1700    ARTIGO ARTICLE




       Bases conceituais para uma estratégia
       de gestão: o caso da Rede Nacional
       d...
BASES CONCEITUAIS PARA UMA ESTRATÉGIA DE GESTÃO             1701




profissionais aos novos saberes; a definição de      ...
1702    Maia PRS et al.




                                         dual da rede, tendo como objetivo a atuação          ...
BASES CONCEITUAIS PARA UMA ESTRATÉGIA DE GESTÃO             1703



     A atuação colaborativa das diversas institui-   s...
1704    Maia PRS et al.




                                         sas, participando de um mesmo negócio, de           s...
BASES CONCEITUAIS PARA UMA ESTRATÉGIA DE GESTÃO             1705



Método                                                ...
1706    Maia PRS et al.




       Figura 1

       Modelo teórico para estruturação da Rede Nacional de Bancos de Leite H...
BASES CONCEITUAIS PARA UMA ESTRATÉGIA DE GESTÃO             1707



tes grupos técnicos dentro da rede e ligá-los         ...
1708    Maia PRS et al.




                                         Colaboradores                                        ...
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

Bases Conceituais Para Uma Estratégia

618 visualizações

Publicada em

Publicada em: Turismo, Tecnologia
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
618
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
3
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
15
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Bases Conceituais Para Uma Estratégia

