Contos sertanejos

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Contos sertanejos

  1. 1. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ AFONSO BEZERRA CONTOS SERTANEJOSFONTE: BEZERRA, Afonso. Ensaios, contos e crônicas. Pesquisa, Introdução eNotas de Manuel Rodrigues de Melo. Rio de Janiero: Pongetti, 1967. p. 31-74.
  2. 2. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ PRIMEIRA COMUNHÃO O sol nascera alegremente!... Joãozinho, que ficara órfão aos 7 anos,despertado pelo trinar dos passarinhos, levantou-se pressuroso, correu à mamãe,que fazia o café, e lhe pediu a roupa branca da primeira Comunhão, a fim depreparar-se antecipadamente para receber a Jesus, como tanto desejava. A mãe, jubilosa, foi à mala e tirou a roupa, que havia sido um presente deseu padrinho. Joãozinho vestiu-se cuidadosamente e foi de novo à sua mãe, pedir-lheconsentimento para sair. Esta lhe disse: – Quando estiveres em forma, não converses e observa todo o respeito naigreja, para seres elogiado por Jesus; e, se assim fizeres, não sairás da escola. Joãozinho prometeu-lhe o melhor comportamento naquele dia, em que umaalegria desconhecida dele se apoderava. Quando chegou à igreja, aprecia-lhe estar realmente no céu, a contemplar oCriador do mundo; o soar compassado do velho órgão, com a voz agradável dascantoras, iam perder-se na floresta que circundava a decadente aldeia e depoisvinham consolidar-se com os pensamentos de Joãozinho, para ainda mais oalegrarem. Enquanto Joãozinho estava na igreja, ansioso de receber Jesus pelaprimeira vez, sua mãe lembrava tristemente o marido que a deixara ainda moça,levado pela mão assassina de um cossaco da linha férrea, ficando limitada a viverdos parcos vinténs que lhe rendia um sitiozinho que herdara. No meio dessas imaginações foi sentar-se ao limiar da cabana, deslizando-lhe nas faces, entristecidas pelo rigor da viuvez, as primeiras lágrimas do dia,chorando o esposo que tranquilamente jazia sob a fria lousa, no cemitério daaldeia. Calou-se, depois começou a olhar a movimentação das águas do rio, quese desenrolavam céleres, em demanda do oceano. Pôde libertar-se daquela tristeza lembrando a felicidade que visitaria suacasa com a primeira Comunhão do filho. Correu ao oratório, já velho, que tinha apenas duas imagens muitoenfeitadas e, depois de uma prece fervorosa, exclamou: – Não sou ainda tão infeliz, porque tenho o consolo da Religião Católica.Sem isto me julgaria infeliz ao extremo. O sol já se achava no meio do céu, quando Joãozinho, depois de terminadaa missa, dirigiu-se para casa, jubiloso, com a alma cheia das cerimônias religiosasdo dia. O caminho, marginado de carnaubeiras, parecia-lhe adrede preparado.Nesse arroubo avistou sua humilde casinha, que também não lhe pareceu menosbela!... Apressou os passos, para logo falar à querida mãe, que, ao vê-lo, oabraçou carinhosamente, enquanto ele contava os principais acontecimentos dafesta e disse:
  3. 3. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ – Jesus não elogiou ninguém, ainda que nos houvéssemos todoscomportado bem. A mãe, sorrindo da ingenuidade dos 7 anos do filho, respondeu-lhe: – Meu filho, Jesus elogiar-te-á no céu, quando lá estiveres. Preparou-se amesa e continuaram a conversar alegremente. Carapebas. O Beija-Flor, Rio, 16-4-1925.
  4. 4. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ O ORVALHO A natureza despertara do sonho da noite. No jardim da chácara as florespareciam sorrir, maravilhosas, ante a poesia risonha daquela manhã de inverno!...Lulu e Lili, atraídos pelo aroma sutil do jardim, ainda muito cedo, entraram lá, paracontemplar de perto a placidez de seu retiro de flores, que tantas vezes tinha dadodistração a seus espíritos infantis. E brincavam, joviais, com as vestes umedecidas pelas gotas cristalinas deorvalho, presas como maquinalmente às plantas que, dispostas em alamedas,ornavam o prado. E entretiveram-se muito tempo com aquelas gotas de orvalho,até que a curiosidade despertou Lili do sono de admiração em que se achava. – Que é o orvalho? – perguntou, curiosa, ao irmão. Lulu, com um sorriso de acanhamento, silenciou ante aquela pergunta querompia aos olhos da irmã a cortina que encobria sua ignorância. Súbito uma hipótese se formou em seu espírito de criança e, não contendoas palavras, ele disse: – Lili, o orvalho se origina do pranto dos anjinhos. E, apontando uma gota com o mimoso indicador, continuou: – Cada pingo destes é uma lágrima copiosa que se escoou dos olhoscintilantes de um anjo, quando, compassivo, contemplava as misérias do mundo. Lili exclamou, carinhosa: – Como são compassivos! Lulu continuou, alegre: – Caídas as lágrimas de seus olhos puros, descem através das brumas doespaço, tristes como sua origem, e vêm pousar nos galhos hospitaleiros dasgrandes árvores e ornar o tapete verde-escuro das pequeninas selvas, extendidona superfície da Terra. E assim permanecem, até que o sol os extinga com seucetro de fogo. Um beija-flor passou célebre, osculando uma flor rósea que pendia, úmida,da trepadeira sob que estavam acolhidos. Logo após um outro pássaro iniciou melancolicamente a primeira estânciado seu tristonho gorgeio. O silêncio reinou ali um momento. As duas crianças, batendo com os dedinhos delicados as últimas gotas deorvalho que ainda restavam, já tépidas, em algumas trepadeiras do jardim, econtinuando a conversar, riam-se, riam-se muito. Grossas bátegas de água tombaram ao chão, obrigando-os a abandonaraquele ninho de flores. E, como a chuva continuasse forte, os dois inocentes foram cantar, nointerior do lar paterno, a grandeza do Criador, caracterizada na poesia risonhadaquela manhã de inverno!... Carapebas.O Beija-Flor – Rio – 1º de julho de 1925.
  5. 5. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ O EREMITA Ao padre Mata, talento e virtude. Alta noite. Com o crucifixo aconchegado ao peito, velando-lhe o leitomortuário, velha tábua nua, companheira de suas vigílias, apenas à luzbruxuleante do pequeno candieiro, o eremita agonizava naquela solidão, onde nãohavia, sequer, uma pessoa que pronunciasse, ao menos, o nome de Jesus! A agonia aumentava... O santo solitário sentiu que ia, em muito breve,morrer... Mas, assim, tão só?! Ele, que tantas vezes tinha levado os socorros dareligião de Cristo nos últimos instantes de tantos infelizes?!... Era penoso!... Duaslágrimas, alvas como a pureza de seu coração, se esvoaçavam naquelas facesbeatíficas, indo se perder na longa barba encanecida que lhe emprestava umacompostura venerável. – É que aquele apóstolo, que tinha vivido uma vida inteiramente espiritual,também se ressentia, de, ao deixar a terra que edificara com a excelência de suasvirtudes, não haver uma pessoa que lhe vigiasse os últimos momentos de vida. Não era possível – o supremo Rei não abandona jamais os seus servos. Quando o pio missionário ia desfalecendo, placidamente, para que a suaalma sem a mais leve mancha se separasse de um corpo lacerado por tantasmortificações, uma claridade sobrenatural inundou a pequena cela, indo ofuscar obrilho apagado de seus olhos. – Era um querubim, enviado por Deus, que vinha assistir a exalação de seuúltimo suspiro! Morreu... A voz do mensageiro celeste, no ofício dos mortos, ecoou poraquelas florestas longínquas que pareciam chorar, no farfalhar melancólico desuas folhas, o vácuo impreenchível que a seta da fatalidade acabava de abrir emseus domínios seculares... Logo depois, o velho monge, já vestido da juventude eterna do espírito,lançou um olhar de despedida àquelas paragens que o tinham hospedado durantemais de cinqüenta anos e, ao lado do anjo, partiu para receber no céu o prêmio desua abnegação.Letras Novas – Natal, setembro de 1925.
