Tempo em Memorial do Convento

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Tempo em Memorial do Convento

  1. 1. TEMPO (PÁG. 277-278 – MANUAL)Tempo diegético/da história - Trata-se do tempo em que decorre a ação (28 anos) - Início da narrativa – 1711 - Rei tinha casado há quase três anos com D. Maria Ana Josefa, casamento esse que teve lugar em1708 – p. 11 «D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos…» - Final da narrativa - 1739, aquando da realização de um auto-de-fé onde são mortos António José da Silva(personagem referencial) e Baltasar Mateus (personagem ficcional) p. 359 «De três sei eu (…) António José da Silva,dos mais não ouvi falar.» - Fluir do tempo - é sugerido pelas transformações sofridas pelas personagens e por alguns espaços eobjetos ao longo da obra: - p. 71 - "Para D. Maria Ana é que lhe vem chegando o tempo. A barriga não aguenta crescer mais por muito que a pele estique…”; - p. 166 ou 216 (parágrafo que começa na p.165 «Vive o padre nas varandas…») “…e já lá vão onze anos passados…” - referência temporal que se integram em marcações referenciais; - p. 147 - "Enferrujam-se os arames e os ferros, cobrem-se os panos de mofo, destrança-se o vime ressequido, obra que em meio ficou não precisa envelhecer para ser ruína."; - p. 340 ou 450 - "Baltasar não tem espelhos, a não ser estes nossos olhos que o estão vendo a descer o caminho lamacento para a vila, e eles são que lhe dizem, Tens a barba cheia de brancas, Baltasar, tens a testa carregada de rugas, Baltasar, tens correado o pescoço, Baltasar, já te descaem os ombros, Baltasar, nem pareces o mesmo homem, Baltasar (. . .)".Referências cronológicas: (correspondem, muitas vezes, ao tempo da história [referências a Blimunda e Baltasar]e ao tempo histórico [referências ao reinado de D. João V]) As referências cronológicas mais importantes são as seguintes:· 1717 - bênção da primeira pedra do Convento de Mafra. – p. 138 - «Enfim, chegou o dia da inauguração…»; p. 140«Ai o dia seguinte, passado que foi. (…), dezassete de Novembro deste ano da graça de mil setecentos e dezassete,aí se multiplicaram as pompas e as cerimónias no terreiro»; p. 141 - «Assim desceu el-rei trinta degraus para ointerior. (…) Como as vontades, dirá Blimunda.»· 1717 - Baltasar e Blimunda regressam a Lisboa para trabalhar na passarola do padre Bartolomeu de Gusmão. – p.143 «Quando o tempo levantou, passada uma semana…»· 1729 - casamento de D. José com Mariana Vitória e de Maria Bárbara com o príncipe D. Fernando (VI deEspanha). p. 309 «Porém ainda se encontram famílias felizes. A real de Espanha é uma. A de Portugal é outra.Casam-se filhos daquela com filhos desta, da banda deles…» e p. 311 «Assim acautelado, largou João Elvas deLisboa e passou Aldegalega nos primeiros dias deste mês de Janeiro de mil setecentos e vinte e nove, e ali sedemorou assistindo ao desembarque das carruagens…» 1
  2. 2. · 1730 - no dia 22 de Outubro, o dia do quadragésimo primeiro aniversário do rei, realiza-se a sagração do Conventode Mafra. – p. 365 - «Enfim, chegou o mais glorioso dos dias, a data imorredoira de vinte e dois de Outubro do anoda graça de mil setecentos e trinta, quando el-rei D. João V faz quarenta e um anos e vê sagrar o mais prodigiosodos monumentos que em Portugal se levantaram»· 1739 - momento em que Blimunda vê Baltasar a ser queimado em Lisboa, num auto-de-fé (final da obra). p. 359«De três sei eu (…) António José da Silva, dos mais não ouvi falar.»Tempo histórico: Logo no início do romance, podemos inferir que a ação tem início no ano de 1711, através da seguintereferência do narrador: "(. ..) S. Francisco andava pelo mundo, precisamente há quinhentos anos, em mil duzentos eonze (. ..)" (p. 21)Tempo do discurso: - O tempo do discurso é revelado através da forma como o narrador relata os acontecimentos. - Linearidade e respeito pela cronologia e pela datação dos eventos históricos tratados. - O narrador principal, heterodiegético e afastado temporalmente da intriga que organiza e controla, utilizacom