TRADUÇÃO DA SEGUNDA EDIÇÃO 

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O autor busca as explicações para a segunda revolução Industrial, década de 1850, se apóia em fatores internos e externos ao crescimento, conjuntura que só foi possível pela elaboração e difusão das tecnologias e inovações anteriores. Este cenário propiciou progresso contínuo do aumento da produção e de novas invenções. O ponto aqui são as implicações da conjuntura; fatores como o transporte, o mercado de concorrência, e mudanças institucionais que acarretaram mais racionalidade aos processos produtivos e mercadológicos; Assim, os países da Europa continental tiveram uma posição produtiva e concorrencial que pudesse se equiparar na competição tecnológica e industrial que a Inglaterra tinha alcançado inicialmente.

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  1. 1. TRADUÇÃO DA SEGUNDA EDIÇÃO David S. 20600030044 PRDMETEU sz J/ XZÀ/ «Íêxà ínvvírvvrívrvrvrv landes ~ . r . u? ;àísríáf 3 , a É# § orsnconnrnrnoo Transformação tecnológica e desenvolvimento industrial na Europa ocidental de 1750 até os dias de hoje Tradução Marisa Rocha Motta Consultoria e Revisão Técnica Marcio Scalercio Professor Titular da Universidade Candido Mendes e Professor do Departamento de Economia da PUC-RJ CAMPUS
  2. 2. CAPÍTULO 4 A Equiparação Tecnológica e industrial Entre 1850 e 1873, a indústria continental atingiu a maturidade. Foi um pe- ríodo de crescimento sem precedentes, caracterizado - na falta de cálculos anuais da renda ou do produto nacionais - por algumas seqüências temporais cruciais:1 extensão de ferrovias, consumo ou produção de carvão mineral, capacidade instalada de geração da energia a vapor, fabricação de ferro-gusa e consumo de algodão cru. Em todas essas áreas (com exceção do algodão, cuja manufatura sofreu um grande revés na década de 1860), a taxa conjunta de crescimento e1evou~se de 5% a 10% por ano na França, Bélgica e Alema- nha (ver Tabela 4). Foram anos de amadurecimento tecnológico, essencialmente marcados pela elaboração, no continente, das inovações que constituíram o cerne da Revolução Industrial e que tinham sido desenvolvidas e disseminadas na Inglaterra uma ou mais gerações antes. No setor têxtil, o filatório automático e o tear mecânico substituíram a fiandeira automática e o tear manual. A in- dústria siderúrgica consumou a mudança do combustível vegetal para o mi- neral. A máquina a vapor selou seu triunfo sobre a roda de água. A indíistria química pesada estabeleceu-se firmemente, e as possibilidades técnicas do complexo sal-soda-ácido foram exploradas segundo a orientação implícita no processo de LebIanc. Por fim, a máquina difundiu~se com amplitude cada Vez maior ~ na fabricação de pregos e no setor de Cutelaria, na estampagem de fôrmas metálicas pesadas, na confecção de roupas, na fabricação de papel e em outros inúmeros campos.
  3. 3. 206 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER TABELA 4. Desenvolvimento econômico no terceiro quarto do século XIX Produção Extensão ou consumo Capacidade Produção de Consumo de da rede de hulha de energia ferro-gusa algodão cru ferroviária (por 1.000 a vapore (por 1.000 (por 1.000 (quilômetros) ton. métricas)b (por 1.000HP) ton. métricas) ton. métricas) Alemanha 1850 5.856 5.100° 260 212 17,1 1869 17.435 26.774 2.480 1.413 64,1 1873“ 23.886 36.392 - 2.241 117,8 França 1850 3.008 7.225 370 406 59,3 1869 16.927 21.432 1.850 1.381 93,7 1873 18.507 24.702 - 1.382 55,43 Reino Unido 1850 10.655 37.5001 1.29of 2.249 266,8f 1869 24.374 97.066 4.0405 5.446 425,85 1873 25.881 112.604 - 6.566 565,1¡ Bélgica 1850 855 3.481 70 145 10,0 1869 2.897 7.822 350 535 16,3 1873 3.758 10.219 - 607 18,0 FONTES E NOTAS Extensão da rede jfczrroviária. G. Stürmer, Geschichte der Eisenbahnen, Bromberg, 1872, p. 90-1, 54-61, 137, 149 e 154-8; William Page, Commerce and Industry, 2 v. , Londres, 1919, II, p. 170-1 ; Statistisches jahrbuchfíir das deutsche Reich, XII, 1891, p. 90; Anna. statistique de 1a France, VII, 1884, p. 456; Annu. statistique de la Belgique, XXI, 1890, p. 326 e 328. Hulha. Não dispomos de nenhuma estimativa oficial sobre a Inglaterra antes de 1854. Todas as conjecturas oñciosas anteriores a essa data revelaram-se graves subestimações ao surgirem dados estatísticos completos. Quanto a esse período inicial, ver o "Report of the Commissioners Appointed to Inquire into the Several Matters Relating to Coal in the United Kingdom, Report ofCommmittee E", in Parliamentary Papers, 1871, XVIII (C. 435-II). Esses últimos foram repro- duzidos em outras fontes de consulta, como o Commercial Dictionary delR. McCulloch e como AJ. Mundella, "What Are the Conditions on Which the Commercial and Manufacturing Su- premacy of Great Britain Depend, and Is There Any Reason to Think They May Have Been or May Be Endangered? ",j, Roy. Statistical Soc. , XII, 1878, P. 109. Quanto ao período posterior a 1854, há os volumes anuais de Robert Hunt, Mineral Statistics, ou o "Final Report ofthe Royal Commission Coal Resources” (Cd. 2363), Parliamentary Papers, 1905, XVI, p. 24-5. Em rela- ção à Alemanha, os números oficiais referentes a toda a Zollverein remontam a 1860; cf. o Statis- tischesjahrbuch, I, 1880, p. 30; XIV, 1893, p. 128. Com respeito aos anos anteriores, temos cifras da produção na Prússia em A. Bienengrãber, Statistik des Verkehrs und Verbrauchs im Zollverein, Berlim, 1868, p. 260; e K. F. Dieterici, Statistische Úbersicht der wichtigsten Gegenstãnde des Verkehrs und Verbrauclts im preussisclten Staate und im deutschen Zollverbande, 6 v. , Berlim, 1838-1857, pas- sim. Quanto à França, Annu. statistíque, res. retrosp. , LVII, 1946, 230-1. A respeito da Bélgica,
  4. 4. : A Equiparação Tecnológica e Industrial 207 Amé Wibail, "L'Évolution économiqtte de Yindustrie charbonniêre belge depuis 1831", Bull. de l'Irzst. des Sciences Écorzomiqrtes, Louvain, VI, ng 1, 1934, p. 21~2. Energia a vapor. Mulhal, Dictionary qf Statistics (4“ ed. ; Londres, 1899), p. 545. Ferro-graxa. Assim como a hulha, as estatísticas oficiais sobre a produção de aço na Inglaterra datam de 1854; os dados sobre os períodos subseqüentes sãofornecidos por Hunt em Mineral Statistics. Ver também Iron and Coal Trade: Review, Diamond Jubileu Number (dezembro, 1927), p. 133. Quanto aos anos posteriores a 1854, ver a Federação Britânica de Ferro e Aço, Statistics of the Iron and Steel Industries (Londres, 1934), p. 4; H. Scrivenor, History qf the Iron Trade (Londres, 1854); e W. Oechelhãuser, Ver- gleidterzke Statístík der Eísen-Industrie aller Lãnder (Berlim, 1852), p. 144. Quanto à Alemanha, ver Beck, Gesdtichte des Eisens, IV, 731~2, 982; Statistiscltesjahrbuch, III (1883), 34. Sobre a França, Anna. statisti- que, res. retro. LVIII (1951), 134-5. Em relação à Bélgica, ver A. Wibail, "Uévolution économique de la sjzdérurgie belge de 1830 à 1913", Bull. de L'Inst. des Sciences Economiques, V, n91 (1933), 50-1 , 60. Algodão cru. Sobre a Inglaterra, T. Ellison, The Cotton Trade qfGreat Britain (Londres, 1886), apêndi- ce, tabela I. Quanto à Alemanha, Bienengrãber, Statistík, p. 202-3; Statístisdtesjahrbuclz, III (1882), 134. Para a França, Anna. statistique, LVII (1946), 241*-2*. Em relação à Bélgica, Ann. statístique de la Belgi- que, II (1871), 226-7; VI (1875), 236~7. a' Todas as cifras alemãs de 1873 estão maiores devido à anexação da Alsácia-Lorena; inversamente, as francesas aparecem reduzidas. b' Com respeito à Alemanha, produção; quanto ao Reino Unido, França e Bélgica, consumo. (O único país acerca do qual as cifras do consumo são indispensáveis é a França, que importava quase 40% de suas necessidades de hulha em 1850 e quase 30% em 1869.) Em relação à Alemanha, produção de hulha comum, apenas; caberia acrescentar a isso a linhita (7.569.000 toneladas em 1869 e 9.752.000 em 1873), com teor calórico aproximadamente igual a 2/ 9 do da hulha comum. c' Estimativa baseada na extrapolação de uma proporção da produção prussiana em relação à alemã, de 82:100 (proporção de 1860). A produção prussiana de hulha em 1850 é indicada como sendo de 4.153.000 toneladas. d' Por extrapolação dos números pós-1854. e' Estimativas de 1850 e 1870 apenas (nos moldes da de 1869). f' Grã-Bretanha, e não Reino Unido. g' Um ano ruim; o consumo em 1872 foi de 80.257 toneladas. Essa descrição das décadas intermediárias do século como um período de amadurecimento técnico, com elaboração e difusão de progressos anteriores, não significa a ausência de novos inventos ou que todos os aumentos de produtividade ocorressem em meio a uma fronteira tecnológica estável. Ao contrário, foram anos de permanente criatividade, que assistiram a algumas das mais importantes inovações do século. Mas essas inovações foram complementares ao conjunto ori- ginal de mudanças que constituiu o âmago da Revolução Industrial ou, então, an- teciparam o futuro e só alcançaram a plena maturidade no último terço do século. O cardador automático, o martelo a vapor e a máquina a vapor composta - intro- duzidos na década de 1840 ~ incluem-se na primeira categoria. O conversor de Bessemer e o forno de Siemens-Martin, a utilização industrial da eletricidade, o motor a gás, as tinturas artificiais e o alcatrão de hulha e o processo da amônia de Solvay pertencem à segunda; com sua ramificação e elaboração nas décadas subse-
  5. 5. 208 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER qüentes, eles lançaram as bases de um novo ciclo longo de expansão, que alguns autores passaram a chamar de Segunda Revolução Industrial. A aceleração do ritmo do desenvolvimento na década de 1850 só pode ser compreendida em termos de uma notável conjuntura de estímulos endógenos e exógenos ao crescimento. Negativos, a princípio: as nações da Europa ocidental e central haviam resgatado a hipoteca das instituições pré-capitalistas, rompido os mais sólidos vínculos da tradição e, graças à ferrovia, rumavam velozes para eliminar os obstáculos naturais à movimentação dos fatores de produção e ao in- tercâmbio de mercadorias, que haviam fragmentado e restringido a atividade econômica desde tempos imemoriais. Observamos antes que a produtividade dos meios de transporte é descontínua, com grandes hiatos nas conexões que transformam linhas isoladas em uma rede integrada. A Bélgica ligou o norte-sul e o leste-oeste em 1844. Na Alemanha, os benefícios vitais surgiram no fim da década de 1840: em 1850, mercadorias e passageiros podiam deslocar-se por tri- lhos - com muitas baldeações, sem dúvida - de Aachen a Breslau e de Kiel a Munique. Na França, o processo foi mais lento: em meados do século, ainda dispunha apenas dos primórdios de uma rede radial partindo de Paris, e mais al- guns trechos dispersos nas províncias. Mas os primeiros anos da década de 1850 foram de construção rápida e, no fim de 1854, estavam abertas as linhas de Lille a Bordeaux e Marselha e de Le Havre a Estrasburgo. As implicações econômicas do transporte mais barato já foram discutidas; o efeito do mercado e da concorrência, no entanto, merece ser enfatizado nova- mente. O crescimento rápido e o avanço tecnológico não caminham necessaria- mente de mãos dadas. Ao contrário, um aumento da demanda pode elevar os preços a tal ponto que torna lucrativos alguns métodos em desuso e incentiva os produtores a conservarem ou a voltarem a usar equipamentos que, de outro modo, seriam abandonados. As décadas de 1850 e 1860 caracterizaram-se por grandes aumentos da produção e por um expurgo drástico das empresas indus- triais, em razão, em grande parte, de algumas mudanças no panorama tecnológi- co e comercial que foram, ao mesmo tempo, excitantes e catárticas. A estrada de ferro foi fundamental nesse aspecto: ela proporcionou o meio pelo qual foi pos- sível exercer pressões competitivas e marginalizar as empresas ineficientes, antes protegidas pela distância e a topografia. Por outro lado, o transporte ferroviário em si era simplesmente um meio. Em sociedades como as do continente, em que os valores humanos, o hábito e a lei uniam-se para depreciar e desmerecer a competição de preços, era necessário um incentivo ou uma compulsão à concorrência para que o mecanismo de mer- cado fosse eficaz na difusão da transformação tecnológica. As crises periódicas, com suas contrações repentinas do crédito, da demanda e dos preços, funciona-
