A CATIVA DO AMOR
(Say You Love Me)
Johanna Lindsey
Serie Família Malory – Livro 05
Sem dinheiro e temendo despejo novament...
Para Kelsey manter sua verdadeira identidade secreta, acredita que não
importa quem ela era, eles nunca poderiam ficar jun...
Tia Elizabeth lhe tinha recomendado que tomasse leite quente vários meses antes,
depois de reparar nas olheiras debaixo do...
sequer quando era jovem, mas apesar de isso Elizabeth, a mais bonita das duas irmãs —e ainda
formosa a seus quarenta e doi...
o fétido fôlego a uísque. Quando Elliott teve terminado de falar, a jovem se calou em um silêncio
carregado de horror.
A s...
Ato seguido, Elliott confessou que tinha abordado a um cavalheiro que conhecia
bastante bem para averiguar se estava dispo...
—Deixarei que você o conte a tia Elizabeth.
—Não! Não deve sabê-lo. Não o consentiria. Mas estou seguro de que te ocorrerá...
—Bom, querida, não acredito que queira saber o que te ocorreria em tal caso —
respondeu Lonne com um tom que Kelsey interp...
—E sabe que não receberá retribuição alguma, além dos presentes que dita te fazer
o cavalheiro que compre-te? —Kelsey asse...
métodos imagináveis para agradar a um homem; as forma de incitar a luxúria dos homens e de
conseguir o que ela desejava. N...
—Cavalheiros, rogo-lhes que me concedam um minuto de seu tempo, pois está a
ponto de começar um leilão muito especial.
A p...
Derek Malory riu e fez uma piscada a seu primo Jeremy enquanto seguiam a seu
amigo para o vestíbulo.
—Existe uma «perversã...
A menção do nome do Ashford trocou subitamente o humor do Derek eJeremy.
Poucos meses antes,os três tinham tido uma briga ...
—De que demônios está falando, Perce?
Perce olhou por cima do ombro e respondeu:
—Pelo visto, estão celebrando um leilão. ...
—Ah, mas a faria feliz.
—Uma amante pensa mais no que há dentro de seus bolsos que no que tem entre
eles —atravessou sever...
enquanto a via encolher-se sob seu olhar? Pelo calafrio que tinha percorrido suas costas a
primeira vez que o tinha visto ...
se? Embora também era possível que estivesse tão bêbado que não tivesse emprestado
atenção ao resto do leilão.
—ouvi vinte...
fora indiferente. Naturalmente, não queria sentir apego por um homem que jamais se casaria
com ela, por mais que tivesse q...
—Kelsey Langton —disse, caindo por fim na conta, depois de um bom momento, de
que o loiro que tinha sugerido que deixasse ...
Perce piscou e Derek entreabriu os olhos. De imediato, Kelsey compreendeu que
havia tornado a equivocar-se. Pode que com a...
Viajavam em um carro cômodo e elegante, que pelo visto pertencia ao Derek. E
agora eram cinco. Jeremy tinha retornado ao d...
—Não ficarei, Hanlee —informou Derek—. Só vim a deixar a uma convidada que
passará a noite na casa. Agradecerei-te que cha...
Derek deveria ter suposto que seus amigos da alma não o deixariam em paz. Assim
que retornou ao carro,
Jeremy disse:
—Não ...
—Reggie —corrigiu Derek tal como teria feito seu pai de ter estado ali, embora com
menos ardor—. Entendo que seu pai insis...
—Certamente, amigo —respondeu Perce—. E lhe felicitamos por sua façanha. Eu
teria sido incapaz de um ato tão nobre, mas ao...
Dois de suas antigas amantes quiseram lhe arrancar uma conversa, mas em lugar
de seguir seu costume de postergar o encontr...
Não estava acostumada aos privilégios, de modo que estaria agradecida por algo que
lhe desse,enquanto que Marjorie se acre...
uma visita furtiva e voltar para sua cama antes do amanhecer. O mordomo não se inteiraria, pois
nunca o esperava levantado...
—Vê-o? Deveria me haver rogado que a desculpasse ontem à noite, minha lady, e
eu me teria precavido imediatamente que esta...
Kelsey se tranqüilizou para ouvir que a senhora Hershal tinha substituído o
tratamento de «meu lady» pelo de «senhorita». ...
Quando baixou as escadas, descobriu que em lugar do Jeremy era lorde Derek
quem a esperava no vestíbulo. Impaciente, golpe...
—Agora recolheremos a seu amigo Jeremy?
—Jeremy?
A perplexidade do Derek incomodou ao Kelsey e se somou a sua própria
perp...
—escolhi mal as palavras —concedeu—. Mas não estou acostumada a que um
homem me sente em seu regaço E... enfim, como já he...
preferências tivessem alguma relevância em uma transação desta natureza. Ninguém me
perguntou se eu gostava de você. Isso ...
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  1. 1. A CATIVA DO AMOR (Say You Love Me) Johanna Lindsey Serie Família Malory – Livro 05 Sem dinheiro e temendo despejo novamente, Kelsey Langton concorda em deixar ser leiloada na Casa de Eros. Ela sacrifica a sua própria honra para salvar suas irmãs mais novas. Tentando salva-lá de um vicioso homem, Lord Derek Malory compra-a. Encantado por seus cabelos escuros e olhos brilhantes piscando, ele apresenta como sua amante. Mas Lord Derek nunca imaginou que seria abençoada com graça, sagacidade e inteligência, bem como a beleza de Kelsey.
  2. 2. Para Kelsey manter sua verdadeira identidade secreta, acredita que não importa quem ela era, eles nunca poderiam ficar juntos. Mas algo inesperado aconteceu com ambos. Ambos foram pegos pelo amor. Não estava mal aquele lugar que seria testemunha de sua venda ao melhor posto. Era um lugar limpo, elegantemente decorado. O vestíbulo aonde a tinham feito passar em primeiro lugar poderia ter pertencido à casa familiar de qualquer de seus amigos. Era uma residência luxuosa, situada em um dos melhores bairros de Londres e conhecida pelo eufemístico nome de Casa do Eros. Um antro de perdição. Kelsey Langton ainda não podia acreditar que estivesse ali. Desde que tinha atravessado a soleira, sentia um nó de temor e angústia no estômago. Entretanto, tinha entrado na casa por vontade própria. Ninguém a tinha levado a rastros enquanto ela chiava e esperneava. O incrível era precisamente que não a tinham forçado a acudir; tinha acessado a fazê-lo... ou ao menos tinha aceito que era a única alternativa. Sua família necessitava dinheiro —e muito— para evitar que a pusessem de patinhas na rua. Se ao menos tivesse tido tempo de fazer planos. Inclusive umas bodas com um desconhecido teria sido preferível. Mas tio Elliott tinha razão quando dizia que nenhum cavalheiro com a fortuna necessária para ajudar os teria considerado umas bodas em tão pouco tempo, até se fosse possível obter uma licença especial. O matrimônio era um passo muito importante para aventurar-se a ele sem pensar-lhe com atenção. Mas aquilo... Bom, era bastante comum que os cavalheiros comprassem amantes por impulso, inclusive sabendo de que resultariam tanto ou mais caras que uma esposa. A grande diferencia era que uma amante podia abandonar-se com a mesma facilidade com que se comprou, sem necessidade de confrontar os largos trâmites ou o escândalo próprios de um divórcio. Kelsey logo seria a amante de um homem. Não sua esposa. Não é que conhecesse nenhum homem com quem tivesse podido casar-se, e muito menos alguém com a solvência necessária para pagar as dívidas de tio Elliott. Antes da tragédia, no Kettering —a terra onde se criou— a tinham cortejado vários jovens, mas o único que tinha fortuna se casou com uma prima longínqua. Tudo tinha ocorrido rapidamente. A noite anterior tinha entrado na cozinha, como acostumava fazer, para esquentar um pouco de leite que a ajudasse a dormir. Desde que ela e sua irmã tinham ido viver com tia Elizabeth, Kelsey tinha dificuldades para conciliar o sonho. A insônia não guardava relação alguma com a mudança a uma casa e uma cidade nova, e tampouco com tia Elizabeth. Sua tia, a única irmã de sua mãe, era uma mulher maravilhosa e queria a suas duas sobrinhas como se fossem suas próprias filhas. Tinha-as recebido com os braços abertos, lhes brindando o apoio que tanto tinham necessitado depois da tragédia.
  3. 3. Tia Elizabeth lhe tinha recomendado que tomasse leite quente vários meses antes, depois de reparar nas olheiras debaixo dos olhos cinza do Kelsey e lhe perguntar delicadamente por sua causa. E o leite ajudava... quase todas as noites. Converteu-se em um rito noturno. A maioria das noites Kelsey não incomodava a ninguém, pois nessas horas a cozinha estava vazia. Salvo a noite anterior... A noite anterior, tio Elliott estava ali, sentado a uma das mesas. Frente a ele havia uma garrafa de licor. Kelsey nunca o tinha visto beber mais que o ocasional copo de vinho que tia Elizabeth lhe permitia tomar com a jantar. Elizabeth não via com bons olhos o álcool, assim não guardava licores na casa. Mas em qualquer lugar que Elliot tivesse obtido a garrafa, o certo é que já estava médio vazia. E o efeito que tinha produzido nele era surpreendente. Seu tio estava chorando. Com a cabeça agarrada entre as mãos, emitia silenciosos soluços, seus ombros se sacudiam penosamente e as lágrimas gotejavam na mesa. Kelsey acreditou entender por que sua tia negava-se a ter bebidas na casa... Mas logo descobriria que a angústia do Elliott não se devia ao álcool. Não; estava sentado de costas a a porta, convencido de que ninguém o incomodaria enquanto pensava na possibilidade de tirá-la vida. Teria tido o valor de fazê-lo se ela tivesse optado por partir em silêncio da cozinha? A jovem se feito essa pergunta muitas vezes desde aquele momento. Nunca o tinha visto como um homem valente; só como um indivíduo sociável e habitualmente jovial. E ao fim e ao cabo, a presença do Kelsey lhe tinha permitido entrever uma solução a seus problemas, uma solução que possivelmente não tivesse considerado antes, que ela, certamente, jamais teria imaginado. Kelsey se tinha limitado a perguntar: —O que acontece, tio Elliott? O havia se tornado bruscamente, tinha-a visto vestida com a camisola de pescoço alto e a bata, levando nas mãos o abajur que estava acostumado a utilizar em suas incursões noturnas à planta baixa. Por um momento pareceu sobressaltar-se. Mas logo voltou a esconder a cara entre as mãos e murmurou algo ininteligível. Kelsey lhe pediu que o repetisse. Elliott levantou a cabeça apenas um instante para dizer: —Vá, Kelsey . Não quero que me veja assim. —Não se preocupe —disse ela com doçura—. Embora possivelmente deveria chamar tia Elizabeth. —Não! —exclamou ele com suficiente ênfase para assustá-la. Logo, mais sereno embora ainda triste, tinha acrescentado—: Não gosta que beba E... não sabe nada. —Não sabe que bebe? Seu tio não respondeu imediatamente, mas Kelsey deu por sentado que se tratava disso. Toda a família sabia que Elliott faria tudo para evitar um desgosto a Elizabeth, inclusive se o desgosto em questão era cabeça de responsabilidade dela. Elliott era um homem corpulento, de traços angulosos e uma cabeleira que, agora que se aproximava dos cinqüenta, estava virtualmente cinza. Nunca tinha sido arrumado, nem
  4. 4. sequer quando era jovem, mas apesar de isso Elizabeth, a mais bonita das duas irmãs —e ainda formosa a seus quarenta e dois anos—, havia-se casado com ele. Kelsey sabia que seguia amando-o. Em seus vinte e quatro anos de matrimônio não tinham tido filhos, daí possivelmente o grande afeto que Elizabeth sentia por suas sobrinhas. Em certa ocasião sua mãe tinha comentado ao seu pai que não tinha sido porque não tentassem-no; simplesmente, não estava escrito. Supunha-se que Kelsey não devia ouvir comentários semelhantes, mas naquela ocasião sua mãe não se havia precavido de que ela estava perto. Assim, ao longo dos anos, inteirou-se de outras coisas; por exemplo, de que sua mãe não entendia por que Elizabeth se casou com o Elliott, um homem sem aspirações nem fortuna, quando teria podido escolher entre tantos pretendentes arrumados e ricos. Elliott era um vulgar comerciante. Mas todo aquilo era assunto da Elizabeth, e até era possível que a pouca fortuna do Elliott tivesse influenciado na decisão de sua tia... ou não. Sua mãe estava acostumada dizer que não havia forma de entender os estranhos intuitos do amor, que nunca se regeu nem se regeria pelas leis da lógica nem da vontade. —Não sabe que estamos arruinados. Kelsey piscou, surpreendida, pois tinha passado muito tempo desde que tinha feito a pergunta, e sem dúvida não esperava essa resposta. Não podia acreditar o que tinha ouvido. A afeição do Elliott à bebida não podia ser a causa de sua ruína, sobre tudo quando tantos cavalheiros —e inclusive senhoras— bebiam de mais nas reuniões sociais. Assim decidiu animar a seu tio. —De maneira que provocaste um pequeno escândalo, né? —brincou Kelsey . —Um escândalo? —perguntou ele, confundido—. Bom, sim, claro que o será. E Elizabeth nunca me perdoará quando nos jogarem da casa. Kelsey deu um coice, mas uma vez mais chegou a uma conclusão equivocada. —perdeste a casa no jogo? —Como ia fazer uma loucura semelhante? Crie que quero acabar como seu pai? Embora possivelmente devi havê-lo feito. Assim teria tido ao menos alguma posbilidad de me salvar, enquanto que agora não tenho nenhuma. Nesse ponto Kelsey se sentiu desconcertada, por não mencionar sua vergonha. Os antigos pecados de seu pai, junto com a lembrança da catástrofe que tinham provocado, envergonhavam-na. Assim com as bochechas acesas de rubor, um rubor que seu tio certamente não tinha notado, disse: —Não entendo, tio Elliott. Quem vai ficar então com a casa? E por que? Seu tio voltou a ocultar a cara entre as mãos, incapaz de olhá-la aos olhos, e lhe contou em murmúrios o acontecido. Para ouvi-lo, Kelsey teve que aproximar-se dele e suportar
