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A abordagem ambiental unifica as geografias viii encontro nac ional da anpege- julho-

  1. 1. Publicado em Espaço e Tempo- Complexidade e Desafios do pensar e do saber geográficoOrg. Francisco Mendonça; Cicilian Luiza Lowen-Sahar; Márcida da SilvaCuritiba: ADEMANAN- 2009 – 740p. - Pg. 167 a 180 1 A abordagem ambiental unifica as geografias? Environment approaches allows the articulation between physical and human geography? Arlete Moysés Rodrigues 2Resumo: O objetivo do texto é debater se as abordagens ambientais incorporadas à Geografia,principalmente pós década de 90 do século XX, propicia a articulação das Geografias física ehumana, território, espaço, classes sociais e os conflitos em relação à destruição produtiva.Indaga sobre alteração do paradigma científico.Palavras chaves: abordagens ambientais, espaço, território, agenda 21, paradigma cientifico.Abstract: The goal of this article is to discuss if the environments approachesincorporated to geography, mainly since 1990, allows the articulation betweenphysical and human geography, territory, space, social classes and destructiveproduction conflicts. Inquires about scientific paradigm changes.Keywords: Environment approach, space, territory, agenda 21, scientific paradigm,environmental issues.Introdução Este texto tem o objetivo de apresentar elementos para debater questões teóricase metodológicas em relação às “abordagens ambientais” 3 na Geografia. Considerando as especificidades, categorias analíticas, métodos de análise,aportes teóricos, as “abordagens ambientais” permitem uma maior aproximação dasgeografias física e humana? Com o pressuposto de compreender a produção e reprodução do espaço e adinâmica das relações sociais seria relevante e fundamental que a análise concreta datotalidade, realizada pela ciência geográfica, utilizando métodos das ciências dasociedade e da natureza, permitisse, em abordagens ambientais o entendimento dacomplexidade. Ao verificar trabalhos de Geografia4 observa-se que, no geral, foi incluído maisum tema – o do “meio ambiente”-, mas não houve interpenetração teórica, metodológica1 - Mesa Redonda – Desafios da Abordagem Ambiental na Geografia-Aportes Teóricos e Aplicabilidades-VIII Encontro Nacional da ANPEGE-Espaço e tempo-complexidade e desafios do pensar geográfico.2 - Arlete Moysés Rodrigues, profa. Livre docente – UNICAMP- amoyses@terra.com.br3 - Abordagens ambientais no plural tendo em vista que há várias abordagens nas várias disciplinascientíficas.4 - Foi feita pesquisa amostral em dissertações e teses de mestrado.
  2. 2. e de categorias analíticas das Geografias. A maioria dos trabalhos incorporou ospreceitos de documentos oficiais do FMI, do Banco Mundial, condensados no RelatórioNosso Futuro Comum (1991) e Agenda 21 (1996), sem articulação entre as Geografiasfísica e humana, sem incorporação de novas questões teóricas ou metodológicas. A Geografia se ocupa, desde seus primórdios, utilizando-se de várias teorias emétodos, em correlacionar as atividades humanas com território e espaço, com a análisede riquezas e diversidades naturais, localização, desenvolvimento de atividadeseconômicas, deslocamentos populacionais, com a produção e reprodução do espaçourbano e rural. 5 Um exemplo clássico é a obra de Jean Brunhes (Brunhes, 1962) que, ao 6apresentar os pressupostos da Geografia Humana, mostra que a “natureza” é essencialna organização do espaço e que não se pode dissociá-la para analisar a sociedade. Um dos pressupostos da Geografia, para o autor, é analisar os fatos essenciais econcretos da atividade humana. Denomina de fatos da ocupação improdutiva do solo:casas e caminhos; conquista vegetal e animal com os campos cultivados e animaisdomesticados. Chama de fatos de economia destrutiva: explorações minerais edevastações vegetais ou animais. Destaca como ocupação produtiva a agricultura quepermitiria reposição de elementos do solo, embora o autor considere que a domesticaçãode espécies é ocupação improdutiva. Hoje, com o uso de insumos químicos,biotecnologia, não é possível considerar a agricultura como ocupação produtiva do solo,um tema que é pouco debatido nas abordagens ambientais, que precisa ser analisado erepensado com instrumental teórico adequado. Brunhes descreve a organização do espaço, a ocupação do solo urbano e rural.Não tem como proposta compreender a produção e reprodução do espaço, os agentesprodutores e consumidores do espaço, o processo de dilapidação das riquezas, aaceleração do tempo/espaço, o esgotamento e a poluição de riquezas naturais. Escreveua obra em outro momento histórico, com outra realidade geográfica, com outroparadigma científico, baseado fundamentalmente no positivismo. Mas mostra que aGeografia tenta compreender as relações da sociedade com a natureza. Para Brunhes, como para outros autores clássicos da Geografia, o campo dapesquisa é constituído na esfera da vida. Destaca, na obra, a importância do calor solar5 -Brunhes, Jean – A Geografia Humana – Editora Fundo de Cultura – Rio de Janeiro 1962.6 - Brunhes (idem) não utiliza “natureza”, mas consideramos que dado o tema da mesa é importante dareste destaque.
