Johanna lindsey familía mallory 03 - amável tirano

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Johanna lindsey familía mallory 03 - amável tirano

  1. 1. Amável Tirano GENTLE ROGUE JOHANNA LINDSEY James Malory, a ovelha negra de uma família orgulhosa e tempestuosa, jurara que mulher alguma o levaria ao altar. Mas, em alto-mar, nem ele imaginaria ser derrotado por ela, a inocente Georgina Anderson, cujo amor pela liberdade rivalizava com o seu próprio, e por uma torrente irresistível e inesperada de paixão, que ameaçava engolir a ambos... Amável Tirano revela toda a maestria de Johanna Lindsey, vencedora do Prêmio Romantic Times para o Melhor Autor de Romance Histórico e definitivamente consagrada como uma das mais bem-sucedidas escritoras dos últimos tempos.
  2. 2. 2 AMÁVEL TIRANO Georgina Anderson, caçula de seis irmãos, e única mulher, chega à Inglaterra e encontra seu prometido casado com outra e pai de dois filhos. Arrasada, cheia de ódio pela Inglaterra e por tudo que é inglês, ela resolve voltar para os Estados Unidos, o mais rapidamente possível. Sem dinheiro, ela se disfarça de taifeiro e embarca no Maiden Anne, deixando as tristezas nas costas da Inglaterra. Mas a inocente Georgina não desconfia o que irá lhe aprontar o capitão do navio — o libertino e irreprimível James Malory. Fingindo desconhecer que ela é uma moça, Malory passa a partilhar o mesmo camarote e acaba por seduzi-la. Mas Georgina volta para casa sozinha, pois o ardente defensor do celibato não abre o coração para o matrimônio, numa jura que fez de que mulher alguma o levaria ao altar. Numa história provocante de muita paixão, conflito e sedução, os personagens irão se envolver em incríveis façanhas amorosas, num jogo de amor e rendição, paixão e ódio. Johanna Lindsey A autora fenomenal de bestsellers internacionais, como Quando o Amor Espera, compõe uma história provocante de paixão, conflito e rendição. Os leitores de Johanna Lindsey irão conhecer um mundo repleto de incríveis façanhas amorosas, numa família inesquecivel! OBRA DA AUTORA QUANDO O AMOR ESPERA Para minha cunhada, Lawree, e a sua alegria mais recente, Natasha Kealanoheaakealoha Howard Tradução de ISABEL PAQUET DE ARARIPE Titulo original norte-americano GENTLE ROGUE Copyright 1990 by Johanna Líndsey Publicado mediante acordo com a autora. Direitos exclusivos de publicação em língua portuguesa para o Brasil adquiridos pela DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A. Rua Argentina 171 — 20921-380 Rio de Janeiro, RJ — Tel.: 585-2000 que se reserva a propriedade literária desta tradução Impresso no Brasil ISBN 85-01-03965-9 PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL Caixa Postal 23.052 — Rio de Janeiro, RJ — 20922-970 Johanna Lindsey, autora do bestseller Quando o Amor Espera, volta a brilhar com este monumental romance histórico. Os leitores irão se apaixonar pela trama muito bem-elaborada, repleta de suspense. E conhecer uma inesquecível família... orgulhosa e temerosa, capaz de grandes feitos, que irão surpreender e encantar a todos.
  3. 3. 3 Capítulo Um Londres, 1818 Georgina Anderson segurou a colher por trás, colocou um dos rabanetes descascados do prato no lado côncavo do talher, puxou-o pela extremidade em sua própria direção e disparou o rabanete pelo quarto. Não acertou a barata gorda em que estivera mirando, mas chegou bem perto. O rabanete espatifou-se contra a parede a centímetros do alvo, fazendo o inseto sair correndo em busca da fenda mais próxima. Objetivo alcançado. Contanto que não visse aqueles monstrinhos, podia fingir que não estava dividindo acomodações com eles. Voltou-se para o jantar parcialmente ingerido, fitou por um momento a comida, depois afastou o prato com uma careta. O que não daria por uma das suculentas refeições de sete pratos de Hannah naquela hora! Depois de doze anos como cozinheira dos Anderson, Hannah sabia exatamente o que agradava a cada membro da família, e Georgina vinha sonhando com a sua comida há semanas, o que não era de surpreender depois de um mês de rancho de navio. Só fizera uma refeição decente desde que tinham chegado à Inglaterra, há cinco dias, na noite do desembarque, quando Mac a levara a um bom restaurante pouco depois de se terem registrado no Albany Hotel. Mas tiveram que deixá-lo no dia seguinte para acomodações muito mais baratas. Quando voltaram ao Albany naquela primeira noite, descobriram que todo o seu dinheiro fora roubado dos baús. Georgie, como era chamada carinhosamente pelos amigos e familiares, não podia, em sã consciência, considerar o hotel responsável. Afinal, ela e Mac haviam reservado quartos separados, que sequer ficavam no mesmo andar. O mais provável é que o roubo tivesse ocorrido quando os baús estavam juntos naquela longa viagem das docas do East End até Piccadilly, no West End, onde ficava o prestigioso Albany. Os baús haviam sido amarrados no alto da carruagem alugada próximo ao cocheiro e seu ajudante, enquanto ela e Mac desfrutavam alegremente da sua primeira visão da capital Londrina. Na verdade, porém, os contratempos tiveram início muito antes. Quando chegaram à Inglaterra na semana anterior, descobriram que o navio não podia atracar, que talvez tivesse que ficar durante uns três meses ao largo, até que conseguisse um lugar no cais para descarregar. Os passageiros tiveram mais sorte, pois podiam ser levados para terra em barcos a remo. Mesmo assim, não houve como evitar uma espera de vários dias. Mas a surpresa de Georgina não fazia sentido. Ela conhecia o grande problema de congestionamento no Tâmisa; os navios chegavam ali periodicamente, todos sujeitos aos mesmos ventos e tempo imprevisíveis. O navio dela era apenas um dentre uma dúzia procedente da América. Havia centenas deles, de todas as partes do mundo. O problema assustador de congestionamento era um dos motivos pelos quais a linha de navios mercantes da sua família excluía Londres de suas rotas comerciais desde antes da guerra. Na verdade, um navio da Skylark Line não vinha a Londres desde 1807, quando a Inglaterra resolveu bloquear metade da Europa em sua guerra com a França. O comércio com o Extremo Oriente e as Antilhas mostrava-se lucrativo e era mais confortável para a Skylark. Mesmo depois que o seu país acertara as suas diferenças com a Inglaterra, com a assinatura de um tratado em fins de 1814, a Skylark ainda evitava o comércio inglês porque a disponibilidade de armazenagem ainda era um problema sério. Freqüentemente
  4. 4. 4 as cargas perecíveis ficavam largadas no cais à mercê do mau tempo e dos ladrões, que roubavam meio milhão de libras em mercadorias por ano. E, ainda que essas mercadorias não se estragassem devido à ação do tempo, o pó de carvão que envolvia o porto inteiro daria conta do recado. Simplesmente não valiam a pena o aborrecimento e a perda de lucros, não quando outras rotas comerciais eram igualmente lucrativas. Este o motivo por que Georgina não viera a Londres num navio da Skylark, do mesmo modo que não ia arranjar uma passagem grátis para casa num deles. Ia ser um problema; ela e Mac estavam reduzidos a um total de 25 dólares americanos, os dois juntos, tudo o que carregavam com eles na hora do roubo, e não sabiam até quando podiam contar com aquilo... um bom motivo para que Georgina estivesse naquele momento enfurnada num quarto alugado, no andar superior de uma taverna em Southwark. Uma taverna! Se seus irmãos descobrissem... Mas iam matá-la, quando ela voltasse para casa, por ter viajado sem o conhecimento e a permissão deles, justo quando estavam, cada qual em seu próprio navio, numa ou noutra parte do mundo. No mínimo, podia esperar que a sua mesada fosse suspensa por uma década, ficar trancada no quarto por vários anos ou levar uma boa surra de cada um deles... Todavia, talvez só gritassem um pouco com ela. De todo modo, saber que cinco irmãos zangados, todos mais velhos e muito maiores do que ela, iam erguer suas vozes em uníssono, dirigindo-lhe aquela raiva unânime, a ela que admitia a própria culpa, não era uma idéia muito agradável e podia ser pressentida com inteiro pavor. Mas nenhuma consideração dessa natureza impedira que Georgina partisse para a Inglaterra, tendo Ian MacDonell, que nem era parente, como seu único acompanhante e protetor. Às vezes Georgina perguntava-se se o bom-senso a que sua família tinha direito já não se esgotara antes dela nascer. Bateram à porta quando Georgina estava deixando a mesinha que o quarto oferecia para as refeições solitárias. Teve que refrear a tendência natural de dizer simplesmente "Entre", advinda de uma vida inteira de saber que qualquer um que batesse à sua porta seria criado ou parente, e bem-vindo. Em todos os seus 22 anos, ela jamais dormira noutro canto que não fosse a sua própria cama, o seu próprio quarto em Bridgeport, Connecticut, ou numa rede num navio da Skylark, pelo menos até o mês passado. De qualquer forma ninguém podia entrar com a porta trancada, fosse ou não convidado. E Mac insistia em lembrar que ela tinha que fazer coisas como manter a porta fechada a chave o tempo todo, ainda quando o quarto desconhecido e pobre já não fosse um lembrete bem forte de que estava muito longe de casa e de que não devia confiar em ninguém nesta cidade inóspita, infestada de crimes. Mas o visitante era seu conhecido, e o sotaque escocês que lhe falava do outro lado da porta deixava bem claro que a voz era de Ian MacDonell. Ela o deixou entrar, depois saiu do caminho quando ele cruzou a porta, o corpo alto enchendo o quarto pequenino. — Teve sorte? Ele deixou escapar um longo suspiro antes de se sentar na cadeira que ela desocupara. — Depende de como você encare, menina. — Outro desvio? — Sim, mas é melhor que um beco sem saída, na minha opinião. — Naturalmente — replicou ela, sem muito entusiasmo. Não deveria estar esperando mais, quando tinham tão pouco em que se basear. A única coisa que o Sr. Kimball, um dos marujos do navio do seu irmão Thomas, o Portunus, pudera lhe dizer era que estava "absolutamente certo" de ter visto o seu noivo sumido, Malcolm Cameron, no cordame do navio mercante britânico Pogrom, quando as duas embarcações se cruzaram na volta do Portunuspara Connecticut. O próprio Thomas não podia confirmara informação, já que o Sr. Kimball só tocara no assunto com ele
