Os sete saberes necessários à educação do futuro

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Os sete saberes necessários à educação do futuro

  1. 1. OS SETE SABERES NECESSÁRIOS ÀEDUCAÇÃO DO FUTUROEdgar MorinEm relatório da UNESCO, coordenado por Jacques Delors, estabeleceram-se os quatro pilares daeducação contemporânea: aprender a ser, a fazer, a viver juntos e a conhecer. Ela só pode ser viávelse for uma educação integral do ser humano.Com o objetivo de aprofundar a visão transdisciplinar da educação, a UNESCO solicitou a EdgarMorin que expusesse suas idéias sobre a educação do amanhã.Este texto apóia-se sobre o saber científico, provisório, para situar a condição humana, mas tambémdesemboca em profundos mistérios referentes à vida, ao ser humano, ao universo...Capítulo I: AS CEGUEIRAS DOCONHECIMENTO: O ERRO E A ILUSÃOA educação que visa a transmitir conhecimentos é cega quanto ao que é o conhecimento humano,seus dispositivos, enfermidades, dificuldades, tendências ao erro e à ilusão, e não se preocupa emfazer conhecer o que é conhecer. O conhecimento não é uma ferramenta ready made, utilizada semque sua natureza seja examinada. O conhecimento do conhecimento deve ser uma necessidadeprimeira, uma preparação para enfrentar os riscos permanentes de erro e de ilusão, que não cessamde parasitar a mente humana. Trata-se de armar cada mente no combate vital à lucidez.É necessário introduzir e desenvolver na educação o estudo das características cerebrais, mentais,culturais do conhecimento humano, seus processos e modalidades, o estudo das disposiçõespsíquicas e culturais que o conduzem ao erro ou à ilusão. O maior erro seria subestimar o problemado erro; a maior ilusão seria subestimar o problema da ilusão. A educação deve mostrar que não háconhecimento que não esteja ameaçado por tais riscos.Todas as percepções são traduções, reconstruções cerebrais com base em estímulos captados ecodificados pelos sentidos. Ao erro da percepção acrescenta-se o erro intelectual. O conhecimentosob forma de palavra, de idéia, de teoria, é o fruto de uma tradução/reconstrução por meio dalinguagem e do pensamento e está sujeito a erro.A projeção dos desejos ou medos e as perturbações mentais trazidas pelas emoções multiplicam osriscos de erro. O desenvolvimento da inteligência é inseparável do mundo da afetividade, dacuriosidade, da paixão, que, por sua vez, são a mola da pesquisa filosófica ou científica. Não há umestágio superior da razão dominante da emoção, mas um eixo intelecto x afeto e, de certa maneira, acapacidade de emoções é indispensável ao estabelecimento de comportamentos racionais.A educação deve dedicar-se, por conseguinte, à identificação da origem de erros, ilusões e
  2. 2. cegueiras.Os erros mentaisNenhum dispositivo cerebral distingue a alucinação da percepção, o imaginário do real, o subjetivodo objetivo. É grande a importância do imaginário no ser humano - as vias do sistemaneurocerebral, que colocam o organismo em conexão com o mundo exterior, representam 2%,enquanto 98% se referem ao funcionamento interno. Tal fato constitui um mundo psíquicorelativamente independente, em que fermentam sonhos, desejos, imagens, fantasias, e esse mundoinfiltra-se em nossa visão ou concepção do mundo.A mente é dotada de potencial de mentira para si próprio (self-deception). O egocentrismo, anecessidade de autojustificativa, a tendência a projetar sobre o outro a causa do mal fazem com quecada um minta para si próprio, sem detectar a mentira da qual é autor. A memória é também fontede erros - não regenerada pela rememoração, tende a degradar-se. A mente, inconscientemente,tende a selecionar as lembranças que convêm e a recalcar ou apagar as que incomodam. Tende adeformar as recordações por projeções ou confusões inconscientes. Existem falsas lembranças.Os erros intelectuaisTeorias, doutrinas, ideologias estão sujeitas ao erro, que é protegido por esses sistemas de idéias. Asteorias resistem à agressão das teorias inimigas ou dos argumentos contrários. As doutrinas (teoriasfechadas sobre elas mesmas e absolutamente convencidas de sua verdade) são invulneráveis aqualquer crítica que denuncie seus erros. Os erros da razãoA racionalidade é corretiva. Ela é a melhor proteção contra o erro e a ilusão.Existe a racionalidade construtiva, que deve manter-se aberta ao que a contesta para evitar que sefeche em doutrina e se converta em racionalização; por outro lado, há a racionalidade críticaexercida, particularmente, sobre os erros e ilusões das crenças, doutrinas e teorias. A racionalidadetraz a possibilidade de erro e de ilusão quando se perverte em racionalização, que é fechada. Oracionalismo ignora os seres, a subjetividade, a afetividade e a vida; é irracional. A verdadeiraracionalidade negocia com a irracionalidade. É não só crítica, mas autocrítica.A racionalidade não é uma qualidade da qual são dotadas todas as mentes. É possível ser sábio emuma área de competência e irracional em outra. Da mesma forma, a racionalidade não é umaqualidade exclusiva da civilização ocidental. Em qualquer sociedade, mesmo arcaica, háracionalidade na elaboração de ferramentas, na estratégia da caça, no conhecimento das plantas, dosanimais, do solo, ao mesmo tempo em que há mitos, magia e religião.Começamos a nos tornar racionais quando reconhecemos a racionalização até em nossaracionalidade e reconhecemos os próprios mitos. Daí decorre a necessidade de reconhecer na