  3. 3. na junção da atmosfera, litosfera, hidrosfera e considerar que tudo se transforma pelaação da natureza e da ação humana. Observa-se a tentativa de apresentar como a“natureza” e a sociedade alteram e transformam o meio em que vivem e ao mesmotempo se transformam. O reconhecimento de que a Geografia enfatiza a importância do espaço e do“ambiente” é conhecido por muitos cientistas. Como diz Leila da Costa Ferreira aabordagem ambiental desenvolveu-se tardiamente na sociologia, bem depois dabiologia, ecologia, economia, demografia, geografia, dentre outras. A introdução dodebate e da dimensão ambiental no interior das ciências sociais é um subcampo recentee os estudos nessa linha ainda são poucos. Salienta que: “ao mesmo tempo, também ésurpreendente que em pouquíssimo tempo, nesta última década, a questão ambientaltenha se tornado tema altamente relevante para diversas áreas do conhecimento emesmo para a teoria social contemporânea” (Ferreira, Leila 2009). O fato do tema serhoje relevante é porque se compreende a complexidade do mundo atual ou apenastornou-se um senso comum tratar do tema?As abordagens ambientais na Geografia Qual o significado das abordagens ambientais na Geografia principalmente pósdécada de 90 do século XX? Quais as características dos estudos e pesquisas? Mostrama importância do espaço, do território? 7 A importância do espaço é obscurecida nas análises, em especial com o avançodo capitalismo e das idéias dominantes sobre o desenvolvimento capitalista. As noçõesde paises desenvolvidos e subdesenvolvidos e os vários termos utilizados para mostraras desigualdades socioespaciais indicam que o “desenvolvimento”, ocorrerá com otempo. O espaço aparece apenas como um suporte, para que com o tempo, as questõesse “resolvam” e se atinja o desenvolvimento8. Ao invés das abordagens ambientais dissolverem a cortina de fumaça que ocultaa importância do espaço, território, tornou-a mais espessa, ocultou ainda mais acomplexidade das relações sociedade e natureza e a importância do espaço. Comoexplicar que um tema que se tornou comum na Geografia não mostrar a importância doespaço, do território?7 - Apontamos a década de 90, mas é preciso considerar outros períodos históricos.8 - Veja-se Rodrigues, Arlete Moysés – A produção e o Consumo do e no Espaço – A problemáticaambiental urbana www.dominiopublico.gov.br
  4. 4. Os elementos e riquezas da natureza foram transformados em mercadorias: osrecursos naturais que atualmente aparecem nas abordagens ambientais como “bemcomum” da humanidade. Uma mercadoria pode ser “bem comum”, quando apropriadaprivadamente? Não se revela com a idéia de “bem comum”, que os recursos naturais sãoapropriados desigualmente, e que a propriedade dos meios de produção, das riquezas éum dos alicerces do modo de produção capitalista, ou seja, o “bem comum” écontraditório com a propriedade e com o capitalismo. Ficam ocultas também as classessociais, as contradições e conflitos. Os conflitos passam a ser disputas entre gerações“presente e futura” (Rodrigues, 2006). Desde o século XVIII as pesquisas científicas tinham preocupações comproblemas de esgotamento de riquezas naturais, anunciavam tragédias, como apontaMcCormick (1992) ao traçar a história do movimento ambientalista. Em 1863, a GrãBretanha aprovou a primeira lei de amplo espectro contra a poluição do ar no mundo ecriou o primeiro órgão de controle da poluição. Porém, leis, agendas, tratados, não temsido eficazes para combater a poluição, esgotamento e destruição de riquezas naturais.Será que está relacionado ao fato de que se utilizam os mesmos instrumentais teóricosque não permitem compreender as contradições e conflitos? Embora as preocupações não