Alma minha+pintura

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Alma minha+pintura

  1. 1. Camões e a pintura Alma minha gen4l, que te par4ste tão cedo desta vida descontente, repousa lá no Céu eternamente, e viva eu cá na terra sempre triste.   Se lá no assento etéreo, onde subiste, memória desta vida se consente, não te esqueças daquele amor ardente que já nos olhos meus tão puro viste.   E se vires que pode merecer‐te algüa cousa a dor que me ficou da mágoa, sem remédio, de perder‐te,   roga a Deus, que teus anos encurtou, que tão cedo de cá me leve a ver te, quão cedo de meus olhos te levou.   O viandante sobre o Mar de Névoa de  Caspar David Friedrich 
  2. 2. A morte da mulher amada provoca uma tristeza imensa no sujeito poé4co que deseja que ela descanse em paz no céu.  Situação trágica, uma vez que esta morte foi precoce, Alma minha gen4l, que te par4ste  deixando o sujeito poé4co em puro sofrimento. tão cedo desta vida descontente, repousa lá no Céu eternamente,  Apelo do sujeito poé4co para que a sua amada não se e viva eu cá na terra sempre triste.  esqueça do amor que ele nutre por ela.   Se lá no assento etéreo, onde subiste, memória desta vida se consente,  Contraste entre o amor carnal e espiritual que, no fundo, não te esqueças daquele amor ardente  se complementam. O “amor ardente” (carnal) que ele que já nos olhos meus tão puro viste.  sente por ela também se revela “puro” (espiritual).   E se vires que pode merecer‐te  Referência à ”dor” e “mágoa” que ele sente por esta algüa cousa a dor que me ficou  perda. da mágoa, sem remédio, de perder‐te,    Pedido desesperado do sujeito poé4co para que a sua  amada interceda junto de Deus, a fim de que Este o leve roga a Deus, que teus anos encurtou,  desta vida, de modo a que ele a possa reencontrar. que tão cedo de cá me leve a ver te, quão cedo de meus olhos te levou.   A mulher amada como pertença do “Céu” (mundo espiritual/inteligível) e  o sujeito poé4co como símbolo da “terra” (mundo material/real/sensível/ sombras).  Mundo em que a mulher  O sujeito poé4co u4liza um discurso persuasivo ao expor o seu  amada se encontra.  caso de amor e sofrimento pela perda prematura da mulher  amada para a tentar convencer a suplicar a Deus que solucione o  seu problema, recrutando‐o para junto de si. 
  3. 3. Figuras de es4lo e recursos es4lís4cos  Apóstrofe – Este chamamento é uma  forma do sujeito poé4co suavizar a dor  da perda, simulando que pode falar com  a mulher amada e de lhe dirigir um  Perífrase eufemís4ca – reforça a dor sen4da pelo sujeito poé4co  pedido.  pela morte precoce da mulher amada  Alma minha gen4l, que te par4ste  AnXtese – realça a terrível realidade do sujeito poé4co através  tão cedo desta vida descontente,  dos deí4cos espaciais “lá”/”cá” aliados à localização presente do  repousa lá no Céu eternamente,  sujeito e objeto poé4cos, sublinhando o seu sofrimento perante  e viva eu cá na terra sempre triste.  tal situação.       Se lá no assento etéreo, onde subiste,  Perífrase metafórica – a designação de “céu” como “assento  memória desta vida se consente,  etéreo” salienta a perfeição de carácter da mulher amada.  não te esqueças daquele amor ardente  Hipérbato – ao trocar a ordem normal dos elementos da frase,  que já nos olhos meus tão puro viste.  é atribuída maior importância ao final do verso, o que     comprova que a mulher amada teria consciência do amor que o  E se vires que pode merecer‐te  sujeito poé4co nutria por si    algüa cousa a dor que me ficou  da mágoa, sem remédio, de perder‐te,  Paralelismo sintá4co, lexical e semân4co – as duas orações     apresentam construções frásicas com sen4dos equivalentes e  roga a Deus, que teus anos encurtou,  palavras repe4das de forma a veicular o desejo de que o des4no da  que tão cedo de cá me leve a ver te,  amada seja em breve o seu des4no. Este paralelismo associa os dois  quão cedo de meus olhos te levou.   percursos de vida.   Repe4ção – o recurso à repe4ção da palavra “cedo” reforça a tragédia  prematura a que o objeto e sujeito poé4co es4veram sujeitos. Impera4vo – o recurso ao impera4vo sublinha a súplica do sujeito poé4co que deseja ir ao encontro da mulher amada. 
  4. 4. Elementos que compõem a imagem: •  Figura masculina ao centro da  imagem; •  Rochedos agrestes em  diferentes planos e com  diferentes dimensões; •  Montanha ao fundo; •  Névoa/Neblina abaixo do  campo de visão da  personagem existente;  •  Céu com nuvens, havendo um  ponto ao fundo no centro em  que o sol as parece querer  romper, já que existe uma  tonalidade dourada.   O viandante sobre o Mar de Névoa de  Caspar David Friedrich 