  6. 6. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ RASGA-MORTALHA Pelos meses cálidos do estilo, a travessia dos sertões nordestinos, feita emcostas de animal, e palmilhando-se lugares de topografia instável, cheios dos maisdispares acidentes geográficos, torna-se penosamente esfadonha. Galgam-se cabeços e lombadas, secos e pedregosos, prenhes de cruéisdificuldades para o animal estropiado; transpõem-se córregos e riachos derreadosem pequenos despenhadeiros, formando ridículas cachoeiras; vadeiam-se riosperiódicos, a apresentarem leitos muitos alvos, aqui, numa porção mais fértil,recheados de vazantes de feijão e de batatas, ali, um perímetro nuamentearenoso, nodoado, apenas de longe em longe, pelas moitas verdejantes dealgumas sarças dispersas desordenadamente. Quase sempre, passados esses terrenos mais vulgares, chega-se aoespinhaço gigantesco de uma serra, espraiada como um animal disforme,adormecido bizarramente, na impassibilidade impermutável de um sono demilênios. Ensaia-se a subida, arrostando temerariamente os múltiplos perigos deuma rechã atulhada de grotões e precipícios, e depois de algumas horas de umascender verdadeiramente enervante, dominando-se com um olhar as majestosasperspectivas em derredor, continua-se a viagem, numa variante agradável, atravésde um solo uniformizado, de uma fertilidade, às vezes, perdulária, adaptável àsmais delicadas culturas. E assim, ao amplexo causticante de um sol senegalesco, percorrem-sequatro a cinco léguas, e por vezes mais, em caminhos rasgados no seio inóspitode uma faixa de mato, por picadas sombrias e desabitadas, onde não se encontraa esperança de uma cacimba, para matar a sede devoradora, com a esmola deum copo d’água. Às vêzes, após meio dia de dura caminhada, quase sempre nasproximidades de rios e lombadas agricultáveis, defronta-se o ponto de descansoce encardidas pelo lôdo das invernias passadas, um alpendre a meio esburacado,ou latada de folhas secas de oiticica, e dominando tudo, a garrafinha simbólica,pendente de uma vara, que encima a cumieira baixa e empenada. – Pouso de matuto e venda de cachaça. Diz logo o passageiro quedescortina esses sinais, erguendo-se do matagal descarnado, à margem docaminho, e sem mais arrodeios encosta para perto: – Ó de casa. Bota abaixo se é tropeiro, empilha as cangalhas no alpendre, cura aspisaduras à mularada, e depois de matar o bicho com uma boa golada deaguardente, dá água aos animais, lava-os e deixa-os no peador, e após umasóbria refeição – carne, farinha e rapadura – fica-se ali sesteando, na rede de fioda terra, armada de um esteio para outro, a ruminar saudades de seus mundos,assobiando ou solfejando velhas modinhas sertanejas, até uma modorra calmadissipar-lhe essas miragens nostálgicas. Mais tarde, quando o sol já declina para o leito crepuscular do ocidente,ainda ao banho escaldante de uma temperatura de ferver, o passageiro ergue-se,
  7. 7. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/carrega a sua tropa, ingere um novo trago da branquinha, e papagueando umadespedida parca e invariável – “até a volta” ou “até outra vista” – prossegue naviagem, num silêncio que apenas perturba com o estalar repetido do gurinhém, oua articulação do nome de um animal do coice que abandona a trilha traçada pelaguia. Às vezes, o caminheiro que viaja mudo e despreocupado por caminhostortuosos e maus, obstruídos em parte por moitas pequeninas de um matagalenfesado – marmeleiros raquíticos e pereiros pigmeus – depara ao voltear umacurva, o vulto desconhecido de outro transeunte. – Bom dia, amigo. E passados os momentos rápidos daquela saudação tão amistosa entrepessoas que jamais se viram, seguidos de ligeiros informes a respeito de umaerrada qualquer numa encruzilhada de veredas, continuam em direções opostas,desconhecidos, indiferentes ao destino um do outro, no passo tardo dos animaisde carga, levando atrás as areias movediças do caminho, desagregadas pelaausência de inverno. E assim, nesse ritmo imperturbável de surpresas deslumbradoras eenervantes, nessa translação contínua de coisas e de fatos curiosos, vai a vidanos sertões, sempre a mesma, de algum modo, nas suas usanças e costumes, eao mesmo tempo cada vez mais encantadora, para quem nasceu nessa região tãomalsinada pelos que não lhe conhecem as belezas. *** Aos primeiros dias de janeiro, sem pingo de chuva, bati durante mais deuma semana de viajar contínuo, os tabuleiros ásperos e pedregosos do alto sertãodo Rio Grande do Norte. Era um descontar de pecados aquele peregrinar constante, por um solocheio de contrastes, à ardência estafante de um sol tropical, ou à escuridãotemerosa de noites sem lua, apenas parcamente iluminadas pelos pingos de luzdas miríades de estrelas penduradas num firmamento lutuoso. Sol escondido, rompendo um terreno inclemente, andávamos num estradãoseguido, sem volta, como uma avenida estreitíssima, desnivelada, cheia demínimas e intermitentes depressões, e soalhada, de longe em longe, poracúmulos espessos de pedras, dispostas atrabiliariamente, num amontoadochocante. Muito adiante, ao atravessarmos o curso sinuoso de um riacho conhecido,passando à nossa frente em vôo rasteiro, no seu “tic-tic” agourento, um corujãorasga-mortalha pousou nalgum galho de catingueira próxima e lúgubre, comacento mortuário, desferiu as notas desentoadas de seu guincho horripilante. – Bem boa – advertiu detrás o arrieiro – anda a gente em paz por essesermos, e semelhante zoada nos ouvidos. Vá rasgar a mortalha da mãe,esconjurado. – Ó Quirino, que mal nos vem, em que cante um pássaro? – Como, patrão?... O senhor ainda é muito novo, não conhece o que é avida, não. Fale com esse cabra velho, que aqui nasceu e se criou, e aqui inteirousetenta e um janeiros, que ele lhe conta a história direito. Corujão é bicho
  8. 8. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/endemoniado. Não abre aquele bico à-toa, não. É bicho agourento dos trezentosdiales. E encostando, com um estalo de relho, o jegue de carga pra mais perto deminha mula rosilha de montada: – Nas primeiras chuvadas de noventa, no dia de S. Sebastião, foi-seembora de uma vez, pegado por um curisco, o coronel Feijó das Cacimbas. – Ora, “seu” Quirino, que têm os corujões com a morte do coronel? O meu companheiro, acurvando-se no meio da carga de macas, e pondouma acentuação mais grave nas palavras, segredou-me quase ao ouvido: – Espere ai, patrão, que eu não acabei a história. Na véspera desse dia, denoite, um excomungado daquele dera dois ou três rasgos, na cumieira da casagrande da fazenda, onde morava o homem. E depois, com intonação categórica: – Rasga-mortalha é bicho danado. Cantou perto da gente, aparece coisaruim. Não tem que ver. Já eram mais de sete horas. Tomados desse receio instintivo que nosinvade o espírito, ao rasgarmos, em noite de escuro, o seio tenebroso da floresta,continuamos a viajar silenciosamente, ao longe1 da estrada silenciosa,despertados apenas, de quando em quando, pelo canto de alguma ave notívaga. *** No outro dia, logo ao me levantar, o velho condutor interpelou-me, com umsorriso aguado de melancolia: – O que foi que eu disse ontem, patrão, no caminho, quando aquele corujãocantou? Pois tá hí, a rosilha de sua sela tezinha de cascavel... – Rasga-mortalha é bicho danado. Carapebas.Diário de Natal – Natal, 4 de fevereiro de 1928.1 No original está: “ao longe da estrada”; diga-se: “ao longo da estrada, ao comprido”. (nota de ManuelRodrigues de Melo)
  9. 9. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ A CRUZ DA ESTRADA Ao Nilo Pereira Estio forçado. As fumaças das queimadas de xiquexique e macambira notratamento do gado, e de coivaras na broca de roçados se distribuíam como umimenso véu cinzento, desdobrado em toda a extensão do firmamento, donde secoava, em projeções desanimadoras, a impassibilidade de um céu descampado,sem a esperança de uma nuvem pesada. Em companhia de um capoeira de Santa Cruz do Traíri2, meião de altura ebem apessoado, palrador como periquito em coroa de juazeiro e avezado abravatear façanhas, eu viajava rumo do sertão do Rio do Peixe, no estado daParaíba. Inesperadamente, deparei-me com uma cruz tosca feita de dois pedaços detrilho de caçamba, sustentada no vértice por um entrançado de arame liso,encimando um montículo de pedras dispostas desordenadamente, de envolta comporções de uma argila avermelhada, no descampado de uma caatinga malvestida, em que vegetavam, à custa de uma parca absorção de reservasvivificadoras, juremas pretas, pereiros e marmeleiro de roupagens estragadas. Era a algumas braças da variante ao antigo traçado da estrada de ferro. Aquela imagem grosseira do símbolo augusto da Redenção, que vemguiando há quase dois mil anos, os heróis do cristianismo, nos mais belos triunfosdo espírito, ali tão só, naqueles escampos de flora depauperada pela avareza deum solo pobre de substâncias nutritivas, quando míngua o banho procriador dasinvernias abundantes, parecia implorar, da sua posição enfadonha de súplicacontínua, a quem transitasse por aquelas paragens torrefeitas ao hálito plutônicodo mormaço do meio dia, a esmola de uma prece pela alma simples e obscuraque dormia despreocupadamente, à sua sombra, a modorra sem sonhos do além-túmulo. E eu, num instante, como que contemplei, na rija impassibilidade daquelespequeninos braços de aço, constantemente abertos, a resistência granítica damuralha da Fé, agüentando imutável todos os combates pérfidos e levianos dosdoidos vagalhões da impiedade. Ao defrontarmos com ela, lá no seu posto de sentinela de uma sepulturaabandonada, perto do caminho em que nossos animais estropiados pisavam àsapalpadelas, o meu condutor sofreou nas cabeçadas do freio a mula cargueira quecarregava as minhas malas e, sem dizer palavra, marchou na direção da sepulturahumilde da estrada. Lá chegado, ajoelhou-se, fez o “pelo sinal” atordoadamente, arremedandocom o polegar meio acurvado, em linhas claudicantes, três cruzinhas mal feitas,respectivamente, na testa, na boca e no peito, conforme o rito cristão; inclinou acabeça e deixou-se estar assim alguns minutos, mãos postas, naquela posiçãopiedosa, balbuciando, acanhado, uma oração ininteligível. Terminada esta, o cargueiro benzeu-se, desenhando com a destra estiradaa prumo uma cruz disforme da testa ao abdomen; com a mesma ligeireza e2 Santa Cruz do Inharé (nota de Manuel Rodrigues de Melo). [Santa Cruz-RN].