  5. 5. o fétido fôlego a uísque. Quando Elliott teve terminado de falar, a jovem se calou em um silêncio carregado de horror. A situação era muito pior do que tinha imaginado e sem dúvida guardava uma grande semelhança com a tragédia de seus pais, embora estes a tinham confrontado de maneira diferente. Mas seu tio Elliott não tinha a força de caráter necessária para aceitar o fracasso e voltar a começar. Oito meses antes, quando as duas irmãs tinham ido viver com seus tios, Kelsey estava muito ocupada chorando a morte de seus pais para notar nada estranho. Nem sequer se tinha perguntado por que tio Elliott passava tanto tempo em casa. Agora supunha que seus tios não tinham considerado oportuno revelar a suas sobrinhas que Elliott tinha perdido seu emprego de vinte e dois anos, e que após estava muito amargurado para conseguir qualquer outro. Entretanto, tinham continuado vivendo como se nada tivesse acontecido. Até tinham aceito alimentar duas bocas mais, quando mal podiam cobrir suas próprias necessidades. Kelsey se perguntou se tia Elizabeth estaria à par da magnitude das dívidas. Elliott tinha vivido a crédito, coisa habitual entre as classes acomodadas, embora também era habitual pagar aos credores antes de que estes levassem o assunto aos tribunais. Entretanto Elliott, que não dispunha de ganhos próprios, já tinha pedido muitos empréstimos a seus amigos para manter a raia aos credores. Não ficava ninguém a quem recorrer. E a situação era insustentável. Logo perderia a casa de tia Elizabeth, que tinha pertencido à família do Kelsey durante gerações. Elizabeth a tinha herdado porque era a irmã maior, e agora os credores ameaçavam arrebatando-lhe em um prazo de três dias. Por tal motivo Elliott estava embebedando-se, tratando de encontrar na garrafa a coragem necessária para tirá-la vida, porque não tinha valor para confrontar o que ocorreria nos dias seguintes. Tinha a responsabilidade de manter à família —ou ao menos a sua esposa— e tinha fracassado indignamente. Certamente o suicídio não era uma solução. Kelsey assinalou quanto mais grave seria a situação para tia Elizabeth se ao inevitável desalojamento se somava o funeral de seu marido. Kelsey e Jean já sabiam o que era um desalojamento. Embora a vez anterior tinham tido aonde ir. Mas agora... Kelsey não podia permitir que voltasse a ocorrer. Sua irmã era sua responsabilidade. Ela devia ocupar-se de que Jean recebesse uma boa educação, de que tivesse um teto. E se para isso tinha que... Não recordava bem como tinha saído o tema de sua venda. Elliott mencionou que tinha pensado na possibilidade de casá-la com alguém de fortuna, mas que se demorou tanto em expô-lo que já era muito tarde. Também tinha explicado por que era muito tarde: um assunto tão importante requeria tempo de reflexão, não podia arrumar-se em questão de dias. Pode que a bebida lhe soltasse a língua; o certo é que lhe tinha contado que a seu amigo tinha ocorrido o mesmo anos antes, quando tinha perdido todos seus bens, e que sua filha tinha salvado à família vendendo-se a um velho depravado que valorava a virgindade e estava disposto a pagar uma fortuna por ela.
  6. 6. Ato seguido, Elliott confessou que tinha abordado a um cavalheiro que conhecia bastante bem para averiguar se estava disposto a casar-se com sua sobrinha. O homem lhe tinha respondido que não desejava casar-se, mas que se a garota deixasse, estava disposto a pagar umas quantas libras por uma nova amante. Então começaram a falar do papel de uma amante em oposição ao de uma esposa. Elliott lhe explicou que muitos homens de fortuna pagariam bem por uma amante jovem que pudessem luzir ante seus amigos, sobre tudo se a garota em questão não tinha passado antes pelas mãos desses amigos, e que o preço se elevaria ainda mais tratando-se de uma virgem. Tinha plantado bem a semente, insinuando a solução sem pedir diretamente ao Kelsey que se sacrificasse por eles. A jovem estava escandalizada pelo giro que tinha tomado a conversação, e desolada pelos acontecimentos, mas por cima de todo lhe preocupava sua irmã Jean e a repercussão que poderia ter todo aquilo em suas possibilidades de casar-se decentemente algum dia. Kelsey podia procurar um emprego, mas dificilmente encontraria um que lhes permitisse viver com dignidade, sobre tudo se devia assumir a responsabilidade de manter a toda a família. Não imaginava a tia Elizabeth trabalhando e Elliott... bom, já tinha demonstrado que era incapaz de conservar um emprego muito tempo. Foi a visão de sua irmã mendigando pelas ruas a que a induziu a fazer a seguinte pergunta, embora com um murmúrio carregado de angústia. —Conhece algum homem disposto A... bom, a pagar o suficiente, se eu acessasse a ser seu amante? Elliott não pôde dissimular sua esperança, seu imenso alívio, quando respondeu: —Não, não conheço nenhum. Mas sei de um lugar em Londres, freqüentado por homens de fortuna, um lugar onde certamente fariam uma excelente oferta por ti. Kelsey guardou silêncio durante comprido momento, atormentada pelas dúvidas ante uma decisão tão importante. A suspeita de que aquela era a única solução possível lhe provocava náuseas. Elliott aguardou, suando de nervos, até que a jovem fez um gesto afirmativo. Logo tratou de consolá-la, como se isso fora possível. —Não será tão terrível, Kelsey , seriamente. Uma mulher linda pode ganhar muito dinheiro deste modo, o suficiente para sustentar-se e inclusive casar-se mais adiante se o desejar. Não havia um ápice de verdade naquelas palavras, e ambos sabiam. Suas possibilidades de casar-se esfumariam para sempre. O estigma daquela ação a acompanharia o resto de sua vida. Jamais voltariam a aceitá-la na sociedade. Mas teria que levar essa cruz para que sua irmã tivesse o futuro que merecia. Ainda angustiada pela decisão que acabava de tomar, Kelsey sugeriu:
  7. 7. —Deixarei que você o conte a tia Elizabeth. —Não! Não deve sabê-lo. Não o consentiria. Mas estou seguro de que te ocorrerá alguma desculpa para justificar sua ausência. Também tinha que ocupar-se disso? Quando se sentia incapaz de pensar em nada mais que no terrível passo que tinha aceito dar? Quando por fim partiu seu tio, Kelsey esteve a um passo de beber o licor que ficava na garrafa. Mas então lhe ocorreu uma débil desculpa. Diria a tia Elizabeth que uma de suas amigas do Kettering, Anne, tinha-lhe escrito para lhe comunicar que estava gravemente doente e que os médicos não lhe davam muitas esperanças. Como era natural, Kelsey devia visitá-la para ajudá-la na medida de suas possibilidades. E tio Elliott se ofereceu a acompanhá-la. Elizabeth não tinha suspeitado nada estranho, atribuindo a palidez do Kelsey a sua preocupação pelo estado da Anne. E Jean, bendita fora, não a tinha atormentado com as intermináveis pergunta de rigor, simplesmente porque não conhecia essa amiga. Por outra parte, Jean tinha maturado muito durante o último ano. A tragédia familiar tinha segado sua infância, possivelmente para sempre. Kelsey tivesse preferido que sua irmã de doze anos pusesse a prova sua paciência com suas acostumadas perguntas. Mas era evidente que Jean seguia sumida em sua própria dor. O que passaria quando Kelsey não retornasse de sua suposta visita ao Kettering? Bom, teria que deixar essa preocupação para mais adiante. Voltaria a ver sua irmã e sua tia? atreveria-se às olhar à cara quando descobrissem a verdade? Não sabia. Quão único sabia nesse momento era que sua vida jamais voltaria a ser a mesma. 2 —Vamos, querida, chegou a hora. Kelsey olhou ao homem alto e magro que estava na soleira da porta. Havia-lhe dito que o chamasse Lonne, o único nome com que o tinham apresentado no dia anterior. Era o proprietário da casa, a pessoa que se ocuparia de vendê-la ao melhor preço. Nada em sua pessoa sugeria que era um fornecedor de vício e pecado. Vestia como um senhor, tinha um aspecto formal e falava com educação... ou ao menos em presença de tio Elliott. Assim que este se partiu, esqueceu parte de seu refinamento, deixando entrever sua verdadeira origem. Entretanto, continuou tratando-a com amabilidade. Tinha-lhe explicado com cuidado que, posto que ia pagar se uma soma tão importante por sua pessoa, não teria direito a rescindir o contrato, como teria podido fazer uma amante normal. Deviam garantir ao cavalheiro que a comprasse que não tinha gasto seu dinheiro em vão e que Kelsey estaria ao seu dispor durante o tempo que ele considerasse ter. A jovem se viu forçada a assentir, embora a seus olhos o trato a convertia virtualmente em uma pulseira. Teria que estar com esse homem tanto se gostava como se não, tanto se a tratava bem como se não, até que se cansasse de mantê-la. —E se não o fizesse? —perguntou.
  8. 8. —Bom, querida, não acredito que queira saber o que te ocorreria em tal caso — respondeu Lonne com um tom que Kelsey interpretou como uma ameaça a sua vida.Mas logo prosseguiu com voz rabugenta, como se ela devesse conhecer já o que lhe explicava—. Eu garanto pessoalmente minhas transações. Não posso permitir que os caprichos de uma jovem que se arrepende de um trato manchem minha reputação. Se assim fora, ninguém quereria fazer negócios comigo, verdade? —organizou muitas vendas semelhantes? —Esta será a quarta, embora a primeira de uma moça de sua procedência. A maioria dos cavalheiros acomodados que se encontram em dificuldades conseguem as solucionar casando a suas filhas com homens ricos. É uma pena que seu tio não te tenha procurado um pretendente apropriado. Não me parece que tenha tipo de amante. Kelsey não sabia se sentir-se adulada ou ofendida, e se limitou a responder: —Como já lhe explicou meu tio, não houve tempo suficiente para arrumar uma boda. —Já, mas segue sendo uma lástima. Agora te acompanharei à habitação onde passará a noite. O leilão se celebrará amanhã de noite, desse modo terei tempo de avisar aos cavalheiros que possam estar interessados. Espero que uma de minhas garotas tenha objetos mais adequados para ti. Já me entende, uma amante deve parecer uma amante, não a irmã de um. —Olhou-a de cima abaixo com olho crítico—. Seu traje é muito elegante, querida, mas seria mais apropriado para uma reunião social. A menos que haja trazido um pouco mais conveniente... Kelsey negou com a cabeça. Quase se sentia envergonhada de parecer uma dama. Lonne suspirou. —Bom, estou seguro de que lhe encontraremos algo —disse, e a guiou escada acima, até a habitação onde passaria a noite. Como o resto da elegante casa, a habitação estava elegantemente mobiliada, e Kelsey teve a cortesia de assinalá-lo. —Esperava uma decoração chamativa e vulgar? —Sorriu ao ver que a expressão do Kelsey o confirmava—. Meus clientes são nobres, querida, e se mostram mais dispostos a desprender-se de seu dinheiro se sentirem como em casa. —Riu—. As classes baixas não podem pagar meus preços. Nem sequer se aproximam da porta. —Entendo —disse ela. Os homens desfrutavam de seus prazeres ali onde os encontrassem, e prova disso era que havia casas de má reputação dispersadas por todo Londres. Aquela era simplesmente uma das mais caras. Antes de deixá-la, Lonne repetiu uma vez mais: —Suponho que entendeste bem os términos de nosso acordo e no que difere de um trato normal,verdade? —Sim.
