre do ano e estes indivíduos jácontribuíram de forma massiva em dois eventos catastróficos. Basta-nos agora aguardar para ver seo seu interesse de participação se mantém. 1.4. Cidadania da informação e para a informação em Portugal 1.4.1. A importância e a evolução da cidadania da informação e para a informação em Portugal O fenómeno de participação não é de todo recente em Portugal. Durante o Estado Novo,através das Cartas do Leitor, o cidadão participava. Apesar do ambiente de repressão, existia espaçopara o cidadão comum manifestar as suas opiniões e ideias, pese embora o facto de ser uma secçãosensível. Para os opressores da época deviam calar-se as vozes dos críticos de modo a que não sereproduzissem (Paulouro in Teixeira, 2007). De facto, ainda hoje é comum a existência de um espaçodo leitor nos media portugueses. O espaço da Carta ao Leitor mantém-se, mas foram abertossuportes online agregados aos media tradicionais (como os jornais, por exemplo) onde o cidadão 52pode também escrever as notícias . Todavia, o editor da versão online do jornal Público, embora reconheça que os jornalistas têmde se adaptar à participação do público, discorda que exista um cidadão da informação e para ainformação em Portugal: «penso que não há ainda jornalismo participativo em Portugal» (Granado inGamela, 2007). Para António Granado «os jornalistas portugueses não estão preparados para osnovos media, porque os novos media estão a entrar muito devagar nas redacções e, às vezes, dapior maneira» (Granado in Gamela, 2007). De facto, em Portugal, o fenómeno ainda está a dar os 53primeiros passos, mas em 2005, aquando do alegado arrastão no ano de 2005 em Carcavelos ,muitas foram as imagens enviadas por testemunhas para a imprensa. Chegou-se à conclusão quealgumas imagens tinham sido manipuladas, pelo que o cidadão da informação e para a informaçãoperdeu alguma credibilidade. No entanto, não foram os únicos a errar. Os testemunhos recolhidospela imprensa também foram falsos. As pessoas descreveram um grupo de jovens a assaltar quemestava na praia, todavia estes estavam apenas a correr.52 Veja-se o exemplo do Jornal de Notícias com o espaço Cidadão Repórter, que apela claramente à participação do cidadão ao dizer «envie-nos as suas notícias e fotografias». O mesmo está disponível em: http://jn.sapo.pt/cidada oreporter/53 http://www.youtube.com/watch?v=ZjXtTfnaams e http://www.youtube.com/watch?v=oOdvHLxam9A Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 26
  25. 25. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos Posteriormente a este incidente jornais como, por exemplo, o Jornal de Notícias, a SIC, a TVIdecidiram abrir espaço ao cidadão, o que revela a importância deste evento para o surgimento dacidadania da informação e para a informação em Portugal. O Público chega mesmo a agradecer eincentivar os leitores, considerando-os «essenciais para melhorar o seu funcionamento e a qualidade 54dos seus serviços» . Nos jornais, é hoje possível comentar as notícias publicadas pelos jornalistas e,por outro lado, existem rubricas de participação onde estão disponíveis os materiais enviados poreste indivíduo. No caso das estações de televisão, estas fomentam mesmo a participação através derubricas como Nós por cá e EuRepórter (da SIC) e Eu Vi (da TVI), cujos conteúdos são enviados pelocidadão jornalista e passam por um processo de selecção e tratamento. Sobre a rubrica Nós por cá,Eduardo Cintra Torres diz que: « (…) as pessoas mostram um buraco na rua, um poste que está no meio da estrada e aquilo é transformado numa espécie de jornalismo. Mas a verdade é que quando os casos são extremamente chocantes, e a SIC considera de interesse (que eu considero que a SIC considera de interesse), a SIC vai lá a seguir (...) Portanto, aquela fotografia que a pessoa mandou, serviu apenas como material de base e aquilo que espoletou o trabalho do jornalista» (Torres in Marques, 2008). Segundo o estudo de Rui Couceiro, o uso de tecnologias neste programa é pertinente. Em2009, dos casos recebidos e guardados, 57% (142 e-mails num total de 