Análise do poema "Isto" Fernando Pessoa

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Análise do poema "Isto" Fernando Pessoa

  1. 1. Isto Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração. Tudo o que sonho ou passo, O que me falha ou finda, É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda. Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé, Livre do meu enleio, Sério do que não é. Sentir? Sinta quem lê! Assunto: Concretização pessoal da prática poética anunciada em “Autopsicografia”. Em “Isto”, é utilizada a primeira pessoa do singular de modo a particularizar o fingimento e a criação artística. Assim, o sujeito poético assume e clarifica a sua posição relativamente à racionalização dos sentimentos (ele sente com a imaginação, não usa o coração). Esclarecimento do verbo "Fingir”: • não é o mesmo que "mentir”: • não há mentira no ato de criação poética; • o fingimento poético resulta da intelectualização do "sentir", da racionalização dos sentimentos vividos pelo sujeito poético. • ao negar o "uso do coração", o sujeito poético aponta para a simultaneidade dos atos de "sentir" e "imaginar", apresentando-nos a obra poética como uma espécie de síntese onde o sentimento surge filtrado pela imaginação criadora.
  2. 2. Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração. Tudo o que sonho ou passo, O que me falha ou finda, É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda. Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé, Livre do meu enleio, Sério do que não é. Sentir? Sinta quem lê! Divisão do poema 1ª parte: • Primeira quintilha: • Apresentação da tese a defender: • O facto do poeta não sentir com o «coração» o que escreve, não significa que minta, pelo contrário ele “simplesmente” sente com a imaginação, isto é, o poeta filtra a emoção através da “imaginação”, sendo a imaginação a concentração do sensível e do intelectual; • Utilização expressiva do advérbio “simplesmente” – destaca a simplicidade da sua teoria e arte poéticas, não ficando excluída uma certa ironia ao reprovar, desta forma, todos aqueles que o criticam por assumir esta postura. • Esta estrofe remete para a incompreensão do fingimento poético, (supostamente) originada pelo poema “Autopsicografia”. O sujeito nulo indeterminado expresso na 1ª estrofe concretiza todos aqueles que criticaram o sujeito poético relativamente à sua teorização do ato poético. O sujeito poético insurge-se e refuta esta crítica através da frase declarativa “Não.” constituída apenas pelo advérbio de negação que aqui assume grande expressividade.
  3. 3. Divisão do poema 2ª parte: • Segunda quintilha: • Desenvolvimento e fundamentação filosófica da tese: • a necessidade de utilizar a imaginação na expressão das emoções, prende-se com o facto do poeta pretender ultrapassar o que lhe «falha ou finda» e contemplar «outra coisa»; • O ato de sentir não é a expressão do imediato, mas do pensado; • A realidade onde mergulha o poeta é apenas a aparência ou o «terraço» que encobre «outra coisa»: as ideias, a obra poética, o que se relaciona com a consciência do mundo sensível e do mundo inteligível. Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração. Tudo o que sonho ou passo, O que me falha ou finda, É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda. Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé, Livre do meu enleio, Sério do que não é. Sentir? Sinta quem lê! Comparação da 2ª estrofe: A comparação presente na 2ª estrofe evidencia o facto de a realidade que envolve o sujeito poético ser apenas a "ponte" para "outra coisa": a obra poética, expressão máxima do Belo.
  4. 4. Divisão do poema 3ª parte: • Terceira quintilha: • Conclusão: • O sujeito poético escreve no meio da realidade que o cerca, sabe que essa realidade o seduz, mas não se deixa seduzir, porque busca o mundo intelectual; • O sujeito poético liberta-se do que «está ao pé», que é a verdade para aqueles que dizem que finge ou mente tudo o que escreve, e que vivem e só aspiram ao mundo sensível, em busca daquilo que é verdadeiro e belo, «a coisa linda» que pertence ao mundo inteligível; • A expressão "Por isso”, de valor conclusivo/ explicativo, espelha a recusa do sujeito poético quanto ao facto da poesia ser a expressão imediata das sensações. O sentir, no sentido convencional do termo, é remetido para o leitor. Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração. Tudo o que sonho ou passo, O que me falha ou finda, É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda. Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé, Livre do meu enleio, Sério do que não é. Sentir? Sinta quem lê!
  5. 5. Último verso: • Resposta irónica ao primeiro verso, dirigindo-se, por isso, aos que se entregam às emoções: os leitores. «Sentir com o coração» pode ser próprio de quem lê, não do poeta. • O leitor fica limitado à dor sentida; o poeta, pela imaginação ilimitada, verdadeira força demiúrgica (miraculosa), pensa infinitamente o que sente (o que o irá levar à dor de pensar); • Esta ironia deixa margem para a reflexão e para o dinamismo intelectivo que fica a desenvolver-se na mente do leitor. Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração. Tudo o que sonho ou passo, O que me falha ou finda, É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda. Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé, Livre do meu enleio, Sério do que não é. Sentir? Sinta quem lê! Último verso – confirmação da teoria da arte poética, relegando o sentimento para o leitor (tal como em “Autopsicografia”, quando afirma “Na dor lida sentem bem”). “Sentir” emocionalmente pertence ao leitor e “sentir” racionalmente ao poeta.
  6. 6. Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração. Tudo o que sonho ou passo, O que me falha ou finda, É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda. Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé, Livre do meu enleio, Sério do que não é. Sentir? Sinta quem lê! Aspetos formais Advérbio de negação – o uso do advérbio de negação «não» seguindo de ponto final, o que forma uma frase declarativa, confere um tom de convicção total face ao que anteriormente foi dito (nega completamente o facto do poeta poder ser um mentiroso). Utilização da 1ª pessoa do singular – remete para a personalização da imaginação, da intelectualização do sentir. Utilização do advérbio «simplesmente» - marca a exclusividade da emoção intelectualizada. Frase do tipo interrogativo e exclamativo no final do poema – imprime uma certa dinâmica e desencadeia um processo de reflexão por parte do leitor.
  7. 7. Polissemia do verbo «sentir» - na expressão, «sinto com a imaginação», o verbo adquire um significado pouco usual, uma vez que pretende mostrar que o poeta intelectualiza a emoção com a imaginação, já no último verso «Sentir? Sinta quem lê!» o verbo, surge no seu significado convencional , assumindo uma conotação pejorativa. Utilização de palavras prosaicas – utilização da palavra «coisa», para designar algo que está para além do universo sensível, a que normalmente se refere. Utilização de quintilhas com versos de seis sílabas com esquema rimático ababb – gosto pela poesia tradicional, popular. Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração. Tudo o que sonho ou passo, O que me falha ou finda, É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda. Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé, Livre do meu enleio, Sério do que não é. Sentir? Sinta quem lê!
  8. 8. Recursos estilísticos Aliteração em /s/ - 3 últimos versos da 1ª estrofe, 1º, 4º e 5º versos da 2ª estrofe e último verso da 3ª estrofe - aponta para a questão primordial do poema: necessidade de distinção entre o sentir convencional e sentir artístico. Encavalgamento – 1º e 2º versos; 3º e 4º versos da 1ª estrofe; 4 primeiros versos da 2ª estrofe; 1º e 2º versos da 3ª estrofe – confere dinamismo e ritmo ao poema. Passagem de sons fechados e nasalização (1ª estrofe), para sons abertos e inexistência de sons nasais (3ª estrofe) – passagem de uma situação de arrastamento para uma situação de clarividência ou convicção. Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração. Tudo o que sonho ou passo, O que me falha ou finda, É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda. Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé, Livre do meu enleio, Sério do que não é. Sentir? Sinta quem lê!

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