Dom Juan2

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Dom Juan2

  1. 1. DOM JUAN: MITO DO INDIVIDUALISMO MODERNO Universidade Federal de Pernambuco Programa de Pós-Graduação em Letras e Lingüística Teoria da Ficção – Prof. Anco Márcio Tenório Vieira Joelma dos Santos Virgínia Celeste Carvalho
  2. 2. O BURLADOR E DOM JUAN <ul><li>A primeira aparição foi escrita por Gabriel Téllez (1581?-1648), Tirso de Molina. </li></ul><ul><li>O título da peça de Molina é El Burlador de Sevilla y el convidado de pedra; o ano da publicação é 1630, embora ela existisse antes deste ano (1607 – 1629). </li></ul><ul><li>A obra decerto foi pra o papel cerca de uma geração após o aparecimento Fausto e pouco depois da publicação de Dom Quixote . </li></ul><ul><li>Em comparação a seus contemporâneos, Lope Veja e Calderón de la Barca, Molina consegue criar personagens e situações que envolvem contradições psicológicas e religiosas, o que transfigura o mito original do Dom Juan. </li></ul>
  3. 3. UM RESUMO <ul><li>A peça divide-se em três atos, escrita para uma representação ao ar livre, com a ação deslocando-se rapidamente de Nápoles ao litoral da Espanha antes de fixar-se em Sevilha. </li></ul><ul><li>Dona Isabel toma Dom Juan Tenório por seu noivo. Após descobrir o engano, ela grita por socorro. O Rei de Nápoles ordena sua prisão de forma secreta, a fim de salvaguardar a honra de Dona Isabel. Dom Pedro ajuda-o a fugir e mente ao Rei. Este manda prender Dona Isabel e Dom Octavio por antecipar a noite de bodas. </li></ul><ul><li>Na fuga, o navio naufraga e Dom Juan é salvo por seu lacaio. Tisbea, uma bela pescadora, se apaixona pelo corpo aparentemente morto. Mas, voltando a si, ele jura-lhe amor eterno. Após do intercurso sexual, ele foge, ateando fogo na cabana de Tisbea. </li></ul>
  4. 4. UM RESUMO <ul><li>Entre as cenas de Tisbea, somos apresentados a Dom Gonzalo de Ulloa – que, a partir de Dom Giovanni , ópera de Mozart, ficou mais conhecido como Comendador . Este, por ter tido sucesso em sua missão em Portugal , receberá um dote para casar sua filha com Dom Juan. </li></ul><ul><li>No segundo ato, Dom Diego, pai de Dom Juan, relata ao Rei os malfeitos de seu filho. O Rei, então, decreta o casamento de Dom Juan com Dona Isabel. Com isso, a mão de Dona Ana é oferecida a Dom Octavio. </li></ul><ul><li>Somos apresentados a outro personagem: Marquês de la Mota, amigo de Dom Juan e que nutre amor por Dona Ana. Ao saber de um encontro secreto entre os dois, Don Juan altera o recado e vai ao encontro de Dona Ana. Quando esta nota que não é seu amado, grita por socorro. Seu pai impede a fuga de Dom Juan e é morto por este. </li></ul>
  5. 5. UM RESUMO <ul><li>No terceiro ato, Dom Juan dá início à sua última sedução. Na cidade de Andaluzia, ele se depara com o casamento de dois jovens camponeses, Batrício e Aminta. Dom Juan incorpora-se à festa e corteja Aminta, que deixa seus escrúpulos pelas juras de amor eterno. </li></ul><ul><li>As forças da vingança se reúnem. Mas a punição de Dom Juan se dará por força muito distinta daquelas imaginadas pelas personagens “vivas” da peça. </li></ul><ul><li>Após a burla do casamento de Aminta, Dom Juan volta a Sevilha, entrando casualmente na igreja onde está enterrado o Comendador, sob sua própria estátua de pedra. Dom Juan insulta o morto, convidando-lhe a cear. </li></ul><ul><li>Na mesma noite, ruidosas batidas deixam todos pavorosos. Dom Juan abre a porta e lá está a estátua de Dom Gonzalo. </li></ul>
  6. 6. UM RESUMO <ul><li>Depois do jantar, do qual participou mudo, o Comendador convence Dom Juan a apertar-lhe a mão, como prova de que iria, na noite seguinte, jantar em sua tumba. </li></ul><ul><li>Dom Juan, crendo que “o temor dos mortos/ é o mais vil dos temores” e para que “se admire e espante/ Sevilha do meu valor”, vai ao jantar. Pratos de víboras e taças de fel são servidos. Ao fim, a estátua pede-lhe um aperto de mão. </li></ul><ul><li>Sentindo-se abrasar pelo fogo da justiça divina, Dom Juan quer confessar-se, mas a estátua recusa-se: “impossível/ tarde lembraste” </li></ul><ul><li>Quando Dom Juan cai morto no chão, a estátua enuncia a moral da história: “Esta é a justiça de Deus: / quem deve, um dia pagará”. </li></ul>