  3. 3. educação do futuro um princípio de incerteza racional.As cegueiras paradigmáticasO paradigma cartesiano separa o sujeito e o objeto; determina a dupla visão do mundo:sujeito/objeto, alma/corpo, espírito/matéria, qualidade/ quantidade, finalidade/causalidade,sentimento/razão. Ao determinismo de paradigmas e modelos explicativos associa-se odeterminismo de convicções e crenças, que impõem a todos a força do sagrado, do dogma e do tabu.O poder imperativo e proibitivo dos paradigmas, crenças oficiais, doutrinas reinantes e verdadesestabelecidas, determina os estereótipos cognitivos, as idéias recebidas sem exame, as crençasestúpidas não-contestadas, os absurdos triunfantes, a rejeição de evidências em nome da evidência,e faz reinar em toda parte os conformismos cognitivos e intelectuais.O imprinting cultural (marca indelével imposta pelas primeiras experiências do recém-nascido)inscreve o conformismo a fundo, e a normalização elimina o que poderia contestá-lo.A noologia: possessãoAs crenças e as idéias não são somente produtos da mente, são também seres mentais que têm vidae poder. Podem possuir-nos. Desde o alvorecer da humanidade, encontra-se a noção de noosfera (aesfera das coisas do espírito) com o surgimento dos mitos, dos deuses e dos seres espirituais, queimpulsionou e arrastou o Homo sapiens a delírios, massacres, adorações e sublimidadesdesconhecidas do mundo animal. Produto de nossa alma e mente, a noosfera está em nós e nósestamos na noosfera. Os mitos tomaram forma e realidade com base nos sonhos e na imaginação.As ideias, com base nos símbolos e nos pensamentos de nossa inteligência. Mitos e ideiasinvadiram-nos, deram-nos emoção. Os humanos possuídos são capazes de morrer ou de matar porum deus, por uma ideia. As ideias existem pelo homem e para ele, mas o homem existe tambémpelas ideias e para elas.A idealidade (modo de existência necessário à ideia para traduzir o real) e o idealismo (possessão doreal pela ideia), a racionalidade (diálogo entre a ideia e o real) e a racionalização (que impede odiálogo) são oriundos da mesma fonte. Entretanto, são as ideias que nos permitem conceber ascarências e os perigos da ideia. Daí resulta este paradoxo: devemos manter uma luta crucial contraas ideias, mas somente podemos fazê-lo com a ajuda de ideias.A incerteza do conhecimentoO conhecimento do conhecimento deve ser, para a educação, um princípio e uma necessidadepermanentes. Existem condições bioantropológicas, socioculturais e noológicas que permiteminterrogações sobre o mundo, o homem e sobre o próprio conhecimento. A procura da verdade pedea busca e a elaboração de metapontos de vista. Devemos jogar com as duplas possessões, a das
  4. 4. ideias por nossa mente, a de nossa mente pelas ideias. Instaurar a convivialidade entre ideias emitos.É preciso evitar idealismo e racionalização. Necessitamos de que se cristalize e se enraíze umparadigma que permita o conhecimento complexo. O problema cognitivo é de importânciaantropológica, política, social e histórica. As pessoas não podem mais ser brinquedos inconscientesde suas próprias mentiras.Capítulo II: OS PRINCÍPIOS DOCONHECIMENTO PERTINENTEO conhecimento fragmentado em disciplinas impede o vínculo entre as partes e a totalidade e deveser substituído por um modo capaz de apreender os objetos em seu contexto, sua complexidade, seuconjunto. É necessário desenvolver a aptidão humana para situar as informações em um contexto deum mundo complexo. A contextualização é condição essencial da eficácia do funcionamentocognitivo.O conhecimento do mundo é uma necessidade intelectual e vital. É o problema atual de todocidadão: como ter acesso às informações e poder articulá-las e organizá-las? Para tal, é necessária areforma do pensamento, que deve ser paradigmática, e não programática. A esse problemaconfronta-se a educação do futuro, que existe entre os saberes desunidos, divididos,compartimentados e as realidades/ problemas multidisciplinares, transversais, multidimensionais,transnacionais, globais e planetários. Para que o conhecimento seja pertinente, a educação deverátornar evidente o contexto, o global; o multidimensional e o complexo. A educação do futuro deveráinspirar-se no princípio de Pascal: "sendo todas as coisas causadas e causadoras, mediatas eimediatas... considero ser impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, tão pouco conhecero todo sem conhecer particularmente as partes".Unidades complexas, como o ser humano ou a sociedade, são multidimensionais. O ser humano éao mesmo tempo biológico, psíquico, social, afetivo e racional. A sociedade comporta as dimensõeshistórica, econômica, sociológica, religiosa. Não se pode isolar uma parte do todo, mas as partesumas das outras.Complexus significa o que foi tecido junto. Há complexidade quando elementos diferentes sãoinseparáveis constitutivos do todo, e há um tecido interdependente, interativo e interretroativo entreo objeto de conhecimento e seu contexto, as partes e o todo, o todo e as partes, as partes entre si.Por isso, a complexidade é a união entre a unidade e a multiplicidade.Em conseqüência, a educação deve promover a "inteligência geral" apta a referir-se ao complexo,ao contexto, de modo multidimensional e dentro da concepção global.