  9. 9. —E sabe que não receberá retribuição alguma, além dos presentes que dita te fazer o cavalheiro que compre-te? —Kelsey assentiu, mas Lonne queria que as coisas ficassem perfeitamente claras e prosseguiu—:-se fixará uma quantidade mínima, a que solicitou seu tio, e esta irá a suas mãos. Eu obterei uma comissão por cada libra que exceda dessa quantidade por ter organizado a venda. Mas você não receberá dinheiro. Kelsey sabia, e rezava por que se oferecesse muito mais do esperado, ao menos o suficiente para manter a sua família até que tio Elliott conseguisse um emprego duradouro. Do contrário, seu sacrifício só serviria para postergar temporalmente o desastre. Mas de caminho a Londres, seu tio lhe tinha jurado que conseguiria um emprego e o conservaria embora não estivesse à altura de suas expectativas, que nunca voltaria a achar-se em uma situação similar. Entretanto, conhecendo a magnitude da dívida do Elliott, o que lhe preocupava, e o que finalmente perguntou ao Lonne, era: —Acredita que haverá alguém disposto a pagar tanto dinheiro? —Certamente —respondeu ele com absoluta confiança—. Estes novos ricos não têm nada melhor em que gastar seu dinheiro. Seus principais interesses são as mulheres, os cavalos e o jogo. Eu me sinto orgulhoso de prover duas destas três afeições, assim como qualquer vício que goste, com a só exceção do assassinato. —Qualquer outro vício? Lonne riu. —Ai, querida, surpreenderia-te saber as coisas que pedem estes cavalheiros. E algumas damas. Há uma condessa que vem aqui ao menos duas vezes ao mês e me paga para que lhe consiga um cavalheiro distinto cada vez que a açoite com um látego, com cuidado, certamente, e que a trate como a uma pulseira. Leva uma máscara para que ninguém a reconheça. De fato, os cavalheiros que o envio estão convencidos de que se trata de uma de minhas garotas. Eu estaria encantado de fazê-lo eu mesmo, pois é tão bonita como você, mas não é o que ela deseja. O que mais a excita é que conhece todos os homens pessoalmente, embora eles não sabem. Alterna com eles nas reuniões sociais, dança ou joga às cartas com eles, sem que advirtam que está à par de seus mais inconfessáveis e sórdidos vícios. Para ouvir aquela historia Kelsey se ruborizou e ficou sem fala. Como a gente podia fazer essas coisas... e pagar em troca? Jamais teria imaginado nada semelhante! Ao vê-la, Lonne estalou a língua com expressão de desgosto. —Não está mal que te ruborize agora, moça, mas será melhor que vá acostumando a esta classe de conversação. Em um futuro próximo, estará obrigada a satisfazer as apetências sexuais do cavalheiro que te compre, sejam quais sejam sortes apetências.Entende-o? Um homem faz coisas com sua amante que nunca faria, com sua esposa. Para isso servem as amantes. Enviarei a uma de minhas garotas a que lhe explique isso com mais detalhe, pois é evidente que seu tio não considerou oportuno te instruir. E para maior mortificação do Kelsey , tinha dado sua palavra. Uma formosa jovem chamada Mai tinha ido ver a de noite, embainhada no chamativo vestido que agora levava Kelsey , e tinha estado várias horas em sua habitação falando sobre os detalhes da vida sexual. Mai havia meio doido todos os temas, desde como evitar embaraços não desejados até todos os
  10. 10. métodos imagináveis para agradar a um homem; as forma de incitar a luxúria dos homens e de conseguir o que ela desejava. Não estava claro que Lonne tivesse desejado instruí-la neste último ponto, mas ao parecer Mai se compadeceu dela e lhe havia devotado essa informação por iniciativa própria. A conversação não tinha tido nada em comum com a breve conversa sobre o amor e o matrimônio que Kelsey tinha mantido com sua mãe algo mais de um ano antes, quando a jovem tinha completo os dezessete. Sua mãe tinha falado do ato sexual e dos meninos com sua habitual franqueza e se apressou a trocar de tema, como se as duas estivessem envergonhadas pelo assunto. Mai se tinha despedido com um último conselho: —Recorda que o homem que te compre certamente estará casado, e que a principal razão de que queira uma amante é que não encontra satisfação com sua esposa. Demônios, acredite ou não, muitos deles nem sequer viram nuas a suas mulheres. Qualquer te dirá (bom, qualquer de meus conhecidos) que a todo homem gosta de contemplar a uma mulher nua. Limite-te a lhe dar o que não encontra em casa e te adorará. Agora que tinha chegado o momento, Kelsey quase tremia de medo. Depois de abrir a porta e vê-la com o chamativo e decotado vestido vermelho fogo, Lonne pareceu agradado; muito agradado, por certo. Mas o fato de que ele a considerasse melhor vestida para a ocasião não bastava para inspirar valor ao Kelsey . Para bem ou para mau, o homem que estivesse disposto a pagar mais por ela decidiria seu futuro. Não tinha importância se ao Kelsey gostava ou não esse homem. Mai tinha deixado claro que possivelmente o detestasse do primeiro momento, sobre tudo se era velho ou cruel. Só ficava esperar que não fora assim. Lonne a conduziu à planta baixa. Quando a jovem advertiu, simplesmente pelo nível de ruído, que abaixo estava lotado de gente, Lonne teve que atirar de sua mão para animá-la a seguir. Para cúmulo, não a levou a salão, onde poderia ter conhecido aos cavalheiros e conversar com eles. Conduziu-a em troca a uma ampla sala de jogo, e quando Kelsey se deteve lhe disse ao ouvido: —A maioria destes cavalheiros não estão aqui para puxar por ti, a não ser para jogar ou satisfazer outros prazeres.Entretanto, tenho descoberto que quanto mais concorrido está o lugar, mais altas são as ofertas dos interessados. Para outros será um bom espetáculo, e isso sempre é bom para o negócio, sabe? Antes de que Kelsey compreendesse o que Lonne se propunha fazer, subiu-a em cima de uma mesa e lhe advertiu em um murmúrio: —Fique aí e faz todo o possível por parecer sedutora. Sedutora, quando estava paralisada pelo medo e a angústia? Tal como havia dito Lonne, a maioria dos pressente ignoravam que fazia Kelsey sobre a mesa, assim que o proprietário da casa anunciou:
  11. 11. —Cavalheiros, rogo-lhes que me concedam um minuto de seu tempo, pois está a ponto de começar um leilão muito especial. A palavra «leilão» tem a virtude de suscitar atenção imediata, e esta não foi uma exceção. Em questão de segundos reinou um silêncio absoluto na sala. —Aqueles que estejam de acordo com seu amante atual, podem seguir jogando, pois o leilão não lhes interessará. Mas aos que desejem algo novo, ofereço-lhes esta visão de cândida beleza. —ouviram-se algumas risadas burlonas, pois, em efeito, as bochechas do Kelsey se tingiram da cor de seu vestido—. E não só para prová-la, senhores, mas também para desfrutar dela o tempo que desejem. Um privilégio que poderão gozar por um preço de saída de dez mil libras. Naturalmente, essa soma provocou uma comoção, e o volume das vozes se elevou por cima do murmúrio que tinha reinado antes do surpreendente anúncio do Lonne. —Nenhuma mulher vale tanto, nem sequer minha esposa —disse um homem arrancando gargalhadas à concorrência. —Pode me emprestar dez mil libras, Peters? —Acaso a garota é de ouro? —burlou-se outro indivíduo. —Quinhentas libras, nem um pene mais! —gritou uma voz ébria. Esses foram só alguns dos múltiplos comentários que Lonne deixou passar, sabiamente, antes de prosseguir: —Posto que esta pequena jóia se converterá em propriedade do melhor preço, este poderá gozar dela durante o tempo que considere oportuno. Um mês, um ano, toda a vida... a opção é sua, senhores, não da moça. Assim se estabelecerá no contrato de venda. assim, quem deseja ser o primeiro homem em gozar desta sensual jovenzinha, deste bocado de cardeal? Os comentários que seguiram horrorizaram ao Kelsey . Haviam-lhe dito que a «apresentariam» aos cavalheiros, induzindo-a a acreditar que teria ocasião de conhecê-los e falar com eles, e que mais tarde, aqueles dispostos a puxar, fariam suas ofertas discretamente ao Lonne. Em nenhum momento tinha suspeitado que se trataria de uma venda a viva voz. Céus, teria aceitado dar esse passo se tivesse sabido que iria ser leiloada se tratasse de um objeto, em uma sala lotada de homens, a metade dos quais estavam bêbados? Uma voz a tirou de seus angustiantes pensamentos. —Eu ofereço o preço de saída. Os olhos do Kelsey procuraram a procedência dessa voz lenta e se encontraram com uma cara igualmente lenta e velha. Teve a sensação de que ia deprimir se. —Ainda não entendo o que fazemos aqui —murmurou lorde Percival Alden—. A casa de Ângela é tão bonita como esta, ficava igualmente perto, e suas garotas estão acostumadas às perversões normais.
  12. 12. Derek Malory riu e fez uma piscada a seu primo Jeremy enquanto seguiam a seu amigo para o vestíbulo. —Existe uma «perversão normal»? Parece uma contradição nos términos, não? Perce era capaz de dizer as coisas mais descabeladas, mas junto com o Nicholas Éden era um dos melhores amigos do Derek dos tempos do colégio, de modo que podiam lhe desculpar alguma que outra estupidez. Ultimamente Nick saía pouco com eles, e desde que se encadeou à prima do Derek, Regina, não freqüentava lugares como aquele. Embora Derek estava encantado de que Nick passasse a formar parte da família, era da firme opinião de que o matrimônio podia esperar até depois dos trinta, e ainda lhe faltavam cinco anos para cumpri-los. Seus tios mais jovens, Tone e James, eram o exemplo perfeito da sensatez dessa opinião. Em seus tempos, tinham sido os farristas mais célebres de Londres, e tinham pensado muito antes de casar-se e não tinham formado uma família até bem depois dos trinta. O fato de que James tivesse tido ao Jeremy dezoito anos antes não podia considerar-se como iniciar uma família prematuramente, posto que o jovem —ao igual a Derek— tinha nascido fora dos sagrados vínculos do matrimônio. Além disso, tio James não se inteirou de sua existência até fazia poucos anos. —Não sei —assinalou Jeremy com seriedade—. Eu posso ser tão perverso como qualquer, mas o faço com absoluta normalidade. —Já sabem o que quero dizer —respondeu Perce, olhando com receio para o salão e as escadas, como se temesse encontrar-se com o muito mesmo demônio—. Todo mundo sabe que a este lugar vêm alguns indivíduos muito estranhos. Derek arqueou uma sobrancelha dourada, e disse com tom zombador: —Eu mesmo estive aqui várias vezes, Perce, para jogar e gozar das comodidades de uma habitação da planta alta... e de seu ocupante. Nunca notei nada estranho. E reconheci à maioria dos homens. —Não hei dito que todos os que freqüentam este lugar sejam estranhos, amigo. Ao fim e ao cabo, nós estamos aqui, verdade? Jeremy não pôde evitar intervir: —Quer dizer que nós não somos estranhos? Cara, eu teria jurado... —Cala, patife —interrompeu Derek fazendo esforços por conter a risada—. Nossa amiga fala a sério. Perce assentiu com um gesto enfático. —claro que sim. Dizem que aqui pode encontrar as fantasias e os fetiches mais extravagantes, por retorcidos que sejam seus gostos. E depois de ver o carro de lorde Ashford na porta, estou disposto a acreditá-lo.Temo que ao entrar em uma habitação, seu ocupante me entregue umas cadeias —disse e tremeu.
  13. 13. A menção do nome do Ashford trocou subitamente o humor do Derek eJeremy. Poucos meses antes,os três tinham tido uma briga com esse homem em um botequim próximo ao rio, depois de subir às habitações da planta alta atraídos pelos gritos de terror de uma mulher. —Refere-te ao tipo que deixei inconsciente recentemente tempo? —perguntou Jeremy. —Lamento te contradizer, menino —respondeu Perce—. Mas foi Derek quem o deixou inconsciente de um murro. Estava tão furioso que não nos deu ocasião de intervir. Embora, se não recordar mau, você lhe deu um par de patadas depois de que perdesse o sentido. E agora que o penso, eu também. —Alegra-me sabê-lo —disse Jeremy—. Suponho que se não o recordo é porque estava bêbado. —Estava-o. Os três o estávamos. E é uma sorte, porque de ter estado sóbrios o teríamos matado. —Ele o buscou —balbuciou Derek—. Esse tipo está louco. Não há outra explicação possível para uma crueldade semelhante. —Estou completamente de acordo —disse Perce, e logo acrescentou em um murmúrio—: ouvi que se não ver sangue não pode... Bom, já me entendem... Ninguém como Perce para aliviar os ânimos. Derek soltou uma gargalhada. —Por Deus, homem, estamos no bordel mais famoso da cidade. Não há necessidade de baixar a voz para falar destes temas. Perce se ruborizou e grunhiu: —Bom, ainda não sei o que fazemos aqui. Os serviços que oferecem nesta casa não vão comigo. —Nem comigo —assentiu Derek—. Mas como hei dito, não é a única possibilidade. Embora admitam a depravados, as mulheres da casa sabem apreciar uma relação agradável e normal quando não lhes pede outra coisa. Além disso, viemos porque Jeremy descobriu que sua pequena e loira Florence deixou a casa da Ângela para mudar-se aqui. Prometi-lhe que poderia passar uma hora com ela antes de ir à festa. Juraria que já lhe havia isso dito, Perce. —Não o recordo —respondeu Perce—. Não nego que o haja dito, mas não o recordo. Jeremy fez uma careta de desgosto. —Se este lugar for tão mau como dizem, não quero que minha Florence trabalhe aqui. —Então leva a de volta a casa da Ângela —sugeriu Derek com sensatez—. Seguro que a jovem lhe agradecerá isso. Embora lhe tenham prometido mais dinheiro, duvido que soubesse com o que ia encontrar se aqui. Perce fez um gesto de assentimento. —E vá depressa, menino. Nem sequer penso me entreter jogando um par de mãos enquanto procura a sua garota. Sobre tudo com Ashford na mesma estadia. —Entretanto, aproximou-se da sala de jogos, jogou uma olhada ao interior e acrescentou com entusiasmo—: Embora aí dentro há uma garota com quem não me importaria passar um momento. Que lástima, parece que não está disponible... Ou pode que sim. Não, não. Muito cara para meu gosto.
