PadrõEs De Aleitamento Materno E AdequaçãO EnergéTica

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PadrõEs De Aleitamento Materno E AdequaçãO EnergéTica

  1. 1. 64 ARTIGO A RT I C L E Padrões de aleitamento materno e adequação energética Breastfeeding patterns and energy adequacy Fabíola Fi g u e i redo Nejar 1 Ana Maria Segall-Corrêa 1 Marina Fe r re i ra Rea 2 Rodrigo Pinheiro de Toledo Vianna 1 Giseli Panigassi 1 Abstract Introdução 1 De p a rtamento de Me d i c i n a To analyze caloric adequacy in infant feeding Diversos estudos relatam os prejuízos causados Pre ve n t i va e S ocial, six months of age or under, the volume of breast às crianças alimentadas precocemente com Faculdade de Ci ê n c i a s M é d i c a s , Un i ve r s i d a d e milk consumed was estimated through a re- fórmulas infantis e/ou com leites de outras es- Estadual de Ca m p i n a s , g ression equation as proposed by Drewett 1. pécies que não a humana. A substituição do Ca m p i n a s , Bra s i l . 2 Instituto de Saúde, En e r gy adequacy was estimated according to leite materno pode comprometer a saúde da C o o rdenadoria dos In s t i t u t o s Wo rld Health Organization guidelines for de- criança, quer nos países desenvolvidos, com a de Pe s q u i s a , Se c re t a r i a veloping countries 2 and the recommended dai- ocorrência de doenças alérgicas e metabólicas, Estadual de Saúde de São ly allowance of the Food and Nutrition Bo a rd quer nos países em desenvo l v i m e n t o, com o Pa u l o, São Pa u l o, Bra s i l . 3. A cross-sectional analysis was conducted on aumento da morbidade e mortalidade entre os C o r re s p o n d ê n c i a data from a cohort of 118 infants in a neigh- menores de um ano 4,5,6,7. Fabíola Fi g u e i redo Ne j a r De p a rtamento de Me d i c i n a b o rhood around a health center in Ca m p i n a s , Os lactentes amamentados exclusivamente Pre ve n t i va e Social, São Pa u l o, Bra z i l , with home interv i ews by com leite materno durante os seis pri m e i ro s Faculdade de Ci ê n c i a s trained students. Data were gathered on social meses de vida crescem e se desenvolvem ade- M é d i c a s , Un i ve r s i d a d e Estadual de Ca m p i n a s . and demographic chara c t e r i s t i c s , infant feed- quadamente, além disso, os riscos de infecção C . P. 6 1 1 1 , Ca m p i n a s ,S P ing patterns, d u ration of bre a s t f e e d i n g , f re- do trato gastrintestinal e de alergias ficam di- 1 3 0 8 1 - 9 7 0 , Bra s i l . quency of feedings, and age when breast milk minuídos 8. Além disso, a interrupção precoce fnejar@iconet.com.br substitutes were introduced. On average, wean- do aleitamento materno exclusivo pode levar à ing began early, with a 2.7-month median du- ingestão energética inadequada. Lutter 9 refere ration of exc l u s i ve bre a s t f e e d i n g . Mean bre a s t que o consumo energético das crianças em ali- milk volume was estimated (from frequency of mentação artificial excede em 15 a 20% quan- feeding) as 561.0ml, 558.9ml and 565.5ml for do comparado ao consumo energético de crian- c h i l d ren in exc l u s i ve , p re d o m i n a n t , and sup- ças em aleitamento materno exclusivo. Por ou- plemented bre a s t f e e d i n g , re s p e c t i ve l y. Me a n tro lado, estudos em populações de países em e n e r gy consumption was adequate for all ex- d e s e n volvimento mostram que a intro d u ç ã o c l u s i vely breastfed children re g a rdless of age de papas de frutas para os menores de seis me- and above the recommended level for infants ses que ainda estão sendo amamentados faz with supplemented breastfeeding and those reduzir o consumo de leite materno, tendo co- already weaned. mo conseqüência uma ingestão energética to- tal menor 10,11 . A 55a Assembléia Mundial da Infant Nutrition; Human Milk; Weaning Organização Mundial da Saúde (OMS) 12 reco- Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 20(1):64-71, jan-fev, 2004
