Fim de verao rosamunde pilcher

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Fim de verao rosamunde pilcher

  1. 1. FIM DE VERÃO Rosamunde Pilcher
  2. 2. Capítulo 1 O tempo estivera abafado e enublado durante todo o Verão, sendo o calor do sol reprimido pelos nevoeiros marítimos que rolavam continuamente do lado do Pacífico. Mas por volta de Setembro, como é muito freqüente acontecer na Califórnia, estes recuaram mar dentro, espraiando-se sombriamente ao longo da linha do horizonte. Em terra, para cá da zona costeira, terrenos cultivados, prontos para a colheita, regurgitavam de fruta madura, milho, alcachofras e abóboras avermelhadas, que tremeluziam à luz do sol. O calor mergulhava os pequenos aglomerados de casinhas de madeira na modorra, conferindo-lhes uma aparência acinzentada e poeirenta. As planícies, ricas e férteis, estendiam-se para leste, até ao sopé da serra Nevada, esta atravessada, em toda a sua extensão, pela grande auto-estrada de Camino Real que, para norte, ia dar a São Francisco e, para Sul, a Los Angeles, atravancada e tremeluzente com o aço escaldante de milhares de veículos. A praia estivera deserta durante os meses de Verão, pois Reef Point, ficando na ponta final da costa, raramente era alvo das preferências do passeante ocasional. Por um lado, a estrada não era alcatroada, o que a tornava pouco segura e convidativa. Por outro, a pequena estância de La Carmelia, com as suas encantadoras ruas sombreadas por árvores, o clube local exclusivo e os motéis impecáveis, ficavam mesmo no princípio da linha, e qualquer pessoa de bom senso e com algum dinheiro para gastar ficava-se mesmo por ali. Só quem fosse aventureiro, desprovido de recursos financeiros ou profundamente apreciador de zonas de rebentação, é que se arriscaria a percorrer o último quilômetro e meio, descendo pelo terreno acidentado e pedregoso, derrapando até àquela enseada enorme, despovoada e ventosa. Mas, naquela altura, devido ao tempo esplêndido que se fazia sentir e à ondulação suave do mar, o local estava apinhado de gente. Carros de todos os tipos desciam a colina com dificuldade, estacionando à sombra dos cedros e despejando amantes de piqueniques, campistas, praticantes de surf e famílias inteiras de hippies, recém- fartos de São Francisco e a caminho do Novo México e do Sol, à semelhança de muitas aves migratórias. E os fins-de-semana traziam os estudantes da Universidade de Santa Bárbara nos seus descapotáveis antigos e Volkswagens enfeitados de flores autocolantes, cheios de raparigas e caixas de cerveja enlatada, ficando-se por ali com as suas pranchas Malibu de cores brilhantes. Armavam pequenas tendas por toda a praia, enchendo o ar com as suas vozes, risadas e o cheiro a bronzeador. De modo que, depois de tantas semanas de perfeito isolamento, víamo-nos subitamente rodeados de gente e de todo o gênero de atividade. O meu pai estava cheio de trabalho, tentando respeitar o prazo que lhe fora dado para terminar um guião, o que o tornava impossível de aturar. Sem que desse por mim, escapuli-me para a praia, levando com que me sustentar (hamburgers e Cola-Cola), um livro para ler, uma toalha de banho suficientemente grande para nela me estender à vontade, e Rusty para me fazer companhia. Rusty era um cão. Muito meu, uma criaturinha de abundante pelagem castanha e raça indefinida, porém de grande inteligência. Quando nos mudáramos para a casinha de praia, na Primavera anterior, não tínhamos nenhum cão, mas logo o problema foi resolvido por Rusty, que tomou essa decisão depois de nos observar
  3. 3. sorrateiramente. E dali não moveu pata. Enxotei-o de toda a forma e feitio, o meu pai atirou-lhe botas velhas, mas de nada valeu, pois voltou sempre, inabalável e sem ressentimentos, sentando-se a alguma distância do portão das traseiras, de beiço arreganhado à laia de sorriso e a dar à cauda. Certa manhã quente, enchendo-me de comiseração por ele, dei-lhe uma tigela de água fresca para beber. Lambeu-a até à última gota, e voltou, então, a assentar o traseiro no chão, fitando-me com aquele ar amigável e abanando a cauda. No dia seguinte, presenteei-o com um osso de presunto, que ele aceitou delicadamente, afastando-se para o ir enterrar. Cinco minutos depois, estava novamente de volta. Sorridente, de cauda sempre a abanar. O meu pai saiu de casa e atirou-lhe uma olhadela, embora sem grande convicção. Não passou de simples demonstração de força pouco segura. Apercebeu-se do fato e aproximou-se um pouco mais. Eu disse ao meu pai: - De quem será? - Sabe-se lá. - Dá a impressão de estar convencido de nos pertencer. - Enganas-te - retorquiu o meu pai. - acha que nós é que lhe pertencemos. - Não é nada feroz e nem sequer cheira mal. Ergueu o olhar da revista que tentava ler - Estás a querer dizer que tens vontade de ficar com esse malfadado bicho? - Acontece apenas que não vejo... não vejo maneira de nos livrarmos dele. - Basta dar-lhe um tiro. - Que horror! - Deve ter pulgas. Tra-las-á para dentro de casa. - Compro-lhe uma coleira inseticida. O meu pai mirava-me por detrás dos seus óculos. Percebi que fazia um grande esforço para não desatar a rir. Insisti: - Por favor. Por que não? Far-me-á companhia quando estiveres ausente. Respondeu-me: - Está bem. Calcei então uns sapatos, sem perder mais um segundo, e assobiei a chamar o cão; subimos colina até La Carmella, onde havia um veterinário de grande fama, e ficamos à espera da nossa vez, numa sala repleta de cães-d'água, gatos siameses e os respectivos donos. Finalmente fomos atendidos, e o veterinário, depois de examinar Rusty, declarou-o em forma, deu-lhe uma injeção e disse-me onde poderia comprar uma coleira inseticida. Depois de pagar a consulta, saímos para comprar a dita coleira, voltando em seguida para casa. Quando chegamos à cabana, o meu pai continuava a ler a sua revista; o cão entrou delicadamente, e depois de andar a identificar o novo território, à espera de que o convidassem a sentar, assim o fez, instalando-se no tapete velho que tínhamos em frente da lareira desativada. O meu pai perguntou: - Como lhe vais chamar? - Rusty - respondi, pois certa vez tivera um resguardo para camisa de dormir em forma de cão com o nome Rusty e foi o primeiro que me veio à cabeça. O problema de adaptação à família não se pôs porque dava a impressão de que o seu lugar fora sempre junto de nós. Para onde quer que eu fosse, Rusty vinha comigo. Adorava a praia e passava a vida a desenterrar tesouros magníficos que depois nos trazia para casa a fim de os admirarmos: velhos fragmentos de navios
  4. 4. naufragados, garrafas de detergentes vazias, longos e ondulantes bocados de algas marinhas. E, de vez em quando, objetos que não retirara propriamente de baixo da areia, tais como um sapato de desporto novo, uma bela toalha de praia, chegando mesmo, certa vez, a furar uma bola, que o meu pai teve de substituir depois de eu sossegar o seu choroso proprietário de palmo e meio. Também gostava muito de nadar e sempre fez questão em me acompanhar, embora não fosse capaz de avançar muito mais rapidamente que ele, que ficava sempre para trás, seguindo-o com a maior das persistências. Seria de esperar que ficasse desencorajado, porém tal nunca aconteceu. Nesse dia, um domingo, nadamos muito. O meu pai, cumprida a meta de trabalho, fora a Los Angeles entregar o guião pessoalmente, de modo que Rusty e eu ficamos a fazer companhia um ao outro, passando a tarde a ir e vir da praia, ora a apanhar conchas ora a brincar com um pedaço de madeira que o mar arrastara para a costa. No entanto, já começava a fazer frio e eu voltara a envergar mais alguma roupa; sentamo-nos ao lado um do outro a admirar os surfistas, enquanto o dourado se ia escondendo no ocaso, cegando-nos. Os surfistas tinham passado o dia nas suas atividades e, contudo, dava a impressão de que não se cansavam. Ajoelhados nas suas pranchas, remavam com os braços mar dentro, passando a zona de rebentação até chegarem às águas bem mais calmas que ficavam do lado de lá. Aí aguardavam, pacientemente, empoleirados na linha do horizonte como corvos-marinhos, à espera de que as ondas ganhassem altura para depois agirem. Escolhiam uma, mantinham-se de pé enquanto a água se encurvava na sua subida, formando espuma branca no seu topo e, quando a onda iniciava o estrondoso movimento de queda, enrolando-se sobre si mesma, navegavam sobre ela num poema de equilíbrio, com a arrogância e a autoconfiança que a sua juventude lhes conferia; cavalgavam até esta se abater sobre a areia, saindo depois de cima da prancha com ar indiferente, pegando nela e voltando novamente para o mar, já que o credo de todo o surfista era o de que os aguardava sempre uma onda maior e melhor, e agora que o sol se punha e começara a escurecer, não havia um momento a perder. Havia um rapaz que me chamara especialmente a atenção. Era louro, usava o cabelo muito curto, estava profundamente bronzeado e usava os calções justos até ao joelho no mesmo tom azul-brilhante do da sua prancha de surf. Era exímio na sua arte, possuía um estilo e um arrojo que fazia com que todos os outros não parecessem passar de simples amadores desajeitados. A certa altura, porém, estava eu a observá-lo, deu a impressão de que decidira dar o dia por terminado, pois, cavalgando uma última onda, aterrou impecavelmente na praia, apeou-se da sua prancha e, voltando-se para lançar um último e prolongado olhar ao mar, banhado pelos tons róseos do crepúsculo, virou-se, pegou na sua prancha e começou a caminhar pela areia. Desviei o olhar. O rapaz veio para os meus lados, acercando-se de um monte de roupa, impecavelmente dobrada, que deixara ali perto. Deixou cair a prancha e tirou uma camisola desbotada do topo da pilha. Voltei a olhar na sua direção e, quando o rosto lhe apareceu pela abertura do decote, fitou-me diretamente. Não desviei o olhar, usando de firmeza. O rapaz pareceu achar graça. Cumprimentou: - Viva.
