Jacob camões pintura

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Jacob camões pintura

  1. 1. Camões e a pintura Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela; Mas não servia ao pai, servia a ela, E a ela só por prémio pretendia.  Os dias, na esperança de um só dia, Passava, contentando‐se com vê‐la; Porém o pai, usando de cautela, Em lugar de Raquel lhe dava Lia.  Vendo o triste pastor que com enganos Lhe fora assim negada a sua pastora, Como se a não Ivera merecida,  Começa de servir outros sete anos, Dizendo: — Mais servira, se não fora Pera tão longo amor tão curta a vida!  William Dyce, Jacob conhece Raquel (1850)   Camões 
  2. 2. Elementos que compõem a  imagem •  Em destaque:  •  Duas personagens ‐ um homem e  uma mulher;  •  Um muro/Uma fonte em pedra e  um pote para ir buscar água  (pertença da mulher); •  Em segundo plano, ao fundo:  •  Uma edificação à esquerda em  tons terra;  •  Montanhas à direita; •  Cenário campestre com um rebanho de  ovelhas; 
  3. 3. Caracterização das personagens  em destaque •  Homem:  •  Indumentária de pastor;  •  Curva‐se perante a mulher amada,  numa a?tude servil, com os  joelhos ligeiramente fle?dos como  quem se vai ajoelhar;  •  Olhar apaixonado e sorriso franco;  •  Agarra a mão da mulher amada e  coloca‐a sobre o peito em sinal de  amor. O outro braço encontra‐se  sobre os ombros da personagem  feminina;  •  Pequeno apontamento vermelho  nas suas vestes – símbolo do amor  que sente por ela; 
  4. 4. Caracterização das personagens em  destaque •  Mulher:  •  Indumentária simples de pastora ou  mulher do campo humilde;  •  Descalça – símbolo da sua simplicidade e  humildade;  •  Posição recatada do rosto que não  enfrenta/olha diretamente para o homem  amado;  •  Leve inclinação do corpo que se afasta da  personagem masculina, embora lhe dê a  mão e permita que esta seja colocada junto  ao coração do pastor;  •  Cabelo apanhado como sinal de recato;  •  Pequeno apontamento vermelho nas suas  vestes (lenço na cabeça) – símbolo do amor  que sente por ele;  •  Supostamente vai à fonte (já que tem o  pote junto de si), a?vidade Tpica das  donzelas da época camoniana;   •  Loura, de tez nívea, graciosa, ideal de  mulher petrarquista. 
  5. 5. Parte superior da pintura (símbolo da espiritualidade, do mundo inteligível)  •  Existe a aproximação _sica, real das personagens, o que exprime o desejo do pastor de efeIvar  o seu amor;  •  Representação de um céu sem nuvens e por isso promissor de uma ascensão conseguida.  Parte inferior da pintura (símbolo da materialidade, do mundo sensível) •  Existe uma separação _sica das personagens, embora a posição do pastor indique uma tentaIva  de aproximação e de subserviência; •  Representação do rebanho como pano de fundo e que simultaneamente preenchem o espaço  de separação entre os amantes. (Se por um lado o rebanho mantem a separação, por outro lado  permite a aproximação, já que este encontro amoroso acontece durante a aIvidade laboral da  personagem masculina.  
  6. 6. Parte esquerda da pintura  Parte direita da pintura  (símbolo do presente ou  (símbolo do futuro)  passado recente)  •  Rosto do pastor que •  Posição do pastor de  expressa o amor imenso  subserviência;  que sente pela •  Representação do  personagem feminina;  rebanho;  •  Mãos enlaçadas sobre o •  Imagem ao longe de uma  coração do pastor como  edificação senhorial;  símbolo desse amor •  No presente/Passado  presente e futuro, já que  recente, Jacob trabalha  se encontram cortadas  como pastor, cuidando de  pela linha verIcal;  um rebanho de ovelhas,  •  Presença integral de  numa aItude servil  Raquel, como a pessoa  perante o seu senhor;  que se deseja no futuro e •  “Sete anos de pastor  pela qual se fazem  Jacob servia/Labão”.   sacri_cios no presente;  •  “...a ela só por prémio  pretendia”;  •  “...na esperança de um só  dia”.  
  7. 7. Sete anos de pastor Jacob servia  Labão, pai de Raquel, serrana bela;  Camões e a pintura  Mas não servia ao pai, servia a ela,  E a ela só por prémio pretendia.    Os dias, na esperança de um só dia,  Passava, contentando‐se com vê‐la;  Porém o pai, usando de cautela,  Em lugar de Raquel lhe dava Lia.    Vendo o triste pastor que com enganos  Lhe fora assim negada a sua pastora,  Como se a não Ivera merecida,    Começa de servir outros sete anos,  Dizendo: — Mais servira, se não fora  Pera tão longo amor tão curta a vida!  Camões  William Dyce, Jacob conhece Raquel (1850) O  quadro  Jacob  conhece  Raquel  de  William  Dyce  espelha  na  perfeição  o  conteúdo  do  poema  “Sete  anos  de  pastor  Jacob  servia”  de Camões. A  perseverança  daquele  que  ama  verdadeiramente  é  representada  no  poema  através  da  recriação  do  episódio  bíblico  de  Jacob  que compromete‐se  com  Labão  em  trabalhar  para  si  como  pastor  durante  sete  anos,  a  fim  de  poder  casar  com  sua  filha  Raquel.  Jacob “passava” “os dias” “na esperança de um só dia”, o dia em que finalmente poderia casar com a mulher amada, no entanto passado esse tempo, Labão concedeu‐lhe a sua outra filha (Lia). Jacob comprova o seu profundo e verdadeiro amor por Raquel, sendo persistente e comprometendo‐se a trabalhar mais sete anos para que o seu desejo fosse alcançado.  Este episódio é representado na pintura através de um possível encontro entre os dois intervenientes que revelam o seu amor através da sua  expressão  corporal,  na  medida  em  que  Jacob  encontra‐se  numa  posição  de  subserviência  e  total  dedicação  à  mulher  amada,  e Raquel, para além de ser a representação da mulher ideal petrarquista, tão cara a Camões, mostra o recato próprio de uma donzela da época, através da ligeira inclinação do seu corpo que se afasta do dele. A presença do rebanho é também crucial para contextualizar toda esta situação de enamoramento e de sacri_cio do pastor, rebanho esse que simultaneamente os aproxima e os afasta, na medida em que Jacob está perto dela pois trabalha como pastor para o seu pai, mas são igualmente os, afinal, catorze anos de trabalho que os mantêm separados,  separação  essa  visível  na  parte  inferior  do  quadro,  relaIva  ao  mundo  real.  O  amor  infinito  de  Jacob  por  Raquel  está  bem patente na parte direita do quadro através da expressão facial e olhar apaixonado do pastor e das mãos enlaçadas sobre o seu coração como  símbolo  desse  amor  presente  e  futuro,  já  que  se  encontram  cortadas  pela  linha  verIcal.  A  presença  integral  de  Raquel,  como  a pessoa que se deseja no futuro e pela qual se fazem sacri_cios no presente é a comprovação de que “...a ela só por prémio pretendia” e que a vida de Jacob exisIa “...na esperança de um só dia”, o dia em que finalmente pudessem viver maritalmente. Em suma, tanto na poesia de Camões, como na pintura de William Dyce, o amor verdadeiro é posto em evidência através de um episódio que comprova a sua grandeza e plenitude. 

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