  5. 5. A inteligência geralQuanto mais poderosa é a inteligência geral, maior é sua faculdade de tratar de problemas especiaise particulares. O conhecimento, ao buscar construir-se com referência ao contexto e ao global, devemobilizar o que o conhecedor sabe do mundo.A educação deve favorecer a aptidão da mente para formular e resolver problemas essenciais e, deforma correlata, estimular o uso total da inteligência geral. Esse uso pede o exercício dacuriosidade. As especializações disciplinares estão dispersas, desunidas. Os sistemas de ensinoprovocam a disjunção entre as humanidades e as ciências, assim como a separação das ciências emdisciplinas hiper-especializadas, fechadas em si mesmas. Os problemas fundamentais e osproblemas globais estão ausentes das ciências disciplinares. São salvaguardados apenas na filosofia,que, por sua vez, tornou-se um campo fechado sobre si mesmo.As mentes formadas pelas disciplinas perdem suas aptidões naturais para contextualizar os saberes,do mesmo modo que para integrá-los em seus conjuntos naturais. O enfraquecimento da percepçãodo global conduz ao enfraquecimento da responsabilidade (cada qual tende a ser responsável apenaspor sua tarefa especializada), assim como ao enfraquecimento da solidariedade (cada qual não maissente os vínculos com seus concidadãos).A hiper-especialização impede a percepção do global (fragmentado em parcelas), a percepção doessencial, o tratamento dos problemas particulares (que só podem ser propostos e pensados em seucontexto) e o tratamento dos problemas essenciais (que nunca são parcelados). O princípio deredução leva a restringir o complexo ao simples. A lógica mecânica e determinista da máquinaartificial conduz a excluir tudo aquilo que não seja quantificável e mensurável, eliminando oelemento humano do humano, isto é, paixões, emoções...Como a educação ensinou a compartimentar, e não a unir os conhecimentos, o conjunto delesconstitui um quebra-cabeça ininteligível. A incapacidade de organizar o saber compartimentadoconduz à atrofia da disposição mental natural de contextualizar e de globalizar. A inteligênciacompartimentada torna unidimensional o multidimensional. Por isso, incapaz de considerar ocontexto e o complexo, a inteligência torna-se inconsciente e irresponsável. O problema doshumanos é beneficiar-se das técnicas, mas não se submeter a elas. Contudo as inteligênciasartificiais estão instaladas nas mentes sob forma de pensamento tecnocrático, pertinente para tudoque se relaciona com as máquinas artificiais e incapaz de compreender o vivo e o humano aos quaisse aplica, acreditando-se o único racional. A pseudo-racionalidade, isto é, a racionalização abstrata eunidimensional, triunfa. Não se trata de abandonar o conhecimento das partes pelo conhecimentodas totalidades, nem da análise pela síntese; é preciso conjugá-las.Capítulo III: ENSINAR A CONDIÇÃOHUMANAO ser humano é uma unidade complexa, que adquiriu um caráter desintegrado na educação pormeio das disciplinas, tendo-se tornado impossível aprender o que significa ser humano. Desse
  6. 6. modo, a condição humana deveria ser o objeto essencial de todo o ensino. É possível, com base nasdisciplinas atuais, reconhecer a unidade e a complexidade humanas, reunindo e organizandoconhecimentos dispersos nas ciências da natureza, nas ciências humanas, na literatura e na filosofia.Enraizamento/desenraizamento do ser humano. Devemos reconhecer nosso duplo enraizamento nocosmos físico e na esfera viva e, ao mesmo tempo, nosso desenraizamento propriamente humano.Estamos simultaneamente dentro e fora da natureza. Encontramo-nos no gigantesco cosmos emexpansão, constituído de bilhões de estrelas e galáxias. Essas macromoléculas associaram-se emturbilhões dos quais um, cada vez mais rico em diversidade molecular, metamorfoseou-se emorganização de novo tipo, em relação à organização estritamente química: uma auto-organizaçãoviva. Uma porção de substâncias físicas organizou-se de maneira termodinâmica sobre a Terra; pormeio de imersão marinha, banhos químicos e descargas elétricas, adquiriu vida.A vida é solar: todos os seus elementos foram forjados em um sol e reunidos em um planeta. Nós,os seres vivos, somos um elemento da diáspora cósmica, algumas migalhas da existência solar, umdiminuto broto da existência terrena. Pertencemos ao destino cósmico; estamos, porém,marginalizados: a Terra é o terceiro satélite de um sol errante entre bilhões de estrelas em umagaláxia periférica de um universo em expansão. Somos seres cósmicos e terrestres. Como