  5. 5. - Olá. Ajeitou a camisola nas ancas. Perguntou: - Queres um cigarro? - Pode ser. Inclinou-se para tirar um maço de Luckys e o isqueiro do bolso, atravessou a extensão de areia que nos separava, tirou um cigarro para mim, depois de se servir ele próprio, deitou-se ao a comprido a meu lado, apoiando-se nos cotovelos. Tinha as pernas e o pescoço cobertos com uma camada fina de areia; os olhos eram azuis e possuíam aquele ar limpo e bem cuidado que ainda era possível encontrar nos pátios das universidades. Comentou: - Ficaste toda a tarde aqui sentada. Nem foste nadar. - Eu sei. - Por que não te juntaste a nós? - Não tenho prancha de surf - Podias arranjar uma. - Falta-me o dinheiro. - Então pede uma emprestada. - Não conheço ninguém a quem o possa fazer. O jovem franziu os sobrolhos. - És inglesa, não és? - Sou. - Estás de visita? - Não, vivo aqui. - Em Reef Point? - Sim. Indiquei, com a cabeça, a fila de casinhas de madeira desbotada que mal assomava sobre o topo arredondado das dunas. - Como é que vieste parar aqui? - Nós alugamos uma das casas. - Vocês, quem? - O meu pai e eu. - Há quanto tempo cá estás? - Desde a Primavera. - Mas não vais ficar durante o Inverno. Era mais uma declaração de fato do que uma pergunta. Ninguém passava o Inverno em Reef Point. As casas não tinham sido construídas para fazer frente às tempestades, a estrada de acesso ficava intransitável, as linhas telefônicas caíam, não havia eletricidade. - Acho que ficaremos. A não ser que decidamos mudar de sítio. - Vocês são hippies ou algo do gênero? Por ter a noção do meu aspecto na altura, não me admirei com a pergunta. - Não. Mas o meu pai escreve guiões para filmes e materiais para a televisão. E como detesta Los Angeles ao ponto de se recusar a viver lá... alugamos esta cabana. O jovem mostrou-se intrigado. - E tu, que fazes? Peguei numa mão-cheia de areia áspera e acinzentada e deixei-a escorrer por entre
  6. 6. os dedos. - Nada de especial. Compro a comida, esvazio o balde do lixo e tento manter a cabana sem areia. - Esse cão é teu? - É. - Como se chama? - Rusty. - Rusty. Ei, viva, amigo! Rusty deu sinal de perceber o cumprimento com um aceno de cabeça e depois continuou a olhar para o mar. Para compensar a sua falta de maneiras, perguntei: - És de Santa Bárbara? - Hen, hen. O jovem, porém, não tinha vontade de falar dele. - Há quanto tempo vives nos Estados Unidos? Ainda tens um sotaque terrivelmente britânico. Sorri delicadamente perante a piada que já ouvira tantas vezes. - Desde os catorze. Já lá vão sete anos. - Na Califórnia? - Um pouco por todo o lado: Nova Chicago, São Francisco. - O teu pai é americano? - Não. Começou por vir para cá com o objetivo de escrever um romance, que foi comprado por uma empresa cinematográfica. Depois foi para Hollywood preparar o guião. - A sério? Será que o conheço? Como se chama? - Rufus Marsh. - Não me digas que é o autor de Tail as Morning! Acenei afirmativamente com a cabeça. - Caramba - continuou o jovem -, li esse livro de um fôlego só, ainda andava no liceu. Foi através dele que recebi toda a minha educação sexual. Fitou-me com interesse renovado e eu pensei que era sempre assim. Começavam por se mostrar amigáveis e muito simpáticos, mas o interesse só surgia verdadeiramente quando eu mencionava o tal romance escrito pelo meu pai. Penso que o fato tinha algo a ver com o meu aspecto porque os meus olhos são extremamente claros, as pestanas quase incolores, a minha cara não bronzeia e fica toda salpicada de sardas enormes. Além disso, sou demasiado alta para rapariga e tenho as maçãs do rosto muito salientes. - Deve ser um indivíduo formidável - acrescentou o jovem. No seu rosto espelhava-se agora uma expressão nova, denotando intriga e perguntas que, obviamente, era demasiado delicado para fazer: Se és filha de Rufus Marsh, por que estás aqui sentada nesta praia insignificante nos confins da Califórnia, com umas calças manchadas e uma camisa de homem que já devia ter ido para o lixo há muito tempo, e nem sequer tens dinheiro que chegue para comprares uma prancha de surf? Depois, seguindo, como era ironicamente previsível, a linha do meu próprio raciocínio, perguntou: - Já agora, que tipo de homem é ele? Quero dizer, para além de ser teu pai. - Não sei. Nunca fora capaz de descrever o meu pai, nem mesmo a mim mesma. Peguei
  7. 7. noutra mão-cheia de areia e formei uma montanha miniatura no cimo da qual espetei o resto do meu cigarro, formando uma pequena cratera, um vulcão minúsculo, com a beata a fazer de núcleo fumegante. Era um homem com uma necessidade constante de movimento; uma pessoa que fazia amigos facilmente para os perder logo no dia a seguir; um indivíduo briguento, que não deixava uma observação sem resposta, talentoso quase ao ponto da genialidade, mas completamente inibido perante os problemas da vida do dia-a-dia; um ser humano paradoxal. Repeti: - Não sei. E voltei-me para olhar o rapaz que tinha ao meu lado. Era simpático. - Convidava-te para ires tomar uma cerveja lá a casa e assim poderias verificar com os teus próprios olhos, mas acontece que ele neste momento está em Los Angeles e só voltará amanhã de manhã. Ouviu a minha informação coçando a nuca com ar pensativo, gesto que desencadeou uma pequena tempestade de areia. - Vamos combinar o seguinte - sugeriu -, se o tempo se mantiver bom, no próximo fim-de-semana estou por aqui novamente. Sorri. - Estarás? - Procurarei por ti. - Está bem. - Trarei uma prancha a mais. Poderás praticar um pouco de surf Observei: - Não é preciso subornares-me. Ele fez-se de ofendido. - Que queres dizer com essa de eu querer subornar-te? - No próximo fim-de-semana, levo-te lá acima para o conheceres. Ele gosta de ver caras novas em casa. - Não era suborno nenhum. A sério. Abrandei. Além disso, tinha vontade de fazer surf. Retorqui: - Eu sei. O jovem sorriu e apagou o seu cigarro. O sol, ao mergulhar ao longe, sobre o oceano, começava a ganhar o formato e a cor de uma abóbora. Sentou-se, franzindo os olhos perante o seu fulgor, bocejou ligeiramente e espreguiçou-se. Depois declarou: - Tenho de ir. Em seguida levantou-se e, então, hesitou por um momento, ao meu lado, de pé. A sua sombra parecia alongar-se interminavelmente. - Então, adeus - disse. - Adeus. - Até domingo. - Okay. - Fica combinado. Não te esqueças. - Está descansado. Voltou-se e começou a andar, parando para recolher o resto das suas coisas; virou- se para me dirigir um último aceno de mão, antes de se afastar pela praia fora, em direção ao sítio onde os velhos cedros semi enterrados na areia marcavam o carreiro que conduzia à estrada, mais acima.
  8. 8. Fiquei a observá-lo enquanto se afastava, apercebendo-me então de que nem sequer ficara a saber como se chamava. E, o que era pior, ele tão-pouco se dera ao cuidado de perguntar o meu nome. Eu era, simplesmente, a filha de Rufus Marsh. Mas ainda assim, no domingo seguinte, se o tempo continuasse agradável, talvez voltasse. Se o tempo se mantivesse bom. O que era sempre de desejar. Capítulo 2 Fora por causa de Sam Carter que estávamos a viver em Reef Point. Sam era o agente de meu pai em Los Angeles e, em puro desespero de causa, acabara por nos propor descobrir um local pouco dispendioso para morarmos, pois Los Angeles e o meu pai eram de tal maneira antagônicos que este não fora capaz de escrever um único trabalho comerciável durante a nossa permanência naquela cidade, pelo que Sam ficara à beira de perder tanto clientes preciosos como dinheiro. - Há um lugar em Reef Point - sugerira Sam. - É muito insignificante, mas tranqüilidade não lhe falta... do gênero daquela que só se consegue nos confins do mundo - acrescentou, esconjurando visões de uma espécie de paraíso gauguiniano. Alugáramos então a cabana, embaláramos todos os nossos pertences mundanos que eram tristemente escassos, no velho e desconjuntado Dodge do pai, e rumáramos para aquelas paragens, deixando para trás a poluição atmosférica, a lufa-lufa de Los Angeles, e ficando excitados como crianças ao sentirmos os primeiros odores a maresia. E ao princípio fora, de fato, excitante. Depois da cidade, era uma delícia acordar ao som das aves marinhas e do rebentar constante das ondas. Era esplêndido caminhar sobre a areia de manhã cedo, ver o sol nascer sobre as colinas, pegar num bocado de espuma e vê-la crescer e enfunar com o vento, branca como velas novas. A nossa vida doméstica era, como não podia deixar de ser, simples. Seja como for, nunca fui muito eficiente nas tarefas inerentes a essa condição, e em Reef Point só havia uma lojinha - um supermercado que, na Escócia, a minha avó teria chamado de "casa tem-tudo", pois vendia de tudo, desde licenças de porte de arma a batas para a lida doméstica, desde alimentos congelados a pacotes de Kleenex. Era administrada por Bul e Myrtle em estilo pouco dinâmico e moroso, pois parecia sempre que os vegetais frescos tinham esgotado, assim como a fruta, galinhas e ovos, que eram o tipo de compras que eu quereria fazer. Contudo, durante o Verão, começamos a apreciar bastante a carne enlatada e as pizzas congeladas, assim como todas as variedades de gelados que, ao que parecia, Myrtle adorava, pois era tremendamente gorda, dando a impressão de que as enormes coxas e ancas estavam prestes a rebentar as jeans que usava, e andava com os braços reboludos completamente à mostra nas blusas juvenis sem mangas que escolhia para vestir. Agora, porém, decorridos seis meses em Reef Point, começava a sentir-me inquieta. Até quando duraria aquele magnífico "Verão Indiano?” Mais um mês, quando muito. Depois, as tempestades começariam inevitavelmente, a noite cairia mais cedo e as chuvas chegariam, acompanhadas de lama e vento. A cabana não dispunha de qualquer tipo de aquecimento central, apenas de uma lareira enorme na sala de estar atravessada por correntes de ar, que consumia madeira em quantidades industriais. Recordava, saudosa, os cestos cheios de carvão que se usavam na
  9. 9. minha terra, mas ali era material que não se usava. Sempre que voltava da praia, levava comigo, qual pioneira, algum pau ou pedaço de madeira trazida pela correnteza, que juntava à pilha amontoada contra o alpendre das traseiras. Esta ia ganhando uma altura considerável; no entanto, eu sabia que mal começássemos a ter necessidade de acender a lareira, daríamos conta dela num ápice. A cabana ficava mesmo à beira da praia, unicamente protegida dos ventos marítimos por uma pequena elevação de terreno arenoso. Era de madeira acinzentada e erguia-se sobre pilares do mesmo material, pelo que o acesso aos alpendres da frente e das traseiras era feito por um pequeno lanço de escadas. No interior, havia uma sala de estar espaçosa, dotada de janelas panorâmicas voltadas para o mar; a cozinha era minúscula, estreita; uma casa de banho - sem banheira, apenas um chuveiro - e dois quartos de dormir, um maior, com cama de casal, onde o meu pai ficava, e outro mais pequeno, o meu, com uma cama de solteiro, destinado a uma criança pequena ou a um parente de mais idade. Estava mobiliada no estilo vagamente deprimente das cabanas de Verão, notando-se que todas as peças eram nitidamente provenientes de outras casas maiores. A cama do meu pai era uma vasta monstruosidade de bronze à qual faltavam as maçanetas e com uma série de molas que chiavam de cada vez que se virava. E no meu quarto havia um espelho de gesso trabalhado e pintado de dourado, que parecia ter iniciado os seus dias num bordel vitoriano, devolvendo-me a imagem de uma mulher afogada e coberta de manchas escuras. A sala de estar não estava em melhor estado de conservação: os velhos sofás balançavam e tinham o forro gasto disfarçado por coberturas de crochet, o tapete puído tinha um buraco e o enchimento de crina de cavalo dos outros sofás dava a impressão de estar prestes a romper a barreira do tecido. A única mesa existente fora ocupada, numa das extremidades, pelo pai, que aí montara a sua secretária, o que nos obrigava, às refeições, a comer quase em cima um do outro, na outra ponta. O melhor que a casa tinha era o assento da janela, que ocupava toda a extensão da parede, almofadado com espuma e coberto por tapetes e almofadas quentes e felpudas, e tão convidativo como um sofá velho quando tínhamos vontade de nos enrodilhar a ler, assistir ao pôr do sol ou, simplesmente, refletir. Mas era um local solitário. À noite, o vento cutucava e abria caminho por entre as frinchas que rodeavam a janela e as salas enchiam-se de estranhos ruídos e rangidos, dando a nítida sensação de que navegávamos num navio, em pleno alto- mar. Quando o meu pai ali estava, nada daquilo fazia diferença, mas quando eu ficava sozinha, a minha imaginação, inspirada pelas histórias de violência de todos os dias que eu lia nas colunas do jornal da região, levantava amarras. A cabana em si já era uma construção frágil e nenhuma das fechaduras das portas deteria um intruso determinado e, agora que o Verão chegara ao fim e os ocupantes das restantes cabanas tinham feito as malas e regressado aos respectivos lares, tornava-se ainda mais isolado. Mesmo Myrtle e Bill ficavam a uns bons cinqüenta metros de distância, além do telefone ser uma extensão que nem sempre funcionava com muita eficiência. Fosse como fosse, nem valia a pena pensar nas possibilidades. Nunca falara ao meu pai nestes medos - ele tinha, vendo bem, um trabalho de responsabilidade a realizar e como era, intrinsecamente, um homem perceptivo, tenho a certeza de que me considerava capaz de entrar em pânico, uma das razões pelas quais me deixara ficar com Rusty.