  6. 6. . EVIE A Equiparação Tecnológica e Industria¡ 209 ELS ram, em sua época, como "horas da verdade”; a de 1857 foi especialmente de- purativa. A0 mesmo tempo, uma conjuntura de mudanças institucionais exer- ceu, ao longo dessas décadas, uma pressão persistente no sentido da racionaliza- ção (1) em cada uma das economias nacionais, ao facilitar o ingresso de novas empresas e a expansão das mais eficientes e ambiciosas, e (2) entre as economias, ao abri-las às empresas e produtos estrangeiros. Assim, já antes de 1850, as limitações à Gewerbefreíheit (livre comércio) que persistiam em algumas partes da Europa central estavam basicamente confina- das ao artesanato tradicional e surtiam pouco efeito no desenvolvimento de uma força de trabalho fabril. Mas, no começo da década de 1860, até esses ves- tígios de controle desapareceram em quase todas as áreas, e a liberdade de ini- ciativa foi incorporada na Gewerbeordnungfür den Norddeutscher Band (lei de co- mércio, artesanato e indústria para os estados do norte da Alemanha), adotado pela Confederação da Alemanha do Norte em 1869 e introduzido nos estados sulistas entre 1870 e 1872.2 De modo similar, as restrições ao estabelecimento de sociedades anônimas - uma forma de empresa indispensável em economias dotadas de pouco capital, mas obrigadas a recriar grande parte de sua indústria - foram minimizadas pela crescente complacência do Estado, ou contornadas mediante recurso a formas substitutas que não exigissem autorização oficial, em especial a sociedade anônima ou comanditária por ações (Kommandítge- sellschqft aufA/ etíen). Na Alemanha, além disso, a própria multiplicidade das _ju- risdições mostrou-se vantajosa. Em setores como o bancário e o de seguros, em que a localização não era rigidamente ditada por considerações materiais, muitas vezes era possível obter dos Estados menores a autorização recusada pela Prússia ou por Frankfurt. Nesse ínterim, a demanda crescente - por parte de projetistas, industriais e investidores - de condições mais fáceis para a formação de empresas superou a desconfiança e a hostilidade da burocracia governamental, assim como o ressen- timento e o medo generalizados da especulação livre, e assegurou o direito à res- ponsabilidade limitada, por meio do registro simples. O primeiro país a dar esse passo foi a Inglaterra, em 1856 (generalizando-o pelo Decreto de 1862). Em 1863, a França criou a sociedade por cotas de responsabilidade limitada, uma empresa de responsabilidade limitada, mas de tamanho restrito; a abolição com- pleta dos controles só ocorreu em 1867. A Alemanha foi um pouco mais lenta. Diversas jurisdições, como Hamburgo e Lübeck, por exemplo, sempre haviam permitido a livre incorporação. A grande maioria, no entanto, inclusive a Prús- sia, exigia uma autorização; e, embora o Estado se mostrasse tolerante em algu- mas áreas, como nos seguros, transportes e serviços de utilidade pública, ele ten- dia a criar dificuldades para os projetos industriais e a ser intolerante com os pro-
  7. 7. 210 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER jetos bancários. Nada ilustra com mais clareza o efeito refreador desses controles do que o aumento da formação de companhias na Prússia depois do estabeleci- mento do registro automático, em junho de 1870: 123 firmas com um capital de 225 milhões de táleres em todos os anos anteriores a 1850; 295 firmas com um capital de 802 milhões de táleres entre 1851 e 1870; e 833 finnas com 843 mi- lhões de táleres de 1870 a 1874.3 Mesmo abstraindo as condições estimulantes do surto de crescimento desses últimos anos, o efeito dessa libertação das restri- ções foi surpreendente. Uma explosão semelhante ocorreu na Inglaterra no iní- cio da década de 1860, e outra, embora muito menor, na França pós-186'7.4 Houve outras modificações legais facilitadoras de empresas mais livres e mais simples. A proibição da usura foi revogada na Inglaterra (1854), na Holan- da (1857), na Bélgica (1865), na Prússia e na Confederação da Alemanha do Norte (1867).5 Cada vez mais, as empresas estrangeiras obtiveram permissão para cruzar as linhas de fronteira e funcionar em bases de igualdade com as em- presas nacionais, sem nenhuma autorização especial (como nos acordos entre a França e a Bélgica, em 1857, e entre a França e a Inglaterra, em 1862). Novos instrumentos comerciais, a exemplo do cheque, foram legalizados e adotados; as punições por endividamento e falência foram amenizadas; a legislação das pa- tentes recebeu emendas, de modo a incluir as marcas registradas e outras formas intangíveis de propriedade comercial; e as relações comerciais em geral foram simplificadas pela codificação dos estatutos e decretos acumulados ao longo dos anos (lei francesa de 13 de junho de 1866; Allgemeines Deutsche Handelsgesetzbuch (livro geral de leis comerciais alemães), 1861 [Prússia] et seg). Nessas e em outras áreas, os progressos das décadas intermediárias apenas de- ram prosseguimento a tendências que remontavam ao século XVIII ou até an- tes. A história da legislação comercial e civil no Ocidente é, em larga medida, a história da adaptação progressiva dos costumes de uma sociedade agrária, cen- trada na comunidade e presa à tradição, aos requisitos de um capitalismo indus- trial, individualista e racional e, portanto, móvel. A história completa ainda está por ser relatada; infelizmente, essa é uma área que os historiadores econômicos têm tendido a ignorar ou a deixar a cargo dos juristas? No entanto, não se deve confundir indiferença ou repúdio com juízo ponderado, e seria um erro inter- pretar a extrema escassez do material como prova do desinteresse do assunto. Por outro lado, a falta de dados e de análises dificulta a integração das consi- derações legais no complexo de fatores que inoldarain o crescimento econômi- co. Muitas dessas mudanças foram apenas manifestações superficiais de uma transformação mais profunda; a lei é o reflexo - com freqüência tardio - dos va- lores e das necessidades materiais do homem. Mas o fato de ela ser quase sempre tardia é uma prova de que não se trata só de uma variável dependente a serviço
  8. 8. A Equiparação Tecnológica e Industrial 211 ELSEVIER do desenvolvimento econômico. Não apenas os interesses econômicos são con- flitantes e conduzem a legislação e a administração em direções diferentes, como também as considerações não-econômicas têm sua importância e as questões de moral e dos preconceitos sociais interferem. Por fim, a lei tem uma lógica pró- pria - um conservadorismo fundamentado nos precedentes e nas complexas mi- nudências da justiça institucionalizada. Como resultado, o momento das mudanças nas instituições legais pode afe- tar materialmente o ritmo e o caráter do desenvolvimento econômico. O im- pacto sobre o crescimento a curto prazo - sobre a cadência e a amplitude do ci- clo, por exemplo - é óbvio. O efeito a longo prazo é mais dificil de discernir, e a natureza da relação entre curto e longo prazos ainda é tema de debate entre os teóricos e historiadores econômicos. Basta aqui observar que essa adaptação re- cíproca da lei e do capitalismo industrial ocorreu de fato ao longo de um perío- do de mais de um século; que um dos períodos de mudanças mais rápidas em ambas as áreas foram as décadas intermediárias do século passado; e que as mu- danças legais desse período, sobretudo as que estabeleceram a constituição da moderna sociedade anônima, contribuíram muito para a capacidade recém- descoberta da Europa continental de competir com a Inglaterra. Uma modificação do panorama político-jurídico da iniciativa empresarial merece menção especial: a redução generalizada das barreiras ao comércio in- ternacional. Esta assumiu três formas: (1) a eliminação ou redução das restrições e cobranças de tributos sobre o tráfego em vias navegáveis internacionais, como o Danúbio (1857), o Reno (1861), o Scheldt (1863), o baixo Elba (1861), o alto Elba (1863 e 1870), o Sund dinamarquês e os canais entre o Báltico e o mar do Norte (1857); (2) a simplificação do conflito entre as moedas, que era o equiva- lente monetário da fragmentação política da Europa (o táler nacional alemão de 1857; o florim austríaco uniforme de 1858; o acordo monetário latino, entre França, Bélgica, Suíça e Itália, em 1865); e, o mais importante, (3) uma série de tratados comerciais que proporcionaram uma diminuição substancial das taxas alfandegárías entre as principais nações industrializadas da Europa (Inglater- ra-França, 1860; França-Bélgica, 1861; França-Prússia, 1862; por extensão, França-Zollz/ erein, 1866; Prússia-Bélgica, 1863 e 1865; Príissia-Inglaterra, 1865; Prússia-Itália, 1865, e muitos outros). Esse acúmulo de acordos comerciais é único na história econômica. Seria im- possível examinar em detalhes, neste livro, as razões particulares pelas quais cada um dos signatários decidiu sacrificar proteções tradicionais à indústria e ao comér- cio domésticos em troca dos benefícios de um intercâmbio maior e dos riscos da competição. Contudo, podemos observar que, salvo a pressão costumeira de gru- pos comerciais seletos por tarifas mais baixas, e as considerações políticas especiais