seresvivos, dependemos, vitalmente, da biosfera terrestre.A importância da hominização é primordial à educação voltada para a condição humana, porque nosmostra como a animalidade e a humanidade constituem, juntas, a condição humana. O hominídeohumaniza-se. O conceito de homem tem duplo princípio: biofísico epsico-sócio-cultural, um remetendo ao outro.O circuito cérebro/mente/culturaO homem somente se realiza plenamente como ser humano pela cultura e na cultura. Não há culturasem cérebro humano, nem mente sem cultura - é uma tríade entre cérebro/mente/cultura, em quecada um dos termos é necessário ao outro. A mente é o surgimento do cérebro que suscita a cultura,que não existiria sem o cérebro.O circuito razão/afeto/pulsãoAs relações entre as três instâncias são complementares e também antagônicas, comportandoconflitos entre a pulsão, o coração e a razão. Correlativamente, a relação triúnica não obedece àhierarquia razão/afetividade/pulsão; há uma relação instável, permutante, rotativa entre estas trêsinstâncias. A racionalidade não dispõe, portanto, de poder supremo; é concorrente e antagônica àsoutras instâncias de uma tríade inseparável.O circuito indivíduo/sociedade/espécie
  7. 7. Os indivíduos são produtos do processo reprodutor da espécie humana, que deve ser ele própriorealizado por dois indivíduos. Tais interações produzem a sociedade, que testemunha o surgimentoda cultura e retroage sobre os indivíduos pela cultura.A plenitude e a livre expressão dos indivíduos constituem nosso propósito ético e político, sem,entretanto, constituírem a própria finalidade da tríade indivíduo/sociedade/espécie. Tododesenvolvimento verdadeiramente humano significa o desenvolvimento conjunto das autonomiasindividuais, das participações comunitárias e do sentimento de pertencer à espécie humana. Unitas multiplex: unidade e diversidade humanaCabe à educação do futuro cuidar para que a idéia de unidade da espécie humana não apague a idéiade diversidade e vice-versa. A educação deverá ilustrar o principio unidade/diversidade em todas asesferas.Na esfera individual, existe unidade/diversidade genética. Todo ser humano traz geneticamente emsi a espécie humana e compreende geneticamente a própria singularidade anatômica, fisiológica. Háunidade/diversidade cerebral, mental, psicológica, afetiva, intelectual, subjetiva.Na esfera da sociedade, existe a unidade/diversidade das línguas (que nos torna gêmeos pelalinguagem e separados pelas línguas), das organizações sociais e das culturas.A cultura é o conjunto dos saberes, fazeres, regras, normas, proibições, estratégias, crenças, idéias,valores, mitos que se transmite de geração em geração, reproduz-se em cada indivíduo, controla aexistência da sociedade e mantém a complexidade psicológica e social. Assim, sempre existe acultura nas culturas. Mas a cultura existe apenas por meio das culturas.O duplo fenômeno da unidade/diversidade das culturas é crucial. A cultura mantém a identidadehumana naquilo que tem de específico; as culturas mantêm as identidades sociais naquilo que têmde específico.As culturas são aparentemente fechadas em si mesmas para salvaguardar sua identidade singular.Mas, na realidade, são também abertas: integram nelas saberes e técnicas, e também idéias,costumes, alimentos, indivíduos vindos de fora.O ser humano é complexo e traz em si caracteres antagonistas: sapiens e demens (sábio e louco),faber e ludens (trabalhador e lúdico), empiricus e imaginarius (empírico e imaginário), economicuse consumans (econômico e consumista), prosaicus e poeticus (prosaico e poético). O homem daracionalidade é também o da afetividade, do mito, do delírio (demens). O homem do trabalho étambém o do jogo (ludens). O homem empírico é também o imaginário (imaginarius). O homem daeconomia é também o do consumismo (consumans). Existem, ao mesmo tempo, unidade edualidade no ser humano; o desenvolvimento do conhecimento racional-empírico-técnico jamaisanulou o conhecimento simbólico, mítico, mágico ou poético.O ser humano é um ser racional e irracional, capaz de medida e desmedida; nutre-se dosconhecimentos comprovados, mas também de ilusões e de quimeras. A loucura é também umproblema central do homem e não apenas dejeto ou doença. A demência não levou a espéciehumana à extinção (só as energias nucleares liberadas pela razão científica e só o desenvolvimentoda racionalidade técnica dependente da biosfera poderão conduzi-la ao desaparecimento). Issosignifica que os progressos da complexidade se fazem, ao mesmo tempo, com a loucura humana,apesar dela e por causa dela.