  14. 14. —De que demônios está falando, Perce? Perce olhou por cima do ombro e respondeu: —Pelo visto, estão celebrando um leilão. Mas eu não necessito uma amante a minha idade. Posso conseguir o mesmo me gastando umas quantas moedas aqui e lá. Derek suspirou. Era evidente que não conseguiriam tirar uma resposta coerente ao Perce. Não era nenhuma novidade: os comentários do Perce quase sempre eram um enigma. Mas Derek não pensava perder tempo em decifrá-lo quando lhe bastava dando uns passos para averiguar a que se referia nesta ocasião. De modo que se situou junto a seu amigo na soleira da porta, e Jeremy o seguiu. Ambos puderam comprovar que a mulher que estava de pé sobre a mesa era jovem e formosa... ou pelo menos o aparentava. Era difícil assegurá-lo com tantas manchas de rubor na cara. Entretanto, tinha uma bonita silhueta. Muito bonita. Por fim entenderam os comentários do Perce. —Uma vez mais, senhores —ouviram dizer ao proprietário do local—, repito-lhes que esta pequena jóia será uma esplêndida amante. E posto que ninguém a há meio doido antes, que a adquira poderá instrui-la para satisfazer seus gostos. Alguém ofereceu vinte e dois mil libras? Derek deixou escapar um grunhido de incredulidade. Que ninguém a havia meio doido? Vindo de um lugar como esse? Não era muito provável. Entretanto, era fácil convencer de algo a aqueles estúpidos bêbados. Pelo visto, o preço se disparou e raiava no absurdo. —Perce, não acredito que tenhamos ocasião de jogar enquanto dure este circo — disse Derek—. Joga uma olhada. Ninguém disposta a menor atenção ao jogo. —Não os culpo —respondeu Perce com um sorriso—. Eu também prefiro olhar à garota. Derek suspirou. —Jeremy, se não te importa te dar pressa com seus assuntos, acredito que eu gostaria de chegar cedo ao baile. Agarra à garota e a levaremos de volta a casa da Ângela. —Eu quero essa. Derek não teve necessidade de perguntar a quem se referia, pois Jeremy não tinha afastado os olhos da mulher da mesa. —Não lhe pode permitir isso se limitou a dizer. —Poderia se me fizesse um empréstimo. Perce riu, mas Derek não parecia divertido. De fato, tinha uma careta de desgosto, e seu «não» soou tão contundente que deveria ter resolvido a questão. Entretanto, o patife do Jeremy não se deixava intimidar com facilidade. —Venha, Derek —insistiu—. Você pode cobrir um empréstimo semelhante com facilidade. Ouvi falar da soma que te passou tio Jason quando saiu da universidade. Inclui as rendas de vários imóveis. E considerado que tio Edward esteve reinvestindo os benefícios por ti... cara, já deve ter três vezes mais de o que... —Seis vezes mais, mas isso não significa que esteja disposto a esbanjá-lo em caprichos obscenos, sobre tudo quando não se trata de meus caprichos. Não penso te emprestar essa soma. Além disso, uma mulher tão formosa como essa exigirá uma vida cheia de luxos. E você, primo, não poderia dar-lhe. Jeremy sorriu com descaramento.
  15. 15. —Ah, mas a faria feliz. —Uma amante pensa mais no que há dentro de seus bolsos que no que tem entre eles —atravessou severamente Derek, embora imediatamente se ruborizou, envergonhado de sua ocorrência. —Não são tão interessadas —protestou Jeremy. —Lamento diferir... —Como sabe? Nunca tiveste uma amante. Derek pôs os olhos em branco e disse: —Não tem sentido que discutamos. A resposta é e seguirá sendo «não», assim te renda, Jeremy. Seu pai me cortaria a cabeça se te permitisse contrair uma dívida tão importante. —Meu pai o entenderia melhor que o teu. Jeremy tinha um pouco de razão. Conforme se contava. James Malory fazia muitas loucuras em sua juventude, enquanto que o pai do Derek, por sua condição de irmão maior e marquês do Haverston, tinha tido que assumir responsabilidades desde muito jovem. Embora isso não significava que não estalasse um escândalo se Derek acessava ao pedido de seu primo. —Pode que o compreendesse, mas terá que admitir que tio James se tornou mais conservador desde que se casou. Além disso, eu teria que responder ante meu pai. Pelo resto, onde demônios instalaria à garota, se ainda está estudando e vive em casa de seu pai? Jeremy pôs cara de desgosto. —Maldita seja. Não tinha pensado nisso. —E ainda há mais. Uma amante pode ser tão possessiva como uma esposa — assinalou Derek—. Uma vez tive uma e não foi uma situação grata. Quer sentir pacote a alguém a sua idade? —Carae, claro que não! —exclamou Jeremy com consternação. —Então te alegre de que não te permita gastar meu dinheiro em um capricho absurdo. —Vinte e três mil? —disse uma voz, atraindo a atenção dos jovens à sala de jogos. —E aí tem outra razão para te alegrar, Jeremy —disse Perce com uma risada—. Parece que as ofertas não acabarão nunca. Entretanto, Derek não parecia divertido. Pelo contrário, para ouvir a última luta tinha esticado todos os músculos, e não porque o ridículo preço de venda seguisse subindo. Demônios, Antes fosse não tivesse reconhecido a voz que tinha feito a última oferta. 4 —Vinte e três mil. Kelsey jamais teria imaginado que pudessem oferecer tanto dinheiro por ela. Entretanto, saber que era capaz de obter aquela soma não adulou sua vaidade. Nem sequer se alegrava de que a transação fosse a solucionar o problema de seus tios durante muito tempo. Não; estava muito assustada para alegrar-se. Esse homem parecia... cruel. Era a única palavra que lhe vinha à cabeça, embora não sabia por que. Acaso pela careta de seus lábios? Pelo brilho gélido em seus olhos azul claro
  16. 16. enquanto a via encolher-se sob seu olhar? Pelo calafrio que tinha percorrido suas costas a primeira vez que o tinha visto contemplando-a? Kelsey lhe dava pouco mais de trinta anos. Tinha o cabelo negro e os rasgos aristocráticos característicos de muitos cavalheiros. Não era feio, nem muito menos. Mas a crueldade de sua expressão lhe subtraía qualquer classe de atrativo. E Kelsey desejou que o ancião que tinha feito a primeira oferta, apesar de seus olhares obscenos, continuasse puxando. Que o céu a ajudasse. Só ficavam eles dois. Os poucos cavalheiros que tinham puxado um par de vezes ao princípio tinham retrocedido em seus empenhos ao ver o frio olhar do último preço, um olhar o bastante fria para gelar o espírito do mais valente. O ancião seguia puxando porque não se fixou em seu competidor; acaso devido a sua má vista ou a sua escassa prudência. Em efeito, parecia bêbado. Então Kelsey ouviu uma voz subindo a luta a vinte e cinco mil libras, seguida de uma pergunta a viva voz: —Para que quer uma amante, Malory? Dizem que as mulheres fazem fila para meter-se em sua cama. O comentário arrancou umas quantas gargalhadas do público, que se multiplicaram quando o aludido respondeu: —Já, mas essas são senhoras. Pode que goste de provar algo diferente. Aquelas palavras só podiam interpretar-se como um insulto ao Kelsey ... embora talvez não fora a intenção do cavalheiro. Depois de tudo, aquele homem não tinha forma de saber que ela tinha sido uma verdadeira dama até o momento em que tinha entrado nessa casa. E agora não havia nada em sua pessoa que indicasse que não era o que aparentava; quer dizer, algo menos uma dama. Não pôde ver o homem que fez a última luta. Adivinhou que a voz procedia da porta, mas com tanto ruído na sala era difícil precisar a posição exata do falante. E naquela zona havia pelo menos uma dúzia de homens, sentados e de pé. Não havia forma de estar segura. Entretanto, era evidente que o homem que Kelsey não queria que a comprasse sabia quem tinha puxado, porque dirigiu um olhar fulminante para a porta. Mas, uma vez mais, Kelsey não pôde determinar quem tinha suscitado essa expressão assassina. Conteve o fôlego e esperou. Um olhar ao ancião lhe bastou para comprovar que este não tinha intenções de seguir puxando. De fato, ficou-se dormido e ninguém fazia nada para despertá-lo. Não era de sentir saudades, pois parecia bastante bêbado. Era óbvio que a bebida lhe tinha afetado. E seu salvador, quem quer que este fora, seguiria puxando contra o outro senhor? Ou se deixaria intimidar como outros? —ouvi vinte e cinco mil? —exclamou Lonne. Silêncio. Então Kelsey caiu na conta de que todas as lutas, com exceção da última, tinham ido subindo por frações de quinhentas libras. O tal Malory tinha sido o primeiro em subir duas mil libras de repente. Significava isso que ia a sério? Ou que era muito rico para preocupar-
  17. 17. se? Embora também era possível que estivesse tão bêbado que não tivesse emprestado atenção ao resto do leilão. —ouvi vinte e cinco mil? —repetiu Lonne em voz ligeiramente mais alta, para que o ouvissem do fundo da sala. Kelsey manteve os olhos fixos no cavalheiro dos olhos azuis, desejando que se sentasse e deixasse de puxar. Estava tão zangado que as veias do pescoço pareciam a ponto de lhe estalar. Então, de improviso, partiu da sala com passo furioso, derrubando uma cadeira no caminho e empurrando a todo aquele que não era o bastante rápido para apartar-se a tempo. Kelsey olhou ao proprietário da casa para estudar sua reação, e a expressão decepcionada do Lonne confirmou suas suspeitas. O homem dos olhos azuis tinha deixado de puxar. —Vinte e cinco mil à uma, vinte e cinco mil às dois... —Lonne fez uma breve pausa antes de terminar—: Muito bem, vendida a lorde Malory por vinte e cinco mil libras. Se quer passar a meu escritório, senhor, ao fundo do corredor, formalizaremos o transação. Uma vez mais, Kelsey tentou ver a quem se dirigia Lonne. Mas este já estava baixando-a da mesa, e com seu escasso metro sessenta de estatura não podia ver além dos homens que tinha diante. Deu graças ao céu porque tudo tinha terminado, mas a incerteza sobre seu novo proprietário lhe impedia de sentir alívio. E a mera suspeita de que se tratasse de um indivíduo tão desagradável como os outros dois acrescentava seu desgosto. Depois de tudo, o comentário de que as mulheres faziam fila para meter-se em sua cama podia ter sido sarcástico e insinuar exatamente o contrário. Uma ironia semelhante também teria suscitado as risadas do público. —Tem-no feito muito bem, querida —disse Lonne enquanto a guiava para ao vestíbulo—. A verdade é que me surpreende que o preço subisse tanto. —Logo riu para si—. Embora estes ricaços podem permitir-se Agora vá procurar suas coisas, e não te entretenha. Vêem meu escritório, ali —assinalou uma porta entreaberta ao fundo do corredor—, assim que esteja preparada. —E lhe deu uma palmada no traseiro, empurrando-a escada acima. Entreter-se? Quando morria de impaciência por saber quem a tinha comprado? Virtualmente voou pelas escadas. Em realidade não havia muito que empacotar, pois no dia anterior não tinha tido necessidade de desfazer sua pequena mala. De modo que retornou abaixo em menos de dez minutos, apenas pouco mais de cinco. Mas a um passo da porta aberta se deteve em seco. Seu temor superava com acréscimo à curiosidade por averiguar quem tinha pago uma soma exorbitante por ela. O trato já parecia, e ela devia cumprir com sua parte ou confrontar a velada ameaça do Lonne, que sem dúvida tinha ido dirigida contra sua vida. O terror ao desconhecido a paralisava. E se o indivíduo que a tinha comprado não era decente, a não ser tão cruel e depravado como parecia o outro? Ou se era um homem tão feio que não podia conseguir os favores das mulheres a menos que as comprasse? O que faria então? Por desgraça, não podia fazer nada. Só havia três opções: cairia- lhe bem, odiaria-o ou lhe resultaria completamente indiferente. Em realidade, desejava que o
  18. 18. fora indiferente. Naturalmente, não queria sentir apego por um homem que jamais se casaria com ela, por mais que tivesse que manter relações íntimas com ele. —Asseguro-lhe que tem feito uma compra excelente, senhor —dizia Lonne enquanto se dirigia à porta do despacho. Então viu o Kelsey e acrescentou—: Ah, aqui a tem, assim que me demissão. Kelsey esteve a ponto de fechar os olhos, pois ainda não se sentia preparada para enfrentar-se com seu futuro. Mas sua veia valente, por pequena que parecesse nesses momentos, negou-se a esperar um segundo mais. Olhou aos homens que estavam na habitação e experimentou uma súbita sensação de alívio. De imenso alívio. Ainda não sabia quem a tinha comprado, porque no despacho do Lonne não havia um homem, a não ser três. Um deles era arrumado, outro muito arrumado e o terceiro incrivelmente arrumado. Como tinha tido tanta sorte? Não podia acreditá-lo. Devia haver truque em algum lugar. Mas qual? Inclusive o menos atrativo dos homens, que parecia o maior, lhe desejava muito perfeitamente amigável. Era alto e magro, com uns bondosos olhos castanhos e um sorriso de admiração. Quando o olhou, a primeira palavra que lhe veio à cabeça foi «inofensivo». O mais alto dos três também parecia o mais jovem. Teria a idade de Kelsey , embora seus ombros corpulentos e sua expressão sossegada lhe davam um ar amadurecido. Era muito bonito, de cabelo negro azeviche e olhos do mais fascinante azul cobalto, exoticamente rasgados. Kelsey teve a impressão de que se levaria de maravilha com esse jovem, e desejou —rogou— que fora ele quem a tivesse comprado. Tanto a atraía, que quase não podia lhe tirar os olhos de cima. Entretanto, obrigou-se a apartar o olhar para examinar ao magro cavalheiro que tinha diante. Se não tivesse cuidadoso ao outro primeiro, haveria dito que era o homem mais atrativo que tinha visto em sua vida. Tinha uma espessa cabeleira loira, ligeiramente despenteada e rebelde. Seus olhos eram de cor avelã —não, verdes, definitivamente verdes— e seu olhar a turvava, embora não teria podido precisar por que. Era algo mais baixo que os outros dois, mas mesmo assim quinze centímetros mais alto que ela. O moço sorriu e, pela primeira vez em sua vida, Kelsey sentiu um formigamento no ventre. Que sensação tão estranha! De repente a habitação lhe desejou muito esquentada. Em que apesar de estar no inverno, tivesse desejado ter um leque. —Pode deixar isso um momento... —disse olhando sua mala—. Você ande depressa, Jeremy, e resolve o assunto que te trouxe aqui. —Vá, tinha esquecido que viemos a procurar uma garota —disse o major dos três—. Sim, ande pressa, Malory. foi uma velada muito interessante, mas ainda não terminou. —Carae, tinha-me esquecido do Flo —admitiu Jeremy com um sorriso culpado—. Mas não demorarei muito em recolhê-la... se é que a encontro. Kelsey viu sair do despacho ao mais jovem dos três. Ao parecer, seu desejo se cumpriu. O outro jovem acabava de chamá-lo Malory, e o cavalheiro que tinha pago uma soma exorbitante por uma amante era um tal lorde Malory. Então, por que não se sentia aliviada?