sejam novas é preciso considerar que os problemasse agravam, com a aceleração do tempo/espaço, vinculado ao avanço técnico-científico. A poluição, o esgotamento de riquezas não renováveis, a transformação derenováveis para não renováveis, dado o alto teor de poluição e degradação de seusprincípios, suas leis e suas formas de recomposição. De âmbito local, os problemaspassam a ser de âmbito mundial. A bomba atômica demonstra o poder de destruiçãoglobal, independentemente do lugar onde se produz o artefato bélico. Pela primeira vez,na história da humanidade, o potencial destrutivo das indústrias de armamentos, apontaa capacidade de esgotar riquezas naturais e destruir a humanidade. Acelera-se a produção destrutiva, intensifica-se a exploração das riquezasnaturais e dos homens e como diz Hobsbawm: “atualmente somos capazes de tornarinabitável o mundo, devido aos venenos, à poluição ou ao modo pelo qual a indústriamodifica a atmosfera”. (Hobsbawm 2000:6) Internacionalmente, a preocupação ambiental foi difundida com estudos erelatórios como o “crescimento zero”, na Conferência da ONU sobre Meio Ambienteem 1972. Tornou-se mais conhecida com o relatório “Nosso Futuro Comum”, marco da
  5. 5. Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento em 1992, eprincipalmente, com as propostas da Agenda 21 que visam promover o“desenvolvimento sustentável”. A agenda 21 aponta o tempo – um século- e não oespaço como fundamental para pensar as questões ambientais problemáticas. Estes documentos representam os interesses de Estados, de corporaçõesmultinacionais que buscam a permanência de suas condições de produção e consumo,manutenção da divisão territorial do trabalho com o objetivo, não explicito, de garantirsua reprodução ampliada. Após a década de 70 do século XX, mas em especial após a década de 90,aumentam as pesquisas, estudos, projetos, programas, disciplinas científicas, ligadas aotema. Comunidades científicas, de modo geral, utilizam o que consta nestes documentoscomo base para pesquisas e propostas, mesmo que com diferentes matrizes teóricas ecom propostas divergentes. Apesar da proliferação de estudos, pesquisas, cursos, etc. as abordagensambientais obscurecem as formas de apropriação de riquezas. O território no qual seassentam as riquezas e as próprias riquezas: ar, solo, vegetação, passaram para a esferade “bem comum”, ocultando o domínio, o poder de corporações internacionais e depaíses sobre as riquezas. Pesquisas mostram as características de poluição na água (mortandade de peixesfalta de água potável, derrames de óleo); apontam à poluição na atmosfera (poluição,buraco na camada de ozônio); apresentam as mudanças climáticas; apontam devastaçãoe perda de nutrientes no solo e contaminação por agentes químicos; perda dabiodiversidade por desmatamento, caça e pesca predatória. Tenta-se repor a devastaçãode matas com plantações de apenas uma espécie vegetal. Buscam-se alternativas para oesgotamento de combustíveis fósseis (carvão e petróleo), com espécies vegetais queproduzem biodiesel, mas que por sua esgotam o solo, ao reproduzirem as monoculturastão criticadas como devastadoras do solo. Tanto em agendas oficiais como em pesquisas cientificas, apresentam-sepropostas de intervenção como: delimitação de áreas de preservação (parques nacionais,temáticos) sem alterar, na maior parte das vezes, a propriedade das áreas. Há váriosparques e áreas de proteção que permanecem como propriedade privada. 99 - Quando a propriedade permanece privada criam-se mecanismos de compensação para que osproprietários possam edificar em outras áreas o que demonstra a permanência da propriedade privadamesmo quando se trata de um ideal de preservação de matas.
