Parreiras

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Parreiras

  1. 1. Claudia Valladares (UFF) Orientadora: Profª. Drª. Lucia Teixeira
  2. 2. O pintor em questão é considerado um dos maiores paisagistas brasileiros. O uso inovador que ele faz da cor e da luz em suas obras, pode ser considerado como a antecipação do surgimento do impressionismo no Brasil, refletindo, revelando uma arte que se apresenta em total interação com um dado momento histórico. Do ponto de vista da inovação, Salgueiro (2000) mostra que: Uma abordagem da paisagem que significa, sem dúvida, a menos idealizada e a de maior comunhão com a natureza , se comparada àquela até então praticada na arte brasileira(...)Sua obra ‘Sertanejas’(1896) é exemplar dessa abordagem inovadora no contexto da arte brasileira, tanto no sentido temático quanto composicional(...).(SALGUEIRO,200,p.41).
  3. 3. Contudo, apesar, do que nos aponta Salgueiro sobre a inovação na temática e composição nas obras ,de paisagem, de Parreiras, é preciso pontuar que tal inovação deve ser restringida ao contexto brasileiro, haja vista que há diversos exemplos similares a Sertanejas (1896) –uma vista interior de mata -,produzidos na Europa, como por exemplo, do francês Monet ( 1847-1879).
  4. 4. AINDA SOBRE Ainda sobre a inovação na sua obra ,De Marcos destaca que [...]Seu professor, importante influência em sua obra, inovou no rigor dos métodos do ensino acadêmico ao estimular a nova perspectiva de que o paisagismo atinge sua plenitude pictórica como uma pintura a ser realizada ao ar livre, com flexibilidade para a expressão sensível e para a captação de cores e de luz dos trópicos do sul,contrariando métodos formais no ateliê, destoando dos preceitos dos pintores neoclássicos que formaram a Missão Francesa, pintando, de certo modo, tal como os impressionistas sincronicamente experimentavam na França, com pinceladas livres e ligeiras, fluidas, em cores aqui discretamente mais luminosas e vibrantes. ( DE MARCOS,2011)
  5. 5. A formação artística de Parreiras teve inicio na Academia Imperial de Belas Artes onde foi aluno do professor Georg Grimm, que o incentivou a pintar paisagens ao ar livre método que contrariava o ensino tradicional da Academia. Apesar de Parreiras não possuir uma sólida formação formal, foi um dos poucos artistas brasileiros que escreveu sobre sua própria obra, mesmo que tenha iniciado sua carreira apenas aos 23 anos, tardiamente para os padrões da profissão. Além de sua autobiografia intitulada Historia de um pintor contada por ele mesmo, Parreiras deixou uma quantidade significativa de depoimentos de grande importância, e, acima de tudo, relatos imprescindíveis sobre o panorama estético, social, político e dos processos criativos da arte brasileira no final do século XIX e início do século XX.
  6. 6. .JUSTIFICATIVA Este trabalho justifica-se, primeiramente, pela importância de se desenvolver estudos voltados para a análise de textos sincréticos ,principalmente, por haver uma carência de trabalhos de analise sobre ilustração, que consigam articular o verbal e o visual. Em segundo lugar, a pertinência desta pesquisa reside no fato de que ao estudarmos o texto autobiográfico de Parreiras ,constituído de palavra e imagem , estamos desenvolvendo um estudo sobre as condições de produção da arte no Brasil, num determinado momento histórico, numa produção do pintor, que nunca foi analisada anteriormente. E ,também, por serem poucos os estudos voltados para a análise da ilustração como texto sincrético. Finalmente, esta pesquisa justifica-se por ter a produção artística, deste período em questão, um diálogo – harmônico ou polêmico – com a pedagogia de instituições oficiais de ensino, as famosas Academias de Artes, cuja representante mais célebre no Brasil foi a Academia/Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro.
  7. 7. 3. OBJETIVOS DA PESQUISA 3.1.Objetivo geral O objetivo geral da pesquisa é: Analisar como se constroem as relações de produção de sentido que se estabelecem entre o texto plástico e o verbal na obra autobiográfica História de um pintor contada por ele mesmo de Antônio Parreiras,considerada uma obra sincrética.
