EB SANTA MARINHAMARATONA DE LEITURA:A LER O MAR
O MAREste é o maronde os barcos viajam,os peixes moram,os golfinhos saltam,as baleias lançam repuxos,as crianças nadam,os ...
“O castelo de areia"Fiz um castelo de areiaMesmo à beirinha do marÀ espera que uma sereiaAli quisesse morarÓ mar,Ó mar...M...
CANTIGA AO DESAFIO-Menina, que sabe ler,também sabe soletrar!Diga lá, minha menina:quantos peixes há no mar?-Quantos peixe...
-Menina que tanto sabe,responda a esta pergunta:que ciência tem o mar,que tanta água em si junta?-A ciência que o mar tem,...
HISTÓRIA DO SR. MARDeixa contar...Era uma vezO senhor MarCom uma onda...Com muita onda...E depois?E depois...Ondinha vai.....
A BarcaBelaera aquelabarcano marbelaa sereiaa cantar.Belaera aquelabarca no mar.Papiniano Carlos
À Volta de um BúzioDizem que o búzio nos trazao ouvido o som do mar.Mas eu acho que é mentira:se encosto o búzio ao ouvido...
Pelas valetas das vielas“E foram-se as caravelaspelas valetas das vielasouvindo tocar violasdentro delas.Só levavam ar a b...
PPORTUGALSomos vizinhos do marque nos dá sonho e comidalembrando o que descobrimoscom tantos anos de vida.Mareantes, emigr...
ESPUMAMais leve que a plumaque no ar balança,pela praia dançaa ligeira espuma.Dançando se afagano alado bailar!Pétalas de ...
Cantares de búziosAi ondas do mar, ai ondas,ó jardins das alvas flores,sobre vós, ondas, ai ondas,suspiram os meus amores....
A rosa e o marEu gostaria ainda de falarDa rosa brava e do mar.A rosa é tão delicada,O mar tão impetuoso,que não sei como ...
PRAIANa luz oscilam os múltiplos naviosCaminho ao longo dos oceanos friosAs ondas desenrolam os seus braçosE brancas tomba...
Barca BelaPescador da barca bela,Onde vais pescar com ela,Que é tão bela,Ó pescador?Não vês que a última estrelaNo céu nub...
ESTOU AQUIEstou aqui sentado - ali o mar,as palmeiras.O leite fresco, o pão na mesa.O gesto sempre igualda luz, o mesmo ol...
Foi no mar que aprendiFoi no mar que aprendi o gosto da forma belaAo olhar sem fim o sucessivoInchar e desabar da vagaA be...
Vozes Do MarQuando o sol vai caindo sobre as águasNum nervoso delíquio d’oiro intenso,Donde vem essa voz cheia de mágoasCo...
MAR SONOROMar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,A tua beleza aumenta quando estamos sósE tão fundo intimamente a tua vozS...
FUNDO DO MARNo fundo do mar há brancos pavores,Onde as plantas são animaisE os animais são flores.Mundo silencioso que não...
HEROÍSMOSEu temo muito o mar, o mar enorme,Solene, enraivecido, turbulento,Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;O mar su...
MarDe todos os cantos do mundoAmo com um amor mais forte e mais profundoAquela praia extasiada e nua,Onde me uni ao mar, a...
Dia do mar no arDia do mar no ar, construídoCom sombras de cavalos e de plumasDia do mar no meu quarto-cuboOnde os meus ge...
PraiaAs ondas desenrolavam os seus braçosE as brancas tombam de bruços.LusitâniaOs que avançam de frente para o marE nele ...
DESCOBRIMENTOUm oceano de músculos verdesUm ídolo de muitos braços como um polvoCaos incorruptível que irrompeE tumulto or...
GAIVOTASe uma gaivota viessetrazer-me o céu de Lisboano desenho que fizesse,nesse céu onde o olharé uma asa que não voa,es...
Se ao dizer adeus à vidaas aves todas do céu,me dessem na despedidao teu olhar derradeiro,esse olhar que era só teu,amor q...
DESCOBRIMENTOUm oceano de músculos verdesUm ídolo de muitos braços como um polvoCaos incorruptível que irrompeE tumulto or...
MAR PORTUGUÊSÓ mar salgado, quanto do teu salSão lágrimas de Portugal!Por te cruzarmos, quantas mães choraram,Quantos filh...