  2. 2. PADRÕES DE ALEITAMENTO MATERNO E ADEQUAÇÃO ENERGÉTICA 65 m e nda que o aleitamento materno deve ser Estadual de Campinas (UNICAMP), financiado mantido de forma exclusiva e em livre deman- pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da até o sexto mês de vida dos lactentes. de São Paulo (no processo – 98/14794-7). As orientações técnicas, que na pri m e i ra A população geral do bairro estudado era metade do século passado preconizavam a in- de aproximadamente 20 mil habitantes e 300 t rodução precoce de alimentos heterólogos, nascimentos ao ano. Esperando que 15% das com uso de semi-sólidos e sólidos já a partir de crianças mantivessem em aleitamento mater- três ou quatro meses, estão hoje supera d a s. A no exclusivo até o sexto mês e admitindo, além fisiologia digestiva e o desenvolvimento neu- disso, como pior resultado uma prevalência de ropsicomotor dos lactentes começaram a rece- 5% de aleitamento materno exclusivo e erro al- ber maior atenção, e as práticas alimentares in- fa de 5%, calculou-se amostra de 49 cri a n ç a s. fantis foram progressivamente modificadas 13. Contudo, prevendo estratificações em três ní- Conhecimentos mais recentes mostram que veis sócio-econômicos, o número de cri a n ç a s a interrupção do aleitamento materno exclusi- adequado para o estudo seria 147. Este cálculo vo em idade inferior a seis meses é inadequada de amostra para estudo transversal foi feito uti- do ponto de vista biológico e psicossocial e re- lizando o pro g rama Staticalc do Epi Info 6.01. p resenta risco à saúde e bem estar destes lac- No entanto, tivemos perdas durante o processo t e n t e s. Segundo Monte & Sá 14 ( p. 2), práticas de coleta e análise de dados, resultando numa adequadas de alimentação infantil são aquelas amostra de 118 crianças, sendo este número de que: “f o rn ecem uma quantidade de alimentos crianças suficiente para realização das análises com adequada qualidade para suprir os reque- propostas com um poder de teste de 85%. rimentos nutricionais; protegem as vias aéreas Sendo assim, selecionaram-se, para este es- da criança contra a aspiração de substâncias es- tudo, crianças nascidas entre setembro de 1999 tranhas e não excedem a capacidade funcional e maio de 2000 que ainda não haviam comple- do trato gastrintestinal e rins”. Os estágios de tado seis meses de vida. Os recém-nascidos fo- maturação do sistema neuromuscular indicam ram identificados por intermédio das Declara- quando e como o alimento pode ser fisicamen- ções de Nascidos Vivos (DNVs) recebidas pelo te manejado pela criança 14,15. Ce n t ro de Saúde desta área. Ca rtas foram en- A adequação energética é relacionada ao viadas previamente com o objetivo de informar consumo alimentar; entretanto, é difícil estimar o início da coleta de dados. Houve uma recusa o consumo energético de bebês amamentados de part i c i p a ç ã o. No momento da visita, cada ao peito, já que o volume de leite materno in- mãe recebeu informações a respeito do traba- gerido tem que ser indiretamente mensurado. lho e assinou uma carta de consentimento in- Busca-se, no presente estudo, avaliar o pa- f o rm a d o. Esta pesquisa foi aprovada pelo Co- drão de aleitamento materno e adequação mitê de Ética em