  7. 7. LEITMOTIV – “QUE LONGO PRAZO ME DAIS” <ul><li>O resumo trouxe ao enredo uma mecanicidade que ocorre menos em El Burlador que em outras peças da época. Tanto essas cenas são intercaladas com cenas de ações de Catalión quanto são utilizadas onze formas de versificar. </li></ul><ul><li>Há dois temas na peça sugeridos pelo título: </li></ul><ul><ul><li>A peça de um velhaco que ludibria quatro mulheres; </li></ul></ul><ul><ul><li>Uma estátua de pedra convidada a jantar e devolve a gentileza com propósitos mortíferos. </li></ul></ul><ul><li>Mas há um terceiro tema expresso no título da primitiva versão, descoberta apenas em 1878: </li></ul><ul><ul><li>Tan largo me lo fiás – “Que longo prazo que me dais” </li></ul></ul>
  8. 8. LEITMOTIV – “QUE LONGO PRAZO ME DAIS” <ul><li>Essa frase é utilizada, com algumas alterações, diversas vezes por Don Juan. Pois para ele, enquanto for jovem, poderá seguir com seus desatinos. É este tema que conecta a punição do enganador com a vingança do convidado de pedra. </li></ul><ul><li>Dom Juan, de Molina, quer tornar-se uma LENDA em VIDA. </li></ul><ul><li>Ele não está primariamente interessado em amor. Nem em amar ou ser amado (p. 107, 3º §; p. 108, 1º §) </li></ul><ul><li>Quando ele fala em morrer de amor, refere-se ao alívio imediato da carne, assim, seu desejo difere pouco do desejo característico de certo tipo de jovem de classe alta. </li></ul><ul><li>De la Mota e Dom Juan se divertem lembrando como deixaram de pagar suas prostitutas e ficam planejando “uma burla melhor”. </li></ul>
  9. 9. DOM JUAN E O MORALISMO CRISTÃO <ul><li>Conclui-se, então, que Dom Juan é apenas um enganador e explorador mais desumano e de mais sucesso do que os amigos. </li></ul><ul><li>Muitas culturas glorificam o mentiroso e o desonesto. Foi o cristianismo, e mais ainda o protestantismo, que transformou a honestidade em ma obrigação universal. </li></ul><ul><li>Dom Juan sente um prazer amoral em abrir seu caminho com os meios de que dispuser para conseguir sua fama de burlador. Uma fama contrária ao do “amor cortês”, das novelas de cavalaria. </li></ul><ul><li>Dons Juans criados mais tarde – em especial o de Molière – seriam éticos, ateus e rebeldes conscientemente; o Dom Juan primeiro não era nada disso pela maneira como Molina compreendia a criatura humana. </li></ul><ul><li>Ele não se rebela contra a lei nem é cético em relação ao cristianismo, mas que podia adiar as decisões da lei e do cristianismo. </li></ul>
  10. 10. DOM JUAN , JUVENTUDE E ENGANO <ul><li>Há em Dom Juan um sentimento juvenil de um presente sem limites, da morte como algo que só existe na palavra, de um futuro que lhe concederá dilatado prazo para mudar, arrepender-se e acomodar-se, como já aconteceu às outras personagens, Octavio e de la Mota. </li></ul><ul><li>Dom Juan parece apenas travar, mais irrefletidamente do que todos os outros, a guerra silenciosa, porém universal, contra as normas da sociedade; e mesmo que isso não o ajude, é indiscutível que lhe proporciona certa quantidade de inveja e admiração. </li></ul><ul><li>O desfecho acaba com aquilo que Dom Juan mais se orgulhava: ser o burlador. </li></ul><ul><li>Muito da força da peça vem da conexão entre esses dois temas, o do engano e do pagamento adiado; os quais são unificados pelo convidado de pedra. </li></ul>
  11. 11. <ul><li>Dom Juan, como Fausto , é fruto do cristianismo e suas proibições. </li></ul><ul><li>El Burlador é uma deturpação do amor cortês, do culto à amada apoiado em um neoplatonismo, cuja idéia é que o amor terrestre é apenas uma preparação para a forma mais elevada do amor celestial. Este discurso, à época da aparição de El Burlador , já havia se transformado em um jogo verbal rotineiro, do qual desaparecera a crença que o alicerçava. </li></ul><ul><li>A principal mudança que Molina insere no manejo do “amor cortês” é o papel da mulher nas relações sexuais. </li></ul><ul><li>Mesmo que o egocentrismo de Dom Juan leve-o a conflitar com as figuras de autoridade social, moral e religiosa, é verdade que estas não têm como oferecê-lo elementos de equilíbrio. </li></ul><ul><li>Nenhum dos que dispõe de autoridade faz qualquer coisa além de reagir às circunstancias e tentar manter as aparências. </li></ul>DOM JUAN E A TRADIÇÃO