  1. 1. 1700 ARTIGO ARTICLE Bases conceituais para uma estratégia de gestão: o caso da Rede Nacional de Bancos de Leite Humano The management strategy of the Brazilian National Network of Human Milk Banks Paulo Ricardo da Silva Maia 1 Franz Reis Novak 1 João Aprígio Guerra de Almeida 1 Danielle Aparecida da Silva 1 Abstract Introdução 1 Instituto Fernandes The Brazilian National Network of Human Milk A Rede Nacional de Bancos de Leite Humano Figueira, Fundação Oswaldo Banks (REDEBLH), with its headquarters in the (REDEBLH) é um programa do Ministério da Cruz, Rio de Janeiro, Brasil. Oswaldo Cruz Foundation in Rio de Janeiro, is Saúde (MS) que tem ocupado importante es- Correspondência experiencing rapid growth. The Network’s activ- paço na área da saúde pública do Brasil. Dela P. R. S. Maia ity has been acknowledged by the World Health fazem parte mais de 160 Bancos de Leite Hu- Instituto Fernandes Figueira, Fundação Oswaldo Cruz. Organization and received the Sasakawa Health mano (BLH), distribuídos por todo o país. Hoje Av. Rui Barbosa 716, Award in 2001 for best public health project. existe evidente reconhecimento nacional sobre Rio de Janeiro, RJ, One of the main challenges is to ensure continu- os avanços na saúde infantil obtidos pela sua 22250-020, Brasil. pmaia@fiocruz.br ing development of competencies to respond to implementação. A rede opera através da doa- the needs arising from such growth. A new strat- ção voluntária de leite humano. O leite é desti- egy is being pursued to deal with the Network’s nado para bebês prematuros, de baixo peso, ou management issues. This article aims to devel- hospitalizados em Unidades de Tratamento In- op a conceptual framework to contribute to the tensivo (UTI) Neonatal. No período de 1998 a elaboration of a theoretical framework for new 2001, foram captados 217 mil litros de leite, o management strategies in the REDEBLH. Using que possibilitou nutrir 288 mil recém-nascidos such concepts, the aim is to draw on the typolo- prematuros. No mesmo período, foram assisti- gy of networks described in the specialized liter- das 1.390.000 mulheres com ações de incentivo ature to identify the institutional profile of the ao aleitamento materno (Rede de Bancos de REDEBLH. Based on the understanding that it Leite Humano: http:www.redeblh.fiocruz.br, is necessary to identify and understand the acessado em 29/Abr/2004). Também foram ob- processes occurring within networks, and after servados benefícios econômicos na medida em which to consider management-related issues, que se estima a diminuição na importação de the study used a proposal developed for the for- leite artificial, antes necessário para alimentar mation of innovation networks as its analytical esses recém-nascidos. tool. Conforme Almeida 1, o grande desafio, no momento, é dar continuidade ao desenvolvi- Milk Banks; Health Policy; Management Capacity mento de competências para uma nova forma de pensar as questões relacionadas à amamen- tação. Assim destaca três questões relevantes: a construção de vias que facilitem o acesso dos Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 20(6):1700-1708, nov-dez, 2004
  2. 2. BASES CONCEITUAIS PARA UMA ESTRATÉGIA DE GESTÃO 1701 profissionais aos novos saberes; a definição de Remontam ao início da década de quarenta caminhos que possibilitem o desenvolvimento os esforços de organização dos BLH no Brasil. científico e tecnológico e a substituição do dis- Localizado no Instituto Nacional de Puericul- curso ideológico da amamentação por posições tura, que mais tarde viria a se transformar no solidamente ancoradas nos diferentes campos atual Instituto Fernandes Figueira (IFF) da Fun- do saber. dação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), o primeiro Por outro lado, a REDEBLH vem experimen- BLH implantado no país tinha como objetivos tando um rápido desenvolvimento que exige coletar e distribuir leite humano. Eram consi- respostas importantes do ponto de vista da sua derados receptores formais bebês prematuros, gestão. crianças com carências nutricionais importan- A implementação de alternativas que uni- tes, ou ainda os que apresentassem intolerân- versalizem o acesso ao conhecimento, onde cia ao leite artificial. Entretanto, segundo Al- quer que existam BLH em funcionamento, tam- meida 1, os BLH também surgiram como res- bém necessita de novas formas de gestão. Para posta às falhas do paradigma do desmame co- tanto, pode-se utilizar instrumentos conceituais merciogênico, que havia substituído as tradi- já disponíveis na área, buscando-se aprofundar cionais amas-de-leite. Esse pensamento pre- os estudos que levem a uma compreensão mais dominou como fator determinante na implan- ampliada do