  5. 5. 5 depois que o Pogrom já estava bem longe de suas vistas. O Pogrom estava se dirigindo para a Europa, muito provavelmente para o seu porto de origem na Inglaterra, ainda que não estivesse indo diretamente para lá. Era a primeira notícia que tinha de Malcolm nos seis anos desde que fora recrutado, juntamente com outros dois, e retirado do navio do seu irmão Warren, o Nereus, um mês antes da declaração de guerra, em junho de 1812. O recrutamento de marujos americanos pela Marinha inglesa fora um dos motivos da guerra. O maior azar, Malcolm ter sido apanhado em sua primeira viagem... não se livrara completamente do sotaque da Cornualha, já que passara ali a primeira metade de sua vida. Mas agora era americano. Seus pais, atualmente falecidos, tinham se estabecido em Bridgeport em 1806, sem a menor intenção de retornar à Inglaterra. O oficial do navio real Devastation não acreditou em nada daquilo, e Warren tinha uma pequena cicatriz na face que provava como eles estavam resolvidos a recrutar todo homem que pudessem. Depois, Georgina ficou sabendo que o Devastation fora retirado do serviço ativo em meados do conflito, e a sua tripulação dividida entre meia dúzia de outros navios de guerra. Porém, não houvera outras notícias até o momento. O que Malcolm pudesse estar fazendo num navio mercante inglês, terminada a guerra, não importava. Agora, pelo menos, Georgina tinha um meio de encontrá-lo, e só depois que o fizesse iria embora da Inglaterra. — Então, para quem lhe mandaram desta vez?— indagou Georgina, com um suspiro. — Outro alguém que conhece alguém que conhece alguém que talvez saiba onde ele está? Mac soltou uma risadinha abafada. — Você faz parecer que vamos ficar andando em círculos indefinidamente, benzinho. Faz só quatro dias que estamos procurando. Estou achando que você bem que podia ter um tiquinho da paciência de Thomas. — Não fale no nome de Thomas para mim, Mac. Ainda estou furiosa com ele por não ter vindo pessoalmente achar Malcolm para mim. — Ele teria vindo... — Em seis meses! Queria que eu esperasse mais seis meses até que ele voltasse da sua viagem às Antilhas, depois mais não sei quantos meses até vir para cá, encontrar Malcolm e voltar com ele. Era tempo demais pra quem vinha esperando há seis anos. — Quatro anos — corrigiu ele.—Eles não a teriam deixado se casar com o rapaz até que você completasse dezoito anos, não importa que ele tivesse feito o pedido dois anos antes. — Isso não tem nada a ver. Se qualquer um de meus outros irmãos estivesse em casa, você sabe que teria vindo imediatamente para cá. Mas, não, tinha que ser o otimista do Thomas, o único que tem a paciência de um santo, e o seu Portunus o único navio da Skylark no porto, para o meu azar. Sabe que ele riu quando falei que, se eu ficar muito mais velha, Malcolm provavelmente se recusará a ficar comigo? Mac mal conseguiu conter o sorriso ante a pergunta feita com sinceridade. E não era de admirar que o irmão tivesse achado graça quando ela lhe dissera aquilo. Mas é que a mocinha jamais confiara muito na sua beleza, pois só se transformara na beldade que era hoje quase aos dezenove anos. Dependia do navio que lhe pertenceria ao completar dezoito anos e da sua participação eqüitativa na Skylark Line para arranjar marido, e Mac era da opinião de que fora exatamente isso que motivara o jovem Cameron a pedir-lhe a mão antes de partir para a rota do Extremo Oriente com Warren, uma viagem que deveria durar vários anos. E muitos anos se tinham passado, graças à arrogância britânica em alto-mar. Por seu turno, a moça não ouvia os conselhos dos irmãos, de que devia esquecer Malcolm Cameron. Mesmo quando a guerra acabou e era razoável esperar que o rapaz voltaria para casa, sem que o tivesse feito, ela continuou resolvida a esperá-lo. Isso deveria ter
  6. 6. 6 sido motivo suficiente para advertir Thomas de que não estaria disposta a aguardar pela viagem dele às Antilhas, descarregando mercadorias em meia dúzia de portos diferentes, pois era tão aventureira quanto o resto da família. Estava no sangue. Ela não possuía a paciência de Thomas, e todos sabiam disso. Claro que se podia perdoar Thomas por ter pensado que o problema não seria seu, já que o navio do irmão Drew devia chegar no fim do verão, e Drew sempre ficava em casa vários meses entre uma viagem e outra. E aquele belo patife nunca podia negar coisa alguma à única irmã. Mas a moça também não podia esperar por Drew. Reservara passagens num navio que devia deixar o porto três dias após a partida de Thomas e dera um jeito de convencer Mac a acompanhá-la, embora este ainda não tivesse muita certeza de como fizera para que a idéia parecesse ter partido dele, e não da própria Georgina. — Ora, Georgie querida, não estamos nos saindo tão mal em nossa caçada, considerando-se que a cidade de Londres tem mais habitantes do que o Estado de Connecticut inteiro. Podia ser muito pior se o Pogrom não estivesse no porto, com a tripulação à solta. Parece que o tal homem com quem vou me encontrar amanhã à noite conhece o rapaz muito bem. O sujeito com quem falei hoje disse que Malcolm até mesmo saiu do navio com esse Sr. Willcocks, que deve saber onde ele poderá ser encontrado, já que é tão seu amigo. — Parece promissor — admitiu Georgina. — Se o Sr. Willcocks pode levá-lo diretamente a Malcolm, então... acho que vou junto. — Não, não vai — retrucou Mac bruscamente, projetando-se para a frente na cadeira. — Vou me encontrar com ele numa taverna. — E daí? — Daí que o meu dever aqui é protegê-la, já que não se pôde evitar que você tivesse a idéia maluca de fazer esta viagem. — Vamos, Mac... — Pare com essa história de "Vamos, Mac", garota — disse ele severamente. Mas ela já estava lhe lançando aquele olhar que significava que ia bancar a teimosa. Ele gemeu intimamente, sabendo muito bem que não havia muita coisa que a fizesse mudar de idéia depois de ter tomado uma decisão. A prova era que estava aqui, e não em casa, como o imaginavam naturalmente os irmãos. Capítulo Dois No outro lado do rio, no refinado West End da cidade, a carruagem que transportava Sir Anthony Malory parou diante de uma das casas elegantes de Piccadilly, outrora sua residência de solteiro, mas para onde estava voltando com a nova esposa, Lady Roslynn. Dentro da casa, o irmão de Anthony, James Malory, que ali se hospedava sempre que se encontrava em Londres, chegou ao saguão ao ouvir o barulho da carruagem àquela hora tardia, bem a tempo de ver a noiva cruzando a soleira da porta nos braços do noivo. Como ainda não estivesse informado das recentes núpcias, a sua pergunta foi perfeitamente adequada. — Suponho que não deveria estar sendo testemunha disto. — Eu não estava esperando que o fosse — respondeu Anthony, enquanto passava
  7. 7. 7 por James a caminho da escada, o corpo da mulher ainda nos braços.— Mas, já que o foi, é melhor que fique sabendo que me casei com a moça. — Mas que diabo é isso? — É a verdade — riu-se a noiva, num jeitinho encantador.—Não acha que eu ia cruzar a soleira da porta nos braços de qualquer um, não é? Anthony parou um momento, tendo percebido a expressão incrédula do irmão. — Santo Deus, James, esperei a vida toda para ver você sem saber o que dizer. Mas você compreende se eu não ficar esperando que se recupere, não é mesmo? E prontamente sumiu escada acima. James finalmente conseguiu fechar a boca, depois abriu-a de novo para esvaziar o copo de conhaque ainda em suas mãos. Espantoso! Anthony amarrado! O libertino mais notório de Londres... bem, o mais notório apenas porque o próprio James abrira mão do título quando deixara a Inglaterra há dez anos. Mas, e Anthony? Por que fizera uma coisa tão pavorosa? Claro que a moça era linda demais, mas Anthony poderia tê-la conquistado de outra forma. Na verdade, James sabia que Anthony já a seduzira na noite passada. Portanto, que motivo teria para se casar com a garota? Ela não tinha família, ninguém que fizesse questão do matrimônio; não que alguém pudesse dizer a ele o que fazer... com a possível exceção do irmão mais velho, Jason, marquês de Haverston e chefe da família. Porém nem mesmo Jason podia ter insistido em que Anthony se casasse. Há muitos anos que o vinha fazendo sem êxito. Portanto, ninguém encostara uma pistola na cabeça de Anthony ou o coagira de alguma maneira a fazer uma coisa tão absurda. Além disso, Anthony não era como Nicholas Éden, visconde de Montieth, que sucumbia à pressão dos mais velhos. Nicholas Éden fora forçado a casar-se com a sobrinha deles, Regan, ou Reggie, como a chamava o resto da família. Anthony pressionara Nicholas, com uma ajudinha do irmão deles, Edward, e da família de Nicholas. Por Deus, James ainda desejava ter podido estar presente para acrescentar mais algumas ameaças, mas na época a família nem sabia que ele estava de volta à Inglaterra, e ele mesmo estivera tentando encontrar o visconde para infligir-lhe uma boa surra por um motivo inteiramente diferente. E foi o que aconteceu, quase obrigando o jovem tratante a faltar ao casamento com Regan, a sobrinha predileta de James. Meneando a cabeça, James voltou à sala de estar e à garrafa de conhaque, decidindo que mais alguns drinques talvez lhe mostrassem a verdade. Amor, não, não podia ser. Se Anthony não sucumbira àquela emoção nos dezessete anos em que vinha seduzindo o belo sexo, isso apenas mostrava que ele era tão imune a esse sentimento quanto o próprio James. A necessidade de um herdeiro não era também razão suficiente, já que o número de títulos na família estava garantido. Derek, filho único de Jason, já estava crescido e puxava aos tios mais novos. Edward, o segundo dos Malory, tinha cinco filhos, todos em idade núbil, exceto a mais nova, Amy. O próprio James tinha um filho, Jeremy, embora ilegítimo e que ele descobrira havia apenas seis anos. Fora criado numa taverna pela mãe e ali continuara trabalhando após a morte dela. Agora Jeremy estava com dezessete anos e fazia o máximo para copiar o pai nos seus modos libertinos... com extraordinário êxito. Desse modo, Anthony, como o quarto filho, não precisava se preocupar com a perpetuação da linhagem. Os três Malory mais velhos já tinham cuidado do assunto. James estirou-se no sofá coma garrafa de cristal de conhaque. Com quase um metro e oitenta e três de altura, o seu corpanzil mal se encaixava no móvel. Pensou nos recém-casados no andar de cima e no que estariam fazendo. Os lábios bem-feitos e sensuais esboçaram um sorriso. Simplesmente não encontrava os motivos por que Anthony fizera uma coisa tão pavorosa quanto se casar... um erro que James jamais cometeria. Mas tinha que admitir que, já que Anthony ia mesmo se amarrar, o irmão o
  8. 8. 8 tivesse feito com aquele artigo de primeira que era Roslynn Chadwick... era uma Malory agora, mas, mesmo assim, de primeiríssima. Houve um tempo em que o próprio James pensou em cortejá-la, embora Anthony já tivesse reivindicado os seus direitos. Isso, entretanto, não constituía nenhuma novidade, já que quando ambos eram libertinos de plantão, anos atrás, muitas vezes cortejavam a mesma mulher apenas como diversão. O vencedor geralmente tendia a ser aquele em que a dama em questão deitava os olhos primeiro. Se Anthony era um bonitão a que as mulheres quase não conseguiam resistir, James, por seu lado, não lhe ficava atrás. No entanto, os dois irmãos em nada se pareciam. Anthony era mais alto, e esbelto, moreno como a avó deles, de cabelos negros e olhos azul-cobalto, o mesmo colorido que tinham Regan, Amy e, irritantemente, o filho de James, Jeremy, que como se não bastasse parecia-se mais com Anthony do que com o pai. James tinha a aparência mais comum dos Malory, cabelos louros, olhos de um verde esmaecido e um corpo avantajado. Alto, louro e bonitão, nas palavras de Regan. James soltou uma risadinha abafada, pensando na moça. A sua única irmã, Melissa, morrera aos dois anos de idade. Ele e os irmãos tinham então criado Regan com igual carinho. Era como uma filha para todos eles. Mas agora estava casada com aquele tratante do Éden, e James não podia fazer outra coisa senão tolerar o sujeito. De todo modo, Nicholas Éden estava mostrando ser um marido exemplar. Casado, novamente. Anthony só podia estar com um parafuso solto. Éden pelo menos tinha uma desculpa. Adorava Regan. Mas Anthony adorava todas as mulheres. Sob este aspecto, ele e James eram iguais. E ainda que James tivesse acabado de completar 36 anos, não havia uma mulher na terra capaz de induzi-lo ao estado matrimonial. Ame-as e deixe-as — era o único jeito de lidar com elas, um lema que só lhe servira bem em todos esses anos e pelo qual continuaria a viver nos anos vindouros. Capítulo Três Ian MacDonell era um americano de segunda geração, mas a sua ascendência escocesa era proclamada ruidosamente nos cabelos de cor de cenoura e na pronúncia característica. Não possuía, entretanto, o típico gênio escocês. Era ao contrário uma pessoa tranqüila e assim se mantivera em todos os seus 47 anos de vida. Mas nesse último dia e meio seu temperamento fora posto à prova até o limite pela caçula dos Anderson. Como vizinho dos Anderson, Mac conhecera a família a vida toda. Velejara em seus navios durante 35 anos, tendo começado como taifeiro do velho Anderson quando tinha apenas sete anos e chegara a imediato do Neptune, de Clinton Anderson. Recusara o comando quase uma dúzia de vezes. Como o irmão mais novo de Georgina, Boyd, não queria possuir uma autoridade tão grande... embora no caso de Boyd, este tivesse que acabar por aceitá-la. Porém, mesmo depois de ter largado o mar há cinco anos, não conseguira viver longe dos navios. Atualmente a sua tarefa era cuidar da conservação de cada embarcação da Skylark que retornava ao porto. Quando o velho faleceu quinze anos atrás, logo acompanhado pela esposa pouco