  12. 12. <ul><ul><li>O tratamento insolente que os jovens dão aos velhos está presente na peça inteira. </li></ul></ul><ul><ul><ul><li>Dom Octavio recusa-se a lutar com Dom Diego porque este é desprezivelmente “velho” – “Não vale o que fui, vale o que sou”. </li></ul></ul></ul><ul><li>O comendador é assassinado no momento em que desempenha a tarefa primordial dos pais nas peças do teatro espanhol: defender a honra feminina. </li></ul><ul><li>Dom Juan tem liberdade na sociedade em que vive porque </li></ul><ul><ul><li>Pertence à secular família Tenório </li></ul></ul><ul><ul><li>A honra de Isabel e Ana será melhor defendida com o silêncio </li></ul></ul><ul><li>Conclui-se que Dom Juan é mais perverso, mais amoral, mais hábil, mais ativo e mais corajoso; mas não difere em essência das outras pessoas. </li></ul>DOM JUAN E A TRADIÇÃO
  13. 13. <ul><ul><li>As restrições de Tirso de Molina não são voltadas ao amor tampouco ao sexo em si; seu objetivo é mais amplo: demonstrar um mundo esvaziado de forças morais e sociais que produz, em um jovem privilegiado, um desprezo tanto pelos códigos da sociedade estabelecida quanto pelo ser humano em si. </li></ul></ul><ul><ul><li>Como parecia não haver força na sociedade capaz de deter Dom Juan, Molina recorreu ao desfecho de um conto folclórico espanhol: O duplo convite. </li></ul></ul><ul><ul><li>“ um jovem, orgulhoso por estar vivo, fantasia-se de caveira e convida os mortos para cearem. Os mortos aparecem e o convidam para com eles cear, em retribuição. Nesse segundo jantar, os mortos aterrorizam o pecador, que se arrepende ou, mais freqüentemente, enlouquece ou morre. </li></ul></ul><ul><ul><li>Na maioria das versões espanholas (12 das 150 permitem que o protagonista se salve da condenação eterna mediante a prática da confissão. Mas Dom Juan de Molina não é salvo. </li></ul></ul>DOM JUAN E A TRADIÇÃO
  14. 14. <ul><ul><li>Aos elementos – jovem desafiante, cenário de igreja, estátua de pedra – Molina acrescentou plenitude, complexidade e força dramática não encontrada em nenhuma das versões folclóricas; ao fazer da estátua uma representação do pai ofendido e daquele que o ofende o mesmo jovem arrogante que o matou e agora o insulta, Molina deu ao conto uma lógica moral antes inexistente. </li></ul></ul><ul><ul><li>O comendador não fala nem age em principio como o vingador da honra da família, mas como instrumento do justo castigo de Deus. </li></ul></ul><ul><ul><li>Tirso de Molina não apenas utilizou-se do sobrenatural como recurso teatral; ele responde ortodoxamente ao tema “tão longo prazo que me dais”, validando o argumento tradicional, cuja articulação na peça está a cargo de Catalinón: “até a morte, senhor, / é curta a mais longa vida, / e atrás da morte há o inferno”. </li></ul></ul>DOM JUAN E A TRADIÇÃO
  15. 15. <ul><ul><li>Mesmo que o autor chegue ao âmago de alguns conflitos morais da humanidade, não podemos saber se Molina era consciente da aspereza com que tratava tais assuntos. </li></ul></ul><ul><ul><li>Embora seja uma personagem consistente e convincente, não sabemos muito sobre ele. Nunca o pegamos pensando em coisas belas. Ele passa a maior parte do tempo ostentando uma alegria inconvincente. </li></ul></ul><ul><ul><li>Para Hegel, o eu vem à tona quando os desejos individuais ultrapassam a faixa do simples comer, beber; e quando já incorporou e enraizou em seu próprio eu a realidade de outras pessoas, de modo a desenvolver a necessidade de ser desejado por outrem. </li></ul></ul><ul><ul><li>Não parece que tal desejo se manifeste em El Burlador. Ele só necessita dos outros para se divertir enganando-as e alimentar seu prazer com o sofrimento delas. </li></ul></ul>UMA VIDA INTERIOR?
