Gil Vicente

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O teatro do Humanismo português e obra de Gil Vicente. Visão Geral do Auto da Barca do Inferno.
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Gil Vicente

  1. 1. Gil Vicente Humanismo Teatro português
  2. 2. Biografia misteriosa Gil Vicente demonstra estar ligado ao medievalismo e ao mesmo tempo ao humanismo, ou seja, alguém que pensava em Deus mas exaltava o homem livre. A biografia de Gil Vicente permanece um mistério em muitos aspectos. Não há provas definitivas que possam estabelecer com segurança sua identidade. Calcula-se que tenha nascido por volta de 1465 em lugar ignorado.
  3. 3. O que é um auto? Auto é uma peça de teatro originada na Idade Média que aponta para a dicotomia bem x mal. Tinha a finalidade de divertir, moralizar ou apenas difundir a fé cristã. As personagens de um auto são divididas em dois grupos: personagens alegóricas, que representam ideias – Anjo e Diabo, e personagens- arquétipo, que não têm profundidade psicológica e não representam indivíduos, mas sim classes, e comportamentos humanos.
  4. 4. • Auto da Barca do Inferno (1517) • Auto da Barca do Purgatório (1518) • Auto da Barca da Glória (1519) O teatro vicentino é basicamente caracterizado pela sátira, criticando o comportamento de todas camadas sociais: a nobreza, o clero e o povo. Trilogia das barcas
  5. 5. Vários tipos característicos da sociedade portuguesa, ao morrerem, desfilam diante das barcas e são interrogados pelo Diabo e pelo Anjo, e em seguida embarcam em direção ao Inferno ou ao Paraíso. Auto da Barca do Inferno
  6. 6. Cenário do auto Por tratar-se de uma peça medieval , o cenário não contava com muitos adereços ou objetos, sendo muito simples ou mesmo rudimentar, afinal, a peça seria encenada em salões, praças, pátios de igrejas e portanto, com poucos recursos.
  7. 7. a linguagem do auto A obra foi escrita em versos, em tom coloquial e com intenção moralizante. Algumas passagens do texto fundem O português, o latim e o espanhol. Cada personagem apresenta, através da sua linguagem, traços que denunciam sua condição social. (adaptado de passeiweb) DIABO À barca, à barca, houlá! que temos gentil maré! – Ora venha o caro à ré! COMPANHEIRO Feito, feito! DIABO Bem está! Vai tu muitieramá, atesa aquele palanco e despeja aquele banco pera a gente que vinrá. À barca, à barca, hu-u! Asinha, que se quer ir! Oh! Que tempo de partir, louvores a Berzebu!
  8. 8. De todos as personagens, apenas cinco (que representam dois tipos humanos) - um parvo, e quatro cavaleiros que morreram lutando em nome de Deus – são autorizados a embarcar em companhia do Anjo. Apenas os cavaleiros embarcam, e o Parvo fica no cais. Gil Vicente preocupou-se com a sistematização de uma ética para seu tempo, pois para ele o progresso sem ética era uma ilusão. Este auto concretiza essa ideia na alegoria do julgamento após a morte. A peça é tanto mais atual pelo tratamento sarcástico e bem-humorado da realidade da época. (Ivan Teixeira- doutor em literatura brasileira ) A moralidade no auto
  9. 9. “Auto de moralidade composto por Gil Vicente por contemplação da sereníssima e muito católica rainha Lianor, nossa senhora, e representado por seu mandado ao poderoso príncipe e mui alto rei Manuel, primeiro de Portugal deste nome”. ( Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno)
  10. 10. “Começa a declaração e argumento da obra. Primeiramente, no presente auto, se fegura que, no ponto que acabamos de espirar, chegamos supitamente a um rio, o qual per força havemos de passar em um de dous batés que naquele porto estão; um deles passa pera o Paraíso, e o outro pera o Inferno; os quais batés tem cada um seus arrais na proa: o do Paraíso um Anjo, e o do Inferno um Arrais infernal e um Companheiro” (Texto de acordo com a edição de cerca de 1518) O argumento da peça