  9. 9. 9 tempo depois, Mac adotara de algum modo as crianças, embora fosse apenas sete anos mais velho do que Clinton. Sempre fora muito ligado à família. Vira as crianças crescerem, estivera presente para dar-lhes conselhos na ausência do velho e ensinara aos rapazes — e, diga-se de passagem, à própria Georgina — a maior parte do que os herdeiros sabiam sobre navios. Ao contrário do pai deles, que só ficava em casa um ou dois meses depois de cada viagem, Mac deixava-se ficar em terra de seis meses a um ano até que o mar o chamasse de novo. Como em geral acontecia quando um homem era mais dedicado ao mar do que à família, o nascimento das crianças era sempre marcado pelas viagens do pai. Clinton era o primogênito, agora com quarenta anos, mas uma ausência de quatro anos no Extremo Oriente separava o seu nascimento do de Warren, cinco anos mais moço. Thomas só nasceu dali a quatro, e Drew veio ao mundo depois de igual espaço de tempo. O nascimento de Drew foi o único a que ele esteve presente, já que uma tempestade e danos severos ao seu navio fizeram o velho voltar ao porto naquele ano. Revés após outro em seguida mantiveram-no em casa durante quase um ano, tempo suficiente para assistir ao nascimento de Drew e dar início ao de Boyd, ocorrido dali a onze meses. E então viera a caçula, a única menina da família, com mais uma diferença de quatro anos de idade entre ela e Boyd. Ao contrário dos rapazes, que foram para o mar assim que atingiram idade suficiente, Georgina estava sempre em casa para receber cada navio que retornava. Portanto, não era de surpreender que Mac gostasse tanto da garota, tendo passado mais tempo com ela nos seus anos de formação do que com qualquer um dos rapazes. Conhecia-a bem. Estava a par de todos os seus estratagemas para conseguir o que queria e não tinha dúvida de que a moça fincaria pé em sua extravagância mais recente. E agora ali estavam os dois, lado a lado no bar de uma das tavernas mais turbulentas do cais. Dava até vontade de um homem voltar para o mar. Se Mac podia estar agradecido a alguma coisa, era que a garota acabara por se dar conta de que desta vez fora um pouquinho longe demais em suas idéias malucas. Estava muito nervosa, apesar da velha adaga escocesa que trazia escondida e do companheiro inseparável. No entanto, sua maldita teimosia não deixava que fosse embora até que o tal Sr. Willcocks aparecesse. De qualquer modo, Georgina conseguira disfarçar bastante bem a sua feminilidade. Mac imaginara que isso seria o empecilho à sua vinda com ele esta noite, mas, sem que ele soubesse, a garota andara assaltando uns varais de madrugada para poder mostrar-lhe o seu disfarce pela manhã quando ele resolveu mencionar que ela precisaria de um, embora não tivessem dinheiro sobrando para isso. As suas mãozinhas delicadas estavam agora escondidas sob as luvas mais encardidas que Mac já vira, tão grandes que mal lhe permitiam levantar o caneco de cerveja. As calças, remendadas, estavam meio apertadas na bunda, mas felizmente o imenso pulover cobria esse defeito... ao menos enquanto a moça não erguia os braços fazendo o agasalho subir. Usava um par de botas que lhe pertencia, mas que ela estragara tanto que pareciam calçados masculinos que já deviam ter sido jogados fora há anos. Os cachos de seus cabelos castanho-escuros estavam enfiados sob um gorro de lã que descia sobre o rosto, de modo a cobrir o pescoço, as orelhas e os olhos também castanho-escuros, bastando para isso que ela ficasse de cabeça baixa, o que fez. Fazia sem dúvida uma figura deprimente, mas confundia-se melhor com este bando de ratos de cais do que o próprio Mac em suas roupas, que, se não eram elegantes, denotavam porém uma qualidade muito superior a qualquer coisa que aqueles marujos de aparência rude pudessem estar vestindo... pelo menos até que dois nobres cavalheiros cruzaram a porta. Espantosa a rapidez com que os recém-chegados puderam aquietar a sala barulhenta. Podiam-se ouvir respirações ruidosas, e o murmúrio de Georgina, ouvido apenas pelos mais próximos:
  10. 10. 10 — O que foi? Mac não respondeu, cutucando-a para que ficasse calada, pelo menos até que alguns segundos tensos se passassem enquanto os recém-chegados eram avaliados, depois prudentemente ignorados. O barulho da sala voltou a aumentar, e Mac lançou um olhar à companheira, vendo que ainda se esforçava para não chamar a atenção, olhando fixamente para o seu caneco de cerveja. — Não é o nosso homem, apenas dois lordes, pela cara deles. Uma ocorrência invulgar, eu acho, gente como eles vindo aqui. Mac escutou o que parecia ser um suspiro antes do sussurro suave: — Não disse sempre que eles têm tanta arrogância que nem sabem o que fazer com ela? — Sempre? — Mac abriu um sorriso. — Tenho a impressão de que você só começou a falar nisso há uns seis anos. — É que antes disso eu nunca tinha percebido — respondeu Georgina altivamente. Mac quase caiu na risada ante o seu tom de voz, para não falar na mentira deslavada. O rancor que sentia dos ingleses por roubar-lhe o seu Malcolm não diminuíra com o final da guerra, e provavelmente só diminuiria quando ela tivesse o rapaz de volta. Porém sempre demonstrara a sua aversão de modo muito educado, ou pelo menos era o que ele pensava. Os irmãos costumavam esbravejar de forma muito pitoresca sobre as injustiças infligidas aos americanos pela nobreza governante inglesa já desde antes da guerra, quando o comércio deles ficou afetado pelo bloqueio britânico aos portos europeus. Se ainda havia quem alimentasse ressentimentos contra os ingleses, eram os irmãos Anderson. Portanto, há mais de dez anos que a garota ouvia chamar os ingleses de "aqueles filhos da puta arrogantes", mas não se importava muito na época; mantinha-se quieta e apenas meneava a cabeça, compreendendo o problema dos irmãos, sem no entanto deixar-se envolver. Só que agora a arbitrariedade dos britânicos tocava-a pessoalmente; com o recrutamento do noivo, a coisa mudava de figura. Mas se ela não possuía as maneiras esquentadas dos irmãos, ninguém podia duvidar do seu desprezo, da sua antipatia total por tudo o que era inglês, ainda que, ao exprimi-los, ela parecesse tão cortês. Georgina pressentiu que Mac estava achando graça, mesmo sem lhe ver o rosto sorridente. Teve vontade de chutar-lhe as canelas. Ali estava ela tremendo dentro das botas, com medo até de erguer a cabeça naquela espelunca infernal, lamentando-se pela teimosia que a trouxera para cá, e ele ainda encontrava motivo para graça? Sentiu-se tentada a dar uma olhada naqueles lordes presumidos, certamente metidos em roupas espalhafatosas como era comum entre os de sua laia. Nem por um momento pensou que Mac podia estar achando graça do que ela dissera. — Willcocks, Mac? Lembra dele? O motivo pelo qual estamos aqui. Se não for muito incômodo... — Ora, deixe de ser malcriada — disse ele com brandura. Ela soltou um suspiro. — Desculpe. Só gostaria que o sujeito andasse logo e aparecesse, se é que vai aparecer. Tem certeza de que já não está aqui? — Estou vendo algumas verrugas em caras e narizes, mas nenhuma de um quarto de polegada de comprimento no lábio inferior de um rapaz louro, baixo e gordinho, de uns vinte e cinco anos. Com uma descrição dessas para nos guiar, não é provável que a gente não reconheça o sujeito. — Se a descrição for correta. — Georgina achou por bem salientar. Mac deu de ombros. — É só o que temos, e acho que é melhor do que nada. Não posso sair de mesa em mesa perguntando... Deus, o seu cabelo está caindo, ga... — Psiu! — sibilou Georgina, antes que ele pudesse pronunciar a palavra
  11. 11. 11 condenatória "garota", mas ergueu imediatamente o braço para meter os cachos dentro do gorro. Infelizmente o pulôver subiu junto, deixando à mostra a bunda espremida na calça justa, que nem de longe podia passar pela de um rapaz ou homem. Georgina recompôs- se o mais rápido que pôde e pousou os braços no bar, mas não antes de chamar a atenção de um dos cavalheiros bem-vestidos que há pouco causaram tanta especulação e que agora estavam sentados a uma mesa a menos de dois metros de distância. James Malory ficou intrigado, mas não deixou que isso transparecesse em sua fisionomia. Era a nona taverna que ele e Anthony visitavam naquela noite em busca de Georgie Cameron, o primo escocês de Roslynn. Ele ouvira esta manhã a história de como Cameron tentara forçar Roslynn a desposá-lo, chegando a raptá-la, embora ela tivesse conseguido fugir. Este o motivo por que Anthony a desposara, para protegê-la desse primo infame — pelo menos essa era a alegação de Anthony. Ele estava resolvido a achar o sujeito e dar-lhe uma bela sova, avisá-lo do casamento de Roslynn e mandá-lo de volta à Escócia com a advertência de jamais voltar a incomodá-la. Tudo isso só para proteger a recém-casada, ou o irmão estaria mais um pouco envolvido? Independentemente da motivação real que o impulsionava, Anthony teve certeza de que tinha achado o seu homem ao ver o sujeito ruivo no bar. E era por isso que estavam sentados tão próximo ao balcão, esperando poder ouvir alguma coisa, pois só sabiam que Geordie Cameron era alto, ruivo, de olhos azuis, com um sotaque inconfundivelmente escocês. Este último traço ficou aparente dali a um momento, quando a voz do sujeito se alteou ligeiramente naquilo que James podia ter jurado que era uma reprimenda ao amigo mais baixo; Anthony, contudo, só reparou no sotaque. — Já ouvi o bastante — disse Anthony impulsivamente, pondo-se de pé. James, mais acostumado às tavernas de beira de cais do que Anthony, sabia muito bem o que podia acontecer se começasse uma briga. Em segundos, os adversários em luta teriam a companhia do salão inteiro. E ainda que Anthony fosse um pugilista de primeira, como James o era, as regras cavalheirescas não se aplicavam em lugares como este. Enquanto qualquer dos dois estivesse se defendendo dos socos de um homem, era muito provável que um terceiro lhe enfiasse uma faca nas costas. Visualizando a cena, James agarrou o braço do irmão e segredou-lhe: — Você não ouviu coisa alguma. Seja sensato, Tony. Não sabemos quantos sujeitos aqui estão a soldo dele. Podemos esperar mais um pouquinho até que ele deixe o local. — Você pode esperar mais um pouquinho. Eu tenho uma senhora em casa que já está me esperando há muito tempo. Todavia, antes que o irmão pudesse dar mais um passo, James chamou educadamente: — Cameron? Confiava em que a ausência de resposta pudesse encerrar de vez a questão, já que Anthony não estava sendo razoável. Infelizmente obteve uma resposta dupla. Georgina e Mac viraram-se ao mesmo tempo ao ouvir o nome Cameron. Ela não estava querendo encarar o salão inteiro, mas o fez na esperança de ver Malcolm. Talvez tivesse sido ela a pessoa interpelada. Mas, por seu turno, assumiu uma postura agressiva logo que viu o aristocrata alto e moreno soltar-se da mão do acompanhante louro, com os olhos claramente hostis em sua direção. Em pouco tempo, o homem cobrira a distância que os separava. Georgina não pôde evitar: olhou boquiaberta para o homem alto de cabelos negros que viera para os lados de Mac, o mais belo par de olhos azuis que já vira. Percebeu que aquele devia ser um dos "lordes" de que Mac lhe falara, e esta não era exatamente a imagem que fazia dessas criaturas. Nada havia de afetado no cavalheiro. As suas roupas eram obviamente de qualidade superior, mas discretas; nada de cetins fortes ou veludos gritantes. A não ser pela gravata excessivamente refinada, vestia-se como qualquer um