O INFANTEDeus quer, o homem sonha, a obra nasce.Deus quis que a terra fosse toda uma,Que o mar unisse, já não separasse.Sa...
O MOSTRENGOO mostrengo que está no fim do marNa noite de breu ergueu-se a voar;A roda da nau voou três vezes,Voou três vez...
HEROÍSMOSEu temo muito o mar, o mar enorme,Solene, enraivecido, turbulento,Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;O mar su...
ARIANEAriane é um navio.Tem mastros, velas e bandeira à proa,E chegou num dia branco, frio,A este rio Tejo de Lisboa.Carre...
CALMAQue costa é que as ondas contamE se não pode encontrarPor mais naus que haja no mar?O que é que as ondas encontramE n...
COMEÇA A VIAGEMEra uma vez um povo de marinheiros e de heróis, o povoportuguês, o nosso povo, que já lá vão muitos anos – ...
Iam os barcos já na costa de Moçambique, rápidos, entre abranca espuma das ondas.A Índia estava longe.Mas o caminho para a...
E antes de senti-lo e sabê-lo – já os deuses ou forças, quevivem nas coisas e nas almas, discutiam se sim ou não osdeviam ...
No palácio luminoso, perto das estrelas, em quehabitualmente se reuniam – grande conversa e discussãohouve entre os Deuses...
DESCOBRIMENTOUm oceano de músculos verdesUm ídolo de muitos braços como um polvoCaos incorruptível que irrompeE tumulto or...
MAR PORTUGUÊSÓ mar salgado, quanto do teu salSão lágrimas de Portugal!Por te cruzarmos, quantas mães choraram,Quantos filh...
O INFANTEDeus quer, o homem sonha, a obra nasce.Deus quis que a terra fosse toda uma,Que o mar unisse, já não separasse.Sa...
O MOSTRENGOO mostrengo que está no fim do marNa noite de breu ergueu-se a voar;A roda da nau voou três vezes,Voou três vez...
ARIANEAriane é um navio.Tem mastros, velas e bandeira à proa,E chegou num dia branco, frio,A este rio Tejo de Lisboa.Carre...
Tenho uma JanelaTenho uma janelaque dá para o marbarcos a sairbarcos a entrartenho uma janelaque dá para o marsonhos a par...
tenho uma janelaque seria belaseria mais belaque qualquer janelajanela fosse elade Lua ou de estrelaou qualquer janelade q...
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  1. 1. EB SANTA MARINHAMARATONA DE LEITURA:A LER O MAR
  2. 2. O MAREste é o maronde os barcos viajam,os peixes moram,os golfinhos saltam,as baleias lançam repuxos,as crianças nadam,os jardins são de corale sabem a sal.Este é o marque se esgota em esgoto,se lixa em lixo,o das marés negras,das redes de arrasto,dos rastos de sangue,dos cemitérios nucleares,dos muitos azares.Este é o mar.Quem é que entende a canção dasondas?Luísa Ducla Soares
  3. 3. “O castelo de areia"Fiz um castelo de areiaMesmo à beirinha do marÀ espera que uma sereiaAli quisesse morarÓ mar,Ó mar...Mas foi só uma gaivotaQue ali me foi visitarÓ mar,Ó mar...Mas foi uma verde ondaQue ali me foi visitar.E levou o meu castelo,O meu castelo de areiaPara no mar morar neleA minha linda sereia.Luísa Ducla Soares
  4. 4. CANTIGA AO DESAFIO-Menina, que sabe ler,também sabe soletrar!Diga lá, minha menina:quantos peixes há no mar?-Quantos peixes há no mareu já te vou responderSão metade e outros tantosfora os que ainda estão por nascer.Diz-me lá, ó cantador,quantas penas tem um pato?quantos picos um ouriço,quantos cabelos um gato?-Menina, perguntas bem,agora respondo eu:penas, picos e cabelossó têm os que Deus lhe deu.