alguma insistência anacronias.Analepses (recuos no tempo) As analepses explicam, geralmente, acontecimentos anteriores, contribuindo para a coesão da narrativa.Exemplos de analepses:– p. 35 parágrafo «Este que por desafrontada…» - «na grande entrada de onze mil homens que fizemos emOutubro do ano passado e que terminou com perda de duzentos nossos…»;- p. 45 parágrafo «Tornou a conversa…» - «Mas Agosto também não é bom, como ainda o ano passado se viu…»;- p. 110 «onde há menos de um ano foi enterrado um rapazito…» frase anterior ao parágrafo «Enfim, sendo tãoboas as disposições…»;- p. 196 parágrafo «O que, finalmente, veio a saber-se…» - «desde mil seiscentos e quarenta, durante mais deoitenta anos metidas em tribunais…».Prolepses (ações futuras) A antecipação de alguns acontecimentos serve os seguintes objectivos: - p. 42 ou 54 – parágrafo «Sete-Sóis atravessou o mercado do peixe…» - antecipa um episódio sobreBaltasar, anunciando que irá trabalhar no açougue por onde passa quando chega a Lisboa; - - p.95 ou 123 – parágrafo «Quando calha, vem o padre Bartolomeu Lourenço…» - referência ao número debastardos do rei D. João V, fruto das conhecidas ligações que mantinha com religiosas, sendo a mais famosa amadre Paula do convento de Odivelas; 2
  3. 3. - p.109 – parágrafo «Ao outro dia vieram a festejar…» - profetiza a morte do sobrinho de Baltasar, bemcomo a do Infante D. Pedro, para daí a três meses. Esta prolepse permite-lhe também a descrição antitética doscultos funerários de cada uma das personagens, sendo, por isso, uma crítica social; - p.144 – parágrafo «Quando o tempo levantou, passada uma semana…» - anuncia a morte de Marta Maria,mãe de Baltasar, funcionando a construção do convento como orientação e balização temporal; - p. 230 – parágrafo «Domenico Scarlatti pedira licença ao rei…anuncia a morte de Manuela Xavier, filha doVisconde de Mafra, para dali a dez anos e de Álvaro Diogo, morte ligada ao convento - p.328/329 – parágrafo «Àceia, Álvaro Diogo disse que as estátuas…»; - p. 333/334 – parágrafo «Entraram no quintal. O luar já era …» - alusão a episódios da vida futura deGabriel, sobrinho de Baltasar.‚ Comentários e comparações entre épocas diferentes e que indicam, frequentemente, o tempo da escrita - estatutodo narrador distanciado e irónico ® p. 139 frase anterior ao parágrafo «Benzeu-se a cruz no primeiro dia…» - a descrição dos preparativospara a inauguração do convento de Mafra aponta para a preferência das cores vermelho e verde, o que sugere aonarrador que estas serão as escolhidas aquando da implementação da república para a bandeira nacional; ® p. 158 ou 206 – [parágrafo que inicia na p.155 «Em Lisboa ninguém dormiu…»] «…um dia, as praiasdeste jardim, por acaso à beira mar plantado…e quando saem não os reconhece o vizinho.» - a referência àchegada de africanos à costa portuguesa, ligada ao retorno dos ex-colonos por alturas do 25 de Abril; ® a figura da Severa, apenas lembrada de passagem, por serem referidas as mordomias de Lisboa,oriundas dos bairros típicos da capital.‚ Há outras prolepses que são ainda mais significativas, porque surgem pela simples referência a elementos ligadosà formação da identidade histórico-cultural portuguesa, apenas sugeridos por semelhanças existentes entre épocashistóricas diferentes e que indicam, frequentemente, o tempo da escrita: ƒ p.161 ou 210 - [parágrafo que inicia na p.155 «Em Lisboa ninguém dormiu…»] «…ai o destino das flores,um dia as meterão nos canos das espingardas, os meninos de coro…» - os molhos de cravos nas pontas das varasdos capelães levam o narrador a referir o futuro que espera esta espécie de flores que, anos volvidos, serão osímbolo de uma revolução; ƒ p. 161 - [parágrafo que inicia na p.155 «Em Lisboa ninguém dormiu…»] «… se daqui a duzentos outrezentos anos começam a chamar basílicas… cabo novo na minha basílica» - a descrição da cúpula da basílica,construída a partir de vários gomos, sugere ao narrador semelhanças com um guarda-chuva, o que o leva a utilizarum termo pelo outro como se fossem sinónimos; ƒ p. 220 – parágrafo «Sabia já Baltasar que o sítio…» - a referência ao número de frades residentes noconvento de Mafra no momento das invasões francesas; ƒ p. 37 – parágrafo «Veio andando devagar…». - o resultado político da sucessão em Espanha com areferência à subida ao trono quer de Carlos III de Áustria, quer de Filipe, o pretendente francês; 3