  8. 8. A educação deveria mostrar e ilustrar o destino multifacetado do humano: o destino da espéciehumana, o individual, o social, o histórico, todos entrelaçados e inseparáveis. Isso conduziria àtomada de conhecimento e de consciência da condição comum a todos os humanos, sobre nossoenraizamento como cidadãos da Terra... Capítulo IV: ENSINAR A IDENTIDADE TERRENAO destino planetário do gênero humano é outra realidade-chave até agora ignorada pela educação.Convém ensinar a história da era planetária, que se inicia com o estabelecimento da comunicaçãoentre todos os continentes no século XVI, e mostrar como todas as partes do mundo se tornaramsolidárias, sem, contudo, ocultar as opressões e a dominação que devastaram a humanidade e queainda não desapareceram. Será preciso indicar a crise que marca o século XX, mostrando que todosos seres humanos, confrontados de agora em diante com os mesmos problemas de vida e morte,partilham um destino comum.Na era das telecomunicações, da informação, da Internet, estamos submersos na complexidade domundo. As incontáveis informações sufocam as possibilidades de inteligibilidade. É a complexidadeque apresenta problema. O planeta exige um pensamento policêntrico, capaz de apontar ouniversalismo, não abstraio, mas consciente da unidade/ diversidade da condição humana.A era planetáriaA história humana começou por uma diáspora que afetou todos os continentes não produziunenhuma cisão genética: pigmeus, negros, amarelos, índios, brancos vêm da mesma espécie,possuem os mesmos caracteres fundamentais de humanidade. Contudo, levou à extraordináriadiversidade de línguas, culturas, destinos. A riqueza da humanidade reside na sua diversidadecriadora, mas a fonte de sua criatividade está em sua unidade geradora.A partir de 1492, Espanha, Portugal, França e Inglaterra se lançam à conquista do globo e, por meiode aventuras, guerras e morte, engendram a era planetária que, desde então, leva os cincocontinentes à comunicação. A planetarização provoca, no século XX, duas guerras mundiais, duascrises econômicas mundiais e, após 1989, a generalização da economia liberal denominadamundialização. A economia mundial é cada vez mais interdependente: cada uma de suas partestornou-se dependente do todo e, reciprocamente, o todo sofre as perturbações e imprevistos queafetam as partes. Tudo está instantaneamente presente, de um ponto do planeta ao outro, pelatelevisão, telefone, fax, Internet. O indivíduo recebe ou consome informações e substânciasoriundas de todo o universo. Enquanto o europeu está num circuito planetário de conforto, grandenúmero de africanos, asiáticos e sul-americanos acha-se em um circuito de miséria. Sofrem, nocotidiano, as flutuações do mercado mundial, que afetam as ações das matérias-primas que seuspaíses produzem. Foram expulsos do campo por causa dos processos mundializados, provenientesdo Ocidente, como a monocultura industrial. Camponeses auto-suficientes tornaram-se suburbanosem busca de salário; suas necessidades agora são traduzidas em termos monetários. Dessa maneira,cada ser humano traz em si, sem saber, o planeta inteiro. A mundialização é ao mesmo tempoevidente, subconsciente e onipresente. Ela é unificadora, mas também conflituosa em sua essência.A unificação mundializante faz-se acompanhar cada vez mais pelo próprio negativo que ela suscita,pelo efeito contrário: a balcanização. Dessa maneira, o século XX criou e dividiu um tecido
  9. 9. planetário único; seus fragmentos ficaram isolados, eriçados e intercombatentes. O século XX nãosaiu da idade de ferro planetária; mergulhou nela.O legado do século XXO século XX foi o da aliança entre duas barbáries: a primeira traz guerra, massacre, deportação,fanatismo. A segunda só conhece o cálculo, ignora o indivíduo, seu corpo, seus sentimentos, suaalma e multiplica o poderio da morte e da servidão técnico-industriais. As forças autodestrutivasforam particularmente ativadas: o vírus da AIDS, as drogas pesadas como a heroína. A possibilidadede extinção global de toda a humanidade pelas armas nucleares não foi dissipada; ao contrário,cresce com a disseminação e a miniaturização da bomba. O potencial de auto-aniquilamentoacompanha a marcha da humanidade. Desde os anos 70, descobrimos que os dejetos, as emanações;as exalações de nosso desenvolvimento técnico-industrial urbano degradam a biosfera e ameaçamenvenenar irremediavelmente o meio vivo ao qual pertencemos: a dominação desenfreada danatureza pela técnica conduz a humanidade ao suicídio.Se a modernidade é definida como fé incondicional no progresso, na tecnologia, na ciência, nodesenvolvimento econômico, então esta modernidade está morta.A esperançaA educação, que é ao mesmo tempo transmissão do antigo e abertura da mente para receber o novo,encontra-se no cerne dessa nova missão. O século XX deixou, como herança, contracorrentesregeneradoras, em reação às correntes dominantes. Devemos considerar:• a contracorrente ecológica que, com o crescimento das degradações e o surgimento de catástrofestécnicas/industriais, só tende a aumentar;• a contracorrente qualitativa que, em reação à invasão do quantitativo e da uniformizaçãogeneralizada, apega-se à qualidade em todos os campos, a começar pela qualidade de vida;• a contracorrente de resistência à vida prosaica puramente utilitária, que se manifesta pela buscada vida poética, dedicada ao amor, à admiração, à paixão, à festa;• a contracorrente de resistência à primazia do consumo padronizado, que se manifesta pela buscada intensidade vivida ("consumismo") e pela busca da frugalidade e da temperança;• a contracorrente de emancipação em relação à tirania onipresente do dinheiro, que, ainda tímida,busca contrabalançar-se por relações humanas e solidárias, fazendo retroceder o reino do lucro;• a contracorrente em reação ao desencadeamento da violência, que, também tímida, nutre éticasde pacificação das almas e das mentes.Todas essas correntes prometem intensificar-se ao longo do século XXI e constituir focos detransformação. Mas a verdadeira transformação só poderia ocorrer com a intertransformação detodos, operando assim uma transformação global, que retroagiria sobre as transformaçõesindividuais.Uma das condições fundamentais para a evolução positiva seria as forças emancipadoras inerentes àciência e à técnica poderem superar as forças de morte e de servidão. As possibilidades oferecidas