  10. 10. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/instabilidade de linhas ergueu-se, de um salto, caiu de joelhos nas ancas da russa,acomodou-se no saco das redes que servia de meio de carga, sustava com umamão as cabeçadas e com a outra o cabo da trança e ainda calado sob o pesodaquela emoção religiosa, tocou pra frente no caminho áspero. Surpreendido com seu gesto estranho de profunda veneração, perguntei-lhe quem jazia ali naqueles ermos e que lhe merecia tanto respeito. O mulato explicou com uma entonação de voz, pela qual não era precisoser-se psicólogo muito arguto para apreender facilmente o acento de tristezasincera que lhe ia nas palavras, dolorosamente: – Aqui, seu moço, no camarada do mês de Senhora Santana, da era detreze, eu era molecote sambudo, um apontador da linha de ferro matou meu pai,por causa de um engano de dois vales, com doze punhaladas. Não trocarampalavras. E ainda com a mesma acentuação magoada nos vocábulos: – E pra vosmecê ver: não teve uma ave-maria de penitência. O doutor daresidência passou-lhe a mão pela cabeça e o que é certo é que a coisa ficouencoberta em sete capas e o criminoso aí soltinho na rua, como se nada destemundo tivesse feito. – Ele ainda continua em liberdade, Camilo? A esta pergunta a fisionomia de meu companheiro se iluminou subitamentede uma como tranqüilidade tigrina, resultante do cumprimento altaneiro de umdever escabroso. E baixando a fronte, pra não me fitar, como costumava fazersempre que finalizava a narração de alguma fúria sua, retrucou com um risozinhodesbotado de amarela ferocidade: – Inhôr não. Anos depois, já frangote taludo, topei com ele numa volta decaminho, casquei-lhe uma ponta de espada nas cruzes até o enterço, e botei-opara a terra da verdade. Já passava de meio dia. Adiante, a casa do descanço, assentada nococuruto de um cabeço descalvado, nos apresentava em meio o brazeiro do sol, ahospitalidade atraente de seu alpendre, derreado preguiçosamente ao amparo dequatro esteios velhos de angico, toscamente lavrados.Em 31-8-928.Diário de Natal – Natal, 26 de fevereiro de 1928.Vida nova – Rio, 20 de outubro de 1928.
  11. 11. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ O VIAJANTE... Ao Luís da Câmara Cascudo Era nos dias calamitosos da seca de 15, um dos maiores flagelos que,nesses últimos tempos, têm assaltado os sertões nordestinos. No céu, sem nuvens, de um azul desbotado, pairava a serenidade irônicados estios prolongados, numa indiferença implacável aos reclamos da terra,exsicada pela ausência absoluta de chuvas. Em baixo, no solo despido e poeirento, descortinava-se o quadrocompungente de uma vegetação tuberculosa, completamente desnuda, a ostentar,numa sequência desanimadora de secura, aos olhos de quem passasse, oscenários mais desoladores. Nos tabuleiros tristemente nus, sem o recurso de uma haste de pasnasco,devorado logo aos primeiros paroxismos da desgraça pela gadaria faminta,apenas, aqui e ali branquejava, como uma nota de grandeza naquelas regiõesacabrunhadas pela torreação do solo criador, a brutalidade granítica dos serrotes,feitos poderosas reservas caloríficas ao ósculo calcinante de um sol abrasador. Ao trote macio da mula ruana bem ajaezada, rumo do sertão cearense,vindo da capital do Rio Grande do Norte, um viajante de Recife devorava osquilômetros do caminho, absorvido em mil planos comerciais, num completoalheamento dos traços de miséria que a seca imprime, em ásperas mutações, norosto desfigurado das paragens sertanejas. Adiante, o sertanejo Firmino, acossado pela miséria que campeiava em seular desventurado, deixava a esposa aflita, a consolar a filharada faminta e nua, e,igualmente, em tiras e faminto, saía sem destino pelo mato, para procurar noâmago dos campos ermos e sem vida, alguma coisa que desse a comer àquelaprole desgraçada. E infestou toda a redondeza, subiu cabeços descalvados, embarafustou-seem grutas de serras, bateu todo aquele trato de terra incinerado pelas chamas dafatalidade climática, à cata de uma ave qualquer capaz de se comer, de uma caçaa tombar de magra e, por fim, já lhe servia até o cadáver nauseante de uma rêsmorta de consunção, há pouco tempo. Nada disso porém. Apenas encontrouarcabouços, em adiantado estado de putrefação, os quais serviam de repasto, emque se banqueteavam, em orgulhoso requinte de prodigalidade, gordos urubus deparceria com um ou outro cão do serviço de gado que cambaleante e espectral,disputava, algumas vezes, aos imundos voadores, aqueles laboratóriosrepugnantes, em que se realizavam as reações nauseantes da decomposição. O sol no seio de um terreno escampado, sem o amparo agradável dassombras compactas, numa profusão satânica de chispações ardentes, envolviatudo numa temperatura de fogo, e ressequia a laringe e estalava os lábios dequem caminhasse a pé, àquelas horas, ao beijo ígneo de seus raios. O sertanejo, sedento, percorreu com as fauces a arder, todas as aguadasconhecidas. Tudo seco. Nem um pingo do precioso líquido. Até o poço do “Olheiro das Grotas” escancarava a grande boca circulartorrada, cheia de uma lama escura, à indiferença dos céus, numa súplicabizarramente triste.
  12. 12. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ Firmino tocou de volta mudo, desanimado ante a grosseria de tantossofrimentos, com a garganta a explodir de sede, transido de fome. Ao chegar, já tarde, encontrou a mulher a chorar vencida pela dorlancinante, sentada sem alentos a um canto da saleta de ramo esburacada. Morrera de fome o caçula de poucos meses. Os seios maternos, exauridospela ausência da alimentação, não tiveram, no momento, uma gota de leite parasalvar a fragilidade daquela existenciazinha desgraçada. O sertanejo, desapontado com tão cruel imprevisto, saiu para o terreiro,enquanto, num choro intermitente, os outros filhos, enlaçando-lhe as pernas,pediam-lhe freneticamente um comerzinho. Sentou-se num toro de carnaúba àporta da choupana, e, num instante em seu coração de pai infeliz abriram-seabruptamente as chagas dos mais atrozes sofrimentos íntimos. Nesse momento, um moço desconhecido, parando a montaria, pediu paraensinar o caminho do Crato. O dono de casa satisfê-lo prontamente e, apóshistoriar o drama doloroso de sua dor, implorou-lhe uma esmola cheio deacanhamento, e sem dar tempo a que o passageiro respondesse, acrescentoucom tristeza, como se quisesse traduzir na voz toda a amargura que lhe recortavaa alma sofredora: – Vosmecê veja que é muito triste para um pai ver assim morrerem os filhosà míngua de um bocado, e ele não ter jeito a dar. Mas que se há de fazer... E uma onda de pranto irrefreável susteve-lhe a palavra violentamente. Amágoa do inditoso filho do sertão, que capitulava à dureza dos revezes, desfez-senuma caudal impetuosa de soluços, inconsolavelmente. O recém-chegado olhou para o interior da palhoça arruinada, onde umamãe cobria com suas lágrimas o cadáver do seu filho que não pudera salvar comseu leite. Depois, presenciou lá fora um sertanejo moço tendo desenhadosnìtidamente nas faces escavadas os estigmas dolorosos da fome, quedar inânimeante a lamúria de criancinhas cadavéricas, numa ostentação compungente depequenas ossaturas agudas, e ameaçadas também da mesma sorte, Mudo, tomado de grande comoção, puxou, num gesto rápido, maquinal,desataviado, a carteira recheada, passou-a ao Firmino e, antes que esteensaiasse o mais simples agradecimento, retirou-se para não mostrar as lágrimas. O sertanejo, perplexo, ainda procurou falar-lhe, mas já ele desaparecia nacurva do caminho.Diário do Natal-Natal, 27-3-1928.