Pesquisa da FCM, UNICAMP. energética do consumo alimentar de crianças O questionário da visita domiciliar, semi- menores de seis meses, utilizando metodologia estruturado, foi preenchido por pessoal treina- validada em estudo populacional 1. do durante entrevistas com as mães que dura- vam em média quarenta minutos. Foram obti- dos dados sobre situação sócio-econômica, con- Metodologia dições de moradia, característica da amamen- tação e consumo de alimentos complementa- Trata-se de um estudo do tipo transversal, reali- res (pelo re c o rd a t ó rio alimentar de 24 hora s ) . zado por meio de inquérito domiciliar em po- Ou t ras va ri á veis coletadas, inclusive medidas pulação residente em bairros da Região Noroes- antropométricas, não fazem parte da presente te de Campinas, zona urbana cuja população a n á l i s e. Todas as va ri á veis foram obtidas du- estudada é de baixa renda familiar, porém com rante a entrevista. A qualidade da coleta dos condições satisfatórias de moradia e saneamen- dados foi garantida por contínua superv i s ã o to. Este trabalho utiliza informações do estudo das atividades de campo e revisão dos questio- longitudinal Consumo Alimentar e Saúde 16 que nários feita pelo coordenador da pesquisa, com acompanhou por dois anos uma coorte de 454 cada entrevistador, diariamente, no momento crianças menores de 12 meses, residentes nesta da entrega dos questionários. região, o projeto foi desenvolvido no De p a rt a- Apesar da existência de métodos de estima- mento de Medicina Preventiva e Social, Facul- t i vas de consumo de leite matern o, tais como dade de Ciências Médicas (FCM), Universidade medidas de peso antes e depois das mamadas Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 20(1):64-71, jan-fev, 2004
  3. 3. 66 Nejar FF et al. e uso de solução de deutério para medir inges- Resultados tão de leite materno 17,18,19, optou-se neste es- tudo pela utilização da metodologia de Dre- Fo ram entrevistadas 118 mães com 28,6 anos wett et al. 1, por ter baixo custo, ser de fácil de idade, em média. A proporção de adoles- aplicação e não exigir tecnologia. Por este mé- centes (menor que vinte anos) foi de 11,1%. todo, estima-se o volume de leite materno con- Ce rca de 43% das mães tinham escolari d a d e sumido pela freqüência ou duração das mama- apenas fundamental ou nenhuma, não se ob- das, pela quantidade (em quilocalorias) da ali- servando diferenças significativas com relação mentação complementar e pela idade da crian- à escolaridade dos pais (Tabela 1). ça. Estas são as va ri á veis incluídas no modelo A renda familiar mensal média foi de US$ de regressão linear múltipla proposto pelo au- 231,76 (DP = US$ 205,52) sendo a mediana re- tor e utilizado na presente análise. lativamente baixa (US$ 152,19). Praticamente Modelos de re g ressão linear múltipla para 100% das famílias têm acesso à rede pública de estimativas de volume de leite materno consu- esgoto, água encanada e condições de moradia mido, com base na duração das mamadas. que, de uma forma geral, podem ser considera- • Aleitamento materno exclusivo: das adequadas. Y = 591 – 0.70X’ + 0.76X”, onde Y é o pre d i- Das 118 cri a n ç a s, 97 (82,2%) ainda mama- tor do consumo de leite matern o, X’ é a idade vam no peito. Estavam em aleitamento mater- em dias e X” é tempo de sucção em minutos. no exclusivo 27,1%, o restante já com alimenta- • Aleitamento materno complementado: ção complementar. Vale ressaltar a diminuição Y = 755.0 – 0.48X’ – 0.59X”, onde Y é o predi- do número de crianças em aleitamento mater- tor do consumo de leite matern