  6. 6. Criam-se novos parâmetros legislativos para a “gestão ambiental”. Define-secomo unidade de análise áreas delimitadas como bacias hidrográficas,institucionalizadas em “comitês de Bacias”. Propõe-se a recomposição de vegetaçãocom monoculturas de espécies, ou preservação de mata nativa. Nas cidades, implantam-se parques urbanos para atingir o índice de verde,definido pela ONU, que elevaria o “bem estar”, independente do que ocasionam navalorização e especulação imobiliária. Implanta-se a coleta seletiva de resíduos sólidospara incrementar a indústria de reciclagem, que tem como pressuposto a economia deriquezas naturais e menores custos. Incentiva-se a separação domiciliar e a coleta dosresíduos sólidos. Não se alteram, porém, os preços de produtos e embalagens quedemonstre que a reciclagem promova o “bem comum”. Atividades não “formais”, como a dos catadores, recebem especial atenção, poishá os que afirmam que promove a inclusão destes trabalhadores no mundo da produçãoe do consumo. Porém, o que se observa é que continuam a viver na extrema pobreza,sem inclusão real no mundo moderno. (Burgos, Rosalina 2009) Argumenta-se que a educação ambiental poderá resolver problemas sem que secompreenda porque denominar de educação ambiental uma forma de treinamento, queem geral, tem sido uma forma de aumentar o volume de resíduos recicláveis. È verdadeque a coleta diminui o volume de resíduos para deposição (os lixões).Será que beneficiam o “bem comum” e promovem o “desenvolvimento sustentável”? Avaliam-se impactos “ambientais” relacionados às indústrias, mineração,aeroportos, portos, grandes conjuntos de unidades habitacionais, geração de energia,exploração de petróleo com os Estudo e Relatório de Impacto Ambiental, semprelimitados a uma área e um tipo de impacto sem análise da totalidade e da sociedade. Osestudos e relatórios de impactos ambientais utilizam novos aportes teóricos? Há pesquisas e movimentos que abordam a contaminação alimentícia buscandoa soberania alimentar. Mas, ao mesmo tempo, aumenta a agricultura com sementestransgênicas, incentivadas por governos, com o argumento de que aumenta a produçãode alimentos. Os que defendem a transgenia não mostram a perda do conhecimento dostrabalhadores do campo e sua sujeição à indústria química. Também não mostram queoutras formas de contaminação podem ser provocadas pelas sementes transgênicas. Idéias de “economizar” riquezas naturais são argumentos para explicitarsustentabilidades, “desenvolvimento sustentável”, inclusão social, cidades sustentáveis,
  7. 7. cidades saudáveis, planejamento ambiental, gestão ambiental, vinculados ao mundo doconsumo, desvinculados de análise da produção.Mudanças Paradigmáticas nas abordagens ambientais? Mas os parâmetros, modelos, teorias, métodos de análises cientificas não foramsignificativamente alterados, para compreender o processo da produção destrutivadesigual e combinada, até pelo contrário, manteve-se os mesmos instrumentaisanalíticos. Deslocou-se a análise da produção para o consumo. Deslocou-se, também, a análise da apropriação e propriedade privada para omeio-ambiente como “bem comum”, ocultando a importância do espaço e do território edificultando que as Geografias humana e física pudessem ter atuação conjunta. Nos documentos que tornaram senso comum o “desenvolvimento sustentável”(Relatório Nosso Futuro Comum e a Agenda 21) o importante é o “tempo”, reafirmandoo ideário do “desenvolvimento”, com o acréscimo de sustentável. Com o tempo, usando tecnologia adequada, com recursos financeirosprovenientes do mundo dito desenvolvido, os problemas se resolverão. O lugar, oespaço, a paisagem, o território, o lugar são abstrações. A hegemonia neoliberalpromoveu intensa fragmentação cultural que oculta a realidade de forma nunca antesverificada, auxiliando, assim, a que não se perceba a importância do espaço. David Harvey quando analisa a lógica territorial do poder diz: “as práticasimperialistas, do ponto de vista da lógica capitalista, referem-se tipicamente àexploração das condições geográficas desiguais sobre as quais ocorre a acumulação decapital, aproveitando-se igualmente das ‘assimetrias’ inevitavelmente advindas dasrelações espaciais de troca” (HARVEY, 2004: 35). É no espaço que se expressam ascondições geográficas desiguais. Ao abstrair-se o espaço, nas abordagens ambientais, sereferenda lógicas territoriais de poder. O domínio dos países passou a ser, no novo imperialismo, realizado por meio docapital financeiro, das comunicações e da demonstração do poderio militar e não maispela conquista direta do território, como ocorria no período colonial. A posse epropriedade dos territórios dos Estados mudaram de significado. Diz Hobsbawm: “Nosentido tradicional Estado nacional se refere a um Estado Territorial sobre o qual opovo que nele vive, a Nação, tem um poder soberano” (Hobsbawm, 2000:30). A idéia de um Estado territorial pertencente a um povo específico alterou-se como novo imperialismo. Verifica-se a “constituição” de inúmeros países, o que mostra a