  13. 13. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ A RESSUREIÇÃO Ao Cônego Mélo Lula E enquanto a plebe ignara turbilhava, doida, pelas ruas, o coração maternode Maria se transportava em lances de agonia e as mulheres santas molhavamcom suas lágrimas o lugar do sacrifício, ao lado do discípulo amado, o Deuscrucificado abandonava no peito ensaguentado a fronte macilenta e, Redentor dogênero humano, expira pela salvação dos homens. A natureza como que experimentara um colapso formidando. A terra todatremeu, agitada por uma como convulsão titânica dos elementos. Consumara-seum deicídio. No espírito de Madalena, a sublime convertida, ficaram, em visõeshorríficas, todas as cenas sanguinárias da paixão do Mestre, amenizadas apenaspela promessa consoladora da ressurreição. E na madrugada do terceiro dia, amagna pecadora, munida de bálsamo e outras essências, partia, com duascompanheiras, para o horto em que José de Arimatéa sepultara o corpo de Jesus. Dolorosa surpresa: o sepulcro, aberto, estava abandonado. – Os fariseus roubaram o corpo do Nazareno para profaná-lo. SuspiraMadalena numa vertigem de desalento. Chegara ao epílogo a tragédia hedionda do Calvário, o maior e o maishorrendo desvario de todos os que cometera essa humanidade ingrata queperpetrara o suplício de um Deus, feito homem para redimi-la da culpa dosprimeiros pais. A paixão do Cristo havia sido um drama doloríssimo de sofrimento. Desdeque o discípulo mau imprimira nas faces divinas do Mestre o ósculo letal datraição, que ele começou a ser alvo dos maiores doestos e violências. Os algozes culminaram nos excessos de sua impiedade. Conduzido a Amáas, Caifás, Pilatos, Herodes, recambiado àquele, ajornada do Divino Réu foi toda uma tempestade de insultos e chacotas, de chufase grosserias de poviléu estulto, a vociferar em volta da figura serena do Messias.Um juiz pusilânime, aos anseios da turba fanática, lava as mãos criminosas comose a ação do cristal corrente alcançasse as imundícies do espírito, e covarde, ehipócrita, e infame, dissimula na condenação do Sublime Inocente. Começam parao Cristo os momentos amargos da via dolorosa. Açoites brutais, escárnios de toda sorte, palavras irreverentes, escarros nosagrado rosto, a coroa de espinhos, a esponja de fel, tudo isto tolerou compaciência imperturbável o Divino Condenado, nessa caminhada de dores, até otopo do monte que servira de patíbulo para a imolação de um Deus. Aí ficou-nos alição maior da passagem do Cristo pela terra. E quando, com a presença dos apóstolos, se verificou que apenas estavamno sepulcro os lençóis e o sudário que serviram ao Sagrado Morto, a tristeza dadiscípula se dissolveu numa torrência diluvial de lágrimas. Mas Jesus reservara à mulher um papel sublime de amor no dramacrudelíssimo da paixão.
  14. 14. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ E Madalena chorava, de pé, olhos fitos no sepulcro. Subitamente alguémlhe diz: – Mulher, por que choras? E ela com expressão de sofrimento: – Senhor, se fostes vós quem o tirou, dizei-me onde o pusestes, e eu ireibuscá-lo. – Maria. Foi a resposta de Jesus, que não quis afligi-la por mais tempo. Sim, era Ele realmente. Era o Bondoso Jesus, que baixara à atmosferainfecta de uma sociedade viciada, para libertá-la da podridão e do erro e integrá-lanas delícias da graça e da renúncia cristã. Jesus ressuscitou. Diário de Natal – Natal, 8-4-1928.
  15. 15. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ VISAGEM * – Quando eu era rapaz moço, patrão, também pensava assim comovosmecê: não acreditava em alma do outro mundo, não. Se alguém me contava um caso de assombramento, eu me cantava logocom as doidices: qual nada; isso é “busão”. Um homem mesmo não anda vendovisagem, a toda hora. Eu só acredito em alma aparecer, quando uma gaiatadessas me apertar as goelas, até eu botar um palmo de língua de fora. Ainda de uma feita, eu me andava peneirando pra banda da Ritinha, aminha primeira mulher, que Deus tenha em bom lugar, estava se fazendo quarto aum menino do “Fulozino” das Pitombas, e eu disse tanta besteira, por via de umcamarada contar uma história de alma, que fiz arrepiarem os cabelos a quantamorena assistia por ali, fazendo a caridade ao inocente. Ora, vai se não quando, morre na vila o Minervino de Braga, um “diabo” deportuguês velho que, em vida, não lhe sirva lá de pena no outro mundo, nuncadera um vintém a um pobre, por mais miserável que fosse. O que respondia eraque trabalhasse como ele que não lhe faltariam meios de viver à farta. Casimiro fez uma pausa, respirou cansado, e continuou com a sua vozrouquenha e preguiçosa de tuberculoso crônico. – Dias depois, por volta das dez da noite, escuro de meter dedo no olho,cheguei da vila no “faceiro”, um cavalinho melado caxito que eu tinha apanhadopor troca da mão do cigano Neemias na feira do Pombal, no tempo em queandava na estrada com uma tropa de “seu” capitão Fulgêncio da Ararinha. E dissepra caseira: – Você vá cuidando no escaldado, enquanto eu dou ali um saltinho no“bebedor”, pra passar água no “faceiro”. O narrador açoitou o mulo das macas, e intercalou um parêntesis. – Ah! Meu patrão, cavalo dengoso como aquele, esse seu negro velho nãotem mais o gosto de possuir, não. Baixeiro, manteúdo, acordadão, pra umajornada só mesmo o trem de ferro. Era um gosto mesmo viajar nele, como lá diz ooutro. Depois retomou o assunto. – Bem, como ia dizendo, lacei uma corda de embira no pescoço do cavalo,passei-lhe a perna em riba, e saí cantarolando pra cacimba. Agora é exato que,quando fui me montando, passou-me assim pela mente a lembrança do Minervino.Mas ”nanje” que fosse sobrosso que, verdade seja dita, eu não era um sujeito praandar me assombrando já e já, sem ver de que. E continuei minha viagem até acacimba de gado, que ficava a um bom pedacinho, sem me lembrar mais de talcriatura. Ao chegar à “manga”, o cavalo estacou, bufando e tremendo, sem quererencostar.* Este conto foi divulgado em primeira mão, no Diário de Natal, sob o título “Alma do Outro Mundo”,a 21 de abril de1928, sendo, posteriormente, refundido pelo autor e publicado na revista Excelsior,do Rio de Janeiro, com o nome de “Visagem” (nota de Manuel Rodrigues de Melo). .)
  16. 16. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ – Espere lá, que história é essa? – pensei comigo mesmo, num segundo.Decerto o meladinho era bem esperto, meio passarinheiro, mas também não eraburro mulo que precisasse de esbordoamento pra atravessar um apertado. Dei-lhe umas lambadas mestres, com o nó da ponta da corda, sacudida apreceito, e nada. O bicho gineteava aos bufos, chega levantava o poeiriço. Nisso, passou-me assim pelo corpo “mode” que uns arrepios de frio e oscabelos da cabeça, pesar de “pixains”, se levantaram todos, chega deu pra erguero chapéu de palha de “catolé” comprado na cidade de Sousa. Aí me veio à menteoutra vez, escritinha, a figura do canira do marinheiro, como eu tinha visto nocemitério da vila, no dia do enterro. E – pra que não dizer? – fiquei com tantomedo, chega parece que o cavalo me fugia das pernas. Olhei pra cacimba e pra gangorra, pra ver se descobria alguma coisa, queaquilo já estava me amofinando de veras: nada. Apenas o pretume da escuridãoembrulhando tudo num lençol de tisna. Quis cobrar alma nova e danei o couro no“faceiro” mesmo a preceito, como quem queria esfolar o “bacaiau”. O pobre bruto,a cada lamborada, recuava, num resfolegado forte, empinando e tremendo quenem vara verde. E vosmecê me acredite por fé de verdade, não é trapaça não, é exato queeu não vi nada com meus olhos, mas parece que uma coisa me repuxou todo, euquis gritar e senti um estalo na garganta. Daí em diante não me lembro de mais nada. E finalmente, pra encurtar a história, só sei que, quando vim a dar acordode mim, estava todo inteiriçado, com a garganta que não podia dar o goto, deitadonuma rede nova de varandas, já pela madrugada, e a Ritinha me balançando, aenxugar as lágrimas com a manga do casaco de chita quadrejada. No outro dia, de manhã, o “faceiro” foi encontrado prontinho, no encosto domato. Não tinha um arranhão. Após um ligeiro acesso de tosse, meu companheiro arrematou, cominflexão, triste: – De lá pra cá, digam o que quiserem os outros, nunca mais duvidei doaparecimento de visagem.
