Um rouxinol cantou..        Coleção Barbara Cartland nº 761
Na escuridão do parque, Tybalt só viu o vulto branco do vestido da   moça. Mas as coisas que ela disse naquele encontro má...
CAPÍTULO 1                                   1919     Através das janelas sem cortinas do velho casarão da praça Berkeley,...
— Sim. E eu estava esperando tanto dele!     — E ficou decepcionada. Isso acontece muito na vida. É difícil a realidadecor...
— Agora não está mais sozinha. Eu, como você, conheço pouquíssimaspessoas aqui. Podemos consolar um ao outro.     — Talvez...
— Neste momento, eu queria ser cinco anos mais velha. Ele riu.     — Daqui a cinco anos, não dirá isso! Vai começar a fica...
— Acredito, claro. Você não?     — Quero muito acreditar, mas acho difícil, depois do que passei e vi osoutros passarem na...
agora esqueci os sonhos e as cruzadas que queria fazer.     — Os sonhos vão voltar. A gente jamais os esquece completament...
— Talvez você tenha me dado a idéia do que devo desejar. Ainda não sei.Tenho que pensar nisso.     — Eu também… tenho que ...
— Não, eu espero o jantar. Parece que está mais magra. O que andoufazendo?     — Acho que ando muito preocupada: é preciso...
melhor, acrescentou depressa: — Foi Cosgrove quem sugeriu. Eu estava noclube, pensando se podia me permitir um drinque, qu...
coisas. Por exemplo, teremos finalmente tapetes novos nesta sala.     — Mas, Harry, onde vamos encontrar pedreiros, pintor...
desfazerem da metade da prataria antiga, um patrimônio há várias gerações,como também de alguns quadros.     Agora, esse a...
CAPÍTULO II     Aleta suspirou profundamente e sentou-se no sofá.     — Não posso mais! Se alguma coisa não estiver do jei...
— Não, não morreu. Mora com a irmã, em St. Albans. Vou até lá, dizer-lheque estou precisando muito da ajuda dela.     — De...
nossos quartos? Se precisar, posso providenciar para você.      — Acho que já está tudo em ordem.      Quando haviam compr...
— Está assim tão difícil conseguir emprego?     — Quase impossível! E todos que empregaram suas economias emgranjas, sítio...
Precisaram vender muita coisa, e a cada quadro que era tirado da parede,a cada peça de prata retirada da baixela, parecia ...
— O sr. Wardolf gosta de cavalgar? — perguntara a Charles Cosgrove.      — Não sei. Mas tenho certeza de que ele quer part...
muitos de nossos companheiros de regimento não tiveram essa chance.Benson matou-se com um tiro, na semana passada.     — O...
Aleta riu.      — Garanto que você não dá essa impressão! Achava que Harry nãoapenas tinha porte muito aristocrático, como...
— Que engraçado!     — Os americanos costumam usar nomes assim. Geralmente, significa quea mãe queria um nome, e o pai, ou...
não recua diante de obstáculos.     Falou rapidamente dos cavalos e charretes. O sr. Wardolf ouviu comatenção e perguntou:...
Agora os vestidos eram curtos e Charles Cosgrove lhe havia dito queexistiam novas danças.     Ainda bem que não ia a esse ...
novas. Se a gente pudesse dar uma espiada, iríamos aprender como se faz.     — Não, Aleta. E não adianta choramingar, impl...
ter dinheiro para os alfinetes. No entanto, qualquer coisa mais do que issofaria com que eu me sentisse humilhado, e não t...
Ela também o viu, sorriu e. com rápidas e vigorosas braçadas, aproximou-se.     — Olá! Quem é você? — perguntou, saindo da...
disse Lucy-May. — Acho que não sobreviveriam no rancho de meu pai.     — Seu pai tem um rancho?     — Vários. Do que mais ...
CAPÍTULO III      O sr. Wardolf olhou com satisfação para a filha, que entrava na sala.Usava calça comprida, franjada à me...
que pode se gabar de trabalhar para mim.      — Ele está contribuindo com bons dividendos… — lembrou Lucy-May,sorrindo. — ...
— Pare de ser invejoso! Se nós americanos não podemos ter séculos dehistória, nem sangue azul, tínhamos que ter alguma coi...
informá-lo, sr. Dunstan, que minha consciência está muito tranqüila e que nãotenho inibições de espécie alguma.     — Quan...
Aleta riu intimamente. Manteve-se séria, ao responder:     — Isso significa menos trabalho para as lavadeiras e passadeira...
jantares para os amigos.     — Sim, claro. Será muito bom. Bem, acho que agora vou deixá-ladescansar. Está tudo bem, não? ...
casa e ver se está tudo certo. Assim, a senhora não precisa se levantar.Prometa ficar aqui, quietinha, e dormir um pouco. ...
Vai ver, o duque está na mesma situação que nós, pensou.     Em seguida, teve certeza de que era por isso que ele ia passa...
ansiosas perguntas do americano.     Depois, ele perguntou:     — E onde está o duque? O que aconteceu com ele?     — Está...
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  1. 1. Um rouxinol cantou.. Coleção Barbara Cartland nº 761
  2. 2. Na escuridão do parque, Tybalt só viu o vulto branco do vestido da moça. Mas as coisas que ela disse naquele encontro mágico lhe deram forças para continuar vivendo. Dois anos já haviam se passado, e ele ainda se lembrava de cada palavra, do perfume doslilases, do canto solitário de um rouxinol e, principalmente, do docesabor dos lábios dela. Algo lhe dizia que aquela desconhecida era a mulher de sua vida e que nunca amaria nenhuma outra. Mas como procurá-la, se nem sabia como era seu rosto? E se às vezes chegava a imaginar que tinha estreitado nos braços o corpo etéreo de uma deusa, descida à Terra por uma única noite para salvá-lo do desespero?2
  3. 3. CAPÍTULO 1 1919 Através das janelas sem cortinas do velho casarão da praça Berkeley, assilhuetas dos dançarinos se recortavam sobre um fundo dourado. A música dabateria e do saxofone espalhava-se pela praça, quando um homem desceu osdegraus da entrada, passou pelos criados, cocheiros e motoristas queconversavam, atravessou a alameda e entrou no jardim. Normalmente, o portão ficava fechado, e só moradores da praça, a maisexclusiva de Londres, tinham a chave. Alguns casais passavam entre as moitas de lilases, mas o homem seguialentamente por uma pequena alameda, mergulhado em pensamentos, semprestar atenção às pessoas que passavam por ele. Afinal, no centro da praça, chegou a um pequeno templo, que dominavauma urna georgiana e tinha pilares na entrada. Lá dentro estava escuro. Eleparou junto a um dos pilares e voltou-se para olhar os casarões antigos,recortados contra o céu estrelado. Enfiou a mão no bolso do fraque, procurando uma cigarreira. quandopercebeu um leve movimento atrás de onde estava. Olhou, achando que talvezfosse só impressão, pois mais tinha sentido do que ouvido, mas viu que haviamais alguém ali. Com uma sombra de sorriso nos lábios, perguntou: — Estou atrapalhando? Se estiver, vou embora. Houve um momento de silêncio antes de uma vozinha hesitanteresponder: — Não… não. Claro que não. Eu… eu estou sozinha. O homem voltou-se na direção da voz, dentro do templo. Notou que haviaum banco de pedra e nele estava uma moça vestida de branco. Era impossíveldistinguir-lhe o rosto, mas, pelo tom da voz, achou que era muito jovem. — Sozinha? O que aconteceu com seu par? — Eu… eu nunca tive par. Foi por isso que… que vim para cá. — Não tem par? Isso é mau e garanto que não vai encontrar nenhum,escondida nessa escuridão. — Eu sei. Mas é horrível ficar lá, sentada, olhando… esperando. Pareceque não há nenhum homem sobrando. Isso, ele sabia, não era verdade. Havia muitos homens sem par na festa, e os deixara conversando -unscom os outros, bebericando no bar ou reunidos na sala de jogos. Pensou que ele próprio estava se aborrecendo, naquele baile em queconhecia pouquíssimas pessoas e onde havia mistura de gente muito velhacom gente muito nova, sem que ninguém combinasse com sua idade e gostos. — Se não me engano, está começando a temporada e este deve ser seuprimeiro baile, não?3
  4. 4. — Sim. E eu estava esperando tanto dele! — E ficou decepcionada. Isso acontece muito na vida. É difícil a realidadecorresponder às nossas expectativas. — Mas não é sempre assim, espero. — Quase sempre. É então que uma pessoa começa a ficar desiludida ecínica. Estava brincando, mas a moça o levou a sério. — Não se pode pensar desse jeito! Principalmente agora que já não há aguerra fazendo todo mundo se sentir apavorado e apreensivo o tempo todo. — É assim que você se sente? — É. Gostou de ela ser simples e franca. — A guerra tem suas compensações. — Como pode dizer isso? — Acho que tenho direito de dar minha opinião, já que participei dela. — Esteve em Flandres? — Durante quatro anos. — Oh! — Houve um silêncio; então, ela disse: — Deve ter sido terrível…horrível! Não posso pensar no que os nossos soldados sofreram nastrincheiras. — Bem, admito que foi bastante desagradável. Mas, como disse, houvecompensações. — Que… que compensações? — A camaradagem, a sensação de se ter uma mesma finalidade na vida.Não se tratava apenas de derrotar os alemães, mas também de conservarmosa vida. Às vezes, dava para a gente ver o lado engraçado daquilo tudo. — Acho que deve ser muito corajoso… O homem sorriu. — Gostaria de poder concordar com essa opinião, mas não é verdade.Muitas vezes senti medo. E fiquei agradecido por ter saído com vida. Muitos demeus companheiros e amigos foram mortos. Voltar para casa foi comocomeçar a viver de novo. — Isso deve ser excitante! — É, sim. Um primeiro baile também é excitante para uma moça. Noentanto, este aqui está sendo decepcionante para você. — Bem, não uma decepção completa. Tudo aqui é tão lindo… Nunca tinhavisto uma casa tão maravilhosa. As senhoras, com suas jóias, ficam tão lindas,dançando. Mas me senti sem jeito, porque ninguém me tirou. — Deve ter vindo ao baile com alguém, não? — Com minha madrinha. Vim com ela para Londres. É muito bonita etodos os homens quiseram dançar com ela. O homem riu de novo, um tanto cinicamente. Entendia muito bem o queestava acontecendo. As aias e damas de companhia tinham saído de moda etodas as mães, tias e, como nesse caso, madrinhas que acompanhavam asdebutantes eram tiradas para dançar. Podia imaginar a mocinha encostada naparede, sem jeito por não despertar o interesse de ninguém. Atravessou o templo e, guiado mais pelo instinto do que pela visão,sentou-se no banco de pedra ao lado da moça. Percebeu que ela estremecia deleve, lembrou-se de que devia ser muito jovem e inexperiente, e achou asituação comovente.4
  5. 5. — Agora não está mais sozinha. Eu, como você, conheço pouquíssimaspessoas aqui. Podemos consolar um ao outro. — Talvez isso seja… errado. — Errado? — Não fomos apresentados. Ele riu. — Isso pode ser facilmente corrigido. Vamos fazer de conta que você é adeusa do templo e eu sou o aventureiro que a descobriu. — Do jeito que você fala, tudo fica tão excitante! — Vai ver que é mesmo. Conte-me como se sente, agora que cresceu e,acho, saiu da escola. — Nunca fui a escolas. Uma governanta me educou. — Era uma boa governanta? — Não muito esperta, mas sempre gostei de ler, e isso me fez ficarconhecendo bastante do mundo… até que descobri que sou uma ignorante emdanças, por exemplo, e qüe isso pode atrapalhar muito a gente. — Está precisando de um bom rapaz que cuide de você. Ouvi dizer que aguerra acabou com velhos preconceitos e que moças podem sair sozinhas comrapazes, para dançar. — Isso, se… forem convidadas. Ele riu de novo. — Aceito a correção. Claro, só se forem convidadas. E como você acabade chegar a Londres, não conhece ninguém que possa convidá-la. — Isso mesmo. — Garanto a você que a cada dia, a cada semana, as coisas vão melhorar.Tenho certeza de que logo haverá uma porção de rapazes ansiosos para quedance com eles. — Como pode dizer isso, se ainda não me viu? — Sou juiz de vozes. Como a sua voz é muito atraente, sei que vocêtambém é. Era um elogio dos mais banais, mas percebeu que ela estremeceu,nervosa, como um gatinho que não tem certeza de poder confiar na mão quese estende para acarinhá-lo. — Gostaria que tivesse razão — disse a moça, depois de um momento. —Mas Londres me parece tão grande e, de certo modo, assustadora. Sei que voufazer muitas coisas erradas. — Todos nós cometemos erros, quando fazemos alguma coisa pelaprimeira vez. Eu me lembro de quando me juntei a meu regimento. Estava apavorado, com medo de fazer alguma coisa contrária aoregulamento e me tornar o palhaço dos outros soldados. — E fez? — Não fiz nada de tão horroroso, mas entendo perfeitamente como estáse sentindo. Isso vai passar, com o tempo. — Você é animador. — Quero ser. Olhe, você está começando uma vida, com tudo novínho emfolha. Eu estou tendo que pegar os fios soltos de uma velha vida paracontinuar vivendo e isso é mais difícil, de certo modo. — Por quê? — Acho que porque perdi muita coisa, porque tenho motivos para sentirdesgosto… A moça suspirou.5