o, X’ é a idade no exclusivo de uma faixa etária para outra. Até em dias e X” é o consumo de alimentos com- 2 meses 36,4%, entre 2 a 4 meses 35,8%, caindo plementares em quilocalorias. esta prática para 11,6% na faixa etária de 4 a 6 Modelos de re g ressão linear múltipla para meses (Fi g u ra 1). A mediana de aleitamento estimativas de volume de leite materno consu- materno exclusivo encontrada foi de 2,7 meses. mido, com base no número de mamadas. Y = 489 – 0.63X’ + 13.45X”, onde Y é preditor de consumo de leite matern o, X’ é idade em dias e X” é o número de mamadas. Tabela 1 Segundo Drewett et al. 1, o número de ma- madas por dia e o consumo de outros alimentos Distribuição das crianças, segundo características são va ri á veis que expressam melhor o consu- sócio-demográficas. Campinas, São Paulo, Brasil, 1999. mo de leite materno do que apenas a duração das mamadas. O número de mamadas, combi- Características n % nado com a idade do bebê pode oferecer o vo- Idade materna (anos)* lume de leite materno consumido. 15 a 19 13 11,1 Pa ra a análise deste estudo utilizara m - s e 20 a 29 52 44,4 definições dos regimes alimentares diferentes Mais de 30 52 44,4 daquelas da OMS 20 , exceto para aleitamento m a t e rno exc l u s i vo. As categorias alimentare s Escolaridade da mãe** utilizadas neste estudo foram assim definidas: Nenhuma 2 1,7 • Aleitamento materno exc l u s i vo (AMEX): Fundamental (1a a 8 a série) 48 41,0 quando o bebê recebia apenas leite materno; Médio 46 39,3 • Aleitamento materno com água e/ou chás Superior 21 18,0 (AMAC): quando o bebê recebia leite materno e água e/ou chá; Escolaridade do pai*** • Aleitamento materno complementado Nenhuma 2 2,0 (AMC): quando o bebê recebia leite materno e Fundamental (1a a 8 a série) 38 38,0 qualquer outro alimento além de água e/ou chá; Médio 37 37,0 • Desmame: quando o bebê não recebia mais Superior 20 20,0 leite materno. Não sabe 2 2,0 Para adequação energética foi utilizado co- Não respondeu 1 1,0 mo referência a Rec o mm e nded Di e t a ry Al l o- wances (RDA) 3 e as recomendações da OMS 2. Total 118 100,0 * 1 dado em branco ** 1 dado não sabe *** 18 dados não lembra Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 20(1):64-71, jan-fev, 2004
  4. 4. PADRÕES DE ALEITAMENTO MATERNO E ADEQUAÇÃO ENERGÉTICA 67 O processo de desmame nesta população Figura 1 acontece de maneira esperada, ou seja, a pro- porção aumenta conforme aumenta a faixa etá- Distribuição em porcentagem das crianças, segundo alimentação e faixa etária. ria, chegando a cerca de 30% a proporção de Campinas, São Paulo, Brasil, 1999. crianças com desmame completado entre 4 e 6 meses de idade. Notou-se, também (Tabela 2), tendência de 100 desmame redução do tempo de mamada à medida que aumentava a idade, além de valores superiores 80 AMC de duração das mamadas entre as meninas. To- davia, não foram verificadas diferenças estatis- AMAC ticamente significativas na freqüência diária de 60 m a m a d a s, entre os gêneros ou nas difere n t e s AMEX faixas etárias. Valores médios de freqüência e duração das 40 mamadas estão descritos na Tabela 3. Obser- vou-se que a freqüência das mamadas foi redu- 20 zida em cerca de um terço quando a cri a n ç a p a s s a va a receber alimentos complementare s % 0 tais como, outro leite, alimentos semi-sólidos e 0 a 2 meses 2 a 4 meses 4 a 6 meses faixa etária sucos. A estimativa de consumo de leite para alei- tamento materno exclusivo é maior quando se AMEX = aleitamento materno exclusivo; AMAC = aleitamento materno com água e/ou chás; AMC = aleitamento materno