  17. 17. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ NO RANCHO DOS BENTINHOS Ao José Borges O comboio alcançara, já tarde, o rancho dos Bentinhos, uma velhaquixabeira centenária, que, implantada em sítio aprazível, à margem do caminho,dava abrigo, desde tempos velhos, a quanto matuto que por ali passava, rumo dosertão rio-grandense. O sol posto, em toda a fisionomia da natureza, começavam a aparecer osprimeiros sintomas de sua languidez noturna. Apenas para as bandas do ocidentese debuxavam parcamente os últimos visos de um crepúsculo fugace. Chegado todo o comboio, os matutos foram descarregando as tropas cominsofreguidão, dispondo em pilhas as cangalhas e amontoando os costais, emvolta do grosso tronco da árvore-estalagem. Era uma partida de cereais que os freteiros do capitão Antero de Limalevavam de baixo para a serra de Luís Gomes. Lavados e peados os animais, para irem babujando por ali mesmo até osair da estrela, quando continuariam viagem, o pessoal armou as tipóias e foiempalhando o tempo com conversas, enquanto tomava umas fervuras o caldeirãode ferro, recheado de feijão e carne de sol, comprada na feira de Santana. O velho Higino Barros, decano da tropa e lugar-tenente do patrão,comentava com outro camarada, enchendo o pito sarroso de bom fumo do Brejo: – Tu reparaste Jerome na pacholice do cordãozinho? Compadre Anteropassou foi uma taboca danada naquele moço de Araruna. Um bicho novato desseem segunda muda, carregado a 10 arrobas e nem como coisa... Parecia umquartau serviçado. E o outro acrescentava, prazenteiro: – Seu Capitão mesmo só tendo pauta com o demo pra negócio. Se foi natroca daquela burra melada de meu coice, em outubro do ano passado, na vila doCuité, só faltou mesmo foi deixar o pobre do missangueiro a pé, com os trens nacabeça. E a prosa resvalava em assuntos diversos. Analisavam-se as dificuldadesda viagem: uma carga rolada, um atoleiro, um animal estropiado. O garbo de umcargueiro. As qualidades do patrão. E dizia-se: – Ah! aquilo é que é homem de sim, sim; não, não. Prometeu, tá prometido;também negou, negou mesmo. Nem afunegue mais. E a coisa foi neste pé, até cair no terreno das próprias façanhas. Foi logo o Jerônimo, mestição corpulento e de má fisionomia, metido avalentão, que começou o novo assunto: – O caso acontecera, há coisa de dois anos e meio, na entrevéspera deNatal. O narrador acendeu, com o isqueiro, um cigarro grosseiro de palha de milhoe continuou: – Eu viajava da cidade, já era escuro de tudo, num bichinho alazão-tostadocom um dinheiro do major Malaquias. Os senhores sabem que eu fiz muitomandado dele. Pois bem, no meio da estrada, naquele picadão esquisito, e, alémdisso, com quatro contos de reis alheios no bolso, quando olhei pra trás, lá vinha
  18. 18. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/um freguês a pé, quase de chouto, e com uma espingarda ao ombro. Encostou-sea mim, regulou a marcha pela de meu animal, e continuou emparelhado, sem dizeruma palavra. Aí, já fui logo cismando, que sempre achei uma desfeita o sujeitopassar por outro e não lhe dar as horas. Mas, virei-me pra ele e disse com voz firme: boa noite, amigo. Nada; foimesmo que ter falado com uma pedra. Outra vez: amigo, boa noite. A mesmacoisa. Não me tornou resposta. Quis me afobar, mas calculei comigo: espera lámeu diabo, que tu estás muito enganado. Nós anda juntos, daqui até dia de sãonunca, mas parte de fraco é que eu não hei de dar. E assim tocamos pra frente.Mas o alazãozinho não furava mais nada. Só marchava, como lá diz, à vara e aremo. Na barriga, não restava mais cabelo. Saíra todo nas rosetas das esporas deferreiro. – Os senhores conhecem bem aquele pereirão do fim da picada, perto daEsperança, não é? Higino adiantou-se logo: – Ora se... Lá mesmo de uma feita, por um nadinha, não espatifei o quengode um. O cabra quis me intimidar, mas não me faltou repente: sua vida é como aminha, meu duro, e, se quer, vamos ver qual estraga mais: a ponta de sua faca oua boca de minha pistola. Jerônimo, já meio impaciente, retomou a narrativa: – Bem, como ia dizendo, ali naquele pereiro, o cavalinho em tempo de botaro coração pela boca de estrisiado, resolvi ficar até demanhãzinha. E pensei: porcerto este fantasma agora passa. Mas qual nada. Quando acabei de pear o pestedo trangola, já o sujeito estava sentado e a meia-coronha encostada no tronco dopereiro. Vieram-me à mente não sei quantos pensamentos ruins. E maginei logo:por certo aquele sujeito viu quando eu recebi o dinheiro e quer me fazer umatreição, fora de hora. Só decifrando essa charada, mas é já. Fui e falei outra vez: – Amigo, qual é a sua graça, que mal pergunto? Nada. O infeliz nem olhou pra mim. Olhem, os senhores me acreditem queeu não fiquei em mim de raiva. Os bofes me incharam dentro e o sangue ferveunas veias, que a falar franco, nunca fui arruaceiro, mas também, o suplicante nãose meta a troçar de mim não, que sai roubado, em dois tempos. O narrador sugou as últimas baforadas do cigarro, jogou a ponta fora eprosseguiu: – Aí eu levantei-me e saltei-me com ele, por aqui assim: – O senhor é doido, não carrega língua ou que diabo tem, que não fala? Afazer pouco neste cabra aqui (bateu no peito com a destra espalmada) não semeta não que se molha. E se quer imendar os bigodes comigo é só correr dentro. Ele não respondeu mas, desta vez, pegou a espingardinha e ganhou naestrada, olhando pra trás aqui e acolá, e quase de carreira. Eu, já meio receoso,cobri-o com o cano da garrucha, pra tocar-lhe fogo, mas baixei a mão. – Diabo leve o homem que mata outro pelas costas. Após ligeira pausa, findou aliviado: – E parece que foi Deus mesmo, que me ajudou. No outro dia, quandocheguei à rua, foi que soube: o freguês era um mudo que dera por ali, há uns oitodias.
  19. 19. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ Depois, aproveitando a impressão ambiente, ainda acrescentou vaidoso, deolhos fitos na arma, que pousava num dos meios – de – carga: – Agora fosse eu, temendo a volta dele mais tarde, descarregar umaexcomungada daquela num pobre, coitado, que nem falar podia. Uma estrela-cadente, lacrimejando fogo, desenhou no espaço uma granderisca luminosa. Os matutos disseram todos, a uma vez, com respeito religioso: – Deus te salve, Deus te salve, Deus te salve... Era hora da refeição. Caborés e mães-de-lua soltavam, na calma da noite, as notas desafinadasde seu canto monótono. Ao longe, tudo eram trevas. Apenas vaga-lumes diversos luze-luziamesparsos, nas baixadas próximas. Diário de Natal – Natal, 3 de Junho de 1928.
  20. 20. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ TAPERA Ao Antônio Fernandes Eram mais de 10 horas do dia quando, passada uma várzea inculta efertilíssima, recoberta de “coroas” pujantes de verdura, eu e o arrieiro, um cabraautêntico do Seridó, amarelaço de cabelos encrespados, chegamos à beira do rio. Parei um instante, e o seriodoense foi logo me advertindo com bom humor: – É pra tocar diante, patrão. Temos ainda boa tirada de testa e o sol já estálá em riba. Seu jegue, porém, ficou-se a beber pachorrentamente a água límpida quedeslizava quase imúrmura pelo leito plano, como remanescente das últimasenxurradas de junho. E ele adiantou, comiserado da sorte do cargueiro: – Está com preguiça, burro velho? Nem é pra menos. Andar puxando umpobre guenzo deste, desde o quebrar das barras até o solão nessas alturas, não élá tão pouco. Depois deu de rédeas no caminho, cantarolando velhos motivos do sertão. E entramos noutra várzea da mesma riqueza vegetal. Tudo aquilo, assim reverdecido pelo banho rejuvenescedor do inverno quefindava, ostentava uma beleza natural fascinadora. Marizeiros enormes, pequenos arranha-céus de esmeralda, erguiam aoespaço sem nuvens o penacho bizarro de suas ramagens gigantescas. Oiticicas numerosas ofereciam ao viajante o conforto provocador de suassombras compactas e além, pontilhando o varjado, floresciam esparsos juazeirose tira-fogos virentes. Pelos interstícios dos troncos das árvores, macegas de jiritana, melão de S.Caetano e muitas malvas formavam tecidos de malhas estreitíssimas, rompidosapenas pela trilha esguia do caminho. O sol, dominando um firmamento limpo, sombreava de tênues franjas deouro a fronde verde do arvoredo. Tudo eram encantos. E ainda mais, os passarinhos, pousados no matagal risonho, modulavam,numa desarmonia interessante de sons, as notas variadas de uma música original. Quem sabe? – Talvez até canções chorosas, recordando sonhos felizes deamores, ali ao abrigo daquele mesmo matagal da várzea. Pelo menos isto, decerto pensou o arrieiro que entoou, com sua voz incultae forte de sertanejo, a quadra de uma modinha conhecida, muito adequada aocaso: Quando a passarada canta Suas trovinhas de amor A minha tristeza é tanta Que desfaleço de dor.
  21. 21. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ Vencidos esses terrenos úberes que debruavam, como colossais varandasde verdura, o curso do rio, chegamos a um planalto de vegetação mais pobreonde se notava a sede de uma moradia antiga. Era uma velha casa de aspecto solarengo, sem portas, paredes de tijoloscarcomidos pelo trabalho corrosivo das invernias sucessivas e teto inteiramentedanificado, que no conjunto desordenado deixava transparecer essa notadesagradável e impressiva de pavoroso que envolve as coisas trágicas emisteriosas. Ao aproximarmo-nos, o meu companheiro interpelou-me meio sério: – O patrão sabe que tapera é esta? A uma resposta negativa, prosseguiu: Contam que em eros tempos morava aqui um fazendeiro rico. De uma feita,indo comprar mantimentos na praça, na ausência dele, mataram-lhe a mulher etrês filhos pequenos, sem se ter nunca descoberto o autor do crime. Ainda: – De lá pra cá, este lugar ficou amaldiçoado. Ninguém mais quis morarnele. E depois de pequena pausa arrematou, dando às palavras um tom deconvicção: – Eu de mim mesmo não sei, que nunca tive ocasião, mas, ainda hoje emdia, dizem que quem vai, quem vem, quem passa por aqui fora de horas ouve umarruído peitado a modo de grito de mulher e choro de criança. *** Quando de volta, meses depois, alcançamos o velho solar abandonado, osol já estava posto, e os últimos lampejos desbotados da claridade crepuscularcomo que emprestavam mais um acento de lugubridade desalentadora àquelesítio ermo que a credulidade popular povoara de duendes. Nada vimos. Apenas um corujão macambúzio, insulado no alto da cumieira mutilada,parecia contemplar assim com uns ares de superior aborrecimento aquelas ruínaspouco célebres, em cujo ambiente se circunscrevia a noite ininterrupta queprotegia o mistério de uma tragédia grosseira. Diário de Natal – Natal, 2 de outubro de 1928.