  6. 6. — Neste momento, eu queria ser cinco anos mais velha. Ele riu. — Daqui a cinco anos, não dirá isso! Vai começar a ficar aflita por estarmais velha, e, daqui a dez anos, vai querer tirar cinco de sua idade. — É assim que as mulheres fazem? Sim, acho que tem razão! Tenhocerteza de que minha madrinha é mais velha do que diz. — Bom, pelo menos essa é uma coisa com que não precisa se preocupar…por enquanto. — Espero que, quando for mais velha, aprenda a não me preocupar comcoisas tão sem importância. — As mulheres não acham isso sem importância. Para elas, é muitoimportante. — E para os homens? — Os homens têm aborrecimentos e preocupações muito mais sérios. Pelomenos nesta época. — Acho que está querendo dizer que anda procurando emprego? — Que sensibilidade a sua! Como adivinhou? — Todo mundo anda dizendo que é muito difícil, para os homens quevoltaram das trincheiras, arranjar trabalho. Os que não foram lutar tomaramconta dos melhores empregos. Agora, os soldados desmobilizados andam atrásde empregos que, diz meu pai, não existem. — Seu pai está certo. Foi isso mesmo que descobri. — Sinto muito por você. O que sabe fazer? — Para dizer a verdade, não sei. Não tenho idéia, mas preciso ganhardinheiro. — Acho que vai ser muito difícil. — É o que também estou achando. Mas vamos falar de você. Possopredizer seu futuro facilmente. — Como? — Bem, você logo vai se aprumar, encontrar o homem certo e casar. Ela suspirou. — Sei que isso é o que todo mundo espera que eu faça, mas tenho…medo. — Medo? — Não quero casar com ninguém, a não ser alguém que eu ame muito. — E como vai saber se está amando? — Estive pensando nisso e sei que será uma coisa maravilhosa e muitodiferente de tudo o que senti até agora. Não é nada como esperar dançar comalguém ou estar com alguém. É muito mais. — De que jeito? — É difícil explicar. Acho que será uma coisa muito linda, como a neblinasobre o lago ou como a primeira estrela da tarde brilhando no céu quando oSol ainda não se pôs. — Havia um leve tremor na voz dela. — Quando eu vinhavindo para cá, sozinha, para me esconder neste templo, vi as estrelasbrilhando no céu e pensei que fosse impressão, mas ouvi rouxinóis cantandoentre as árvores. — E acha que isso faz parte do amor? — Acho que, quando me apaixonar, sentirei algo assim, só que maisarrebatador, mais perfeito, porque o verdadeiro amor vem de Deus. — Acredita em Deus?6
  7. 7. — Acredito, claro. Você não? — Quero muito acreditar, mas acho difícil, depois do que passei e vi osoutros passarem nas trincheiras. Não dá para acreditar que Deus estava seimportando conosco, enquanto tudo aquilo acontecia. — Mas estava, sim! Tenho certeza. Afinal de contas, nós ganhamos aguerra! — A um preço terrivelmente caro. Percebeu que ela fazia um movimento e viu que unia as mãos, antes dedizer: — Mas você… está vivo. — É, estou vivo. — E você, assim como seus companheiros, os que sobreviveram e os quemorreram, fizeram muita coisa pela paz. — Acho que os políticos estão usando isso para fazer a maior confusão. — Não pode deixar que façam isso! Tem que ter certeza de que você eseus companheiros não sofreram tanto e não morreram… em vão! — Quem lhe falou sobre essas coisas? — Ninguém. Eu leio jornais. — Isso não é muito comum. Pensei que as mocinhas só ligassem pararoupas e, claro, para o amor. — Tenho pouquíssima roupa em que pensar e, do amor, só sei o que li atéagora. Você achou graça no que falei… do amor? — Não, não! Claro que não! Está muito certa. É esse o amor que vocêdeve procurar e que, espero, vai encontrar. Só desejo que esse homem,quando o encontrar e se apaixonar por ele, não a decepcione. — Quem sabe, eu é que vou decepcioná-lo. — Acho que não. — Por quê? — Porque a maioria dos rapazes, pelo menos os que conheço, não éidealista como você. — Agradeço por você não ter dito “romântica”. — Por quê? — Acho a palavra “romance” horrível, sentimentalóide e sem significado.O amor que eu quero é muito diferente. — Fez uma pausa e perguntou,temerosa: — E se eu não o encontrar? — Aí, acho que vai fazer como muita gente faz: vai escolher o melhor queestiver a seu alcance. — Detesto isso! Seria trair tudo aquilo em que acredito! Havia umaintensidade apaixonada na voz dela que o alarmou. — Se aspirar a coisas grandes, altas demais; se quiser alcançar asestrelas, pode se desiludir. E eu ficaria muito triste, se isso acontecesse. — Está me aconselhando a aceitar o que houver de melhor para escolher?Não esperava que você dissesse isso. — Por que não? — Porque, quando estávamos conversando sobre a guerra, achei que vocêparecia um daqueles cavaleiros do tempo das Cruzadas, que lutavam com ardor porque defendiam o cristianismo ouporque estavam procurando o Santo Graal. — Talvez eu também tenha me sentido assim, alguns anos atrás, mas7
  8. 8. agora esqueci os sonhos e as cruzadas que queria fazer. — Os sonhos vão voltar. A gente jamais os esquece completamente,porque são parte de nós. O homem pensou por uns momentos. — Quando cheguei aqui e comecei a conversar com você, achei que eramuito, mas muito jovem, mesmo. Agora, estou achando que é velha eexperiente em muitas coisas. — Está caçoando de mim! — Não, juro que não estou. Só acho que você não existe, não é real; queestou sentado sozinho neste banco de pedra, conversando com minhaconsciência ou meu coração. — É uma idéia linda! — Você conseguiu me fazer pensar. — Você também me fez pensar e já não estou tão assustada com estenovo mundo. — Isso é bom. Não deve se assustar com ele. Tenho certeza de que vocêvai conseguir conquistá-lo. Mas cuidado para que ele não estrague você. — Por que iria me estragar? — Porque esse mundo pode fazer você achar que o que pensa agora não étão importante assim, que as brilhantes lantejoulas que vai encontrar são maisvaliosas, mais reais. Só que isso não é verdade! — Como vou conseguir separar o verdadeiro do falso? — Seu instinto lhe dirá. Siga seu instinto. É o melhor conselho que possolhe dar, apesar de ter certeza de que você conhece melhor o seu caminho doque eu conheço o meu. — Sabe que isso não é verdade. — Pode parecer esquisito, mas é, sim. Houve um silêncio. — Acho que tenho que voltar. Minha madrinha deve estar preocupadacomigo. — Ela devia tomar mais conta de você e apresentá-la a alguns rapazes. — Ela me apresentou, mas, assim que me cumprimentavam, eles seafastavam. Acho que é porque não pareço muito simpática. — Isso é coisa muito fácil de remediar. O importante é que não mude aessência de seu modo de pensar. — Vou… tentar. Ela fez um leve movimento para se levantar. O homem estendeu a mão e segurou-lhe o braço. — Não, não vá. Quero ir primeiro, porque acho que muita coisa estariaperdida, se nós nos víssemos. Com a nossa conversa, você abriu novoshorizontes diante de mim. — E você… para mim. — Ótimo. Então, vamos deixar que continue assim. Se eu a levar até osalão, se dançarmos, talvez nós dois fiquemos desiludidos. Seria uma pena. — É, seria. — Vou sair daqui primeiro, mas não irei para o salão. Vou andar umpouco, pensar no que dissemos e tentar olhar meu futuro de um mododiferente de como olhei até agora. — Espero que consiga tudo o que deseja.8
  9. 9. — Talvez você tenha me dado a idéia do que devo desejar. Ainda não sei.Tenho que pensar nisso. — Eu também… tenho que pensar. — Pense, sim. Mas não se esqueça do que eu lhe disse: não deixe quenada a estrague. Defenda seus ideais e nunca, nunca mesmo, faça umasegunda escolha. O homem levantou-se enquanto falava e ela percebeu, pelo vultodelineado na semi-escuridão, que era alto e forte. Ele estendeu-lhe a mão e afez levantar-se. — Quero lhe desejar boa sorte. E quero também me despedir de meucoração e de minha consciência. Puxou-a para mais perto. Ela não se agitou nem tentou evitá-lo. Ele tevea sensação de que a moça também sentia que aquilo tudo não era real. Então, com delicadeza, como se beijasse uma flor, procurou-lhe os lábios. Foi um beijo quase etéreo. A maciez e inocência dos lábios dela oenvolveram em um encantamento que jamais sentira. Instintivamente, oabraço tornou-se mais forte, seus lábios mais exigentes, e um estremecimentopercorreu o corpo da moça. Então, sem dizer nada, ele a soltou, atravessou o templo, passou pelospilares e saiu para o jardim. Andou para o portão sem olhar para trás, e teve certeza de ouvir umrouxinol cantando entre as árvores. 1921 Durante o longo trajeto até sua casa, sir Harry Wayte foi se distraindo,pensando que, realmente, nunca tinha visto lugar mais bonito e agradável doque aquele. Kings Wayte era uma mansão construída no começo do reinado deElizabeth I. Nela haviam morado Wayte ricos, Wayte pobres, Wayte queesbanjavam dinheiro e Wayte que tinham que contar cada moeda. E sir Harrypensava, enquanto dirigia o carro pela ponte sobre o lago, que jamais tinhahavido um Wayte tão sem dinheiro como ele agora. Como se o pensamento atraísse o azar, o carro começou a soltar fumaça ea estremecer, até que parou, a alguns metros da entrada da mansão. Antes que ele saltasse, uma moça desceu os degraus, correndo. — Você chegou, Harry! Eu estava preocupada, achando que tinhaacontecido alguma coisa. — Foi uma viagem infernal, Aleta — respondeu o irmão. — Assim queparti, começou a falhar um dos cilindros. Depois, fiquei sem gasolina! — Deixe que Hitchen cuide do carro. Você está aqui, e é o que interessa. Harry tirou o capacete e os óculos protetores. O automóvel era ummodelo 1910 sem capota, pelo qual pagara pouco, mas lhe dera dores decabeça desde o primeiro dia. A irmã deu o braço a sir Harry e caminharam juntos para os degraus daentrada. — O chá está pronto. Se estiver com fome, pode comer um ovo quente.9
  10. 10. — Não, eu espero o jantar. Parece que está mais magra. O que andoufazendo? — Acho que ando muito preocupada: é preciso fazer uma porção de coisasna casa. — E podemos fazer? — Creio que não. — Tenho uma solução para acabar com essas preocupações em poucotempo, mas acho que você não vai gostar. A irmã olhou-o, apreensiva. Harry jogou o capacete e os óculos numa cadeira e afastou os bonitoscabelos pretos da testa. Era um rapaz atraente e muito parecido com a irmã.Só que os olhos de Aleta eram cinzentos, e não azuis como os dele. — Diga logo qual é a solução, Harry. Depois, tenho más notícias paravocê. — Más notícias? — O teto da Sala das Tapeçarias está desabando. Ouvi um baru-lhão ànoite e pensei que a casa ia cair. Não pode imaginar que caos ficou a sala! — É o terceiro desabamento neste mês. Devia ter mandado consertar. — Consertar? Com que dinheiro? — Era justamente disso que eu queria falar com você. Aleta observou-o,preocupada, enquanto o irmão entrava numa sala enorme, bonita, com umaparede envidraçada dando vista para o lago. Era um aposento agradável, cujosmóveis estavam ali há gerações. Mas os tapetes tinham as marcas do tempo eas cortinas eram apenas uma pálida lembrança do cor-de-rosa original. Havia uma mesinha de chá junto da vidraça, com uma bandeja de prata eum serviço de chá com o brasão dos Wayte gravado. As peças, no entanto,não pertenciam todas ao mesmo período, pois as maiores e mais preciosastinham sido vendidas há um mês. Aleta serviu uma xícara de chá para o irmão e disse: — Você falou que tinha uma… solução. Pelo tom de voz e a ansiedade nos olhos dela, ele percebeu que estavaassustada. Disse depressa: — Não, não pretendo me desfazer da casa. Pelo menos, por enquanto. — Oh, Harry! Fiquei acordada a noite inteirinha, aflita. Não possocontinuar parada, vendo a Kings Wayte cair aos pedaços! — É o que vamos acabar tendo que fazer, do jeito que as coisas vão.Como é que papai morreu deixando tantas dívidas? Era uma pergunta que já haviam feito a si mesmos milhares de vezes. Sebem que Aleta soubesse algumas respostas mais ou menos razoáveis, não sedeu ao trabalho, de mencioná-las. Simplesmente, esperou que Harrycontinuasse. — O que vou dizer — começou ele, hesitante, pegando um sanduíche depepino da bandeja à sua frente — pode deixar você chocada. Ao mesmotempo, acho que vai ter que concordar em que é uma boa possibilidade. Aleta prendeu a respiração e não fez comentários. — Pensei em alugar a casa por um ano. Depois de um desagradável silêncio, Aleta disse, baixinho: — Alugar? Mas… para quem? — Um americano. — Como se achasse que isso a ajudaria a se sentir10