  12. 12. 12 de seus próprios irmãos quando queriam parecer elegantes. Tudo isso ficou registrado em sua cabeça, mas não impediu que o seu nervosismo aumentasse, pois nada havia de amistoso na fisionomia do homem. Percebia-se nele uma raiva malcontrolada, dirigida exclusivamente para Mac. — Cameron? — O homem perguntou a Mac, num tom brando. — Meu nome é MacDonell. Ian MacDonell. — Está mentindo. Georgina ficou de queixo caído ao ouvir a acusação resmungada em tom feroz, depois arquejou quando o homem puxou Mac pelas lapelas e levantou-o, de tal modo que ambos ficaram se olhando fixamente, os rostos a centímetros de distância um do outro, os olhos cinzentos de Mac ardendo de indignação. Não podia deixar que brigassem, por Deus. Mac gostava de uma briguinha como qualquer marujo, mas, que diabo!, não era para isso que estavam ali. E não se podiam dar ao luxo de chamar a atenção... ela pelo menos não podia. Sem levar em consideração o fato de não saber manejá-la, Georgina tirou a faca da manga. Realmente não pensava em usar a arma, queria apenas ameaçar discretamente o cavalheiro elegante para que este recuasse. Antes, porém, que pudesse empunhá-la com firmeza, atrapalhada pelas enormes luvas, ela lhe foi abruptamente retirada das mãos. Entrou em pânico. Lembrou-se de que o homem que abordara Mac não estava sozinho. Não sabia por que tinham escolhido justamente a ela e a Mac para provocar, quando havia um salão inteiro cheio de gente durona se estavam procurando simplesmente se divertir. Mas ela já ouvira falar nessas coisas, em como os nobres arrogantes gostavam de se exibir, coagindo as classes inferiores com seus títulos e com o poder que deles derivava. Mas ela não ia ficar ali parada, deixando-se intimidar. De forma alguma. O fato de que não devia chamar a atenção foi totalmente esquecido ante a injustiça desse ataque gratuito, igual à injustiça que lhe custara o seu Malcolm. Ela se virou e atacou, às cegas, furiosamente, com todo o amargor e ressentimento armazenados durante os últimos seis anos contra os ingleses e seus aristocratas em particular, chutando e socando, mas infelizmente conseguindo apenas ferir os punhos e os dedos dos pés. O diabo do sujeito parecia um muro de pedra. A resistência deixou-a tão furiosa, que ela não teve o bom senso de parar. E assim continuaria, indefinidamente, se o muro de pedra não tivesse resolvido que já era o bastante. Georgina viu-se de repente sacolejada e erguida do chão sem ter custado o menor esforço e, horror dos horrores, a mão que a segurava estava grudada no seu seio. Como se não bastasse, o cavalheiro de cabelos escuros que ainda segurava Mac exclamou de repente, em voz alta: — Santo Deus, ele é uma mulher! — Eu sei — replicou o muro de pedra, e Georgina percebeu o tom de voz divertido. — Agora vocês me enrascaram, seus cães miseráveis — resmungou ela ferozmente para os dois, consciente de que o seu disfarce acabava de tornar-se inútil. — Mac, faça alguma coisa! Bem que Mac tentou, mas o braço que arremetera para trás a fim de acertar o cavalheiro de cabelos escuros foi seguro pelo punho e arriado sobre o balcão do bar. — Não há necessidade disso, MacDonell — disse o moreno. — Cometi um erro. Cor errada dos olhos. Desculpe. Mac ficou desconcertado com a facilidade com que fora dominado. Não era muito menor do que o inglês, mas percebeu que não conseguiria erguer o punho ainda que a salvação da sua alma dependesse disso. E tinha a sensação de que, mesmo que o conseguisse, isso não lhe serviria de grande coisa. Com prudência, acabou aceitando o pedido de desculpas com um aceno de cabeça
  13. 13. 13 e ficou livre. Mas Georgina ainda estava segura com firmeza pelo outro patife, o louro que, logo que os vira, Mac pressentira instintivamente ser o mais perigoso dos dois. — Trate de ir soltando a moça, homem, se sabe o que é bom para a sua saúde. Não posso deixar que maltrate... — Calma, MacDonell — aparteou o moreno em voz abafada.— Ele não quer machucar a garota. Talvez queira deixar que os acompanhemos até lá fora? — Não há necessidade... — Olhe à sua volta, meu caro — interrompeu o louro. — Parece haver muita necessidade, graças ao erro crasso do meu irmão. Mac olhou ao redor e praguejou baixinho. Praticamente todos os olhos do salão fitavam especulativamente a moça, que fora transferida para o quadril do lourão, um braço forte prendendo-a ali como se fosse um saco de cereal, enquanto a conduzia para a porta. E, milagre dos milagres, ela não fazia nenhuma queixa ante esse manuseio grosseiro, pelo menos não que Mac pudesse perceber, pois o seu protesto morrera com um forte apertão nas costelas. Portanto, Mac também ficou calado, sabiamente, dando-se conta de que, se ela não estivesse sendo carregada por um sujeito de ar tão ameaçador, eles não iriam muito longe. Georgina também chegara à conclusão de que estaria profundamente enrascada se não saísse logo dali, o que era culpa deles, mas não alterava a realidade. E, se o muro de pedra podia tirá-la de lá sem incidentes, ela nada teria a opor, ainda que ele o estivesse fazendo de um jeito absolutamente mortificante, que a deixava fervendo de raiva mas impotente. No entanto, eles foram detidos por uma bela garçonete que apareceu de repente e agarrou-se possessivamente ao braço livre do homem que transportava Georgina. — Como é, não vai deixar a gente, vai? Georgina puxou o gorro para trás, o suficiente para ver como a moça era linda e ouvir em seguida a resposta do muro de pedra: — Volto depois, minha querida. A moça ficou toda alegre, nem se dando ao trabalho de olhar para Georgina, e esta se deu conta, espantada, de que a garçonete desejava realmente a companhia desse troglodita. É, havia gosto para tudo, pensou. — Eu largo o trabalho às duas — disse a moça. — Então volto às duas. — Eu estou achando que duas é demais —falou um marujo musculoso que ficara de pé e estava bloqueando o caminho para a porta. Georgina gemeu por dentro. O marujo parecia mesmo um demolidor, como diria Boyd, que admirava os pugilistas. E embora o muro de pedra fosse um muro de pedra, não dera uma boa olhada nele, não sabia se seria muito menor do que o marujo. Estava, porém, se esquecendo do outro lorde que o chamara de irmão e que veio se postar ao lado deles. Ela ouviu o suspiro que soltou antes de dizer: — Suponho que não queira largar a moça e cuidar disso, James. — Na verdade, não. — Foi o que eu pensei. — Fique fora disso, companheiro — advertiu o marujo. — Ele não tem o direito de entrar aqui e roubar não somente uma, mas duas de nossas mulheres. — Duas? Esta outra aqui também é sua? — O irmão olhou para Georgina, que lhe retribuiu com um olhar assassino. Talvez tenha sido por isso que ele hesitou, antes de perguntar: — Você é dele, coração? Ah, como gostaria de dizer que sim. Se achasse que poderia escapar enquanto os dois nobres arrogantes estavam sendo pulverizados, ela o faria. Mas não podia correr o risco. Estava furiosa com os dois aristocratas metidos, especialmente com James, que a segurava daquela maneira, mas viu-se obrigada pelas circunstâncias a reprimir a raiva e
  14. 14. 14 balançar a cabeça negativamente. — Acredito que então estamos resolvidos. — De modo algum era uma pergunta. — Agora, seja bonzinho e saia do caminho. Surpreendentemente, o marujo não arredou pé. — Ele não vai tirá-la daqui. — Que merda! — lamentou-se o nobre, com voz cansada, pouco antes do seu punho acertar em cheio o queixo do sujeito. O marujo tombou a vários metros dali, desacordado. O homem que o acompanhava levantou-se da mesa com uma espécie de grunhido, mas não com rapidez suficiente. Um murro curto, e ele caiu sentado na cadeira, erguendo a mão para deter o fluxo de sangue que lhe escorria do nariz. O lorde virou-se lentamente, uma sobrancelha negra arqueada, e perguntou: — Mais alguém? Mac sorria às suas costas, percebendo agora como tivera sorte em não enfrentar o inglês. Nenhum outro homem no salão fez menção de aceitar o desafio. Tudo ocorrera depressa demais. Eles sabiam reconhecer um pugilista bem-treinado. — Excelente, meu jovem. — James cumprimentou o irmão. — E agora, podemos sair deste lugar? Anthony fez uma profunda mesura e levantou-se com um largo sorriso. — Você primeiro, meu velho. Do lado de fora, James pousou a garota no chão à sua frente. Ela deu uma boa olhada nele pela primeira vez à luz do lampião da taverna acima da porta, o bastante para fazê-la hesitar uma fração de segundo antes de chutá-lo na canela e disparar rua abaixo. Ele praguejou violentamente e saiu correndo atrás dela, mas parou a alguns metros, vendo que era inútil. Ela já desaparecera na rua escura. Ele voltou, praguejando de novo quando percebeu que também MacDonell desaparecera. — Ora, onde diabos se meteu aquele maldito escocês? Anthony estava ocupado demais achando graça para escutar o que ele dissera. — O que foi? James deu um sorriso seco. — O escocês. Sumiu. Anthony ficou sério e deu meia-volta. — Ora, quanta gratidão! Eu queria perguntar por que ambos se voltaram quando ouviram o nome Cameron. — Estou pouco ligando para isso — retrucou James bruscamente. — Como vou encontrá-la de novo, se nem sei quem é? — Encontrá-la? — Anthony ria à socapa. — Como você gosta de sofrer, meu irmão. O que quer com uma moça que insiste em causar danos à sua pessoa, quando tem outra contando os minutos até a sua volta? A garçonete com quem James combinara encontrar-se mais tarde já não o interessava tanto. — Ela me deixou intrigado — replicou James simplesmente, depois deu de ombros. — Mas suponho que você tenha razão. A garçonete também serve, embora tenha passado quase tanto tempo no seu colo quanto no meu. Mesmo assim, ele voltou a olhar para a rua deserta antes de se dirigirem para a carruagem que os esperava.
  15. 15. 15 Capítulo Quatro Georgina tremia, sentada na base de uma escada que levava ao porão de uma casa qualquer. Nenhuma luz penetrava as sombras profundas dos últimos degraus onde ela se escondia. O prédio era sossegado e escuro. A rua também era sossegada a essa distância da taverna. Ela não estava sentindo frio. Era o verão, e o clima parecia-se muito, nesta época, com o da Nova Inglaterra. Devia estar tremendo do choque, de uma espécie de reação retardada... conseqüente à raiva, ao medo e ao susto além da conta que experimentara. Mas quem poderia imaginar que o muro de pedra seria daquele jeito? Ainda podia ver os olhos, fitando-a, daquele rosto aristocrático: olhos duros, curiosos, límpidos como o cristal, e de um verde nem escuro nem claro mas brilhante, dois olhos tão... tão... Intimidantes foi a palavra que lhe veio à mente, embora não soubesse ao certo por quê. O tipo de olhos que podiam inspirar medo num homem, que dirá numa mulher. Diretos, sem medo, implacáveis. Ela estremeceu de novo. Estava deixando a imaginação dominá-la. Aqueles olhos apenas se mostraram curiosos quando olharam para ela... Não, não fora só isso. Havia ali algo que ela desconhecia, ou não tinha experiência bastante para identificar, algo inegavelmente perturbador. Mas o quê? Ora, que importância tinha isso? Que história era essa afinal de estar tentando analisá-lo? Nunca mais o veria de novo, e dava graças a Deus por isso. E, logo que os dedos de seus pés parassem de latejar devido àquele chute que lhe dera, também pararia de pensar nele. James era o seu nome de batismo ou sobrenome? Não importava. Aqueles ombros, Deus, como eram largos. Muro de pedra era bastante apropriado, um muro grande de pedra, mas lindas pedras. Lindas?, soltou uma risadinha. Vá lá, pedras atraentes, muito atraentes. Não, não, no que estava pensando? Ele era um gorila de feições interessantes, só isso. De resto era um inglês, muito velho para ela, e além disso um daqueles odiosos nobres, provavelmente muito rico, com recursos suficientes para comprar o que bem quisesse e a temeridade de fazer o que bem desejasse. As regras nada significariam para um homem daqueles. Pois não a maltratara escandalosamente? O patife, o desgraçado... — Georgie? O sussurro chegou-lhe aos ouvidos, não muito próximo. Ela não se deu ao trabalho de abaixar a voz, respondeu normalmente: — Aqui embaixo, Mac! Alguns momentos se passaram enquanto ela ouvia os passos de Mac se aproximando, depois viu sua sombra no alto da escada. — Pode subir agora, garota. A rua está deserta. — Era o que eu imaginava — resmungou Georgina, subindo a escada. — Por que demorou tanto? Eles detiveram você? — Não, eu estava esperando perto da taverna para ter certeza de que não iam lhe seguir. Achei que o de cabelo amarelo estava querendo, mas o irmão estava rindo tanto dele, que ele achou melhor desistir.