  9. 9. 212 PROMETEU DESACORRENTADO que motivaram, primeiro, Napoleão III, e depois, o governo da Prússia a buscar um comércio mais livre por intermédio de tratados, esses acordos refletiram um clima geral de otimismo e de aceitação doutrinária nos círculos políticos e intelec- tuais, senão nos empresariais, das virtudes do intercâmbio internacional para a economia e a manutenção da paz. Aperire terram gentibus (Abra as terras para as pes- soas) foi o lema da época. Aqui nos reaproximamos da liberalização jurídica ante- riormente discutida. Foi como se a própria expansão econômica, a euforia geral do crescimento e da prosperidade, houvesse convencido as nações e as pessoas a serem menos defendidas, a trocar o controle pela liberdade, o provincianismo pelo universalismo, a tradição pela mudança, e a segurança da exclusividade pelo perigo, mas também pelo lucro potencial, do mundo sem fronteiras. A liberdade, como Veremos, foi um estado de ânimo efêmero, uma aberra- ção. O período iniciado no fim da década de 1870 foi de retração, apenas inverti- do - mas por quanto tempo? - depois da Segunda Guerra Mundial. Enquanto du- rou, esse estado de ânimo deu um poderoso impulso à especialização nos moldes da Vantagem comparativa, com as concomitantes economias de escala e aumentos de rendimento. Para surpresa - senão para embaraço - dos protecionistas inflexí- veis, todas as nações viram o Volume de suas exportações crescer. As indústrias in- ternas não desmoronaram diante da concorrência britânica, mas, em Vez disso, modificaram-se e fortaleceram-se nesse processo. As empresas ineficientes, que vegetavam ao abrigo das tarifas protecionistas, foram obrigadas a se atualizar ou encerrar suas atividades. Na França, em especial, onde as tarifas elevadas eram cul- tuadas desde longa data, os tratados comerciais, que se seguiram a uma grave crise comercial (1857-9), promoveram um expurgo nas indústrias manufatureiras e apressaram seu remanejamento em moldes racionais.7 Na Alemanha e na Bélgica, onde as taxas alfandegárias tinham sido menos elevadas, o impacto foi menor. As forças positivas favoráveis à expansão foram ainda mais importantes do que esses estímulos negativos na configuração da conjuntura das décadas de 1850 e 1860: (1) aperfeiçoamentos nos transportes, (2) novas fontes de energia e de matérias-primas, (3) aumento acentuado da oferta de capital e, acima de tudo, (4) uma resposta empresarial criativa a essa combinação de oportunidades a longo prazo e facilidades a curto prazo. 1. Em primeiro lugar, os transportes: o progresso mais importante foi a con- tínua ramificação do sistema ferroviários Mais de 80 mil quilômetros de novas linhas foram construídos na Europa entre 1850 e 1870, em comparação com 24.000 dos anos anteriores, a um custo de 30 bilhões de francos. Desses, os fran- ceses construíram 15 mil, com um desembolso de mais de 7 bilhões de francos, enquanto os alemães, beneficiando-se dos custos mais baixos da terra e econo- mizando no leito das ferrovias, construíram 12 mil por cerca de 4 bilhões. Mes- ELSEV I ER
  10. 10. l A Equiparação Tecnológica e Industrial 213 mo assim, quase 3/ 4 do capital acionário investido nas sociedades anônimas prussianas entre 1850 e 1870 foram para empresas ferroviárias. E esses gastos não levam em conta os investimentos em trilhos e material circulante para linhas em outros países, bem como sua produção. já na década de 1840, a Inglaterra havia desempenhado um papel importante na construção das primeiras ferrovias con- tinentais, exportando mão-de-obra e conhecimentos, além de capital e maté- ria-prima. Na década de 1850, a Inglaterra voltou-se cada vez mais para áreas fora da Europa - Egito, Índia e América do Norte ~, ao passo que a França tor- nou-se a promotora e a construtora mais ativa das estradas européias - na Espa- nha, Suíça, Itália, Vale do Danúbio e Rússia. Não dispomos de números exatos, mas parece que a França investiu em ferrovias estrangeiras uma soma equivalen- te a mais da metade do dinheiro gasto em suas estradas de ferro? A partir de mea- dos do século, as ferrovias - por sua demanda de bens de capital e mão-de-obra, e pelo efeito cumulativo desses gastos, à medida que eles faziam e refaziam seu percurso pela economia ~ haviam substituído os produtos têxteis como os indi- cadores do ritmo da atividade industrial, induzindo os ciclos de curto prazo e as tendências de longo prazo. 2. A indústria manufatureira, vista por um certo prisma, significa o uso da energia para transformar matérias-primas em produtos acabados. Com o cresci- mento da indústria, o apetite das economias européias por esses dois ingredien- tes aumentou muitíssimo; é possível acompanhar a busca de novas fontes de su- primento a partir da Idade Média. E, é claro, se essa procura não tivesse tido êxi- to, ou se não tivessem encontrado substitutos para insumos escassos, a Revolu- ção Industrial, assim como a conhecemos, teria sido impossível. Os leitores hão de estar lembrados, nesse contexto, da importância da fundição a coque para a fabricação do ferro na Inglaterra, da substituição de fontes vegetais por fontes minerais de álcalis para a indústria química, e do descaroçador de Eli Whitney e do cultivo norte-americano para o setor algodoeiro. A descoberta ou a criação de novas fontes de energia e de matérias-primas, além de fortuita, é também uma resposta às necessidades. Ambos os fatores dão origem a irregularidades no crescimento do estoque de recursos à disposição da economia: há períodos de abundância e de escassez. As décadas intermediárias do século XIX foram anos de bonança nos dois aspectos. Excrementos de pássa- ros (guano) foram recolhidos de ilhas do Pacífico e levados como fertilizantes para os campos da Europa. Lãs e peles de animais da Austrália, África do Sul e América do Sul começaram a inundar o mercado europeu e a superar as fontes internas; a lã foi ainda mais bem-vinda em virtude da escassez de algodão da dé- cada de 1860, que reduziu drasticamente a produção de tecidos e de roupas de algodão. ” Os óleos vegetais, sobretudo vindos da África, tornaram-se cada vez
  11. 11. 214 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER mais importantes como substitutos para as gorduras animais tradicionais na pro- dução de sabão e de velas. ” Na década de 1830, esforçando-se para explorar um monopólio de enxofre siciliano e pressionar o comércio europeu de produtos químicos, uma corporação francesa aperfeiçoou processos que Lisavam sulfetos como matéria-prima na fabricação de acido sulfúrico e descobriu novos depósi- tos de piritas no Reino Unido, na Noruega e, acima de tudo, na Espanha. Na década de 1870, bem mais de 90% do ácido da Inglaterra era preparado dessa forma. ” O mundo promovia uma real abertura. Entretanto, ainda mais importante, e aquém apenas das ferrovias como foco de investimentos e estímulo à atividade empresarial, foi a disponibilidade de re- cursos energéticos recém-descobertos ou explorados, sobretudo o carvão mine- ral. A existência de camadas mais profundas sob a marga da Vestfália já era conhe- cida desde a década de 1830, mas os primeiros esforços de extração foram prejudi- cados pela falta de capital, e a compreensão exata da natureza dos depósitos levou décadas. A descoberta e a definição do tamanho, em Pas-de-Calais, dos campos do Norte da França aconteceram mais tarde, em 1845-7. Em ambos os casos, os progressos só ocorreram na década de 1850. A produção de hulha no Ruhr passou de 1.640.000 toneladas em 1850 para 11.812.500 em 1869; os aumentos em Pas-de-Calais foram igualmente espetaculares: de 4.672 toneladas em 1851 para 2.188.247 em 1871. Ao mesmo tempo, como assinalamos antes, a extração global elevou-se substancialmente nos dois países: na Alemanha, de 4.192.000 para 23.761.000 toneladas; na França, de 4.434.000 para 13.330.000.” Os alemães foram duplamente favorecidos em sua exploração dos leitos mais profundos do Ruhr. Não apenas o carvão extraído fornecia energia, como tam- bém produzia um coque que se adequava perfeitamente aos altos-fornos; e en- controu-se minério de ferro misturado em alguns estratos, produzindo um com- posto comparável à siderita que possibilitara a grande expansão da metalurgia es- cocesa na década de 1830. De 1852 a 1860, a extração de minério no Ruhr passou de 5.000 para 227.000 toneladas. Ao perceberem a potencialidade dessa combina- ção, os industriais da Vestfália adotaram o ferro coqueiñcado com um entusiasmo que não apenas redimiu o atraso tecnológico da primeira metade do século, como também tendeu a obscurecer a própria memória dessa defasagem anterior. 3. A contribuição do ouro para o desenvolvimento industrial europeu na década de 1850 só é mensurável, parcialmente, em termos do aumento direto da oferta de capital. Ela foi de fato impressionante: mesmo admitindo uma expor- tação correspondentemente aumentada de prata para o Oriente, o lucro líquido foi uma fração substancial da circulação prévia de metais, importante, sobretu- do, em países como a França e a Alemanha, onde a desconfiança popular e o conservadorismo dos círculos financeiros e oficiais inibiam o uso do pa-
  12. 12. A Equiparação Tecnológica e Industrial 215 pel-moeda. Ao mesmo tempo, a emissão de papel-moeda aumentou, apoiada no estoque crescente de metais preciosos em barra: a circulação de notas do Banco da França mais do que triplicou, subindo de 450 milhões de francos em 1850 para 1.550 bilhão em 1870,14 enquanto a do Preussísche Bank, desejoso de substituir por seu próprio papel as notas de outras instituições alemãs, aumentou drasticamente seu movimento financeiro - de 18.370 milhões de táleres em 1850 para 163.260 milhões em 1870.15 Ainda mais significativas foram as conseqüências indiretas do dinheiro fácil. A taxa de juros caiu, momentaneamente, para o reduzidíssimo valor de 2% sobre os papéis de curto prazo na Inglaterra, 3% na França, e um valor ligeiramente maior na Alemanha (sempre mais ávida por capital). Ao mesmo tempo, o volume do crédito expandiu-se. Esse foi o resultado crucial, pois ~ como já mencionado - o preço do capital é menos importante do que sua disponibilidade. As curvas de oferta e demanda podem ser suaves e contínuas na teoria; podem também atuar da mesma forma, na prática, em relação a alguns produtos, certos mercados em de- terminadas épocas. Mas a curva da oferta a curto prazo do crédito bancário - comparada à do crédito em geral, usurário e de outra natureza ~ é prejudicada pe- los banqueiros, por sua excessiva prudência quanto à segurança e à liquidez. Até certo ponto, a fonte institucional de empréstimos tenta racionar as verbas confor- me o preço; a partir desse ponto, estabelece cotas, ou espera que o cenário melho- re. E, embora existam outras fontes, elas em geral têm recursos limitados ou esti- pulam condições tão onerosas a ponto de tornarem os empréstimos irracionais - porém, sem extingui-los: o desespero é notoriamente surdo aos apelos da razão. Além disso, esse aumento do volume de crédito foi muito desproporcional ao da oferta de dinheiro. O ponto vital era a política de redesconto dos bancos centrais, que dependia essencialmente das reservas de metal em barras. Essas úl- timas passaram, no Banco da Inglaterra, de , (28,3 milhões em outubro de 1847 para uma média de , $213 milhões no terceiro trimestre de 1852; no Banco da França, de 122,6 milhões de francos em 1847 para 584,8 milhões em 1852.16 E quando os bancos centrais se dispuseram a aceitar papel, todos concordaram com essa decisão. A grande pirâmide da dívida elevou~se ainda mais, fomentan- do a especulação com mercadorias e títulos, facilitando a formação de novas companhias e o funcionamento das antigas. Como os mercados da bourse de Medina del Campo e da Antuérpia no século XVI, os comerciantes e banquei- ros da Londres e da Paris do século XIX aguardavam ansiosos o primeiro sinal de partida dos navios do cabo Finisterre ou de Ouessant que trariam carregamentos de ouro do Pacífico. Os volumes envolvidos significavam uma fração minúscula dos débitos pendentes nos mercados monetários e de títulos, mas constituíam um diferencial expressivo no balanço financeiro mensal.