complementado. utiliza para seu cálculo a duração de cada ma- mada ao invés da freqüência diária das mama- d a s, sendo a diferença de 106,9ml de leite ou 74,8kcal. O mesmo acontece para cálculo de consumo de leite materno para crianças em Discussão aleitamento materno com adição de água e chá e aleitamento materno complementado, isto é, Este estudo abordou uma população estáve l , o cálculo a partir do número de mamadas re- m o rando em condições ambientais adequa- sulta em volume menor de leite ingerido (dife- d a s, com renda e escolaridade dos pais supe- rença de 129,29ml ou 90,50kcal e 47,55ml ou riores nas médias do Estado de São Paulo 21. A 33,29kcal). análise da coorte estudada evidenciou condi- Independentemente da opção do método ções nutricionais também satisfatórias com p a ra estimativa s, o volume de leite materno é apenas 1,8% das crianças apresentando ade- s e m p re superior quando a criança está em quação de peso para idade inferior a menos 2 AMEX ou AMAC. Conseqüentemente os va l o- e s c o re z mediana, em relação à da população res calóricos obtidos são também superi o re s, de referência 22. no regime de aleitamento materno exclusivo e As práticas de amamentação das cri a n ç a s com adição de água e chá. Crianças em desma- estudadas não diferem muito, apesar de mos- me completo, entre t a n t o, apresentam consu- t ra rem duração pouco superior nas diferentes mo energético maior. As Figuras 2 e 3 ilustram modalidades de aleitamento materno, daque- as tendências até aqui descritas. las encontradas em outras populações urbanas O consumo energético das crianças em alei- do Brasil. tamento materno exc l u s i vo é inferior ao das A pesquisa sobre a “Pre valência do Aleita- demais em outros regimes dietéticos, embora mento Materno nas Capitais Brasileiras e Dis- o consumo de leite materno seja superior co- trito Federal”, realizada em 1999, mostra que a mo descrito anteriormente. maioria das crianças é amamentada no primei- Utilizando a RDA 3 como referência para a ro mês de vida (freqüência máxima e mínima análise de adequação, observa-se que os bebês de 98,3% e 88,2%, respectivamente), e que a re- em aleitamento materno exc l u s i vo e aleita- dução desta prática ocorre moderadamente ao mento materno complementado têm déficits longo dos meses, de modo que aos seis meses de 28,0% e 11,0% re s p e c t i va m e n t e, enquanto os valores máximos para a região sudeste são de que crianças desmamadas apresentam supera- 84% 15. Comparada ao estudo clássico da Pesqui- dequação (28,4%). sa Nacional sobre Demografia e Saúde (PNSN)/ Demographic and Health Surveys (DHS), a du- ração do aleitamento materno exclusivo entre Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 20(1):64-71, jan-fev, 2004
  5. 5. 68 Nejar FF et al. Tabela 2 Média de freqüência e tempo de mamadas (em 24 horas), segundo faixa etária e gênero. Campinas, São Paulo, Brasil, 1999. Faixa etária Freqüência média de mamadas (DP) Tempo médio da mamada em minutos (DP) (meses) Masculino Feminino Masculino Feminino n n n n De 0 2 7* 8,00 (2,83) 13 9,92 (5,52) 7* 174,14 (93,29) 13 217,42 (115,18) De 2 4 21 9,52 (5,04) 25 9,20 (3,91) 21 200,45 (181,94) 25 195,12 (201,28) De 4 6 19 6,84 (2,50) 11 8,32 (4,24) 19 110,26 (54,51) 11 195,23 (131,87) * 1 criança sem dado de tempo de mamada AMEX = aleitamento materno exclusivo; AMAC = aleitamento materno com água e/ou chás; AMC = aleitamento materno complementado. Tabela 3 as crianças aqui estudadas é superior (82 dias) a maior mediana brasileira que é em São Paulo Média do número de mamadas e tempo de mamada (em minutos) (57 dias) 15. nas últimas 24 horas, segundo categoria do aleitamento materno. Com base nos resultados obtidos nesta in- Campinas, São Paulo, Brasil, 1999. ve s t i g a ç ã o, pode-se dizer que a freqüência de crianças que iniciam a amamentação é relati- Categoria aleita- n Média da freqüência Média do tempo de vamente baixa, a saber, 82%. Essa pro p o r ç ã o mento materno das mamadas (DP) mamadas (minutos) (DP) encontra-se abaixo dos outros estudos, que nes- ta mesma faixa etária observam perc e n t u a i s AMEX 31* 9,44 (4,20) 182,55 (150,09) maiores: na PNDS 23 a proporção das mães que AMAC 31 9,77 (4,36) 239,37 (189,42) iniciam a amamentação foi de 97% e na PNDS/ AMC 34 7,21 (3,69) 126,35 (85,56) DHS 24 de 92%; porém, estes últimos re f e re m - * 1 criança sem dado de tempo de mamada. se a informações retrospectivas coletadas entre AMEX = aleitamento materno exclusivo; AMAC = aleitamento materno com água e/ou chás; AMC = aleitamento materno complementado. mães de crianças menores de cinco anos. Mesmo com estas observações, a prática de aleitamento materno nesta população está lon- ge do preconizado pela OMS, mostrando ina- dequação importante ao se analisar ao longo Figura 2 das idades. A proporção de crianças amamentadas di- Proporção do consumo energético total ingerido de acordo com categoria minuiu abruptamente entre as duas faixas etá- alimentar. Campinas, São Paulo, Brasil, 1999. rias (0 e 2 meses e 2,1 e 4 meses de idade), ca- ra c t e rizando processo de desmame precoce e rápido. Entre as crianças menores de 2 meses, 100 alimentos 36,4% estavam em AMEX na faixa etária de 2 a complementares 4 meses, houve uma diminuição de 1%, mas leite materno entre as idades de 4 e 6 meses a intensidade da 80 queda foi muito maior (23,8%), vale dizer, ape- nas 11,4% das crianças recebiam exc l u s i va- 60 mente leite materno. Esta queda do 4o mês para o 6 o mês pode estar associada à recomendação da OMS que 40 p re c o n i z a va até recentemente leite matern o e xc l u s i vo por 4 ou 6 meses de vida do bebê e 20 não até o sexto mês como diz a nova recomen- d a ç ã o. O conflito entre uma recomendação e outra tem sido, desde muito tempo fruto de in- % 0 t e resses comerciais de pro d u t o res de alimen- AMEX AMAC AMC desmame categoria alimentar tos utilizados por lactentes, que lucram mais quando seus produtos são recomendados a par- AMEX = aleitamento materno exclusivo; AMAC = aleitamento materno tir do quarto mês. Estes interesses não devem com água e/ou chás; AMC = aleitamento materno complementado. sobrepujar os interesses da saúde pública 25. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 20(1):64-71, jan-fev, 2004
  6. 6. PADRÕES DE ALEITAMENTO MATERNO E ADEQUAÇÃO ENERGÉTICA 69 Figura 3 Adequação energética de acordo com cada recomendação. Campinas, São Paulo, Brasil, 1999. 160 RDA 150 140 130 OMS/1998 – desenvolvido 120 110 OMS/1998 – 100 em desenvolvimento 90 Prentice 80 70 60 Butte 50 40 30 20 10 % 0 AMEX AMAC AMC desmame categoria alimentar AMEX = aleitamento materno exclusivo; AMAC = aleitamento materno com água e/ou chás; AMC = aleitamento materno complementado. Observou-se que o consumo energético das A média de energia consumida pelos bebês c rianças em aleitamento materno exc l u s i vo é em AMEX foi de 467,55kcal/dia; crianças em adequado quando a referência é aquela re c o- A M AC e AMC tive ram consumo energético de mendada pela OMS 2, para países em desenvol- 481,75kcal e 395,89kcal, re s p e c t i va m e n t e. O vimento. Nestes países a prevalência de c ri a n- consumo de energia