249) tinham algum anexo.Assim, «o e-mail é, indubitavelmente, o meio preferido para o contacto com o Nós por cá. Não surpreende, por isso, que muitas das mensagens transportem informação em ficheiros de vários tipos: fotografias, vídeos, digitalizações de documentos…» (Couceiro, 2009: 11). Este programa possui características que permitem o envolvimento da comunidade. Todavia,os cidadãos não assumem o papel de jornalistas. Eles apenas colaboram. Alcides Vieira, director deinformação da SIC, diz que este programa permite aos cidadãos «exercer o seu direito de cidadania,sabendo que a sua participação passará sempre pelo trabalho de rigor jornalístico, o que confereconfiança e credibilidade ao Nós por cá» (Vieira in Couceiro, 2009: 14/15). Por outro lado a rubrica 55Nós por cá , transformou-se num programa que apela à participação e pública todos os dias omaterial enviado pelos cidadãos. Este é um programa diário onde se investigam as histórias eimagens que possam ter interesse público. Há aqui um claro tratamento do material que é depoisapresentado no programa segundo moldes jornalísticos. Já o Eu vi e EuRepórter parecem-nos ir um pouco de encontro ao iReport da CNN, no sentidoem que apelam claramente, no seu site, à participação. A TVI diz «se você for o primeiro a chegar ao 56local, não hesite. Pare, veja e registe o momento. Os seus exclusivos poderão ser notícia TVI!» . Nocaso da SIC, no EuRepórter o apelo é mais contido:54 http://static.publico.clix.pt/sites/feedback/55 http://sic.aeiou.pt/online/noticias/programas/nos+por+ca/56 TVI, “Eu Vi”, 2 de Abril de 2008, em TVI, disponível em http://www.tvi.iol.pt/informacao/noticia.php?id=9349 51#, consultado em 27 de Abril de 2008. Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 27
  26. 26. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos «O mesmo acontecimento tem sempre vários ângulos, este é o dos telespectadores e utilizadores da SIC que o testemunharam e viveram. Propomos- lhe desafios temáticos, seguindo a actualidade, mas há espaço privilegiado para o 57 seu “exclusivo”. Participe e envie a sua história para eureporter@sic.pt» . Em Portugal, e se tivermos em linha de conta países como o Brasil ou os EUA, este tem sidoum fenómeno discreto. Porém, são notórios os esforços que a imprensa portuguesa está adesenvolver diariamente (com os programas acima mencionados, por exemplo) para incentivar aparticipação destes indivíduos na sociedade e nos media. No fundo, sabemos que ainda temos muitoque caminhar, pese embora o facto de já termos lançado algumas bases vitais para o seuflorescimento e amadurecimento. 1.4.2. Casos concretos da participação dos cidadãos nos media em Portugal Em terras lusas, este fenómeno tem passado mais despercebido, todavia o ano de 2005 foimarcante no que respeita à cidadania da informação e para a informação. No dia 10 de Junho de2005, o pseudo arrastão na praia de Carcavelos despertou a atenção dos portugueses para estefenómeno e trouxe ainda a lume questões relacionadas com a importância e a credibilidade domaterial dos cidadãos da informação e para a informação. O que inicialmente foi relatado como umassalto perpetrado por 500 jovens negros de bairros degradados, não passou de um equívoco. O quesucedeu foi uma manipulação dos factos com as fotografias que mostravam uma debandada geral.De facto, as pessoas não fugiam dos assaltantes mas sim da chegada da polícia. A imprensa foiinduzida em erro tanto pelas fontes policiais como pelos populares. Esta situação enferma umaquestão relevante: a veracidade dos acontecimentos. Os media portugueses não confirmaram averacidade das imagens produzidas pelo cidadão que produziu e legendou as imagens como quis.Por outro lado, também não desmentiram a notícia com o mesmo destaque que a divulgaram, logoforam, de certo modo, contra o direito de rectificação da comunicação social. Note-se que este erromediático teve consequências nefastas pois enfatizou os preconceitos e desconfianças raciais econtribuiu para a descredibilização do cidadão da informação e para a informação. No