funcionamento da REDEBLH. tação de novos bancos de leite até metade dos O rápido avanço tecnológico requer tam- anos 80 e, nesse período, verificou-se modesto bém ágeis mecanismos de gestão para atender aumento numérico de unidades. A partir de a nova dinâmica das transformações políticas, 1985, verifica-se maior rapidez no surgimento sociais e econômicas. De natureza cada vez de BLH. No intervalo de seis anos (1985 a 1990), mais diversificada, as inovações tecnológicas foram instalados 47. Na década seguinte, esse produzem efeitos modificadores nos sistemas número ultrapassaria as cem unidades. de produção, de serviços e na sociedade de um Há questões, entretanto, que transcendem modo geral. Segundo Peci 2, a utilização de re- os aspectos acima assinalados. O surgimento cursos especializados, aliada ao grande volume de novo paradigma na concepção e forma de de processamento de informação, bem como a atuação dos BLH, que predomina a partir des- prevalência de trocas baseadas em personali- se período, é fortemente influenciado pela zação são fatores determinantes na prolifera- atuação de profissionais altamente qualifica- ção de estruturas organizacionais baseadas no dos que neles atuam. O grupo se organizou atra- modelo de redes. vés da diferenciação e ampliação do espaço de O presente estudo tem como objetivos de- atuação tradicional dos BLH. Avançou na ativi- senvolver um quadro teórico-metodológico dade acadêmica por intermédio da formação e que contribua para formulação de políticas na permanente qualificação de recursos humanos área de gestão da REDEBLH. Busca-se também de nível médio, superior e de pós-graduação identificar os principais atores que interagem stricto sensu. Atividades de investigação cientí- na REDEBLH por meio da utilização da pro- fica e de desenvolvimento tecnológico passa- posta de Rogers 3 sobre a difusão e formação de ram também a fazer parte do arco de sustenta- redes de inovação. ção acadêmica para o novo projeto que então se iniciava. Essa ampliação também significa- ria nova articulação com o campo da saúde co- Caracterização do objeto de estudo letiva bem como novo espaço de atuação na própria formulação da Política Nacional de Alei- Conforme Freitas 4, não se pode pensar em or- tamento Materno. Estava, dessa forma, sedi- ganizações independentes do contexto e da mentado o caminho para sustentação de um época em que se situam. Isso significa que as novo modelo de gestão e de atuação dos BLH. organizações devem ser compreendidas den- Em 1998, a FIOCRUZ, através do BLH do tro de um espaço social e de uma época espe- IFF, passou a coordenar a elaboração e implan- cífica, constituindo-se assim um formato só- tação do projeto REDEBLH cujo objetivo pode cio-histórico. Partindo de uma perspectiva his- assim ser descrito: nortear a formulação, im- tórica, entendida como sucessão de ciclos de plementação e acompanhamento da política vida organizacional do processo de construção estatal no âmbito de atuação dos BLH em todo da REDEBLH, busca-se delimitar nosso objeto o território brasileiro. Em articulação com o de estudo. MS, o projeto apontava para ampliação gra- Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 20(6):1700-1708, nov-dez, 2004
  3. 3. 1702 Maia PRS et al. dual da rede, tendo como objetivo a atuação Referencial teórico interativa e compartilhada de todas as unida- des participantes. A partir de então, é possível De acordo com Castells 5, a economia informa- observar importante crescimento quali-quan- cional/global caracteriza-se pela combinação titativo dos BLH, associado a uma atuação ca- de uma estrutura permanente, uma geometria da vez mais diferenciada. A rede começou a ser variável e polarizada ao longo de um eixo que criada com sucesso. Cresceram os investimen- opõe áreas prósperas e ricas, em informação e tos em pesquisa permitindo que o BLH do IFF, conhecimento, e áreas empobrecidas, sem va- agora Centro de Referência Nacional, desen- lor econômico, e atingidas pela exclusão social. volvesse métodos de controle de qualidade ti- É nesse cenário que ganha importância o novo picamente adaptados às necessidades nacio- modelo de estrutura organizacional baseado nais, que eram seguros e sensíveis o suficiente em redes. para serem praticados na rotina. O custo de O pressuposto do estudo é o de que existem, análise por amostra diminuiu, e as técnicas de pelo menos, duas possibilidades analíticas para processamento foram adaptadas a modelos de compreensão do funcionamento de redes. alta confiabilidade e também de baixo custo. Na primeira, entende-se sua dinâmica a par- Essa prática possibilitou enfrentar, com segu- tir das características de seu processo produti- rança, possíveis agravos e riscos decorrentes