  5. 5. -Menina que tanto sabe,responda a esta pergunta:que ciência tem o mar,que tanta água em si junta?-A ciência que o mar tem,não é coisa de pasmar:não há rio nem regatoque ao mar não vá parar.Alice Vieira, Antologia “Eu bem vi nascer o Sol”
  6. 6. HISTÓRIA DO SR. MARDeixa contar...Era uma vezO senhor MarCom uma onda...Com muita onda...E depois?E depois...Ondinha vai...Ondinha vem...Ondinha vai...Ondinha vem...E depois...A menina adormeceuNos braços da sua Mãe...Matilde Rosa Araújo
  7. 7. A BarcaBelaera aquelabarcano marbelaa sereiaa cantar.Belaera aquelabarca no mar.Papiniano Carlos
  8. 8. À Volta de um BúzioDizem que o búzio nos trazao ouvido o som do mar.Mas eu acho que é mentira:se encosto o búzio ao ouvidosó ouço as ondas do ar.As ondas do ar me trazemforte cheiro a maresia.as eu acho que é mentira:o mar não mora nas nuvens,nunca em nuvens viveria.Descem as nuvens no marse acaso a chuva acontece,Mas eu acho que é mentira:se encosto o búzio ao ouvido,ouvir o mar me parece.Maria Alberta Menéres
  9. 9. Pelas valetas das vielas“E foram-se as caravelaspelas valetas das vielasouvindo tocar violasdentro delas.Só levavam ar a bordocom cheirinho de alecrime desenhada nas velasuma corola de jasmim.E foi assim que a viagemdestas caravelaschegou ao fim,como um rumor de mara ecoar dentro de mim.Luís Infante, Carla Pott
  10. 10. PPORTUGALSomos vizinhos do marque nos dá sonho e comidalembrando o que descobrimoscom tantos anos de vida.Mareantes, emigrantes,fomos sempre buscar foraaquilo que nos faltavasem perder pela demora.Temos uma mesa de reise uma história de grandeza,mas baixamos a cabeçadando lugar à tristeza.»José Jorge Letria
  11. 11. ESPUMAMais leve que a plumaque no ar balança,pela praia dançaa ligeira espuma.Dançando se afagano alado bailar!Pétalas de vaga, poeirasdo mar...E na dança etérea,que imparável ronda!Bafo de matéria,penugem da onda.Afonso Lopes Vieira
  12. 12. Cantares de búziosAi ondas do mar, ai ondas,ó jardins das alvas flores,sobre vós, ondas, ai ondas,suspiram os meus amores.No fundo dos búzios cantao mar que chora a cantaró mar que choras cantando,eu canto e estou a chorar!Ai ondas do mar, ai ondas,eu bem vos quero lembrar:«a minha alma é só de Deuse o meu corpo da água domar!»Afonso Lopes Vieira (1878-1946)
  13. 13. A rosa e o marEu gostaria ainda de falarDa rosa brava e do mar.A rosa é tão delicada,O mar tão impetuoso,que não sei como os juntarE convidar para o cháNa casa breve do poema.O melhor é não falar:Sorrir-lhes só da janela.Eugénio de Andrade
  14. 14. PRAIANa luz oscilam os múltiplos naviosCaminho ao longo dos oceanos friosAs ondas desenrolam os seus braçosE brancas tombam de bruçosA praia é lisa e longa sob o ventoSaturada de espaços e maresiaE para trás fica o murmúrioDas ondas enroladas como búzios.Sophia de Mello Breyner
  15. 15. Barca BelaPescador da barca bela,Onde vais pescar com ela,Que é tão bela,Ó pescador?Não vês que a última estrelaNo céu nublado se vela?Colhe a vela,Ó pescador!Deita o lanço com cautela,Que a sereia canta bela...Mas cautela,Ó pescador!Não se enrede a rede nela,Que perdido é remo e velaSó de vê-la,Ó pescador!Pescador da barca bela,Inda é tempo, foge dela,Foge dela,Ó pescador!Almeida Garrett
  16. 16. ESTOU AQUIEstou aqui sentado - ali o mar,as palmeiras.O leite fresco, o pão na mesa.O gesto sempre igualda luz, o mesmo olhar da ave.Existe uma harmoniaentre a luz e o mar,a mesma provavelmenteentre a palmeira e a ave,o leite e o pão.E com a palavra, o seuvoo a prumo,com a palavra qual é a relação ?Eugénio de Andrade
  17. 17. Foi no mar que aprendiFoi no mar que aprendi o gosto da forma belaAo olhar sem fim o sucessivoInchar e desabar da vagaA bela curva luzidia do seu dorsoO longo espraiar das mãos de espumaPor isso nos museus da Grécia antigaOlhando estátuas frisos e colunasSempre me aclaro mais leve e mais vivaE respiro melhor como na praiaSophia de Mello Breyner Andresen