  8. 8. importância do Estado, apesar dos neoliberais terem como pressuposto que o Estadotem que ser mínimo, para não interferir no mercado. Os estudos enfatizam, em funçãodas teorias neoliberais, os governos e não o Estado Capitalista. É preciso também considerar que os meios de comunicação digital, ampliam epotencializam de maneira nunca antes vista o poder do capital sobre o espaço, o tempo,o corpo e psique humana. Alterou-se o domínio político, financeiro, tecnológico,comunicacional, que os países do centro do sistema exercem sobre os periféricos. Tem-se, assim, maior dificuldade em compreender a importância do espaço, doterritório, do lugar, das comunidades e das classes sociais. Exemplo: as leis de patentesintelectuais demarcam o conhecimento científico de uma descoberta sem considerar oterritório de um país, o povo, o lugar. O domínio e o poder sobre o espaço, sobre oterritório são obtidos pela supremacia tecnológica com o patenteamento doconhecimento cientifico independente do território. Esta alteração, contudo, não implica em menor dependência do território: “ocapital não depende menos do que antes dos Estados territoriais. De certa maneiradepende ainda mais do que nunca, de um mundo de Estados-Nação” (Wood 2004: 55).Porém, se oculta a dependência do território, com os novos ideários da natureza tidoscomo “bem comum” e de abordagens ambientais que conduzem ao “desenvolvimentosustentável”. Se as riquezas naturais constituem um “bem comum” como compreender odomínio territorial dos Estados-Nação? Como entender o domínio de empresas,nacionais e internacionais sobre as riquezas que se localizam em países? Comocompreender que, quando há conflitos entre as empresas globais e os governos, estessão obrigados a negociar como se estivessem tratando com outros Estados? As abordagens ambientais poderiam auxiliar a compreender a complexidadetendo como objetivo preservar o ambiente ao tratar o ambiente como “bem comum”? Para analisar estas e outras questões é necessário um debate aprofundado sobreEstado-Nação, espaço, território, lugar, natureza, conceitos, noções que possibilitem acriação de categorias analíticas para que se entenda a complexidade das relações sociais,da sociedade com a natureza e entender as leis próprias da natureza. (Morin, 2000) 10 A análise da produção e as alterações que ocorre com a compressão do tempo/espaço, derivada e ao mesmo tempo promotora de tecnologias, que aceleram o uso de10 - Utilizamos complexidade no sentido de Complexus como o faz Edgar Morin.
  9. 9. riquezas precisam ser compreendidas para se construir aportes teóricos, que coloquemas questões, para além do senso comum. Como entender as abordagens ambientais teórica e metodologicamente se osproblemas da produção desigual e combinada de produção, distribuição e consumoforam deslocados para o mundo do consumo? Este deslocamento oculta as responsabilidades da produção, remetendo aresponsabilidade aos “consumidores”. Torna mais espessa a cortina de fumaça sobre aimportância do espaço. Os “consumidores” aparentemente não utilizam as riquezasnaturais, apenas consomem produtos advindos da esfera da produção. Como fazer comque os “consumidores” alteram as formas de produção? Com a educação ambiental? O deslocamento discursivo da produção para o consumo11, a ausência deanálises críticas, a falta de aportes teóricos adequados, de metodologias, deixa evidenteque não se demonstra as formas pela qual a sociedade se apropria desigualmente dasriquezas naturais. As categorias de análise da Geografia como espaço, lugar, paisagem, território,se diluem nas abordagens ambientais ou são reafirmadas? Predominam as análises de temas e assuntos específicos, lugares definidos,bairros, micro-bacias urbanas, micro-climas, praças, parques, favelas, áreas depreservação, encostas, áreas degradadas, entre vários outros, sem vínculo com ascategorias analíticas da Geografia. Substitui-se a análise do Estado pela atuação degovernos, fragilizando o entendimento dos processos que interessam a uma Geografiacomprometida com transformações sociais. Vários estudos colocam em destaque problemas específicos, em locaisdeterminados, em fragmentos de espaços e território, com enfoques advindos da agenda21. Na Agenda 21 predominam formas de atuação aespaciais. As abordagens ambientais trouxeram a tona problemas locais, regionais emundiais. Os desastres, as catástrofes, as ameaças de esgotamento, de poluição foramentendidas, por grupos, como decorrentes do modo de produção. Porém quando o temavira moda, torna-se o oposto da critica (Debord, 1997). As pesquisas centram-se emaspectos e problemas localizados, ocultando a importância do espaço e do território, dasriquezas naturais, das classes sociais, do significado do Estado Nação, enfim datotalidade.11 - Rodrigues, Arlete Moysés (idem).