  4. 4. ƒ p. 223 – parágrafo «Enfim, desce pelo carreiro que subiu…» - a propósito das viagens que a passarolapodia possibilitar, existe uma referência à ida à lua; ƒ p. 50 – parágrafo «Porém, hoje é dia de alegria geral…» - o anúncio do desaparecimento dos autos-de-fé,passatempo muito apreciado na época, comparado à própria tourada à portuguesa, onde está patente a ironia donarrador e a sua crítica ao gosto que, neste caso, os portugueses sempre manifestaram por espectáculos onde épatente o sofrimento do outro, seja ele pessoa humana ou vida animal; ƒ p. 226 – parágrafo «Baixou Baltasar à vila pelo carreiro…» - a propósito dos parcos divertimentos daépoca, surge a referência ao cinema e aos aviões; ƒ p. 184 – parágrafo «Procurava cada qual, por seu próprio caminho…» - a referência à composição danona sinfonia de Beethoven a propósito da música da época e do músico da corte, Domenico Scarlatti. ‚ Narrador, distanciado da ação que narra, apresenta-se como cicerone de uma visita guiada atual a algunsvisitantes do palácio de Mafra - p. 266 – parágrafo «Como foi, digam-no outros…» - «…e aos visitantes, antes depassarem à outra sala, É só uma pedra…»; ‚ Interpelações diretas que faz ao leitor da obra que, no entender do narrador, não dá o devido valor aostrabalhos levados a cabo por aqueles homens na construção do convento - p.267 ou 350 – parágrafo «Descesse aestrada a direito…» - «se achar que não tem o caso supremas dificuldades … do lugar e do tempo desta página.»,quebrando as clássicas barreiras formais, delimitadoras, entre o processo de escrita e o processo de receção ou deleitura. ÄEste distanciamento permite-lhe dar conta de acontecimentos e até de teorias desconhecidas da épocacomo, por exemplo, ser a terra redonda (p. 66 – parágrafo «Subiram a S. Roque…»). ÄHá, contudo, a consciência da não correspondência entre o tempo da história e o tempo do discurso porparte do narrador e essa não-correspondência tem um objetivo muito preciso, de que logo a seguir dá conta: p. 266(Parágrafo «Como foi, digam-no outros…») «É uma pedra só, por via deste e outros tolos orgulhos é que se vaidisseminando o ludíbrio geral…homens que não fizeram filho nenhum à rainha e eles é que pagam o voto, que selixam, com perdão da anacrónica voz». A simulação desta visita visa estabelecer a oposição entre dois temposdiferentes, na tentativa de mudar a visão da História ou até mesmo de corrigi-la, lembrando homens e tarefasque, de outra forma, seriam esquecidos porque não registados, mas nem por isso menos verdadeiros. Há aqui aconsciência clara e lúcida de que o registo histórico oficial é apenas um filtro possível, logo incompleto econsequentemente errado, porque extremamente parcial. Ä Preocupação no estreitamento de laços entre dois tempos diferentes, em que o presente se reflete e serevê no passado e em ambos se tocam e se interpenetram, na medida em que não lhes são colocadas barreirasdelimitadoras. 4
  5. 5. Elipses (lacunas temporais) - p. 121 ou 158 «Bartolomeu Lourenço foi à quinta de S. Sebastião da Pedreira, três anos inteiros haviampassado desde que partira…»; - p. 125 ou 162 «quem voltou há quatro anos foi o filho, o Baltasar…» parágrafo que inicia na p. 120 «Comos calcanhares…»; - p. 143 «Quando o tempo levantou, passada uma semana, partiram…»; - 151 parágrafo «Tornou o padre…» - «Assim foi o inverno passando, assim a primavera…»Sumários (sínteses temporais) - p. 151 ou 197 «Tomou o padre os estudos, já bacharel, já licenciado, doutor não tarda…» e «chegava,guardava na arca as esferas… já estava lendo nas aulas». 5

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