  10. 10. Nessa tarde, depois do dia passado na praia cheia de gente, do sol brilhante e do meu encontro com o jovem estudante de Santa Bárbara, a cabana parecia ainda mais deserta. O sol deslizara para lá da linha do horizonte, levantara-se uma brisa marítima e não tardava a ficar noite, pelo que, à laia de companhia, acendi a lareira, empilhando afoitamente alguns pedaços da madeira trazida pelas ondas; e, para maior conforto, tomei um duche, lavei o cabelo e, envolta numa toalha, fui ao meu quarto buscar umas jeans lavadas e uma velha camisola branca que pertencera ao meu pai até eu, sem querer, ter feito com que ficasse encolhida. Por baixo do espelho de bordel estava uma cômoda envernizada com gavetas, que também tinha de servir de mesinha-de-cabeceira. Sobre ela, por falta de espaço noutro sítio qualquer, colocara as minhas fotografias. Eram muitas, ocupavam bastante espaço e raramente olhava para elas, mas naquela noite era diferente e, enquanto desemaranhava o cabelo comprido, mirei-as, uma a uma, como se fossem de uma pessoa que mal conhecia, de lugares que nunca vira. Uma era da minha mãe, um retrato formal, em moldura de prata. Tinha os ombros descobertos, brincos de diamantes nas orelhas e o cabelo acabado de pentear na Elizabeth Arden. Adorava aquela foto, porém, não era assim que a recordava. Uma outra estava mais próxima da realidade; fora tirada num piquenique e depois ampliada; nesta, ela usava a sua saia escocesa e, sentada sobre uma meda de feno que quase lhe dava pela cintura, ria como se algo de ridículo estivesse prestes a acontecer. E, depois, havia a coleção - mais propriamente a montagem - com a qual enchera ambas as faces do enorme porta-retratos em cabedal: Elvie - a velha casa pintada de branco, tendo por fundo um cercado de lanços e pinheiros, a colina a erguer-se ao fundo, o brilho do lago depois do prado, o pequeno barco a motor, e o outro, maior, no qual costumávamos ir pescar trutas. E a minha avó, no umbral das janelas francesas, abertas, com a onipresente tesoura de podar nas mãos. E um postal a cores do lago Elvie, que eu comprara na estação de correios de Thrumbo. E outro piquenique, com os meus pais juntos, ao fundo o nosso velho carro e um anafado spaniel pintalgado aos pés da minha mãe. E havia ainda as fotografias do meu primo Sinclair. Dúzias delas. Sinclair com a sua primeira truta, Sinclair envergando o seu kilt, preparado para uma saída qualquer, Sinclair de camisa branca, capitão da equipa de críquete do seu liceu, Sinclair a fazer esqui, Sinclair ao volante do seu carro e, por fim, com um chapéu de papel numa festa de passagem de ano, parecendo ligeiramente embriagado. (Nesta fotografia, tinha um braço em redor dos ombros de uma rapariga morena e bonita, embora eu tivesse disposto as fotos de maneira a esta não aparecer.). Sinclair era filho de Aylwyn, irmão da minha avó. Aylwyn casara demasiado jovem - disseram todos -, com uma rapariga chamada Silvia. A discordância da família em relação à escolha mostrou-se fundamentada pois, mal deu ao jovem marido um filho varão, Silvia largou os dois e foi Viver com um homem que era corretor de imóveis nas ilhas Baleares. Desvanecido o choque inicial, todos concordaram que fora o melhor que podia ter acontecido, em especial para Sinclair, que foi entregue aos cuidados da avó e criado em Elvie no meio do maior conforto. Eu ficara sempre com a idéia de que o meu primo desfrutara sempre do bom e do melhor. De seu pai, o meu tio Aylwyn, não conservava nenhuma recordação. Era eu ainda muito pequena, partira para o Canadá, voltando, presumivelmente, de vez em quando, para visitar a mãe e o filho, mas nunca durante as nossas permanências em
  11. 11. Elvie. O meu único interesse nele residia na possibilidade de me enviar um toucado de pele-vermelha. No decorrer dos anos, devo ter feito a sugestão uma centena de vezes, mas sempre em vão. De modo que Sinclair fazia, virtualmente, de filho da minha avó. Não conseguia recordar-me de alguma altura em que não me tivesse sentido mais ou menos apaixonada por ele. Seis anos mais velho do que eu, fora o mentor da minha infância, infinitamente sábio e constantemente corajoso. Ensinara-me a prender um anzol numa linha, a balouçar de cabeça para baixo no seu trapézio, a atirar uma bola de críquete. Juntos, tínhamos nadado, andado de trenó, acendido fogueiras ilegais, construído uma casa numa árvore e brincado aos piratas no velho barco que metia água. Quando vim para a América, escrevia-lhe regularmente, mas, pouco a pouco, fui desistindo devido à falta de resposta. Em breve, a nossa correspondência ficou resumida a cartões de boas-festas no Natal ou a um bilhete escrevinhado à pressa no dia de anos, sendo através da minha avó que eu obtinha notícias dele; também fora por intermédio desta que recebera a fotografia da festa de passagem do ano. Depois da morte da minha mãe, como se a sua responsabilidade por Sinclair não lhe bastasse, a minha avó ofereceu-se para me proporcionar, igualmente, um lar. "Rufus, por que não deixas a criança comigo?" Fizera a pergunta logo após o funeral, depois do regresso a Elvie, pondo o desgosto de lado e falando sobre o futuro com o seu feitio prático. Não estava previsto eu escutar, no entanto encontrava-me ali, nas escadas, e as vozes chegavam nitidamente até mim através da porta fechada da biblioteca. "Porque já é mais do que suficiente ter uma criança ao seu cuidado”. "Mas eu adoraria ficar com ela e ela também me faria companhia”. "Não achas que é um pouco de egoísmo da tua parte?”. "Não creio. Mas, Rufus, agora é na vida dela que deves pensar, no seu futuro..." O meu pai disse uma palavra muito feia. Fiquei horrorizada, não com a palavra, mas porque ele lha dissera. Talvez estivesse ligeiramente embriagado... Fazendo de conta que não a ouvira, com os seus modos habitualmente senhoris, a minha avó não esmoreceu, baixando, contudo, o seu tom de voz, como acontecia sempre que começava a ficar zangada. "Acabaste de me dizer que vais para a América escrever o guião do teu livro para um filme. Não podes levar atrás uma jovem de catorze anos daqui até Hollywood”. "Por que não?" "E quanto aos estudos dela?" "Na América há escolas." "Não me custaria nada ficar com ela aqui. Só até te instalares, encontrares um lugar para viver." O meu pai empurrara ruidosamente a cadeira para trás ao levantar-se. Ouvi-o andando de um lado para o outro. "E depois mando-a ir e tu mandá-la de avião?" "Evidentemente." "Não dará resultado, sabes." "Porquê?" "Porque se deixar Jane aqui contigo, seja por que período de tempo for, Elvie tornar- se-á o seu lar e nunca mais quererá deixá-lo. Conheces bem a adoração que ela tem por este lugar."
  12. 12. "Então, para bem dela..." "Para bem dela, leva-la-ei comigo”. Fez-se um silêncio prolongado. Depois, a minha avó voltou a falar. "A única razão não é essa, pois não, Rufus?" O meu pai hesitou, como se não desejasse ofendê-la. "Não", respondeu finalmente, "não é." "Apesar de todas as considerações, continuo a achar que vais cometer um erro." "Se assim for, assumo a responsabilidade. Da mesma maneira que ela é a minha única filha e eu não quero separar-me dela." Ouvira o suficiente. Levantei-me com um pulo e subi a correr as escadas às escuras. No meu quarto, de bruços sobre a cama, chorei copiosamente porque ia deixar Elvie, nunca mais veria Sinclair, e as duas pessoas que mais amava no mundo tinham estado a discutir uma com a outra por minha causa. Escrevi à minha avó e esta respondeu, evidentemente, e as suas cartas traziam-me os sons e os odores de Elvie. Até que um dia, passara-se já um ano, perguntou numa carta: "Por que não vens até à Escócia?", escreveu. "Só para umas pequenas férias, um mês, mais ou menos. Temos imensas saudades tuas e por aqui há muito que ver. Plantei um novo roseiral no jardim murado e Sinclair virá cá passar o mês de Agosto... tem um pequeno apartamento em Earls Court e ofereceu-me almoço da última vez em que fui à cidade. Se houver alguma dificuldade com a passagem, sabes que basta avisar pois direi a Mr. Benjamm, da agência de viagens, que te envie um bilhete de ida e volta. Fala do assunto com o teu pai." A perspectiva de passar o mês de Agosto em Elvie na companhia de Sinclair era quase irresistível; todavia, não podia apresentá-la ao meu pai porque ouvira a discussão irada que haviam tido na biblioteca e não acreditava que obtivesse permissão para a viagem. Além disso, dava a impressão de que nunca havia tempo ou oportunidade para tal viagem. Era como se nos tivéssemos tornado nômades - chegávamos a um lugar, instalávamo-nos e, pouco tempo depois, partíamos para outro lado qualquer. Às vezes, tínhamos dinheiro em abundância, mas na maior parte do tempo andávamos com falta dele. O meu pai, faltando-lhe a contenção da minha mãe, gastava dinheiro a esmo. Vivemos em mansões de Hollywood, motéis, apartamentos na Quinta Avenida, pensões atravancadas. À medida que os anos foram passando, ficávamos com a sensação de que não fizéramos outra coisa na vida senão passear por toda a América e que nunca mais voltaríamos a assentar num lugar; em simultâneo, a lembrança de Elvie ia-se tornando cada vez mais diluída e ganhando foros de irrealidade, como se as águas do lago Elvie tivessem subido e engolido o lugar, e era com esforço que fazia por me recordar que continuava no mesmo sítio, habitado por seres humanos ligados à minha vida e a quem amava, não que estes se tinham afogado e desaparecido para sempre, diluídos e indistintos nas águas profundas de alguma catástrofe natural. Aos meus pés, Rusty ganiu. Sobressaltada, olhei para baixo e, por um instante, tão alheada estivera, não conseguia perceber o significado da sua presença e da sua manifestação. Até que, qual filme visto no vídeo de casa que a certa altura pára, ouviu-se um dique no mecanismo e a vida do dia-a-dia continuou a passar; percebi então que já tinha o cabelo quase seco, que Rusty estava cheio de fome e queria o seu jantar e, mais, que comigo acontecia o mesmo. Pousei então a minha escova e
  13. 13. afastei Elvie dos meus pensamentos, deitei mais lenha na lareira e fui então inspecionar o frigorífico, em busca de algo para comermos. Eram quase nove horas quando ouvi o carro descer a colina, pelo carreiro que vinha de La Carmella. Dei por ele porque vinha em primeira, como todos são obrigados a fazer ali, e porque estava sozinha e o meu subconsciente encontrava-se especialmente receptivo ao mais insignificante som que fugisse à normalidade. Lia um livro e, quando ia a voltar uma página, parei abruptamente e escutei com atenção. Rusty sentiu a alteração verificada em mim e sentou-se, mantendo-se muito quieto, como se não desejasse perturbar o que quer que fosse. Juntos, ficamos à escuta. Na lareira, um a acha cedeu e, à distância, a rebentação do mar ecoou, retumbante. O carro continuou a descer a vertente. Pensei: "Devem ser Myrtle e Bill. Foram ao cinema a La Carmella." A viatura, porém, não parou no supermercado. Continuou a descer, sempre com a mudança em primeira, passou os cedros onde os apreciadores de piqueniques estacionavam os seus carros, seguindo pelo caminho que só podia vir na minha direção. Meu pai? Mas o seu regresso só estava previsto para a noite do dia seguinte... O jovem que conhecera naquele dia, voltando para tomar um copo de cerveja? Um passante? Um preso fugido? Um maníaco sexual...? Pus-me de pé num pulo, deixando cair o livro em cima do tapete puído e corri a verificar os fechos das portas. Estavam ambos bem presos. Mas a cabana não tinha cortinas, qualquer pessoa podia olhar para dentro e observar-me sem ser vista. Num frenesi de medo, fui desligar precipitadamente todas as luzes, embora a lareira continuasse bem acesa, enchendo a sala de estar de uma luminosidade tremeluzente... brincando às sombras nas paredes e nos móveis, dando aos sofás um aspecto sombrio e agressivo. No lado de fora, luzes e faróis vasculhavam a escuridão. Naquele momento, já podia ver o automóvel, que se aproximava lentamente, saltando ao passar sobre as raízes secas que juncavam o caminho. Passou pela cabana que ficava antes da nossa e estacionou suavemente junto do nosso alpendre das traseiras. E não era o meu pai. Chamei Rusty para o meu lado com um sussurro, sentindo uma certa segurança ao agarrar-me à sua coleira inseticida e ao sentir-lhe o calor do pêlo. Rosnava baixinho, sem, no entanto, ladrar. Depois ouvimos, juntos, o motor ser desligado e a porta abrir e fechar. Por um momento reinou o silêncio. Depois soaram passadas suaves sobre o piso arenoso que se estendia entre a estrada e o alpendre das traseiras e, logo a seguir, bateram à porta. Deixei escapar uma espécie de arquejo e Rusty não conseguiu conter-se por mais tempo. Libertando-se da prisão a que a minha mão o sujeitava, correu para a porta a ladrar desalmadamente para quem quer que estivesse do lado de fora. - Rusty! - chamei, correndo atrás dele mas não conseguindo que se calasse. - Rusty, quieto, não faças barulho... Rusty! Segurei-o pela coleira e afastei-o da porta a custo; no entanto, o animal não se calava e eu lembrei-me de que, quem não o estivesse a ver, possivelmente imagina- lo-ia enorme e feroz, o que, se calhar, era o melhor que podia acontecer. Recompus-me, dei-lhe um safanão que finalmente o calou, e depois endireitei-me. A minha sombra, projetada pela luz da lareira acesa, dançava de encontro à porta trancada.