  18. 18. Vozes Do MarQuando o sol vai caindo sobre as águasNum nervoso delíquio d’oiro intenso,Donde vem essa voz cheia de mágoasCom que falas à terra, ó mar imenso?Tu falas de festins, e cavalgadasDe cavaleiros errantes ao luar?Falas de caravelas encantadasQue dormem em teu seio a soluçar?Tens cantos depopeias?Tens anseios Damarguras?Tu tens também receios,Ó mar cheio de esperança emajestade?!DDonde vem essa voz, ó mar amigo?......Talvez a voz do Portugal antigo,Chamando por Camões numa saudade!Florbela Espanca
  19. 19. MAR SONOROMar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,A tua beleza aumenta quando estamos sósE tão fundo intimamente a tua vozSegue o mais secreto bailar do meu sonho,Que momentos há em que eu suponhoSeres um milagre criado só para mim.Sophia de Mello Breyner Andresen
  20. 20. FUNDO DO MARNo fundo do mar há brancos pavores,Onde as plantas são animaisE os animais são flores.Mundo silencioso que não atingeA agitação das ondas.Abrem-se rindo conchas redondas,Baloiça o cavalo-marinho.Um polvo avançaNo desalinhoDos seus mil braços,Uma flor dança,Sem ruído vibram os espaços.Sobre a areia o tempo poisaLeve como um lenço.Mas por mais bela que seja cada coisaTem um monstro em si suspenso.Sophia de Mello Breyner Andresen
  21. 21. HEROÍSMOSEu temo muito o mar, o mar enorme,Solene, enraivecido, turbulento,Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;O mar sublime, o mar que nunca dorme.Eu temo o largo mar rebelde, informe,De vítimas famélico, sedento,E creio ouvir em cada seu lamentoOs ruídos dum túmulo disforme.Contudo, num barquinho transparente,No seu dorso feroz vou blasonar,Tufada a vela e nágua quase assente,E ouvindo muito ao perto o seu bramar,Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,Escarro, com desdém, no grande mar!Cesário Verde
  22. 22. MarDe todos os cantos do mundoAmo com um amor mais forte e mais profundoAquela praia extasiada e nua,Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.EsperoEspero sempre por ti o dia inteiro,Quando na praia sobe, de cinza e oiro,O nevoeiroE há em todas as coisas o agoiroDe uma fantástica vinda.As ondas quebravam uma a umaEu estava só com a areia e com a espumaDo mar que cantava só para mim.
  23. 23. Dia do mar no arDia do mar no ar, construídoCom sombras de cavalos e de plumasDia do mar no meu quarto-cuboOnde os meus gestos sonâmbulos deslizamEntre o animal e a flor como medusas.Dia do mar no ar, dia altoOnde os meus gestos são gaivotas que se perdemRolando sobre as ondas, sobre as nuvens.BarcosDormem na praia os barcos pescadoresImóveis mas abrindoOs seus olhos de estátuaE a curva do seu bicoRói a solidão.
  24. 24. PraiaAs ondas desenrolavam os seus braçosE as brancas tombam de bruços.LusitâniaOs que avançam de frente para o marE nele enterram como uma aguda facaE proa negra dos seus bracosVivem de pouco pão e de luar.OndasOnde-- ondas-- mais belos cavalosDo que estes ondas que vóis soisOnde mais bela curva de pescoçosOnde mais bela crina sacudidaOu impetuoso arfar no mar imensoOnde tão ébrio amor em vasta praia.Sophia de Mello Breyner Andresen
  25. 25. DESCOBRIMENTOUm oceano de músculos verdesUm ídolo de muitos braços como um polvoCaos incorruptível que irrompeE tumulto ordenado.Bailarino contorcidoEm redor dos navios esticadosAtravessamos fileiras de cavalosQue sacudiam as crinas nos alísiosO mar tomou-se de repente muito novo e muitoantigo Para mostrar as praiasE um povoDe homens recém-criados ainda cor de barroAinda nus ainda deslumbradosSophia de Mello Breyner Andresen
  26. 26. GAIVOTASe uma gaivota viessetrazer-me o céu de Lisboano desenho que fizesse,nesse céu onde o olharé uma asa que não voa,esmorece e cai no mar.Que perfeito coraçãono meu peito bateria,meu amor na tua mão,nessa mão onde cabiaperfeito o meu coração.Se um português marinheiro,dos sete mares andarilho,fosse quem sabe o primeiroa contar-me o que inventasse,se um olhar de novo brilhono meu olhar se enlaçasse.Que perfeito coraçãono meu peito bateria,meu amor na tua mão,nessa mão onde cabiaperfeito o meu coração.
