"Dona fea" e "Roi Queimado"

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Análise das cantigas "Dona fea" e "Roi Queimado" - lírica trovadoresca - cantigas satíricas.

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"Dona fea" e "Roi Queimado"

  1. 1. Can$gas de Escárnio e Maldizer Ai, dona fea, foste-vos queixar que vos nunca louv'en [o] meu cantar; mais ora quero fazer um cantar en que vos loarei toda via; e vedes como vos quero loar: dona fea, velha e sandia! Dona fea, se Deus me perdon, pois avedes [a] tan gran coraçon que vos eu loe, en esta razon vos quero já loar toda via; e vedes qual será a loaçon: dona fea, velha e sandia! Dona fea, nunca vos eu loei en meu trobar, pero muito trobei; mais ora já un bon cantar farei, en que vos loarei toda via; e direi-vos como vos loarei: dona fea, velha e sandia! Joan Garcia de Guilhade, CV 1097, CBN 1486 Roi Queimado morreu con amor en seus cantares, par Sancta Maria, por Da dona que gran ben queria: e, por se meter por mais trobador, porque lhe ela non quis ben fazer, feze-s'el en seus cantares morrer, mais resurgiu depois ao tercer dia! Esto fez el por üa sa senhor que quer gran ben, e mais vos en diria: por que cuida que faz i maestria, enos cantares que faz, á sabor de morrer i e des i d'ar viver; esto faz el que x'o pode fazer, mais outr'omem per ren' nono faria. E non á já de sa morte pavor, senon sa morte mais la temeria, mais sabe ben, per sa sabedoria, que viverá, des quando morto for, e faz-[s'] en seu cantar morte prender, des i ar vive: vedes que poder que lhi Deus deu, mais que non cuidaria. E, se mi Deus a mim desse poder qual oj'el á, pois morrer, de viver, já mais morte nunca temeria. Pero Garcia Burgalês, CV 988, CBN 1380
  2. 2. Can$gas de Escárnio e Maldizer Ai dona fea, foste-vos queixar Roi queimado morreu com amor As can$gas de escárnio e maldizer fazem parte da lírica trovadoresca. Nestas, o trovador tece a sua crí$ca a algo ou alguém, iden$ficando o alvo da sua crí$ca, nas can$gas de maldizer ou encobrindo o objecto cri$cado, nas de escárnio. A sá$ra existente nestas can$gas é sempre mordaz e pode ser individual ou social. Can$ga de escárnio Can$ga de maldizer
  3. 3. Ai dona fea, foste-vos queixar •  O trovador cri$ca uma «dona», que, segundo ele, se foi «queixar/que vos nunca louv’en [o] meu cantar». •  Decide então «loar» esta «dona» como «fea, velha e sandia»: •  verso que se repete no final de todas as estrofes (refrão); •  A can$ga adquire um ritmo rápido; •  Confere-lhe uma certa mordacidade e reforça a crí$ca feita pelo sujeito de enunciação. •  Grande importância destas três caracterís$cas nega$vas , na medida em que o número três é o símbolo da perfeição, da totalidade, sendo a «dona» o exemplo de perfeição nestas três categorias «fea, velha e sandia». •  São também ridicularizadas as próprias can$gas de amor: •  O trovador afirma que fará «já un bon cantar» «en que vos loarei toda via», desvirtualizando o sen$mento que poderia exis$r nesses cantares. •  A própria caracterização da “dona” contribui para a ridicularização das can$gas que habitualmente fazem um elogio desmedido à “senhor”.
  4. 4. Ai dona fea, foste-vos queixar •  Caracterização da “dona fea” – afasta-se diametralmente dos cânones da perfeição csica e espiritual contemplados nas can$gas de amor. •  É este $po de caracterização que impede/tem impedido o sujeito poé$co de lhe dirigir uma can$ga. •  Toda a caracterização/can$ga se baseia na ironia: •  O trovador acede ao pedido da “dona fea”, no entanto fá- lo do modo oposto ao que ela quereria.
  5. 5. Ai dona fea, foste-vos queixar Rela$vamente à sua estrutura formal, esta é uma can$ga de refrão, cons$tuída, por três estrofes de cinco versos (quin$lhas) predominantemente decassilábicos «Ai/ do/na/ fe/a/ fos/tes/vos/ quei/xar/» e refrão monós$co octossilábico «do/na/ fe/a/ ve/lha e/ san/di/a». Quanto à rima, esta apresenta-se emparelhada em «queixar», «cantar» e «cantar» e cruzada em «via» e «sandia», de acordo com o seguinte esquema rimá$co: aaabab, que se repete ao longo das três estrofes. Em relação às classes de palavras, a rima é predominantemente pobre, como em «coraçon» e «razon». No que respeita à acentuação é predominantemente aguda «loei», sendo grave no refrão «sandia» e no que concerne à fonia é predominantemente consoante na primeira estrofe «cantar» e na segunda «razon» e toante na terceira «loei».
  6. 6. Roi queimado morreu com amor Can$ga que narra a história de “Roi Queimado” – crí$ca direta e individual O sujeito poé$co cri$ca: •  O trovador “Roi Queimado” por repe$r, nas suas can$gas, que morre de amor, ressuscitando “depois ao tercer dia”; •  A competência poé$ca do cri$cado que julga ter “maestria,/enos cantares que faz”; •  O ar$ficialismo das can$gas de amor – obrigam ao código do amor cortês, sem que este seja verdadeiro. U$lização expressiva de referências religiosas: •  Reforçam a crí$ca e o tom irónico da can$ga, na medida em que “Roi Queimado” é comparado, inclusivamente, a Jesus Cristo que ressuscitou “ao tercer dia”.

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