  10. 10. Com a introdução das abordagens ambientais em estudos e pesquisas provocoualteração do paradigma dominante?12 “Um paradigma se constitui quando as “descobertas” não tinham precedentes e assim atraem um grupo duradouro de partidários, afastando-os de outras atividades cientificas dissimulares. Simultaneamente suas realizações foram suficientemente abertas para deixar toda espécie de problema para serem resolvidos pelo grupo redefinido de praticantes da ciência” (Khun, 2007:30). A alteração de um paradigma não ocorre apenas quando se adiciona mais umaspecto nas pesquisas, também não ocorre apenas quando há uma descobertatecnológica. A alteração do paradigma ocorre quando se altera o arcabouço teórico emetodológico, quando novas categorias analíticas permitem compreender astransformações do mundo real. Para uma alteração paradigmática seria necessário quehouvesse confronto com o modelo dominante por meio de teorias, de aplicabilidade e deinstrumentos abrangentes de análises. Um paradigma pode ser alterado por problemas que não eram anteriormenteabordados, problemas que ficavam nas margens, como se fossem desvios do modeloparadigmático. Os problemas ambientais continuam a ser pensados como desvios domodelo de desenvolvimento ideal sem a compreensão da essência do processo. Considerando que as abordagens ambientais adicionaram um aspecto,incorporaram normas, preceitos e temas provenientes de agendas internacionais(Agenda 21), sem novos instrumentais teóricos, metodológicos e analíticos, podemosafirmar que não houve alteração do paradigma dominante. A alteração paradigmáticaimplicaria em compreender as novas questões e em estabelecer controvérsias científicas. Vivemos uma crise paradigmática, mas ainda não temos um novo paradigmacientifico nas abordagens ambientais na Geografia. Uma mudança paradigmática, queprovocaria uma revolução científica, seria entender a dinâmica da natureza, a produçãoe reprodução do espaço, as dinâmicas societárias, em sua totalidade, em suascontradições e conflitos e assinalar a importância do espaço e do território. Propor, debater questões teóricas e instrumentais analíticos de análise para aproblemática ambiental é tarefa difícil. O tema se “incorporou” em várias disciplinascientíficas, sob vários ângulos de observação, diversas escalas de análises, metodologias12 - Utilizamos paradigma científico como expresso por Khun (2007), ou seja, um paradigma sefundamenta em reflexões e realizações, tidas como exemplares pela comunidade cientifica. Incluem leis,teorias, aplicações e instrumentos com modelos abrangentes que passam a orientar coerentemente ospesquisadores.
  11. 11. que atendem a finalidades, interesses divergentes, seguindo os parâmetros deorganismos internacionais como o “Relatório Nosso Futuro Comum e a Agenda 21”. Sem uma revolução científica, sem alteração dos parâmetros de análise, semnovos instrumentais analíticos, não há alteração de paradigmas quer permita entender acomplexidade da produção, distribuição e consumo do espaço. Na maior parte de estudos, propostas, projetos, não se apontam as contradições econflitos decorrentes das formas de apropriação das riquezas naturais. Sugere-se o usode tecnologias para resolver problemas sem atentar que o uso de tecnologia acelerou osproblemas que se quer resolver. Ampliam-se os temas e assuntos de estudos e pesquisas, mas ao seguir preceitosinstitucionais, não se avança com instrumentais teóricos que possibilitariam alterar oparadigma dominante. Há também que considerar que parte significativa dos estudos fixa-se nosresultados e não das causas das mazelas ambientais. Há também os que consideram quesão os pobres, que ocupam áreas impróprias, e a falta de educação ambiental queconduz a degradação. Não se analisa a contradição sobre a necessidade de viver que os obriga a ocuparáreas inadequadas e/ou as delimitadas como de preservação. Faltam comparações entrea área ocupada por uma mansão e a área de um barraco ou casa precária e quanto foiutilizado de material para construir os barracos comparados com as mansões. Osembates entre grupos sociais parecem indicar que uns (os que consideram os pobrescausadores dos problemas) lutam pelo bem comum, enquanto os que buscam uma formade sobreviver, dilapidam o bem comum. As abordagens ambientais apontam tentativas de encontrar solução paraproblemas. Mas, sem explicitação das causas não é possível pensar em soluções ou emaplicabilidade para corrigir desvios. Há poucos estudos que demonstram quem se apropria das riquezas naturais,como se utilizam as riquezas, como as riquezas se transformam em mercadorias(recursos), qual a importância do meio-técnico científico e informacional e quem odomina. Em geral, também, há ausências de explicitação sobre as relações societárias equal o arcabouço teórico e metodológico utilizado.