vo para geração de bens ou serviços. Essa op- do surgimento da AIDS. Por essa razão, enquan- ção implica privilegiar questões relacionadas à to, em várias regiões do mundo, bancos de lei- estrutura e hierarquia organizacional das re- te foram fechados por temor às questões de se- des. O modo de produção e as oportunidades gurança operacional e risco biológico, o Brasil de mercado são elementos centrais. São opera- viveu um franco processo de expansão. dos conceitos da teoria das organizações, e sua A estruturação da REDEBLH complemen- aplicabilidade tem sido observada em estrutu- ta-se com as referências regionais ou estaduais ras empresariais voltadas para o lucro financei- formalizadas através de convênios de coopera- ro. Observa-se também a configuração estética ção firmados entre a FIOCRUZ e as Secretarias da rede de forma passiva sem buscar elemen- Estaduais de Saúde. É dessa forma que se esta- tos de animação. belecem as articulações e criam-se os mecanis- A segunda, ao contrário, coloca animação mos de interlocução e cooperação técnico-cien- como essência para a compreensão das redes tífica com os BLH participantes da rede. enquanto seu funcionamento. Nesse entendi- No momento, a REDEBLH conta com mais mento, “a questão é sempre a de reatar o nó gór- de 160 unidades em operação, e sua configura- dio atravessando, tantas vezes quantas forem ne- ção geográfica pode ser observada na Tabela 1. cessárias, o corte que separa os conhecimentos Nota-se que aproximadamente 70% dos BLH exatos e o exercício do poder, digamos a natureza estão concentrados nas regiões Sudeste e Sul. e a cultura ...nosso meio de transporte é a noção Contudo, conhecer apenas o processo de insti- de tradução ou de rede. Mais flexível que a noção tucionalização da REDEBLH não é suficiente de sistema, mais histórica que a de estrutura, para compreender o funcionamento e seu con- mais empírica que a de complexidade, a rede é o seqüente modelo de gestão. fio de Ariadne destas histórias confusas” 6 (p. 9). Esses dois campos teóricos simbolizam, portanto, modos diferentes de compreender conceitualmente a idéia de rede, certamente Tabela 1 com implicações diretas no modelo de gestão. Nesse sentido, é fundamental identificar Distribuição da Rede Nacional de Bancos de Leite conceitos que definem configurações possíveis Humano por região geográfica, 2003. de redes para então estabelecer a identidade funcional da REDEBLH. Região Bancos de leite humano Há importantes avanços nos estudos sobre formação e gestão de redes de cooperação e Norte 6 inovação entre pequenas e médias empresas e Nordeste 34 redes sociais. Se isso é particularmente verda- Sudeste 80 deiro, quando se trata de investigações volta- Sul 23 das para aumento de competitividade no mer- Centro-Oeste 20 cado, o mesmo não se pode afirmar quando o Total 163 objeto de estudo está centrado na ação de ór- gãos públicos que atuam na área social e, em particular, no setor saúde. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 20(6):1700-1708, nov-dez, 2004
  4. 4. BASES CONCEITUAIS PARA UMA ESTRATÉGIA DE GESTÃO 1703 A atuação colaborativa das diversas institui- sistemas de meios que articulem outros objeti- ções ainda é incipiente. Por outro lado, esse qua- vos. Abramovay 10 aponta que o termo rede é dro comporta um crescimento de demandas so- utilizado há muito tempo no campo da teoria ciais que, de forma cada vez mais intensa, pres- das organizações como instrumento analítico sionam o Estado para busca de soluções 7. capaz de auxiliar na compreensão de certas for- As estruturas tradicionais de organização, mas de organização coletiva que ultrapassam o observadas a partir de 1900, podem ser carac- campo das ciências sociais para incorporar no- terizadas por três principais modelos. O pri- vos elementos como, por exemplo, a ecologia meiro, chamado de estrutura funcional e iden- da população. tificado a partir do início do século XX, operava Numa concepção ampliada, o conceito de sua lógica baseado na especialização, com coor- rede pode ser aplicado a qualquer organização, denação central. No período de 1920 a 1950, na medida em que se entenda rede como o surgia a chamada estrutura divisional. São as conjunto de relações que se estabelece com ou- divisões de produtos funcionando praticamen- tros atores sociais. Dessa forma, é necessário te como empresas autônomas, porém ainda desenvolver novos conceitos para gerencia- com controle central. Mais adiante, nas déca- mento das redes organizacionais 2. das de 60 e 70, em função da existência de mer- Redes também podem ser entendidas levan- cados tanto estáveis como variáveis, aparecia a do-se em conta a delimitação geográfica em chamada estrutura matricial, que buscava uma que