dos bebês em AMEX é in- ças em amamentação exc l u s i va é ainda supe- ferior ao dos bebês em AMAC porque a média rior à dos países industrializados. de idade dos bebês em AMEX é menor (87 dias São as diferenças observadas entre países contra 98 dias de idade dos bebês em AMAC), e desenvolvidos e em desenvolvimento quanto à a média do tempo de mamada também é infe- prática de amamentação que tornam as re c o- rior par bebês em AMEX. mendações da RDA 3, baseadas em crianças com Os valores de consumo energético são infe- baixa taxa de amamentação, inadequadas para riores ao recomendado pela RDA 3. Entretanto, comparação com este estudo, salvo quando se sabe-se que a RDA tem va l o res supere s t i m a- analisam crianças em desmame completo. d o s, muito prova velmente porque são basea- Verificaram-se tendências de freqüência e du- dos em população infantil da década de 80, ração das mamadas maiores entre crianças mais com baixa prevalência de amamentação e alto jovens e do sexo feminino. Duração e freqüên- consumo de fórmulas infantis hiperc a l ó ri c a s cia das mamadas foram maiores em situação 2,13,28 . O consumo energético no grupo estuda- de aleitamento materno exclusivo e aleitamento do apresenta-se adequado, quando a referên- materno com água e/ou chá, quando compara- cia usada é a da OMS para países em desenvol- dos com o aleitamento materno complementado. vimento 2. A freqüência observada das mamadas foi Porém, o padrão indicado de adequação semelhante à encontrada por outros autore s. energética da OMS 2 para países em desenvol- Carvalho et al. 26 e Dewey et al. 27 relatam fre- vimento mostra que o consumo energético das qüência de dez mamadas em 24 horas, no en- c rianças estudadas em aleitamento matern o tanto, Imong et al. 18 encontraram média supe- exclusivo é adequado (100,6%) e o das crianças rior a 15,2 vezes. Com relação ao tempo de ma- em aleitamento materno complementado fica mada, todos os estudos citados acima tive ra m acima do esperado (156,4%). Quando os dados média inferior, sendo, 162 26, 145 27 e 151 18 mi- de consumo energético são comparados às re- n u t o s. As tendências de freqüência e dura ç ã o comendações da OMS para países desenvolvi- das mamadas maiores entre crianças mais jo- d o s, a adequação diminui para 87,6% e 141% vens e do sexo feminino também são relatadas p a ra AMEX e AMC, re s p e c t i va m e n t e. Ou t ra s por Carvalho et al. 26 e Dewey et al. 27. duas recomendações disponíveis apenas para Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 20(1):64-71, jan-fev, 2004
  7. 7. 70 Nejar FF et al. aleitamento materno exclusivo 28, ilustradas na p o n d e ral acima do esperado para estatura e Figura 3, traz como conseqüência déficits maio- idade 9, com riscos para obesidade e doenças res de 18,5% e 8,0%, respectivamente. c r ô n i c o - d e g e n e ra t i vas ao longo da vida 29,30, Neste estudo, observa-se que os bebês des- quando são ofertados alimentos complemen- mamados têm consumo energético superior ao tares ou substitutivos do leite materno de alta recomendado pela RDA 3, o mesmo acontecen- densidade energética. do entre crianças em AMC que tiveram consu- Apesar de se ter usado método de estimati- mo energético superior à recomendação pela va de consumo de leite materno validado em OMS 2. A ausência de leite materno ou até mes- população ru ral e de nível social difere n t e, os mo a introdução precoce de alimentos comple- resultados aqui obtidos mostram que a escolha mentares trazem prejuízos à saúde da criança. do mesmo foi apro p riada. Isto porque se ob- Estes