  14. 14. Engoli em seco, respirei fundo e perguntei com a voz mais firme e nítida que me foi possível improvisar: - Quem é? Foi um homem que respondeu. - Desculpe incomodar, mas ando à procura da casa de Mr. Marsh. Seria um amigo do pai? Ou não passaria de um truque para entrar? Hesitei. O homem voltou a falar. - É aqui que Rufus Marsh vive? - Sim, e. - Ele está em casa? Seria outro truque? - Porque deseja saber? - perguntei. - Bem, disseram-me que talvez o encontrasse aqui. Eu continuava a tentar decidir-me sobre o que fazer quando o homem acrescentou, num tom bem diferente: - E Jane? Não há nada que mais desarme uma pessoa do que ouvir um desconhecido pronunciar o seu nome. Além disso, havia algo na voz dele... apesar de não chegar até mim muito nitidamente através da porta trancada... algo... Retorqui: - Sou. - O seu pai está em casa? - Não, foi a Los Angeles. Quem é o senhor? - Bem, chamo-me David Stewart... eu... olhe, é um bocado difícil falar com a porta pelo meio... Mas, ainda ele não terminara a última palavra, já eu soltara o fecho e lhe abrira a porta. E cometi esse ato aparentemente insano devido ao modo como ele dissera o seu apelido: Stewart. Normalmente, os americanos têm dificuldade em pronunciá- lo... dizem "Stoowart". Mas ele fizera-o da mesma maneira que a minha avó, portanto não era americano, vinha da minha terra. E, com um nome como aquele, provavelmente, chegara da Escócia. Talvez fosse minha obrigação reconhecê-lo imediatamente, mas, na realidade, era a primeira vez que o via. Continuou à minha frente, com a luz dos faróis ainda acesos a incidirem-lhe nas costas, pelo que somente a que provinha da lareira é que me permitia distinguir-lhe o rosto. Usava óculos de aros de tartaruga e era alto... mais do que eu. Ficamos a olhar um para o outro, ele estupefato pela minha mudança de atitude, eu subitamente envolvida por uma onda súbita de pura raiva. Nada irrita mais do que apanhar um susto, e o que eu acabara de receber fora bem grande. - Que intenção é a sua, chegando assim tão sorrateiramente a meio da noite... Até eu me dei conta do tremor e da insegurança que a minha voz deixava transparecer. O desconhecido respondeu com uma certa lógica: - São só nove da noite e não era minha intenção aparecer sorrateiramente. - Podia ter-me telefonado a avisar da sua vinda. - Não consegui encontrar o vosso número na lista. Não fizera menção de entrar e Rusty continuava a rosnar e a mirá-lo com ar de poucos amigos, no lado de fora. - Além disso - acrescentou -, não fazia idéia de que estivesse sozinha, caso
  15. 15. contrário teria esperado. A minha raiva começara a esmorecer e senti-me um tanto envergonhada pelo acolhimento intempestivo com que presenteara o desconhecido. -Bem... já que aqui está, é melhor entrar. Recuei e acendi a luz. A sala ficou instantaneamente inundada pela luz elétrica, brilhante e fria. Mas o desconhecido continuava a hesitar. - Não quer ver documentos que comprovem a minha identidade... como o meu cartão de crédito, por exemplo? Ou o passaporte? Fitei-o com rispidez, pois embora detectasse um brilho divertido por detrás dos óculos, não atinava com o que pudesse estar a ser tão divertido. - Se o senhor vivesse aqui há tanto tempo como eu, também não abriria a porta a qualquer vagabundo que aparecesse pela calada da noite. - Bom, antes de o vagabundo que apareceu pela calada da noite entrar, talvez não seja má idéia ele ir desligar as luzes do carro. Deixei-as acesas para poder ver melhor o caminho. Sem esperar pela resposta áspera que tanto gosto me teria proporcionado dar-lhe, voltou-me as costas e dirigiu-se para o automóvel. Deixei a porta aberta e voltei para junto da lareira, acrescentando uma acha à fogueira; reparei que tinha as mãos a tremer e o coração a bater violentamente. Endireitei o tapete puído, atirei, com o pé, o osso de Rusty para debaixo de um sofá e estava a acender um cigarro quando o desconhecido entrou na cabana, fechando em seguida a porta que dava para o alpendre das traseiras. Virei-me para ele. Era moreno, com a pele branca e o cabelo preto, comuns a muito bom montanhês, era esguio e tinha um ar deveras intelectual, se bem que um tanto desajeitado e simplório. Envergava um fato de tweed macio, ligeiramente gasto nos cotovelos e nos punhos, uma camisa axadrezada em tons de branco e castanho e uma gravata verde-escura, parecendo um mestre-escola ou um professor de sabe- se lá que ciência. Quanto à idade, era impossível de calcular. Podia situar-se algures entre os trinta e os cinqüenta. Perguntou-me: - Já se sente melhor? - Estou bem - retorqui, embora as mãos continuassem a tremer-me, pormenor em que ele reparou. - Não lhe faria mal nenhum tomar uma pequena bebida. - Não sei se há alguma bebida em casa. - Onde poderíamos procurar? - Talvez debaixo do assento da janela... O desconhecido acercou-se do armário que ficava no lugar que eu lhe indicara, tateou um pouco no seu interior e, ao retirar o braço, trouxe uma boa camada de pó na manga e uma garrafa de Haig, a um quarto, na mão. - Serve perfeitamente. Agora só precisamos de um copo. Fui à cozinha e voltei com dois copos, um jarro de água e o recipiente de gelo que tirara do congelador, ficando a vê-lo preparar as bebidas. Estava estranhamente bronzeado. Observei: - Não aprecio muito uísque. - Considere-o como um medicamento. Passou-me o meu copo.
  16. 16. - Não quero ficar embriagada. - Com essa porção, asseguro-lhe que não. Não me parecia descabido. O uísque sabia a fumo e proporcionou-me uma sensação maravilhosa de calor. Reconfortada, senti um certo embaraço por ter sido tão tola. Sorri-lhe, hesitante. O desconhecido retribuiu-me o sorriso. - E que tal sentarmo-nos? Assim fizemos, eu no tapete puído, ele na beira da enorme poltrona do meu pai, com as mãos escondidas entre os joelhos e o copo da bebida no chão, entre os pés. Perguntou: - Já agora, gostaria de saber o que foi que a levou a abrir a porta. - Foi o modo como pronunciou o seu apelido: Stewart. É da Escócia, não é? - Precisamente. - De que zona? - De Caple Bridge. - Mas fica perto de Elvie! - Eu sei. Sabe, trabalho para Ramsay McKenzie e King... - A firma de advogados da minha avó. - Exato. - Mas não me recordo de si. - Só estou na firma há cinco anos. Senti um aperto no coração, mas obriguei-me a perguntar: - Por acaso não houve... algum problema... - Nada de especial - retorquiu-me com voz reconfortante. - Então, porque veio até aqui? - Trata-se de uma questão - disse David Stewart - relacionada com uma série de cartas que ficaram sem resposta. Capítulo 3 Passado um bocado, declarei: - Não compreendo. - Quatro, para ser mais preciso. Três da própria mistress Bailey e uma da minha parte, escrita em seu nome. - Escrita a quem? - Ao seu pai. - Quando? - No decurso dos últimos dois meses. - Enviaram as cartas para aqui? Não sei se sabe, mas acontece que mudamos de residência com muita freqüência. - A menina foi a própria a escrever à sua avó a dar esta morada. Era verdade. Quando nos mudávamos, eu informava-a sempre do novo endereço. Atirei o cigarro meio consumido para o fogo e fiz um esforço para me adaptar àquela situação inusitada. O meu pai, não obstante todos os seus defeitos, era um homem que não guardava nada para si... pelo contrário, chegava a pecar por excesso no sentido oposto, barafustando e queixando-se durante dias a fio se algo o perturbava ou preocupava. Relativamente às cartas, porém, não lhe ouvira qualquer referência. O advogado induziu-me a falar.
  17. 17. - Não viu as cartas de que falo? - Não. O que não me surpreende, porque é sempre o meu pai que vai buscar diariamente o correio ao supermercado. - Talvez não as tenha chegado a abrir... Mas também aquela possibilidade estava fora de questão. O meu pai não deixava uma carta por abrir. Não que as lesse, mas havia sempre a possibilidade auspiciosa de o envelope conter um cheque. Respondi: - Não, não o faria. - Engoli em seco e afastei o cabelo da cara. - De que falavam as cartas? Provavelmente não sabe. - Mas é evidente que sei. Notei que era capaz de falar com grande secura e não era difícil imaginá-lo ao abrigo de uma secretária antiquada, disfarçando constrangimentos juntamente com emoções e lidando energicamente com pilhas de testamentos incompreensíveis, declarações escritas e juramentadas, transações comerciais, contratos de arrendamento e mandatos judiciais. - Acontece simplesmente que a sua avó deseja que a miss volte à Escócia... para uma visita... Retorqui: - Estou a par desse seu desejo, nunca deixa de lhe fazer referência quando nos escreve. O advogado ergueu um sobrolho, interrogativo. - Não tem vontade de lá voltar? - Tenho... claro que tenho... Pensei no meu pai e lembrei-me da conversa escutada fazia tanto tempo. - Não sei... quero dizer, não é uma decisão que possa tomar de ânimo leve... - Existe alguma razão para que não vá? - Bem, claro que existe... o meu pai. - Pretende dizer que o seu pai não dispõe de mais ninguém que cuide dos seus assuntos domésticos? - Não, não é nada disso. Ele aguardou que eu adiantasse algo mais relativamente à afirmação, talvez que lhe dissesse qual era a minha idéia. Fiz por não o fitar nos olhos, olhando antes para o fogo. Tinha a desagradável sensação de que o meu rosto deixava transparecer uma expressão que podia ser descrita como envergonhada. O advogado declarou: - Sabe, nunca houve nenhum ressentimento pelo fato de o seu pai a ter trazido para a América... - Ela queria que eu ficasse em Elvie. - Quer então dizer que tem conhecimento? - Tenho, ouvi-os a discutir. Coisa que raramente fazem. Acho que sempre se deram muito bem. Mas houve uma zanga terrível por minha causa. - Mas isso teve lugar há sete anos atrás. Certamente que agora, só aqui entre nós, podemos tomar algumas providências. Apresentei a desculpa mais óbvia. - Mas é tão caro... - Mistress Bailey não tem nenhuma objeção em pagar a sua passagem. Imaginei, lugubremente, a reação que o meu pai teria perante semelhante proposta.
