Análise do poema "Gato que brincas na rua" - Pessoa

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Análise do poema "Gato que brincas na rua" - Pessoa

  1. 1. Dor de pensar Gato que brincas na rua Como se fosse na cama, Invejo a sorte que é tua Porque nem sorte se chama. Bom servo das leis fatais Que regem pedras e gentes, Que tens insAntos gerais E sentes só o que sentes. És feliz porque és assim, Todo o nada que és é teu Eu vejo-­‐me e estou sem mim, Conheço-­‐me e não sou eu. Janeiro de 1931 • Recurso aos símbolos tradicionais: • A imagem-­‐símbolo do gato, que de forma insAnAva e natural, brinca na rua; • Fator de inveja: • O sujeito poéAco gostaria de ter o viver insAnAvo do gato, a sua irracionalidade e, consequentemente, a sua felicidade de não pensar; • O sujeito poéAco inveja a incapacidade de racionalização do animal. • Consciência da fragmentação: • Consciência do sujeito poéAco da fragmentação interior que o domina, «vejo-­‐me e estou sem mim»; • Auto-­‐análise permanente: • «Conheço-­‐me e não sou eu», no fundo o sujeito poéAco revela o seu desconhecimento de si próprio, a estranheza do “eu” em relação a si mesmo.
  2. 2. Gato que brincas na rua Como se fosse na cama, Invejo a sorte que é tua Porque nem sorte se chama. Bom servo das leis fatais Que regem pedras e gentes, Que tens insAntos gerais E sentes só o que sentes. És feliz porque és assim, Todo o nada que és é teu Eu vejo-­‐me e estou sem mim, Conheço-­‐me e não sou eu. Caracterização do gato m símbolo tradicional; m é um «servo das leis fatais/Que regem pedras e gentes»: m vive insAnAvamente, brincando «na rua» com «insAntos gerais»; m “[sente] só o que [sente]”, sem racionalizar as suas aAtudes, por isso é feliz, porque, embora não tenha «nada», é autênAco. Causas que jus3ficam a inveja que o sujeito poé3co sente em relação ao felino m O gato tem a inconsciência da vida, vive segundo as leis naturais e os seus insAntos; m Não pensa no que sente e vive e é feliz assim, com o «nada» que é seu. m O sujeito poéAco, porque é consciente da sua condição, não é feliz nem se reconhece, o que o leva ao auto-­‐conhecimento e à perda de idenAdade, «Conheço-­‐me e não sou eu», ao contrário do gato que «[sente] só o que [sente]», por esta razão o gato não sofre a dor de pensar, como o sujeito poéAco, que pensa o que sente. Significado do verso «E sentes só o que sentes» m Este verso transmite a ideia da simplicidade da vida do gato, da sua vivência simples. O felino não pensa, limita-­‐se a senAr.
  3. 3. Figuras de es3lo Comparação -­‐ «Gato que brincas na rua/Como se fosse na tua cama» -­‐ reforça a autenAcidade, simplicidade, inconsciência e ingenuidade do gato. Gato que brincas na rua Como se fosse na cama, Invejo a sorte que é tua Porque nem sorte se chama. Bom servo das leis fatais Que regem pedras e gentes, Que tens insAntos gerais E sentes só o que sentes. És feliz porque és assim, Todo o nada que és é teu Eu vejo-­‐me e estou sem mim, Conheço-­‐me e não sou eu. Aliteração -­‐ «E sentes só o que sentes» e «És feliz porque és assim» -­‐ intensifica a capacidade de senAr do gato e a sua própria inconsciência; reforça a felicidade do gato, assim como a sua inconsciência. Valor da úl3ma estrofe na construção de sen3dos do poema m Após a descrição da vida do gato, o sujeito poéAco concluiu que o felino é feliz porque não pensa na vida e nada possui, uma vez que é inconsciente perante a sua existência. Já o sujeito poéAco, que é consciente de si, inveja o gato devido à sua inconsciência, pois ele, que é consciente e pensa a vida, não se consegue ver, nem conhecer, o que revela auto-­‐ conhecimento e perda de idenAdade, pois conhecendo-­‐se quesAona a sua própria idenAdade, o que o leva à dor de pensar.
  4. 4. Na temáAca pessoana dor de pensar surge a condenação de se ser lúcido e a impossibilidade de viver simplesmente e inconsciente perante a fragilidade da vida e inexorabilidade da morte. O desejo de a3ngir a inconsciência, para ser feliz, está expresso em «Ela canta, pobre ceifeira» e «Gato que brincas na rua», que espelham a inveja que sente dos seres comuns, ansiando «ter a [sua] alegre inconsciência,», mas «a consciência disso!», o que se revela um paradoxo que lhe impossibilita usufruir da vida que «é tão breve». É o facto de analisar e intelectualizar tudo, «o que em mim sente stá pensando», e não «[senAr] só o que [sente]», revelador da dialécAca senAr/pensar, que provoca a dor de pensar e a dúvida sobre a u3lidade do pensamento, chegando mesmo a provocar-­‐lhe uma profunda angús3a existencial, afirmando «Conheço-­‐me e não sou eu». Concluindo, Pessoa, condenado à dor de pensar, apercebe-­‐se que não consegue alcançar a inconsciência desejada, o que lhe causa sofrimento, restando-­‐lhe, apenas, a certeza da efemeridade da vida na «terra» e impossibilidade de a usufruir.

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