  16. 16. <ul><ul><li>Molina criou, assim, não um quebra-cabeça psicológico, mas um emblema moral. </li></ul></ul><ul><ul><li>Seu Dom Juan é um vilão irremediável, não um trapaceiro cômico; ele não tem a seu favor uma só boa ação, sequer um único pensamento generoso. </li></ul></ul><ul><ul><li>É provável que Molina acreditasse pouquíssimo na eficácia das leis vigentes em sua época, por isso tenha direcionado suas esperanças para o sobrenatural. </li></ul></ul><ul><ul><li>Mesmo que o ponto de vista de Molina reserve pouco espaço para o individualismo, o sucesso da peça depende da ambígua atitude do mundo secular, que condena e admira as vitórias do fornificador amoral. </li></ul></ul>UMA VIDA INTERIOR?
  17. 17. <ul><ul><li>Posicionamento ego contra mundum. </li></ul></ul><ul><ul><li>Nômades solitários por vontade própria. </li></ul></ul><ul><ul><li>Transformam seus lacaios em seus maiores amigos </li></ul></ul><ul><ul><li>Os heróis definem-se por suas falhas </li></ul></ul>DOM JUAN, FAUSTO E DOM QUIXOTE
  18. 18. <ul><ul><li>Foi a terceira obra a ser inspirada em Dom Juan somente no ano de 1787. </li></ul></ul><ul><ul><li>Para Kierkegaard, Don Giovanni é o supremo exemplo de “interpenetração absolutamente recíproca” de assunto e forma. </li></ul></ul><ul><ul><li>Assunto: sensual-erótico como princípio. </li></ul></ul><ul><ul><li>Mozart modificou o libreto para atender aos cantores responsáveis pelos papéis de Dom Ottavio e Elvira. </li></ul></ul><ul><ul><li>Da Ponte se valeu em certas passagens de uma versão anterior da história. Mas Elvira, antiga ex-mulher de Dom Juan, é uma personagem bem desenvolvida. </li></ul></ul><ul><ul><li>Entretanto Dom Juan é uma figura equívoca. É hábil, sofisticado, poderoso e sem escrúpulos. Ele representa a si próprio, como encantador, cavalheiro, anfitrião generoso, mecenas, músico e amante. </li></ul></ul>DON GIOVANNI , DE MOZART
  19. 19. <ul><ul><li>Publicado em 2005. </li></ul></ul><ul><ul><li>Dividido em 5 cenas, o Don Giovanni de Saramago foi inspirado, segundo o autor, na ópera de Mozart. </li></ul></ul><ul><ul><li>A peça se inicia com a “visita” da estátua do comendador. </li></ul></ul><ul><ul><li>Da primeira publicação, Saramago guarda a vontade de Dom Juan se transformar em uma lenda viva. </li></ul></ul><ul><ul><li>Esse Don Giovanni possui um caderno onde contabiliza suas mulheres. </li></ul></ul><ul><ul><li>Diferentemente do Molina, não é o sobrenatural que atua de forma vingadora; o burlador não é enganado pelo divino e sim pela astúcia das mulheres. </li></ul></ul><ul><ul><li>O melhor castigo pra Dom Juan era ter sua “fama” desmontada em vida. O perigoso seria agora motivo de riso. </li></ul></ul>DON GIOVANNI , DE SARAMAGO

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