estão inseridas. Por exemplo, consideran- combinação das formas anteriores. Com a cri- do-se algumas redes de cooperação científica e se econômica que se instala no início da déca- tecnológica, estabelecidas na América Latina, é da de 70, combinada com o esgotamento do possível vislumbrar, do ponto de vista geográ- sistema de produção em série, emergiram no- fico, pelo menos cinco configurações. Primeiro vas formas organizacionais estruturadas na seriam as redes de cooperação inter-regional idéia de rede 2. entre os países da América Latina. Funciona- Levando-se em conta essa nova realidade, a riam através de atividades bilaterais, ou sub- concepção “Weberiana” de modelo organiza- regionais estabelecidas por relações interinsti- cional, de integração vertical, não atende às ne- tucionais, interempresariais ou interpessoais. cessidades requeridas para as novas formas de Outra configuração de rede seria a da coopera- gestão, seja de pessoas, serviços ou produção 8. ção hemisférica, que ocorre entre os países da Em contraposição, os modelos de redes sociais América Latina e os Estados Unidos, Canadá e buscam a horizontalização e a articulação de Caribe. Uma terceira configuração seria as re- demandas utilizando as modernas ferramentas des de cooperação entre América Latina e Eu- da informação e da comunicação 9. ropa, tanto em nível bilateral como em bloco São várias as abordagens empregadas que, com a União Européia. Pode ainda ocorrer um dependendo do fundamento teórico utilizado, quarto tipo de rede de cooperação, a ibero- podem conduzir a um referencial conceitual americana, que se diferencia da anterior pela diferente para a definição de rede. A pesquisa natureza de sua articulação, que se dá entre os bibliográfica realizada mostrou que não há, en- países da América Latina com Espanha e Por- tre os autores pesquisados, conceito universal- tugal. Por fim, teríamos as redes de cooperação mente aceito sobre o tema. Em sua discussão com os países asiáticos do pacífico. sobre empresa em rede, Castells 5 chama aten- Outro esforço conceitual para a definição de ção a respeito da necessidade preliminar de se redes é o apresentado por Abreu & Goedert 8. destacar dois tipos de organizações: as buro- Segundo eles, as organizações em rede na sua cracias cuja reprodução de seu sistema de forma mais pura são grupos de pequenas e mé- meios passa a ser seu objetivo principal e as dias empresas que juntos fornecem um produ- empresas, nas quais os objetivos e suas mu- to ou prestam um serviço. Os participantes, em danças modelam e (re)modelam de forma infi- função de suas especialidades, contribuem in- nita a estrutura dos meios. Assinaladas essas dividualmente com ações que agregam valor diferenças, o autor propõe o que se chama de ao produto oferecido. Isso significa, de acordo uma definição, não nominalista, de rede aque- com Tarapanoff 11, imprimir aos produtos ou la forma específica de empresa cujo sistema de serviços produzidos uma diferenciação que os meios é constituído pela intersecção de seg- torna mais atraentes aos olhos do consumidor, mentos de sistemas autônomos de objetivos. quer seja em termos de qualidade, rapidez, du- Isso quer dizer que os componentes da rede rabilidade, assistência ou preço. podem ser autônomos, mas também depen- Ainda, conforme Abreu & Goedert 8, de mo- dentes em relação à rede, podendo, portanto, do geral, uma rede de pequenas e médias em- ser parte de outras redes, inclusive de outros presas constitui-se de um conjunto de empre- Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 20(6):1700-1708, nov-dez, 2004
  5. 5. 1704 Maia PRS et al. sas, participando de um mesmo negócio, de são holística de mundo integrado e não como forma autônoma e harmônica, operando em uma coleção de peças isoladas 16. Essas refle- um regime de intensa cooperação, em que ca- xões têm animado discussões a respeito de co- da uma das firmas executa uma ou mais etapas mo o chamado pensamento complexo pode fa- do processo de produção, comercialização e zer emergir novas formas de compreender as distribuição de produtos/serviços, assim como transformações nos sistemas organizacionais e a complementaridade de práticas gerenciais. nos modelos de redes. Casarotto & Pires 12 ressaltam que, com as Transpondo esses fundamentos para o se- novas formas de atuação das empresas no atual tor saúde do Brasil, podemos enxergar o SUS ambiente de negócios envolvendo a terceiriza- como uma rede, na qual acham-se inter-rela- ção, a parceria, a subcontratação e outras, sur- cionadas organizações, pessoas e interesses. giram novas estruturas de redes de empresas Conforme Junqueira 15, os indivíduos são inse- assim definidas: as redes topdown, que se ca- ridos em redes