  16. 16. 16 — Como se pudesse ter me alcançado, aquele brutamontes desajeitado — falou Georgina, desdenhosamente. — Agradeça por não ter precisado pôr isso à prova — disse Mac, acompanhando-a rua abaixo. — Da próxima vez quem sabe você me dê ouvidos... — Juro, Mac, que, se você vier com essa história de "eu não disse?", ficarei uma semana inteira sem falar com você. — Puxa, acho que isso vai ser uma bênção. -— Está bem, está bem, eu estava errada, admito. Você não vai me pegar num raio de quinze metros de qualquer outra taverna que não seja aquela em que nos vimos obrigados a hospedar-nos, e mesmo ali eu só vou usar a escada dos fundos, como combinamos. Estou perdoada por quase ter feito você ser pulverizado? — Não tem que pedir desculpas pelo que não foi culpa sua, garota. Foi a mim que os dois lordes confundiram com outra pessoa, e isso não tinha a ver com você. — Mas eles estavam procurando um Cameron. E se for o Malcolm? — Não, não... como podia ser? Eles acharam que eu era o Cameron que procuravam pela fisionomia. Ora, eu lhe pergunto, pareço-me em alguma coisa com o rapaz? Georgina abriu um sorriso, aliviada, pelo menos quanto a isso. Malcolm era um magricela de dezoito anos quando ela ficara tão empolgada em aceitar o seu pedido de casamento. Claro que agora era um homem, provavelmente engordara um pouco, talvez até estivesse mais alto. Mas o colorido seria o mesmo, cabelos negros e olhos azuis muito semelhantes aos daquele inglês arrogante, e era além disso mais de vinte anos mais moço do que Mac. — Bem, seja quem for o Cameron deles, tenho apenas compaixão do pobre coitado — comentou Georgina. Mac soltou uma risadinha abafada. — Ele lhe assustou, não foi? — Ele? Se não me engano, eram dois. — É, mas eu reparei que você só teve que lidar com um deles. Ela não pretendia discutir. — O que havia nele que era tão... diferente, Mac? Quero dizer, eram iguais e ao mesmo tempo não eram. Irmãos, aparentemente, embora nem se pudesse afirmar isso olhando para os dois. No entanto, havia alguma coisa de diferente naquele que se chamava James... Ah, não faz mal. Nem sei ao certo o que estou querendo dizer. — Estou surpreso que você tenha pressentido, benzinho. — Pressentido o quê? — Que ele era o mais perigoso dos dois. Bastava olhar para ele para saber, para ver o jeito como correu os olhos pela sala logo que eles entraram, encarando todos os homens presentes. Teria enfrentado aquele bando todo de celerados, e ainda por cima achando graça. Aquele, a despeito de toda a sua elegância refinada, estava bem à vontade no meio daquela turma perigosa. — Tudo isso só pela aparência dele?— Ela abriu um sorriso. — É, chame de instinto, garota, e experiência do tipo de gente dele. Você também sentiu, portanto não deboche... e agradeça por ser uma corredora veloz. — O que quer dizer com isso? Acha que ele não teria deixado a gente ir embora? — A mim, sim, mas quanto a você não tenho tanta certeza. O homem segurava você, garota, como se não quisesse perdê-la. As suas costelas o comprovavam, mas Georgina limitou-se a dar uns estalidos com a língua. — Se ele não me tivesse segurado, eu lhe teria quebrado o nariz. — Até onde me lembro, você bem que tentou, mas sem muita sorte. — Você podia ser mais gentil comigo — suspirou Georgina. — Foi uma situação
  17. 17. 17 muito desgastante. Mac respirou forte. — Já passou por coisa pior com os seus irmãos. — Brincadeiras de criança, e há muitos anos, não se esqueça — retrucou ela. — Você estava correndo pela casa atrás de Boyd com um olhar assassino no ano passado. — Ele ainda é uma criança, e um tremendo moleque. — É mais velho do que o seu Malcolm. — Chega! — Georgina saiu andando à frente dele, dizendo por cima do ombro: — Você é tão ruim quanto eles todos, Ian MacDonell. — Ora, se o que você queria era compaixão, por que não falou logo? — respondeu ele, antes de se entregar ao riso que vinha contendo. Capítulo Cinco Hendon era uma aldeia rural, cerca de onze quilômetros a noroeste da cidade de Londres. A viagem até lá nos dois velhos pangarés que Mac alugara por um dia foi agradável, uma grande concessão para Georgina, que ainda desprezava tudo o que fosse inglês. A região arborizada por onde passaram era linda, com vales e colinas ondulantes que ofereciam vistas maravilhosas, sem falar nos muitos caminhos umbrosos, com flores rosas e brancas em sebes de estrepeiro, rosas silvestres, madressilvas e campainhas à beira da estrada. Hendon em si mesma era pitoresca, com o seu grupo de chalés, uma mansão senhorial relativamente nova e uma grande casa de caridade de tijolos vermelhos. Havia uma pequena estalagem com excesso de atividade no quintal, que Mac achou por bem evitar, preferindo dirigir-se à velha igreja coberta de hera na extremidade norte da aldeia, onde esperava que poderiam descobrir onde ficava o chalé de Malcolm. Fora uma surpresa saber que Malcolm não estava morando em Londres. Eles levaram três longas semanas para se inteirarem disso, até que localizaram o Sr. Willcocks, o suposto amigão de Malcolm, mas que afinal não era amigão de Georgina, e acabou por orientá-los noutra direção. Finalmente tiveram alguma sorte, isto é, Mac, na descoberta de alguém que sabia realmente onde Malcolm se encontrava. Enquanto Mac passava metade de cada dia trabalhando para ganhar o dinheiro da passagem de volta deles, e a outra metade procurando Malcolm, Georgina, por insistência dele, fica-a as três semanas desde a noite do fiasco na taverna enfiada no quarto, lendo e relendo o único livro que trouxera consigo para ocupar-se durante a travessia do oceano, até que ficou tão farta dele que o jogou pela janela, atingindo um dos fregueses que estava saindo da taverna. O estalajadeiro ficou tão zangado que quase a expulsou do quarto. Foi a única emoção que tivera, ainda que medíocre, e a moça já estava prestes a subir pelas paredes ou a jogar alguma outra coisa pela janela para ver no que dava, quando Mac apareceu na véspera com a notícia de que Malcolm fixara residência em Hendon. Agora ia finalmente encontrá-lo. Estava tão emocionada que mal se agüentava.
  18. 18. 18 Passara mais tempo se arrumando pela manhã do que gastaram para chegar à aldeia, mais tempo do que jamais passara antes, pois em geral não dava assim tanta importância à aparência. O vestido amarelo-ouro com o spencer curtinho combinando era o melhor dos trajes que trouxera e estava apenas ligeiramente amarrotado devido à viagem. Os grossos cachos dos cabelos castanhos estavam enfiados sob o toucado de seda, também amarelo, e as mechas curtas, agitadas pelo vento, que lhe caíam na testa emolduravam um rostinho encantador. As faces estavam rosadas, e assim os lábios, de tão mordiscados. Andara virando cabeças a manhã toda, encarapitada tão graciosamente no velho pangaré, chamando a atenção dos cavalheiros em carruagens de passagem e dos moradores de Hampstead com que tinham cruzado, mas apenas Mac reparara nisso. Georgina estava muito entretida sonhando acordada, vibrando com as suas lembranças de Malcolm, na verdade muito poucas, mas preciosas assim mesmo. No dia em que conhecera Malcolm Cameron, fora jogada pela amurada do navio de Warren quando este ficara farto das suas implicâncias de irmã, e seis estivadores tinham pulado para dentro do porto para salvá-la. A metade deles não andava tão bem quanto ela, mas Malcolm estava no cais juntamente com o pai e resolvera bancar o herói. O que aconteceu foi que Georgina saiu sozinha de dentro d'água, enquanto Malcolm precisou ser socorrido. Mas a intenção dele deixou-a impressionada, e ela caiu no mais completo fascínio. Ele estava com quatorze anos, ela com doze, e a menina concluiu ali e naquele momento que Malcolm era o rapaz mais bonito e mais maravilhoso do mundo. Esses sentimentos não se alteraram muito nos anos seguintes, muito embora fosse preciso lembrar a Malcolm quem ela era, quando voltaram a se encontrar em outras oportunidades. Depois houve a festa de Mary Ánn, quando Georgina convidou Malcolm para dançar, e ele lhe pisou nos dedos dos pés pelo menos meia dúzia de vezes. Ele estava então com dezesseis anos, mais adulto, e, embora se lembrasse dela, parecera mais interessado na sua amiga Mary Ann, que regulava com ele na idade. Claro que Georgina ainda não se tinha resolvido a ficar com ele, nem lhe dera sinal algum do quanto estava certa de que a sua fascinação por ele se transformara em amor. Mais um ano se passou, até que ela resolveu fazer algo a respeito, e agiu de modo inteiramente lógico. Malcolm ainda era o rapaz mais bonito da cidade, mas as suas perspectivas não eram das melhores. A essa altura ela sabia que a ambição do rapaz era comandar o seu próprio navio, mas teria que alcançar esse objetivo com dificuldade, começando de baixo. Ela também se encarava realisticamente, sabendo que nada tinha a recomendá-la quanto à beleza, que desaparecia numa multidão. Tinha cinco irmãos bonitões, mas algo dera errado, quando se tratava da única mulher da família. Tinha porém, um belo dote... o seu próprio navio da Skylark, que passaria ao seu domínio exclusivo quando ela completasse dezoito anos, do mesmo modo como ocorrera com os cinco outros herdeiros. Se não podia comandar o seu navio como os irmãos comandavam os deles, seu futuro marido poderia fazê-lo por ela, desde que se capacitasse para tanto. Era uma trama calculada, sem dúvida, e ela sentiu um pouquinho de vergonha, especialmente quando funcionou. Malcolm começou a cortejá-la alguns meses antes do seu décimo sexto aniversário e neste dia pediu-a em casamento. Dezesseis anos, apaixonada, delirantemente feliz! Não era de admirar que desse um jeito de ignorar a culpa que pudesse estar sentindo por ter mais ou menos comprado um marido. Afinal de contas, Malcolm não fora forçado. Ele estava obtendo o que queria, da mesma forma que ela. E Georgina estava certa de que ele sentia alguma coisa por ela, e que seus sentimentos aumentariam até igualar os dela. Portanto, tudo teria dado certo se os malditos ingleses não tivessem interferido. Mas interferiram. Os irmãos por outro lado também tinham tentado interferir. Ela descobrira que estavam apenas fazendo-lhe a vontade quando permitiram que ficasse noiva aos dezesseis anos, supondo que mudaria de idéia pelo menos meia dúzia de