  12. 12. Difunde-se a idéia de que tratar do meio ambiente possibilita a integração dasciências13 mas a manutenção do paradigma impossibilita a interdisciplinaridade equalquer outra forma de interação entre as ciências e entre as Geografias. A divisão das ciências, o parcelamento do conhecimento em várias disciplinas,com diferentes abordagens teóricas, metodologias de pesquisa, escalas, categoriasanalíticas, demonstram que não houve alteração do paradigma dominante. Assim, ao contrário do que se poderia prever, as abordagens ambientais nãoaproximaram as Geografias física e humana, pelo contrário, aprofundou as dicotomias,tendo em vista que cada uma das “subdivisões” da Geografia utiliza categorias deanálises específicas. Permanece vigente o paradigma simplificador e não um paradigmada complexidade. Observa-se, também, que análises críticas e abrangentes (mega-narrativa) sãopouco utilizadas. Proliferam e predominam estudos específicos (pequena e micronarrativa). A maioria sugere “resolução de problemas”. Como diz Marilena Chauí: as“pesquisas são pensadas como estratégia de intervenção e de controle para aconsecução de um objetivo delimitado” (Chauí, 2006: 66). O ponto de partida e de chegada predominante dos estudos está calcado emdocumentos oficiais que induzem a que as pesquisas na Geografia continuem enfocandoaspectos particulares, procurem a resolução de problemas “locais”. Incorpora-se umanova “dimensão”, um novo “campo de estudos”, sem alterar o paradigma dominante.Considerações finais Grande parte de estudos, projetos, programas, busca a aplicabilidade de técnicase de ações para chegar ao “desenvolvimento sustentável”, sustentabilidade. Asreferências pautam-se nas idéias de que “desenvolvimento sustentável” é aquele queatende as necessidades da geração atual e das gerações futuras. O tempo para se chegar ao ideário é o século XXI, sem espaço e sem território.Existe a possibilidade de administrar o meio ambiente? Quem irá fazer esta gestão?Quem terá autoridade para realizar planos no âmbito mundial?13 - A coordenadora do projeto “A questão ambiental, interdisciplinaridade, teoria social e produçãointelectual na América Latina”, financiado pela FAPESP afirma que devido a seu “caráterinterdisciplinar único” a temática ambiental tem o mérito de apresentar novos problemas e desafios nãocontemplados pelos clássicos das ciências sociais. (Ferreira, Leila – entrevista -19/5/2009 - AgênciaFAPESP Especiais Ambientes latino-americanos) grifos nossos.
  13. 13. A administração das riquezas naturais poderá ser realizada supra -nacionalmente? Como uma agenda para um século poderá ser eficaz e atingir metasretóricas como o de garantir a vida das gerações futuras? As agendas internacionais são assinadas por chefes de Estados, que tem domínioparcial sobre seus territórios. Como diz Harvey (Harvey, 2004) o Estado tem um tempo(sucessão eleitoral) e um espaço de atuação (o território) enquanto o capital atuamolecularmente em espaços que lhe interessam e sem tempo delimitado. A ciência em geral e a Geografia em particular, nas abordagens ambientais, temcomo analisar e intervir na produção do espaço? È possível utilizando técnicas maiseficazes e eficientes, encontrar soluções para um século, como consta da agenda 21? Observa-se que grande parte de estudos se refere a “gestão ambiental” emdiferentes escalas e aspectos: gestão de bacias, gestão de recursos naturais. Quais são osparâmetros teóricos que induzem a idéia de gestão? Quem faz a gestão ambiental? Ao tratar de “gestão ambiental”, é possível analisar as causas dos problemas,sem considerar a dimensão temporal e espacial, sem novos arcabouços teóricos einstrumentais analíticos, para desvendar a realidade? Como pensar em gestão ambiental se a propriedade privada das riquezas não sealtera com a incorporação da “agenda” ambiental? Como se delimitam, regionalizam as“áreas” que deverão ser gestionadas? As ciências, não apenas a Geografia estão permeadas de noções e estratégias deintervenção localizadas, de idéias para encontrar soluções sem atentar para o processode constituição dos problemas, sem apresentar o arcabouço teórico para as análises e, namaior parte das vezes, sem entender que a natureza não