  22. 22. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ POLDRO BRABO Terminada a labuta do curral e da cacimba, o pessoal da vaqueiriceconversava, no alpendre da casa grande, com o amo que, sentado numa cômodarede de varanda, se balançava, aguardando a hora de montar num poldro doTabuleiro das Onças, pegado “de bebida”, na entrevéspera3 à noite. E o sertanejo dizia, efusivo para os ouvintes, ao avistar o animal: – É, pessoal, bicho desses pastos só leva gente no lombo disto pra maisvelho, que é pra não se prejudicar a forma e enfraquecer a sustância da raça. O poldro era uma bela estampa de cardão escuro, bem assinalado, olhovivo e orelhas pequeninas e entesouradas. Enquanto os vaqueiros lhe analisavam as qualidades, ele permanecia atadopelo grande cabresto de couro cru ao velho pereiro ramulhado do pátio, aestremecer de quanto sopro mais forte de vento lhe arrepiava o pêlo. Quando o camarada, que ia montar, chegou, o Camilo, um rapagão forte de19 anos, filho do vaqueiro das éguas e encarregado geralmente deste mister, ovelho Casimiro, decano dos servidores da fazenda, foi-lhe aconselhando: – Menino, calma e faça força nas batatas das pernas que bicho brabo nãotira brincadeira com lombo de gente. – Qual ti Casimiro – advertiu o Felipe – vosmecê não tome por desfeita àsua pessoa não, mas eu há vinte anos que luto nesta vida, e nunca olhei pra umbicho, assuntando bem nos sinais e fitando direito pra o olho dele, que não lhedescobrisse logo as manhas e os préstimos. Não monto nele aquele molequinhoque está brincando de vaca de osso no oitão, pra não me chamarem de doido,porém esta marca não me engana mais: manso que só quartau tanjão. É capaz denão escabecear. Esse luxo de espanto é só enquanto não se passa a perna. – Não fale assim não, seu Felipe – contraveio um camarada – animal brabotem sido sepultura de muito cabra montador, acostumado a tirar potoca de burroerado. Nem todo dia é dia santo. Aqui mesmo eu vi um poldro melado em segunda muda, de uma feita, jogarum cabra respeitado neste ofício fora da sela que, se não fosse na areia do rio, ostutanos da cabeça tinham voado longe. E lembre-se das upas que este bicho deu no esbrabejamento. Gineteava nocabresto que nem jararaca em areia quente. E gordo de peito e anca como está, o lombo escorrega que só sabão daterra. Quem montar, se não firmar o corpo, está por terra, em dois tempos. É oque lhe digo. – Ora, replicou o outro, deixemos de falatório. Se o Camilo não aguentar o arranco do cardãozinho e comer barro empoucos pulos, quem vai montar é o Chaguinha, pra mostrar ao irmão como negrodos Pereiras tira pataraca de poldro brabo, ainda em camisão. – Ta, Felipe, eu só queira que este poltro tirasse o Camilo, eu desejava verse você tinha coragem mesmo de sacudir um pedaço de cristão daquele em ribade um excomungado deste – disse alguém. Felipe respondeu:3 Antevéspera, no dia antes da véspera. O povo diz: entrevéspera, como grafou o autor, seguindo aforma popular (nota de Manuel Rodrigues de Melo).
  23. 23. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ – Se tinha é uma história. Está dito. E beijou sucessivamente as costas de uma e outra mão espalmadas, emforma de juramento solene. Em seguida: – E para ver – voltando-se para o filho que, meio apreensivo, escutara aconversa, encostado a um esteio – Camilo voa em cima em osso mesmo, praacabar com esse discurso oco. O rapaz, calado, com um ar de desconfiança, marchou para o pátio, ondese achava, posto a soltas, o cardão. Quando o montador se aproximou para montar, o poldro agitou-se todo, àvista daquela figura estranha, recuando de súbito como se quisesse empinar. Camilo, mal impressionado com as conversas do alpendre, não repetiu atentativa e inesperadamente, cabisbaixo e acanhado, deu de marcha para oterreiro e disse ao pai estupefato: – O coração me pede que não monte, eu tive uma cisma e não montomesmo não. Sucedeu-se um silêncio geral, desenhando-se apenas em algunssemblantes um sorriso desbotado de admiração e de surpresa. O pai de Camilo, a fisionomia carregada, dirigiu-se mudo para o Chaguinha,um menino de 12 anos, ergueu-o pelas axilas e, com espanto geral do auditório,disse com desdém: – Seu Quim, faça o cabresto bem curto e segure este diabo com unhas edentes, que eu quero descarar um mofino. E após umas poucas ligeiradas no animal jogou-lhe em cima o cabrinha emchambre, de olhos de pitomba, a sorrir alegre de seu papel de peão precoce,deixando ver uns dentinhos alvos e pontiagudos de camundongo. O cavalo, ao atrito da carga leve, começou a estremecer-se todo, dacabeça à anca, num resfolegar forte, nervoso; depois saiu num choutodesaprumado pela grama seca do pátio, como se ensaiasse trocar os passos dobaixo; a um puxão no cabresto, voltou em direção oposta, tomando aqui e acoláligeiros espantos, acompanhado pelo olhar apreensivo dos presentes. – Não deu um salto... Diário de Natal – Natal, 17-11-1928
  24. 24. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ A CAÇADA Chegado à “Tocaia das onças”, onde ordinariamente pernoitavam os caçadoresdaquelas bandas, Zé Antônio, como não encontrasse ninguém, resolveu torar pra fora,pra sua morada da “Campina”, a fim de no outro dia, sábado, fazer feira com as caças napovoação. E sacudiu-se, absorvido em planos financeiros. De feito, fora uma bela caçada a daquela semana: dois veados chancudos, trêspebas, um verdadeiro, um tamanduá e a ema que quebrara de travessa, na “ceva”, com alazarina do Fulosino. Isso sem falar em duas canadas de mel de jandaíra e mosquito quetopara, em três imburanas da “lombada formosa”. E monologava bazófio: – Bicho arma boa, essa de Fulosino. Se o cabra não trastejar na pontaria, é o fuzilcortar e o mocotó dá nó. E caminhava, na batida do Jegue, tateando, em meio à escuridão tétrica da noite,ao longo do fio sinuoso da vereda. Aqui, sobressaltava-o o esquivar-se rápido de um animal pequeno, pelo folharalespinhento das macambiras. Ali, o inopinado de um assovio estrídulo, a despertar-lhe noespírito a recordação atávica das “caiporas”. Mais além, o ruído significativo de umacascavel espiralada ao pé dalguma macega próxima, à espera da primeira e desditosaartéria que se lhe aproximasse, para inocular-lhe o líquido mortífero. O sertanejo estacoucauteloso. – Homem, cobra é vivente que não faz o “pelo sinal”... Deteve-se um pouco. Observou bem a direção do toque do maracá. – É pra quelas moitas de guaxina. Mas, por precaução, antes de marchar, recitou a jaculatória poderosa: S. Bento,água benta, Jesus Cristo no altar, arrede-se todo bicho venenoso que eu quero passar. Açoitou o jegue com a vergôntea de marmeleiro, e ele rumou indolentemente nocaminho escuro, muito malandro, se torcendo ao ritmo das vergastadas, seguidas deoutras tantas exortações furibundas: –Tartaruga, diabo eu te mato... E lá iam, rasgando a solidão horrífica da noite, em que a natureza se multiplicavaem enigmas e mistérios, a que não faltava a voz medonhamente assustadora dasuçuarana, como um completivo à melopéia estúrdia dos ruídos do campo. Adiante, ao aproximar-se dos mofumbos da “baixa grande”, um rumor estranhoudespertou a atenção do caçador: – Espere lá, que negócio é este? Sucessivas vezes, a copa rasteira do mofumbo se agitava toda, como se estivessealguém a escabujar lá dentro, ao tempo que se ouvia um como ressonar forte eentrecortado. Escutou mais demoradamente, e a mesma coisa se repetindo comregularidade. Lembrou-se que se dizia muito que por ali apareciam visagens a desoras. Emesmo era dia de sexta. Seu sogro mesmo, o velho Simplício, que não era homem dehistória furada, vira, naquela mesma baixa umas tochas de fogo na derradeira sexta-feirado mês de S. João, à noite. Os cabelos se eriçaram todos, e o sertanejo receou queestivesse diante de si a alma do outro mundo. Só requerendo: – Quem pode mais do que Deus? Nada. Apenas novas agitações se sucederam na fronde do mofumbo, comoestribilho ao resfolegar nervoso, que não parava. Se fosse alma atendia ao nome deDeus. Chamou os cachorros: – Rompe-ferro. Arranca toco!