  11. 11. melhor, acrescentou depressa: — Foi Cosgrove quem sugeriu. Eu estava noclube, pensando se podia me permitir um drinque, quando ele comentou quetinha um cliente americano que quer vir morar aqui por um ano e exige umacasa grande e tradicional como a nossa. Parece que ele está querendo casar afilha com um duque. Cosgrove até ironizou, dizendo que era uma pena eu nãoser marquês ou conde. — Harry fez uma pausa. Depois disse, indignado: —Tive vontade de dar um soco nele. Você o conhece. Esse tipo de piada é bemdo gosto dele! Na verdade, Aleta nunca tinha visto Cosgrove, mas o irmão já lhe falaramuito a seu respeito. Havia se arvorado em uma espécie de resolve-tudo eandava ganhando muito dinheiro com isso. Tinha servido no mesmo regimentode Harry, e, enquanto os outros soldados viviam sonhando com o que fariamquando a guerra terminasse, o capitão Charles Cosgrove já começara a ganharfama de ser capaz de conseguir qualquer coisa que alguém encomendasse. Se um amigo queria um caçador de confiança, ele conhecia um; sealguém queria um carro baratíssimo ou caríssimo, Cosgrove arranjava.Corriam boatos de que tinha também os telefones de várias mulheres muitoatraentes, mas esse tipo de informação Harry não havia dado à irmã. — Eu estava para dizer que não pretendia alugar Kings Wayte a ninguém,ainda menos para um americano, quando Cosgrove segredou que seu clienteestava disposto a pagar uma fortuna e que ele pretendia cobrar um aluguel decinco mil libras por mês, mais os encargos pagos à parte. — Cinco mil libras?! — Aleta exclamou, espantada. — Impossível ele terdito isso! — Disse, e eu logo me interessei. Explicou que esse Wardolf, o americano,é multimilionário, dono da metade das estradas de ferro da América e detantos campos de petróleo que Cosgrove perdeu a conta! — Mas… cinco mil libras por mês!… — repetiu Aleta, num sussurro. — Achei que você ia ficar impressionada. E tem mais. — Mais o quê? — Parece que o americano não é casado e quer que a casa esteja emperfeito funcionamento para ele e a filha, quando chegarem. Pretendemaproveitar ao máximo essa temporada aqui e quer que providenciemoscriadagem, cavalos, automóveis, jardineiro, enfim, todo o necessário para queuma propriedade como a nossa funcione perfeitamente. Aleta estava sem fala e ficou apenas olhando para o irmão, quecontinuava a fazer planos: — Não vai ser fácil. Temos apenas um mês para organizar tudo, porqueele chega no fim de maio. — Mas, Harry… — Eu sei, eu sei! E Cosgrove também sabe que não temos o dinheironecessário para deixar a casa em ordem. Precisamos fazer consertos, pintar,comprar cortinas e tapetes novos para isto ficar decente. Tudo que Wardolfquer é se instalar aqui e dar fabulosas festas para apresentar a filha àspessoas certas… — Harry riu. — Cosgrove paga tudo, disso você pode tercerteza. — Mas… como podemos? É… impossível! — Pois temos que fazer o impossível, porque nós dois sabemos que nãosó as cinco mil libras por mês vão nos ajudar muito, como também as outras11
  12. 12. coisas. Por exemplo, teremos finalmente tapetes novos nesta sala. — Mas, Harry, onde vamos encontrar pedreiros, pintores e toda essagente para fazer o trabalho em um mês? — Temos que encontrar. E digo mais: acho que devo ficar aqui, parasupervisionarmos tudo juntos depois, quando a casa estiver alugada. — Você quer dizer… que vamos ficar aqui… com nossos inquilinos? Harry ficou em silêncio por alguns segundos. — Talvez não goste muito disso, Aleta, mas Cosgrove acha que é melhornós dois tomarmos conta de tudo. Incógnitos, claro. — Não entendo. — Então, me deixe explicar direitinho: você pode administrar a casa e euajudarei. — Você disse… incógnitos. — É claro! Seria embaraçoso se o americano soubesse que somos osdonos da propriedade. Ficaremos como criados dos donos e encarregados poreles de cuidar da propriedade. O único problema, então, é escolher nossosnovos nomes. Aleta pôs-se de pé. — Acho que você ficou louco! Não podemos fazer isso! É melhor pararcom essas idéias. E é impossível pôr a casa em ordem nesse tempo. Os lábios de Harry entreabriram-se num sorriso. — Não, se tivermos dinheiro ilimitado para gastar. — Ilimitado? — Foi o que Cosgrove disse. Acontece que ele está numa encrenca.Tentou todas as outras mansões de Londres que poderiam agradar a Wardolf enenhuma delas está para alugar. Esta é a última esperança dele e o homemnão está disposto a perder a comissão que vai ganhar se arranjar o que oamericano quer. Por isso, ele nos ajudará de todo jeito, pode ficar certa disso. — Então, eu seria a… governanta! — Você sabe que não podemos contratar criados sem que haja alguémpara organizar tudo, dar ordens. Isso era verdade, e Aleta ficou calada. As poucas velhas empregadas querestavam na casa não podiam ser mandadas embora e também não saberiamcomo agir com empregados e patrões estranhos, a não ser que ela estivessepor perto. Não se sentia mal por achar a posição de governanta vergonhosa, masporque tudo aquilo parecia uma responsabilidade tão grande que a assustava.Havia tantos detalhes importantes que deviam ser cuidados! Sabia melhor do que Harry o estado da casa. Tinha ficado vazia durante aguerra, com apenas poucos empregados muito velhos. O pai deles passara amaior parte do tempo em Londres, tendo um vago emprego, que jamais foraclaramente definido, no Departamento de Guerra. Morrera no ano anterior e ambos ficaram atordoados, ao descobrir aincrível soma de dinheiro que ele devia. Ao voltar da França, onde passara o último ano da guerra, Harry haviachorado ao ver o estado da casa, da estrebaria e do jardim. Para pagar os credores do pai, foram obrigados a vender várias das peçaspreciosas da família. Aleta sabia que isso partira o coração de Harry, não apenas por se12
  13. 13. desfazerem da metade da prataria antiga, um patrimônio há várias gerações,como também de alguns quadros. Agora, esse americano se instala em Kings Wayte, e Aleta se ressentiadisso, apesar de saber que era tolice… — Você está mesmo… resolvido? — O que mais podemos fazer, a não ser vender outros quadros? Harryestava lutando para conservar retratos da família feitos por Reynolds eLawrence, que ambos adoravam, mas a cada dia que passava tudo o querestava corria o risco de acabar num leilão. Foi a lembrança de um quadro de Gainsborough que fez Aleta se resolver. — Faço qualquer coisa por cinco mil libras! E não se esqueça de quevamos ter tudo consertado, tapeçarias e cortinas novas, sem gastar nada! — Temos que consertar a estrebaria também. Não se pode colocar sequerum cavalo lá dentro, com todos aqueles buracos no teto. — Eu sei… Harry tirou um papel do bolso e pôs em cima da mesa de chá. Aleta olhou.Era um cheque de mil libras. — Oh, Harry! — Isto é para as primeiras despesas. Cosgrove disse que todas as contasgrandes, como as de consertos, reformas, móveis, decoração e tudo o maisdevem ser mandadas para ele. Aleta arregalou os olhos. Começava a compreender o que aquilosignificava e sentiu uma cálida onda de excitação ir crescendo em seu íntimo. — Não posso acreditar que isso é verdade! Acho que você está brincando. — É verdade, sim! Vamos poder pagar a maior parte das dívidas de papaie fazer os consertos que Kings Wayte está precisando tanto. Aleta foi sentar-se ao lado dele e passou os braços em volta de seupescoço. — Temos que trabalhar feito escravos para conseguir que tudo fiquepronto a tempo. Oh, Harry! Fiquei tão aflita, quando pensei que nossa últimasaída seria vender a casa e todas as terras que temos! — Para dizer a verdade, eu nunca teria coragem de fazer isso. Sei quefalamos nessa possibilidade, mas estava fora de cogitação. Se eu vendessenossa casa, não poderia encarar o filho que um dia vou ter. Havia lágrimas nos olhos de Aleta, mas ela sorria. — Nossa sorte está mudando — disse, animada. — A nuvem negra estáindo embora e o sol já começa a brilhar. — Não posso fazer nada sem sua ajuda. — E é claro que vou ajudar você! Será até divertido, porque estaremosjuntos. Mas temos que começar a trabalhar agora mesmo. — Foi isso que pensei. Por isso, parei na cidade, quando vinha para cá.Johnson disse que estaria aqui dentro de uma hora, no máximo. — Então, é melhor que ele já traga as ferramentas! — Aleta riu. — Vaiprecisar delas já!13
  14. 14. CAPÍTULO II Aleta suspirou profundamente e sentou-se no sofá. — Não posso mais! Se alguma coisa não estiver do jeito que eles gostam,só eles mesmos vão poder resolver! — Você foi maravilhosa! — disse Harry. — Quando falei a Johnson que elee seus homens teriam uma gratificação, realmente fizeram milagres! — É, fizeram, sim… A casa está bem diferente. Relanceou os olhos pela sala de visitas. Tinha ficado muito mais bonitacom o tapete e as cortinas novos. Gostaria que o pai a visse agora. O tapete era, na verdade, uma peça recuperada, um valioso persa queeles jamais poderiam sequer sonhar em comprar e que o capitão Cosgrove,daquele jeito miraculoso tão dele, providenciara. Aleta fizera arranjos de plantas e flores até mesmo nos cômodos que nãotinham redecorado por falta de tempo. Os andares de cima tinham sido mexidos, também. Um grande número dequartos e salas estava apresentável, mas ainda havia muito trabalho a serfeito. O que não era de estranhar, já que Kings Wayte tinha cerca de trezentoscômodos. Johnson, o marceneiro e decorador local, contratara carpinteiros epedreiros do condado inteiro. O grupo conseguira fazer um trabalho bem-feito,no tempo determinado, Johnson conhecia aquela mansão desde criança,adorava-a e cuidou dela como se fosse o verdadeiro herdeiro. Não só teriaficado profundamente ofendido, se chamassem gente de fora para os reparos edecoração, como o capitão Cosgrove tinha sugerido, como também ninguémtrabalharia em Kings Wayte com sua dedicação e carinho. Aleta achara que os velhos criados da família deviam ter preferência porqualquer profissional vindo de Londres, que provavelmente olharia os antigosempregados com desprezo, podendo criar problemas. Chegou a fazer mais,apesar de Harry achar que não daria certo: não apenas contratou novamenteos antigos criados, como também decidiu que a nova criadagem seriacomposta de moças dos arredores. — As mais velhas ensinam as novas, e vou estar aqui a fim de cuidar paraque tudo saia bem. — Preferia que você se mantivesse afastada dos inquilinos o maispossível. Aleta riu do irmão. — Foi o que pensei, também… mas, talvez, não pelos mesmos motivos. — Acho isso importante, porque é muito moça e bonita demais. Não vougostar, se esse americano se engraçar com você. Para resolver o problema, Aleta decidiu chamar a antiga governanta, quetrabalhara em Kings Wayte durante quarenta anos. A princípio, Harry ficouhorrorizado com a idéia. — A velha sra. Abbott? Acho que ela até já morreu!14