tem fronteiras administrativas. A incorporação de abordagens ambientais poderia apontar a importância doespaço e da Geografia, que sempre enunciou tratar das relações sociedade x natureza. No entanto, a incorporação do tema ambiental mais oculta do que desvela aimportância do espaço. È preciso avançar, definir instrumentais teóricos, metodologiasde análises que permitam compreender a complexidade, ultrapassando a abordagemtradicional e/ou o paradigma dominante. Entender as relações da sociedade /natureza no atual período histórico com acompressão do tempo/espaço, com a aceleração de apropriação e uso das riquezasnaturais, produção e reprodução do espaço é uma tarefa essencial e complexa. È preciso analisar os agentes produtores, como se acelera a contaminação derios, mares, a poluição atmosférica, a perda de biodiversidade, a depredação de áreas
  14. 14. florestadas, diminuição do volume de água potável, as mudanças climáticas, as ilhas decalor nas áreas densamente urbanizadas, as doenças ocasionadas por poluição e pelotrabalho realizado em mineração e indústrias químicas, por contaminação de produtosalimentares, entre outros aspectos. Aumentou a complexidade do mundo, mas ainda utilizamos os mesmoinstrumentais analíticos, as mesmas abordagens fracionadas que impedem, dificultam acompreensão da totalidade do mundo e as formas de interação da sociedade x natureza. Estes problemas resultantes da atuação da sociedade, dividida em classes sociais,do aumento de mercadorias circulantes, do tipo de mercadoria e de suas embalagenspassaram de locais para regionais, nacionais e atualmente são mundiais o que altera asformas e os conteúdos dos processos, ainda não suficientemente compreendidos. O objetivo do texto foi apontar como o meio ambiente virou moda, sem aportesteóricos, metodologias, instrumentais analíticos que permitam compreender acomplexidade do mundo atual. Teve como preocupação levantar questionamentos sobrea importância do espaço e seu ocultamento, e como as Geografias abordam estadimensão. Procurou-se também assinalar que embora as abordagens ambientais mostremproblemas reais de poluição, desmatamento, destruição da biodiversidade, mudançasclimáticas, possibilidade de esgotamento de riquezas naturais, novas doençasrelacionadas à poluição do ar, da água e do solo, o arcabouço teórico está restrito asênfases de documentos e agendas oficiais.
  15. 15. Bibliografia citadaBurgos, Rosalina – “Periferias urbanas na metrópole de São Paulo-territórios da base da indústria de reciclagem” – 2009 – Tese de Doutorado- USP-Departamento de Geografia.Brunhes, Jean – “Geografia Humana”– 1962- Editora Fundo de Cultura.Chauí, Marilena –“Simulacro e Poder – Uma análise da Mídia” –2006 – Editora Fundação Perseu Abramo-SP.Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento – “Nosso Futuro Comum”– 1991 – Editora da Fundação Getulio Vargas.Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento - 1992 - “Agenda 21”- 1996- Senado Federal-Brasília.Debord, Guy – “A sociedade do Espetáculo” –1997-Contraponto-RJ.Ferreira, Leila da Costa –“Entrevista-19/5/2009” - 2009 -Agência FAPESP- Especiais Ambientes latino-americanos - http://www.agencia.fapesp.br/materia/10510/especiais/ambientes-latino-americanos.htmHarvey, David – “O novo Imperialismo” 2004 – Edições Loyola- SPHobsbawn, Eric. “O novo século: entrevista a Antonio Polito”. 2000. São Paulo: Cia. das Letras.Kuhn, Thomas “ A estrutura das Revoluções Científicas” –2007 - Perspectiva - SP.McCormick (1992) John – “Rumo ao Paraíso – A história do Movimento Ambientalista” – Editora Relume Dumara –R.J.Morin, Edgar e Moigne, Jean Louis –“A inteligência da complexidade” -2000 Editora.Petrópolis- SP.Rodrigues, Arlete Moysés – “Produção e Consumo do e no espaço – A problemática Ambiental Urbana” - 2006- www.dominiopublico.gov.br - “Desenvolvimento Sustentável: dos conflitos de classes para o conflito de gerações” – 2006 – in Panorama da Geografia Brasileira –Ana Blume Editora. Organizado por Silva, J.B; Lima, L.C e Dantas, E.W.C.Wood, Ellen Meiksin. “Imperialismo dos EUA:Hegemonia Econômica e poder militar”. Revista Critica Marxista, Revan, 2004, nº 18.

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