  19. 19. —Kelsey Langton —disse, caindo por fim na conta, depois de um bom momento, de que o loiro que tinha sugerido que deixasse a mala também lhe tinha perguntado seu nome. Entretanto, agora a apresentação soou precipitada e Kelsey se ruborizou. Ainda não tinha deixado a mala no chão. Nem sequer se precaveu de que seguia sujeitando-a até que o homem loiro deu um passo à frente e a tirou da mão. —Meu nome é Derek, e o prazer é meu, Kelsey , pode estar segura —disse—. Mas teremos que esperar um momento até que nosso jovem amigo solucione o assunto que nos trouxe aqui. Quer te sentar enquanto isso? —Assinalou uma cadeira junto ao escritório do Lonne. Não só era arrumado, mas também amável. Entretanto, turvava-a. Quando se tinha aproximado para agarrar a mala, tinha-lhe roçado os dedos, e o coração do Kelsey tinha dado um tombo. Não sabia o que tinha esse homem para lhe provocar essas estranhas reações, mas de repente se alegrou de não ter que ir-se com ele. Bastante difícil lhe resultaria já ter que converter-se na amante de um homem essa mesma noite. Se não tivesse esquecido a idéia no fundo de sua mente, não teria sobrevivido até esse momento. Não necessitava mais preocupações. E supunha que o único problema que teria com o jovem Jeremy seria evitar olhá-lo todo o tempo como uma idiota. Embora, sem dúvida, aquele jovem de aspecto fascinante estaria acostumado a essa classe de olhares. —Faz tempo conheci um conde no Kettering apelidado Langton —disse o outro homem—. Um tipo agradável. Embora haja ouvido que terminou mau. Embora não será teu parente, certamente. Graças a Deus, foi uma afirmação e não uma pergunta, de modo que Kelsey não se viu obrigada a mentir. Entretanto, ouvir o nome de seu pai foi um mau trago. Em que demônios estava pensando ao dar seu verdadeiro nome? Em nada, naturalmente, e agora era muito tarde para corrigir-se. —por que mencioná-lo, Perce. Está claro que não é parente dela? —disse Derek com frieza. Perce se encolheu de ombros. —É uma história interessante, e o sobrenome me recordou isso. Isso é tudo. A propósito fixou-te na cara de Ashtord quando passou a nosso lado? —Era impossível não fixar-se, amigo. —Crie que poderia nos causar problemas? —Esse tipo é um canalha e um covarde. Antes fosse me causasse problemas, porque então me daria um pretexto para lhe voltar para pegar. Mas os homens como ele sozinho atacam aos incapazes de defender-se. Kelsey se estremeceu ao notar a fúria do jovem que respondia no nome do Derek. Embora não estava segura, tinha a impressão de que falavam do homem dos olhos azuis que tinha puxado por ela e que finalmente se retirou feito uma fúria. Em tal caso era evidente que esses cavalheiros se cruzaram em seu caminho com antecedência. Entretanto, não quis fazer perguntas. Dirigiu-se para a cadeira que lhe tinham devotado, com a esperança de que não se fixassem nela. Mas se equivocou, pois os dois homens a seguiram com o olhar. Kelsey se encolheu embora estava farta do nervosismo e o medo que a tinham mantido em velo todo o dia. Sentiu um súbito arrebatamento de ira que a induziu a dizer: —Não permitam que minha presença os distraia, cavalheiros. Rogo-lhes que prossigam com sua conversação.
  20. 20. Perce piscou e Derek entreabriu os olhos. De imediato, Kelsey compreendeu que havia tornado a equivocar-se. Pode que com aquele chamativo vestido vermelho não parecesse uma dama, mas acabava de falar como se o fosse. Entretanto, não podia evitá-lo. Não lhe dava bem fingir. Inclusive se procurava parecer menos educada e o conseguia, em um momento ou outro se trairia e teria que dar explicações. De modo que decidiu armar-se de valor e mentir. Logicamente, não podia confessar a verdade. Olhou aos dois cavalheiros com expressão inocente e perguntou: —Hei dito algo desconjurado? —Não é o que há dito, querida, a não ser a forma em que o há dito —respondeu Derek. —A forma em que o hei dito? Ah, sim. De vez em quando surpreendo às pessoas. Verão, minha mãe era instrutora eu tive ocasião de me beneficiar da mesma educação que dava a seus tutelados. Foi uma experiência muito educativa, valha a redundância. Sorriu ante sua própria brincadeira, e a tivessem compreendido ou não, notou que Perce lhe acreditava e se relaxava. Entretanto, Derek seguia olhando-a com olhos entreabertos. E não demorou muito em responder: —Resulta difícil de acreditar, pois a maioria dos cavalheiros pertencem à velha escola e acreditam que as classes baixas devem permanecer em seu lugar; quer dizer, que terá que impedir de acessar a uma educação superior. —Já, mas neste caso não havia cavalheiro algum que desse as ordens. Só uma viúva a quem lhe tinha sem cuidado o que fizessem os filhos dos criados. De fato, ela mesma deu sua conformidade. Minha mãe era incapaz de tomar essas liberdades sem permissão. E eu sempre estarei agradecida a aquela dama, por não dar importância a nossa posição. Perce tossiu e soltou uma risada tola: —Deixa-o já, amigo. Sabe que o que estava pensando é impossível. —Como se você não tivesse pensado o mesmo —grunhiu Derek. —Só por um muito breve instante. —Posso perguntar a que se referem? —disse Kelsey , sem deixar de fingir inocência. —Não tem importância —respondeu Derek em voz baixa. Meteu as mãos nos bolsos, dirigiu-se à porta e se apoiou contra o marco, de costas a outros. Kelsey olhou ao Perce com ar inquisitivo, mas o jovem esboçou um sorriso tímido, encolheu-se de ombros e também se meteu as mãos nos bolsos, balançando o peso do corpo sobre os pés. Kelsey teve que esforçar-se para conter a risada. Os jovens se negavam a admitir em voz alta que, por um breve instante, ambos a tinham tomado por uma dama. Os cavalheiros de sua posição não podiam conceber sequer uma idéia semelhante. E era uma sorte. Sua família já tinha sofrido um escândalo, e se Kelsey podia evitá-lo, não se converteria na causa de outro. —Está seguro de que não quer que fique em dívida contigo para sempre, Derek? —Te despertou a gula, não? Tivesse jurado que esse assunto tinha ficado resolvido. —Bom, isso foi antes de que você resolvesse ficar com a presa —disse Jeremy com um sorriso encantador. Kelsey não sabia do que falavam, e tampouco lhe importava. Agora que se dirigiam a sua nova casa —ou isso supunha—, os nervos voltavam a importuná-la. Muito em breve se converteria na amante oficial de um homem E... Tremeu, incapaz de pensar no que lhe esperava.
  21. 21. Viajavam em um carro cômodo e elegante, que pelo visto pertencia ao Derek. E agora eram cinco. Jeremy tinha retornado ao despacho do Lonne do braço de uma jovem loira, vestida com objetos tão chamativos como as do Kelsey . Tinham-na apresentado como Florence, e Kelsey advertiu imediatamente que sentia autêntica devoção pelo Jeremy Malory. Não podia lhe tirar os olhos nem as mãos de cima, e agora, no interior do coche, ia virtualmente sentada em seu regaço. Kelsey permaneceu imperturbável. Ela e Jeremy ainda não tinham iniciado sua relação, mas inclusive se o tivessem feito, sabia que não tinha direito a lhe exigir fidelidade. Ele correria com todos seus gastos. Embora sua relação não tivesse sido incomum —e o era, pois a tinha comprado sem conhecê-la—, o jovem teria esperado fidelidade absoluta de sua parte. Mas nesta classe de acertos, o homem não tinha obrigação de ser fiel. Nem muito menos. Ao fim e ao cabo, a maioria dos homens que tinham amantes estavam casados. Enquanto os cavalheiros continuavam brincando sobre dinheiro e dívidas eternas, Kelsey fez todo o possível por permanecer indiferente. Entretanto, depois de ouvir a alusão do Jeremy às dívidas, perguntou-se como era possível que um homem de sua idade pudesse permitir o luxo de pagar um preço tão alto por ela, quando a maioria dos jovens viviam das atribuições de seus pais ou das rendas de imóveis que herdariam no futuro. Devia ter uma fortuna pessoal, e Kelsey se alegrava disso. Desde não ter sido assim, agora estaria com aquele homem horrível, em lugar de com uns cavalheiros autênticos de caminho para... Não sabia para onde. Pouco depois, quando o carro se deteve, só se apearam Jeremy e seu amiga Florence. Ninguém lhe deu explicações e Kelsey não fez perguntas. Mas Jeremy retornou pouco depois, sem a enjoativa Florence, e posto que ninguém lhe perguntou o que tinha feito com a garota, Kelsey supôs que outros já sabiam. O carro reatou a marcha, e passaram quinze minutos antes de que se detivera outra vez. Kelsey não conhecia Londres, pois não tinha visitado a cidade antes que Elliott a levasse ali, no dia anterior. Entretanto, bastava jogando uma olhada pelo guichê para comprovar que estavam em um bairro elegante, com mansões e casas imponentes, as residências das classes acomodadas. Não era de sentir saudades, tendo em conta a fabulosa soma que tinham pago por ela essa noite. Mas Kelsey se equivocou ao pensar que esse era seu destino, pois foi Derek quem descendeu do carro, e não Jeremy. Supôs então que Derek vivia ali e que deixariam a este e ao Perce em suas respectivas casas antes de continuar viagem com o Jeremy. Mas se equivocava outra vez, pois Derek retornou ao carro e lhe tendeu a mão para ajudá-la a baixar. Kelsey estava bastante surpreendida para agarrar sua mão sem pensar e deixar-se conduzir até uma enorme porta antes de atrever-se a perguntar: —por que me acompanha você, em lugar do Jeremy? Derek a olhou, surpreso pela pergunta. —Não ficará muito tempo aqui. Só esta noite. Amanhã faremos outros acertos. Kelsey assentiu com um gesto e se ruborizou, acreditando compreender a situação. O jovem Jeremy devia viver ainda com seus pais, de modo que não podia levá-la a sua casa. Sem dúvida Derek se ofereceu a alojá-la por uma noite, o que era muito amável por sua parte. Com um pouco de sorte, ali não haveria ninguém a quem tivesse que dar explicações. —Então você vive aqui? —Sim, quando estou em Londres —respondeu ele—. É a casa de meu pai, embora ele não a visite com freqüência. Prefere o campo e Haverston. A porta se abriu antes de que terminasse a frase, e um mordomo de ar solene saudou o Derek sem olhar ao Kelsey : —Bem-vindo a casa, senhor.