  15. 15. — Não, não morreu. Mora com a irmã, em St. Albans. Vou até lá, dizer-lheque estou precisando muito da ajuda dela. — Deve estar com uns cem anos, agora! Aliás, quando nós éramoscrianças, eu já achava que ela estava com essa idade. — Deve ter uns oitenta — admitiu Aleta. — Mas, se ainda conseguir andar,quero que venha para cá. Então, os americanos darão as ordens a ela, que astransmitirá para mim. Afinal, Harry acabou concordando, porque não queria ter mais problemas.Já estava bastante sobrecarregado de responsabilidade com os consertos daestrebaria e a missão de contratar cavalariços e motoristas. — Quatro motoristas! Para que será que precisam de tantos assim? — Os muito ricos estão sempre prontos a esbanjar — respondeu CharlesCosgrove. — Na América, Wardolf tem um trem particular, uma frota deautomóveis, lanchas, iates e um avião sempre pronto para levá-lo a qualquerlugar do mundo aonde cisme de ir, a qualquer momento. — Ninguém pode ser tão rico assim! Mas Cosgrove riu. — Vocês não podem se gabar de estar nas mesmas condições dele, mastêm uma coisa que Cornelius Wardolf jamais terá. — O quê? — perguntou Aleta, curiosa. — Uma casa que não apenas é um perfeito monumento arquitetônico,como também representa uma árvore genealógica de deixá-lo verde de inveja. Todos riram, mas Aleta, pensando no assunto mais tarde, achou que ocapitão Cosgrove tinha toda a razão. Dinheiro algum podia comprar a históriade sua família. Dinheiro algum podia comprar uma casa como Kings Wayte,com aquela atmosfera, com seus fantasmas e com a amadurecida beleza dosséculos. Adoro esta casa, disse a si mesma, olhando o pôr-do-sol no lago. Tinha certeza de que nenhum outro lugar seria tão perfeito, que jamais sesentiria parte de qualquer outro lugar do mundo. Nenhum sacrifício que Harrye ela fizessem para manter a propriedade seria demais. Sabia que devia ser grata, humildemente grata, ao sr. Cornelius Wardolfpor ela e o irmão não precisarem se preocupar com o futuro, pelo menosdurante um ano. Desde a morte do pai, havia compreendido que estavamtravando uma luta sem esperança e que a derrota era inevitável. E então,como um céu azul começando a aparecer por entre pesadas nuvens, a cadaprego que os operários enfiavam na madeira da antiga mansão, a cada telhaque recolocavam no teto, a cada vidraça que repunham no lugar, crescia maisa frágil esperança dentro dela. Talvez agora pudessem voltar a morar tranqüilamente em Kings Wayte,sem o medo de vê-la cair aos pedaços, em ruínas, como estava começando aacontecer um mês antes. — Obrigada, muito obrigada, meu Deus — dizia todas as manhãs, quandose levantava, muito cedo, para começar a trabalhar. Dizia as mesmas palavras antes de se deitar, exausta, depois de ter feitosuas preces. — A que horas eles vão chegar? — perguntou a Harry, olhando o relógioem cima da lareira, que funcionava pela primeira vez, desde que a guerracomeçara. — Daqui a uma hora, mais ou menos. Precisa de mais alguma coisa para15
  16. 16. nossos quartos? Se precisar, posso providenciar para você. — Acho que já está tudo em ordem. Quando haviam compreendido que teriam de desocupar seus quartos,tinham conversado para resolver onde dormiriam. Aleta não podia ficar nasdependências dos empregados e teve a brilhante idéia de reabrir os quatrosque ocupavam quando crianças, no terceiro andar. — Vai ser até divertido dormir onde dormíamos quando éramos pequenos.Além disso, são quartos bem familiares e não vamos nos sentir comoestranhos em nossa própria casa. Harry concordara, mas sem se mostrar muito interessado. Aleta sabiaque, sem dúvida, passaria várias horas sozinha. Seria muito reconfortantepoder sentar-se no salão de brinquedos, diante da lareira com guarda-fogo debronze, na cadeira preferida da pajem, olhando o painel cheio dedecalcomanias e cartões de Natal. Isso a ajudaria a ter coragem e disposiçãopara a situação que tinha que enfrentar. Havia levado para lá tudo o que não queria que as outras pessoastocassem; coisas que haviam sido de sua mãe e os livros preferidos do pai. O que mais sentia era deixar a enorme biblioteca. Mesmo durante aguerra, insistira em que os criados mantivessem a biblioteca aberta e sempremuito limpa. De vez em quando, costumava procurar um ou outro livro numadas muitas estantes que iam do chão ao teto. Depois, sentava-se com o livroescolhido numa poltrona perto de uma das janelas e se esquecia da vida,lendo. De qualquer modo, pensou, posso pegar o livro que quiser, quando quiser,porque ninguém vai reparar. Mas não será a mesma coisa que estar sentadana biblioteca, onde sempre fiquei, sabendo que, se não gostar do livro quepeguei, posso escolher entre milhares de outros. Mas isso era o de menos. Valia a pena ver como a velha mansão estava bonita com as cortinasnovas, com grossos tapetes, os móveis estofados, sem o tecido puído eremendado. Charles Cosgrove tivera a brilhante idéia de ir a lojas de leilão e comprarcortinas que, se bem que um tanto usadas, eram bastante aproveitáveis evistosas. — Muita gente foi vendendo o que tinha durante a guerra — tinhaexplicado. — Por isso, podem-se comprar cortinas muito boas e móveis deestilo a bons preços. — Quem costuma comprar essas coisas? — perguntou Aleta. O capitãoCosgrove riu um tanto cinicamente. — Preciso, responder? Os americanos estão comprando a Europa toda.Ouvi dizer que o duque de Westminster, que é o mais rico dos nossos duques,está vendendo seu Menino Azul. — Ah, não! Como pode fazer isso? Esse quadro pertence à Inglaterra. Elenão tem o direito de mandá-lo para o outro lado do Atlântico. O capitão Cosgrove deu de ombros. — Acho que ele precisa de dinheiro, como qualquer outra pessoa. Se asenhorita não tivesse insistido em dar o trabalho a pessoas daqui, eu teria umbom número de ex-oficiais que ficariam muito felizes em vir trabalhar paraesses novos-ricos.16
  17. 17. — Está assim tão difícil conseguir emprego? — Quase impossível! E todos que empregaram suas economias emgranjas, sítios ou coisas parecidas, perderam tudo. Se eu quisesse ter milhomens trabalhando para mim, era só estalar os dedos. Essas palavras fizeram Aleta pensar se o homem com quem tinhaconversado há mais de um ano, no templo da praça Berkeley, teria ou nãoarranjado o emprego que procurava. Nunca se esqueceria daquela noite estranha, encantada, quando haviasido beijada pela primeira vez na vida e ouvira rouxinóis cantando entre asárvores, lá fora. Parecia um sonho lindo, do qual não acordara de repente, masque fora esmaecendo lentamente, sem jamais se apagar completamente, semser esquecido. Ainda se lembrava, palavra por palavra, de toda a conversa com aquelehomem cujo rosto nunca tinha visto. Imaginou, mais uma vez, como ele seria. Sabia, com certeza, que tinhauma voz profunda e agradável, era alto e forte, de ombros largos. Achava quedevia ser moreno e bonito. Estava contente por ele não ter podido vê-la também. Tinha dito que avoz dela era simpática, atraente, e que, portanto, ela devia ser assim. Se avisse, Aleta achava que ficaria decepcionado. Às vezes olhava-se no espelho e ficava imaginando o quanto mudara,desde aquela noite em que, perdida, nervosa e muito insegura, havia fugido dosalão de seu primeiro baile e encontrado, num pequeno templo de jardim,aquela magia inesquecível. Como poderia saber, como adivinhar, que uma aventura assim estaria àsua espera? Depois do que o estranho lhe havia dito, tudo mudara. Tinha voltado parao salão de baile com um sorriso nos lábios e dançado muito, até a madrinhadizer que era hora de irem embora. Depois disso, não foi difícil se acostumar com a vida em sociedade. Às vezes tinha a impressão de que estava num barquinho perdido e que ohomem do templo a livrava da tempestade, mostrando-lhe que era capaz degoverná-lo perfeitamente bem. Mas não teve muito tempo para conhecer tudo o que Londres podiaoferecer. Um mês depois do baile na praça Berkeley, recebeu um telegrama decasa, avisando que o pai estava doente. Correu para Kings Wayte, e um sóolhar para o pai lhe deu a certeza de que estava mesmo muito doente. AvisouHarry imediatamente. Sir Hugo havia apanhado a gripe virulenta que assolava a Europa eceifava mais vidas do que a própria guerra. Em seu caso, a gripe provocouuma pneumonia que foi fatal. Só então Aleta e Harry ficaram a par de sua verdadeira situaçãofinanceira. Daí em diante, nunca mais tiveram oportunidades de ir a bailes oufestas. Os dois irmãos travaram uma luta desesperada para sobreviver e nãoperder o que ainda lhes restava. Era preciso pagar os criados que iam parar de trabalhar, assim como osque iam ficar, pois só tinham Kings Wayte para morar. Havia, principalmente,as pesadas dívidas do pai. Muitas vezes Harry se desesperou: — Não adianta! Que tudo vá para o inferno!17
  18. 18. Precisaram vender muita coisa, e a cada quadro que era tirado da parede,a cada peça de prata retirada da baixela, parecia a Aleta que lhe arrancavamum pedacinho do próprio corpo. Sabia a história de tudo o que havia na casa, parecia que laços especiais aligavam aos objetos, e tinha certeza de que Harry sofria do mesmo jeito. Quando os quadros foram recolhidos pelo leiloeiro, Harry saiu de casamuito cedo e não voltou antes do anoitecer. Foi Aleta que os viu irem embora,num carro que atravessou a ponte de pedra tão necessitada de consertos eseguiu o caminho esburacado, saltando como doido ao passar pelos buracos. — O que mais irá embora? O que mais? — perguntou a si mesma. Agora,Aleta pensava que, pelo menos durante um ano, não haveria perigo de ter quese fazer tais perguntas. — Você parece muito cansada — disse Harry, solícito. — Vou prepararuma bebida. O que quer? — Se eu tomar bebida alcoólica, vou ficar tonta. Nenhum de nós comeunada, hoje. — É mesmo! Eu nem pensei nisso. Estive tão ocupado! — Levantou-se,dando uma gargalhada. — Tive uma idéia! — O quê? — Você e eu vamos aceitar a hospitalidade de nosso patrão, abrindo umagarrafa do excelente champanhe dele! — Harry, não pode fazer isso! — Mas vou fazer. E se acha desonesto, peço que se lembre de quecarreguei uma porção de caixotes de bebida lá para baixo, que estou ganhandoum ordenado indigno de um simples operário e que o que fiz vale mais do queuma garrafa de champanhe! Saiu da sala antes que Aleta pudesse dizer qualquer coisa. A moçarecostou-se no estofamento novo, de cetim, e pensou que jamais se sentiratão cansada em toda sua vida. Antes, quando cavalgava em companhia do pai, ficava bastante fatigada,mas não daquele jeito, sentindo doerem todos os músculos do corpo e com aimpressão de que a cabeça ia estourar. Sabia que isso era porque, aquele tempo todo, exigia de si mesma umesforço contínuo, quase que de vinte e quatro horas por dia, do mesmo modoque Harry. Kings Wayte tinha que recuperar a dignidade e beleza do tempo deseu avô. Infelizmente, ele não tivera dinheiro suficiente para levar uma vida emgrande estilo, digna daquela impressionante mansão da família, mas a esposadele tinha renda própria. Quando faleceu, o dinheiro dela foi dividido entre a família. Daí por diante, a propriedade entrou em decadência, acabando de ummodo triste. Aleta era obrigada a reconhecer que o pai não havia feito esforço algumpara evitar aquela decadência. Simplesmente foi gastando o que precisavapara viver, deixando que os filhos se arranjassem, depois de sua morte. Bem, afinal de contas, ele aproveitou, pensou Aleta. E Harry também vaiaproveitar; pelo menos, durante um ano. Sabia que o que mais agradava ao irmão naquilo tudo era restaurar ascocheiras e comprar novos cavalos.18