  11. 11. “Nas diabruras dos mistérios da Idade Media, nas visões cômicas de além-túmulo (…) O diabo é o alegre porta-voz ambivalente de opiniões não oficiais, da santidade ao avesso, o representante do Inferior material, etc. (…) assegurava a todos que os diabos eram boa gente”. Ás vezes o diabo e o inferno são descritos como meros “espantalhos alegres” (Bakhtin, 1987 p.36) Diabo “É preciso notar que no grotesco da ldade Média e do Renascimento há elementos cômicos mesmo na imagem da morte (...). A figura do espantalho cômico reaparece com maior ou menor relevo. (Bakhtin, 1987 p.44) “Põe bandeiras, que é festa”
  12. 12. Anjo “Veremos se uem alguém merecedor de tal bem” “O anjo é uma figura glacial, que cumpre sua função quase militar de impedir a entrada dos pecadores em sua divina barca. Seu discurso é frio, impessoal, previsível.(...) O Anjo mantém-se sóbrio, comedido, e raramente manifesta algum tipo de emoção, geralmente uma ligeira impaciência, ou uma ironia refinada. ( Clenir Bellezzi de Oliveira)
  13. 13. Fidalgo Onzeneiro Parvo Sapateiro Alcoviteira um frade e sua amante Judeu um juiz e um promotor Enforcado Quatro cavaleiros Arquétipos
  14. 14. Fidalgo Arquétipo: Nobreza Representa os nobres reconhecidos por sua arrogância, orgulho,tirania, vaidade. Alegorias do pecado cometido: - pajem: desprezo pelos mais pobres - manto (“rabo”): vaidade, ostentação - cadeira: prepotência e exibicionismo. ANJO Que querês? FIDALGO Que me digais, pois parti tão sem aviso, se a barca do Paraíso é esta em que navegais. ANJO Esta é; que demandais? FIDALGO Que me leixês embarcar. Sou fidalgo de solar, é bem que me recolhais. ANJO Não se embarca tirania neste batel divinal. FIDALGO Não sei porque haveis por mal que entr’a minha senhoria... ANJO Pera vossa fantesia mui estreita é esta barca.
  15. 15. Onzeneiro Arquétipo: Burguesia – agiota Representa as pessoas que se beneficiam da usura, da agiotagem, da avareza, e da exploração da necessidade alheia. Alegoria do pecado cometido: - bolsão: representa a ganância pelo dinheiro ONZENEIRO Hou da barca! Houlá! Hou! Havês logo de partir ? ANJO E onde queres tu ir ? ONZENEIRO Eu pera o Paraíso vou. ANJO Pois cant’eu mui fora estou de te levar para lá. Essa barca que lá está vai pera quem te enganou. ONZENEIRO Por quê? ANJO Porque esse bolsão tomara todo o navio. ONZENEIRO Juro a Deos que vai vazio! ANJO Não já no teu coração
  16. 16. Parvo “Bem aventurados os pobres de espírito porque deles é o reino do Céu” Arquétipo: Povo explorado O Parvo não traz nenhuma alegoria de pecado cometido O Parvo é absolvido dos pecados que cometeu em vida, por serem cometidos “sem malícia”, por ingenuidade ou necessidade. JOANE Hou da barca! ANJO Que me queres? JOANE Queres-me passar além? ANJO Quem és tu? JOANE Samica alguém. ANJO Tu passarás, se quiseres; porque em todos teus fazeres per malícia nom erraste. Tua simpreza t’abaste pera gozar dos prazeres. Espera entanto per i; veremos se vem alguém merecedor de tal bem que deva de entrar aqui
  17. 17. Sapateiro Arquétipo: Comerciante explorador Representa os comerciantes que roubam seus clientes cobrando altos preços e oferecendo mercadorias de baixa qualidade para obter mais lucro. Alegorias do pecado cometido: - avental: simboliza a profissão - formas de sapatos (instrumentos) Ambos eram usados para explorar seus clientes. SAPATEIRO Os que morrem confessados, onde têm sua passagem? DIABO Nom cures de mais linguagem! Esta é tua barca, esta! SAPATEIRO Arrenegaria eu da festa e da puta da barcagem! Como poderá isso ser, confessado e comungado? DIABO E tu morreste escomungado: nom o quiseste dizer. Esperavas de viver; calaste dous mil enganos. Tu roubaste bem trint’anos o povo com teu mester (...) E os dinheiros mal levados, que foi da satisfação?