  25. 25. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ Os dois podengos se tinham embarafustado pelo mato, farejando no rastro dealgum bicho. Parou um pouco, indeciso, e tomou uma resolução firme: – Isso não fica assim não... Aproximou-se e espreitou bem a moita mal-assombrada. O escuro não deixava vercoisa nenhuma. Zé Antônio resolveu-se definitivamente. Pegou o machado afiado de tirar mel,ergueu-se nas pontas dos pés e desceu-o com toda força de seus braços hercúleos nafronte da árvore fatídica: – Tome lá, diabo! Um gemido verdadeiramente tétrico foi seguido de uma convulsão mais violenta daramaria assombrada. Puxou o machado. Alguém susteve-o com força. O sertanejo recuoususpenso, cabelos em riste, olhos esbugalhados, mão nervosamente grudada ao cabo da“jacaré”, e instintivamente tomou por uma vereda lateral. A uns quinhentos metros,esbarrou. Matutou um instante: – Homem, isso é uma desgraça. Triste da mulher que traz um filho ao mundo pra andar assombrado nessascatingas, sem ver de que. E veio a reação definitiva: – Dessa vez eu me desengano. Voltou quase correndo, com o “jacaré” em punhado, disposto a tirar daquilo umasolução indubitável. Com o jogo do corpo na carreira, pressentiu a caixa de fósforos no bolso que omedo fizera esquecer da primeira tentativa. Ao chegar ao local, escutou um pouco. Nada ouviu de anormal. Apenas o sopro pausado do vento, num murmúrio leve, pela ramagem dasárvores, de par com o vozear dalgum pássaro noturno. Tomou alma nova. Estumou os cães que haviam voltado com a demora do dono.Tudo silencioso ali. Chegou-se ao mofumbo. Riscou um fósforo. Aproximou-se da moita e baixou para ver bem. Uma expressão desbotada de triunfo inglório traduziu-lhe a súbita surpresa: – Tá hí... E agora com um tom da desairosa capitulação: – Olhe minha desgraça em que deu. Agora trabalhar pra pagar o que não comprei.E levar o nome de ladrão por cima... Uma vaca, mordida de cobra, por certo, caíra no emaranhado do mofumbo. E eleacabara de matar. Lá estava o machado, a folha enterrada até o nível do cabo, à altura dasétima costela. O minguante, muito claro, subia lento num céu límpido de estio. U’a mãe-da-lua derramava pelo campo ermo a monotonia de seu canto. Diário de Natal - Natal, 13-3-1929.
  26. 26. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ MORDIDO DE COBRA Pela manhã, ainda bem cedo, desleitadas as cabras, e suprido de água opote de barro que dominava a forquilha trifurcada de pereiro, a um canto da latadade folhas de oiticicas, o velho Rufino partiu em direção ao roçado. Ia limpar aaninga e língua de vaca que cobriam, em quase toda extensão, a Lagoa daVárzea, uma ipueira que demorava a umas duzentas braças do leito do rio e paraonde pretendia mudar uma planta de arroz cacheado, que já começava aamarelecer, à míngua d’água. Adiante, alfinetou-se o vício habitual do sertanejo. Lembrou-se de fumar. Ofumo ali é como complemento do café. Afastou-se do caminho e encostou-se a uma coivara que ficara porqueimar, na última broca. – Só tomando umas baforadas pra alertar. Picou o fumo, com as unhas ponteagudas e encardidas, e encheu o pitosarroso. Puxou do bornal de couro curtido o artifício e tirou fogo três vezesseguidas. O vento da manhã, soprando intermitente, desviava a faísca da lã doisqueiro. Rufino deixou escapar dos lábios uma pilhéria tímida. – Que faz S. Lourenço, que tão cedo tirou o freio desse desbragado? Tomou para junto da coivara, abaixou-se bem, e novamente riscou o fuzil.Quando atenciosamente acendia o cachimbo, surpreendeu-o uma pancada forte,acompanhada de uma picada incisiva na parte superior do pé direito. O sertanejo teve uma expressão súbita de instintiva religiosidade. – Valha-me o senhor S. Bento! Olhou rápido, e lá estava, espiralada a meio, cabeça levemente erguida, ematitude de quem desdenha da eficácia da reação, uma cascavel enorme. Num gesto pronto, Rufino esmigalhou-lhe a cabeça com o olho da enxada.Depois, calmamente, como se não tivesse a vida em iminente perigo, estendeu-aao longo do caminho e mediu, um a um, onze palmos de sua mão possante delavrador. Olhou o local da mordedura. Dois fios tênues de sangue corriamlentamente dos pontos em que se haviam cravado as duas presas. O caso estava sério. Mas, como era curado de nascença... Quando, emprincípios da era de 70, dera por aquelas bandas, o Luís Curador se negara aaplicar-lhe o milagroso preventivo: tinha o corpo fechado. Portanto, pensava consigo, não devia ingerir remédio algum. Era não confiar no privilégio que lhe concedera a Natureza. Faria apenasu’a mezinha corriqueira de aplicação externa. O que tirava a força da cura eram asbeberagens de qualquer espécie. Arrastou o quicé, extraiu o coração venenoso ofídio, e colocou-o no lugar daferida, por alguns instantes. Em casa, ocultou da família a causa do retorno inesperado: paranças deandaço; umas pancadas na cabeça; arrepio de frio; besteira, medo de molhar ospés. Em pouco tempo, porém, se acentuavam definitivamente os sintomasinequívocos de atuação do veneno; escurecimento de vista, sede causticante,descangotamento. Ofereceram-lhe os antídotos caseiros.
  27. 27. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ Rufino não aceitava absolutamente. O sertanejo, supersticioso e rotineiro,não abdica facilmente de suas crendices, segmentadas em longa elaboração,através de uma ininterrupta cadeia etnográfica: era curado de nascença, e eis tudoquanto bastava. Com a progressão do mal, ofereciam-lhe outros remédios conhecidos, e acada novo oferecimento, correspondia o refrão inalterável e cadente. – Eu sou curado de nascença. E só à força de muita súplica, e já quando se lhe debuxava no espírito aimagem da morte, foi que ele acedeu em tomar um pouco de leite de pinhão. Mas, momentos depois, ante a ineficácia do remédio, aquela alma ingênuae rude, já nas ânsias da morte, atribuindo aquele desfecho fatal à sua falta deperseverança, ainda deixava transparecer, numa frase dúbia e resignada, atristeza de não haver persistido na crença daquele dom que lhe outorgara oCriador. – Eu bem sabia que era curado de nascença... Mais tarde, quando já se esvaíam no ocidente as últimas tonalidades rubrasdo crepúsculo, quem passasse pela cabana do Rufino Ligeiro, um espetáculoestranho o surpreenderia: na sala da frente, um cadáver jazia estendido numaesteira, em cujas extremidades ardiam quatro velas de cera de carnaúba. Era ele, que morrera, momentos antes, mordido de cobra. Diário de Natal-Natal, 25 de maio de 19294.4 Nota do Autor: – Este conto, escrevi-o em 1924. Publico-o agora, Apenas com ligeiras emendas de redação.