sociais, nas quais deixam de ser racterizam quando as empresas de menor por- objetos para serem atores, responsáveis pela te fornecem direta e indiretamente sua produ- construção de um SUS, que se reproduz para ção a uma empresa mãe, através da terceiriza- garantir direitos de cidadania. ção, da parceria, da subcontratação e de outras Para Jacobi 9, as identidades de resistência formas de repasse da produção. são constituídas por atores que precisam cons- De outro lado, estariam as chamadas redes truir formas que originalmente se manifestam flexíveis de pequenas e médias empresas, que em desacordo com a chamada nova ordem se caracterizam pela formação de um consór- mundial. As ações são fundadas na busca de cio com objetivos comuns, em que cada em- justiça social, no exercício da cidadania e nu- presa é responsável por parte do processo de ma transnacionalização das iniciativas civis. produção, ou seja, o funcionamento em con- O termo rede também pode ser utilizado junto as tornaria uma grande empresa. para descrever processo de formação de políti- De acordo com Porter 13, redes também po- cas públicas que envolvam múltiplos nós (or- dem ser denominadas como aglomerados, ou ganizações) dotados de conexões conforme seja, um agrupamento de empresas, geografica- descrito por Misoczky 17. mente concentrado, inter-relacionadas e insti- Assim, o que se observa é que, independen- tuições correlatas numa determinada área, vin- te do conceito de rede que se adote, verificam- culadas por elementos comuns e complemen- se algumas tendências como, por exemplo, a tares. Outra questão que se coloca nessa dis- consolidação da cultura de cooperação. Nota- cussão conceitual são as aplicações do concei- se também a busca da universalização da coo- to de redes ou de organizações em rede. Em re- peração científica e tecnológica. Um número cente estudo, Saravia 14 nos indica algumas de- cada vez maior de atores é incorporado aos pro- las: como método de mapeamento de cadeias cessos de inovação, sejam públicos ou privados produtivas; como ferramenta destinada a veri- e nos esquemas de cooperação. Essas tendên- ficar o funcionamento de setores regulados; cias têm como conseqüência aumentar o papel além disso, sua aplicabilidade no campo da estratégico da cooperação e seus impactos en- biologia. A partir dessa visão multifacetada, o tre os elos de integração das redes. autor conclui que, na prática, a rede é um con- A concepção de rede adotada para fins des- ceito largamente operacional que permite cons- te artigo baseia-se na idéia da chamada ecolo- truir novas realidades e modificar sistemas já gia profunda desenvolvida por Capra 18. Parte- existentes. se do principio de que o mundo é um todo in- A articulação de diversos atores sociais, pa- tegrado, e não uma coleção de partes dissocia- ra gerar conhecimento e intervir numa realida- das. Reconhece-se também a independência de social, também pode ser entendida como fundamental de todos fenômenos e o fato de rede. Essa idéia parte do princípio de que a rea- que, enquanto indivíduos e sociedades, esta- lidade social precisa ser compreendida como mos todos encaixados nos processos cíclicos sistema, pois os problemas são interligados e in- da natureza, sendo, em última análise, depen- terdependentes. O modelo mecanicista de pen- dentes desse processo. Vale dizer um entendi- sar não permite apreender as reais transforma- mento de rede que inclui, para além da com- ções sociais ora em curso. Para Junqueira 15, é preensão de um todo funcional e as interde- uma nova visão de mundo que valoriza o pen- pendências entre suas partes, sua inserção no samento intuitivo e não-linear centrado na co- ambiente social. operação e parceria. Os fundamentos dessa con- cepção estão na mudança do paradigma meca- nicista para o ecológico e baseiam-se numa vi- Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 20(6):1700-1708, nov-dez, 2004
  6. 6. BASES CONCEITUAIS PARA UMA ESTRATÉGIA DE GESTÃO 1705 Método dert 19. Isso implica, num primeiro momento, na identificação e categorização dos principais Neste estudo, considera-se a REDEBLH como operadores dessa rede. um conjunto de instituições que atuam, direta ou indiretamente, nas ações de promoção do aleitamento materno, coleta, processamento, Resultados e discussão controle de qualidade e distribuição de leite humano ordenhado pasteurizado. Funciona de Os atores envolvidos, os agentes externos, os forma autônoma e sem hierarquia organizacio- monitores de avaliação (gatekeeping) e a expli- nal formalmente estabelecida. Fundamentos citação de objetivos foram as categorias analí- como compromisso social, cooperação técni- ticas selecionadas. Na REDEBLH, pode-se, nu- ca, geração e apropriação