  13. 13. 216 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER O estímulo propiciado por essa injeção de dinheiro enfraqueceu-se rapida- mente, à medida que a inflação corroeu as vantagens diferenciais dos investi- mentos e que a procura exponencial de crédito elevou as taxas de juros. Não obstante, não se deve subestimar a importância a longo prazo desses estimulantes periódicos. Por um lado, eles podem alterar o padrão e o significado dos ciclos comerciais, tornando as altas mais esperançosas e as quedas mais suaves, com conseqüências obviamente favoráveis à taxa de crescimento. ” Assim, o desen- volvimento industrial e comercial desse período consistiu, em grande parte, na história de três aumentos substanciais do crédito: 1852~7 (Inglaterra, Alemanha e França), 1861-6 (mais na Inglaterra do que na Alemanha ou na França) e 1869-73 (sobretudo na Alemanha). Essa última, assim como os demais paises, apoiou-se no dinheiro fácil, porém não derivado da entrada de um fluxo de ouro, e sim no recebimento de 5 bilhões de francos - indenização de guerra, em um volume sem precedentes, obtida por Bismarck depois da vitória de 1870. Por outro lado, esses estímulos facilitaram a realização de transformações tecno- lógicas e institucionais de importância permanente. 4. Essas últimas nos reportam ao que se pode chamar de “revolução finan~ ceira" do século XIX. Ela esteve estreitamente associada à inflação do crédito desses anos, como causa e efeito, e foi a contrapartida e a parceira, na esfera ban_ cária, da transformação tecnológica na indústria. A revolução teve dois aspectos. Um foi a grande ampliação da clientela dos serviços e do crédito bancários. Nesse aspecto, como na produção industrial em massa, a Inglaterra foi pioneira. Ali, a “popularização” precoce do mercado mo~ netário, como vimos, foi fonte de um grande poderio econômico, e a ascensão das grandes instituições de descontos e dos bancos comerciais por ações (Banco de Londres e Westminster, 1834) deu continuidade ao processo. ” Se nos abs- termos de alguns esforços iniciais e geralmente malogrados, a difusão desses princípios no continente remonta à década de 1850. Primeiro surgiram os ban- cos de descontos de capital acionário, fundados para facilitar o crédito comercial durante e depois da crise de 1848: os comptoírs «Pescompte franceses e belgas, a Union du Crédít em Bruxelas (1848), a Schcyfrausenkche Bankverein em Colônia (1848), a Díscontogesellschcyfzf em Berlim (1851) e o Frankfurter Bam/ e (1853). A eles seguiram-se instituições como o Crédit Industriel et Commercial em Paris (1859), explicitamente destinadas a introduzir a prática bancária comercial inglesa na França e a serem pioneiras, no continente, na utilização do cheque como instru- mento de pagamento. Por fim, as grandes sucursais bancárias completaram o sis- tema, algumas derivadas da proliferação das instituições nos grandes centros fi- nanceiros (inclusive bancos centrais como o Banque de France), e outras a partir de empresas locais, como o Crédít Lyonnaís (1963). O resultado foi uma circula-
  14. 14. LSR A Equiparação Tecnológica e Industrial 217 ção mais ampla e muito mais eficiente dos recursos financeiros: as novas redes bancárias puderam absorver a poupança em rápido crescimento e o capital de giro de uma imensa quantidade de pequenos e médios comerciantes e produto- res; pela primeira vez, introduziram o campo e a cidade no mercado monetário. Desse modo, o continente começou a se aproximar do grau de mobilidade de capital que a Inglaterra alcançara meio século antes. ” A segunda metade dessa revolução foi ainda mais importante para o desen- volvimento industrial, ao surgirem os bancos de investimento comanditários. Essa foi uma inovação continental ocorrida nos anos posteriores ao Congresso de Viena, quando a Europa iniciou mais uma vez a caminhada para uma eco- nomia moderna. Desde 1819, o projeto de um Banco Nacional Bávaro incluía uma cláusula de empréstimos hipotecários a empresas industriais; o Parlamen- to adiou a proposta. ” Um projeto mais específico de um grupo de banqueiros e manufatores franceses, para fundar uma Société Commandítaire de ITI/ Ldustrie, fracassou em 1825 em virtude da oposição dos defensores do poder dos ricos proprietários de terras. Por fim, a instituição iniciou-se na Bélgica. A Société Génémle (fundada em 1822, começou suas atividades com empréstimos hipo- tecários às empresas industriais na década de 1820 e voltou-se para o investi- mento bancário intensivo em 1835) e o Banco da Bélgica (1935) promoveram uma explosão de crescimento das companhias de mineração e metalurgia entre 1835 e 1838, o que explica a precocidade da industrialização belga. ” Na déca- da de 1840, os franceses fundaram os bancos de investimento (caísses). Na au- sência de uma aprovação oficial para as sociétés anonymes regulares, esses assu- miram a forma de sociedades de participação limitada. Mas só na década de 1850, as sociedades anônimas financeiras impuseram-se - primeiro na França, onde os irmãos Pereire fundaram o Crédit Mobilier (1852), que deu à institui- ção uma de suas denominações genéricas, depois na Alemanha, Austria, Espa- nha, Itália e Holanda e, finalmente, a partir da década de 1860, em todo mun- do empresarial. Nesse momento, as condições políticas e econômicas eram fa- voráveis à formação de empresas e à emissão de títulos: na França, um novo re- gime, ansioso para criar um contrapeso aos interesses financeiros mais antigos; na Alemanha e em outros lugares, governos empobrecidos, necessitados de ca- pital externo e receptivos à persuasão financeira; e um mercado abundante ou até mesmo excessivo de capitais. ” Seria impossível fazer justiça, em poucos parágrafos, à contribuição dos ban- cos de investimento para o desenvolvimento econômico dessas décadas. Assim, nos restringiremos a alguns aspectos gerais: (a) A principal virtude dos bancos de investimento estava em sua capacidade de canalizar a riqueza para a indústria. Maiores e mais ricos do que as instituições
  15. 15. 218 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER privadas tradicionais, eles foram, como os bancos comerciais organizados por ações, uma força ativa de ampliação e aprofundamento do mercado de capitais. Buscaram a maior clientela possível para suas promoções, divulgadas como se anunciassem um medicamento patenteado. E, enquanto os antigos bancos mer- cantis privados encaravam o crédito industrial como uma operação arriscada, in- compatível com o caráter de seus recursos, assim como até os mais versáteis ban- cos comerciais por ações viam-no, no máximo, como uma atividade secundária, as companhias financeiras fizeram dele sua própria razão de ser. (b) A contribuição do trédít mobilíer foi visivelmente mais importante onde as oportunidades de investimento industrial eram abundantes e a oferta de capi~ tal era limitada ou dificil de mobilizar. Portanto, chegou tardiamente à Inglater» ra (década de 1860) e, nessa ocasião, contribuiu pouco para o aperfeiçoamento ou para a expansão da rede de transportes e das indústrias manufatureiras. Em vez disso, concentrou suas atividades nas áreas lucrativas, mas arriscadas da espe- culação com produtos primários, do financiamento secundário de curto prazo, do comércio internacional e dos investimentos. Em contraste, a Alemanha é a melhor ilustração de como investimentos siste- máticos numa economia atrasada e de potencial superior gera altos rendimentos. ” já na década de 1840, os agentes do desenvolvimento nacional dotados de maior visão insistiam na criação de bancos que promovessem a indústria e o transporte, além de desempenharem as funções tradicionais do crédito comercial e do câm~ bio. Diversos desses projetos estavam bastante adiantados ao serem sufocados pela crise econômica e política de 1846-8. Na década de 1850, porém, seguindo de perto o Crédit Mobílíer e com a assistência dele, Mevissen fundou seu Darmstãdter Bom/ e (1853); Hansemann reorganizou a Discontogesellschcyfzf (1856); uma corpora» ção de grandes banqueiros mercantis de Berlim formou a Handelgesellschcyflf (1856), e assim sucessivamente, até um montante de capital de mais de 200 milhões de tá~ leres (cerca de 740 milhões de francos) em bancos novos em 1857.24 Nem todos esses bancos eram, explicitamente, crédíts mobilíers. Mas, mesmo os bancos comerciais tiveram dificuldade para resistir às oportunidades do ñnan» ciamento industrial. Além disso, os bancos de investimento em geral tinham funções mistas, ou seja, recebiam depósitos e executavam os serviços comerciais tradicionais, ao mesmo tempo que promoviam empresas, lançavam títulos no mercado e emprestavam a longo prazo. Esse era o traço mais revolucionário da nova instituição. Segundo tudo o que havia de sagrado na boa prática bancária, os saques à vista e em conta corrente eram incompatíveis com a imobilização de valores em projetos especulativos. O banco misto era, em princípio, um mons~ tro inviável; muitos faliram quando a crise se seguiu à explosão de crescimento. Porém, a grande maioria prosperou, em grande parte porque essa combinação
  16. 16. A Equiparação Tecnológica e Industrial 219 de funções de depósito e investimento também podia ser uma fonte de tremen- do poder. Ela multiplicava em muito a capacidade dessas instituições de acumu- larem recursos, o que, por sua vez, equivalia a um apoio maior para os protegi- dos industriais e comerciais dos bancos, permitindo-lhes expandir-se facilmente na prosperidade e dando-lhes apoio na adversidade. O resultado foi um círculo de ajuda e reforço mútuos. Em circunstâncias desfavoráveis, essa interdependência poderia destruir todos ao mesmo tempo, e muitas foram as Cassandras a prever as mais sombrias conseqüências para todos os implicados. Numa economia em crescimento tão rápido quanto a alemã, no entanto, o efeito foi de estímulo geral. Durante as décadas precedentes à Primei- ra Guerra Mundial, o sistema parecia progredir de sucesso em sucesso, com os chamados Grossbanken ampliando-se com suas vitórias, absorvendo concorren- tes e semeando o território com filiais e subsidiárias.25 Não por coincidência, os economistas alemães foram os primeiros a elaborar a concepção de um novo es- tágio de organização econômica ~ o capitalismo financeiro. O caso francês foi marcadamente diferente. Depois dos belgas, os franceses foram os primeiros a desenvolver a atividade dos bancos comanditários de in- vestimentos; e, depois da derrocada de 1848, em nenhum outro lugar a nova era financeira começou com tamanho ímpeto. No entanto, o impacto da inovação foi pequeno a longo prazo, não tanto por falta de meios, ou seja, de capital, mas de oportunidades para usa-los. Dois fatores foram determinantes nesse caso. Pri- meiro, o investidor francês - em particular o rentier externo ao setor industrial - preferia títulos a juros fixos, especialmente papéis emitidos ou garantidos pelos governos, a ações industriais mais especulativas. As possibilidades promocionais seguiam a mesma tendência. Em segundo lugar, e mais importante, as empresas comerciais francesas - sobretudo a sociedade familiar, mas também as compa- nhias comanditáriaszó - preferiam usar os lucros para financiar a expansão, apoian- do-se no passado, em vez de antecipar o futuro, e, in extremis, só se dispunham a recorrer ao crédito bancário a longo prazo. Por isso, os tomadores de emprésti- mo de alto nível eram escassos. Mesmo o Crédit Mobilíer dos irmãos Pereire, um banco de desenvolvimento, julgou necessário, desde o início, buscar no exterior lugares onde empregar grande parte de seus recursos. Os grandes bancos comer- ciais e de depósitos - o Crédít Lyonnaís, a Société Générale (1864) e outros - ñze- ram alguns gestos tímidos em direção ao investimento industrial em seus primei- ros anos, mas desencantaram-se rapidamente. Ao longo do tempo, seus cofres encheram-se com a poupança captada por uma rede crescente de sucursais ban- cárias, que poderia ter fornecido um acréscimo substancial ao capital da indús- tria francesa; em vez disso, grande parte dela foi para os fundos de outros lugares. Na primeira década do século XX, quando a atividade bancária francesa foi cri-