  19. 19. — O sr. Wardolf gosta de cavalgar? — perguntara a Charles Cosgrove. — Não sei. Mas tenho certeza de que ele quer participar completamentedo modo de vida inglês e, você sabe, os cavalos estão incluídos nisso. Não foi preciso insistir para que Harry cuidasse das cocheiras, e Aletasabia que, se surgisse uma oportunidade, também treinaria os cavalos emcorridas e saltos de obstáculos pelo parque. — Hoje gastei uma fortuna — tinha dito ele, ao voltar das compras emTattersall. — Cosgrove pagou tudo sem piscar! — Só espero que o sr. Wardolf não pisque! — comentou Aleta, com umapontinha de medo na voz. — Imagine só, Harry, se ele não gostar das coisas que compramos e se recusar a pagar? — O problema seria de Cosgrove, não nosso. Pare de se preocupar. Sequer saber, acho que. ele vai reclamar por não termos feito extravagâncias. Foi o captião Cosgrove que apontou uma falha, em uma de suas rápidasvisitas a Kings Wayte. — Há uma coisa da qual os americanos, na certa, sentirão muita falta —disse, ao examinar as reformas da mansão. — O quê? — perguntou Harry. — Uma piscina. Por instantes, os irmãos ficaram parados, como se não entendessem. Afinal, Harry arriscou: — Eles acham, mesmo, uma piscina muito necessária? — Os americanos adoram nadar. Também tenho medo de que ele achepouco a duas banheiras que vocês têm aqui. Não duvido de que mandeconstruir outras, assim que chegar. — Espero que não… — suspirou Harry. — Já estamos cansados de verpedreiros fazerem desordens na casa! — Os americanos são um povo muito limpo… — disse o capitão Cosgrove,com uma careta. — Mas quem é que usa piscina?! — Todos eles! Inclusive o pessoal que costuma ir a festas, ou dar festas,em Hollywood. Essas festas sempre com gente toda vestida dentro daspiscinas. — Tenho impressão de que esse não é um jeito muito agradável de sedivertir — comentou Aleta, com frieza. — Espero que não dêem esse tipo de festa por aqui — disse Harry. — Seestragarem alguma coisa, vão ter que pagar. — Isso já está no acordo — explicou o capitão Cosgrove. — Incluí umacláusula a respeito, no contrato. Aliás, se quiserem, podem obrigá-lo a pagarpor tudo o que estragar na casa. Harry percebera que Aleta ia protestar; por isso tratou de dizer, depressa: — Está bem. Sei que podemos confiar em você, Charles, que estácuidando bem dos nossos interesses. — Espero ter feito isso do melhor modo possível. Quando ele saiu, Aleta disse ao irmão: — Sei que está sendo muito amável, mas não consigo gostar do capitãoCosgrove. Há alguma coisa nele que me dá a impressão de que só pensa emdinheiro. — E com toda razão. Ele não afundou, está conseguindo sobreviver, mas19
  20. 20. muitos de nossos companheiros de regimento não tiveram essa chance.Benson matou-se com um tiro, na semana passada. — Oh, não! — Ele não conseguiu arranjar emprego e a mulher o abandonou. Bensonsempre foi sensível demais, quase histérico. — Está tudo errado… é tão cruel! Esses homens que lutaram por suapátria agora estão sem dinheiro e sem possibilidade de ganhar para viver. Ogoverno tinha que fazer alguma coisa por eles! Era o grito que os jornais lançavam todos os dias, mas que ninguémparecia ouvir. Se bem que fosse difícil de acreditar, Aleta sabia que haviadesemprego no país inteiro. Vai ver que até vamos ter que ficar agradecidos aos americanos, pensou,amargurada. Ao mesmo tempo, parecia-lhe intrigante que, apesar de eles tambémterem sofrido a guerra, saíssem dela mais ricos do que quando haviamentrado. Harry voltou com o champanhe e tomaram uma taça. — Agora, acho que vou subir. Não quero que o sr. Wardolf chegue e meencontre sentada aqui. — Claro que não! — concordou Harry. — Também vou subir num minuto. Aleta saiu da sala para o hall e viu dois criados usando a libre da CasaWayte, com grandes botões prateados, muito dignos, de pé aos lados da portade entrada. Sorriram para ela de modo familiar, porque eram rapazes da cidade.Tinham sido treinados pelo velho Barlow, mordomo de Kings Wayte antes daguerra e que, apesar de quase com setenta e cinco anos, ficara encantado porvoltar ao trabalho. — Pode deixar tudo comigo, srta. Aleta — dissera. — Vou pôr esses doisrapazes trabalhando direitinho e não teremos com eles os problemas queteríamos com londrinos. Jamais gostei dos criados que tivemos em Londres. Era uma referência ao tempo do avô de Aleta, quando existia uma mansãoWayte em Curzon Street. Essa casa tinha sido vendida anos antes etransformada em sede de um clube. — Vejo que estão prontos para receber o sr. Wardolf — disse Aleta aoscriados, dirigindo-se para a escada. — Isso mesmo, senhorita -: responderam ao mesmo tempo. — Não se esqueçam: haja o que houver, não devem se referir a mim ouao sr. Harry por nossos verdadeiros nomes. Somos o sr. e srta. Dunstan, casoalguém lhes pergunte. Mas é melhor que não digam nada, a não ser que sejamobrigados. — Nós entendemos, senhorita — responderam os homens, novamente emcoro, e Aleta subiu a escada. Tinham levado algum tempo para escolher o nome falso. A maioria doscitados parecia muito comum para o gosto de Aleta ou ridículo demais para ogosto de Harry. Afinal concordaram em adotar o primeiro sobrenome queaparecesse num livro apanhado a esmo na biblioteca, desde que lhesparecesse adequado. O nome era Dunstan. — Este serve — disse Harry. — Soa bem classe média, o que pretendemosdar a impressão de ser.20
  21. 21. Aleta riu. — Garanto que você não dá essa impressão! Achava que Harry nãoapenas tinha porte muito aristocrático, como também era bonito demais,principalmente usando roupas de montaria. Como estava realmente muito cansada, subiu devagar a escada estreitaque levava ao segundo andar e, depois, ao terceiro. A sala dos antigos aposentos infantis estava bem mais confortável ebonita, com os móveis trazidos do andar de baixo e as cortinas e estofamentosnovos que o capitão Cosgrove insistira em comprar. — Se vocês não estiverem bem acomodados — explicou a Aleta, quandoela tentou recusar —, não vão poder trabalhar direito, e isso será desastrosoem todos os sentidos. Sentia-se um tanto culpada por explorar seus inquilinos-patrões, mas averdade era que o tecido alegre das cortinas e estofados tornava a sala bemmais atraente e acolhedora. Tinha colocado um enorme jarro com rosas na mesa do centro e um vasocom esporinhas brancas e azuis numa mesinha de canto. — Do lar para o lar! — disse Aleta, brincando, ao entrar na sala. — Eagora, srta. Dunstan, lembre-se de que é preciso ser uma empregadaeficiente. Atravessou a sala em direção a uma das janelas que davam para a frenteda casa. Por momentos, viu apenas o brilho dourado das águas do lago ao sol datarde, e, como sempre, seu pensamento voou para os contos de fadas queadorava quando era criança. De repente, notou que um carro enorme, reluzente, estava chegando,acompanhado por outros seis. — São eles! — imaginou, apreensiva, se Harry teria tempo de sumir dasala de visitas com a garrafa de champanhe vazia. Achou que ele conseguiria. Ficou observando, um tanto nervosa, os carrospassarem pela ponte e depois entrarem no pátio, bem embaixo de ondeestava. O sr. Wardolf realmente viajava em grande estilo! Por momentos, sentiu um irrefreável ressentimento por ele ser rico eamericano. Depois, repreendeu-se por agir de modo infantil. Devia ser grata aele, muito, mesmo! Estava ajudando não apenas aos dois, como a todos ali.Pessoas como o velho Barlow e a sra. Abbott iam ganhar os melhoresordenados de toda sua vida! Esticando o pescoço, viu que o primeiro carro já havia parado diante daporta principal. Dois criados se aproximaram. Um abriu a porta e o outro ficou de lado,para ajudar os passageiros a descerem. A primeira pessoa a sair foi uma mulher. Embora não pudesse ver bem asfeições, Aleta notou que era magra e elegante. Imaginou se seria a filha do sr. Wardolf, a tal que devia casar com umduque. — Como é o nome dela? — tinha perguntado a Charles Cosgrove. — Lucy-May. — Dois nomes? — Não exatamente. São unidos por hífen.21
  22. 22. — Que engraçado! — Os americanos costumam usar nomes assim. Geralmente, significa quea mãe queria um nome, e o pai, outro, e que acabaram entrando em acordo. — Imagine, então, se os avós tivessem outras preferências. — Aí, os nomes que eles preferissem seriam incorporados de algum jeito…Eles adoram nomes pomposos. O sr. Wardolf é um americano típico. Chama-seCornelius Fiske Wardolf Júnior. — Júnior? — Como o pai também se chamava Cornelius, ele teve que ser CorneliusWardolf Júnior. Por mais estranho que pareça, mesmo depois que o paimorreu, continuou conservando o Júnior. — Coisa mais complicada! Essa deve ser Lucy-May, pensou ela, então. Viu um homem alto, de cabelos grisalhos, sair do carro logo depois damoça e apertar as mãos dos dois criados. Aleta riu baixinho, imaginando a surpresa dos empregados, que,naturalmente, nem sonhavam com uma coisa daquelas. O primeiro carro já se afastava, e parecia que um pequeno exército dejovens descia dos outros. Interessadíssima, Aleta abriu a janela e ouviu as vozes, bastante altas eanimadas, enquanto eles subiam a escada que dava para a casa. Tinham se preparado para um grupo e, de fato, um grande grupo acabarade chegar. Começou a se preocupar, pensando se tudo estaria em ordem, se nadatinha sido esquecido. Bem, fosse como fosse, já não podia fazer mais nada. O jeito, agora, era sentar-se e ficar esperando que os problemas, sehouvesse algum, fossem levados até ela. Cavalgando pelo parque, Harry pensava que tudo parecia correr muitobem. Tinha decidido, com Charles Cosgrove, que seria melhor apresentar-secomo administrador da propriedade e dizer ao sr. Wardolf que tudo quequisesse, mesmo fora da casa, devia ser solicitado a ele. Cornelius Wardolf fora apresentado a Harry uma hora depois de chegar aKings Wayte. — Quero apertar sua mão, sr. Dunstan, e dizer que estou maravilhadocom a magnífica mansão que o capitão Cosgrove conseguiu para mim. — Fico satisfeito em saber que gosta dela, senhor. — O capitão me fez um resumo da história local. Disse que, se euquisesse saber de mais alguma coisa a respeito, era só perguntai ao senhor.Espero que, quando tiver tempo, me conte tudo sobre este lugar lindíssimo. — Farei o melhor que puder — respondeu Harry, imaginando de que jeitopoderia condensar cerca de quatro séculos de história. — Agora, gostaria de saber o que foi organizado para divertimento demeus hóspedes. — O americano sentou-se. — Sente-se, rapaz, e fume, sequiser. É melhor deixarmos a cerimônia de lado, já que vamos trabalharjuntos. — Obrigado, senhor. Harry gostou do homem à primeira vista. Devia estar beirando oscinqüenta anos e tinha um ar de quem sabe muito bem o que quer da vida e22
  23. 23. não recua diante de obstáculos. Falou rapidamente dos cavalos e charretes. O sr. Wardolf ouviu comatenção e perguntou: — Salão de baile? Por instantes, Harry não entendeu. — Ah, está querendo saber se temos um? Sim, claro. Temos um enormesalão de baile, com o soalho bem encerado e tudo o mais em ordem. — Isso é ótimo! Vamos dar um baile nos próximos dias. Onde possoconseguir uma lista do pessoal daqui para convidar? Harry pareceu surpreso. — Pretende convidar os vizinhos, senhor? — Por que não? Acho que é o melhor modo de conhecê-los. Harry hesitou. Sabia que as famílias do condado achariam aquiloesquisito: um estranho nao devia convidá-los, antes de ser convidado peloshabitantes locais. Depois, disse a si mesmo que estava sendo antiquado demais. Tinhacerteza de que os jovens, pelo menos, ficariam encantados com o convite paraum baile em Kings Wayte, e as regras de etiqueta, na certa, não os impediriamde comparecer em peso. — Entrego-lhe uma lista amanhã de manhã, senhor. — Obrigado. Acho que pode também arranjar alguém que mande osconvites, não? Imediatamente Harry pensou que Aleta poderia muito bem cuidar disso econcordou. — Bom! Muito bom! — disse o sr. Wardolf. — Quero uma orquestra, amelhor, mesmo que tenha que mandar vir de Londres. Se o cozinheiro daquinão puder atender às necessidades para fazer um grande banquete, teremosque providenciar ajudantes. — Quer que eu cuide disso, senhor? — Claro que sim! Meu secretário deve chegar amanhã ou depois, mas vaiestar muito ocupado, cuidando de vários negócios que tenho em Londres.Enquanto isso, gostaria que providenciasse tudo para mim. — Pois não. Essa era uma coisa pela qual Harry não esperava; Cosgrove devia tê-loavisado. No entanto, não se tratava de nada de que não pudesse dar conta, equando contou a Aleta, ela simplesmente sorriu. — Então, ele não se queixou de nada e está planejando dar um baile emKings Wayte! Que maravilha! Está aí uma coisa que eu sempre quis ver! — Está aí uma coisa que você não vai ver — respondeu Harry, depressa.— Nós dois temos que tomar cuidado para não sermos vistos pelos vizinhos,senão seremos descobertos e desmascarados. — Sim, claro… É isso mesmo. Mas seria gostoso dançar no salão de baile,onde nunca mais houve uma festa, desde antes de eu nascer. — Papai e mamãe não pensavam em bailes. Mas me lembro de quedavam muitos jantares. — Isso é diferente, um baile é uma coisa especial. Pensou em seu primeiro baile, aquele na praça Berkeley, com as mulheresde vestidos compridos, justos na cintura, e com saias muito rodadas, dançandono enorme salão.23