  27. 27. Se ao dizer adeus à vidaas aves todas do céu,me dessem na despedidao teu olhar derradeiro,esse olhar que era só teu,amor que foste o primeiro.Que perfeito coraçãono meu peito morreria,meu amor na tua mão,nessa mão onde perfeitobateu o meu coração.Alexandre O’Neil
  28. 28. DESCOBRIMENTOUm oceano de músculos verdesUm ídolo de muitos braços como um polvoCaos incorruptível que irrompeE tumulto ordenado.Bailarino contorcidoEm redor dos navios esticadosAtravessamos fileiras de cavalosQue sacudiam as crinas nos alísiosO mar tomou-se de repente muito novo e muitoantigo Para mostrar as praiasE um povoDe homens recém-criados ainda cor de barroAinda nus ainda deslumbradosSophia de Mello Breyner Andresen
  29. 29. MAR PORTUGUÊSÓ mar salgado, quanto do teu salSão lágrimas de Portugal!Por te cruzarmos, quantas mães choraram,Quantos filhos em vão rezaram!Quantas noivas ficaram por casarPara que fosses nosso, ó mar!Valeu a pena? Tudo vale a penaSe a alma não é pequena.Quem quere passar além do BojadorTem que passar além da dor.Deus ao mar o perigo e o abismo deu,Mas nele é que espelhou o céu.Fernando Pessoa
  30. 30. O INFANTEDeus quer, o homem sonha, a obra nasce.Deus quis que a terra fosse toda uma,Que o mar unisse, já não separasse.Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,E a orla branca foi de ilha em continente,Clareou, correndo, até ao fim do mundo,E viu-se a terra inteira, de repente,Surgir, redonda, do azul profundo.Quem te sagrou criou-te portuguêsDo mar e nós em ti nos deu sinal.Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.Senhor, falta cumprir-se Portugal!Fernando Pessoa
  31. 31. O MOSTRENGOO mostrengo que está no fim do marNa noite de breu ergueu-se a voar;A roda da nau voou três vezes,Voou três vezes a chiar,E disse: «Quem é que ousou entrarNas minhas cavernas que não desvendo,Meus tectos negros do fim do mundo?»E o homem do leme disse, tremendo:«El-Rei D. João Segundo!»«De quem são as velas onde me roço?De quem as quilhas que vejo e ouço?»Disse o mostrengo, e rodou três vezes,Três vezes rodou imundo e grosso.«Quem vem poder o que só eu posso,Que moro onde nunca ninguém me visseE escorro os medos do mar sem fundo?»E o homem do leme tremeu, e disse:«El-Rei D. João Segundo!»Três vezes do leme as mãos ergueu,Três vezes ao leme as reprendeu,E disse no fim de tremer três vezes:«Aqui ao leme sou mais do que eu:Sou um povo que quer o mar que é teu;E mais que o mostrengo, que me a alma temeE roda nas trevas do fim do mundo,Manda a vontade, que me ata ao leme,De El-Rei D. João Segundo!»Fernando Pessoa
  32. 32. HEROÍSMOSEu temo muito o mar, o mar enorme,Solene, enraivecido, turbulento,Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;O mar sublime, o mar que nunca dorme.Eu temo o largo mar rebelde, informe,De vítimas famélico, sedento,E creio ouvir em cada seu lamentoOs ruídos dum túmulo disforme.Contudo, num barquinho transparente,No seu dorso feroz vou blasonar,Tufada a vela e nágua quase assente,E ouvindo muito ao perto o seu bramar,Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,Escarro, com desdém, no grande mar!Cesário Verde