  22. 22. —Não ficarei, Hanlee —informou Derek—. Só vim a deixar a uma convidada que passará a noite na casa. Agradecerei-te que chame à senhora Hershal para que se dela ocupe. —A convidada se alojará na planta alta ou na baixa? Kelsey se surpreendeu ao ver que Derek se ruborizava ante essa pergunta impertinente, embora necessária. Fazia todo o possível para ocultar seu chamativo traje debaixo da jaqueta, mas a pane que permanecia visível proclamava a todas vozes sua nova posição. —Alojará-se na planta baixa —respondeu Derek com secura—. Já hei dito que não ficarei. Esta vez se ruborizou Kelsey , consciente das implicações dessa afirmação. O mordomo, entretanto, limitou-se a assentir com a cabeça e partiu a procurar o governanta. Enquanto se afastava, Derek murmurou: —Isto passa por conservar os mesmos criados que lhe viram em calças curtas. Céus, dão-se essas presunções porque levam muito tempo com a família. Desde não haver-se sentido tão envergonhada, Kelsey teria rido. Pese ao grande atrativo do Derek, o mau humor lhe dava um aspecto verdadeiramente cômico. Entretanto, embora Kelsey tivesse reunido valor para rir, ele não teria sabido apreciar a graça da situação. De modo que fixou a vista no chão e aguardou a que partisse. Preparado para fazer precisamente isso, Derek disse: —Enfim, espero que durma bem esta noite. Amanhã viajará a maior parte do dia. Poderia resultar exaustivo se não ter descansado o necessário. E antes que Kelsey pudesse perguntar aonde viajaria, fechou a porta a suas costas e partiu. Kelsey suspirou, embargada por uma sensação de alívio. Passaria a noite só e aquilo que tanto a assustava e no qual resistia a pensar se adiaria pelo menos um dia mais. Curiosamente, agora que o motivo de seu medo se pospor, era incapaz de tirar-se o da cabeça. O início de sua vida como amante equivalia a uma noite de bodas, embora sem o certificado de matrimônio e com uma total ausência de ternura entre as duas partes. Sabia que o matrimônio entre estranhos não era um fato insólito na história da humanidade. Os pais ou os reino consertavam matrimônios, concedendo aos casais apenas uns dias para conhecer-se... às vezes inclusive menos, segundo as circunstâncias. Mas os acertos desta classe eram muito estranhos nos tempos que corriam. Na atualidade, quando os membros do casal não faziam sua própria eleição, pelo menos tinham tempo de sobra para cercar uma relação antes das bodas. Quanto tempo teria Kelsey ? Este adiamento a tinha tomado por surpresa. Tinha suposto que não passaria a noite sozinha. E ao dia seguinte se iria de viagem. Significaria isso uma nova demora? Antes fosse. Embora nenhum adiamento lhe serviria de nada se não tinha ocasião de conhecer melhor ao Jeremy. Se não recordava mau, até o momento não lhe tinha dirigido a palavra, e tampouco ele a ela. Como demônios foram cercar uma relação se não falavam? Sem dúvida o averiguaria ao dia seguinte. No momento só devia preocupar-se de como tratar à governanta. Com suas maneiras de costume? Ou de uma maneira mais adequada a sua nova posição? Mas não seria ela quem tomasse essa decisão. A senhora Hershal se apresentou nesse ponto, e depois de olhá-la de cima abaixo, fez uma careta de desgosto e voltou a perder- se nos escuros corredores da casa, deixando a eleição do Kelsey se desejava segui-la ou não. De modo que assim estavam as coisas. Teria que acostumar-se a essa classe de tratamento. Só esperava que a vergonha que lhe produzia se fizesse mais fácil de tolerar com o tempo. 6
  23. 23. Derek deveria ter suposto que seus amigos da alma não o deixariam em paz. Assim que retornou ao carro, Jeremy disse: —Não posso acreditar. Pensa ir ao baile de todos os modos? Carae. Eu em seu lugar não o faria. —por que não? —perguntou Derek arqueando as sobrancelhas douradas—. A garota não escapará, e nossa prima Diana nos rogou que assistíssemos à apresentação em sociedade de sua amiga. Posto que ambos aceitamos o convite, Jeremy, o que considera mais importante? —A isso refiro —respondeu Jeremy com um grunhido—. Eu sei o que é mais importante, e não acredito que seja precisamente somar-se à multidão que assistirá ao grande baile da temporada. Haverá tanta gente que é muito provável que Diana nem sequer repare em nossa presença. —Faça-o ou não, o certo é que demos nossa palavra e estamos obrigados a assistir. Perce, importaria de explicar a este jovem irresponsável quais são seus deveres sociais? —Eu? —Perce riu—. Temo que compartilho seu ponto de vista, amigo. Não acredito que tivesse o valor de abandonar a uma nova amante para assistir a uma festa de sociedade que não promete ser distinta de tantas outras.Claro que se algum de seus tios, ou sua formosa prima Ame, tivessem intenção de assistir, a coisa trocaria. Seus tios sabem animar uma velada aborrecida, e Ame ainda não se casou com seu noivo ianque, de modo que segue ocupando um lugar de honra em minha lista de mulheres disponíveis. Dada a característica falta de loquacidade do Perce, essa declaração deixou sem palavras a seus dois amigos. Derek foi o primeiro em reagir. —Ame ainda não está casada, mas suas bodas se celebrará a semana próxima, assim já pode tirá-la de sua lista, Perce. —E deixa de contar com que meu pai nos entretenha —acrescentou Jeremy—. Agora está muito civilizado para animar as reuniões com seus fofoque. E eu diria que ao tio Tone lhe ocorre outro tanto. —Lamento discrepar, menino. Esses dois membros da família Malory nunca estarão o bastante civilizados para não fazer arquear vários pares de sobrancelhas com seu comportamento. Céus, eu mesmo tive ocasião de comprová-lo pouco depois do nascimento de sua irmã, Jack. Seu pai e seu tio levaram a ianque a uma sala de bilhar, e o pobre tipo saiu quase a rastros. —Acabavam de descobrir que Anderson estava interessado na Ame, e não aprovavam suas intenções. Foi uma reação previsível. Mas já lhe explicamos isso antes, Perce, quando você mesmo queria cortejar a Ame. Essa atitude se remonta à época em que tiveram que criar a nossa prima Regam, depois da morte de sua mãe, e como Ame se parece tanto a Regam...
  24. 24. —Reggie —corrigiu Derek tal como teria feito seu pai de ter estado ali, embora com menos ardor—. Entendo que seu pai insista em lhe trocar o nome para chatear a seus irmãos, mas você não tem por que seguir seu exemplo. —Ah, mas eu gosto de seu exemplo —repôs Jeremy com um sorriso desavergonhado—. E não o faz para chatear a seus irmãos... Bom, possivelmente em parte sim, mas não rué por isso que começou a chamá-la Regam. Começou a fazê-lo faz tempo, antes inclusive de que eu nascesse. Com três irmãos, dois deles maiores que ele, precisava destacar em todos os aspectos. —Pois não cabe dúvida de que o conseguiu —disse Derek fazendo uma piscada picaro. —É obvio. Os primos se referiam aos tempos de pirata do James Malory, quando se tinha feito credor ao mote do Falcão e a família o tinha repudiado. Precisamente quando desempenhava essa desonrosa profissão, James tinha descoberto que tinha um filho que era quase um homem. Não só lhe tinha dado seu sobrenome, mas também também o tinha levado a viver consigo, razão pela qual Jeremy tinha uma educação muito pouco ortodoxa. À heterogênea equipe de piratas do James devia seus conhecimentos sobre a bebida, as brigas e as mulheres. Mas Perce não sabia nem o averiguaria nunca. Era um bom amigo, mas também um homem incapaz de guardar um segredo, e a família mantinha uma reserva absoluta no referente às passadas correrias do James Malory. —Além disso, Perce —disse Jeremy, voltando para tema inicial—, meu pai detesta as festas e só assiste a alguma quando sua mulher o leva a rastros. O mesmo lhe ocorre ao tio Tone. Compreendo perfeitamente como se sentem, pois eu também me vejo miserável a esta. Derek franziu o sobrecenho. —Não pretendo te arrastar a nenhum lugar, menino. Só me permito te assinalar suas obrigações. Se não queria ir, não deveria aceitar o convite de Diana. —Não? —replicou Jeremy—. Sabe que sou incapaz de dizer que não a uma mulher. A qualquer mulher, por certo. Resulta-me impossível as defraudar. E te asseguro que nunca teria defraudado a quão jovem acaba de abandonar. —Tendo em conta que a garota só queria que a deixassem em paz, não se pode dizer que a tenha defraudado, Jeremy. —Diz que queria que a deixassem em paz? —Custa-te acreditá-lo, verdade? —As mulheres conspiram e lutam para meter-se em sua cama, primo, não para sair dela. Vi-o com meus próprios olhos... —Mas algumas mulheres não querem que as incomode —interrompeu Derek—, por um motivo ou outro. E esta me deu claramente essa impressão. Parecia esgotada. Pode ser só isso, mas como de todos os modos eu tinha outros planos... Além disso, Jeremy, não paguei tanto dinheiro só para me colocar na cama com a garota, assim não estou impaciente por fazê- lo. Para começar, nem sequer queria uma amante, embora agora que a tenho, se não te importar, ocuparei-me dela quando o considerar conveniente. —Pois vá se não ter pago uma soma exagerada por algo que não queria —observou Perce. —Já —disse Jeremy com uma risada. Derek se ajeitou no assento e grunhiu. —Sabem muito bem por que o fiz.
  25. 25. —Certamente, amigo —respondeu Perce—. E lhe felicitamos por sua façanha. Eu teria sido incapaz de um ato tão nobre, mas ao menos um de nós teve o valor de arriscar-se. —Sim —conveio Jeremy—. Venceu ao Ashford e ao mesmo tempo conseguiu um prêmio estupendo.Devo admitir que foi um trabalho excelente. Longe de ruborizar-se pelas inesperadas adulações, Derek disse: —Então, querem me fazer o favor de deixar de chatear-me por ter deixado sozinha à garota? —É necessário? —disse Jeremy com um sorriso. O olhar fulminante do Derek fez que Jeremy girasse a cabeça para o guichê e começasse a assobiar uma alegre melodia. Era um patife incorrigível. O tio James o teria cru para endireitar ao menino e lhe ensinar suas responsabilidades quando chegasse o momento. Certamente, o pai do Derek se lamentava de suas próprias dificuldades para educar a seu filho. Entretanto, Derek tinha tido que as ver-se com o cabeça de família dos Malory e, em sua condição de marquês do Haverston, Jason Malory era o mais severo dos irmãos e o mais difícil de agradar. Derek estava acostumado a desfrutar das festas, embora não assim daquelas às que assistiam mais de trezentas pessoas, como a dessa noite. Mas gostava de dançar e pelo general participava de um jogo amistoso de cartas ou bilhar, e invariavelmente aparecia alguma cara nova que despertava seu interesse. Entretanto, não permitia que seu interesse se mantivera vivo muito tempo, pois a maioria das jovens que se vestiam tão esplendidamente para a ocasião e paqueravam com aparente recato só tinham um objetivo em mente: o matrimônio. E no preciso momento em que deixavam entrever suas intenções, Derek fugia apavorado, já que o matrimônio era quão último desejava para si. Havia poucas exceções à regra, embora não se apresentavam freqüentemente. Inclusive quando uma jovem não desejava casar-se imediatamente, devia suportar as inevitáveis pressões de sua família. Era excepcional a mulher que podia dedicar-se a divertir-se sem ceder a essa classe de pressões. Derek preferia às jovens de mentalidade independente e tinha chegado a intimar com várias. Estavam acostumados a ser moças inocentes, de modo que a relação nunca tomava uma aparência sexual. Nem muito menos. Derek respeitava as regras sociais e lhe agradava vincular-se com as jovens em outros términos: boa conversação,interesses comuns e a possibilidade de baixar o guarda ante elas. O que não significava que não fosse sempre em atrás de novas companheiras de cama. Simplesmente, não as buscava no grupo de inocentes que aparecia em Londres cada nova temporada. Não, suas conquistas sexuais estavam acostumadas a serem jovens casadas ou viúvas: as primeiras, insatisfeitas com seu matrimônio; as segundas, livres para fazer sua Santa vontade... embora sempre com discrição, é obvio. E estranha vez partia de uma grande festa em Londres sem consertar antes uma conversa amorosa para um dia dessa mesma semana, ou inclusive para essa mesma noite. Entretanto, nesta festa em particular não havia ninguém que lhe interessasse. Dançou o tempo necessário para agradar a sua anfitriã e teve que esforçar-se para não bocejar antes de ceder seu casal ao seguinte cavalheiro da lista. Jogou um par de mãos às cartas, mas foi incapaz de concentrar-se no jogo, inclusive quando as apostas se fizeram perigosamente altas.