  10. 10. pelo desenvolvimento das biotecnologias são igualmente prodigiosas para o melhor e para o pior.Aquilo que porta o pior perigo traz também as melhores esperanças: é a própria mente humana, e épor isso que o problema da reforma do pensamento tornou-se vital.A identidade e a consciência terrenaA união planetária pede a consciência e um sentimento de pertencimento mútuo que nos una àTerra, considerada como primeira e última pátria. É necessário aprender a estar no planeta, o quesignifica aprender a viver, a dividir, a comunicar, a comungar; não mais somente pertencer a umacultura, mas também ser terrenos. Devemos dedicar-nos não só a dominar, mas a condicionar,melhorar, compreender. Devemos inscrever em nós:• a consciência antropológica, que reconhece a unidade na diversidade;• a consciência ecológica, isto é, a consciência de habitar, com todos os seres mortais, a mesmaesfera viva (biosfera);• a consciência cívica terrena, isto é, da responsabilidade e da solidariedade para com os filhos daTerra;• a consciência espiritual da condição humana que decorre do exercício complexo do pensamento,e que permite criticar-nos mutuamente, autocriticar-nos e compreender-nos mutuamente.De toda maneira, a era de fecundidade dos Estados-nações, dotados de poder absoluto estáencerrada. O mundo confederado deve ser policêntrico e acêntrico, não apenas política, mastambém culturalmente. O Ocidente que se provincializa sente a necessidade do Oriente, enquanto oOriente quer permanecer ocidentalizando-se. A unidade, a mestiçagem e a diversidade devemdesenvolver-se contra a homogeneização e o fechamento.O imperativo antropológico impõe-se salvar a unidade e a diversidade humanas. Desenvolveridentidades concêntricas e plurais: de etnia, de pátria, de comunidade, de civilização, enfim, decidadãos terrestres. A educação do futuro deverá ensinar a ética da compreensão planetária.Capítulo V: ENFRENTAR AS INCERTEZASO século XX descobriu a imprevisibilidade do futuro. O abandono das concepções deterministas dahistória humana que acreditavam poder predizê-lo, o estudo dos grandes acontecimentos edesastres, o caráter doravante desconhecido da aventura humana devem incitar as mentes paraesperar e enfrentar o inesperado. A educação deveria incluir o ensino das incertezas que surgiramnas ciências físicas (microfísicas, termodinâmica, cosmologia), nas ciências da evolução biológica enas ciências históricas. É preciso aprender a navegar em um oceano de incertezas em meio aarquipélagos de certeza.O universo é o jogo entre a ordem, a desordem e a organização. A Terra, provavelmente, em suaorigem se auto-organizou na dialógica entre ordem/desordem/organização, erupções e terremotos. Ahistória avança, não como um rio, mas por desvios que decorrem de inovações ou de criaçõesinternas, de acontecimentos ou acidentes externos. O futuro chama-se incerteza. Toda evolução éfruto do desvio bem-sucedido, cujo desenvolvimento transforma o sistema em que nasceu:
  11. 11. desorganiza, reorganizando-o. Não existem apenas inovações e criações. Existem tambémdestruições. Estas podem trazer novos desenvolvimentos (avanços da técnica, da indústria e docapitalismo levaram à destruição de civilizações tradicionais, por exemplo). A história obedece, aomesmo tempo, a determinismos e a acasos. Ela tem sempre duas faces opostas: civilização/barbárie,criação/destruição, gênese/morte. Os despotismos e totalitarismos sabem que os indivíduosdiferentes constituem um desvio potencial; por isso eles os eliminam e aniquilam.É preciso aprender a enfrentar a incerteza, já que vivemos em uma época em que os valores sãoambivalentes e tudo é ligado. É por isso que a educação do futuro deve voltar-se para as incertezasligadas ao conhecimento, pois existem princípios:• de incerteza cérebro-mental, que decorrem do processo de tradução/ reconstrução próprio a todoconhecimento.• de incerteza lógica: como dizia Pascal, "nem a contradição é sinal de falsidade, nem a não-contradição é sinal de verdade".• de incerteza racional, já que a racionalidade, se não mantém autocrítica vigilante, cai naracionalização.• da incerteza psicológica: é impossível ser totalmente consciente do que se passa em nossa mente,que conserva algo de fundamentalmente inconsciente. Existe, portanto, a dificuldade do auto-examecrítico, para o qual nossa sinceridade não é garantia de certeza, existindo limites para qualquerautoconhecimento.As ideias e teorias podem traduzir a realidade de maneira errônea. Nossa realidade não é outrasenão nossa ideia da realidade. Importa compreender a incerteza do real. É preciso saber interpretara realidade antes de reconhecer onde está o realismo.O conhecimento é uma aventura incerta, que comporta em si mesmo o risco de ilusão e de erro. Énas certezas doutrinárias, dogmáticas e intolerantes que se encontram as piores ilusões. A ação édecisão, escolha, mas também aposta. A ecologia da ação deve levar em consideração acomplexidade que ela supõe, através do aleatório, da iniciativa, do imprevisto. Ela compreende trêsprincípios: o circuito risco/precaução; o circuito fins/meios e o circuito ação/ contexto. Toda açãoescapa à vontade de seu autor quando entra no jogo das inter-retro-ações do meio em que intervém.A ação pode ter três tipos de conseqüências: o efeito perverso, a inanição da inovação e a colocaçãodas conquistas em perigo.A imprevisibilidade em longo prazoOs efeitos de uma ação em longo prazo são imprevisíveis. Nenhuma ação está segura de ocorrer nosentido de sua intenção. Há dois meios para enfrentar tal incerteza:• uma vez efetuada a escolha, a consciência da incerteza torna-se consciência de uma aposta. Anoção de aposta deve ser generalizada quanto a qualquer fé: a fé em um mundo melhor, na justiçaetc.;• a estratégia deve prevalecer sobre o programa (que estabelece uma seqüência de ações, que devemser executadas sem variação em um ambiente estável). Se houver modificação das condiçõesexternas, bloqueia-se o programa. A estratégia elabora um cenário de ação que examina as certezase as incertezas da situação.Tudo que comporta oportunidade comporta risco, e o pensamento deve reconhecer as oportunidadesde riscos como os riscos das oportunidades.