  18. 18. - Basta que se ausente durante cerca de um mês - continuou o advogado. - Não tem vontade de ir? Os seus modos desarmaram-me. - Sim, claro que tenho.. - Então, porquê essa falta de entusiasmo? - Não quero desgostar o meu pai. É óbvio que ele não quer que eu vá, caso contrário teria respondido a essas cartas de que falou. - Sim, as cartas. Onde poderão estar? Indiquei a mesa que se encontrava atrás dele, a pilha de manuscritos e livros de consulta, velhos arquivos, envelopes e, lamentavelmente, faturas por pagar. - Aí em cima, suponho. - Porque será que ele nunca lhe falou delas? Não respondi, porém imaginei conhecer o motivo. De certa maneira, o meu pai ressentia-se com Elvie e o fato de o lugar me ser tão querido. Sentia, provavelmente, algum ciúme da família da parte da minha mãe. Tinha receio de me perder. Respondi: - Não faço idéia. - Bem, quando espera que ele regresse de Los Angeles? Retorqui-lhe: - Não me parece que seja aconselhável o senhor vê-lo. Serviria apenas para o fazer infeliz pois, mesmo que concordasse com a minha partida, eu não teria coragem para o deixar aqui sozinho. - Mas, com certeza, poderíamos tomar alguma medida... - Não, não poderíamos. Ele não pode deixar de ter alguém que olhe por si. Tem o espírito menos prático do mundo... nunca comprou nenhum alimento ou gasolina para o carro e, se eu o deixasse, andaria permanentemente preocupada com ele. - Jane... olhe que não pode deixar de pensar um pouco em si... - Irei noutra ocasião. Diga-o à minha avó. O advogado refletiu, em silêncio, sobre a questão. Acabou de tomar a sua bebida e depois pousou o copo. - Bem, fiquemos por aqui. Amanhã de manhã, regresso a Los Angeles, por volta das onze da manhã. Tenho um lugar reservado para si no avião que vai para Nova Iorque terça-feira de manhã. Não há absolutamente razão alguma para que não reflita maduramente no caso e se por acaso mudar de idéias... - Não mudarei. O advogado ignorou a minha afirmação. - Se mudar de idéias, nada a impede de me acompanhar. - Levantou-se. - Continuo a ser de opinião de que devia ir. Como não gosto que me olhem de cima para baixo, também me pus de pé. - Parece muito seguro de que irei consigo. - Tenho essa esperança. - Acha que são apenas desculpas, não é? - Não totalmente. - Lamento muito que tenha feito uma viagem tão longa em vão. - Estive em Nova Iorque a tratar de uns assuntos. E tive muito gosto em conhecê-la, embora lamente não ter encontrado o seu pai. - Estendeu-me a mão. - Adeus, Jane. Hesitei, mas depois estendi-lhe a minha. Os americanos não são grandes adeptos
  19. 19. dos apertos de mão e uma pessoa depressa perde o hábito. - Levarei saudades suas à sua avó. - Sim, e a Sinclair. - Sinclair? - Costuma vê-lo, não? Quando ele vai a Elvie. - Sim, sim, de fato vejo-o. E claro que lhe darei saudades suas. Pedi-lhe: - Diga-lhe que me escreva. Dito isto, inclinei-me para fazer uma festa a Rusty, pois não queria que David Stewart reparasse que eu tinha os olhos rasos de lágrimas. Depois de o advogado se retirar, voltei para a cabana e fui até à ponta da mesa onde o meu pai tinha os seus papéis. Não demorei muito a encontrar as quatro cartas, todas abertas e, obviamente, lidas. Não quis saber o que diziam. Prevaleceram os meus instintos mais nobres - e, fosse como fosse, já sabia do que falavam, portanto limitei-me a colocá-las novamente onde tinham estado, no meio da papelada. Fui ajoelhar-me no assento da janela, abrindo-a e ficando a olhar para fora. Estava muito escuro, o mar parecia negro, e fazia frio, muito embora os meus terrores se tivessem dissipado. Pensei em Elvie e desejei profundamente lá estar. Revi mentalmente os gansos a sulcarem os céus, o cheiro da turfa a arder na lareira do vestíbulo. Pensei no lago, de um azul brilhante e calmo como um espelho, ou acinzentado e vergastado por ondas brancas levantadas pelos ventos fortes e intempestivos vindos do norte. De repente, senti uma vontade tão violenta de lá estar que quase me doeu fisicamente. E senti-me furiosa com o meu pai. Não queria deixá-lo, mas de fato ele podia ter discutido o assunto comigo, dando-me a oportunidade de tomar uma decisão própria. Tinha vinte e um anos, já não era nenhuma criança e aquela atitude, que eu considerava intoleravelmente egoísta e antiquada, provocava-me ressentimento. Só espero até ele regressar, prometi a mim mesma. Só espero até lhe falar daquelas cartas. Dir-lhe-ei... dir-lhe-ei... Mas a minha ira foi de curta duração. Nunca conseguia ficar zangada durante muito tempo. Acalmada, provavelmente, pelo ar da noite, ela acabou por se diluir e desaparecer, deixando-me estranhamente vazia. No fundo, nada mudara. Eu ficaria com o meu pai porque o adorava, porque ele queria-me junto dele, precisava de mim. Não havia alternativa possível. E não lhe pediria explicações sobre as cartas porque o fato de ser apanhado em falta deixa-lo-ia embaraçado e humilhado, e era importante que, se quiséssemos continuar a viver juntos, ele continuasse a ser mais importante, forte e ponderado que eu. Estava muito entretida a esfregar o chão da cozinha na manhã seguinte quando ouvi o chiar inconfundível do velho Dodge a descer a encosta, enveredando depois pelo caminho que ia dar a Reef Point. Limpei rapidamente o último quadrado de linóleo castanho cheio de fissuras, depois pus-me de pé, atirei o pano do chão para um canto, despejei a água no lava-louças e saí ao encontro do meu pai pelo alpendre da frente, limpando, ao mesmo tempo, as mãos ao velho avental às riscas que pusera. Estava um dia estupendo: o sol quente, o céu azul e cheio de nuvens brancas e brilhantes tocadas pelo vento, a manhã resplandecente e o rebentar das ondas altas sobre a praia. Já fizera uma máquina de roupa, que agora secava, adejando no estendal; baixei-me para passar por baixo desta e saí para a estrada, enquanto o
  20. 20. carro vinha na minha direção, saltando e balançando violentamente ao passar por cima das raízes. Reparei imediatamente que o meu pai não vinha sozinho. Como o tempo estava esplêndido, baixara a capota do carro e ao seu lado vinha, sem a menor dúvida, com a cabeça de cabelos ruivos ao vento, Linda Lansing. Ao avistar-me, inclinou-se sobre a porta do carro e acenou-me, enquanto o cão-d'água branco que trazia ao colo também espreitou pela janela, lançando-se num paroxismo de latidos, como se eu não passasse de uma intrusa. Rusty, que estivera na praia muito entretido com um bocado de cesto velho, ouviu o cão-d'água e veio imediatamente em meu socorro, dando a volta à esquina da cabana a correr, ladrando desalmadamente, fazendo pequenas investidas contra o Dodge, de dentes à mostra, incapaz de aguardar o momento de êxtase que seria poder mergulhá-los no pescoço do congênere. Antes que houvesse a menor possibilidade de conversa humana, o meu pai praguejou, Linda gritou e apertou o cão-d'água contra si, este ganiu e eu agarrei Rusty pela coleira inseticida e arrastei-o para casa, mandando-o calar e portar-se bem. Deixei-o, entretanto, amuado e voltei a sair. O meu pai apeara-se. - Olá, fofinha - cumprimentou, dando a volta ao carro para me vir abraçar e beijar. O seu amplexo fez-me vislumbrar como seria o de um gorila e a barba que usava arranhou-me a cara. - Está tudo bem? - Sim, tudo ótimo - retorqui, afastando-me. - Viva, Linda. - Viva, querida. - Desculpe o comportamento do cão. Fui abrir-lhe a porta. Linda vinha completamente maquiada, trazia pestanas postiças, um fato de treino azul-bebê e sabrinas douradas. O cão-d'água tinha uma coleira cor-de-rosa enfeitada com pedrinhas a imitarem diamantes. - Não tem importância. Mitzi é muito nervosa. Creio que tem a ver com o seu pedigree excelente. Ergueu o rosto, de lábios esticados, para receber o meu beijo. Mal lho dei, o cão- d'água começou novamente a ganir. - Por amor de Deus - exclamou o meu pai -, cala-me essa malfadada cadela. Linda atirou-a então para fora do carro sem cerimônias e também saiu. Linda Lansing era atriz. Vinte anos antes, aparecera em Hollywood como starlet, o que significava uma prodigiosa campanha publicitária seguida de uma fiada de filmes medíocres, nos quais desempenhava sempre papéis de cigana, camponesa, usando blusas cingidas de ombros descobertos, lábios pintados de vermelho-escuro e uma expressão lúgubre e mal-humorada. Mas este tipo de filmes acabou, inevitavelmente, por sair de moda, assim como o seu tipo de representação, e Linda seguiu o mesmo destino. Astutamente, pois de estúpida não tinha nada, casou imediatamente. "O meu marido está primeiro que a minha carreira", diziam as legendas que acompanhavam as fotografias do casamento; durante algum tempo desapareceu, de fato, da vida cinematográfica de Hollywood. Nos últimos tempos, porém, depois de se divorciar do terceiro marido e não tendo ainda lançado a rede ao quarto, voltara a desempenhar pequenos papéis para o cinema e a televisão. Para toda uma nova geração de espectadores, tratava-se de uma cara nova e, dirigida por profissionais sagazes, revelou um talento completamente inesperado para a comédia.
  21. 21. Conhecêramo-nos num desses pavorosos beberetes de domingo à beira da piscina que tão integrados estavam na vida social de Los Angeles. O meu pai atrelara-se imediatamente a ela, sob a desculpa de que era a única mulher presente com quem valia a pena falar. Eu também gostara dela. Possuía um sentido de humor vulgar, uma voz agradavelmente profunda e uma capacidade surpreendente para se rir de si mesma. O meu pai é muito solicitado pelas mulheres; no entanto, sempre conduziu as suas ligações com admirável discrição. Eu sabia que se envolvera numa aventura com Linda, mas estava muito longe de esperar que a trouxesse para Reef Point consigo. Decidi não dar a entender a minha admiração. - Mas que surpresa. A que se deve a sua presença por estas bandas? - Oh, tu sabes como é, querida, quando o teu pai mete uma idéia na cabeça. Mas sente-me só este cheiro a maresia! Inspirou profundamente, o que lhe provocou um ligeiro acesso de tosse, e voltou ao carro para tentar descobrir a sua mala de mão. Foi nessa altura que reparei no monte de bagagem que enchia o assento de trás: três malas, uma mala-armário, um malote com os acessórios de maquiagem, um casaco de pele de marta num saco de plástico e o cesto de Mitzi, juntamente com o seu osso de borracha cor-de-rosa. Fiquei de boca aberta perante tal profusão de equipamento, mas antes que pudesse fazer alguma observação, o meu pai já me pusera fora do seu caminho com o cotovelo, tirando as duas malas. - Bem, não fiques aí especada - declarou. - Traz alguma coisa para dentro. E, dizendo isto, seguiu para a cabana. Linda, depois de reparar na minha expressão, decidiu que Mitzi precisava de dar uma corrida pela praia e desapareceu. Eu fiz menção de ir atrás do meu pai, mas, pensando melhor, fui buscar o cesto do cão e voltei então para casa. Encontrei-o na sala de estar. Depois de pousar as duas malas no meio do chão e atirar o seu boné de pala para cima de um sofá, tirou uns maços de cartas antigas e documentos do bolso, colocando-os em cima da mesa. A sala, que eu acabara de limpar e arrumar, ficou imediatamente em desordem, desalinhada, em alvoroço. O meu pai tinha o condão de provocar aquela situação pelo simples fato de entrar lá dentro. Depois, acercou-se da janela, apoiou-se a ela, lançando uma mirada à paisagem e sorvendo uma boa lufada de ar. Por cima dos seus ombros largos, eu via, ao longe, a figura de Linda a passear à beira-mar em companhia do cão-d'água. Rusty, sentado na bancada da janela, ainda amuado, nem sequer mexeu a cauda. O meu pai virou-se, tirando os cigarros do bolso. Parecia muito satisfeito consigo mesmo. - Bem - disse -, não perguntas como correram as coisas? Acendeu um cigarro, depois olhou para mim, franziu o sobrolho, e atirou o fósforo usado pela janela, que ficara atrás de si. - Para que continuas com o cesto na mão? Pousa essa porcaria. Não o fiz. Perguntei: - Que se passa? - Que queres dizer? Apercebi-me de que toda aquela euforia servia apenas para disfarçar um enorme constrangimento. - Sabes muito bem do que falo. De Linda. - Que tem Linda? Gostas dela, não é verdade?