  17. 17. 220 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER ticada por não conseguir desenvolver a indústria nacional - a comparação era explicitamente com a Alemanha -, Henri Germain, do Crédit Lyonnaís, formu- lou em termos grosseiros o ponto de vista dos fornecedores de empréstimos: não havia na França, disse, industriais dignos de apoio. Eles existiam, é claro, mas não estavam interessados em tomar empréstimos. já discorremos o suficiente sobre o longo prazo, que se assemelha um pouco à experiência britânica. No período que nos concerne logo a seguir, ou seja, as décadas intermediárias do século XIX, a mobilização da poupança iniciada pelo Crédit Mobilíer e efetuada por uma variedade de sociétés de crédit parisienses e locais foi um estímulo significativo ao crescimento. Um dinheiro que teria sido guar- dado foi posto em circulação, e até o capital que ia para o exterior voltava, mui- tas vezes, sob a forma de contratos com empresas francesas e encomendas feitas a fabricantes franceses. O impulso não foi tão direto nem tão forte quanto na Ale- manha ou na Bélgica das décadas de 1830 e 1840. Em parte, foi apenas psicoló- gico, uma acentuação da euforia. Mas constituiu um elemento fundamental na conjuntura expansiva desses anos. Agora podemos examinar as implicações dessa conjuntura para a transfor~ mação tecnológica e o desenvolvimento econômico. A fim de economizar tem- po e espaço, concentraremos a discussão em três pontos já mencionados: (1) a realização das possibilidades econômicas das inovações centrais da Re- volução Industrial, especificamente o êxito, nas nações européias mais avança- das, da mecanização na indústria têxtil, do uso do carvão mineral na produção de ferro e das máquinas a vapor; (2) a concentração da produção em unidades cada vez maiores; e (3) a racionalização e a redistribuição espacial da indústria em novos moldes regionais. O PROGRESSO TECNOLÓGICO Produtos têxteis Em meados do século, a Inglaterra concluíra parcialmente a transformação de suas principais indústrias têxteis. Isso se aplicava sobretudo ao algodão, se- tor em que os filatórios automáticos obtiveram suas vitórias mais evidentes, os tecelões manuais haviam desaparecido e os pioneiros da Revolução Industrial- os moinhos hidráulicos do interior - haviam desistido da batalha com as fábricas, repletas de chaminés, de Lancashire. Sem dúvida, houve so- breviventes: a fiandeira automática ainda respondia, em 1850, por metade
  18. 18. j¡ e 221 EVIER A Equiparação Tecnológica e Industrial dos fusos da indústria; falava-se em “alguns milhares" de teares manuais em 1856; aqui e ali, rodas grandes e lentas continuavam a girar como antes. Mas, opondo-se a essa resistência, as novas técnicas continuaram a progredir sem remorsos: o filatório automático ganhou terreno em paralelo à mudança sis- temática para os fios finos que favoreciam a fiandeira automática; os últimos teares manuais haviam desaparecido nas décadas de 1860 e 1870, não mais porque a remuneração fosse inadequada, mas porque não havia jovens para dar continuidade a um oficio agonizante; os fusos e teares trabalhavam cada vez mais depressa e melhor. Assim, os passos prodigiosos foram dados. Ago- ra, a questão era obter aumentos marginais de produtividade, preencher la- cunas e esperar que os aperfeiçoamentos mecânicos aumentassem um pouco a vantagem econômica dos novos equipamentos, ou que uma contração, cí- clica ou fortuita - como na escassez de algodão da década de 1860 - expulsas- se para longe os produtores ineficientes. ” A mudança continuou a ser mais importante na lã, como se poderia esperar de uma indústria que, apesar de sua idade, era tecnologicamente mais jovem que a do algodão. Na manufatura lanígera, o condensador preencheu a seqüência das operações mecanizadas, que de outro modo estaria incompleta: ele substituiu os emendadores manuais na retirada das tiras soltas de lã da carda, e a velha “maça- roqueira" no preparo da mecha para a fiandeira automática. O condensador foi inventado e aperfeiçoado na Nova Inglaterra em torno de 1830 e, em 1850, já era lugar-comum alí. Em 1858, na Inglaterra, Edward Baines referia-se a ele como uma "nova máquina”; porém, em mais uma década, ele estava dissemina- do em Yorkshire. Em outros lugares, ainda era quase desconhecido. O estame, como de hábito, foi mais empreendedor do que seu setor gêmeo. Na fiação, a armação superposta começou a substituir o antigo filatório de me- chas na década de 1840; esse e outros aperfeiçoamentos secundários - constru- ção mais precisa das máquinas, maior potência, melhor lubrificação, transmissão mais eficiente - tornaram possível, na década de 1850, multiplicar por dois, ou ainda mais, o número de equipamentos operados por cada trabalhador. Na tece- lagem, a energia alcançou, a partir de 1840, o sucesso que havia conquistado no algodão desde a década de 1820; em 1867, havia cerca de 71.500 teares mecâni- cos, e a luta estava encerrada. Mas o maior progresso foi na preparação do fio: a penteadeira mecânica, como o condensador, eliminou a única lacuna que resta- va na seqüência da mecanização, e seus efeitos sobre a produtividade e o empre- go significaram a última das grandes invenções têxteis. Uma década após sua adoção, em torno de meados do século, ela extinguiu uma grande e antes Hores- cente arte manual que, assim como a tecelagem à mão de uma geração antes, já havia começado a sentir a pressão das primeiras penteadeiras rudimentares e Vi-
  19. 19. 222 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER nha-se atrofiando, antecipando sua extinção. As máquinas aperfeiçoadas da dé- cada de 1850 não davam margem à competição: uma delas era capaz de produzir mais de 20.000 quilos de lã penteada por ano, em contraste com os talvez 350 quilos feitos pelo melhor trabalhador manual, com seus recipientes para aquecer os pentes, seus óleos para minimizar o rompimento das fibras e sua mulher e ñ- lhos para cortar com os dentes os nós que se formavam nas meadas de lã. A gran- de beneficiária da nova máquina foi a Inglaterra, sobretudo, Bradford, o maior centro mundial de fabricação de estame: o número de fusos na Inglaterra e em Gales como um todo (85% ou mais situados em Yorkshire) subiu de 864.750 em 1850 para 2.087.000 em 1867.28 O preço desse progresso foi a dispensa de cerca de 21.900 penteadores manuais apenas no distrito de Bradford, menos de meta- de dos quais obtiveram emprego na indústria mecânica. ” As indústrias têxteis continentais tinham um caminho muito maior a per~ correr em meados do século. Para elas, as inovações examinadas anteriormente eram secundárias, diante de avanços mais fundamentais: a difusão do filatório automático na manufatura do algodão e a substituição do tear manual pelo auto~ mático no algodão e na lã. Em ambas as áreas, o progresso foi lento. Essas duas inovações economizavam, basicamente, a mão-de-obra e o consumo de com- bustível e, portanto, eram menos rentáveis no continente; e o filatório automá~ tico, em particular, exigia mais energia do que a roda hidráulica comum era ca- paz de fornecer. Mais graves, porém, foram as resistências humanas: a decidida oposição dos tecelões fabris ao aumento da carga de trabalho, que diminuía pro~ porcionalmente a vantagem econômica do equipamento mecanizado; e a res- posta lenta das empresas, a maioria delas pertencente e dirigida por famílias, às oportunidades tecnológicas. Assim como antes, os centros produtores de tecidos de melhor qualidade - embora não os melhores ~ progrediram mais em métodos e equipamentos. Na França, a Alsácia, com suas belas estamparías, e a indústria relativamente jovem de Vosges abriram caminho nos tecidos de algodão: de 10% em 1856, a parcela automatizada de seus fusos elevou-se para 73% em 1868; em 1870, mais de 90% dos teares alsacianos eram mecanizados. O Norte e a Normandia seguiram o exemplo - o primeiro com bravura, a segunda com muita dor. O fim das déca- das de 1850 e 1860 foi uma lástima: retração, menor proteção tarifária, escassez de algodão e, depois disso, uma retração após outra, numa sucessão ininterrupta. O pequeno cotonníer expressava sua angústia em direção a Paris, mas teve de es~ perar pela Terceira República para obter atendimento. ” Os centros de estame de Roubaix e Fourmies, no Norte, e de Reims, na Champanha, marcaram a cadência da indústria lanígera francesa. A moderniza~ ção foi especialmente rápida na década de 1860, quando a Guerra Civil nor-
  20. 20. A Equiparação Tecnológica e Industrial 223 ELSEVIER te-americana elevou o preço dos tecidos de algodão e estimulou muitíssimo a procura de substitutos têxteis mais leves. Dos 450.000 fusos de estame acrescen- tados às fábricas nacionais entre 1862 e 1867, a maioria deles automática, cerca de 3/4 foram instalados no departamento do norte; mais ou menos nos mesmos anos, Roubaix e Reims triplicaram seus teares mecânicos, que somavam, res- pectivamente, 12.000 em 1869 e 7.000 em 1866. Em contraste, uma fabríque de lã de alto nível, como Elbeuf, tinha apenas 370 desses teares em 1870; muitas outras não possuíam nenhum. Na Alemanha, os centros sulistas - Bavaria, Württemberg e Baden -, com suas novas sociedades anônimas e, curiosamente, com sua utilização persistente da energia hidráulica em conjunto com o vapor, assumiram a liderança no algo- dão (72% de filatórios automáticos em 1867); a área de Glabdach (Renânia) não ficou muito atrás. Mesmo assim, as fiações eram incapazes de atender à demanda do setor de tecelagem da indústria, favorecido, como sempre, pelo baixo custo da mão-de-obra rural. As importações de fios aumentaram. Mas sua parcela do consumo total caiu rapidamente e de maneira quase ininterrupta - de 70,6% em 1836-40 para 52,6% em 1851-S e 22% em 1867-9. Essa emancipação progressi- va dá a medida do desenvolvimento, na Alemanha, de uma indústria moderna e inteiramente fabril. Comparada ao algodão, ou até à indústria lanígera francesa, a manufatura la- nígera alemã tinha recursos escassos e um desempenho vacilante. A produção de fios de estame era pouco desenvolvida: só nas décadas de 1870 e 1880 a Alema- nha começou a se libertar da dependência das importações britânicas. E a fiação de lã, como em toda parte, era um reduto do conservadorismo. Mas o ramo im- portante era a tecelagem. Nesse setor, tanto nos tecidos de estame quanto nos de lã, o uso da energia aumentou drasticamente, enquanto os teares manuais come- çaram, pela primeira vez, a declinar em termos absolutos e relativos, reduzin- do-se de 74.000 em 1861 para 47.000 em 1875.31 Esses números dão a dimen- são de um importante avanço industrial, porém quem irá traduzi-los numa me- dida da perplexidade, do sofrimento e do sombrio ressentimento daqueles que foram triturados pelas engrenagens de um progresso impessoal? O cenário da tecnologia têxtil continental nessas décadas intermediárias é muito menos sereno do que o de sua equivalente inglesa. Há trechos brilhantes que recordam, em menor grau, os grandes avanços de Lancashire e Yorkshire; mas eles estão pontilhados de cinza e negro, e setores inteiros da tela são opacos e até sombrios. Em comparação com as técnicas mais homogêneas e a localiza- ção avançada das indústrias inglesas, tudo ainda é confuso. Passa-se também de uma tela grande para outra pequena. Apesar do progresso continental, a indústria têxtil da Inglaterra continuou muito adiante da de seus
  21. 21. 224 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER competidores. Seu predomínio mais impressionante era no algodão, em que conta- va com 3/5 dos fusos do mundo no ñnal do período que estamos considerando, ou mais da metade dos existentes na Europa ainda em 1913 (ver Tabela 5). O equipa- mento da Inglaterra era o mais avançado; suas fábricas, as maiores; sua força de tra- balho, a mais eficiente. As comparações com a melhor usina francesa e alemã, ao se aproximar o final do século, mostram as fábricas de Oldham usando menos da me- tade, ou, às vezes, menos de 1/ 3 dos trabalhadores para cada mil fusos. Presume-se que essa margem fosse ainda maior, em tomo de 1870. Não é fácil fazer a mesma comparação na tecelagem, em virtude das diferenças nos produtos ñnais. Ainda as- sim, enquanto os teares manuais haviam praticamente desaparecido na Inglaterra, a França ainda contava com 200.000 deles em 1866, em contraste com 80.000 teares automáticos? ao passo que, na Alemanha de 1875 (sem incluir a Alsácia), os núme- ros eram 125.000 do tipo antigo e 57.000 do novo. Além disso, parece que os teares mecânicos ingleses funcionavam mais depressa e desperdiçavam menos, enquanto o tecelão inglês cuidava de um número maior de máquinas - em geral, duas vezes o número operado por seu equivalente francês ou alemão. TABELA 5. Total de fusos de algodão nos principais paises (em milhares) 1834 1852 1861 1867 1913 Grã-Bretanha 10.000 18.000 31.000 34.000 55.576 EUA 1.400 5.500 11.500 8.000 30.579 França 2.500 4.500 5.500 6.800 7.400 Alemanha 626” 900 2.235 2.000 10.920 Suíça 580 90o 1.350 1.000 1.389 Bélgica 20o 40o 612 625 1.469 Austro-Hungria 800 1.400 1.300 1.500 4.864** a' 1836. b' Apenas áreas da Áustria e da Tchecoslováquia no pós-guerra. FONTES: Para 1834 e 1861, G. Jacobs, Die deutscherz Textilzõlle im 19. jahrhundert, Braunschweig, 1907, p. 26, n. 1; P. Benaerts, Les origines de la grande industrie allemande, Paris, s/ d, p. 487; Viebahn, Sta- tistíle, p. 877. Para 1852 e 1867, Mimerel Fils, “Filature du Cotton", in M. Chevalier (org), Exposition universelle de 1867 à Paris, IV, p. 20. Para 1913, Comissão de Indústria e Comércio, Survey cy' Textile Industries: Cotton, Wool, Artylicial Silk [Being Part III of a Survey of Industries], Londres, 1928, p. 151. A liderança inglesa na lã era menor, mas ainda substancial: 2.087.000 fusos de estame em 1867, contra talvez 1.750.000 na França; 71.500 teares automáti- cos de estame, comparados a cerca de 20-25.000. A Alemanha, com seus