  19. 19. 19 vezes antes de chegar aos dezoito, quando então permitiriam realmente que se casasse. Ela os enganara, contudo, e, desde o fim da guerra, todas as vezes que voltavam para casa tentavam convencê-la a esquecer Malcolm e achar outro marido. Ela teve outras propostas. Afinal de contas, o seu dote era muitíssimo atraente. E ela não era tão desmiolada que não estivesse ciente da mudança na sua aparência nos últimos anos, e encantada com ela. Mas permanecera fiel ao seu primeiro e único amor, mesmo quando começou a ficar cada vez mais difícil arranjar desculpas para o fato de ele não ter voltado para se casar com ela, em meio a esses quatro anos desde o final da guerra. Tinha que haver um bom motivo, e agora finalmente ela ficaria sabendo. E, antes de deixarem a Inglaterra, ela se casaria. — Cá estamos, garota. Georgina fitou o lindo chalezinho com as paredes caiadas e roseiras bem-tratadas. Esfregou as mãos uma na outra, nervosamente, mas não fez menção de aceitar a ajuda de Mac para desmontar. Nem se lembrava direito de ter parado na igreja, enquanto seu acompanhante colhia informações. — Quem sabe ele não está em casa. Mac ficou calado, mas estendeu pacientemente os braços para ela. Ambos tinham visto a fumaça saindo da única chaminé. O chalé estava decididamente ocupado. Georgina mordeu mais uma vez o lábio inferior, depois finalmente endireitou os ombros. Afinal, por que o nervosismo? Ela estava muito bem. Estava bem mais bonita do que Malcolm se lembraria. Ele não poderia deixar de ficar satisfeito porque ela o encontrara. Deixou que Mac a fizesse apear, tomando os dois em seguida o caminho de tijolos vermelhos que levava à porta da casa. Gostaria de ter parado um pouco, só para acalmar o coração, porém Mac não estava levando tais coisas em consideração. Bateu com força à portal Ela se abriu, e lá estava Malcolm Cameron. Ainda que seu rosto tivesse ficado algo impreciso em sua lembrança, ela agora o recordou bem, pois na verdade não mudara nada. Havia algumas pequenas rugas ao redor dos olhos, a marca do marujo, mais tirante isso não parecia ter ficado nem um pouco mais velho, era jovem demais para 24 anos. Crescera, entretanto. Estava muito, muito mais alto, media no mínimo 1,83m, tão alto quanto aquele tal do James... Por Deus, o que a fizera pensar nele? Malcolm não engordara nem um pouco para compensar a altura adquirida. Era esguio, quase desengonçado, mas não fazia mal. Peitos largos e braços muito musculosos faziam parte no momento da sua lista de antipatias. Malcolm estava bem, estava ótimo. Ainda era tão bonitão que ela mal notou a criança que ele segurava, uma linda menina de uns dois anos, de longos cabelos louros e olhos cinzentos. Georgina tinha olhos somente para Malcolm, que retribuía ao olhar como se, francamente, não a reconhecesse. Mas é claro que reconhecia. Ela não mudara tanto assim. Estava apenas surpreso, e com razão. Ela era a última pessoa em que Malcolm pensaria naquele exato momento. Ela devia dizer qualquer coisa, mas a sua cabeça parecia não estar funcionando direito. Malcolm desviou o olhar dela para Mac, e a sua expressão alterou-se lentamente, iluminou-se de reconhecimento. Ele deu um sorriso de boas-vindas, alheio ao desapontamento que esta aparente desatenção fazia à moça, que viajara de tão longe para encontrá-lo. — Ian MacDonell? É mesmo você?! — Sou, meu rapaz, em carne e osso. — Na Inglaterra? — Malcolm sacudiu a cabeça, incrédulo, e abafou um sorriso. — Você me desconcertou, homem. Mas entre, entre. Precisamos conversar muito. Puxa, mas que surpresa! — É, acho que para todos nós — replicou Mac com aspereza, olhando para Georgina enquanto falava. — Não tem nada para dizer, garota? — Tenho. — Georgina entrou numa pequena sala de estar, lançou-lhe um olhar
  20. 20. 20 superficial; depois seu olhar voltou-se para o noivo e ela perguntou sem rodeios: — De quem é essa criança, Malcolm? Mac tossiu e ergueu os olhos para o teto, como se o telhado de vigas aparentes tivesse ficado de repente muito interessante. Malcolm franziu o cenho, olhando para Georgina, enquanto largava lentamente a menina no chão aos seus pés. — Eu a conheço, senhorita? — Quer dizer que realmente não me reconhece? Isso foi dito com grande dose de alívio. A ruga na testa de Malcolm ficou mais profunda. — E deveria? Mac tossiu de novo, ou estaria se engasgando, desta vez? Georgina olhou para ele com cara feia antes de lançar um de seus melhores sorrisos ao amor de sua vida. — Deveria, sim, mas eu o perdôo por não reconhecer. Afinal, faz muito tempo, e todo mundo diz que mudei mais do que imagino. Suponho que agora eu tenha que acreditar. — Soltou uma risada nervosa. — É curioso que eu deva me apresentar logo a você. Sou Georgina Anderson, Malcolm, sua noiva. — Georgiezinha? — Ele começou a rir, mas dava a impressão de estar sufocando. — Não é! Georgie? — Eu lhe garanto... — Mas não pode ser! — exclamou ele, parecendo agora mais horrorizado do que inseguro. — Você é linda! Ela não era... quero dizer, não parecia... Ninguém pode mudar tanto assim. — Obviamente, peço licença para discordar — disse Georgina, um tanto secamente. — Não aconteceu da noite para o dia, é claro. Se você estivesse presente para ver as mudanças ocorrerem gradativamente... mas não estava, não é? Clinton, que passou três anos fora, ficou surpreso também, mas pelo menos ainda sabia que se tratava de mim. — Ele é seu irmão! — protestou Malcolm. — E você é meu noivo! — retrucou ela. — Não, não, você não pode estar pensando... Ora, faz... cinco ou seis anos? Eu nunca pensei que você ia esperar. Tivemos essa guerra... Ela mudou tudo, não entende? — Não, não entendo. Você estava num navio inglês quando a guerra começou, mas não era culpa sua. Ainda era americano. — Mas o problema é exatamente esse, garota. Eu nunca me senti bem dizendo que era americano. Meus pais é que queriam ficar morando lá, não eu. — O que quer dizer, Malcolm? — Sou inglês, sempre fui. Assumi isso quando fui recrutado, e embora fosse muito jovem eles acreditaram que eu não era desertor. Deixaram que eu me engajasse, o que fiz com prazer. Para mim não importava com quem eu velejasse, contanto que o fizesse. E estou indo muito bem. Sou segundo piloto no... — Conhecemos o seu navio — interrompeu Georgina, vivamente. — Foi assim que o encontramos, embora tenhamos levado um mês para isso. Um navio mercante americano não teria um arquivo tão desmazelado, pode ter certeza. Meus irmãos sabem onde cada um de seus tripulantes pode ser encontrado quando estão no porto... Mas isso não tem nada a ver, não é? Você ficou do lado dos ingleses! Quatro de meus irmãos ofereceram seus navios para lutar naquela guerra, e você podia ter enfrentado qualquer um deles! — Calma, garota — interveio Mac. — Você sabia o tempo todo que ele tinha que lutar contra a gente. — É, mas não de bom grado. Ele acabou de admitir que é um traidor! — Não, ele admitiu apenas amar o país em que nasceu. Não pode criticar um homem por isso. Não, não podia, por mais que o desejasse. Malditos ingleses. Deus, como os odiava.
  21. 21. 21 Não apenas lhe tinham roubado Malcolm, mas também conquistado o seu sentimento para a causa deles. Ele era inglês agora, e orgulhava-se disso. Mas ainda era seu noivo. E a guerra acabara, afinal. Malcolm estava vermelho, e ela não sabia se era de embaraço ou mortifícação pela sua censura. Ela mesma tinha o rosto em fogo. Não foi assim que imaginara o reencontro. — Mac tem razão, Malcolm. Desculpe se me aborreci com uma coisa que... que não importa mais. Nada realmente mudou. Os meus sentimentos não mudaram, e a minha presença aqui é o testemunho disto. — E exatamente por que você veio? Georgina fitou-o sem entender por um momento, depois seus olhos se estreitaram um pouco. — Por quê? A resposta é óbvia. Mas só você pode esclarecer por que se tornou necessário que eu viesse. Por que não voltou para Bridgeport depois da guerra, Malcolm? — Não havia motivo para eu voltar. — Não havia motivo? — ela arquejou. — Vou discordar mais uma vez. Havia a questão do nosso casamento. Ou isso é algo que você resolveu esquecer? Ele não pôde encará-la, enquanto respondia: — Eu não esqueci. Só achei que você não ia me querer mais, agora que eu era inglês, e tudo o mais. — Ou você não me queria mais, já que eu era americana? — Não foi isso — protestou ele.— Eu realmente achei que você não ia esperar por mim. Meu navio afundou. Imaginei que você ia pensar que eu tinha morrido. — Minha família trabalha com navios, Malcolm. As informações que recebemos tendem a ser precisas. O seu navio afundou, mas nenhum homem se perdeu. Nós sabíamos disso. Só não sabíamos o que acontecera com você depois... até recentemente, quando foi visto no Pogrom. Mas admito que você pudesse ter achado que seria inútil voltar para uma noiva que apenas talvez o estivesse esperando. Mas o certo seria ter se assegurado da verdadeira situação. Se não queria fazer a viagem, podia ter escrito. As comunicações foram restabelecidas entre os nossos países. Até tivemos um ou dois navios ingleses em nosso porto. Ela sabia que estava sendo sarcástica, mas não podia se controlar. Quando pensava em quanto tempo ainda poderia levar esperando esse homem, quantos anos mais, quando ele nem tivera a intenção de voltar para ela! Se não tivesse tido a idéia de fazer aquela viagem, provavelmente nunca mais o veria nem teria notícias dele. Estava magoada, não entendia o raciocínio dele, e o rapaz nem sequer olhava para ela. — Eu escrevi uma carta. Georgina percebeu de imediato a mentira, quase uma esmola para o seu orgulho, uma saída covarde. Sabia que o seu orgulho fora sacrificado há muito tempo, para que pudesse ficar com ele. Não iria se manifestar agora, só porque ele lhe estava oferecendo um monte de desculpas que não resistiriam a um exame mais minucioso. Pelo amor de Deus, ela inventara desculpas melhores para ele. Não ficou zangada, embora estivesse inteiramente decepcionada. Com que então ele não era perfeito, nem atencioso, e nem mesmo totalmente honesto. Ela o encurralara num canto e ele estava evitando magoá-la com a dura verdade. Isso podia contar um ponto a seu favor, de um modo indireto, supunha Georgina. — É óbvio que nunca recebi sua carta Malcolm. — Ouviu Mac dar um suspiro, e teve vontade de aplicar-lhe um chute.— Suponho que tenha escrito que sobreviveu à guerra... — Foi. — E provavelmente mencionou o seu patriotismo recém-descoberto por um país que não era o meu... — Foi o que eu fiz. — E, em consideração a tudo isso, me liberou do nosso compromisso de noivado.