  22. 22. - Claro que gosto, mas o problema não está aí. Que faz ela aqui? - Convidei-a a vir para cá. - Com toda aquela bagagem? Por amor de Deus, por quanto tempo? - Bem... - fez um gesto vago com a mão. - Enquanto ela quiser. - Não está a trabalhar? - Oh, fartou-se daquilo tudo. Foi à cozinha ver se encontrava uma lata de cerveja. Ouvi a porta do frigorífico abrir e fechar. - Fartou-se de Los Angeles, tal como aconteceu conosco. Foi então que tive esta idéia. - Apareceu à porta da cozinha com a lata aberta na mão. - Mal fiz a sugestão, arranjou logo alguém que lhe ficasse com a casa e a criada, fez as malas e ficou pronta para vir. - Franziu novamente o sobrolho. - Jane, ganhaste algum afeto especial a esse cesto de cão? Continuei a não ligar à observação. - Por quanto tempo? - insisti, de má catadura. - Bem, pelo tempo que nos apetecer. Não sei. Talvez o Inverno. Observei: - Não há espaço. - Claro que há. E, afinal de contas, de quem é esta casa? Esvaziou a lata, atirou-a certeiramente para o balde do lixo da cozinha e saiu para trazer o resto da bagagem. Dessa vez, levou as malas para o seu quarto. Pus o cesto de Mitzi no chão e fui atrás dele. Na divisão, onde imperava a cama enorme, agora com as malas e nós dois, pouco espaço mais restava. Perguntei: - Onde é que ela vai dormir? - Bem, onde pensas que poderia fazê-lo? Sentou-se na cama monstruosa e as molas rangeram em sinal de protesto. - Precisamente aqui. Não me ocorreu nenhuma observação. Limitei-me a olhar para o meu pai. Nunca me vira perante semelhante situação. "Terá ele perdido a cabeça?", pensei. Algo no meu rosto deve tê-lo alertado então, pois pareceu repentinamente contristado e pegou-me nas mãos. -Janey, não fiques assim. Já não és nenhuma garota, não preciso de disfarçar as coisas contigo. Gostas de Linda; se assim não fosse nem sequer pensaria em trazê- la. E far-te-á companhia, não terei de te deixar sozinha tantas vezes. Ora, deixa-te disso, põe uma cara mais alegre e vai fazer uma cafeteira de café. Retirei as mãos de entre as dele. Retorqui: - Não tenho tempo. - Que queres dizer? -Tenho... tenho de ir fazer as malas. Saí do quarto do meu pai e fui para o meu; tirei a mala de debaixo da cama e coloquei-a em cima desta; abri-a e comecei a enchê-la como se fazia nos filmes, esvaziando as gavetas uma a uma para o seu interior. Atrás de mim, postado à entrada do quarto, o meu pai perguntou-me: - Qual é a tua idéia? Voltei-me para ele com as mãos cheias de saias, cintos, lenços de cabeça e de assoar. Respondi:
  23. 23. - Vou-me embora. - Para onde? - Para a Escócia. O meu pai deu uma passada para dentro do quarto e obrigou-me a encará-lo. Continuei a falar apressadamente, sem lhe dar tempo a proferir uma palavra. - Recebeste quatro cartas - declarei - três da minha avó e uma dos advogados. Abriste-as, leste-as e nunca me falaste delas porque não querias que eu voltasse. Nem sequer discutiste o assunto comigo. A força com que me segurava nos braços não abrandou, mas reparei que empalidecera ligeiramente. - Como é que soubeste dessas cartas? Falei-lhe de David Stewart. - Ele contou-me tudo - finalizei. - Não que fosse necessário - acrescentei com indiferença -, pois de qualquer maneira já sabia do assunto. - E que é que sabes exatamente? - Que nunca quiseste que eu ficasse em Elvie depois da morte da mãe. Que nunca tiveste vontade de me levar novamente até lá. O meu pai observava-me, estupefato. - Eu estava à escuta - gritei-lhe, como se de repente tivesse sido atacada de surdez. - Encontrava-me no vestíbulo e ouvi tudo o que tu e a minha avó disseram um ao outro. - E nunca proferiste uma palavra sobre o assunto... - De que teria servido? O meu pai sentou-se cuidadosamente na beira da minha cama, como que para não perturbar a arrumação da minha mala. - Preferias que eu te tivesse deixado lá? A casmurrice dele enfureceu-me. - Não, claro que não, adorei estar contigo e não teria desejado que as coisas se passassem de maneira diferente, mas tudo isso foi há sete anos atrás e agora sou uma adulta e tu não tinhas o direito de me esconder aquelas cartas não me dizendo nada. - É assim tão grande a vontade de voltares? - É, sim. Adoro Elvie e tu sabes o que representa para mim. - Peguei numa escova e nas minhas fotografias e enfiei-as nas bolsas laterais da mala. - Não tencionava... não tencionava fazer nenhuma referência às cartas, achei que ficarias muito infeliz, e eu não podia ir-me embora porque não tinhas ninguém que cuidasse de ti. Agora, a situação mudou. - Está bem, mudou e tu vais-te embora. Não te impedirei que o faças. Mas como tencionas lá chegar? - David Stewart parte de La Carmella às onze horas. Se me apressar, ainda vou a tempo de o apanhar. Ele tem um lugar reservado para mim no avião que parte para Nova Iorque amanhã de manhã. - E quando voltas? - Oh, não tenho a menor idéia. Daqui a uns tempos, suponho. Enfiei na mala, a custo, o livro Gifi from the Sea, de Anne Morrow Lindbergh, do qual nunca me separava, fazendo o mesmo ao LP de Simon e Garfunkel. Tentei, debalde, fechar a mala demasiado cheia; abri-a então novamente e amachuquei
  24. 24. freneticamente as coisas, continuando, ainda assim, a não conseguir ser bem- sucedida. Acabou por ser o meu pai a consegui-lo, à custa de simples força, carregando na tampa e forçando os fechos a prender-se. Olhei-o nos olhos, tendo a mala a separar-nos, e disse: - Se Linda não tivesse vindo, não partiria... - A voz falhou-me. Tirei a minha gabardina do gancho de trás da porta e vesti-a por cima da camisa e das calças que envergava. - Ainda não tiraste o avental - observou o meu pai. Era dos tais pormenores de que, nos velhos tempos, nos teríamos rido. Mas naquele momento, no mais profundo silêncio, desapertei a laçada e arranquei-o, atirando-o para cima da cama. Perguntei: - Se levar o carro e depois o deixar ao pé do motel, tu ou Linda poderão ir buscá-lo? - Com certeza... - retorquiu o meu pai. E logo a seguir: - Espera... Entrou no seu quarto e voltou com uma mão-cheia de dinheiro, notas de um, cinco e dez dólares, todas sujas e amarrotadas como jornais velhos. - Toma - disse, enfiando-me o dinheiro num dos bolsos da gabardina -, é melhor levares isto. Poderás precisar. Tentei objetar. - Mas o pai... Porém, Linda e Mitzi escolheram esse momento para voltar da praia, esta enchendo o chão de areia e Linda perfeitamente delirante com aquela sua espécie de comunhão com a natureza. - Oh, aquelas ondas. Nunca vi nada parecido. Devem ter mais de trinta metros de altura. - Foi então que reparou na minha mala, na minha gabardina e, presumivelmente, no meu ar infeliz. - Jane, que estás a fazer? - Vou-me embora. - Para onde, por amor de Deus? - Para a Escócia. - Espero que não seja por minha causa. - Em parte, é. Mas unicamente porque isso significa que o meu pai já tem alguém que olhe por ele. Linda mostrou-se um tanto desconcertada, como se olhar pelo pai fosse a última coisa que contara fazer. No entanto, disfarçou habilmente e tirou o melhor proveito da situação. - Bem, é ótimo para ti. Quando é que partes? - Vou levar o Dodge até La Carmella... Começara já a sair às arrecuas, pois a situação estava a tornar-se insustentável para mim. O meu pai pegou na mala e foi atrás de mim. - E espero que tenham um bom Inverno. E que não haja demasiadas tempestades. E na arca frigorífica há ovos e latas de atum... Desci as escadas do alpendre no mesmo estilo e, ao ver-me fora de casa, voltei-me, passei por baixo da corda cheia de roupa a secar (Linda lembrar-se-ia de a apanhar?), sentei-me ao volante do automóvel e o meu pai colocou a mala no assento de trás. - Jane...
  25. 25. Eu, no entanto, sentia-me incapaz de me despedir. Já ia a caminho quando me lembrei de Rusty. Mas nessa altura já era demasiado tarde. O animal ouvira-me sair, a seguir chegara-lhe o som da porta do carro e do motor a ser ligado, de modo que lançara-se velozmente para fora de casa, ladrando de indignação, correndo a par comigo, de orelhas achatadas contra a cabeça e em perigo iminente de morte. Foi a última gota. Parei o carro. O meu pai soltou um grande berro - "Rusty!" - e veio atrás do cão. Rusty pôs-se de pé e raspou a porta do carro com as unhas e eu inclinei-me para tentar afastá-lo, dizendo: - Oh, Rusty, não faças isso. Vai-te embora. Não podes ir. Não posso levar-te comigo. O meu pai, que viera a correr, apanhou-nos finalmente. Agarrou em Rusty e ficou em frente da janela do carro a olhar para mim. Os olhos do cão mostravam mágoa e ressentimento, mas os do meu pai tinham uma expressão que eu nunca lhe vira antes nem conseguia entender totalmente. Foi nesse momento que compreendi que não tinha vontade de me despedir de nenhum dos dois e desatei a chorar. - Cuidarás de Rusty, não, pai? - gritei, sentindo o queixo tremer. - Fecha-o para que não possa vir atrás do carro. E vê se não é atropelado. E ele só gosta de comida para cão da Red Heart, não da outra marca. E não o deixes sozinho na praia, ainda alguém o rouba. Tentei descobrir um lenço, mas, como de costume, não achei nenhum e o meu pai tirou um do bolso e entregou-mo, sem falar. Assoei-me e, em seguida, estendi os braços e puxei-o para baixo, dando-lhe um beijo de despedida a ele e outro a Rusty. O meu pai disse "Adeus, minha pequenina", como já não fazia desde os meus seis anos, e eu, soluçando mais violentamente do que nunca, mal vendo o caminho, não olhei uma única vez para trás, sabendo, no entanto, que eles tinham ficado no mesmo sítio, olhando para mim até eu desaparecer do outro lado da berma. Faltava um quarto para as onze quando entrei na zona de recepção do motel e o homem que estava ao balcão olhou para o meu rosto molhado de lágrimas sem interesse, como se passasse o dia a ver entrar e sair mulheres chorosas. Perguntei: - Mister Stewart já sai? - Não, ainda cá está. Falta-lhe pagar uma conta de telefone. - Qual é o número do seu quarto? O homem lançou uma olhada a um quadro. - Trinta e dois. - Mirou a minha gabardina, os jeans e os tênis manchados e estendeu a mão para o telefone. - Deseja vê-lo? - Sim, se faz favor. - Eu ligo para ele... informo-o de que está aqui. Como se chama? - Jane Marsh. Indicou, com a cabeça, uma porta, fazendo-me sinal para que fosse andando. - Número trinta e dois - repetiu. Caminhei cegamente pelo carreiro que se estendia a par com uma piscina enorme e muito azul. Viam-se duas mulheres estendidas em cadeiras de recosto, enquanto os filhos nadavam, gritavam e disputavam uma bóia de borracha. Ainda não chegara a meio quando reparei que David Stewart vinha ao meu encontro. Ao avistá-lo, deitei a correr e, para grande interesse das duas mulheres, e também para minha grande surpresa, agarrei-me a ele a chorar; David deu-me um abraço de consolo, depois
  26. 26. largou-me e perguntou: - Qual é o problema? - Nenhum. - Mas começara novamente a chorar. - Vou consigo. - Porquê? - Mudei de idéias, nada mais. - Por que razão? Não fora minha intenção contar-lhe, porém não fui capaz de me controlar e comecei a falar. - O meu pai arranjou uma amiga, que trouxe de Los Angeles... e ela... ela... David Stewart olhou para as duas mulheres que nos miravam, de olhos arregalados e disse: - Venha daí. Conduziu-me para a privacidade do seu quarto e fechou a porta depois de entrarmos. - Agora já pode falar - disse. Assoei-me e fiz um esforço tremendo para me recompor. - Acontece apenas que ele já tem alguém que cuide dele. Portanto, já posso ir consigo. - Falou-lhe nas cartas? - Falei. - E ele não se importa que parta? - Não. Disse que estava bem. David ficou silencioso. Fitei-o e reparei que virara a cabeça, olhando-me agora pensativamente pelo canto do olho direito. Mais tarde descobri que fora ganhando aquele hábito ao longo dos anos devido a um problema de visão e ao fato de ter de usar óculos, mas, naquela altura, foi simultaneamente desconcertante e incômodo; era como se me encostassem à parede. Infelicíssima, perguntei: - Não quer que vá consigo? - Não é isso. Acontece apenas que não a conheço suficientemente bem para saber se está a dizer toda a verdade. Sentia-me demasiado infeliz para ficar ofendida. - Nunca minto - declarei, emendando logo a seguir: - E quando o faço fico muito agitada e vermelha. E o meu pai concordou realmente com a minha partida. Para provar o que dizia, meti a mão no bolso da gabardina e tirei uma mão-cheia de dólares sujos e amarrotados. Algumas das notas caíram, como folhas mortas, em cima da alcatifa. - Deu-me algum dinheiro para gastar. David inclinou-se para apanhar as notas, que me entregou em seguida. - Jane, continuo a achar que devia falar com ele antes de apanharmos o avião. Podíamos... - Eu não seria capaz de enfrentar nova despedida. O rosto de David perdeu a expressão severa. Tocou-me no braço. - Então, fique aqui. Não demorarei mais de quinze minutos. - Promete? - Prometo. Saiu. Deambulei pelo quarto que ele ocupara, li um pouco o jornal; depois, espreitei