  22. 22. A Equiparação Tecnológica e Industrial 225 320.000 fusos e talvez 10.000 teares, alcançava um precário terceiro lugar. Não dispomos de cifras comparáveis em relação aos tecidos de estame, mas estima-se que a Alemanha, e não a França, ocupava o segundo lugar. No cômputo geral, havia uma enorme hegemonia. Sem dúvida, a margem da Inglaterra diminuiu com o tempo - à medida que a volta do protecionismo fechou mercados valiosos, que as indústrias têxteis mais jovens do continente atingiram uma maturidade alimentada por padrões de vida ascendentes e que os recém-chegados de terras distantes entraram na competição. Ainda assim, é pos- sível que nenhuma outra indústria inglesa estabelecida tenha mostrado tamanha vitalidade e adaptabilidade nos difíceis anos decorridos entre 1870 e 1914. Po- rém, essa é outra história. Ferro e aço Sente-se um certo alento ao passar dos produtos têxteis - heterogêneos e sensí- veis - para a metalurgia. A história do ferro e do aço é simples, comparada à dos tecidos: muito menor diversidade de matérias-primas ou produtos finais; mu- danças tecnológicas não dificultadas pela concorrência entre modos de produ- ção; e uma esmagadora primazia dos recursos naturais na determinação da loca- lização e da capacidade competitiva, que contrasta nitidamente com a sutil inte- ração das considerações humanas e materiais na indústria mais leve. Nas décadas intermediárias do século XIX, o principal fenômeno na metalur- gia continental foi a vitória definitiva do combustível mineral. Há muito tempo a hulha passara a dominar o processo de reñno, e as tradicionais técnicas "da Valô- nia” ou “da Champanha” haviam cedido terreno, na maioria dos lugares, ao for- no de pudlagem e ao laminador. Mas a fundição continuava a ser um obstáculo, graças ao contato direto entre o minério e o combustível nos altos~fornos. Muito depois de meados do século, o ferro produzido nos fornos a carvão vegetal conti- nuava a ser de qualidade superior. Para as utilizações que exigiam uma coesão me~ tálica especial ~ os eixos, por exemplo -, ele era quase obrigatório. Contudo, ao longo do tempo, a inelasticidade da oferta de madeira, bem como a dispersão forçada e a capacidade limitada dos fornos que queimavam madeira, tornou antieconôrnica a fundição a carvão vegetal. Os belgas, com seus abundantes depósitos de hulha e sua longa experiência de mineração, foram, como vimos, os primeiros do continente a adotar o combustível mineral: em 1845, 90% de sua produção de ferro~gusa - 121.000 das 134.500 toneladas - foi fabricada em fornos a coque. (Deve-se recordar que quase toda a produção bri- tânica era feita a coque em 1800.) Em contraste, os franceses, que haviam seguí~ do esse caminho ainda mais cedo (Le Creusot na década de 1780) e possuíam
  23. 23. 226 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER competência técnica idêntica nesse campo, demoraram a efetuar a transição. Por um lado, tinham uma perene escassez de hulha, sobretudo, do tipo que produz um bom coque metalúrgico; com freqüência, além disso, o carvão estava situa- do muito longe do minério, e os custos do transporte na era pré-ferroviária eram extremamente altos. Por sua vez, grande parte da indústria siderúrgica francesa estava nas mãos de pequenos fornalheiros tecnicamente ignorantes, ligados (pe- los recursos naturais e pelo hábito) a localizações precárias e protegidos (por tari- fas proibitivas, transportes dispendiosos e uma abstenção tácita da competição de preços) das incursões de produtores mais eñcientes. No começo da década de 1850, a expansão industrial da França deu vida nova a técnica tradicional; a produção de gusa a carvão vegetal aumentou, em- bora com muita mais lentidão do que a do ferro coqueificado. Mas, em seguida, a crise de 1857 acarretou uma acentuada contração da demanda, e os fornos an- tiquados foram os primeiros a sofrer. Eles se acomodaram em um novo nível, inferior, de 1858 a 1860, quando a nova concorrência das baixas tarifas da déca- da de 1860, facilitadas pelo barateamento dos transportes, praticamente os ex- tinguiu. A natureza e o momento da mudança evidenciam-se na Tabela 6. A Alemanha foi a última das três nações a desenvolver uma grande indústria de fundição a coque. Ainda em 1840, os únicos fornos a usar combustível mine- ral encontravam-se na Silésia e, mesmo ali, a grande maioria queimava carvão vegetal. Por volta dessa época, a técnica do coque foi introduzida com sucesso na bacia do Sarre; cinco ou seis anos depois, foi a vez da Renânia; só em 1849 o primeiro gusa coqueificado foi vertido no Ruhr. Nessa ocasião, apenas um dé- cimo da fabricação de ferro da Zollverein era fundido dessa maneira. Uma Vez dado o passo decisivo, a nova técnica assumiu rapidamente a lide- rança e expulsou a antiga em poucos anos. Na Prússia como um todo, que re- presentava cerca de 90% da produção de ferro da Zollverein, a proporção de ferro a carvão vegetal caiu de 82% em 1842 para 60% em 1852 e 12,3% em 1862. Numa nova indústria de fundição como a do Ruhr, o desaparecimento do com- bustível vegetal foi ainda mais rápido; ele respondeu por 100% da produção de ferro em 1848, 63% em 1850, 4,2 em 1856 e 1,3% em 1863.33 Paralelamente a isso, houve um aumento contínuo do tamanho do equipa- mento e das usinas, gerados e estimulados por aperfeiçoamentos tecnológicos que não foram espetaculares ou revolucionários em si, mas que constituíram, indivi- dualmente, uma grande transformação. O jato de ar tornou-se mais potente e mais quente; o resfriamento, mais eficaz (quanto maior o calor produzido, mais dificil torna-se o problema de dissipá-lo); por conseguinte, os fluxos de fundição passaram a ser mais longos e o carregamento mais fácil. Mantendo-se inalteradas as outras questões, entre 1850 e 1870, o novo forno dobrou sua altura e mais do que
  24. 24. A Equiparação Tecnológica e Industrial 227 TABELA 6. Substituição do combustível vegetal pelo mineral rzafurzdição do ferro (Produção em milhares de toneladas métricas) França Prússia Bélgica Coque Carvão Coque Carvão Coque Carvão ou misto vegetal ou misto vegetal ou misto vegetal 1825 5 194 - - ~ - 1830 31 194 - - - - 1835 49 246 - - - - 1837 - - 9 87 - - 1840 82 321 - - - - 1842 - - 18 80 - - 1845 193 A 305 - - 121 13,5 1850 176 230 33 99 131 13,3 1855 488 361 158 123 280 14,1 1856 548 375 225 120 306 15,9 1857 619 373 270 110 288 14,5 1858 546 326 295 110 313 11,5 1859 531 333 281 110 309 9,6 1860 582 316 299 96 315 5,3 1861 691 276 377 73 306 5,9 1862 817 274 461 65 353 3,6 1863 901 256 568 70 386 6,1 1864 989 224 631 75 444 5,5 1865 1010 194 712 60 466 4,6 1866 1076 184 750 54 482 0,6 1.867 1074 155 838 78 422 1,4 1868 1104 131 973 80 435 0,9 1869 1262 119 1104 77 532 2,2 1870 1088 90 1086 69 563 1,8 1875 1332 116 1341 57 540 1,3 1880 1670 55 2021 32 - - 1885 1602 29 2634 31 - - 1890 1950 12 3269 20 - - FONTES: Para a França, Jean-Paul Courhtéoux, "Delais tfinnovation, états des coüts, evolution des prix dans Yindustiie sidérurgique”, em Jean Fourastié, ed. , Prix de vente et prix de reuient: reclzerclzes sur Févolution des prix en, periode de progrês teclmique (83 série), Paris, s/ d, tabela 1. Para a Prússia, Beck, Gesthichte des Eiserzs, IV, p. 714; V, p. 1069; Zeitsclirüifíir das Be›g-, Hütiell', und Salirzentueserz, 1856-71. Para a Bélgica, não foi possível obter as cifras da produção efetiva dos fornos a carvão vegetal e a co- que antes de 1845. Existem, no entanto, dados sobre o número desses fornos que parecem indicar que a produção do ferro coqueificado superou a dos fomos a carvão vegetal por volta de 1833-5 (presumindo uma proporção de 1 para 4 nas produções anuais médias dos dois tipos de fornos'. cf. E. Flachat, A. Bar- rault ej. Petiet, Traité de lafabritation dufer et de laforzte, Paris, 1842, p. 1287). Exposé de la situation du Royaume, 1840-1850, parte IV, p. 118; íbíd. 1850-1860, Ill, p. 114; 1861-1875, II, 726.
  25. 25. 228 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER duplicou sua capacidade, enquanto a passagem do carvão vegetal para o coque trouxe consigo um aumento ainda maior nas dimensões do forno médio. Na França, a produção por forno a coque elevou-se de 2.450 toneladas em 1846 para 5.800 em 1870; considerados todos os fornos, de 1.250 para 4.400 toneladas no mesmo período. A Prússia começou com equipamentos menores e menos eficien- tes: em 1850, o forno médio produzia 720 toneladas. Em 1871, entretanto, essa cifra era superior a 5.000 na Alemanha em geral e um pouco mais alta na Prússia. As melhorias na purificação, em contraste, foram pequenas. O forno de pudlagem continuava a ser o grande obstáculo da indústria. Somente homens dotados de uma força e uma resistência notáveis eram capazes de enfrentar o ca- lor durante horas, mexer e agitar a papa grossa de metal liquescente e decantar as bolhas do pastoso ferro forjado. Os trabalhadores da pudlagem eram a aristocra- cia do proletariado, orgulhosos, apegados ao seu clã e distintos pelo suor e san- gue. Poucos viviam além dos 40 anos.34 Fizeram-se inúmeros esforços para me- canizar o forno de pudlagem - em vão. Era possível construir máquinas para agi- tar o banho, mas somente o olho e o tato humanos eram capazes de separar o metal descarbonizado em processo de solidificação. O tamanho dos fornos e os aumentos da produtividade eram correspondentemente limitados. A resposta foi a descoberta de uma direção inteiramente diferente - da manufa- tura de aço barato e seu emprego como substituto do ferro forjado em quase todos os usos, salvo em alguns poucos. O processo de Bessemer data de 1856; a técnica do forno aberto de Siemens-Martin, de 1864. Como veremos, no entanto, nenhum dos dois fez um avanço real até quase uma década após sua introdução. O aço ainda respondia por menos de 15% do ferro acabado (moldado ou reñnado) produzido na Alemanha em torno de 1870, e por menos de 10% do produzido na Grã-Bretanha. Seu sucesso comercial e o impacto revolucionário desse êxito na técnica industrial ocorreram no período posterior do desenvolvimento econômico (por conseguinte, adiaremos nosso exame dessas inovações, de modo a não separá-las de seus efeitos). Um último comentário para situar os fatos em sua perspectiva adequada: a ex- pansão espetacular da indústria continental do ferro nessas décadas não deve iludir os leitores quanto ao contínuo progresso e predomínio da indústria britânica. Sua taxa de crescimento (5,2% ao ano entre 1848-70) não foi tão rápida quanto a da Alemanha (102% em 1850-69) ou mesmo a da França (6,7% em 1850-69), mas, para uma antiga potência industrial, era considerável. Seus equipamentos eram mais volumosos do que os de seus principais concorrentes; suas empresas eram maiores e mais fortes. Os fornos mais potentes do Ruhr produziam cerca de 250 toneladas de gusa por semana em 1870;35 as unidades médias inglesas geravam quase a mesma ci- fra (183 toneladas), e os novos “monstros” de 80 pés (a expressão é de Clapham) do distrito de Cleveland, com recuperação do gás e um jato de ar superaquecido, fabri-
  26. 26. A Equiparação Tecno| ógica e lndustrial ELSEVIER cavam 450-550 toneladas semanais em 1865.36 Tampouco havia no continente uma empresa como a Dovvlais e a Gartsherrie, com 18 e 16 altos-fornos, respectiva~ mente, na década de 1850. A título de comparação, a maior empresa alemã, a Hõr~ der Verein, tinha seis fornos em 1870, com uma média de 180 toneladas por sema~ na. ” Em síntese, o Reino Unido ainda estava fabricando a metade do ferro-gusa mundial em 1870, 3,5 vezes mais do que os Estados Unidos, mais de quatro vezes o total da Alemanha e mais do que cinco Vezes o da França. Energia Com a disseminação dessas novas técnicas no continente, surgiram maiores re- quisitos de energia e um aumento da dependência em relação à máquina a vapor como força motriz. Ela apareceu em áreas e atividades em que nunca fora usada antes; foi adotada por empresas desejosas de suplementar seu suprimento de energia hidráulica ou substituir suas instalações hidráulicas por algo mais confiá- vel; e sua utilização difundiu~se nas empresas que já estavam familiarizadas com ela. Uma grande usina siderúrgica ou uma indústria mecânica podia empregar umas 12 ou mais máquinas de capacidade variável- para impulsionar o jato de ar, girar os cilindros, acionar os martelos, movimentar uma multiplicidade de ferramentas mecânicas e acionar elevadores, guindastes e outros dispositivos manipuláveis. Nossos números sobre a energia a vapor nesse período são extremamente deficientes: no tocante à maioria dos países, inclusive a Grã-Bretanha, temos apenas estimativas individuais aproximadas, e as diferenças nos métodos de cal- culo da capacidade (uma dificuldade que persistiu ainda no século XX) tornam a comparação internacional muito arriscada. No entanto (Ver Tabelas 7 e 8), mesmo imprecisos, os dados estatísticos evi- denciam a importância desses anos na adoção da máquina a vapor nos países continentais. Todos os países mais adiantados estavam, em 1840, na íngreme en- costa intermediária da "curva em S” da capacidade crescente, que foi multipli- cada por dois ou mais, a cada dez anos, até a década de 1870. Em meados do sé- culo, a França detinha a liderança, com larga margem, do número de máquinas fixas - mais do que o resto da Europa continental em conjunto -, e é óbvio que nenhuma economia fora tão longe na adaptação do vapor a uma ampla varieda- de de usos. Mas suas unidades energéticas eram pequenas em comparação com as da Bélgica e da Prússia, com sua grande ênfase na mineração e na metalurgia. A capacidade total das fábricas belgas, que talvez totalizasse 25% menos do que a da França, continuava a justificar a invejosa comparação feita na década de 1830 por Briavoinne (Ver anteriormente, p. 184, n. 79).