  24. 24. Agora os vestidos eram curtos e Charles Cosgrove lhe havia dito queexistiam novas danças. Ainda bem que não ia a esse baile. Iria se sentir terrivelmente fora demoda. Imaginou se o homem que falara com ela no templo da praça Berkeleyainda costumava ir dançar em Londres e se pensava nela como ela pensavanele. Talvez nunca mais tivesse lembrado de sua existência, depois de sesepararem, apesar de a ter beijado. Um arrepio percorreu seu corpo. Mesmo agora, passados dois anos, ainda sentia o calor daquele beijo queparecera transportá-la até as estrelas, fazendo-a tornar-se parte da beleza danoite e ouvir o canto de rouxinóis. Harry passou o braço por seus ombros. — Parece que você ficou triste… Sei que gostaria de ir ao baile. Claro queeu também gostaria que fosse, mas sabe que é impossível. — Lógico que é. Mas também vai ser divertido ouvir a música e saber queKings Wayte está viva de novo. — Você tem que ficar completamente fora disso — disse Harry, comfirmeza. — Ah! Antes que me esqueça, sente-se aí e faça a lista das pessoasque Wardolf deve convidar. Acho que lembra de todos, não? Eu fiquei muitotempo fora e acho que esqueci os nomes de muitos de nossos conhecidos. — Uma porção deles se mudou. Ou morreu na guerra. Enquanto falava,ela pensava nas crianças que costumavam ir às festas em Kings Wayte e nasfestas a que tinha ido com a mãe. Era tão excitante ir na carruagem fechada,com um xale de lã sobre o vestido de festa, os cabelos presos em duas grossastranças. Podia até ouvir o barulho das patas dos cavalos nas alamedaspróximas às casas enormes, com todas as janelas iluminadas. Lá dentro, encontrava as crianças que conhecia desde pequenina.Brincavam de “dança das cadeiras”, “céu-inferno”, e às vezes havia prendasque os meninos tinham vergonha de entregar. Depois, um delicioso chá comtorradas, bolachas e geléias. Quando voltava para casa, em geral adormecia na carruagem, com osbraços da mãe a ampará-la, carinhosos. Muitos dos rapazes daquela época deviam ter perdido a vida emFlandres… Ou muitos, como o vizinho mais próximo, estavam aleijados pelosferimentos. Seria uma grosseria convidá-los, num caso desses. De repente, um pensamento lhe ocorreu. — Não sou só eu que não posso ir ao baile, Harry — disse ela. — Vocêtambém não pode. É pena… Dança tão bem! — Podemos dançar aqui em cima — respondeu Harry. — Ou melhor,podemos ir dançar numa das salas que não estão sendo usadas, de onde seouça bem a música. Aleta bateu palmas, entusiasmada. — Harry, você é formidável! Adorei aidéia, e não poderia conse guir par melhor! Só que vai ter que me ensinar o shimmy. — Não tenho certeza de saber essa dança direito… — Mas já dançou, não? — Já. Só que continuo preferindo o foxtrote. — Garanto que os hóspedes do sr. Wardolf sabem todas essas danças24
  25. 25. novas. Se a gente pudesse dar uma espiada, iríamos aprender como se faz. — Não, Aleta. E não adianta choramingar, implorar! Sabe muito bem quenão podemos nos arriscar a ser vistos. — Sei, é claro… Só estava brincando. Mesmo que eu fosse convidada parao baile, como a Cinderela, não teria o que vestir. — É a melhor coisa que ouvi até agora. Porque assim tenho certeza deque não vai ser tentada a aparecer, de modo algum. Ele estava caçoando, e Aleta lhe atirou uma almofada. Harry apanhou-ano ar e colocou de volta no sofá. — Cuidado, menina, esses móveis e estofados novos vão durar a vidatoda… — A não ser que você case com uma herdeira riquíssima, como Lucy-May. Harry deu uma risada. — Confesso que também pensei nisso, mas cheguei atrasado. — Atrasado, como? — Ela está prestes a agarrar um duque. O sr. Wardolf me contou, agorahá pouco. — Contou o quê? — Ele disse: “Quero que você tenha certeza, meu rapaz, de que tudo estápreparado para receber bem o duque de Stadhampton, que vai chegaramanhã. Acho que seus criados sabem como tratar um duque, não? Cuidepara que ele seja tratado com toda a atenção e tenha tudo o que quiser”.Depois me perguntou se a família do duque era muito antiga. Contei que osStadhampton são uma das famílias mais tradicionais da Inglaterra. Ele ficoumuito contente com a informação e confessou que queria que o duque casassecom a filha. — Verdade? Ele falou isso? Deve estar impressionadíssímo com o duque. — Está, sim. Não tenho a menor chance de entrar em competição. — Como é ela? — Ainda não a vi. Acho que se parece com todas as moças americanas:alegre, entusiasta, um tanto impulsiva e sonhando com um título de nobreza.No momento, os duques são os preferidos das americanas, os ingleses mais doque os franceses. Aleta deu uma risada. — Você fala como se eles estivessem fazendo uma compra, um negócio. — E é isso mesmo! O preço, aliás, é sempre muito alto. Outro dia mecontaram o dote que os Vanderbilt deram à filha, que casou com o duque deMarlborough. Esqueci quanto foi, exatamente, mas trata-se de uma fortunaastronômica! Aleta fez uma careta. — Acho degradante alguém vender o título. E mais: vender a si mesmo. — Bem, garanto que isso não vai acontecer com você ou comigo, Aleta. Ese quer saber a verdade, não quero, por mais pobre que fique, ter uma mulherrica que me lembre a todo instante que é com o dinheiro dela que compro tudoo que tenho. — Não posso nem imaginar isso acontecendo com você. Ao mesmotempo, pelo bem dela, espero que a mulher com quem você casar tenha pelomenos dinheiro para a compra de alguns vestidos… — Isso é diferente — disse o irmão, ríspido. — É ótimo para uma mulher25
  26. 26. ter dinheiro para os alfinetes. No entanto, qualquer coisa mais do que issofaria com que eu me sentisse humilhado, e não tenho a mínima intenção deum dia me sentir assim. — Não, claro que não! Mas tenho certeza de uma coisa, Harry: qualquermulher o amaria por você mesmo. É o homem mais bonito que já vi! Beijou o irmão no rosto e ele se afastou, dizendo, com ar embaraçado: — É melhor eu descer e ver se tudo está em ordem, se bem que acho queo Barlow pode se sair perfeitamente bem. — Também acho. Do mesmo jeito que confio na sra. Abbott. Mais tardevou até o quarto dela para saber as novidades. Garanto que vai me contar direitinho como Lucy-May é. A sra. Abbott sabejulgar as mulheres muito bem. — Como Barlow sabe julgar os homens. Ele está sempre dizendo queperfeito cavalheiro era o vovô, e acho que não pensa o mesmo de mim… Aleta, riu, e Harry pensava agora naquele riso da irmã, enquantocavalgava pela propriedade. Fez o cavalo diminuir o passo. Aleta havia sido maravilhosa em tudo. Se não tivesse cooperado, ele nãopoderia estar, naquele momento, mantendo um dos melhores cavalos que jávira na vida e pelo qual faria qualquer sacrifício… se pudesse tê-lo. Cavalgava devagar. Não tinha pressa de chegar à estrebaria, pois sabiaque uma porção de coisas a resolver estariam à sua espera. Como fazia o papel de administrador, tomara posse do escritório do andartérreo, que ficava na ala da casa e não era usado desde o tempo do avô. Seu pai havia aposentado o velho administrador e não o substituíra, sebem que vivesse dizendo que ia fazer isso. Então, a guerra começou, faltoudinheiro para pagar um administrador e, na verdade, não havia muito para umempregado desse nível fazer ali. O escritório ficara lá, com seus enormes arquivos, mapas de propriedadee da região e uma impressionante escrivaninha. — Vai servir para parecer que estou trabalhando — disse Harry, ao vê-la. Mas não precisou fingir. Estava trabalhando mesmo. E muito. Até que era divertido. Melhor do que ficar sentado, sentindo-se infeliz,imaginando quando poderia comprar o próximo pedaço de pão. Sentia-se como Aleta, em relação à casa, e achava que qualquer sacrifíciovalia a pena, desde que Kings Wayte continuasse pertencendo aos dois, comoambos pertenciam à mansão. Tivemos muita sorte, pensou. Seus olhos passaram da fachada da casa para o imenso jardim, que tinhaficado muito tempo abandonado, mas que agora recuperava a beleza dopassado. A grama e os arbustos ao redor do lago estavam precisando de uma boapoda, notou, se bem que a vegetação, refletindo-se nas águas, era muitopitoresca: Então, um movimento no meio do lago chamou-lhe a atenção. Pensou quedevia ser uma lontra. Havia tanto tempo que não via uma! Fez o cavalo seguirna direção da água. Quando se aproximou, percebeu que não era uma lontra,mas uma pessoa nadando. Ficou surpreso. Foi até a margem e esperou. A cabeça do nadadoremergiu e Harry verificou, atônito, que era uma mulher.26
  27. 27. Ela também o viu, sorriu e. com rápidas e vigorosas braçadas, aproximou-se. — Olá! Quem é você? — perguntou, saindo da água. Para maior espanto de Harry, ela usava um maiô preto, sem saiote, quelhe pareceu ousado demais e muito revelador. Na verdade, estava chocado. A moça caminhou pela grama, até chegar perto do cavalo. Parou e tirou atouca preta de borracha. Os cabelos curtos, fartos, eram ondulados e de um ruivo escuro. Da corque os pintores venezianos usavam tanto em seus quadros. Ela o encarou e percebeu que o rapaz a observava com ar estupefato. — Perguntei quem é você. Sou Lucy-May Wardolf, se é que lhe interessasaber. Foi com dificuldade que Harry desmontou e disse: — Bom dia, srta. Wardolf. Sou o administrador da propriedade… HarryDunstan. Sem se perturbar nem um pouco com o fato de o maio molhado grudar-seao corpo esguio, marcando as linhas suaves da silhueta atraente, a moçaestendeu a mão. — Prazer em conhecê-lo. Papai me contou que havia um administradorcuidando de tudo e que o achava muito eficiente. Vindo de meu pai, é umgrande elogio! — Fico satisfeito com isso. A senhorita sempre nada desse jeito? — Preferi o nado mais convencional por ser mais rápido, apesar de nãoser o mais elegante e bonito. Harry sorriu. — Faz muito tempo que não vejo ninguém nadando nesse lago. Desdemeus tempos de garoto. Depois de falar, achou que tinha sido imprudente e indiscreto, porémLucy-May, não pareceu notar. — Então, bem que você podia me fazer companhia, qualquer dia desses.Perguntei a alguns de nossos hóspedes se queriam vir nadar, mas as garotasinglesas ficaram horrorizadas. Harry se surpreendeu com isso. — A água deve estar fria. — Não, está ótima. Minha toalha ficou do outro lado. Tenho que voltar anado para pegá-la. Relanceou os olhos pelo lago e continuou: — Quero dar uma volta a cavalo ainda hoje de manhã. E quero que sejaum bom cavalo. — Vou providenciar para que um dos melhores esteja à sua espera, naporta da casa, na hora que a senhorita quiser. Quer. que alguém aacompanhe? — Se você puder ir comigo, sim. Pode-se ver que é um bom cavaleiro. — Obrigado. — Não há por que agradecer. Vi você vindo pelo parque e notei que montadiferente da maioria dos homens que montam na avenida Rotten, ou sei lácomo se chama aquela avenida de Hyde Park. — Alameda Rotten. ��� Bem, eles não são exatamente o que eu chamaria de cavaleiros —27
  28. 28. disse Lucy-May. — Acho que não sobreviveriam no rancho de meu pai. — Seu pai tem um rancho? — Vários. Do que mais gosto é o rancho onde criamos os melhorescavalos. Arranje-me um que seja bravo. Não quero montar nenhuma mulavelha. Sorriu para ele de novo e, sem dizer mais nada, pôs a touca e mergulhou,nadando de um modo que Harry nunca tinha visto, tratando-se de umamulher. Então, achou que podia estar sendo atrevido, olhando-a com tantainsistência. Tratou de ir embora, sentindo-se admirado e intrigado ao mesmotempo. Lucy-May era muito diferente do que havia pensado.28