  12. 12. Capítulo VI: ENSINAR A COMPREENSÃOA compreensão é meio e fim da comunicação humana. Entretanto, a educação para a compreensãoestá ausente do ensino. O planeta necessita, em todos os sentidos, de compreensão mútua. Odesenvolvimento desta qualidade pede a reforma das mentalidades.Essa deve ser a obra para a educação do futuro. A compreensão mútua entre os seres humanos, querpróximos ou estranhos, é, daqui para frente, vital para que as relações humanas saiam de seu estadobárbaro de incompreensão.Daí decorre a necessidade de estudar a incompreensão a partir de suas raízes, modalidades e efeitos.Esse estudo é necessário porque enfocaria não os sintomas, mas as causas do racismo, da xenofobia,do desprezo.Constituiria, ao mesmo tempo, uma das bases mais seguras da educação para a paz, à qual estamosligados por essência e vocação.Educar para compreender uma disciplina é uma coisa; educar para compreensão humana é outra -ensinar a compreensão entre as pessoas como condição e garantia da solidariedade intelectual emoral da humanidade.O problema da compreensão é duplamente polarizado:• Um pólo, agora planetário, é o da compreensão entre humanos, os encontros e relações que semultiplicam entre pessoas, culturas, povos de diferentes origens culturais.• Um pólo individual é o das relações particulares entre próximos.Estas estão cada vez mais ameaçadas pela incompreensão (como será indicado mais adiante).As duas compreensõesA comunicação não garante a compreensão. A informação, se bem transmitida e compreendida, trazinteligibilidade, condição necessária, mas não suficiente para a compreensão.Há duas formas de compreensão: a intelectual ou objetiva e a humana intersubjetiva. Acompreensão intelectual passa pela inteligibilidade e pela explicação. Explicar é considerar o que épreciso conhecer como objeto e aplicar-lhe todos os meios objetivos de conhecimento. A explicaçãoé necessária para a compreensão intelectual, mas é insuficiente para a compreensão humana. Estacomporta um conhecimento de sujeito a sujeito e inclui, necessariamente, um processo de empatia,de identificação e de projeção. Sempre intersubjetiva, a compreensão pede abertura, simpatia egenerosidade.Educação para os obstáculos à compreensãoA compreensão do sentido das palavras de outro, de suas idéias, de sua visão do mundo está sempre
  13. 13. ameaçada por todos os lados:• Existe o "ruído" que parasita a transmissão da informação, cria o mal-entendido ou não-entendido.• Existe a polissemia de uma noção que, enunciada em um sentido, é entendida de outra forma;assim, a palavra "cultura", verdadeiro camaleão conceptual, pode significar tudo que não énaturalmente inato.• Existe a ignorância dos ritos e costumes do outro.• Existe a incompreensão dos valores de outra cultura.• Existe a incompreensão dos imperativos éticos próprios a uma cultura.• Existe a impossibilidade de compreender as ideias ou os argumentos de outra visão do mundo.• Existe a impossibilidade de compreensão de uma estrutura mental em relação à outra.Egocentrismo, etnocentrismo e sociocentrismoA incompreensão de si é fonte importante da incompreensão de outro. Mascaram-se as própriascarências e fraquezas, o que nos torna implacáveis com as carências e fraquezas dos outros.O egocentrismo amplia-se com o afrouxamento da disciplina e das obrigações que, anteriormente,levavam à renúncia aos desejos individuais, quando se opunham à vontade dos pais ou cônjuges.Hoje, a incompreensão deteriora as relações. O mundo dos intelectuais, escritores ou universitários,que deveria ser mais compreensivo, é o mais gangrenado sob o efeito da hipertrofia do ego, nutridopela necessidade de consagração e de glória.O etnocentrismo e o sociocentrismo nutrem xenofobias e racismos e podem até despojar oestrangeiro da qualidade de ser humano. Por isso, a verdadeira luta contra os racismos se operariamais contra suas raízes ,ego-sócio-cêntricas do que contra seus sintomas.A ética da compreensãoA ética da compreensão é a arte de viver que nos demanda compreender de modo desinteressado,com grande esforço, pois não pode esperar nenhuma reciprocidade. E compreender aincompreensão - se soubermos compreender antes de condenar, estaremos no caminho dahumanização das relações humanas. O que favorece a compreensão é:• O "bem pensar": apreender o texto e o contexto, o ser e seu meio, o local e o global.• A introspecção (auto-exame crítico permanente).• A consciência da complexidade humana: não se deve reduzir o ser à menor parte dele próprio, nemmesmo ao pior fragmento de seu passado.• A abertura subjetiva (simpática) em relação ao outro.• A interiorização da tolerância.• Compreensão, ética e cultura planetárias: a mundialização deveria estar a serviço do gênerohumano, através da compreensão, da solidariedade intelectual e moral da humanidade. Dada aimportância da educação para a compreensão, o desenvolvimento da compreensão necessita dareforma planetária das mentalidades que deve ser a tarefa da educação do futuro.