do conhecimento ma análise preliminar, identificar o perfil de são elementos inerentes à realização das ações seus integrantes diretos e indiretos (atores en- desenvolvidas evidenciando a busca de pro- volvidos), como apresentado na Tabela 2. cesso contínuo de inovação tecnológica 1. Os atores da Rede mantêm relações cons- Goedert 19, com base nos estudos de outros tantes entre si e também com atores de outras autores 3,12,21, apresenta proposta de natureza redes. Essa ação se concretiza através dos cha- exploratória para a identificação de oportuni- mados nós de relacionamento. Adotando-se o dades de aplicação do modelo de redes de ino- desenho de rede sugerido por Goedert 19, pode- vação. Essa configuração de rede proporciona se vislumbrar, para a REDEBLH, uma configu- o conhecimento e a inovação tecnológica; a ração como a indicada na Figura 1. Nessa repre- modernização gerencial; a difusão de novos sentação, ainda preliminar, e tentativa de iden- serviços além da integração e cooperação de tificação e contextualização dos diversos ato- potencialidades. Ainda mais, uma rede de ino- res que nela interagem, observa-se a rede com vação também se relaciona com parceiros que olhar externo buscando entender a inter-rela- possuem objetivos alinhados, seja do setor fi- ção e o papel dos diversos atores envolvidos. nanceiro, governamental, científico-tecnológi- A “externalização” (ameaças internas ou ex- co e outros. Assumindo, em razão das caracte- ternas) pode ser entendida como, por exemplo, rísticas já apontadas na descrição do objeto de as possibilidades de mudanças na condução e estudo, que a REDEBLH insere-se no sistema formulação das políticas de saúde. De acordo nacional de inovação em saúde, tal qual descri- com Goedert 19, o gatekeeping encarrega-se de to em Gadelha 20, optou-se, neste estudo, pela apontar as informações de forma contínua na adoção do caminho analítico proposto por Goe- rede, além de realizar contatos com os diferen- Tabela 2 Atores e descrição do perfil. Atores Descrição Sede da Rede, BLH, Sede da Rede localizada na FIOCRUZ, BLH localizados em cinco diferentes regiões geográficas do Brasil. Comissões de Aleitamento As comissões reúnem representantes de Estados e Municípios Instituições financeiras A principal fonte de financiamento é o SUS (Ministério da Saúde, Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde) Grandes empresas Além da FIOCRUZ, outras empresas já participam da Rede para geração de novos produtos, alavancagem de pesquisas e investimentos. Já existem experiências inovadoras de parcerias oficializadas através de convênios, dentre essas se pode citar: Empresa de Correios e Telégrafos e DATASUS Associações de classe A Sociedade Brasileira de Pediatria cumpre papel importante na disseminação de ações preventivas na área infantil, o que a torna fundamental parceira para consolidação e ampliação da rede Grupos de Pesquisa FIOCRUZ, Universidades e Institutos de Pesquisa & Desenvolvimento & Desenvolvimento Organizações Amigas do Peito, Associação Brasileira de Profissionais de Banco de Leite Humano não-governamentais BLH = Banco de Leite Humano; FIOCRUZ = Fundação Oswaldo Cruz; DATASUS = Departamento de Informação e Informática do SUS. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 20(6):1700-1708, nov-dez, 2004
  7. 7. 1706 Maia PRS et al. Figura 1 Modelo teórico para estruturação da Rede Nacional de Bancos de Leite Humano. Ameaças do mercado interno e externo 4 Sociedade Brasileira Diagnóstico de Pediatria Mapeamento Atores 5 1- Banco de leite humano FIOCRUZ 2- Agente financiador 3 Universidades 3- Grandes empresas FIOCRUZ 4- Associações de classe ECT 5- Grupos de P&D DATASUS 6- ONGs Objetivos 6 Coleta e distribuição de LHO Amigas do Peito Controle microbiológico LHO ABPBLH Inovação tecnológica 2 Educação treinamento SUS Serviços 1 Rede Nacional de Bancos de Leite Humano Agente externo Suporte BLH Região Norte (6) BLH Região Sudeste (80) Custo Transacional Custos sociais Custos BLH Região Sul (23) BLH Região Centro-Oeste (20) Monitoramento Avaliação BLH Região Nordeste (34) Adaptado da representação gráfica de rede proposta por Goedert 19. ABPBLH = Associação Brasileira de Profissionais de Banco de Leite Humano; FIOCRUZ = Fundação Oswaldo Cruz; ECT = Empresa de Correios e Telégrafos; BLH = Banco de Leite Humano; ONGs = Organizações Não-governamentais; LHO = Leite Humano Ordenhado. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 20(6):1700-1708, nov-dez, 2004