  22. 22. 22 — Quer dizer, eu... Ela o interrompeu, vendo-o hesitar. — Ou quem sabe expressou a esperança de que eu ainda o quisesse... — Sem duvida, eu... — E depois supôs que eu não o queria mais, já que não recebera nenhuma resposta minha. — Exatamente. Georgina soltou um suspiro. — Que pena não ter recebido essa carta! Tanto tempo perdido. — Como assim? — Não fique com esse ar tão surpreso, Malcolm. Ainda quero me casar com você. Afinal de contas, foi para isso que vim até aqui. Só não espere que eu vá morar na Inglaterra. Isso eu não faço, nem mesmo por você. Mas poderá vir para cá sempre que quiser. Como comandante do meu navio, o Amphitrite, poderá pedir para trabalhar exclusivamente com o comércio inglês, se for a sua vontade. — Eu, eu... Jesus, Georgie, eu... — Malcolm? — Apareceu uma moça, interrompendo-o.— Por que não me disse que tínhamos visita? — Dirigiu-se a Georgina com um sorriso franco. — Sou Meg Cameron, senhora. A senhora é da mansão? Eles vão dar outra festa? Georgina fitou a mulher parada no vão da porta, depois a criança que se escondia timidamente atrás da saia dela, um menino de uns cinco anos de idade, com os cabelos escuros de Malcolm, os olhos azuis de Malcolm e as belas feições de Malcolm. Voltou o olhar para o pai do menino, que estava com um ar de quem não se sentia bem. — Sua irmã, Malcolm?— indagou Georgina, num tom de voz muito amável. — Não. — Foi o que eu pensei. Capitulo Seis Nada de despedidas. Nem de votos de boa sorte. Sequer um "para o inferno!". Georgina simplesmente deu meia-volta e saiu do pequeno chalé em Hendon, deixando para trás suas esperanças e sonhos de moça. Podia ouvir Mac dizendo alguma coisa, provavelmente se desculpando com Meg Cameron pela grosseria de Georgina. Depois ele surgiu às suas costas e ajudou-a a montar no pangaré alugado. Ele não disse uma só palavra, pelo menos até terem saído da aldeia. Ela tentara apressar mais o seu animal, o desejo intenso de estar a quilômetros de distância dali, mas a pobre criatura não lhe fez a vontade. E o passo apenas ligeiro em que iam deu a Mac tempo de sobra para estudá-la e enxergar através do rosto tranqüilo. Mac tinha o irritante hábito de ser franco nos momentos menos oportunos. — Por que não está chorando, garota? Pensou em ignorá-lo. Ele não insistiria, se o fizesse. Na verdade, porém, precisava pôr para fora tudo o que vinha remoendo. — No momento estou cheia de raiva demais. Aquele maldito calhorda deve ter se casado com aquela mulher logo que desembarcou aqui, muito antes da guerra terminar. Não é de admirar que tenha virado casaca em favor dos britânicos. Converteu-se pelo
  23. 23. 23 casamento! — É possível. Mas também é possível que alguma coisa o tenha agradado na primeira viagem, mas só tenha sido apanhado de vez no segundo desembarque. — Que importância tem quando ou por quê? Esse tempo todo que eu passei em casa chorando por ele, ele estava casado e fazendo filhos, divertindo-se. Mac não pôde conter o desabafo: — Vá lá que você tenha perdido tempo, mas nunca ficou chorando por ele. — Eu o amava, Mac — disse ela, meio chorosa. — Amava a idéia de que ele fosse seu, bonito como era, um capricho infantil que devia ter superado. Se você tivesse sido menos leal e menos teimosa, teria abandonado esse sonho tolo há muito tempo. — Não é... — Deixe-me acabar. Se você o amasse de verdade, estaria chorando agora e ficaria com raiva depois, não o contrário. — Eu estou chorando por dentro — disse ela severamente.— É que você não pode ver. — Obrigado por me poupar. Se há coisa que não suporto é lágrima de mulher. Ela lhe lançou um olhar fulminante. — Vocês homens são todos iguais. Têm a sensibilidade de... um muro de pedra. — Se quer compaixão, não vai ter da minha parte, garota. Se não se lembra, eu avisei que devia esquecer aquele homem há mais de quatro anos. Também lembro ter avisado que você ia se arrepender de vir para cá, e não apenas quando os seus irmãos lhe puserem as mãos. Então, o que foi que a sua teimosia lhe arranjou desta vez? — Desilusão, humilhação, sofrimento... — Logro... — Por que está decidido a me deixar com mais raiva do que já estou? — disse com veemência. — Autopreservação, benzinho. Já lhe disse que não suporto lágrimas. E, enquanto estiver gritando comigo, não estará chorando no meu ombro... Ah, não faça isso, Georgiezinha — disse ele quando a fisionomia dela começou a se alterar. Mas as lágrimas começaram para valer, e Mac pôde apenas deter os cavalos e estender os braços para ela. Georgina pulou a curta distância e foi se aninhar no seu colo. Mas não se contentou em chorar num ombro amigo. Dentro dela também havia muita raiva, que se exprimiu em muitos queixumes. — Aquelas crianças lindas deviam ter sido minhas, Mac. — Você vai ter os seus filhotes, muitos deles. — Não, não vou. Estou ficando velha. — Vinte e dois anos. — Meneou a cabeça sabiamente, contendo-se para não zombar.—É muita idade, sem dúvida. Ela parou e fechou a cara para ele. — Escolheu uma boa hora para começar a concordar comigo. As duas sobrancelhas ruivas se altearam com surpresa fingida. — Escolhi? Georgina fungou, depois choramingou de novo. — Ah, por que aquela mulher não chegou um minuto mais cedo, antes que eu bancasse a idiota completa dizendo para aquele cachorro que ainda o queria? — Quer dizer que ele agora é um cachorro? — O mais baixo, mais desprezível... — Estou entendendo, benzinho, mas foi ótimo você ter dito a ele tudo o que disse, uma bela vingança, na minha opinião. — Isso é uma espécie de lógica masculina complicada demais para a cabeça
  24. 24. 24 feminina? Eu não me vinguei, fui humilhada. — Não, você mostrou ao sujeito o que ele perdeu abandonando-a, uma moça que nem reconheceu de tão linda que está. E ainda por cima um navio para comandar, coisa que ele desejava há tanto tempo. Ele provavelmente está chutando o próprio traseiro neste momento e, tão certo quanto o mal que lhe fez, vai se lamentar por muitos anos de tudo quanto perdeu. — Do navio, talvez, mas não de mim. Ele tem um emprego de que se orgulha, lindos filhos, uma bela esposa... — Bela, sim, mas não é nenhuma Georgina Anderson, dona do Amphitrite, dona parcial da Skylark Line, ainda que não possa dar palpite na administração da companhia mas participe igualmente dos lucros e tenha a fama de ser a garota mais linda da costa leste. — Só isso? — Você não parece muito impressionada. — E não estou mesmo. A moça pode ter se transformado numa linda garota, mas nem sempre foi... E de que adianta ser bonita agora, quando desperdiçou os melhores anos da sua vida? — Um ruído grosseiro interrompeu-a, mas ela resolveu ignorá-lo. — E ela pode ter o seu próprio dinheiro, uma bela quantia, mas no momento não tem sequer o bastante *para comprar uma passagem para casa. A sua beleza e a sua riqueza não alteram o fato de que é uma tonta, uma burra, uma crédula que não sabe perceber o caráter das pessoas e, afinal, não é nada inteligente. — Você está se repetindo. Burra e nada inteligente são... — Não me interrompa. — Interrompo, pois você só está dizendo bobagens. Agora que parou de chorar, comece a olhar para o lado positivo. — Não existe. — Existe, sim. Você não teria sido feliz com um cachorro tão baixo e... desprezível. Seus lábios tremeram um pouco enquanto ela tentava sorrir, mas sem muito êxito. — Agradeço pelo que está fazendo, Mac, mas não funciona muito no estado em que me encontro. Só quero ir para casa e espero em Deus nunca mais conhecer outro inglês com sua fala tão sóbria, sua maldita pose inabalável, seus filhos infiéis. — Não me agrada ter que lhe esclarecer, benzinho, mas todos os países têm seus filhos infiéis. — Todo país também tem os seus muros de pedra, mas eu não desposaria nenhum deles. — Desposar um... lá está você dizendo bobagens de novo, e que fixação é esta em muro de pedra? — Me leve para casa, Mac. Arranje um navio para a gente, qualquer navio. Não precisa ser embarcação americana, contanto que esteja indo para a nossa parte do mundo, e zarpando logo, de preferência hoje. Pode usar o meu anel de jade para comprar a passagem. — Ficou maluca, garota? O seu pai lhe deu esse anel, trouxe-o de... — Isso não importa, Mac — insistiu ela, agora ostentando aquele ar de teimosia que já estava começando a apavorá-lo. — A não ser que você esteja disposto a virar ladrão e roubar o dinheiro, e eu sei que não está, é a única coisa em nossa posse que pode comprar a passagem. Não estou disposta a esperar até você ganhar o dinheiro, e, além disso, podemos recomprar o anel quando chegarmos em casa. — Você decidiu vir para cá com igual rapidez, garota. A gente deve aprender com os erros cometidos, e procurar não repeti-los, — Se está me pedindo paciência, esqueça. Fui paciente durante seis anos, e este foi o meu maior erro. Pretendo exercer a impaciência, de agora em diante. — Georgie... — começou ele, severamente.
  25. 25. 25 — Por que está discutindo comigo? Até zarparmos, você vai ter uma mulher chorosa nas mãos. Pensei que não suportava lágrimas femininas. A teimosia feminina era bem pior, concluiu Mac, entregando os pontos. — Já que você coloca a coisa nesses termos... Capítulo Sete Uma paisagem de mastros sem velas não garantia que haveria pelo menos um navio, dentre tantos, zarpando para a América num futuro próximo. Dava para se pensar que sim. Dava até para se apostar que sim. E Georgina teria perdido a aposta, se a tivesse feito. A maioria dos navios que chegara junto com o deles há muito partira para outros portos. Descontando os navios que se recusavam a levar passageiros, havia ali várias embarcações americanas, mas nenhuma delas previa um retorno ao porto de origem antes do ano seguinte, uma viagem longa demais para a recém-impaciente Georgina. E o único navio programado para zarpar diretamente para Nova York, perto o bastante de Bridgeport para tornar-se o destino ideal, não estava, segundo o imediato, prestes a partir. Aparentemente, o seu capitão estava namorando uma jovem inglesa e jurara só partir depois de casado. Que foi o que Georgina precisou ouvir para fazê-la rasgar dois vestidos e jogar o urinol pela janela. Queria tanto deixar a Inglaterra que já estava pensando em fazer uma viagem de oito a dez meses num dos navios americanos programados para partir naquela mesma semana, apenas alguns dias depois de estar tentando achar passagem. Quando contou isso para Mac na terceira manhã, ele voltou dali a algumas horas com os nomes de três embarcações inglesas que partiriam na semana seguinte. Não as mencionara antes porque imaginara que ela nem as levaria em consideração pelo simples fato de serem inglesas, com tripulação exclusivamente inglesa. Para Georgina, fugir de tudo o que era inglês parecia no momento tão importante quanto voltar para casa. E foi exatamente o que ela fez, não as levando em consideração em termos bastante grosseiros. Foi então que Mac mencionou, hesitante, uma alternativa em que ela nem pensara. — Há um navio zarpando com a maré da manhã. Não aceita passageiros, mas está precisando de um contramestre e de um... taifeiro. Os olhos de Georgina se dilataram de interesse. — Quer dizer, trabalhar para pagar a nossa passagem? — Foi uma idéia, melhor do que passar meio ano ou mais no mar com uma garota que está exercendo a impaciência. Georgina riu baixinho para si mesma, revirando os olhos, ante a ênfase com que ele falou. Era a primeira coisa em que achava graça desde que descobrira a traição de Malcolm. — Pode ser que eu a exerça menos, logo que estiver a caminho de casa. Ah, Mac, acho que é uma idéia maravilhosa — disse, com súbito entusiasmo. — É um navio americano? É grande? Para onde está indo?
  26. 26. 26 — Calma, calma, garota, não é o que você está pensando. É o Maiden Anne, originário das Antilhas, com três mastros e novo em folha. Uma beleza. Mas parece um navio de guerra reformado, ainda fortemente armado, embora seja de propriedade particular. — Um navio mercante das Antilhas precisa ser bem armado se singra aquelas águas infestadas de piratas. Todos os navios da Skylark que viajam pelo Caribe são bem armados, e mesmo assim ainda são atacados ocasionalmente. — É verdade — concordou ele. — Mas o Maiden Anne não é um navio mercante, pelo menos não nesta viagem. Não vai transportar carga, apenas lastro. — Um capitão que pode viajar sem ter qualquer espécie de lucro? — provocou Georgina, sabendo que bastaria esse fato para irritar um homem que viajara 35 anos em navios mercantes. — Deve ser pirata. Mac soltou um suspiro. — Segundo os próprios tripulantes, é um homem que veleja por esporte, indo para onde bem entende. — O capitão é o dono, e tão rico que pode ter um navio só para o seu prazer? — É o que parece — disse ele, enojado. Georgina abriu um sorriso. — Sei como essa idéia o incomoda, mas não é absolutamente única. E qual a diferença se transporta carga ou não, contanto que nos leve para casa? — É, tem mais uma coisa. Ele está indo para a Jamaica, não para os Estados Unidos. — Jamaica? — Parte do prazer de Georgina em encontrar um navio diminuiu, mas apenas momentaneamente.— Mas a Skylark tem escritório na Jamaica. E ela não é o terceiro porto na programação de Thomas? Poderíamos chegar lá antes que ele tenha partido novamente e, se não chegarmos, a Skylark tem outros navios que aportam freqüentemente na Jamaica, inclusive os navios de Boyd e Drew, sem falar no meu.— Estava sorrindo de novo.— No máximo vamos nos atrasar algumas semanas para chegar em casa. É melhor do que meio ano, e certamente melhor do que ficar aqui mais um dia. — Não sei, garota. Quanto mais penso no assunto, mais acho que nem devia ter falado nisso. — E quanto mais eu penso no assunto, mais gosto da idéia. Ora, Mac, é a solução perfeita, — Mas você vai ter que trabalhar — lembrou ele. — Você vai ter que ser o moleque de recados do capitão, servir-lhe as refeições, limpar o seu camarote, e o que mais ele pedir. Vai ficar muito ocupada. — E daí? Vai me dizer que acha que não sou capaz de tarefas tão simples, quando já esfreguei convés, limpei canhões, raspei cascos, subi cordames... — Isso foi anos atrás, garota, antes de você ficar com essa cara de linda senhorita que tem agora. Seu pai e seus irmãos lhe faziam as vontades, deixando que andasse pelo interior dos navios quando estavam no porto, aprendendo coisas que não devia. Mas agora iria trabalhar e viver junto com homens que não a conhecem, que não podem conhecê-la. O serviço não é para uma garota, e, se o aceitar, você não vai poder agir como uma garota. — Eu estou sabendo muito bem, Mac. Terei que abandonar meus vestidos. Certas suposições são automáticas quando se usam calças, como descobrimos. Se botar um vestido num garoto, você terá uma garota feia; se botar calças numa garota, terá um garoto bonito. E, afinal de contas, eu me saí muito bem naquela noite... — Antes de abrir a boca ou encarar as pessoas — interrompeu ele, lembrando-lhe com severidade. — O seu disfarce não passou daí. — Porque eu estava tentando me fingir de homem, o que não foi muito inteligente da minha parte, pensando bem, não com esta cara. Está bem.— Ela impediu que ele interrompesse de novo. —Então você tentou me dizer e eu não quis ouvir. Não precisa
  27. 27. 27 repetir. Isto é inteiramente diferente, e você sabe. Um menino pode ter feições delicadas. É muito comum. E com a minha altura, o fato de ser magra, o timbre de voz e... — ela baixou os olhos para o peito — umas ataduras apertadas, posso passar facilmente por um menino de nove ou dez anos. Ela ganhou um olhar aborrecido por essa suposição. — A sua inteligência vai entregar você. — Está certo, então um menino brilhante de doze anos que está custando a se desenvolver.— E depois, com firmeza:— Eu consigo, Mac. Se você achasse que não conseguiria, nem teria pensado nisso. — Eu devia estar maluco, eu estava maluco, mas nós dois sabemos quem é o responsável por isso. — Ora, ora — disse ela, sorrindo —, eu não passo de uma linda garotinha, prestes a virar um lindo garotinho. Como posso ser assim tão difícil? — Ele emitiu um ruído muito grosseiro. — Bem, encare a coisa da seguinte maneira: quanto mais cedo eu voltar para casa, mais cedo você se livra de mim. Desta feita, ele apenas resmungou. — Tem mais uma coisa. Você vai ter que fingir durante um mês ou mais. É um bocado de tempo para achar um cantinho todo seu para atender às suas próprias necessidades, quando para um homem basta ficar de costas para o vento e... — Mac! — Georgina ficou vermelha, muito embora fosse alguém que, com cinco irmãos que às vezes se esqueciam de que ela estava por perto, já ouvira e vira muito do que acontece entre os homens. — Eu não disse que não haveria certas dificuldades, mas sou bastante engenhosa para superá-las. Ao contrário da maioria das moças, conheço os navios pelo avesso, inclusive as áreas que os marujos costumam evitar. Eu dou um jeito, mesmo que tenha que usar um porão infestado de ratos. E, além disso, qual a pior coisa que poderá acontecer? Você acha realmente que eles vão me chutar do navio no meio do oceano? Claro que não. Eles provavelmente vão me trancafiar em algum canto até o navio atracar, e ai sim, me dão um chute no traseiro. Bem merecido, por sinal, se eu for descuidada a ponto de deixar que eles descubram o disfarce. Eles ainda discutiram mais um pouco até que Mac finalmente suspirou. — Está bem, mas primeiro eu vou tentar que você viaje sem ter que trabalhar. Eles podem concordar, se eu abrir mão do pagamento, e eles acharem que você é meu irmão que tem que viajar comigo. Uma sobrancelha aveludada alteou-se enquanto o riso iluminava-lhe os olhos. — Seu irmão? Sem sotaque escocês? — Meio-irmão, criado longe de mim, o que ninguém questionará, considerando-se a diferença de idade. — Mas ao que me consta eles estavam precisando de um taifeiro. Se estiverem, vão insistir em que eu trabalhe. Eu sei que os meus irmãos não viajariam sem taifeiro. — Eu disse que ia tentar. Eles ainda têm o resto do dia para achar outro garoto para o emprego. — Bem, espero que não achem — replicou Georgina, falando sério. Prefiro trabalhar durante a travessia a não fazer nada, especialmente se estiver disfarçada. E nem pense em dizer que sou sua irmã, porque, se eles não me aceitarem para poderem tê-lo como contramestre, então a oportunidade terá sido inteiramente perdida. Vamos logo antes que outro fique com o emprego. — Você vai precisar de roupas masculinas. — Podemos comprar no caminho. — Você precisa se desfazer das suas coisas. — O senhorio pode ficar com elas. — E quanto aos cabelos? — Vou cortá-los.