  18. 18. Frade Arquétipo : Clérigo por conveniência Representa as pessoas que adotavam a vida clerical sem vocação, apenas para usufruir os benefícios e o status. Alegorias do pecado cometido - Amante (Florença) – desrespeito ao celibato -Espada, escudo, casco – gosto pela guerra -Hábito de frade, cruz – Religião e fé. -Dança cortesã – costume mundano e vida desregrada DIABO Que é isso, padre? Que vai lá? FRADE Deo gratias ! Sou cortesão. DIABO Essa dama, é ela vossa? FRADE Por minha la tenho eu, e sempre a tive de meu. DIABO Fezeste bem, que é fermosa! E não vos punham lá grosa no vosso convento santo? FRADE E eles fazem outro tanto!
  19. 19. Alcoviteira Arquétipo: Alcoviteira Representa as pessoas que obtém lucro ou benefício incitando o pecado da luxúria e da prostituição. Alegorias do pecado cometido Ela carrega uma arca que contém: - hímens postiços - feitiços - mentiras - roupas insinuantes BRÍSIDA No é essa barca que eu cato. DIABO E trazês vós muito fato? BRÍSIDA O que me convém levar. DIABO Que é o qu’havês d’embarcar? BRÍSIDA Seiscentos virgos postiços e três arcas de feitiços que nom podem mais levar. Três armários de mentir, e cinco cofres de enleio e alguns furtos alheios, assi em jóias de vestir, A mor cárrega que é: essas moças que vendia: Daquesta mercadoria trago eu muita, bofé!
  20. 20. Judeu Arquétipo: Judeu Representa as pessoas que não acreditavam na fé católica. O preconceito da época fica nítido, pois nem o Diabo aceita o Judeu em sua barca. Alegoria do pecado cometido Bode – “o bode opõe-se simbolicamente ao carneiro; enquanto o carneiro associa-se a ideia do bem, o bode associa-se ao mal. Segundo o Velho Testamento, o bode foi afugentado para o deserto porque deveria assumir os pecados de Israel” : “o bode expiatório”. JUDEU Que vai cá? Hou marinheiro! DIABO Que má-hora vieste! JUDEU Cuj’é esta barca que preste? DIABO Esta barca é do barqueiro. JUDEU Passai-me por meu dinheiro. DIABO E o bode há cá de vir? JUDEU Pois também o bode há-de ir. DIABO Que escusado passageiro (...) Vós, judeu, irês à toa. que sois mui ruim pessoa. Levai o cabrão na trela!
  21. 21. Corregedor Procurador Alegorias dos seus pecados - Papelada - Livros jurídicos - Processos - Vara e processos Arquétipos: Funcionário público corrupto Juiz corrupto Representam a corrupção, injustiça, o suborno e o mau uso dos bens públicos. CORREGEDOR Hou da barca! DIABO Que querês? CORREGEDOR Está aqui o senhor juiz? DIABO Oh amador de perdiz, gentil cárrega trazês! CORREGEDOR No meu ar conhecerês que nom é ela do meu jeito. DIABO Como vai lá o direito? CORREGEDOR Nestes feitos o verês.(...) Eu mui bem me confessei, mas tudo quanto roubei encobri ao confessor..