  27. 27. pela porta aberta e fui à casa de banho, onde lavei o rosto e as mãos, penteei o cabelo e prendi-o num rabo-de-cavalo com um elástico que entretanto encontrara. Fui até à piscina, onde me sentei à espera; quando Mr. Stewart chegou, colocamos a bagagem no carro e eu sentei-me a seu lado; seguimos até à auto-estrada, onde tomamos o rumo de Los Angeles. Passamos a noite num motel próximo do aeroporto e, no dia seguinte, apanhamos o avião para Nova Iorque, regressando na noite posterior a Londres; só quando ia a meio do Atlântico é que me lembrei do jovem que ficara de ir fazer surf comigo no domingo. Capítulo 4 Vivera a maior parte da minha vida em Londres, mas regressar foi como chegar a uma cidade em que nunca estivera antes, tão mudada a encontrei. Os edifícios do aeroporto, as vias de acesso, a linha do horizonte, os enormes prédios de apartamentos, o trânsito intenso... tudo aquilo acontecera no decorrer dos últimos sete anos. Sentada a um canto do táxi, com a mala aos pés, reparei que ainda havia tanto nevoeiro que as luzes dos candeeiros de rua permaneciam acesas de dia, e que já nem me lembrava daquela frialdade úmida. Não dormira no avião, pelo que me sentia entorpecida pela fadiga; enjoada pelos alimentos pouco apetecíveis que me haviam apresentado; eram, pelo meu relógio, ao qual ainda não mudara a hora da Califórnia, duas da manhã. Doíam-me o corpo, a cabeça e os olhos devido à viagem, sentia os dentes ásperos e tinha a sensação de que andava com a mesma roupa fazia séculos. Desfilaram painéis com cartazes e anúncios afixados, fiadas de casas, antes de sermos engolidos pela urbe londrina. O táxi virou ao chegar a uns sinais de trânsito, enveredou por uma tranqüila rua descendente ladeada de carros estacionados e parou em frente de um aglomerado de casas vitorianas, altas e antigas, construídas num declive. Observei-as melancolicamente, perguntando a mim mesma o que deveria fazer naquele momento. David inclinou-se para me abrir a porta do meu lado e declarou: - É aqui que saímos. - Como? Olhei para ele e admirei-me de ver um homem, que partilhara a experiência autodestrutiva - para mim - de empreender uma viagem aérea contínua por meio mundo, conservar-se assim tão limpo, descontraído e senhor da situação. Mas saí do carro obedientemente, deixando-me ficar no passeio a pestanejar como uma coruja e a bocejar, enquanto ele pagava ao motorista, tirava as respectivas malas e conduzia-me por uns degraus que iam dar ao piso de uma cave. Os corrimões que ladeavam as escadas eram de um negro luzidio, a pequena área pavimentada encontrava-se limpa e varrida e havia um vaso de gerânios... um tudo-nada sujos de fuligem, mas, ainda assim, alegres e coloridos. Puxou de uma chave, abriu a porta amarela e eu segui-o, às cegas, para o interior do apartamento. Estava pintado de branco e cheirava a casa de campo. No chão via-se uma profusão de tapetes persas, havia coberturas de tecido de algodão estampado no sofá e nas poltronas, peças de mobília antiga polidas e de pequena dimensão, um espelho veneziano sobre a lareira. Vi livros e uma pilha de revistas, um armário de frente em vidro cheio de pequenas amostras de tapeçaria feita à mão de Dresden... e, ao fundo da sala, do lado de fora das janelas, um jardim interior em miniatura, com um
  28. 28. plátano, junto do qual havia um banco de madeira, e uma pequena estátua implantada num nicho aberto num muro de tijolos esmaecidos pelo tempo. Eu, que continuava de pé, bocejei. David foi abrir uma janela e eu perguntei: - É este o seu apartamento? - Não, pertence à minha mãe, embora costume utilizá-lo sempre que venho a Londres. Olhei em redor com ar vago. - Onde está a sua mãe? Devia ter dado a impressão de que estava à espera de a ver aparecer de detrás do sofá, porém David não sorriu. - Encontra-se no Sul de França, de férias. Agora venha, dispa o casaco e ponha-se à vontade. Vou preparar-lhe uma chávena de chá. Desapareceu por uma porta. Ouvi o som de uma torneira a correr, de uma chaleira a ser cheia. O simples fato de imaginar uma chávena de chá já me proporcionava uma sensação de conforto e bem-estar. Desapertei, desajeitadamente, os botões da gabardina até conseguir, finalmente, desabotoá-la. Despi-a e atirei-a para cima do que parecia uma poltrona Chippendale. Deixei-me cair no sofá. Este tinha almofadas forradas a veludo verde-vivo e eu peguei numa, que coloquei debaixo da cabeça. Todavia, creio que adormeci mesmo antes de erguer os pés do chão para me estender ao comprido. Pelo menos, não me lembro sequer de o ter feito. Quando acordei, a luz ambiente mudara. O meu campo de visão abrangia agora um raio de luz, em cuja área dançavam partículas de poeira e que incidia como se fosse o foco de um projetor. Mexi-me e esfreguei os olhos para espantar o sono, voltando a olhar e reparando então no cobertor leve e quente que me tapava. Na lareira crepitava um fogo. Só depois de a observar durante algum tempo é que me apercebi de que era elétrica, com toros, carvão e chamas de imitação. Pareceu, naquele momento, infinitamente aconchegante. Virei ligeiramente a cabeça e vi David, enterrado numa poltrona, rodeado de papéis e pastas. Vestia de maneira diferente - camisa azul, camisola creme, com decote em bico. Interroguei-me, sem grande preocupação, se ele seria uma daquelas pessoas a quem o sono nunca fazia falta. Ouvira-me mexer e observava-me. Perguntei: - Que dia é hoje? Mostrou-se divertido. - Quarta-feira. - Onde estamos? - Em Londres. - Não, refiro-me à zona. - Kensington. Inquiri: - Antigamente, vivíamos na Melbury Road. Fica longe? - Não. É bastante perto. Passado um bocado: - Que horas são? - Quase cinco da tarde. - Quando é que vamos para a Escócia? - Hoje à noite. Temos lugares reservados no wagon-lit do Royal Highlander. Sentei-me com grande esforço e bocejei, tentando afastar o sono do meu organismo
  29. 29. e o cabelo da cara. Perguntei: - Seria possível eu tomar um banho? - Com certeza - retorquiu o advogado. Fui então lavar-me, em água muito quente, numa banheira que não vedava completamente, utilizando profusamente sais de banho da mãe de David que este, delicadamente, me convidou a usar. Terminado o banho, fui à minha bagagem buscar uma muda de roupa limpa, empurrando a suja para dentro da mala e fechando-a com muita dificuldade; depois, voltei à sala de estar e descobri que David preparara um chá e torradas com manteiga, e um prato com bolachas cobertas de chocolate daquele a sério, não apenas com sabor ao produto, como as que comia na América. Perguntei: - Foram feitos pela sua mãe? - Não. Saí e fui comprá-los enquanto dormia. Temos uma lojinha aqui mesmo à esquina, o que dá muito jeito quando precisamos de qualquer coisa. - A sua mãe viveu sempre aqui? - De forma alguma, só aqui está há cerca de um ano. Tinha uma casa em Hampshire, mas era demasiado grande para ela e o jardim transformou-se numa preocupação... não é fácil arranjar gente para certos tipos de trabalho. Portanto vendeu-a, conservou alguns dos seus objetos preferidos e mudou-se para aqui. O que explicava o ambiente de casa de campo. Olhei para o pequeno pátio e observei: - Aqui também tem um jardim. - Sim, mas pequeno. Mas desse ela própria cuida. Peguei noutra torrada e tentei imaginar a minha avó em semelhante situação. Mas foi impossível. Era pessoa a quem nunca amedrontaria o tamanho da sua casa, a quantidade de trabalho ou a dificuldade em arranjar cozinheiros e jardineiros. O certo era que sempre vira Mrs. Lumley a servi-la, de pé, na cozinha, com as suas pernas inchadas, fazendo bolos. E Will, o jardineiro, tinha uma casinha e uma horta sua, onde cultivava batatas, cenouras e crisântemos enormes. - Quer dizer que nunca viveu sequer neste apartamento? - Não, mas venho ficar com a minha mãe sempre que passo por Londres. - Acontece com freqüência? - Alguma. - Costuma ver Sinclair? - De vez em quando. - Que faz ele? - Trabalha para uma agência de publicidade. Imaginava que tinha conhecimento do fato. Lembrei-me de que podia telefonar-lhe. Afinal de contas, ele vivia em Londres e procurar o seu número levaria apenas uns instantes. Ainda pensei em fazê-lo, mas depois mudei de idéias. Não sabia bem qual seria a sua reação e não queria que David Stewart testemunhasse o meu possível constrangimento. Perguntei: - Ele tem alguma namorada? - Ora, montes delas. - Não, sabe muito bem o que quero dizer. Alguém muito especial. - Jane, para lhe ser franco, não faço idéia.
  30. 30. Lambi pensativamente a manteiga que tinha na ponta dos dedos. - Acha que ele irá até Elvie quando eu lá estiver? - É bem provável. - E o pai? O tio Aylwyn continua no Canadá? David Stewart empurrou os óculos nariz acima com o dedo comprido e moreno. Retorquiu: - Aylwyn Bailey faleceu há cerca de três meses. Fiquei siderada. - Mas nunca ninguém me falou disso. Oh, pobre avó. Ficou muito perturbada? - Sim, ficou... - E o funeral e tudo... - Foi no Canadá. Já estava doente fazia algum tempo. Não chegou a conseguir voltar para casa. - Quer dizer que Sinclair não chegou a revê-lo... - Não. Interiorizei a informação e senti-me triste. Lembrei-me do meu próprio pai, que era de fazer perder a paciência, mas que nunca me levaria a lamentar um único momento do tempo que passáramos juntos, e lamentei ainda mais Sinclair. Vieram- me então à memória os tempos em que o invejara, pois, enquanto eu me limitava a passar as férias em Elvie, ele era aí que vivia, permanentemente. E quanto a sentir a falta de um pai, o lugar contara sempre com a presença de muitos homens, pois além de Will, o jardineiro - que adorávamos -, também havia Gibson, o guarda, um indivíduo rígido mas indiscutivelmente ponderado, e os dois filhos deste, Hamish e George, mais ou menos com a mesma idade de Sinclair e que o incluíam em todos os seus empreendimentos, autorizados ou não. E fora assim que Sinclair aprendera a caçar, pescar, lançar papagaios, jogar críquete e trepar às árvores, gozando, de uma maneira ou de outra, de mais cuidados e atenções que a maioria dos rapazes da sua idade. Não, pensando bem, Sinclair disfrutara de muitas regalias. Apanhamos o Royal Highlander em Euston e eu devo ter passado metade da noite a saltar da cama para me ir pôr à janela, deleitando-me com o fato de o comboio seguir para o Norte e de nada no mundo, exceto algum ato desastroso de Deus, poder alterar semelhante situação. Em Edimburgo, fui despertada por uma voz feminina que me fez lembrar a de Maggie Smith a fazer de Miss Jean Brodie, informando "Edimburgo, Waverley. Edimburgo, Waverley”.Soube então que me encontrava na Escócia, de modo que levantei-me, coloquei a gabardina por cima da camisa de noite e sentei-me em cima da tampa do lavatório vendo as luzes de Edimburgo passar e esperando a ponte; a certa altura, o comboio, fazendo um ruído completamente diferente, passou o Forth e o rio apareceu muito abaixo de nós, parecendo uma massa de água escura e brilhante, tremeluzindo com as luzes em movimento de embarcações que a distância fazia parecerem miniaturas. Voltei a enfiar-me na cama e dormitei até chegarmos a Relkirk, altura em que novamente me levantei e abri a janela, deixando entrar o ar frio e a cheirar a musgo e pinheiros. Encontrávamo-nos prestes a penetrar nas Terras Altas, a região montanhosa da Escócia. Eram ainda só cinco e um quarto da madrugada. No entanto, vesti-me e passei o resto da viagem com o rosto colado ao vidro que só deixava ver o negrume e a chuva que escorria por ele. A princípio, pouco ou nada conseguia ver; todavia, depois de percorrermos a passagem e iniciarmos o longo declive que vai dar a Thrumbo, o dia começara a clarear. Não havia sinal do sol,