  29. 29. CAPÍTULO III O sr. Wardolf olhou com satisfação para a filha, que entrava na sala.Usava calça comprida, franjada à mexicana, igual à que costumava usar norancho, uma blusa verde que fazia o tom de cobre dos cabelos sobressair ebotas pretas, com grandes esporas douradas. Pensou, como já pensara tantas vezes, que era um homem de sorte porter uma filha que, não apenas possuía a vitalidade e caráter firme, mastambém era muito bonita. — Pelo jeito, você vai andar a cavalo. — Vou, papai. Não quer ir comigo? — Estou muito ocupado conhecendo a casa. Por enquanto, ela me pareceum enorme labirinto, e já andei me perdendo pelos corredores. Lucy-May riu. — Você está é pensando que gostaria de mostrar esta casa para nossosamigos, para vê-los morrer de inveja. — De fato, esse pensamento me passou pela cabeça. — Vou conhecer as terras e espero que o administrador, ou sei lá comodevo chamá-lo, tenha me arranjado um cavalo digno de ser montado. — Acho que arranjou, sim. Pelo menos, estou pagando bastante caro paraisso. — Ele cavalga muito bem. Por isso, acho que deve saber escolher um bomcavalo. — Deixe o jovem Dunstan em paz — advertiu o pai. — E cuide bem doduque. Ele já se decidiu? — Se está querendo saber se o duque me pediu em casamento, aresposta é “não”. Mas, do jeito que você está pressionando o homem, achoque isso não demora. Notou que o pai se descontraía. Sorria, quando disse: — Quero ver você duquesa. Isso significa muito, por aqui, e mais aindaem Nova York. — Acontece que quem vai ter que viver com o duque sou eu, e não você,papai… — O Hampton é um bom rapaz e bem mais inteligente do qüe a maioriados ingleses que conheci até agora. — Não esqueça que o nome dele é Stadhampton… — corrigiu Lucy-May. —Espero que os criados saibam que devem tratá-lo de Sua Alteza. — Está querendo dizer que devo ensinar os ingleses como tratar ospróprios aristocratas? Eu disse a Dunstan que providenciasse para que elefosse tratado de acordo e vai haver o diabo se não for! — Não se zangue à toa, papai. Tybalt Stadhampton não está diferente doque era quando você o conheceu numa festa em Nova York e lhe deu umemprego pelo qual ele lhe é agradecido até hoje. — E que não fosse! Não é qualquer homem, principalmente um inglês,29
  30. 30. que pode se gabar de trabalhar para mim. — Ele está contribuindo com bons dividendos… — lembrou Lucy-May,sorrindo. — E tenho certeza de que vai ficar impressionado com Kings Wayte.Pelo menos, acho esta casa a mais fascinante que já vi! — Tenho que agradecer a Charles Cosgrove por isso. E também a mim,que estou gastando um bom dinheiro! — É um investimento, se conheço bem você. Bom, se não quer meacompanhar, eu vou indo. — Alguém vai acompanhá-la? — perguntou o pai, áspero. — O Sr. Dunstan — respondeu a moça, por cima do ombro. Já estavaperto da porta, quando o pai gritou: — O que aconteceu com todos os seus amigos? — Estão dançando. Assim que os dois cavalos começaram a andar, lado a lado, Harryperguntou quase a mesma coisa que o pai dela: — Seus amigos não quiseram acompanhá-la? Os olhos dele percorriam o corpo esguio de Lucy-May. Nunca tinha vistouma amazona tão extraordinária nem uma mulher tão atraente. A blusa, aberta em “V” no pescoço, revelava a pele branca e macia. Nãousava chapéu. No entanto, o que surpreendia Harry, mais do que o maio que avira usando, era o fato de Lucy-May cavalgar como homem, e não de lado. Quando saíra da Inglaterra, durante a guerra, as únicas mulheres queusavam calça comprida eram as que trabalhavam nas fábricas de munições.Mas, como uma concessão ao recato feminino, usavam também longoscasacos do mesmo tecido dos chapéus que lhes protegiam os cabelos. Jamais imaginara que, um dia, acompanharia uma dama de calçacomprida e montando como homem. Sim, era verdade que Lucy-May montavamuitíssimo bem e que a apreensão dele, pensando que talvez tivesse algumadificuldade em dominar o fogoso cavalo que escolhera, era completamenteinútil. Galoparam até ficarem ofegantes. Depois, voltaram a passo lento, lado alado. — Foi você que escolheu? — perguntou Lucy-May, e ele percebeu que sereferia ao cavalo. — Fui. — Meus parabéns por ter comprado este cavalo, seja quanto for que eletenha custado. — Tinha esperança de que me dissesse isso. Há outros parecidos naestrebaria. — Então, acho que vou gostar muito da temporada em Kings Wayte. — Achou que não ia gostar? — Não tinha certeza. Haviam me dito que os ingleses são muitoorgulhosos e convencionais. — Mudamos muito, durante a guerra, e acho que vai verificar, assim comoseu pai, que estamos bem preparados para aceitar vocês como são. Harry respondera de modo seco, um tanto ressentido com o fato de umamoça ser tão rica e segura de si. Com uma percepção profunda, que ele jamais suspeitaria haver nela,Lucy-May pareceu ler seu pensamento.30
  31. 31. — Pare de ser invejoso! Se nós americanos não podemos ter séculos dehistória, nem sangue azul, tínhamos que ter alguma coisa… Era o único jeito! Harry ficou embaraçado por ter sido apanhado em flagrante. — Na verdade, não tenho inveja de vocês. Só que a estrutura do mundofoi alterada e acho difícil ser complacente, tendo que aceitar a parte pior. — É isso? Vocês estão com a parte pior? Pois me recuso a sentir pena.Acho que devia estar dizendo, neste momento, que está muito contente empoder cavalgar a meu lado, num lugar lindo como este! Harry jogou a cabeça para trás e riu. — Costuma dizer a seus acompanhantes quais os elogios e cumprimentosque devem lhe fazer? — Sim, sempre que são inábeis como você! Ele riu de novo. — Já me chocou duas vezes, hoje… e acho que esta é a terceira. — Choquei você? — Lucy-May olhou-o surpresa. — Ah! Já sei a que serefere! — disse, de repente. — Meu maiô, minha roupa de montar e, acho,minha franqueza. Viu, pela expressão de Harry, que havia acertado e deu uma risadinha. — Quando nos encontrarmos, hoje à noite, não deixe de me lembrar quedevo sorrir por trás do leque. — Está livre disso. Não vamos nos encontrar à noite. — Por quê? — Porque sou o encarregado de cuidar da propriedade, não da casapropriamente dita. Os empregados de fora não participam das atividades dedentro e vice-versa. — Regras inglesas? — Claro que sim! — Então, quem sabe podemos quebrar essas regras… Acho que se podefazer isso, não? — É uma coisa que nunca vai ficar sabendo, senhorita. — Quer apostar? — Não. Só estou expondo um fato. Vai aprender, srta. Wardolf, que naInglaterra as classes se mantêm em seus devidos lugares. — E de que classe você é? — Para todos os efeitos e propósitos, sou empregado de seu pai, uma vezque administro esta propriedade e tudo o que ela contém para um terceiro. — E quemué esse terceiro? — Um cavalheiro chamado sir Harry Wayte. — Vou conhecê-lo? — É muito pouco provável. — Acho que gostaria de conhecer esse homem. Ele deve saber que é umfelizardo, por ter uma casa como esta. — Que não pode sustentar! — Foi por isso que a alugou? — Exatamente! — Gostaria de dizer a ele que há muita coisa que se precisa fazer aqui. Aprimeira é instalar algumas banheiras. O povo inglês deve ser um bocado sujo! — E o americano é limpo até demais! — explodiu Harry. — Exagero embanhos pode ser atribuído ao desejo de limpar uma consciência suja. — Está brincando comigo ou sendo profundamente ofensivo? Deixe-me31
  32. 32. informá-lo, sr. Dunstan, que minha consciência está muito tranqüila e que nãotenho inibições de espécie alguma. — Quantas banheiras quer que sejam instaladas? — Acho que umas doze dariam, para começar. — Está brincando! — Não. Aliás, estive falando nisso com papai, hoje cedinho, e ele vai lhedar ordens para que sejam providenciadas imediatamente. Por instantes, Harry ficou sem fala. Queria dizer que aquela era uma idéia ridícula, além de desnecessária,uma vez que só ficariam na casa um ano. Então, de repente, compreendeu que Cosgrove tinha razão, ao dizer que,alugando a mansão, ela seria beneficiada por várias inovações, o que faria seuvalor subir muito, apesar de já ser astronômico. Começou a ver a enorme vantagem de ter banheiras e chuveirosmodernos em Kings Wayte, nos toaletes anexos aos quartos. Isso evitaria queos criados carregassem água da cozinha, escada acima, trabalho que setornava penoso com a idade. Evitaria também as longas e sofridascaminhadas, durante o inverno, até os dois únicos banheiros com banheiras,uma delas com água aquecida a gás, por um aquecedor que se recusavaconstantemente a funcionar. Pela primeira vez, Harry ficou realmente alegre por ter os Wardolf comoinquilinos. Se bem que tentasse reprimir, experimentava também um certoressentimento por ver sua velha casa invadida por estranhos que, por maiscaro que pagassem, estavam completamente desinformados do modo de vidainglês e eram muito mais esquisitos do que ele e Aleta tinham imaginado. Lembrou-se de que Lucy-May esperava uma resposta. Com um sorrisoluminoso, que tornou seu rosto mais bonito, disse: — Vai ter suas banheiras, srta. Wardolf, o mais depressa possível. Paracomemorar, vamos apostar uma corrida até o fim deste campo! Aleta desceu a escada de trás para ir ao quarto da governanta. A velhaestava sentada numa confortável poltrona, uma xícara de chá nas mãos e ospés apoiados numa banqueta, diante da lareira. — Não se levante, Abby! Quero falar com você, mas não precisa seincomodar por isso. — Não acho nada correto, srta. Aleta. Mas, para dizer a verdade, minhaspernas me fizeram ficar acordada metade da noite. Doeram bastante. — Por isso mesmo, deixe que fiquem apoiadas assim, sempre que puder,e evite subir e descer escadas. Acho que Rose está conseguindo se sair muitobem no trabalho. — Todos estão trabalhando muito bem, senhorita. Mas, apesar de seremmoças dispostas, é melhor não facilitar muito como minha velha mãe dizia… — Elas vão se sair bem — disse Aleta, confiante. — Acho que as hóspedesnão são exigentes e implicantes nem a metade do que eram as damas dotempo de vovô! — Não, de fato. E as roupas delas também não são as mesmas. Asenhorita acredita… — A sra. Abbott abaixou a voz e continuou, em tomchocadíssimo: — … que elas usam roupas de baixo pequenas, minúsculas,mesmo?32
  33. 33. Aleta riu intimamente. Manteve-se séria, ao responder: — Isso significa menos trabalho para as lavadeiras e passadeiras. Pelosom do gramofone, lá embaixo, parece que estão dançando. — Dançando! É só o que elas sabem fazer! Dançar de manhã, logo depoisdo café! A senhorita já tinha visto uma coisa dessas? A patroa jamaisacreditaria que isso aconteceria, um dia. Aleta sabia que a “patroa” era sua avó, e não sua mãe, porque a sra.Abbott vivia muito no passado, no tempo em que dirigia aquela casa com pulsode aço. O maior motivo de orgulho para a velha sempre havia sido osconvidados de Kings Wayte afirmarem que se sentiam melhor lá do que emqualquer outra casa em que tinham sido hospedados. — Desde que todos se sintam bem, acho que o resto não tem importância— disse Aleta, pensativa. — Roupas modernas ou não, essas moças deixam o quarto numadesordem terrível! Roupas espalhadas por todos os lados, e, a senhorita nemvai acreditar, vi caixas de pó-de-arroz em todas as penteadeiras! Aquilo havia chocado a sra. Abbott muito mais do que o tamanho reduzidodas roupas de baixo. Aleta disse, suavemente: — Quando estive em Londres, vi que todas as moças usavam pó-de-arroze batom. A velha ergueu as mãos, num gesto de horror. — Não sei onde o mundo vai parar, senhorita. Não sei mesmo! Ouça o quedigo: uma dama que usasse batom, antes da guerra, não era considerada umapessoa de bons princípios! Aleta sabia que aquilo significava a condenação máxima e mudou deassunto: — Será gostoso ter um baile aqui de novo. Vamos ter a impressão deestar de volta aos bons tempos. — Foi o que pensei, quando ouvi, mas a senhorita sabe que eles estãopensando em contratar uma orquestra de negros?! Aquilo era tão horripilante, que a voz da governanta se tornara quase umsussurro inaudível. — Essas orquestras são muito apreciadas em Londres — disse Aleta,depressa. — Uma orquestra de negros em Kings Wayte é uma coisa que jamaispensei em ver! Aquele era outro assunto perigoso e Aleta tratou de desviar-se dele. — Gosto de música e bem que queria ir ao baile também… Sabe? Achoque tenho um jeito de ver o baile, apesar de meu irmão não concordar. — Ver, senhorita? Como? — Bem, hoje em dia, a orquestra não costuma ficar separada, na galeriados músicos, como antigamente. Agora os bailes são mais íntimos e asorquestras ficam no mesmo nível que os dançarinos. Então, posso ficar nagaleria dos músicos e assistir ao baile lá de cima. — Precisa tomar cuidado. Não quer ser reconhecida, quer? — Serão poucas as pessoas que poderiam me reconhecer. Parecia umtanto triste, o que fez a sra. Abbott dizer, depressa: — Quando tudo isso estiver terminado e esses americanos forem embora,a senhorita e sir Harry poderão dar suas festas. Talvez não bailes, mas33