  27. 27. 230 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER TABELA 7. Capacidade de todas as máquinas a vapor (em milhares de HP) 1840 1850 1860 1870 1880 1888 1896 Grã~Bretanha 620 1.290 2.450 4.040 7.600 9.200 13.700 Alemanha 40 260 850 2.480 5.120 6.200 8.080 França 90 370 1.120 1.850 3.070 4.520 ! S .920 Áustria 20 100 330 800 1.560 2.150 2.520 Bélgica 40 70 160 350 610 810 1 . 180 Rússia 20 70 200 920 1.740 2.240 3.100 Itália 10 40 50 330 500 830 1.520 Espanha 10 20 100 210 470 740 1.180 Suécia - - 20 100 220 300 510 Holanda - 10 30 130 250 340 600 Europa 860 2.240 5.540 11.570 22.000 28.630 40.300 EUA 760 1.680 3.470 5.590 9.110 14.400 18.060 Mundo 1.650 3.990 9.380 18.460 34.150 50.150 66.100 FONTES: Mulhall, Dictionary of Statistics, p. 545; W. Woytinsky, Die Welt in Zahlen, 7V. , Berlin, 1926, IV, p. 59. Woytinsky enfatiza com acuidade o caráter aproximado dessas estimativas. TABELA 8. Máquinas a vapor fixas e capacidade por país (em milhares de HP) Prússia França Bélgica Número Capacidade Número Capacidade Número Capacidade 1837 419 7 - - - 1.044 25 1838 - ~ - 1839 - - 2.450 33 - - 1843 462 16 3.369 43 ~ ~ 1844 - - 3.645 46 1.448 37 1849 1.445 29 9.949 62 ~ - 1850 - - 5.322 67 2.040 51 1855 3.049 62 8.879 112 ~ - 1860 - ~ 14.513 178 4.346 99 1861 7.000 143 15.805 191 - - 1869 - w 26.221 320 - - 1870 - - 27.088 336 8.138 176 1878 34.431 958 37.589 484 ~ - 1880 - - 41.772 544 11.752 273 FONTES: Quanto à Prússia, Engel, "Das Zeitalter des Dampfes", in Z. Kõniglichen Statistisclten Lar-ide- samtes, 1880, p. 122; também disponível em Woytinsky, Die Welt in Zahlen, IV, p. 63; quanto ã França, Annu. Statistiqtte, LVII, 1946, res. retrosp. , p. 166; quanto à Bélgica, Exposé de la situation du Royaume, 1840-1850, parte IV, p. 113, e Woytinsky, Die Welt in Zahlen, IV, 70.
  28. 28. A Equiparação Tecnológica e Industrial 231 ELSEVIER Nos anos subseqüentes a 1850, a Bélgica manteve sua taxa de crescimento; a capacidade francesa aumentou mais depressa do que antes, enquanto a Prússia deu um salto à frente, numa velocidade (quintuplicando o crescimento de 1849 a 1861, e aumentando quase sete vezes de 1861 a 1878) que a posicionou adian- te da Bélgica em meados da década de 1850; poucos anos depois, deixou a Fran- ça muito para trás. junto com o aumento espetacular de sua produção de ferro e hulha, esse salto prenunciou o surgimento de um novo gigante industrial. Não dispomos, infelizmente, de cifras comparáveis em relação à Inglaterra, onde o laissez-faire do poder executivo no século XIX custou caro aos historiadores econômicos - embora eles tenham sido mais do que Compensados pela curiosi- dade do Parlamento; mas se o total da energia a vapor for uma indicação válida, o aumento da capacidade das máquinas instaladas na Inglaterra teria começado a reduzir seu ritmo na década de 1860. O AUMENTO DA ESCALA E DA CONCENTRAÇÃO O tamanho e o custo cada vez mais elevado do equipamento industrial, assim como as novas pressões competitivas advindas dos transportes mais baratos e do comércio mais livre, deram um forte estímulo a duas tendências já em curso ~ o aumento da escala e, em grau menor, o da concentração. As empresas cresciam em um ritmo constante. Em parte, isso era uma ilusão estatística, porque a eliminação de unidades marginalmente ineficientes tendia a elevar a média estatística. Porém, em grande parte era um crescimento real, à medida que as empresas bem-sucedidas expandiam-se e que novas empresas es- tabeleciam-se numa escala nunca antes sonhada. Nesse momento, as sociedades anônimas deram sua contribuição decisiva. Quase todas as novas usinas siderúr- gicas e minas de carvão da Prússia foram fundadas dessa forma, como já aconte- cia há muito tempo na Bélgica. O mesmo aplicou-se à indústria pesada francesa, embora, muitas vezes, a commandite par actions (sociedade em comandita por ações) fosse empregada para conciliar a direção e a responsabilidade pessoais com a propriedade amplamente difundida. Mas essa solução conciliatória, à qual se recorrera desde a década de 1830 no esforço de contornar a desconfiança e a hostilidade do governo às corporações como forma comercial, foi um testemu- nho eloqüente das exigências da escala crescente. Até na Inglaterra, onde a acu- mulação de capital dentro da empresa e a eficiência do mercado monetário tor- navam desnecessário o recurso aos investimentos públicos, a tendência para es- tabelecer sociedades anônimas era forte e continuava a se fortalecer. A partir da década de 1850, as maiores empresas novas foram fundadas como companhias, tal como ocorrera com as estradas de ferro anteriormente. A partir da década se-
  29. 29. 232 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER guinte, numerosos projetos privados, sobretudo em indústrias com necessidades intensivas de capital, como a metalurgia, converteram-se na forma incorporada: foi o caso do john Brown, em Sheffield, Ebbw Vale, em Gales, e Bolc- kow-Vaughan, em Middlesbrough. Algumas dessas reorganizações refletiram os problemas biológicos inerentes à propriedade e à associação individuais - morte, doença, desinteresse dos herdeiros em dar continuidade aos negócios; algumas foram inspiradas pelo desejo, ocasionalmente bem fundado, de se protegerem da responsabilidade limitada; mas muitas foram uma resposta aos crescentes requi- sitos de capital, originados pela produção. ” O mais rápido aumento de escala surgiu, como se poderia esperar, na indús- tria pesada. Em 1853, a maior empresa de fundição do Ruhr, a Borbecker Hütte, em Essen, com seus três altos-fornos e suas máquinas a vapor que somavam 2521-1?, empregava 450 homens para fabricar 19.500 toneladas de ferro-gusa. Em 1870, uma dúzia de empresas superou essa produção, e a líder, a Hõrder Verein, produziu três vezes essa quantidade. (Graças ao aumento de produtividade, o crescimento medido pelo número de empregados foi lento; as empresas mais efi- cientes de 1870 chegaram a obter 100 toneladas anuais por trabalhador, ou mais, em contraste com as 43 da Borbecker Hütte. )39 Seria possível mostrar fenômenos semelhantes na França, onde uma empresa como a Wendel viu sua produção de ferro-gusa elevar-se de 22.370 toneladas em 1850 para 134.470 em 1870; ou na Inglaterra, onde a Schneider, Hannay 8( Co. (que depois se fundiu na Barrow Haematite Steel Co. ) começou em Barrow, em 1859, com dois fornos, até que, em 1871, tinha 12 em operação, todos enfileirados como as lindas donzelas da Cantiga de ninarflo Os leitores talvez objetem que escolhi esses exemplos para cor- roborar minha idéia, o que de fato ñz. E poderão acrescentar numerosos exem- plos de projetos que não cresceram tão depressa, ou até fracassaram. No entanto, as empresas mencionadas não estavam isoladas; seria possível citar empresas como a Cockerill, na Bélgica, a Krupp, na Prússia, a Schneider, na França, e ajohn Brown, na Inglaterra, que se expandiram ainda mais depressa. E os números do emprego crescente por empresa, em um período de aumento da produtividade e da intensidade de capital, evidenciam a tendência geral. Por diversas razões, essa propensão não foi tão marcante numa indústria leve como a dos produtos têxteis: a transformação tecnológica tomara-se mais lenta afetando o aumento mais desejável das dimensões das fábricas; uma vez que os fa- tores não-materiais e empresariais tinham mais importância do que na indústria pesada, uma empresa pequena, porém criativa, tinha mais capacidade de compe- tir; e, por fim, já que as necessidades iniciais de capital eram menores, havia menos pressão em prol da formação de sociedades anônimas, com seu pendor intrínseco para a grandiosidade. ” Em termos gerais, quanto menos adiantada a indústria,
  30. 30. EVIR A Equiparação Tecnológica e industrial 233 mais rápido o aumento da escala; ou, mais exatamente, o tamanho médio teve seu aumento mais rápido no período de transição das oficinas dispersas e das minúscu- las usinas movidas a energia humana ou animal do início da mecanização para as fábricas movidas a vapor ou energia hidráulica. Assim, o número de fusos por fá- brica na indústria de algodão da Grã-Bretanha elevou-se em cerca de metade de 1850 a 1878; o das empresas do Norte da França quase duplicou de 1850 a 1870; e na Prússia, aumentou sete Vezes (de 828 para 5.738) entre 1837 e 1861.42 mo fenômeno talvez explique a tendência um pouco mais rápida para as grandes dimensões na indústria lanígera inglesa, comparada à do algodão, apesar das eco- nomias de escala menores: nos anos 1850-75, os fusos por fábrica praticamente duplicaram na indústria lanígera e aumentaram 158% na de estame. ” Por outro lado, a experiência prussiana foi o inverso - um aumento de seis vezes na lã entre 1837 e 1861 (de uma média de 103 fusos para 587), em contraste com o aumento já mencionado de sete Vezes na indústria do algodão. O aumento da escala costuma ser acompanhado pela concentração de uma O mes- parcela cada vez maior dos ativos ou da produção da indústria nas mãos das maiores empresas. Entretanto, as estatísticas disponíveis, extremamente escassas, não permitem uma afirmação categórica a respeito dessa questão. Não temos, por exemplo, dados sobre o tamanho ou a produção de empresas individual- mente consideradas na indústria têxtil, e mesmo na metalurgia, em que a Vigi- lâncía dos órgãos governamentais sobre os equipamentos e práticas nas fábricas legou aos historiadores uma herança de informações inestimáveís, nossos dados são incompletos e nem sempre homogêneos. Ainda assim, algumas inferências parecem justificadas. Nas indústrias têxteis do continente, é quase certo que o expurgo das empresas marginais nas décadas de 1850 e 1860 - pelo transporte mais barato, pelas tarifas mais baixas e, no algodão, pela interrupção dos forneci- mentos norte-americanos e por um acentuado aumento paralelo das necessida- des de capital de giro - tenha promovido um grau mais elevado de concentra- ção: os ricos ficaram mais ricos e os pobres sucumbiram. A Inglaterra não passou por nada semelhante a isso, a não ser pela problemática escassez de algodão; seu ajuste de contas ocorreu depois de 1873, quando a prolongada depressão dos preços e do comércio, conjugada à perda de alguns dos seus melhores mercados para o protecionismo ressurgente, assim como para a energia de competidores mais jovens, efetuou uma catarse equiparável. Nesse ínterim, entretanto, a faci- lidade de formação de empresas e a acumulação de capital em Lancashire favore- ceram, já em 1860, a criação de cotonifícios de dimensões sem precedentes. Tratava-se das chamadas “companhias limitadas de Oldham” - imensas fiações de algodão padronizadas, comanditárias, fundadas em Oldham e seus arredores, fora de Manchester, iniciadas em 1858 e que continuaram crescendo abundante-
  31. 31. 234 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER mente até meados de 1870. Elas foram construídas, em grande parte, com a poupança de comerciantes, profissionais liberais e até operários locais, que com- pravam ações cujo valor chegava a ser de apenas uma libra esterlina. A maior de- las operava com mais de 100.000 fusos; a média, entre 60.000 e 70.000. Nos dois anos culminantes de 1874-5, cerca de 3 milhões de fusos foram postos no mercado apenas em Oldham - aproximadamente o mesmo número existente em toda a França ou Alemanha. A propagação desses gigantes significou, quase com certeza, um aumento da concentração. Mas a indústria têxtil, no cômputo geral, não se presta a tendências monopolistas: a entrada é fácil demais, como vi- mos, e as economias de escala não são suñcientemente grandes. Em 1885, as dez maiores empresas públicas de Oldham respondiam por somente 22% dos ativos ou da produção dos fusos das sociedades anônimas naquela localidade; sua pro- porção do total nacional era muito menor. ” Deveria-se esperar - e de fato se constata - um grau mais elevado de con- centração na metalurgia, embora essa tendência de modo algum fosse poderosa ou inequívoca. Na França, as dez maiores empresas produziram 14% da fabrica- ção total de ferro forjado e aço em 1840-S; em 1869, uma única companhia, a De Wendel, produziu mais de 11%, e as dez maiores, em conjunto, somaram 54%. ” Na Alemanha, contudo, esses mesmos anos assistiram a poucos movi- mentos nessa direção. As dez maiores companhias de fundição produziram 32,6% do ferro-gusa em 1852 e 35,9% em 1871.46 E, apesar de não dispormos de dados que permitam uma análise semelhante da fabricação de ferro na Ingla- terra, o padrão subseqüente parece indicar que tanto os ativos quanto a produ- ção foram distribuídos de forma mais equânime do que na França e, possivel- mente, até na Alemanha. Em 1927, as 12 maiores empresas produziram apenas 47% do ferro-gusa do país e 60% de seu aço. ” Essa falta de concentração relacio- nou-se, aparentemente, à dispersão geográfica da indústria. Em geral, a experiência histórica da concentração é uma terra incognita. A bi- bliograña bastante profusa sobre a estrutura da indústria no século XIX interes- sou-se quase exclusivamente por questões como a escala, a integração (havia uma harmonização das fiações com as tecelagens? da fundição com o reñno? ) e a localização; e até os estudos que pretendem versar sobre a concentração abor- dam mais, com freqüência, essas outras questões. NOVOS PADRÕES REGIONAIS O aumento da escala e as forças que o promoveram combinaram-se para re- formular o mapa econômico da Europa. Esse processo assumiu duas formas: a localização, com a concentração espacial da atividade industrial, e a relocação, com o surgimento de novos centros produtores.