entanto, a participação do cidadão já apresenta algumas contribuições notórias emPortugal, sobretudo no caso do nevão e das cheias ocorridas em Lisboa, em 2006 e 2008respectivamente. A 18 de Fevereiro de 2008, as cheias que assolaram a zona da Grande Lisboaserviram de mote à participação civil no jornalismo. Nesse dia, no rodapé do Jornal da Tarde da RTP1, lia-se «Temporal em Lisboa. Envie as imagens e relatos do mau tempo para noticias@rtp.pt»(Couceiro, 2009: 6). O resultado deste acidente natural foi catastrófico e de nada adiantava falar emcheias sem mostrar as diferentes áreas afectadas pelos olhos dos seus moradores. Às redacçõesportuguesas chegaram imagens e vídeos que ilustravam as palavras que os jornalistas iamproferindo. Mais uma vez as imagens foram produzidas por amadores que além de darem umtestemunho emotivo, contribuíram também para criar um arquivo audiovisual do que aconteceu noano de 2008.57 http://sic.aeiou.pt/online/jornalismo%20do%20cidadao Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 28
  27. 27. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos Foi através da gravação de um vídeo pelo telemóvel e através da sua posterior publicação noYouTube, que ficámos a conhecer em 2008 a violência de uma aluna contra a sua professora de 58francês na escola Carolina Micaellis . Todavia, Eduardo Cintra Torres ressalva que «aquela cena do Carolina Micaellis… não é do jornalismo…só passou a ser depois quando passou para a comunicação social. Era fantástico!...era um material interessante…que serviu de base a um debate muito interessante no país, mas foi depois de ser transformado em notícia» (Torres in Marques, 2008). Por terras lusas, o ano de 2010 começou com saldo positivo no que respeita à participação docidadão. De facto, foram as imagens produzidas por estas pessoas das cheias na Madeira quetocaram não só os portugueses, mas também o mundo. Através das imagens produzidas poramadores, todo o mundo viu a violência e as consequências da chuva na ilha. Note-se que tambémnas cheias de Lisboa no mesmo mês, a acção dos indivíduos foi notória. Em Portugal, parece-nos que a tendência deste fenómeno é para se intensificar, sobretudodevido ao acesso, cada vez mais generalizado, da população à Internet e aos novos media. Todavia,temos de atentar ao facto do nosso país não ser alvo de grandes catástrofes ou guerras, pelo queface à ausência de um acontecimento de grande envergadura, os cidadãos participam menos.Segundo o estudo de Rui Couceiro, a participação no programa Nós por cá é essencialmentemotivada por questões colectivas, ou seja, questões que afectam um grande conjunto de pessoas(Couceiro, 2009). Se estas questões colectivas não sucederem, a participação do cidadão é menor. Em suma, a participação dos amadores na actividade jornalística pode ter consequênciaspositivas, pois estes dão ao mundo testemunhos verídicos e emotivos de situações que fazemdiariamente a história da humanidade. Porém, este cidadão deve ter ciente que não é um jornalista,logo não deve, em situação alguma, colocar a sua vida em risco. Deve respeitar ainda os códigoséticos e legais estabelecidos na sua sociedade, pois se tal não acontecer corre o risco de responderlegalmente pelas suas acções. No fundo deve ter sempre em mente que é um elemento da sociedadecom direito a participar, mas deve deixar que o jornalista faça o seu trabalho. Acreditamos quefuturamente nos livros de história figurem imagens produzidas por estes indivíduos, pois uma imagemvale mais do que mil palavras. Mas afinal o que move estes indivíduos? Quais os motivos por detrásda sua participação? Será que participam porque querem os seus cinco minutos de fama? Quereminfluenciar os seus pares ou querem apenas integrar-se numa sociedade em constante mutação? NoCapítulo quatro vamos averiguar os motivos que podem estar no fundo da participação dosindivíduos. Por agora, vamos centrar-nos na motivação.58 http://www.youtube.com/watch?v=5jubEHdCzYI Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 29

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