  34. 34. jantares para os amigos. — Sim, claro. Será muito bom. Bem, acho que agora vou deixá-ladescansar. Está tudo bem, não? Como se só esperasse por aquela pergunta, a sra. Abbott começou umlongo relato de como algumas das moças do condado eram tolas, já tivera quemostrar a elas mil vezes de que jeito deviam arrumar as camas e dobrar ascamisolas das damas. Estava também indignada porque os criados deixaram cair um pouco deágua pelo caminho, ao carregá-la para alguns dos hóspedes que tinhambanheira no quarto. Os cavalheiros que costumavam hospedar-se em Kings Wayteantigamente utilizavam um dos banheiros comuns, por menos cômodos eadequados que fossem, e as senhoras banhavam-se em tinas colocadas dianteda lareira, em seus quartos. Aleta sabia que sua mãe ficaria horrorizada à idéia de andar peloscorredores de robe e que nem ela nem sua avó sequer pensariam napossibilidade de usarem as banheiras de uso comum. Tudo tinha mudado muito, com a guerra. Ela e a governanta haviam sidoobrigadas a se utilizar dos banheiros comuns, pela simples razão de não terficado ninguém na casa capaz de carregar enormes baldes de água quente lápara cima. Pensava que seria ótimo ter criadas e criados para cuidar deles de novo,quando percebeu que a sra. Abbott tinha dito algo sobre Sua Alteza. Prestoumais atenção. — O cavalheiro americano é muito ansioso e nervoso. Perguntou se o“Quarto da Rainha” era suficientemente bom para Sua Alteza! Tive vontade deresponder: “Se foi bom para a rainha Anne, é mais do que bom para qualquerduque moderno!” Mas acho que esses americanos não entendem isso, não é,senhorita? — O sr. Wardolf quer muito que o duque se sinta bem aqui, porque vaicasar com a srta. Lucy-May. — Foi o que ouvi dizer. E, se quer saber minha opinião, é uma pena queum nobre como Sua Alteza chegue ao ponto de se vender dessa maneira. Aleta ficou surpresa com o conhecimento que a sra. Abbott tinha dasituação. Depois, lembrou-se de que nada podia ser escondido dos criados. — Acho que o duque está numa situação pior do que a nossa — dissebaixinho. — Sempre rezo para que sir Harry não precise casar com uma americana— disse a sra. Abbott, com desdém. — Eles têm muito dinheiro, é verdade,mas, francamente, não sabem se comportar. Não como nós. Aleta disfarçou um sorriso. — O modo de os americanos viverem é diferente do nosso, claro. Massejam de que nacionalidade forem, americanos, franceses ou alemães, todossão gente. — Os alemães! — fungou a sra. Abbott.— Eles não são gente! Para mim,são feras com aparência humana. Aleta sabia que aquele era um tema dos mais explosivos; por isso,levantou-se, dizendo: — Enquanto estão todos lá embaixo dançando, vou dar uma volta pela34
  35. 35. casa e ver se está tudo certo. Assim, a senhora não precisa se levantar.Prometa ficar aqui, quietinha, e dormir um pouco. — A senhorita é um amor. De fato, estou me sentindo um pouco cansada. — Então, deixe que eu cuido de tudo. Depois venho contar para asenhora. Saiu do quarto da governanta e atravessou o corredor até a porta, ocultapela pesada cortina verde, que dava para a parte nobre da casa. A música chegava ali bem mais nítida e ela reconheceu a melodia. Era Estou Furiosa com Harry, e Aleta pensou como combinava com o donoda casa, se bem que ninguém soubesse. Começou a cantarolar, enquanto andava pelo corredor que ia dar nosquartos que haviam sido reformados. Não tinha sido feita muita coisa, mas a colocação de um ou outro quadro,de cortinas novas, tornara-os bem diferentes dos quartos escuros,empoeirados e abandonados, que pareceram tão horríveis para Harry, quandovoltara da França. Aleta entrou em vários deles, verificando se as criadas tinham arrumadotudo direitinho, limpado como recomendara e posto um vaso com flores emcada penteadeira. Chegou ao “Quarto da Rainha” e não pôde deixar de se lembrar de suamãe, ao abrir a porta. O “Quarto do Rei”, onde o pai dormia, e o “Quarto da Rainha” formavamuma suíte independente. Aleta imaginara que Lucy-May e o pai iam quererficar lá. Mas o sr. Wardolf deixara bem claro que ficaria no “Quarto do Rei” e oduque de Stadhampton, no segundo melhor, de modo que lhe reservaram ofamoso aposento ocupado pela rainha Anne em 1710. Era um quarto muito grande, com um leito de quatro colunas, dossel comcortinas de brocado, cuja cúpula exibia deuses e deusas que tinham dado umtrabalhão para ficarem bem limpos. Era também o quarto preferido de Aleta. Ao entrar nele, naquelemomento, sentiu como se a mãe ainda estivesse ali; chegou a sentir o delicadoperfume de rosas que pairava no ar, quando, ainda criança, abria as gavetasda cômoda. Aleta sempre se opusera terminantemente a que tirassem qualquer coisadaquele aposento. Agora, seus olhos passeavam, apreciadores, pelos móveis franceses comentalhes dourados, os espelhos lapidados e as porcelanas chinesas sobre alareira. Pelo menos o duque saberia apreciar tudo aquilo, pensou, e tentou selembrar de alguma coisa a respeito dele. Era um nome familiar, mas nunca tinha ouvido Harry ou os amigosfalarem dele. No entanto, tinha-os ouvido falar muito de Chatsworth. E,durante sua estada em Londres, havia sido convidada pelo duque e a duquesade Devonshire para um baile de Devonshire House. Mas não chegou aconhecer os duques nem pôde ir ao baile, porque, na véspera, foi avisada deque o pai estava passando mal e partiu imediatamente para Kings Wayte. Depois disso, nunca mais tinha saído de lá. Muitas vezes ficava triste pornão ter conhecido mais Londres e as casas nobres que aos poucos iam sedesmantelando, perdendo muito ou tudo de sua grandeza original.35
  36. 36. Vai ver, o duque está na mesma situação que nós, pensou. Em seguida, teve certeza de que era por isso que ele ia passar uns diasem Kings Wayte e casar com uma milionária americana: para salvar seubrasão, sua casa e propriedade. Coisa que talvez Harry também tivesse quefazer. Quando os ricos inquilinos fossem embora, eles estariam mais ou menosdiante dos mesmos problemas que tinham até então. — Sempre dinheiro, dinheiro, dinheiro! — disse, sentindo-semiseravelmente mal. Depois de inspecionar o quarto inteiro, saiu e voltou pelo mesmo caminho.Atravessou depressa o patamar de mármore, com medo de se encontrar comalguém antes de estar, sã e salva, junto da porta oculta pela cortina verde,que dava para a ala dos criados. Nesse momento, ouviu um carro parar naporta principal. Instintivamente, foi até o parapeito para ver quem era. Quando o criado abriu a porta, ouviu uma voz de homem dizer, aflita: — Preciso falar com o sr. Wardolf, depressa! Houve um acidente! Aletaficou gelada. Imediatamente pensou que alguma coisa tinha acontecido com Harry. ViuBarlow chegar ao hall correndo e esbarrar com violência no recém-chegado. — O senhor disse que houve um acidente? — Sim, isso mesmo. Foi com um dos convidados do sr. Wardolf. Haviadois cavalheiros no carro, mas, segundo me disseram, o duque é que semachucou. — Sinto muito ouvir isso — disse Barlow. — O sr. Wardolf vai ficarprofundamente chocado. Se fizer o favor de esperar um momento, senhor, vouavisá-lo de sua presença. Aleta pôde ver então o homem. Pelas roupas, assim como pelo modo defalar, percebeu que era um fazendeiro, um agricultor ou algo parecido. Sabia que Barlow na certa o havia medido de alto a baixo e, como não setratava de um cavalheiro, ia deixá-lo esperando no hall enquanto avisava o sr.Wardolf. Um dos criados perguntou: — Foi um acidente muito sério? Excitado e sempre pronto para falar, o fazendeiro respondeu: — Eles estavam correndo muito! Mas os jovens são assim mesmo.Fizeram a curva da travessa Lane de modo muito perigoso e o carro teriabatido de frente num outro, se o motorista não desviasse e saísse da estrada. — Saiu da estrada? — É. Não teria acontecido nada, se não houvesse uma árvore bem ali. Nomomento do choque, o duque, que estava no assento do passageiro, bateucom a cabeça no pára-brisa. — Que tipo de carro é? — Um desses mais novos, que correm demais para o meu gosto. Acho que é… um Bentley. — Um Bentley! — repetiu o criado, obviamente impressionado. Ia fazeruma outra pergunta, quando Barlow voltou com o sr. Wardolf. — O que foi? Que aconteceu? Um acidente com o duque? Como é queuma coisa assim pôde acontecer? O fazendeiro explicou de novo, interrompido de vez em quando por36
  37. 37. ansiosas perguntas do americano. Depois, ele perguntou: — E onde está o duque? O que aconteceu com ele? — Está sendo trazido para cá, numa carroça. Acharam que não ficariabem acomodado em minha charrete. — Depressa! Depressa! Um médico. Precisamos de um médico! — O dr. Goodwin está viajando, senhor, mas há alguém no lugar dele, atésua volta. — Um médico? — Acho que sim, senhor. — Então, vá buscá-lo! Traga-o para cá, depressa! — Sim, senhor — disse o fazendeiro. Mas o sr. Wardolf não ouvia nada;dava ordens: Diga à governanta para ver se o quarto do duque está pronto eprovidenciar bandagens e mais o que for preciso para um curativo. Entendeu? — Sim, senhor. Um dos criados subiu a escada correndo. Aleta parou diante dele, quandoia se dirigir para a porta coberta pela cortina verde. — Está tudo bem, James. Ouvi a conversa e sei o que aconteceu. Trate defazer com que sir Harry… quero dizer, o sr. Dunstan… fique sabendo o que houve, o mais depressa possível, e venhapara casa. Deixe o recado para ele na estrebaria. — Sim, senhorita. O americano continuava dando ordens e mais ordens no hall lá embaixo. Isto veio transtornar os planos dele, Aleta pensou. Mas não ficou muito preocupada com o milionário nem com o duque queestava namorando a filha dele. Os dois têm que passar por aflições e dificuldades, como todo mundo,pensou. E se dirigiu depressa para os aposentos da criadagem, para contar anovidade à sra. Abbott. O duque sentia-se como no final de um longo e tenebroso túnel, maspodia ouvir vozes. Não entendia o que diziam e ficou irritado porque oacordaram. Então, uma voz suave disse: — Está tudo bem, Abby. Não se aflija. O médico disse que não é provávelque ele volte a si antes de vinte e quatro horas. Amanhã chega umaenfermeira de Londres. — Não fica bem a senhorita ficar sozinha com um cavalheiro. Sabe muitobem disso! — disse uma voz mais velha e severa. Houve o som abafado de uma risadinha. — Se está preocupada por não haver ninguém aqui para me proteger,Abby, posso garantir que estou fora de qualquer perigo! — Sua mãe não aprovaria isto, senhorita! Houve silêncio por momentos. — Sinto que aqui, no quarto de minha mãe, ela estará cuidando de mim.Vá se deitar, Abby, querida, e volte amanhã bem cedinho, antes que os outrosacordem. — Não gosto disso. Não gosto nada disso! — É só por uma noite — tornou a explicar Aleta, com paciência. — O médico disse que alguém precisa ficar com ele. Sabe perfeitamente37

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