  26. 26. Dois de suas antigas amantes quiseram lhe arrancar uma conversa, mas em lugar de seguir seu costume de postergar o encontro para mais adiante, limitou-se a responder que nesse momento tinha outro compromisso. Entretanto, não era assim. A mulher que tinha deixado em sua casa não podia considerar-se como tal... ao menos pelo momento. Por outra parte, uma amante não era nunca um compromisso. Uma amante era simplesmente uma conveniência agradável... e custosa. E ainda não podia acreditar que tivesse uma amante. Sua única experiência anterior em manter a uma mulher em troca de seus favores tinha resultado um desastre. Chamava-se Marjorie Eddings e era uma jovem viúva de boa família, que não tinha dinheiro suficiente para manter o luxuoso estilo de vida a que estava acostumada. Derek tinha pago suas dívidas —em sua maioria contraídas por seu defunto marido—, restaurado sua casa e sucumbido a seu capricho de possuir jóias caras. Até tinha acessado a acompanhá-la às reuniões sociais, em que pese a sua resistência a desempenhar tal papel. Naturalmente, conduziam-se com absoluta discrição e respeitabilidade. Inclusive quando a deixava em sua casa, devia esperar horas antes de entrar em receber os favores que lhe correspondiam... e que a metade das vezes lhe negava desculpando-se no cansaço. E durante os seis meses que tinha durado a relação, em que pese a saber perfeitamente que ele não tinha intenções de casar-se, a mulher tinha começado a conspirar para levá-lo a altar. Embora Marjorie lhe tivesse atraído o suficiente para cercar uma relação permanente —e não era o caso—, Derek nunca teria tolerado jogos sujos e mentiras, e ela era uma especialista em ambas as artes. Disse-lhe que estava grávida quando não o estava. Fez pública sua relação, assegurando que Derek tinha prometido casar-se com ela. Essa foi a última gota. E até teve a ousadia de falar diretamente com o pai do moço. Naturalmente, Marjorie tinha subestimado à família Malory, com a que era impossível congraçar-se com mentiras. O pai do Derek conhecia seu filho o suficiente para saber que nunca teria feito uma promessa semelhante. Em realidade, a notícia de umas bodas iminente teria agradado sobremaneira ao Jason Malory, mas sabia que seu filho não estava preparado para sentar a cabeça e, graças ao céu, nunca o tinha pressionado. Derek sabia que chegaria um dia em que o faria. cedo ou tarde lhe recordaria suas responsabilidades, a necessidade de continuar a estirpe e de fazer-se credor ao título nobiliário que lhe correspondia herdar. Quanto ao Marjorie... Bem, Jason também detestava as mentiras. Era um homem de princípios, e atrás de tantos anos à frente da família —exatamente desde que contava dezesseis—, em que tinha tido que lutar com as travessuras de seus irmãos e ocupar-se da educação do Derek e Reggie, conhecia seu papel muito bem. Tinha além disso um caráter forte, e só os inocentes podiam superar a prova de seus furiosos sermões. Os culpados se acovardavam rapidamente ou, no caso das mulheres, desfaziam-se em lágrimas, pois, como estava acostumado a dizer tio Tone, era duro ver como o teto se derrubava sobre sua cabeça. Depois da conversa com o Jason, Marjorie tinha partido envergonhada e chorosa, e não havia tornado a importunar ao Derek. Havida conta de que a mulher se embolsou muito dinheiro durante a breve relação, Derek não se sentiu culpado de que tudo acabasse em catástrofe. Além disso, tinha aprendido sua lição... ou ao menos isso acreditava. A mulher que tinha comprado essa noite não expor —ou não deveria expor— os mesmos problemas que Marjorie. Kelsey Langton não pertencia à nobreza, embora sua forma de falar sugerisse o contrário.
  27. 27. Não estava acostumada aos privilégios, de modo que estaria agradecida por algo que lhe desse,enquanto que Marjorie se acreditava com direito a exigir. Por outra parte, Derek a tinha comprado. Assim o demonstrava a fatura que tinha no bolso. O jovem ainda não sabia o que pensar desse transação, mas Kelsey tinha acessado ao leilão. Não era como se a houvessem vendido sem sua permissão E... melhor não pensar no que isso significava. Acabava de comprar uma amante, e nem sequer o tinha feito por iniciativa própria, a não ser para evitar que esse demônio do Ashford maltratasse a outra mulher. Uma mulher que, neste caso, devido às condições do contrato, não poderia escapar de sua crueldade. Era evidente que a surra que tinha dado ao Ashford não tinha servido para pôr fim a suas perversões, como Derek teria desejado. Agora se conduzia com maior impunidade que nunca, como tinha demonstrado nesse absurdo leilão, visitando uma casa como a do Lonne, que proporcionava mulheres para estes fins. Com antecedência, David Ashford estava acostumado a alugar os serviços de prostitutas por uma só noite. Essas mulheres estavam indefesas ante cavalheiros como ele. Pior ainda, sem dúvida acreditavam que as poucas moedas que conseguiam em troca eram uma compensação justa pelas cicatrizes que lhes deixavam. Patético, mas certo. Inclusive se Derek tivesse decidido denunciar a ele, como testemunha de seus perversos métodos para obter prazer, sabia que nenhuma das vítimas atestaria em seu contrário. Comprariam-nas ou as eliminariam antes do julgamento. Mas Derek estava tão indignado pelo comportamento do Ashford que agora que sabia que este seguia nas mesmas, estava disposto a fazer algo mais. Não podia lhe arrebatar a cada mulher que Ashford decidisse comprar, nem sequer se conseguia inteirar-se de tudo os leilões desta classe. Suas reservas de dinheiro não eram inesgotáveis. Essa noite tinha atuado por impulso. Possivelmente devesse consultar a seu tio James, que durante seus tempos de pirata tinha tido ocasião de lutar com os aspectos mais sinistros da vida. Se alguém sabía como tratar com um lixo como Ashford, esse era James. . Mas se ocuparia disso ao dia seguinte. No momento, devia concentrar-se em desfrutar da festa, coisa que lhe resultava muito difícil. Finalmente, depois de um bom momento de ver ante ele uns olhos cinzas em lugar dos azu de sua atual amante, começou a perguntar-se se Jeremy e Perce não estariam no certo. Que demônios fazia na festa, quando sob seu próprio teto havia uma formosa mulher que sem dúvida estaria perguntando-se por que a tinha deixado sozinha? Certamente, o fato de que se encontrasse sob seu próprio teto punha freio a seus impulsos. Uma das razões pelas que se levava tão bem com seu pai era porque este não interferia em seus assuntos, sempre e quando os levasse com total discrição. E Derek o fazia. O que significava que nunca alojava a uma mulher em sua casa de Londres nem em nenhuma dos dois imóveis que tinha herdado. Os criados eram a pior fonte de fofocas, pois não havia medeio mais rápido e seguro para trocar informação entre casa e casa que a rede de mordomos, choferes, donzelas e lacaios. Em conseqüência, essa noite não teria ocasião de conhecer melhor a seu nova amante. Por fim deixou de fingir que se divertia e procurou o Perce e ao Jeremy para lhes comunicar que partia e que enviaria um carro a recolhê-los mais tarde. Como é natural, os dois jovens responderam com sorrisos burlonas e piscadas de cumplicidade, convencidos de que retornava a casa para passar um bom momento. Ao fim e ao cabo, seus respectivos pais não se pareciam em nada ao Jason Malory. Em qualquer caso, Derek não pôde evitar pensar em sua jovem amante durante a viagem a casa. Depois de tudo, Kelsey Langton não era uma criada. E não permaneceria na residência de Londres o tempo suficiente para fofocar com os serventes. De fato, podia lhe fazer
  28. 28. uma visita furtiva e voltar para sua cama antes do amanhecer. O mordomo não se inteiraria, pois nunca o esperava levantado. Não demorou muito em convencer-se de que devia visitá-la assim que sua decepção não pôde ser major quando Hanlee lhe abriu a porta, apesar do insólito da hora, e desbaratou seus planos de um colchão. Maldito fofoqueiro. Se Hanlee não se ficou no vestíbulo, olhando-o subir as escadas degrau a degrau, Derek poderia haver-se dirigido às dependências de serviço a procurar a jovem. Mas estava seguro de que o mordomo permaneceria à espreita, vigiando-o. Seu pai se inteiraria de tudo em menos de uma semana, e o chamaria o ordem, lhe recordando a necessidade de proteger sua honra, de atuar com discrição e de assegurar-se de que os fofoque dos criados se limitariam aos assuntos de outras famílias, não a sua. Era necessário correr esse risco por um breve encontro com uma jovem a quem poderia visitar seu desejo a partir dessa noite? Não valia a pena. Mas de todos os modos lhe resultou muito difícil conciliar o sonho. —É minha culpa —resmungou a senhora Hershal— Deveria me haver dado conta, embora deva admitir que meu vista já não é o que era, sobre tudo de noite. Kelsey se esfregou os olhos sonolentos enquanto escutava distraidamente à governanta. Não respondeu, pois não podia adivinhar do que falava a mulher. Era evidente que se perdeu a parte mais importante da conversação, pois nada mais despertar tinha visto a senhora Hershal tirando um de seus vestidos da mala e alisando as rugas com a mão. A mulher já tinha ordenado a habitação, embora Kelsey não tinha tido muito tempo de desordená-la-a noite anterior. E havia uma bacia de água esperando-a, junto a uma pilha de toalhas podas e uma bule. Bocejou e deu graças ao céu por não ter despertado desorientada, perguntando-se onde estava e quem era aquela mulher que registrava sua habitação. Tinha o cabelo castanho recolhido em um severo coque, os ombros largos, um volumoso peito que dava um aspecto desproporcionado na metade superior de seu corpo e grosas sobrancelhas enrugadas em uma perpétua careta de desgosto. Como não ia recordar à governanta, com suas maneiras desdenhosos e seus cruéis olhares que a noite anterior a tinham feito sentir como um rato de boca-de-lobo. Jamais esqueceria seu último comentário antes de despedir-se até a manhã seguinte: —E não te ocorra te levantar roubar, pois saberemos quem foi. Era difícil tolerar semelhante humilhação, quando uma não tinha sofrido nada similar ao desprezo em toda sua vida, mas Kelsey compreendeu que deveria acostumar-se a essa classe de tratamento. Teria que proteger seus sentimentos com uma couraça para que no futuro não pudessem envergonhá-la nem ferir a dessa maneira. Kelsey desejou que o governanta acabasse depressa e a deixasse em paz. Mas a mulher seguia falando sozinha, como se não se precaveu de que a jovem estava acordada. Entretanto, quando emprestou atenção aos comentários da mulher, comprovou que em realidade se dirigia a ela. —Tudo por confiar na opinião do Hanlee. Mas o que sabe ele destas coisas? Disse que o senhor havia trazido uma zorra a casa, e eu lhe acreditei. Embora seja minha culpa. Sei e o admito. Deveria havê-la cuidadoso melhor. Nota-se nas feições, sabe? As feições não enganam,e você as tem. —Rogo-lhe me desculpe, mas não a compreendo.
  29. 29. —Vê-o? Deveria me haver rogado que a desculpasse ontem à noite, minha lady, e eu me teria precavido imediatamente que esta habitação não era digna de você. Foi pelo vestido, sabe? E, como hei dito antes, minha vista já não é o que era. Kelsey ficou em guarda e se sentou na cama. A noite anterior nem sequer tinha notado que fora tão incômoda. Carae, aquela mulher se estava desculpando. Desde aí tanta chachara. Por algum motivo, tinha chegado à conclusão de que tinha cometido um engano ao classificar ao Kelsey como um rato de boca-de-lobo. E o que ia a fazer ela a respeito? Não queria que ninguém tomasse por uma dama. Guardaria silêncio. Deixaria que o governanta pensasse o que quisesse. Ao fim e ao cabo, não ia permanecer nessa casa, assim não teria que vê-la diariamente Mas cabia a possibilidade de que o sentimento de culpa da senhora Hershal a induzira a desculpar-se também ante o senhor Derek, e isso era o último que desejava Kelsey . De modo que esboçou um sorriso tímido e disse: —Não é o que você crie, senhora Hershal. Não se equivoca ao pensar que esse vestido não é meu e lhe asseguro que me alegrarei de não voltar a vê-lo. Mas tampouco sou uma dama. —Como explica então...? Kelsey se apressou a interrompê-la: —Minha mãe era instrutora e não tivemos uma vida difícil. Trabalhou para a mesma família durante quase toda minha vida, e eu me criei em uma casa tão bonita como esta. Inclusive tive o privilégio de compartilhar os mesmos tutores que as pupilas de minha mãe, razão que lhe induziu a tomar por quem não sou. Acredite, não é a primeira vez que minha forma de falar provoca um mal-entendido. A mentira se voltava mais fácil com a repetição, mas a senhora Hershal a olhava com expressão dúbia e estudava a cara do Kelsey como se a verdade estivesse escrita nela. De fato, isso era precisamente o que estava pensando. —Isso não explica suas feições, minha lady. Têm você os rasgos distinguidos das classes altas. Kelsey refletiu um instante e disse o primeiro que lhe veio à cabeça: . —Bom, o certo é que nunca conheci meu pai. —E não precisou fingir o rubor que provocou essa mentira. —Ah, de maneira que é ilegítima, né? —replicou a senhora Hershal com ar pensativo, aparentemente satisfeita com uma resposta tão lógica. Logo acrescentou com tom pormenorizado—: Enfim, há muitos casos como o seu. Inclusive lorde Derek, que Deus lhe benza, foi fruto de uma cã ao ar. Claro que seu pai, o marquês, reconheceu-o e o nomeou seu herdeiro, por isso o aceitam em sociedade. Mas não sempre foi assim. De menino teve muitas brigas, o asseguro, pois os jovens som muito cruéis. Assim até que fez bons miolos com o visconde Éden no colégio. A história do Derek, o amigo do Jeremy, tomou por surpresa ao Kelsey , que não soube o que dizer. Sua condição de filho ilegítimo não era de sua incumbência, certamente, mas como acabava de inventar um passado similar, supôs que devia fingir certo grau de compreensão. —Sim. Sei muito bem do que me fala. —Certamente que sim, senhorita. Certamente que sim.