  33. 33. ARIANEAriane é um navio.Tem mastros, velas e bandeira à proa,E chegou num dia branco, frio,A este rio Tejo de Lisboa.Carregado de Sonho, fundeouDentro da claridade destas grades...Cisne de todos, que se foi, voltouSó para os olhos de quem tem saudades...Foram duas fragatas ver quem eraUm tal milagre assim: era um navioQue se balança ali à minha esperaEntre as gaivotas que se dão no rio.Mas eu é que não pude ainda por meuspassosSair desta prisão em corpo inteiro,E levantar âncora, e cair nos braçosDe Ariane, o veleiro.Miguel Torga
  34. 34. CALMAQue costa é que as ondas contamE se não pode encontrarPor mais naus que haja no mar?O que é que as ondas encontramE nunca se vê surgindo?Este som de o mar praiarOnde é que está existindo?Ilha próxima e remota,Que nos ouvidos persiste,Para a vista não existe.Que nau, que armada, que frotaPode encontrar o caminhoÀ praia onde o mar insiste,Se à vista o mar é sozinho?Haverá rasgões no espaçoQue dêem para outro lado,E que, um deles encontrado,Aqui, onde há só sargaço,Surja uma ilha velada,O país afortunadoQue guarda o Rei desterradoEm sua vida encantada?Fernando Pessoa
  35. 35. COMEÇA A VIAGEMEra uma vez um povo de marinheiros e de heróis, o povoportuguês, o nosso povo, que já lá vão muitos anos – maisde quatrocentos – quis descobrir o caminho marítimo paraa Índia. A Índia aparecia então, aos olhos de todos osEuropeus, como terra esplendor e riqueza, que todos oshomens desejam, mas onde era difícil, quase impossívelchegar.Quatros pequenos navios, - tão pequenos sobre oimenso, ignorado Oceano! – quatro naus comandadas pelogrande capitão Vasco da Gama, lançaram-se através doAtlântico, só conhecido até ao Cabo da BoaEsperança, dobraram esse Cabo e puseram-se de vale paraa região que demandavam,O vento era brando, o mar sereno. Até então a viagemcorrera sossegada. Mas os perigos seriam constantes, atravessia arriscada, a viagem longa. E ninguém sabia aocerto o rumo a seguir, pois nunca outra gente se atreverasequer a tentar tão comprida e custosa navegação.Só a coragem e a audácia dos Portugueses seria capaz daproeza heróica!
  36. 36. Iam os barcos já na costa de Moçambique, rápidos, entre abranca espuma das ondas.A Índia estava longe.Mas o caminho para alcançá-la era aquele, diziam os sábiose marinheiros. – e decerto lá chegariam Vasco da Gama eos seus marujos, se o vento e o mar lhes fossem favoráveise, sobretudo, se a coragem os não abandonasse.Ai deles, porém!Sempre que um povo ou um homem tenta desvendar econhecer paragens até então ignotas, ou realizar um actonobre e grande, parece que as forças da Natureza, ou ainveja dos outros homens, tudo fazem para os não deixarvencer …Iam senti-lo e sabê-lo bem os nossos temeráriosantepassados!