podem ser diminuição da curva de cres- servou adequação energética do consumo ali- cimento quando há oferecimento de alimentos mentar dos lactentes estudados com a re c o- com baixa densidade energética 10, ou ganho mendação da OMS para esta faixa etária 2. Resumo Colaboradores Com o objetivo de analisar o consumo energético de F. F. Nejar elaborou o artigo. A. M. Segall-Corrêa con- crianças ≤ de 6 meses, em diferentes padrões de aleita- tribuiu na análise e interpretação dos dados, na elabo- mento materno, f o ram colhidas informações na pri- ração do artigo, na revisão crítica da versão final e na meira observação de estudo de coorte. Mães de Campi- e l a b o ração do re s u m o. M. F. Rea participou da re v i- nas, São Paulo, Bra s i l ,f o ram entrevistadas em seus do- são crítica do artigo e da elaboração do abstract. R. P. micílios sobre: condições sócio-demográficas, caracte- T. Vianna colaborou na coleta e análise dos dados. G. rísticas do aleitamento materno, consumo alimentar Panigassi contribuiu na revisão crítica do artigo. dos lactentes. A adequação energética foi estimada pe- lo volume de leite materno consumido com base na equação de regressão de Drewett et al. 1; os valores de referência seguiram recomendação da Or g a n i z a ç ã o Agradecimentos Mundial da Saúde 2 e da Food and Nutrtition Board 3. A população de estudo (118) caracteriza-se como de classe média baixa, em condições satisfatórias de mo- Artigo baseado em informações do projeto Consumo radia e saneamento. O desmame inicia-se pre c o c e- Alimentar e Saúde, processo Fundação de Amparo à mente, com mediana de duração do aleitamento ma- Pesquisa do Estado de São Paulo 98/14794-7 que ori- terno exclusivo de 2,7 meses. O volume de leite mater- ginou a tese de mestrado Característica e Adequação no consumido foi de 561ml, 558,9ml e de 515,2ml, em do Consumo Alimentar de Crianças, do Na s c i m e n t o aleitamento materno exclusivo, aleitamento materno aos Seis Meses de Id a d e , e sua Relação com o Al e i t a- com água e/ou chá e complementado com outros ali- mento Materno, Departamento de Medicina Pre ve n- m e n t o s , re s p e c t i va m e n t e . O consumo energético mé- tiva e Social, Faculdade de Ciências Médicas, Univer- dio foi adequado para as crianças em aleitamento sidade Estadual de Campinas, 2001. materno exc l u s i vo e acima do recomendado para crianças em amamentação complementada ou des- mamadas. Nutrição Infantil; Leite Materno; Desmame Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 20(1):64-71, jan-fev, 2004
  8. 8. PADRÕES DE ALEITAMENTO MATERNO E ADEQUAÇÃO ENERGÉTICA 71 Referências 1. Dre wett RF, Wo o l ridge MW, Jackson DA, Im o n g 16. Vianna RPT. Consumo alimentar e saúde [Tese de SM, Mangklabruks A, Wongsawasdii L, et al. Rela- D o u t o rado]. Campinas: Faculdade de Ciências tionships between nursing patterns, supplemen- M é d i c a s, Un i versidade Estadual de Ca m p i n a s ; tary food intake and breast-milk intake in a rural 2002. Thai population. Early Hum Dev 1989; 20:13-23. 17. Ca l d e ro n - d e - l a - Ba rca AM, Bolanos AV, Caire-Ju- 2. World Health Organization. Complementary feed- vera G, Roman-Perez R, Valencia ME, Casanueva ing of young children in developing countries: a E, et al. Evaluacion del consumo de leche hu- review of scientific know l e d g e. Ge n e va : Wo r l d mana por dilucion com deutério y deteccion por Health Organization; 1998. e s p e c t roscopia de infra r ro j o. Pe rinatol Re p ro d 3. Food and Nu t rition Bo a rd. 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