  5. 5. Caracterização da figura central: •  Figura masculina ao centro da  imagem; •  Indumentária em tons de azul escuro  quase preto; •  Em cima de um rochedo agreste no  vazio; •  Postura dis4nta; •  Contempla o horizonte, o vazio;  •  Alheado do mundo – virado de costas  para o mundo; •  Virado de costas para o observador,  não mostrando, por isso a expressão  do rosto que, no entanto, se adivinha  como estando numa meditação  contempla4va; •  O seu coração como o vér4ce dos dois  rochedos que se encontram, ao fundo,  como símbolo da causa do seu  sofrimento;  O viandante sobre o Mar de Névoa de  Caspar David Friedrich •  Bengala como acessório.  
  6. 6. Caracterização do cenário: •  Nevoeiro denso que não permite  vislumbrar mais além, que obscurece o  que está entre as montanhas; •  Impossibilidade de discernir um caminho  possível e favorável para a personagem  que se encontra sobre um rochedo no  meio do vazio; •  Rochedos agrestes, rudes, selvagens,  repletos de fendas, fissuras; •  Dois rochedos que, em perspe4va,  confluem na personagem, reforçando a  centralidade da figura, sendo o seu  vér4ce o coração do “viandante” ; •  Céu com nuvens, exis4ndo, no entanto,  uma tenta4va por parte do sol de rasgar  esse céu inóspito; •  Cenário agreste, melancólico, triste,  propício à reflexão dolorosa da  personagem”.  O viandante sobre o Mar de Névoa de  Caspar David Friedrich 
  7. 7. Parte superior da pintura (símbolo da  espiritualidade, do mundo inteligível)  •  Contemplação do vazio, o que espelho algum  possível sofrimento, dor, angús4a;  •  Existência de pequenos raios do sol no céu,  como símbolo da única luz que conduz o  sujeito – mudo espiritual;  •  Nevoeiro como impossibilidade de prosseguir  a vida, dada a incapacidade de definir um real  e seguro caminho.  Parte inferior da pintura (símbolo da  materialidade, do mundo sensível) •  Representação mais agressiva dos rochedos,  elementos que indiciam uma vida penosa, de  sofrimento, angús4a; •  Névoa muito densa abaixo na personagem,  como referência às trevas por que passa nesta  sua vida terrena cheia de agruras e sofrimento; •  Parece que a personagem quer avançar para o  abismo, estando a preparar‐se para esse “salto”  para o vazio.   O viandante sobre o Mar de Névoa de  Caspar David Friedrich 
  8. 8. Parte esquerda da pintura (símbolo  do presente ou passado recente)   Parte direita da pintura (símbolo do  futuro)   •  Imagem bastante idên4ca em  ambas as partes, o que revela que  todo o sofrimento do passado  recente e presente da personagem  central é semelhante ao que passará  no futuro, embora seja na parte  esquerda que se centram mais raios  de luz do sol, o que remete para um  passado melhor que o futuro; •  Importância da confluência dos dois  rochedos, ao fundo. O coração da  personagem assume‐se como o seu  vér4ce sendo para lá que o olhar do  observador é dirigido. •  Vida de obstáculos, angús4as,  incapacidade de resolução dos  O viandante sobre o Mar de Névoa de  Caspar David Friedrich  problemas, na medida em que a  visão lhe é toldada pela névoa. 
  9. 9. Alma minha gen4l, que te par4ste  tão cedo desta vida descontente,  repousa lá no Céu eternamente,  e viva eu cá na terra sempre triste.     Se lá no assento etéreo, onde subiste,  memória desta vida se consente,  não te esqueças daquele amor ardente  que já nos olhos meus tão puro viste.     E se vires que pode merecer‐te  algüa cousa a dor que me ficou  da mágoa, sem remédio, de perder‐te,     roga a Deus, que teus anos encurtou,  que tão cedo de cá me leve a ver te,  quão cedo de meus olhos te levou.   O viandante sobre o mar de névoa de  Caspar David Friedrich O sofrimento do homem perante a vida que lhe é dada a viver é espelhado quer no soneto de Camões “Alma minha gen4l, que te par4ste”, quer no quadro de Caspar David Friedrich. A figura central d’O viandante sobre um mar de névoa encontra‐se virada de costas para o observador e, no fundo, para o mundo, não mostrando, por isso, a expressão do rosto que, no entanto, se adivinha como estando numa meditação contempla4va, mas em sofrimento pela solidão que este cenário propicia, comprovado pelo facto do seu coração ser o centro do quadro e o vér4ce dos dois rochedos que se encontram. Esta sua postura relaciona‐se com o soneto camoniano, na medida em que a contemplação do “assento etéreo” mostra o desfasamento existente entre a realidade do sujeito poé4co e o seu desejo de ser levado por Deus, a fim de ir ao encontro da mulher amada que par4u precocemente. Tal como na imagem, também o sujeito poé4co demonstra a impossibilidade de discernir um caminho possível e favorável no presente e no mundo terreno, mo4vo que leva a personagem a encontrar‐se sobre um rochedo no meio do vazio. A visão do “viandante” é‐lhe toldada pela névoa, negando‐lhe qualquer caminho a seguir, o que pode, também, entrar em paralelo com o desejo de morte do sujeito poé4co que não vê sen4do para a vida sem a sua “Alma gen4l [que par4u]”, pedindo‐lhe que rogue a Deus para que lhe “[encurte]@ os anos de vida. Em suma, a solidão, o sofrimento e a vida sem sen4do são os pontos de contacto entre estas duas obras, sendo o ponto central o coração em sofrimento. 

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