  37. 37. E antes de senti-lo e sabê-lo – já os deuses ou forças, quevivem nas coisas e nas almas, discutiam se sim ou não osdeviam deixar triunfar.Júpiter, que era o Deus dos Deuses, senhor do Mundo;Vénus, filha de Júpiter, Deusa do Amor e da Ternura;Baco, o Deus da Folia e do Vinho; Marte, o Deus da Guerra;Apolo, o Deus da Luz e do Calor; e Neptuno, o Deus doMar, Juntaram-se todos para resolver se dariam ou nãoauxílio aos Portugueses.Basta que Júpiter desencadeasse um grande temporalsobre as frágeis embarcações, para que um naufrágio asengolisse logo e, com elas, os tripulantes e o próprio Vascoda Gama …Era isto o que nem Vénus nem Marte – amigos dosPortugueses, que são, como ambos essesDeuses, afectuosos e valentes – de maneira algumaqueriam.Mas Baco – sempre tonto e mau, que tivera outrora grandepoder na Índia e receava que osPortugueses, conquistando-a, até a lembrança do seureinado de lá afastassem – Baco preparava-se para osinquietar, desanimando a lusa energia com toda a espécie
  38. 38. No palácio luminoso, perto das estrelas, em quehabitualmente se reuniam – grande conversa e discussãohouve entre os Deuses a propósito dos nossos Portuguesese da melhor decisão a tomar sobre o destino das suasnaus….(João Barros)
  39. 39. DESCOBRIMENTOUm oceano de músculos verdesUm ídolo de muitos braços como um polvoCaos incorruptível que irrompeE tumulto ordenado.Bailarino contorcidoEm redor dos navios esticadosAtravessamos fileiras de cavalosQue sacudiam as crinas nos alísiosO mar tomou-se de repente muito novo e muitoantigo Para mostrar as praiasE um povoDe homens recém-criados ainda cor de barroAinda nus ainda deslumbradosSophia de Mello Breyner Andresen
  40. 40. MAR PORTUGUÊSÓ mar salgado, quanto do teu salSão lágrimas de Portugal!Por te cruzarmos, quantas mães choraram,Quantos filhos em vão rezaram!Quantas noivas ficaram por casarPara que fosses nosso, ó mar!Valeu a pena? Tudo vale a penaSe a alma não é pequena.Quem quere passar além do BojadorTem que passar além da dor.Deus ao mar o perigo e o abismo deu,Mas nele é que espelhou o céu.Fernando Pessoa
  41. 41. O INFANTEDeus quer, o homem sonha, a obra nasce.Deus quis que a terra fosse toda uma,Que o mar unisse, já não separasse.Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,E a orla branca foi de ilha em continente,Clareou, correndo, até ao fim do mundo,E viu-se a terra inteira, de repente,Surgir, redonda, do azul profundo.Quem te sagrou criou-te portuguêsDo mar e nós em ti nos deu sinal.Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.Senhor, falta cumprir-se Portugal!Fernando Pessoa
  42. 42. O MOSTRENGOO mostrengo que está no fim do marNa noite de breu ergueu-se a voar;A roda da nau voou três vezes,Voou três vezes a chiar,E disse: «Quem é que ousou entrarNas minhas cavernas que não desvendo,Meus tectos negros do fim do mundo?»E o homem do leme disse, tremendo:«El-Rei D. João Segundo!»«De quem são as velas onde me roço?De quem as quilhas que vejo e ouço?»Disse o mostrengo, e rodou três vezes,Três vezes rodou imundo e grosso.«Quem vem poder o que só eu posso,Que moro onde nunca ninguém me visseE escorro os medos do mar sem fundo?»E o homem do leme tremeu, e disse:«El-Rei D. João Segundo!»Três vezes do leme as mãos ergueu,Três vezes ao leme as reprendeu,E disse no fim de tremer três vezes:«Aqui ao leme sou mais do que eu:Sou um povo que quer o mar que é teu;E mais que o mostrengo, que me a alma temeE roda nas trevas do fim do mundo,Manda a vontade, que me ata ao leme,De El-Rei D. João Segundo!»Fernando Pessoa
  43. 43. ARIANEAriane é um navio.Tem mastros, velas e bandeira à proa,E chegou num dia branco, frio,A este rio Tejo de Lisboa.Carregado de Sonho, fundeouDentro da claridade destas grades...Cisne de todos, que se foi, voltouSó para os olhos de quem tem saudades...Foram duas fragatas ver quem eraUm tal milagre assim: era um navioQue se balança ali à minha esperaEntre as gaivotas que se dão no rio.Mas eu é que não pude ainda por meuspassosSair desta prisão em corpo inteiro,E levantar âncora, e cair nos braçosDe Ariane, o veleiro.Miguel Torga
  44. 44. Tenho uma JanelaTenho uma janelaque dá para o marbarcos a sairbarcos a entrartenho uma janelaque dá para o marsonhos a partirsonhos a chegartenho uma janelaque dá para o marum fio de fumouma sombra alémuma história antigaum cantar de velaum azul de mar
  45. 45. tenho uma janelaque seria belaseria mais belaque qualquer janelajanela fosse elade Lua ou de estrelaou qualquer janelade qualquer escolase não fosse aquelepescador já velhoque anda pela praiaa pedir esmolabarcos a sairbarcos a entrarchego-me à janelae não vejo o mar.(Mário Castrim)

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