  8. 8. 3.2.Objetivos específicos Especificamente, pretendemos: •Analisar os temas e figuras que constituem as isotopias do tempo e da memória na obra; • Analisar sintaticamente as projeções de pessoa, tempo e espaço; • Examinar a construção semântica do tempo como eixo constitutivo da obra; • Estabelecer a narrativa da trajetória do pintor, considerando o caráter exemplar de que se constitui, pela originalidade do percurso e das escolhas; •Analisar o plano de expressão da obra, considerando as relações entre texto verbal e ilustrações; •Descrever a estratégia enunciativa que , ao sincretizar palavra e imagem num mesmo objeto semiótico, define a constituição figurativa do narrador/enunciador do texto e o papel do tempo e da memória na produção da autobiografia.
  9. 9. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA E METODOLÓGICA O suporte teórico-metodológico mobilizado para desenvolver este trabalho é o da semiótica discursiva, de origem greimasiana, que se volta para a explicitação das condições da apreensão e da produção de sentido, privilegiando a abordagem do texto como objeto de significação, preocupando-se em estudar os mecanismos que o engendram e que o constituem como um todo significativo, o que significa descrever e explicar o que o texto diz e como ele faz para dizer o que diz. Para tanto, a semiótica concebe o processo de produção do texto como um percurso gerativo constituído por três patamares: o fundamental, o narrativo e o discursivo, dando ênfase às relações que se estabelecem entre os signos, a partir do processo de significação capaz de gerá-los.
  10. 10. Segundo Fiorin , O percurso gerativo de sentido é uma sucessão de patamares, cada um dos quais suscetível de receber uma descrição adequada,que mostra como se produz e se interpreta o sentido, num processo que vai do mais simples ao mais complexo (FIORIN,2005,p.20). Para esta análise, especificamente, selecionamos um trecho da obra autobiográfica História de um pintor contada por ele mesmo de Parreiras, constituído pela integração de uma imagem (ilustração) com o texto que a acompanha, como uma espécie de legenda, selecionado pelo próprio artista. Nesse sentido, verbal e não verbal, integrados, do ponto de vista da semiótica discursiva, podem ser tomados como um texto sincrético.
  11. 11. De acordo com Teixeira, a semiótica discursiva define como sincrético um objeto que : mobilizando várias linguagens que se relacionam e interagem ao produzir sentido, submete-se , como texto, a uma única enunciação que confere unicidade à variação.Objetos sincréticos,para dizer com mais rigor, são aqueles em que o plano de expressão se caracteriza por uma pluralidade de substâncias mobilizadas por uma única enunciação cuja competência de textualizar supõe o domínio de várias linguagens para a formalização de uma outra que as organize num todo de significação (TEIXEIRA,2004,p.235).
  12. 12. 5.EXERCÍCIO DE ANÁLISE O texto sincrético que iremos analisar, a quinta ilustração da obra autobiográfica História de um pintor contada por ele mesmo de Antônio Parreiras (figura 4), é composto pelo autorretrato do pintor envolto por uma paisagem e uma legenda que o acompanha.
  13. 13. Ao observamos a cena, o que nos chama imediatamente a atenção, atrai nosso olhar é a figura do pintor que ocupa quase em sua totalidade o lado direito da cena. Ele está sentado sob um rochedo e sua postura está levemente inclinada, projetando-se para frente de seu corpo, tendo à esquerda, o mar. Parreiras está ricamente vestido e tem sob suas mãos um chapéu que displicentemente pende de suas mãos. Algumas relações potencializam a atração imediata que a figura de Parreiras exerce sobre nosso olhar como os contrastes existentes entre o primeiro (rochedo e figura do pintor), segundo (rochedo intermediário) e o terceiro (mar) planos.
  14. 14. O primeiro plano é escuro, com traços fortes, saturados e bem marcados o que nos sugere um sentido de “fechamento”, repouso, interioridade, contenção. O terceiro plano é claro, com traços fracos, diluídos, rarefeitos o que nos sugere um sentido de “abertura/amplitude” para outro espaço, exterioridade, expansão. No segundo plano, temos, além do maior contraste cromático em relação ao primeiro (pelo tom claro da roupa) e menor em relação ao segundo plano (pontos escuros no cabelo, barba, gravata e chapéu), a figura do pintor numa posição arqueada, a cabeça, o olhar olhando diagonalmente, o olhar fixado na rocha,no concreto,no hoje, e ,em diagonal, pés, um levemente entortado,virado,retorcido e outro plantado,fixo no chão; as mãos entrecruzadas segurando o chapéu que pende, o despojamento da posição de um de seus pés, a rigidez do outro, sua posição que ao mesmo tempo relaxa e tensiona o corpo sugere a entrega do sujeito à lembrança.