  22. 22. Enforcado Arquétipos: Criminoso e suicida Representa as pessoas que se deixam levar pela vida de crimes, e ainda tentam ludibriar a condenação terrena, tirando a própria vida. Alegoria do pecado cometido - corda no pescoço ( o”baraço”) DIABO Entra, entra no batel, que ao Inferno hás-de ir!(...) ENFORCADO O Moniz há-de mentir? Disse-me que com São Miguel jentaria pão e mel tanto que fosse enforcado. Ora, já passei meu fado, e já feito é o burel.(...) DIABO Falou-te no Purgatório? (...) Quero-te desenganar:
  23. 23. Cavaleiros Arquétipo: Cruzados Representam os homens que defenderam a fé cristã com a própria vida durante a Reconquista. Alegoria da salvação: Cruz de Cristo que simboliza a fé católica dos cavaleiros, as espadas e os escudos, que simbolizam a apologia da Reconquista e da Expansão da Fé Cristã DIABO Entrai cá! Que cousa é essa? Eu nom posso entender isto! CAVALEIROS Quem morre por Jesus Cristo não vai em tal barca como essa! (...) ANJO Ó cavaleiros de Deos, a vós estou esperando, que morrestes pelejando por Cristo, Senhor dos céos! Sois livres de todo o mal, mártires da Madre Igreja, que quem morre em tal peleja merece paz eternal.
  24. 24. “Rindo se castigam os costumes”
  25. 25. Assista a análise feita pelo prof. Fernando Marcílio para o site G1. duração: 2min 22seg https://www.youtube.com/watch?v=s8w6qZ6CT2c
  26. 26. https://www.youtube.com/watch?v=ae0KRhwfGHo Tudo o que é Sólido Pode Derreter foi uma série de televisão dramática brasileira criada por Rafael Gomes e Esmir Filho, exibida pela TV Cultura a partir de 10 de abril de 2009, às 19h30min, com uma temporada de treze episódios. Produzida pela Ioiô Filmes em parceria com a TV Cultura, a série é derivada do curta-metragem de mesmo nome, dirigido por Rafael Gomes, que adaptou a trama para ser dividida em capítulos. duração: 22min18seg (a partir de 8’14seg)
  27. 27. Filmografia Indicada “Abordando temas universais como a avareza humana e suas amargas consequências, por meio de personagens populares, Suassuna, nesta obra, prepara o espectador para um desfecho moralizante conforme os preceitos do cristianismo católico. A visão cristã da vida presente no Auto traz uma concepção da religião como algo simples, agradável, doce e não como uma coisa formal e solene, difícil e mesmo penosa. Essa intimidade com Deus, e a idéia de simplicidade nas relações dele com os homens, essa compreensão da vida e fé na misericórdia, parecem aspectos primordiais no sentido religioso da obra: a compreensão das faltas humanas, atribuída à Nossa Senhora, que, como mulher, simples e do povo, explica-as e pede para elas a compaixão divina.” (http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/l(...)auto_da_compadecida) O texto contemporâneo de Ariano Suassuna aproxima-se dos autos de Gil Vicente por sua temática. Assista.
  28. 28. Filmografia Indicada 2011 1998
  29. 29. Fontes VICENTE, Gil.Auto da Barca do Inferno. http://www.cm-sjm.pt/files/19/19501.pdf BAKHTIN, Mikhail, (1987): A cultura popular na Idade Média e no Renascimento, o contexto de François Rabelais Editora Universidade de Brasilia, São Paulo. OLIVEIRA, Clenir Bellezzi de. O anjo e o Justiceiro de Deus.Revista Discutindo Literatura. Ed. Escala Educacional. p.11. http://letrasemarmamar.blogspot.com.br/p/intrucao-ao-estudo-do-auto-da-barca-do.html www.portradasletras.com.br Fotografias pelos Alunos de Fotografia da Turma 2014/2015 da Escola Profissional Magestil Disponível em http://www.artedencantar.com/subcanais_n1.asp?id_subcanal=128&id_canal=81 TODAS AS IMAGENS UTILIZADAS NESTE MATERIAL ESTÃO DISPONÍVEIS NA INTERNET. Pesquisa e organização Profa.Cláudia Heloísa Cunha Andria Licenciada em Letras – Unisantos Contato: clauheloisa@yahoo.com.br

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