  31. 31. apenas um aclarar imperceptível da escuridão. Sobre o cume das colinas viam-se nuvens densas, cinzentas e leves, mas, à medida que descíamos em direção ao vale, estas foram-se rarefazendo e diluindo até desaparecerem, e, então, a vasta imensidão do vale estreito apareceu diante de nós, com uma tonalidade acastanhada e tranqüila sob os primeiros alvores da manhã. Bateram à minha porta e a camareira meteu a cabeça pela abertura para me dizer: - O senhor deseja saber se está acordada. Chegaremos a Thrumbo daqui a cerca de dez minutos. Quer que leve a sua mala? Aceitei a oferta e, depois de ela sair e fechar a porta, voltei para junto da janela, pois a paisagem campestre começara a tornar-se familiar e eu não queria perder um pormenor que fosse. Eu caminhara por aquele pedaço de estrada, cavalgara um pônei naquele campo, fora convidada para tomar chá naquela casinha pintada de branco. Depois, apareceu a ponte que marcava a fronteira da aldeia, a estação de gasolina e o requintado hotel que estava sempre repleto de residentes idosos e onde nunca se podia tomar uma bebida. A porta voltou a abrir-se e David Stewart apareceu, enchendo a entrada. - Bom dia. - Viva. - Dormiu bem? - Otimamente. O comboio começara naquele momento a abrandar a velocidade, acionado os travões. Passamos o semáforo, por baixo da ponte. Deslizei de cima do tampo do lavatório para o chão e segui David até ao corredor, onde vi passar triunfantemente, por cima do seu ombro, a tabuleta assinalando Thrumbo e, logo a seguir, o comboio parou e chegamos ao nosso destino. David deixara o seu carro numa garagem, pelo que me deixou à sua espera no pátio da estação, enquanto ia buscá-lo. Sentei-me em cima da mala, na aldeia deserta, que, a pouco e pouco, começava a despertar. Vi luzes acenderem-se uma a uma, chaminés começarem a deitar fumo e, pela estrada, veio um homem aos ziguezagues na sua bicicleta. Nessa altura chegou até mim, vindo de muito lá no alto, um grasnar e um chilrear que se foi tornando cada vez mais audível e passou nitidamente por cima da minha cabeça, embora eu não pudesse ver o bando de gansos selvagens que voavam acima das nuvens. O lago de Elvie ficava a cerca de três quilômetros da aldeia de Thrumbo, sendo uma vasta extensão de água, cortada a norte pela estrada principal, junto de Inverness, e fechada, no extremo oposto, pelos enormes bastiões de Cairngorms. Elvie, em si, pouco mais era do que uma ilha em forma de cogumelo, ligada à terra pelo pedúnculo, uma faixa estreita de terra que não passava de um caminho elevado que se estendia por entre um terreno pantanoso juncado de caniçais, lugar onde centenas de aves nidificavam. A terra pertencera, durante muitos anos, à igreja e, de fato, ainda eram visíveis as ruínas de uma pequena capela, agora sem telhado e vazia, embora o cemitério diminuto que a rodeava continuasse a ser cuidado e limpo, os teixos impecavelmente cortados e a relva macia como veludo, alegrada todas as Primaveras pelas pétalas coloridas dos narcisos selvagens. A casa onde a minha avó vivia servira, em tempos idos, de presbitério daquela pequena igreja. Com o decorrer dos anos, porém, ultrapassara os seus modestos limites de origem, sendo-lhe acrescentadas alas e quartos extra destinados a
  32. 32. acomodar, presume-se, grandes famílias vitorianas. Vista das traseiras, de quem vinha pela estrada, parecia alta e imponente, sendo as janelas voltadas a norte pequenas e escassas, de maneira a conservarem o calor nos Invernos rigorosos, enquanto a porta da frente, pequena e vulgar, encontrava-se, habitualmente, fechada a sete chaves. Aquela sensação de fortaleza era acentuada pelos dois muros altos do jardim, os quais, como braços, estendiam-se desde a casa para este e oeste e por onde nem mesmo a minha avó conseguira fazer com que uma trepadeira subisse. Do outro lado, porém, o aspecto de Elvie era completamente diferente. A velha casa branca, protegida e enclausurada de frente para o sul, cintilava e dorroitava à luz do sol. As janelas e as portas mantinham-se abertas para deixar entrar o ar fresco e o jardim descia até um valado estreito que lhe servia de limite em relação ao campo do lado, onde um vizinho agricultor deixava o seu gado pastar. O campo estendia-se até à beira da água e o bater da ondulação ligeira no cascalho, assim como o mugir suave e o mastigar do gado, fazia parte tão integrante de Elvie que, passado um bocado, deixava de se ouvir. Só depois de se estar longe e voltar é que se dava novamente por ele. O automóvel de David Stewart, um T.R.4 azul-escuro, revelou-se uma surpresa, mostrando-o inesperadamente veloz para um cidadão de aspecto tão pacato. Guardamos dentro dele as nossas malas e saímos de Thrumbo, indo eu sentada na beira do meu banco, tanta dificuldade tinha em conter a excitação. Apareceram marcos conhecidos, que depressa ficaram para trás: a garagem, a doçaria e a quinta dos McGregor; de repente, vimo-nos em campo aberto. A estrada começou a subir por entre campos de restolho dourado, as bermas estavam salpicadas de escarlate com os aglomerados de roseiras-bravas, e já caíra geada, pois as árvores apresentavam-se manchadas com o dourado e o vermelho das primeiras cores do Outono. Foi então que, ao darmos a última volta, deparamos com o lago, que se estendia à nossa direita, refletindo a tonalidade da manhã cinzenta, enquanto as montanhas se viam mais ao longe, perdidas no meio das nuvens. E menos de um quilômetro mais adiante apareceu Elvie, a casa oculta pelas árvores e a igreja sem teto romanticamente deserta. Eu não conseguia falar de tão excitada e David Stewart, com uma sensibilidade rara, absteve-se de qualquer comentário. Tínhamos vindo juntos de muito longe, na verdade de uma lonjura tal que era difícil de compreender, mas foi em silêncio que finalmente viramos para o caminho que passava em frente do casebre e o carro serpenteou por entre as bermas altas, passando por entre os pantanais e subindo sob as faias, até parar diante da porta da frente. Saltei imediatamente para fora do carro, atravessei o chão coberto de cascalho a correr, porém a minha avó foi mais rápida do que eu. A porta abriu-se, ela apareceu e caímos nos braços uma da outra; ela repetia incessantemente o meu nome, exalando o perfume dos saquinhos que guardava debaixo das suas roupas, e eu disse de mim para mim que nada mudara. Capítulo 5 Um encontro, depois de passados tantos anos, gera sempre confusão. Dissemos coisas como: "Oh, estás aqui de verdade...", "Achei que nunca mais cá chegava...", "Fizeste boa viagem?..." e "Está tudo na mesma", depois afastávamo-nos uma da
  33. 33. outra, ríamos das nossas idiotices e voltávamos a abraçar-nos. A seguir, foram os cães que vieram aumentar o tumulto, saindo de casa a ladrar-nos aos pés, exigindo atenção. Eram spaniels castanho-e-brancos, que eu não conhecia e, no entanto, não deixavam de me ser familiares pois sempre os houvera daquela raça em Elvie, não restando dúvidas de que descendiam daqueles de que eu me lembrava. E mal acabara de fazer festas aos animais quando Mrs. Lumley apareceu, tendo ouvido o chinfrim e sentindo-se incapaz de resistir à tentação de se juntar à recepção doméstica. Estava mais gorda que nunca na sua bata verde e saiu de casa com um sorriso enorme, dando-me um beijo, dizendo-me que eu crescera imenso, tinha mais sardas que nunca e que ela estava a preparar um pequeno-almoço de arromba. Atrás de mim, David tirava calmamente as malas do carro e, a certa altura, a minha avó foi cumprimentá-lo. - David, deve estar exausto. Obrigado por ma ter trazido sã e salva. Para minha surpresa, deu-lhe um beijo. - Recebeu o meu telegrama. - Claro que recebi. Estou a pé desde as sete da manhã. Vai entrar e tomar o pequeno-almoço conosco, não vai? Estamos a contar consigo. No entanto, ele apresentou as suas desculpas e recusou, dizendo que tinha a governanta à sua espera, precisava de ir a casa mudar de roupa e seguir para o escritório. - Bem, então venha cá jantar hoje à noite. Sim, faço questão. Por volta das sete e meia. Queremos que nos conte tudo o que se passou. Finalmente, deixou-se convencer e entreolhamo-nos, sorridentes. Dei-me então conta, com alguma surpresa, de que o conhecia apenas há quatro dias, mas que, contudo, no momento da despedida, sentia que deixava um velho amigo, alguém que conhecera toda a vida. Recebera uma incumbência de execução difícil, que levara a cabo com tato e bom humor sem, tanto quanto eu sabia, ter levantado o menor constrangimento a alguém. - Oh, David... O advogado fugiu apressadamente à minha desajeitada tentativa de agradecimento. - Até logo à noite, Jane - disse ele, retrocedendo e entrando no carro, cuja porta fechou antes de seguir caminho. Ficamos a vê-lo virar e afastar-se sob as faias, entrando na estrada depois da curva, até desaparecer. - Rapaz simpático - observou a minha avó com ar pensativo. - Não achas? - Sem dúvida - retorqui. - E gentil. Precipitei-me para Mrs. Lumley a tempo de a impedir de pegar na minha mala, que eu mesma levei para dentro de casa, seguida pela minha avó e pelos cães; a porta fechou-se e David Stewart foi, no momento, esquecido. Chegou-me às narinas o cheiro de turfa queimada que vinha da lareira do vestíbulo, o perfume dos botões de rosa que enchiam a enorme jarra que enfeitava o topo da cômoda, por baixo do relógio. Um dos cães resfolegava, requerendo atenção, com a cauda a abanar e cheio de entusiasmo; detive-me para lhe afagar as orelhas e estava prestes a falar-lhes de Rusty quando a minha avó declarou: - Tenho uma surpresa para ti, Jane. Endireitei-me e olhei para cima; vi então um homem a descer os degraus na minha direção, com a silhueta recortada contra a luz proveniente da janela da escadaria.
  34. 34. Por um momento, fiquei ofuscada pela luminosidade, até que ele falou: - Olá, Jane. Apercebi-me então de que se tratava do meu primo Sinclair. Fui incapaz de tomar outra iniciativa que não fosse a de ficar ali especada de boca aberta, enquanto a minha avó e Mrs. Lumley assistiam, encantadas, ao sucesso da surpresa que tinham planeado. Sinclair chegara junto de mim, pousara as mãos nos meus ombros e dera-me um beijo na face antes de eu recuperar fôlego suficiente para observar debilmente: - Mas pensei que estivesses em Londres. - Como vês, não estou lá, mas sim aqui. - Mas como...? Porquê...? - Tenho uns dias de férias. Por minha causa? Tirara-os para poder estar em Elvie para me receber? A possibilidade era simultaneamente lisonjeadora e excitante, mas, antes de poder dizer algo mais, a minha avó tomou conta da situação. - Bom, não vale a pena ficarmos todos aqui de pé... Sinclair, se não te importas, levas a mala de Jane até ao quarto dela e tu, querida, depois de lavares as mãos, desces para tomar o pequeno-almoço. Deves estar fatigada, depois de uma viagem tão longa. - Não estou cansada. E, na verdade, não estava. Sentia-me cheia de vitalidade, desperta e pronta para o que desse e viesse. Sinclair pegou na minha mala e subiu os degraus dois a dois e eu fui atrás das pernas compridas dele como se levasse asas nos calcanhares. O meu quarto, que deitava para o lago e o jardim, brilhava de tanta limpeza, mas, fora isso, permanecia exatamente como o deixara antes. A cama pintada de branco continuava encostada ao vão da janela, onde eu sempre preferira dormir. Havia também uma almofada para alfinetes em cima do toucador e saquinhos de lavanda no guarda-fatos e o mesmo tapete azul a cobrir a faixa de alcatifa gasta. Enquanto eu despia a gabardina e lavava as mãos, Sinclair deixou-se cair pesadamente sobre a minha cama, amarrotando lamentavelmente a colcha branca engomada, ficando a observar-me. Os sete anos decorridos tinham-no mudado, como não podia deixar de ser, embora as alterações que eu via nele eram quase demasiado subtis para que pudesse defini-las com exatidão. Estava mais magro, sem dúvida, viam-se rugas finas aos cantos da boca e dos olhos, mas os sinais de envelhecimento ficavam-se por aí. Era muito bem-parecido, possuía sobrancelhas e pestanas escuras e olhos de um azul intenso sedutoramente arrebitados na ponta. O nariz era direito e a boca arredondada e cheia, com um lábio inferior que, nos seus tempos de miúdo, costumava ficar muito proeminente quando amuava. Tinha o cabelo farto e liso e usava-o medianamente comprido, até ao colarinho da camisa e, como eu estava habituada às modas de Reef Point, vendo os cabelos ora à escovinha (surfistas), ora pelos ombros (hippies), achei o efeito muito atraente. Naquela manhã, envergava uma camisa azul, com um lenço de algodão amarrado ao pescoço descoberto e umas calças de veludo estriado de aspecto gasto e um cinto de cordão de lã entrançado. Procurando confirmar o que esperava que fosse verdade, inquiri: - É verdade que estás de férias? - Evidentemente - retorquiu Sinclair sem mais comentários e nada confirmando. Resignei-me com a expectativa.

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