  28. 28. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ QUIRINO PEREIRA Ao avistar a “casa grande” do Morgado, uma antiga fazenda, cujo nomeapesar da decadência atual do sítio, parecia persistir em conservar o aparato dagrandeza passada, Quirino Pereira acomodou-se melhor na cangalha de malhá,aprumou bem o tronco, como se quisesse ostentar o vigor de seus 50 anos desaúde inalterável, achegou o jegue, com um estalo do gurinhém da mula ruana docompanheiro, e retomou a conversa. – É esse, patrão, o lugar de que lhe falei, lá em baixo, na passagem doriacho do Bastião. É o Morgado, antiga propriedade de “seu” coronel Jerome, queDeus tenha em sua guarda sem nós outros, hoje em mãos do capitão Pedrinho,genro do finado coronel, e moço da capital, que não olha mais pra isso. Nessetrato de terra, Deus louvado, nasci e me criei, em companhia do defunto meu paique foi camarada na fazenda, até quando Nosso Senhor foi servido de chamá-lopra junto de si. E a presença daquelas coisas velhas conhecidas, que guardavam namemória dos brincos primeiros de sua infância, despertou no espírito rude eamoroso do arrieiro, num assomo de alegria borrifada de saudade, a recordaçãode fatos distantes de sua vida obscura, de prazeres e maus tratos por quepassara. E ele não se conteve: – Nesse pátio, hoje coberto de moitas de marmeleiro e mofumbo, essenegro velho, que vosmicê está ouvindo, fez muita estripulia no tempo de frangoteinfancioso, em riba de cavalo bom. Eu me escanchando no rogeiro de uma rês, seo animal não faltasse, enquanto o “demo” esfregava um olho, o mocotó passava.Isso era mesmo que Deus está vendo. Não é potoca, senhor, não. Ainda de uma feita, lembro-me, como se fosse hoje, eu andava pelos meusdezoito janeiros, esse cabra já sem serventia que aqui está, deu de uma sentada,vinte carreiras de moirão de porteira, num cavalinho cardão-pedrez, bicho “fábricade fiança”, que morreu depois espadoado. Quando findou a brincadeira, só pela minha parte, tinha desgraçado trêspernas de bicho jejuado. E o velho meu pai o que dizia era que queria ver se osmoleques dos Pereiras era tudo assim levado do “droga”, pra labutação devaqueirice. Calou-se um momento. Estava em pleno rigor do estio. As caminhadas se faziam ao longo da cinta pedregosa da estrada da vila,rasgada no coração do tabuleiro mal vestido pela ausência de chuva. No correr da marcha, encontravam-se reses descarnadas a farejar o solodescoberto, enquanto outras sombravam nas “malhadas” esburacadas pela nudezdas árvores protetoras. O espetáculo se repetia aos olhos dos dois viajantes, com umaintermitência impressionante. De súbito, a visão de um passado feliz, em sua simplicidade, com umpresente de provações, retratado ali naquele painel desolador, tirou o sertanejo do
  29. 29. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/mutismo em que vinha mergulhado, e arrancou-lhe da alma sentimental deamoroso bronco umas expressões resignadas de queixas. – Tudo isso está hoje mudado. O sertão não presta mais pra ninguémmorar. Se Deus não tiver pena da pobreza, acaba tudo nessas secas, sem terágua nem pra matar a sede. O companheiro, que quase nada dissera ante o extravasar de amarguradaquele coração rude de homem do campo, adiantou uma pergunta: – Por que não abandona isso e procura o litoral? Quirino franziu o sobrolho, desenhou nos lábios um trejeito de indecisão, earremedou uma desculpa desarticulada: – Sei lá... Coisas de quem é besta... Tenho pra mim que, onde a gentenasce, deve se enterrar. Aqui no cemitério da vila, estão todos os meus, desde ostroncos velhos. Pra que ir atrás de uma cova noutro canto? E, como o outro censurasse o seu apego a uma terra ingrata, paupérrima,miserável, que só lhe tinha a oferecer lutas e dissabores, o sertanejo olhou-o desoslaio, deixou transparecer no rosto de tisna uma expressão moderada deaborrecimento, e replicou, consignando numa frase incorreta a filosofia a umtempo eloquente e ingênua do provérbio: – Vosmecê nunca ouviu dizer que quem o feio ama bonito lhe parece?... O sol ia-se pondo. Os últimos pássaros diurnos, em vias de se agasalharem, cantavamesparsos pelos longes do campo, festejando a hora evocativa do “angelus”. Diário da Manhã - Recife, 7 de setembro de 1929.
  30. 30. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ A CRUZ DO TABULEIRO Em pleno coração do tabuleiro calcinado pelas soalheiras ignescentes,onde apenas florescem, ao banho procriador das invernias, juremas e pereiros,marmeleiros e favelas de permeio com o lençol ondulante do panasco, rendilhadoda cactos e macambiras, lá está a cruz como simplesmente a crismou a memóriapopular, sozinha, sentinela incançável de uma sepultura abandonada. Apenas na estação das chuvas, alguma trepadeira silvestre passeia assuas ramagens pelo vértice daquele signo da nossa fé tradicional, que representao ponto final de uma existência obscura, encerrada talvez nos lances violentos deuma tragédia grosseira. O sertanejo, que passa, não lhe pergunta a história. Pouco importa sabê-la.Encontra tantas outras em suas caminhadas a salpicarem os sertões de outrospontos de interrogação! Para ele o pretérito é um mistério que não procura desvendar, assim comoo porvir é um enigma que o não preocupa. Para que indagar das coisas que seforam, se os lazeres da vida não lhe permitem sequer meditar nos dias do futuro?Sabe apenas que aquela cruz isolada no deserto do campo é o marco derradeirode uma vida que se findou, como tantas outras no sertão – no inesperado de umgolpe, no violento de uma catástrofe. Coisas do “meio” e do tempo. É quandobasta. Não lhe perquirem as causas. Muito menos as circunstâncias. Tudo isso écoisa somenos para os filhos daqueles rincões, onde o solo crestado e graníticoparece ter moldado o caráter do homem à sua imagem e semelhança. Alma ingenuamente religiosa, ao defrontar com ela, arreda da cabeça ochapelão de couro, e não raro balbucia uma prece íntima, para depois acrescentarmais uma ao montículo de pedra que a superstição dos transeuntes lhe erigiu empedestal. Passa mudo, e só. Para que violar o sacrário do passado, ensaiandodevassar as origens de um fato que o tempo cristalizou na lenda, e a caridadeanônima perpetuou na homenagem humilde de uma cruz de madeira? Página viva da epopeia rubra do banditismo? Cena palpitante do dramadoloroso da seca? Como o homem do campo, eu não quero desvendar a cortinaque a protege contra os olhares da curiosidade ambiente. Não a incomodemoscom os extemporâneos inquéritos de decifradores de enigmas históricos. Mesmopor que há sempre um encanto novo no recesso das coisas desconhecidas. Aquela cruz mal talhada de pereiro, braços constantemente abertos àimpassibilidade azul do céu amplíssimo, não rememora um acontecimento,simboliza uma época. É a imagem sugestiva de uma era de preconceitos,incrustados em demorada segmentação genealógica na psicologia de uma raça. Assinala talvez algum estágio de um estado de espírito coletivo, resumidopor acaso na brutalidade ainda hoje vulgaríssima de um assassinato. Diário da Manhã - Recife, 17-11-1929.
  31. 31. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ NOITE DE SÃO JOÃO (Trecho de uma novela inédita) O São João e o São Pedro são para os sertanejos as festas maisagradáveis, porque são as festas das luzes e dos fogos. E eles têm essa notaclara em sua psicologia: impressionam-se facilmente com as projeções luminosas. Na véspera dos dias do Precursor e do Claviculário, os lugarejos do interiorapresentam-se com aspecto risonho e atraente. E nas noites de S.João, então, culmina o contentamento popular, naquelasterras incultas. Os povoados, de ruas tortuosas e casario arruinado, naquela noite,graciosamente iluminados pelas fogueiras do Batista revestem-se das galas deuma fisionomia inteiramente nova. Ali tudo é alegria e movimento. Nas praças dramatiza-se um movimentarconstante de centenas de criaturas, muitas das quais afluíram dos arrabaldes,num dinamismo fervilhante de moto-contínuo. E desenvolvem-se as cenas maisinteressantes e dispares. – Aqui realiza-se com unção piedosa o cerimonial incômodo do batismosanjuanesco, envoltos, padrinho e afilhado, em verdadeiro banho de fumaça. Edos lábios de ambos escapam religiosamente as palavras três vezes seguidas: São João disse, São Pedro confirmou e Jesus Cristo mandou que o Senhorfosse meu padrinho. E depois: Viva São João, viva São Pedro, vivamos nós, meu padrinho. Mais ali pessoas várias, geralmente mulheres, procuram com olhosescancarados divisar na redoma de um prato, no cristal borbulhante de uma baciacheia de água ou em qualquer outra superfície refletora, em linhas distintas oscontornos da própria fisionomia insculpidos com sombra. E aparece aí mais umadas múltiplas abusões que enchem de sobressaltos o viver dos habitantes simplesdo sertão. – Acredita-se que os que não virem o rosto claramente por um dosprocessos atrás indicados morrerá antes do outro São João. Mais adiante vultos diversos de cócoras junto ao braseiro de uma fogueirarevolvem espigas de milho pacientemente, assando-as para o rápido repasto danoitada. E vem por fim a música desparatosa dos fogos de São João. Chia uma pistola; estala um traque; papouca uma explosiva; e, por últimocontrastando em potência com aquele suceder de detonações pequenas, a velharoqueira, a bizarra boca de fogo do sertão abre a poderosa garganta de aço edeixa sair um entulho de pólvora e bucha produzindo um estampido enorme quevai ecoar no matagal vizinho. E sublinhando tudo isso com um estrepitar de alegriaincontida, a algazarra da meninada gárrula e jubilosa a borborinhar aos saltospelas ruas.
  32. 32. www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria/wordpress/ A nota porém mais característica dessa festa é sem dúvida o terço de SãoJoão, rezado nos 3 dias imediatos ao dia do Precursor e anunciado pela bandeiraindefectível içada na frente da casa onde se pratica a devoção, a quecomparecem numerosíssimas pessoas das vizinhanças. A ele geralmente segue-se o baile, onde cavaleiros e cavaleiras5saracoteiam tangos e onesteps deselegantemente, cheios de requebros etrejeitos, à melopéia insulsa da sanfona. Em contrário, outras diversões inofensivas: o livro de sortes, histórias detrancoso, interpretadas quase sempre com espontaneidade e precisão que sepodem dizer artísticas. E a tudo isto não raro sucede o concerto brejeiro de um cantador de viola,repentista inspirado que rumina ante um auditório comovido os sextetos tristonhosdo “verso de Marina” para em seguida arrancar-lhe gozadas explosões de alegriacom as estrofes humorístico-encomiásticas de coplas laudatórias. A festa de São João é uma festa excelente porque nela a alma honesta esofredora do sertanejo encontra motivos para quebrar o ritmo monótono de umviver áspero e laborioso...5 O sertanejo, obedecendo à lei do menor esforço, prefere as formas cavaleiras e cavaleiras, emvez de cavaleiros e damas, quando se refere aos pares que dançam. O escritor, fiel à pronunciada região, manteve as formas vulgares (nota de Manuel Rodrigues de Melo).

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