  28. 28. 28 — Nada disso! Os seus irmãos me matariam, se é que já não vão mesmo me matar! Ela desenterrou o gorro de lã que usara da outra vez do fundo do baú o agitou-o sob o nariz dele. — Pronto! Agora quer parar de ser chato e andar de uma vez? Vamos. — Pensei que você ia parar de exercer a impaciência — resmungou Mac. Ela riu, empurrando-o porta afora. — Ainda não zarpamos, Mac. Eu paro amanhã. Prometo. Capítulo Oito Anthony Malory fez sinal ao garçom pedindo outra garrafa de porto, antes de se recostar na cadeira e fitar o irmão mais velho. — Sabe James, acho que vou sentir saudades suas. Você devia ter resolvido os seus negócios no Caribe antes de voltar para casa, assim não teria que ir até lá novamente, logo agora que me acostumei a ter você por perto. — E como poderia saber que o passamento do infame Hawke poderia ter sido arranjado com tanta facilidade, para que eu pudesse permanecer aqui? — replicou James. — Você se esquece de que o único motivo por que voltei para casa foi para acertar as contas com Éden. Eu não tinha a menor idéia de que ele ia se casar com alguém da família na época, ou que a família decidiria me reintegrar, agora que meus dias de pirata pertencem ao passado. — Eu diria que o fato de apresentar aos mais velhos o novo sobrinho Jeremy ajudou bastante. Eles são tão sentimentais quando se trata da família! — E você não é? — Até que sou. Mas você vai voltar logo, não é? Tem sido como os velhos tempos, ter você por perto de novo. — Nos divertimos um bocado naqueles anos desvairados, não foi? — Correndo atrás das mesmas mulheres — sorriu Anthony. — Ouvindo os mesmos sermões dos mais velhos. — Nossos irmãos têm boa intenção. Jason e Eddie ficaram responsáveis muito cedo, só isso. Nunca tiveram chance de fazer as suas próprias farras, estavam muito ocupados mantendo o resto de nós na linha. — Não precisa fazer a defesa deles para mim — replicou James. — Você não acha que guardo rancor, acha? Para dizer a verdade, eu me teria deserdado com a mesma rapidez com que vocês três o fizeram. — Eu nunca o deserdei — protestou Anthony. — Acabe a sua bebida — replicou James, secamente. — Poderá ajudar a avivar a sua memória. — A minha memória está funcionando perfeitamente, estou lhe dizendo. É verdade que fiquei furioso com você por ter sumido com a Reggie naquele verão, há oito anos... Três meses num maldito navio-pirata, e a pobrezinha tinha apenas doze anos! Mas logo me livrei da raiva, dando-lhe a surra que você tanto merecia quando a trouxe de volta. E
  29. 29. 29 você aceitou a surra. Nunca entendi por quê. Quer me contar agora? James alçou uma sobrancelha fulva. — Acha que eu podia ter impedido, três contra um? Você está me dando um crédito maior do que mereço. — Pare com isso, irmão. Você não reagiu naquele dia. Sequer tentou. Jason e Edward podem não ter notado, mas eu já lutei muito com você para que isso me passasse despercebido. James deu de ombros. — Bem, eu achei que merecia. Para mim, era muito divertido na época livrá-la da vigilância do irmão mais velho. Digamos que eu estava aborrecido o bastante com Jason para fazer isso, já que ele se recusava a me deixar ver Regan depois que eu... — Reggie — corrigiu Anthony, automaticamente. — Regan — repetiu James com mais força, começando a velha discussão que tivera com cada um dos irmãos sobre o apelido que dariam à sobrinha, Regina... uma discussão nascida da insistência antiga da parte de James em ser diferente, seguir o seu caminho, fazer as suas regras. Porém ambos perceberam no mesmo momento o que estavam fazendo e abriram um sorriso. Mas Anthony foi mais adiante. Concordou: — Vá lá que seja Regan, por hoje. James bateu no ouvido com a palma da mão. — Acho que tem alguma coisa errada com a minha audição. — Mas que merda!— disse Anthony, entre resmungão e zombeteiro —, continue logo com a sua história antes que eu pegue no sono. Ah, espere, está chegando a nossa segunda garrafa. — Você não está pensando em me embebedar de novo, está? — Nem sonharia com uma coisa dessas —disse Anthony, enchendo os dois copos até a borda. — Creio que foi exatamente isso o que você disse da última vez em que estivemos aqui no White's, mas, ao que me lembre, o seu amigo Amherst teve que nos carregar para casa... no meio da tarde. Você não me contou o que a sua mulherzinha achou disso. — Ela falou um bocado, mas nada que valha a pena repetir — replicou Anthony, com azedume. A risada ruidosa de James atraiu vários olhares para a mesa deles. — Sinceramente, não sei o que aconteceu à sua astúcia, meu jovem. Desde o segundo dia do seu casamento que você caiu em desgraça com a moça, simplesmente porque não conseguiu convencê-la de que aquela garçonete que se esfregou no seu colo durante alguns minutos não passou o resto da noite com você. Foi um azar tremendo a garota ter deixado fios de cabelo louros na sua lapela. Mas você não contou para Roslynn que só estava naquela taverna por causa dela mesma, procurando o tal primo Cameron? — Claro. — Então ainda não lhe contou que a garota era minha, e não sua? Anthony sacudiu a cabeça teimosamente. — E nem vou contar. Devia ser suficiente dizer-lhe que nada aconteceu, que a oferta foi feita, mas eu recusei. Ainda é uma questão de confiança... Mas creio que já tivemos esta conversa antes, e aqui mesmo se não me engano. Pare de se preocupar com a minha vida amorosa. A minha esposinha escocesa vai se acalmar. Eu estou cuidando disso a meu modo. Portanto vamos voltar à sua grande confissão, certo? James estendeu a mão para o copo primeiro, acompanhando o ritmo de Anthony. — Como estava dizendo, eu andava aborrecido com Jason por se recusar a deixar até que eu visse Regan. — E ele devia ter deixado? Você já era pirata há dois anos. — Eu podia estar pintando o sete em alto-mar, Tony, mas não me modificara
  30. 30. 30 pessoalmente. Ele sabia muito bem que eu teria posto de lado tudo o que se relacionava com o Hawke, se ele tivesse deixado que eu a visse. Mas ele me deserdara por ter virado pirata e desgraçado a família, na opinião dele, embora ninguém dentro ou fora da Inglaterra soubesse que o comandante Hawke e James Malory, visconde de Ryding, eram a mesma pessoa. Jason já tomara a sua posição e não queria recuar. O que eu podia fazer? Nunca mais ver a menina? Regan é como uma filha para mim. Nós todos a criamos. — Você podia ter largado a pirataria — salientou Anthony, razoavelmente. James abriu um sorriso vagaroso. — Seguir as ordens de Jason? E desde quando fiz isso? Além do mais, eu estava me divertindo loucamente bancando o pirata. Havia o desafio, o perigo, mas era muito mais do que isso, eu trouxe a disciplina de volta à minha vida, e provavelmente tenha salvado minha saúde com isso. Eu levara uma vida dissipante, e estava esgotado, antes de sair de Londres. Nós nos divertíamos, é verdade, mas já não havia desafios, exceto enfiar-se embaixo das saias de uma dama, mas nem mesmo isso estava importando mais. Que diabo, ninguém sequer me desafiava mais, para aliviar a monotonia, pois a minha reputação era terrível. Anthony caiu na risada. — Estou quase chorando, meu velho. James inclinou a garrafa. — Trate de ir bebendo, palhação. Você é mais compreensivo quando está bêbado. — Eu não fico bêbado. Tentei dizer isso para a minha esposa, mas ela não quis acreditar. Quer então dizer que você foi para o mar viver a vida limpa e saudável de um pirata... — Um cavalheiro pirata — corrigiu James. Anthony assentiu. — Exatamente. Não posso ignorar a diferença. Qual é mesmo a diferença? — Nunca afundei um navio, nunca abordei um navio sem lhe dar a chance de lutar. Perdi um bocado de prêmios gordos deste jeito, deixando que me escapassem, mas nunca me considerei um pirata bem-sucedido. Era apenas persistente. — Que droga, James, tudo aquilo não passava de um jogo para você. Mesmo assim, deixou deliberadamente que Jason pensasse que você vivia estuprando, saqueando e jogando as pessoas aos tubarões! — E por que não? Ele só fica inteiramente feliz quando está comandando um de nós. E antes a mim do que a você, já que eu não dou a mínima, enquanto você esquenta a cabeça. — Ora, que bela atitude! — disse Anthony, com sarcasmo. — Acha? — James sorriu e engoliu a sua bebida. Anthony se apressou a encher o copo. — Mas é a mesma que sempre tive. — Suponho que sim—admitiu Anthony com alguma relutância. — Você sempre desafiou e provocou Jason, pelo menos desde que me entendo por gente. James deu de ombros. — O que seria da vida sem os seus pequeninos estímulos, meu rapaz? — Acho que você gosta é de ver Jason perder as estribeiras. Admita. — É que ele faz isso tão bem, você não acha? Anthony sorriu, depois deu uma risadinha abafada. — Está certo, então os quês e os porquês não têm mais importância. Você foi aceito de novo no seio da família, tudo foi perdoado, digamos assim. Mas ainda não respondeu à minha pergunta sobre a surra que levou. A sobrancelha dourada arqueou-se novamente. — Não? Deve ser porque estou sendo interrompido a toda hora. — Então não falo mais. — Uma impossibilidade. — James...

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