  14. 14. Capítulo VII - A ÉTICA DO GÊNEROHUMANOA concepção do gênero humano comporta a tríade indivíduo/sociedade/ espécie. A cultura, nosentido genérico, emerge dessas interações, reúne-as e confere-lhes valor. Assim, essa tríade éinseparável e seus elementos são co-produtores um do outro; cada um deles é, ao mesmotempo,meio e fim dos outros.A antropo-ética (ética propriamente humana) deve ser considerada como a ética da qual emerge aconsciência e o espírito propriamente humanos. É a base para ensinar a ética do futuro. Supõe adecisão consciente e esclarecida de:• assumir a condição humana indivíduo/sociedade/espécie na complexidade do ser;• alcançar a humanidade na consciência pessoal;• assumir o destino humano em suas antinomias e plenitude;A antropo-ética instrui-nos a assumir a missão antropológica do milênio:• trabalhar para a humanização da humanidade;• efetuar a dupla pilotagem do planeta: obedecer à vida, guiar a vida;• alcançar a unidade planetária na diversidade;• respeitar no outro, ao mesmo tempo, a diferença e a identidade quanto a si mesmo;• desenvolver a ética da solidariedade e da compreensão;• ensinar a ética do gênero humano.A antropo-ética compreende a esperança na completude da humanidade, como consciência ecidadania planetária, mas também aposta no incerto. Ela é consciência individual além daindividualidade.O circuito indivíduo/sociedade: ensinar ademocraciaA democracia favorece a relação rica e complexa entre indivíduo e sociedade. Fundamenta-se nocontrole da máquina do poder pelos controlados. É a regeneração contínua de uma cadeia complexae retroativa: os cidadãos produzem a democracia que produz cidadãos. A soberania do povo cidadãocomporta, ao mesmo tempo, a auto-limitação desta soberania pela obediência às leis e atransferência da soberania aos eleitos. Necessita do consenso da maioria e do respeito às regrasdemocráticas. Contudo, necessita de diversidade. A experiência do totalitarismo enfatizou o caráter-chave da democracia: seu elo vital com a diversidade.A democracia constitui, portanto, um sistema político complexo, no sentido de que vive depluralidade, concorrências e antagonismo, permanecendo como comunidade. O desenvolvimentodas complexidades políticas, econômicas e sociais nutre os avanços da individualidade. Esta seafirma em seus direitos (do homem e do cidadão) e adquire liberdades existenciais (escolhaautônoma do cônjuge, da residência, do lazer).A democracia une, de modo complementar, termos antagônicos: consenso/ conflito,liberdade/fraternidade, comunidade nacional/antagonismos sociais e ideológicos. Enfim, eladepende das condições que dependem de seu exercício (espírito cívico, aceitação da regra do jogo
  15. 15. democrático). As democracias do século XXI serão cada vez mais confrontadas ao gigantescoproblema decorrente do desenvolvimento da enorme máquina em que ciência, técnica e burocraciaestão intimamente associadas. Nessas condições, o cidadão tem o direito de adquirir saberespecializado, mas é despojado de qualquer ponto de vista global e pertinente. Quanto mais apolítica se torna técnica, mais a competência democrática regride.Impõe-se às sociedades, reputadas como democráticas, a necessidade de regenerar a democracia,enquanto que, em grande parte do mundo, se apresenta o problema de gerar democracia, ao mesmotempo em que as necessidades planetárias nos reclamam gerar nova possibilidade democrática nestaescala. A regeneração democrática supõe a regeneração do civismo, a regeneração do civismo supõea regeneração da solidariedade e da responsabilidade, ou seja, o desenvolvimento da antropo-ética.O circuito indivíduo/espécie: ensinar acidadania terrestreA partir do século XX, a comunidade de destino terrestre impõe de modo vital a solidariedade: "Souhomem, nada do que é humano me é estranho".A humanidade como destino planetárioA comunidade de destino planetário permite assumir e cumprir esta parte de antropo-ética, que serefere à relação entre indivíduo singular e espécie humana como todo. A humanidade está enraizadaem uma "pátria", a terra. Sós, e em conjunto com a política do homem, a política de civilização, areforma do pensamento, a antropo-ética, o verdadeiro humanismo, a consciência da Terra-Pátriareduziriam a ignomínia no mundo. Não conhecemos o caminho: "El camino se hace al andar". Síntese elaborada por Carlos R. Paiva: Publicada na Revista de Educação nº 15

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