  32. 32. LSEVIER A Equiparação Tecnológica e Industrial 235 Em relação à primeira, podemos distinguir estímulos positivos e negativos. Por um lado, as grandes dimensões davam maior peso às vantagens da localiza- ção racional: quanto maior a necessidade de matérias-primas, mais importante era estar localizado perto de fontes convenientes de abastecimento. Além disso, o progresso tecnológico deu origem a novas economias externas nos ramos ca- racterizados por um complexo entrelaçamento de atividades que sustentavam umas às outras. Em suma, os ricos ficaram mais ricos. Por outro lado, já assinala- mos o efeito dispersador do transporte mais barato e mais fácil - sobretudo quando reforçado por menores barreiras à concorrência estrangeira - sobre o mosaico de autarquias locais. Os pobres ficaram mais pobres, e muitos foram eli- minados. O resultado final foi uma concentração da atividade manufatureira em alguns pontos favorecidos, e uma desindustrialização do campo deu novo im- pulso ã antiqüíssima drenagem da população rural pelos centros urbanos. ” A relocação relacionou-se estreitamente com a nova base de recursos natu- rais da indústria pesada, decorrente da substituição do combustível vegetal pelo mineral e da invenção de novas técnicas de produção de aço (falaremos mais so- bre elas adiante). Cada pais teve suas áreas de oportunidade. Na França, foram o cantão noroeste (os departamentos de Meurthe e da Mosela) e o extremo norte (o Nord e o Pas-de-Calais). O primeiro tinha os leitos de minério de ferro maio- res e mais fáceis de explorar da Europa - as mínettes relativamente pobres (teor férrico de cerca de 30% a 33%) e antes desprezadas ~ situados a uma proximida- de razoável do carvão do Sarre. Com a construção da ferrovia oriental no fim da década de 1840, construíram-se novas instalações de fundição, e a região passou, rapidamente, de um dos menores distritos produtores de ferro para o mais im- portante da França. Seus maiores progressos surgiram depois de 1856, quando a crise comercial, primeiro, e depois as tarifas baixas e o transporte mais barato exerceram uma intensa pressão sobre os antiquados fornos florestais da Champa- nha, do Franco Condado, de Nivernais e do Delfinado. Numa economia em que a concorrência era amortecida pela omissão empresarial e pelas ententes for- mais, nenhum expurgo era tão eficaz quanto um forçado. A produção da Lorena quadruplicou (de 109.000 toneladas em 1857 para 420.000 em 1869) e enquan- to, em 1847, os dois departamentos haviam respondido por 10,6% da produção nacional de ferro, e em 1857, por 11%, essa proporção elevou-se, em 1859, para 30,5%. ” Em comparação, o crescimento da fundição no Nord e no Pas-de- Calais foi muito mais vagaroso. Nesses locais, contudo, a disponibilidade de combustível relativamente barato proporcionou uma base mais sólida para o aprimoramento da imensa família de indústrias consumidoras de energia desig- nada pelo nome genérico de metalurgia. Além disso, a região possuia ramos têx- teis estabelecidos desde longa data ~ grandes consumidores de máquinas, moto-
  33. 33. 236 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER res e outros produtos de metal -, uma importante indústria química e uma prós- pera agricultura industrial, centralizada na beterraba. O resultado foi uma eco- nomia muito mais diversiñcada do que no nordeste. . Esse padrão de crescimento equilibrado também caracterizou o Ruhr, ainda que em escala muito menor; na verdade, em certo sentido, a grande história des- ses anos foi a emergência da Vestfália como o maior centro de atividade indus- trial da Europa ocidental. As bases desse desenvolvimento foram o carvão e o ferro: uma vez evidenciada a extensão dos recursos minerais locais, os banquei- ros e os investidores alemães, muitas vezes auxiliados ou antecedidos por capitais franceses e belgas, apressaram-se a criar sociedades anônimas mineradoras e me- talúrgicas. Vinte e sete altos-fornos a coque foram construídos entre 1851 e 1857, mais do que os existentes em toda a Zollz/ erein na primeira dessas datas; de- pois de Lima breve pausa durante a crise de 1857-9, a explosão de crescimento foi retomada e prosseguiu até a prolongada depressão da década de 1870. De 1851 a 1871, a produção de ferro-gusa no distrito de Dortmund aumentou mais de 35 Vezes, chegando a 421.000 toneladas, quase o dobro da totalidade da pro- dução da Alemanha em meados do século. Nessa época, os distritos de Dort- mund e Bonn (este incluía empresas situadas no sul da Vestfália) respondiam juntos por mais de 2/ 3 da produção prussiana e por 5/8 da do Império inteiro. ” Não obstante, o aumento espetacular da indústria de fundição no Ruhr não deve obscurecer o crescimento de outras formas de manufatura. Também nesse aspecto, o carvão barato estimulou todos os setores metalúrgicos e de engenha- ria, inclusive a já antiga indústria de pequenas ferragens - parafusos, porcas, lã- minas, fechaduras e similares -, cuja demanda de ferro e aço semi-acabados esti- mulou ainda mais os setores de fornos e forjas pesadas. O que mais impressiona na Vestfália, até hoje, são menos os densos rolos de fumaça dos Hochófen ou os guindastes acima das minas de carvão do que as estreitas chaminés espalhadas por toda parte. Nesse aspecto, ela se assemelha, embora em escala maior, à região apropriadamente denominada “Black Country” nos arredores de Birmingham. Além disso - como no Norte da França, apesar de, mais uma vez, em maior es- cala -, a metalurgia estava inserida em um amplo complexo regional que incluía as indústrias têxteis de Gladback-Rheydt e Elberfeld-Barmen e as grandes in- dústrias químicas das áreas de Frankfurt e Colônia. A Grã-Bretanha também presenciou uma redistribuição espacial de sua in- dústria, apesar de menos dramática em seu impacto. Staffordshire (com Bir- mingham e o Black Country) e Gales prosperavam lentamente. A Escócia, que em duas décadas se havia alçado ao segundo lugar entre os distritos britânicos produtores de ferro, apoiada na siderita e no jato de ar quente, continuou a pro- gredir um pouco e manteve o primeiro lugar por algum tempo, no fim das déca-
  34. 34. A Equiparação Tecnológica e Industrial 237 das de 1850 e 1860. Mas, no final do período que estamos examinando, a pro- dução nivelara-se; era apenas uma questão de tempo para que a elevação do cus- to dos minérios de siderita acarretasse uma retração. Dois terços de todo o au- mento da produção nacional de ferro-gusa (de 2.700.000 toneladas em 1852 para 5.963.500 em 1869) ocorreram em duas novas áreas: no nordeste (com centro em Cleveland), que passou de cerca de 145.000 toneladas em 1852 para pouco mais de 1.600.000 em 1869, e no noroeste (Cumberland e o Norte de Lancashire), com 16.570 toneladas em 1855, 169.200 em 1860, 678.000 em 1869 e 1.045.000 em 1875. (O crescimento nessa região foi ainda mais rápido do que o do Ruhr: um aumento de 63 vezes em 20 anos! ) A primeira área ba- seou sua prosperidade na proximidade , do minério e do carvão no vale do Tees; sua expressão social foi o vilarejo cinzento e em expansão de Middlesbrough. A segunda aconteceu na década de 1860, quando seus depósitos de hematita foram reconhecidos como a única importante fonte de minério adequado ao processo ácido de Bessemer nas Ilhas Britânicas; também ela teve sua cidade usineira pio- neira: Barrovv-in-Furness. Em 1870, o mapa industrial da Europa era basicamente o mesmo de hoje. Os únicos grandes depósitos de minerais a ingressarem na reserva de recursos naturais desde então foram os minérios do Norte da Suécia (abertos pelo transporte ferro- viário no fim da década de 1880), a extensão de Briey dos leitos da Lorena (fim das décadas de 1890 e 1900), os minérios de Lincolnshire na Inglaterra (explorados depois da Primeira Guerra Mundial) e a extensão do campo de carvão do Sarre na Lorena (apenas explorada em escala significativa depois da Segunda Guerra Mun- dial). Todos eles foram essencialmente secundários, e nenhum teve sobre a locali- zação um impacto comparável ao dos novos campos das décadas intermediárias do século XIX. Não foi por coincidência que sua descoberta e exploração em di- ferentes países ocorreram com tamanha proximidade temporal. A prospecção foi um reflexo das pressões e oportunidades econômicas. Os resultados constituíram tanto uma consumação quanto um começo. individualmente, cada um dos novos campos marcou uma nova área de crescimento; em conjunto, eles representaram a conclusão efetiva da base material da Revolução Industrial. As décadas de 1850 e 1860, portanto, foram os anos em que a Europa oci- dental equiparou-se à Grã-Bretanha. Não em um sentido quantitativo; isso ocorreria mais tarde e, mesmo assim, só em algumas áreas. Tampouco qualitati- vamente, seja na escala e na eficiência da produção de determinadas indústrias, seja no grau de industrialização da economia como um todo. A Grã-Bretanha, como vimos, não ficou estática. Se considerarmos o desenvolvimento como uma seqüência de etapas ~ economia tradicional (ou pré-industrial), revolução industrial e maturidade -, diremos que as nações da Europa ocidental ainda esta-

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