  30. 30. Kelsey se tranqüilizou para ouvir que a senhora Hershal tinha substituído o tratamento de «meu lady» pelo de «senhorita». O governanta não lhe desejava muito tão ameaçadora agora que compreendia que não se equivocou tanto, e não lhe criaria problemas. A mulher tirou rapidamente suas próprias conclusões. —Pelo visto teve problemas e o senhor Derek se ofereceu a ajudá-la. Tivesse sido muito singelo responder com uma direta afirmação e deixar correr o assunto, mas o governanta era muito curiosa para conformar-se com essa resposta. —Faz muito tempo que conhece o senhor? —Não, absolutamente. Eu estava... perdida, sabe? Não conheço a cidade. Acabava de chegar, e embora tive a sorte de encontrar um bom alojamento, também tive a desgraça de que o edifício onde me alojei se incendiasse a noite passada. Por isso levava esse vestido. Alguém me deixou isso antes que pudesse recuperar minha mala. Lorde Derek passava por ali, viu a fumaça e se deteve ajudar. Kelsey , que tinha improvisado a história à medida que a contava, sentiu-se bastante orgulhosa de ter inventado um incêndio que explicasse ao mesmo tempo seu vestuário e sua presença ali. O governanta fez um gesto de aprovação. —Sim, o senhor Derek tem um grande coração. Lembrança que uma vez… Uns golpes na porta interromperam a anedota. Uma jovem criada apareceu a cabeça e disse: —O carro do senhor está esperando. —Céus! Tão cedo? —disse a senhora Hershal enquanto me despedia da criada com um gesto expedito. Logo olhou a Kelsey —. Bem, parece que não terei tempo de lhe engomar o vestido. Embora acredite que alisei a maior parte das rugas. Deixarei-a sozinha para que se arrume. Tampouco terá tempo para tomar o café da manhã, assim ordenarei à cozinheira que lhe prepare uma cesta. —Não é nece... —começou Kelsey , mas a mulher já se partiu. Kelsey suspirou. Esperava que a mentira que acabava de contar não tivesse conseqüências. Em realidade não importava, já que não permaneceria nessa casa. Mas não gostava de mentir, e tampouco o fazia bem, pois o faltava prática. Tanto ela como Jean tinham sido educadas no mais escrupuloso respeito à verdade, e nenhuma das duas tinha faltado a essa norma... até agora. O chá esfriou, mas mesmo assim apurou uma taça antes de lavar-se e vestir-se a toda pressa. Pensou em deixar o vestido vermelho, mas recordou o que Mai lhe havia dito em casa do Lonne: que sempre devia luzir objetos provocadores para seu amante. E não tinha nenhuma outro objeto que pudesse qualificar-se de provocadora. Embora o vestido lhe parecesse de péssimo gosto, era evidente que os homens não compartilhavam sua opinião; do contrário, as lutas não teriam subido tanto. Entretanto, se voltava a usá-lo seria só de noite e na intimidade. No momento, ficaria o vestido de lã bege que lhe tinha preparado a senhora Hershal e que combinava com seu chaquetilla. Céus, era um alívio vestir decentemente outra vez, até sabendo que a «decência» já não ia formar parte de seu futuro.
  31. 31. Quando baixou as escadas, descobriu que em lugar do Jeremy era lorde Derek quem a esperava no vestíbulo. Impaciente, golpeava-se uma coxa com um par de luvas. À luz do dia tinha um aspecto diferente, embora não menos arrumado. Em efeito, a radiante luz do vestíbulo permitia apreciar em sua justa medida todo seu atrativo, do corpo alto e magro, até a cara de rasgos finos E... sim, seus olhos eram cor avelã, não verdes como ela tinha acreditado. E naquele momento a olhavam com expressão crítica, criando a impressão de que não davam crédito a seu recatado traje. Coisa muito natural. Depois de tudo, não podia prever que Kelsey aparecesse vestida como uma dama. Entretanto, não era ele a quem a jovem devia impressionar ou seduzir, de modo que subtraiu importância ao assunto. Quando a criada tinha anunciado que «o senhor a esperava», Kelsey tinha dado por entender que Jeremy tinha ido a recolhê-la, mas o jovem não estava à vista. Claro que era provável que a aguardasse no carro. —Confio em que tenha dormido bem —disse Derek com um tom ligeiramente cético, como se em realidade não acreditasse possível. —Sim, muito bem. Ela mesma se surpreendida de que se ficou dormida nada mais apoiar a cabeça no travesseiro. O medo e o nervosismo do dia anterior tinham acabado por esgotá-la. —Acredito que isto é para ti. Não tinha reparado na cesta que Derek sujeitava em uma mão, parcialmente oculta atrás de seu corpo. Assentiu com um gesto. Esperava que a senhora Hershal não a tivesse entregue em pessoa ou que, em caso afirmativo, não tivesse feito nenhum comentário. Mas não cairia essa breva... —Assim que me atribui uma boa ação que eu nem sequer recordo. Kelsey se ruborizou. Tinham-na pilhado em uma mentira. —Sinto muito, mas esta manhã sua governanta me apressou com suas perguntas, e supus que não quereria que soubesse a verdade. —Tem razão, não é assunto dele. De verdade dormiste bem? Surpreendeu-lhe que voltasse a perguntar-lhe e uma vez mais com tom de incredulidade. —Sim. Pelo visto estava exausta. Ontem foi um dia exaustivo. —Seriamente? —Sua desconfiança era inconfundível, mas sorriu—. Bom, esperemos que hoje seja melhor. — Vamos? —Assinalou a porta. Kelsey suspirou e assentiu. Aquele homem se comportava de uma forma um tanto estranha, mas isso lhe tinha sem cuidado. Possivelmente não houvesse motivo para sentir saudades e ele fora uma pessoa naturalmente cética. Mas do que isso, já que provavelmente não voltasse a vê-lo no futuro. Ajudou-a a subir ao carro, e quando lhe agarrou a mão, Kelsey voltou a sentir-se turvada. Entretanto, não foi essa a causa de que enrugasse a frente enquanto Derek se acomodava a seu lado, a não ser descobrir que o carro estava vazio. Não pospor a pergunta:
  32. 32. —Agora recolheremos a seu amigo Jeremy? —Jeremy? A perplexidade do Derek incomodou ao Kelsey e se somou a sua própria perplexidade, mas repetiu com calma: —Se, Jeremy. Recolheremo-lo esta manhã? —Para que? —replicou ele—. Não necessitamos sua companhia na viagem ao Bridgewater. —Então sorriu, e Kelsey teria jurado que seus olhos eram verdes outra vez—. Além disso, esta é a ocasião perfeita para que nos conheçamos melhor. Não posso esperar um minuto mais. Antes que Kelsey se desse conta, agarrou-a em braços e a sentou em seu regaço. Mas a reação da jovem não se fez esperar. Apenas Derek lhe teve roçado os lábios com os seus, deu-lhe uma bofetada. Ele a olhou com desconcerto. E lhe devolveu um olhar de indignação. Então, enquanto a deixava cair outra vez sobre o assento, Derek disse com brutalidade: —Não sei se deveria lhe pedir perdão, senhorita Langton. Mas tendo em conta o buraco que ontem deixou em meu bolso pelo uso exclusivo de sua doce pessoa, acredito que me deve uma explicação. Ou acaso se acreditou que sou um dos poucos e seletos paroquianos do Lonne aos que gostam de combinar sexo com violência? Porque lhe asseguro que não é o caso. A boca do Kelsey se abriu de assombro ao tempo que suas bochechas se acendiam de rubor. Tinha-a comprado Derek, não Jeremy. E ela tinha começado a relação com uma bofetada. —Posso... posso explicar-lhe - disse com um nó no estômago. —Isso espero, querida, porque do contrário pedirei que me devolvam o dinheiro. 9 Kelsey se sentia consternada. Não sabia como explicar o que acabava de fazer. E não sabia porque não podia pensar com claridade sob o severo olhar do Derek. Quão único tinha claro era que ele a tinha comprado. Ele, o homem que tanto a turvava. que menos esperava. E agora compreendia por que não tinha desejado que fora ele. Turvava-a tanto que não podia pensar. —Estou esperando, senhorita Langton. Esperando o que? O que? Ah. sim, que lhe explicasse por que o tinha esbofeteado. —Você me sobressaltou —respondeu. —Sobressaltei-a? —Sim. Não esperava que me atacasse desse modo. —Atacá-la? Kelsey se encolheu ante o tom de sua voz. Parecia uma confusão. Como lhe fazer compreender o ocorrido sem admitir sua necessidade? por que não tinha perguntado quem a tinha comprado em um primeiro momento? Deveria havê-lo feito. Embora, em honra à verdade, alguém teria que haver-lhe dito. Não podia adivinhá-lo.
  33. 33. —escolhi mal as palavras —concedeu—. Mas não estou acostumada a que um homem me sente em seu regaço E... enfim, como já hei dito me sobressaltei e reagi sem pensar... Não tinha terminado. Ele seguia olhando-a carrancudo e se ficou sem desculpas. Não tinha outro remédio que confessar a verdade. —Muito bem, se quer sabê-lo, ontem não alcancei a ver qual de vocês três tinha puxado por mim. Só ouvi o nome de lorde Malory, e quando alguém chamou desse modo ao Jeremy acreditei... —Carae! Acreditou que te tinha comprado meu primo? —Não podia ocultar sua surpresa. Kelsey voltou a ruborizar-se e assentiu com um gesto—. Incluso depois de que te levasse a minha casa? —Queria esclarecer esse ponto. Kelsey voltou a assentir com a cabeça. Embora esta vez acrescentou: —Você disse que era um acerto temporário. Tendo em conta a idade do Jeremy, supus que ainda viveria com seus pais e que lhe teria pedido que me alojasse por uma noite. por que, se não, ia perguntar se o recolheríamos esta manhã? O sorriso dele a confundiu ainda mais. —Em realidade, querida, começava a temer que te tivesse ficado gostada muito desse patife. Não seria a primeira vez. em que pese a sua curta idade, está acostumado a despertar ardores entre as mulheres. —Sim, é inusualmente arrumado —concedeu ela, embora em seguida se arrependeu de suas palavras. O sorriso do Derek se desvaneceu. —Suponho que se sentirá decepcionada agora que sabe que deve ficar comigo, não? Foi uma pergunta desafortunada. A verdade estava escrita na cara do Kelsey , embora mentisse para tranqüilizá-lo: —Não, claro que não. A expressão do Derek proclamava que não acreditava, mas ela não quis complicar as coisas com explicações. A beleza do Jeremy a havia impressionado,pois este cavalheiro despertava sensações que não alcançava a compreender. Tinha suposto que com o Jeremy todo seria bastante simples. E estava convencida de que nada seria simples com este homem. Era natural então que preferisse ficar com o Jeremy. Pois dava por sentado que a relação com ele não séria tão complicada. Quando Derek não respondeu e seguiu olhando-a com expressão dúbia, Kelsey se defendeu dizendo. -Lorde Malory. posso lhe assegurar que o encontro imensamente superior aos outros dois cavalheiros que puxaram por mim. Entretanto, nunca suspeite que minhas
  34. 34. preferências tivessem alguma relevância em uma transação desta natureza. Ninguém me perguntou se eu gostava de você. Isso não entrava nos términos do contrato. - Acaso tivesse querido que fora assim? Derek sorriu ao ver voltá-las voltas, embora o sorriso não chegou a seus olhos. E seu tom foi certamente seco quando respondeu: -Boa resposta, querida. Devemos recomeçar. Te aproxime; procurarei fazer se esquecer que não é Jeremy quem está sentado aqui. E procurar me fazer acreditar que o esqueceste. Kelsey olhou a mão tendida. Não podia rechaçá-la. Mas seu estômago voltava a contrair-se com estranhas sensações, e quando por fim agarrou a mão, a corrente subiu com tal intensidade por seu corpo que quase deu um coice. -muito melhor -disse Derek enquanto voltava a sentá-la em seu regaço. Kelsey esperou o beijo com as bochechas ardentes. Mas ele não a beijou. Moveu-a ligeiramente para um lado. logo para o outro, e quando seus braços a rodearam por fim, ouviu-o suspirar. -te tranqüilize, querida -disse com leve sarcasmo—. Apóia a cabeça onde queira. Acredito que me limitarei a te abraçar durante um momento para que te acostume. Kelsey se surpreendeu, mas parte da tensão se desvaneceu para ouvi-lo. —Não peso muito? —Absolutamente —respondeu ele com uma risada. O carro continuou estralando pelas ruas da cidade, que a essas horas da manhã estava congestionada de carros, carros e cidadãos de caminho ao trabalho. Quando chegaram aos subúrbios, Kelsey estava já o bastante tranqüila para apoiar a cabeça no peito dele. Então Derek lhe acariciou a cabeça, lhe roçando a cara com o polegar, coisa que não desgostou absolutamente a jovem. Despedia uma fragrância agradável, fresca e especial, que também gostou. —Quanto demoraremos para chegar ao Bridgewater? —perguntou depois de uma pausa. —Como nos deteremos para comer pelo caminho, é muito provável que a viagem dure todo o dia. —E o que há no Bridgewater? —Tenho um imóvel perto dali. Pensava ir nestes dias. Nas proximidades há uma cabana desabitada nestes momentos e onde espero te encontre cômoda durante um par de semanas, enquanto procuro um lugar apropriado para ti em Londres. —Estou segura de que gostarei. Guardaram silêncio durante a hora seguinte. Kelsey estava cômoda, abrigada e a ponto de ficar dormida quando ouviu: —Kelsey ? —Mmmm? —por que permitiu que lhe vendessem?

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