  15. 15. É importante ressaltar que neste caso, a legenda que recorta a ilustração tem uma função de ancoragem, uma vez que delimita o sentido da ilustração. A ilustração só adquire esse sentido específico por meio da legenda “Então uma saudade imensa me invade a alma. É a lembrança do passado que volta...” que a acompanha.A ilustração tomada isoladamente poderia nos sugerir várias interpretações acerca de sua figuratividade,pois o que vemos no texto plástico é simplesmente um homem sozinho, sob um rochedo, numa paisagem dura, porém, bela, mas que pouco sugere o ato de rememorar. Isto nos mostra que, do ponto de vista da semiótica sincrética, o texto sob análise, mobiliza várias linguagens que se relacionam e interagem ao produzir sentido numa única enunciação, conferindo unicidade à variação.
  16. 16. No entanto, quando analisamos, neste sentido, o plástico e o verbal, como uma única enunciação, percebemos a tematização da lembrança que é dada pelo texto verbal (legenda), e é ressaltada, confirmada por essa organização figurativa e plástica do visual. Este lugar, que se torna um aqui, presentifica a cena onde os acontecimentos serão lembrados e reforça a ideia de que o sujeito se mantém no aqui, no agora, neste lugar inóspito, lembrando-se do passado. O pintor está num aqui em que sente saudades de um lá. Quando ocorre a figurativização da memória, ou seja, quando o narrador se apresenta lembrando ou esquecendo, temos o que chamamos temporalidade da memória (BARROS, 2009, p.543). Como o gênero autobiográfico pressupõe um enunciador que se desdobra em narrador ( ao contar sobre uma vida assumidamente sua),podemos dizer que , neste caso, ele se relata e retrata lembrando-se de seu passado.
  17. 17. A figura do pintor está cercada por uma paisagem áspera, dura, isolada de tudo e de todos, que figurativiza o isolamento do sujeito, criando uma ambiência propícia no não verbal (equivalente ao “então” da legenda) para evocar o passado, para a “invasão da saudade”. Quanto ao papel dado à paisagem na obra de Parreiras, Cerdera (2012, p.45) postula que: Quando a figura humana vincula-se à paisagem, esta não ocupa uma função secundária, não é um cenário, pano de fundo para a primeira, enaltecendo ou preparando o olhar para a ação de personagens, papel tradicionalmente aceito para a paisagem. [...] Na contramão dessa tendência , Parreiras forja,empresta a materialidade da paisagem à própria ação.[...] A paisagem assim pensada não se caracteriza tão somente como necessária [...]mas,antes disso,transforma o espaço da paisagem em actante, função narrativa,cujo papel é operar as transformações concretizadas na cena (CERDERA,2012,p.45)
  18. 18. A linha do horizonte, a tonalidade mais alta, a abertura, a amplitude presentes no terceiro plano sugere o movimento para o então, para o lá que está fora da cena, para a saudade. Esse sujeito contido no presente é arrebatado, invadido pela saudade e propicia a conjunção com o passado – “saudade imensa/invade a alma”. A saudade é a percepção da ausência de um outro espaço e tempo já projetados fora da cena. Essa saudade possibilita, então, a presentificação do ato de lembrar, desdobrando o sistema enunciativo em dois tempos: o da enunciação (o agora do pintor que se retrata na cena) e o da memória: Embora ambos possam ser expressos pelo sistema enunciativo, o tempo de contar e o de rememorar não são exatamente os mesmos, há, ao menos, um breve hiato entre os dois. A narração está sempre um pouco “atrasada” com relação ao ato de lembrar, já que o pressupõe. Ela , no entanto, o incorpora. A rememoração só pode aparecer no texto por estar sendo narrada (BARROS, 2009, p.543).
  19. 19. Fiorin (1996) já havia apontado anteriormente a existência de duas temporalizações linguísticas possíveis no discurso: uma do enunciado e outra da enunciação. A do enunciado que é a temporalidade em que os acontecimentos narrados acontecem, e a da enunciação que refere-se à temporalidade em que o narrador conta os eventos. A partir dessas considerações, o autor apresenta quatro tipos de operações temporais que são: a debreagem enunciativa da enunciação,a debreagem enunciva da enunciação,a debreagem enunciativa do enunciado e a debreagem enunciva do enunciado (FIORIN,1996,p.290-296).
  20. 20. Há na cena analisada a coexistência de duas sequências narrativas. A primeira sequência é a do sujeito que está em conjunção com o presente e uma segunda sequência na qual ele entra em conjunção com o passado. Esta primeira sequência , no entanto, não é totalmente abandonada. A transformação dos estados do sujeito é mostrada em processo, curso, ou seja, ocorrendo. Não há um total abandono da primeira sequência, pois o sujeito não “sai” do presente ao entrar em conjunção com o passado, ou seja, ele não se distancia totalmente de seu presente. A instalação da enunciação enunciada (instância do eu-aqui-agora) manifesta-se, no texto verbal, por meio do pronome “me” que demonstra a instalação da primeira pessoa; assim e, também, na embreagem enunciva realizada pela assinatura e legenda no canto direito e esquerdo respectivamente na cena, o sujeito assume no discurso que fala de si mesmo.
  21. 21. Mariana Barros (2009, p.24) postula que: o efeito de identidade entre narrador e protagonista é produzido, geralmente, pelo emprego do pronome “eu”, ou seja, por uma debreagem enunciativa do enunciado. .já o efeito de identidade entre enunciador e protagonista pode realizar-se pela onomástica, que concretiza semanticamente num mesmo antropônimo o ator da enunciação e o ator do narrado (BARROS, 2009, p.24). Dessa forma, temos nos discursos sobre a memória algumas características que facilitariam a definição do gênero como, por exemplo, a relação de identidade entre enunciador, narrador e protagonista. Além disso,outras estratégias discursivas podem ser utilizadas na contribuição da constituição de gênero autobiográfico como a dominância e não exclusividade do tempo passado,recriado pelo sistema enuncivo pretérito, que instala um então no discurso,em oposição ao agora da enunciação. Segundo Fiorin (1996), “os tempos enuncivos ordenam-se em dois subsistemas: um centrado no momento de referencia pretérito e outro, num momento de referencia futuro” (FIORIN, 1996, p.154).
  22. 22. Na primeira frase, advérbio “então” instala um “agora”, um presente ao mesmo tempo em que prepara, introduz “a saudade” na narrativa. Ele debreia um momento, estabelecendo, portanto, uma conexão entre presente e passado, o encadeamento de uma narrativa durativa, que prolonga a cena num presente que é tomado pela lembrança. Na segunda frase “É a lembrança do passado que volta...”, há a instalação de um agora observado pelo uso dos verbos no presente “é” e “volta”. Porém, este “agora” cria um efeito de sentido “continuum”,ilimitado através da utilização do tempo enunciativo gnômico ( ou omnitemporal). Como explica Fiorin, o presente gnômico cria um efeito de continuidade e “é o presente utilizado para enunciar verdades eternas ou que se pretendem como tais” (FIORIN, 1996, p.150-151). Esta construção sintática expressa, ainda, a temporalidade da enunciação uma vez que: Os tempos enunciativos são, geralmente, empregados para se referir à história, para tratar da construção do passado, da memória e da narrativa e estabelecer conexões entre o passado e o presente, mostrando principalmente continuidade entre os dois (BARROS, 2009, p.545).
  23. 23. Por sua vez, a tematização da lembrança neste enunciado, configura, no texto verbal, a temporalidade da memória na medida em que a tematização da lembrança, da rememoração é figurativizada no texto plástico, estabelecendo, assim, uma rede relacional. A essa rede relacional, chamamos percurso figurativo. Como nos diz Fiorin (2005,p.97), “ler um percurso figurativo é descobrir o tema que subjaz a ele”. Ainda segundo Fiorin: Em todo texto, temos um nível de organização narrativa, que será tematizado. Posteriormente, o nível de organização temática poderá ou não ser figurativizado. O nível temático dá sentido ao figurativo e o nível narrativo ilumina o temático (FIORIN, 2005, p.94).
  24. 24. Para que as figuras ganhem sentido no texto, elas precisam ser a concretização de um tema que é o revestimento de um esquema narrativo. Tematização e figurativização são dois níveis de concretização do sentido. O que significa dizer que o sentido que atribuímos em nossa análise sobre a temporalidade da memória só nos foi possível, pois o tema “lembrança”, “saudade” é concretizado através das figuras; ou melhor, através da relação estabelecida entre tema e figuras, através de um percurso temático e figurativo. O recorte de análise que ora se apresentou, até por uma questão do tempo, deixa lacunas que precisam ser preenchidas, algumas questões que precisam ser respondidas e outras que precisam ser aprofundadas. E são estas questões que vão direcionar o trabalho daqui por diante.
  25. 25. claudia_valladares@id.uff.br

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