  8. 8. BASES CONCEITUAIS PARA UMA ESTRATÉGIA DE GESTÃO 1707 tes grupos técnicos dentro da rede e ligá-los Conclusões aos demais centros tecnológicos, estabelecen- do a cooperação entre eles. A geração e o com- Por meio deste estudo, foi possível verificar que partilhamento do conhecimento também são os resultados obtidos, de um modo geral, ofe- atribuições de extrema importância para o de- recem caminho analítico de utilidade para a dis- senvolvimento e o estabelecimento de oportu- cussão conceitual sobre o processo de gestão nidades de melhoria. da REDEBLH. Avanços serão obtidos na medi- No caso da REDEBLH, esses atores estão na da em que outras investigações ampliem esse equipe do Centro de Referência Nacional e nas olhar para além do formalismo estático de iden- Referências estaduais. tificação de atores. As doadoras voluntárias, Identificou-se também que atividades de equipes de saúde e o próprio SUS são atores monitoramento e avaliação são ainda incipien- que fazem a REDEBLH interagir no ambiente tes, necessitando de maior estruturação, do social. É preciso trazer para o escopo da análise ponto de vista gerencial. Por outro lado, o con- esses elementos que lhe conferem animação. trole de qualidade do leite humano distribuído Esse movimento analítico complementar é realizado de forma eficiente, pois são adota- deve implicar em contribuições para melhor das modernas técnicas de processamento e compreender a gênese e a identidade funcio- controle, sendo todo processo submetido ao nal da REDEBLH. Vale dizer que, a partir do en- monitoramento da vigilância sanitária local. tendimento do processo de construção da RE- Com relação aos custos transacionais, se- DEBLH e da identificação do papel dos atores e jam sociais ou econômicos, ainda são necessá- suas tramas, será possível avançar no desenho rios estudos que possam apurá-los com maior de novas estratégias de gestão. detalhamento. A importância social da REDEBLH é incon- Os objetivos da REDEBLH estão explicita- testável. A incorporação de novos saberes que dos (http:www.redeblh.fiocruz.br, acessado em fundamentam a gestão é também, sem dúvida, 29/Abr/2004), porém acredita-se que, na práti- uma prática a ser perseguida no caminho da ca, outros sejam estabelecidos pela própria di- modernização. Espera-se que o referencial teó- nâmica de seu funcionamento. Ou seja, a natu- rico apresentado possa contribuir para a elabo- reza deste formato operacional, intensivo na ração de novos estudos visando à consolidação relação entre atores com base na solidariedade e ampliação do posicionamento estratégico da e cooperação, traz como resultado a incorpora- Rede no campo da saúde pública nacional e no ção permanente e, portanto, também dinâmi- fortalecimento da cultura de cooperação. ca, de novos objetivos. Resumo A Rede Nacional de Bancos de Leite Humano (RE- um quadro teórico para novas estratégias de gestão da DEBLH), com sede na Fundação Oswaldo Cruz, expe- REDEBLH. Através da utilização de conceitos, busca- rimenta rápido desenvolvimento. O trabalho desen- se, à luz da tipologia de redes descrita na literatura es- volvido foi reconhecido pela Organização Mundial de pecializada, identificar o perfil institucional da RE- Saúde e distinguido, com o prêmio Sasakawa de Saú- DEBLH. A partir do entendimento de que é necessário de – 2001, como o melhor projeto de saúde pública identificar e compreender os processos que ocorrem no dentre os apresentados. Um dos grandes desafios atuais âmbito das redes para então pensar as questões rela- é dar continuidade ao desenvolvimento de competên- cionadas a sua gestão, foi utilizada como instrumento cias que respondam aos desafios decorrentes de seu de análise proposta desenvolvida para formação de crescimento. Na realidade, busca-se uma nova estraté- redes de inovação. gia de pensar as questões relacionadas a sua gestão. Este artigo tem como objetivos desenvolver um marco Bancos de Leite; Política de Saúde; Capacidade de conceitual que possa contribuir para elaboração de Gestão Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 20(6):1700-1708, nov-dez, 2004
  9. 9. 1708 Maia PRS et al. Colaboradores Agradecimentos A concepção original do artigo bem como uma pri- Para as professoras Suely Ferreira Deslandes e Virgi- meira versão foram elaboradas por P. R. S. Maia. To- nia Alonso Hortale pelas importantes contribuições e dos autores participaram das revisões e da elabora- permanente incentivo. A participação na oficina de ção do texto final. autores promovida pela coordenação de pós-gradua- ção em saúde da mulher e da criança do Instituto Fernandes Figueira, Fundação Oswaldo Cruz, foi fun- damental para elaboração deste artigo. Referências 1. Almeida JAG. Breastfeeding: a nature – culture 12. Casarotto Filho N, Pires LH. Redes de pequenas e hybrid. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz; médias empresas e desenvolvimento local – es- 2001. tratégias para a conquista da competitividade 2. Peci A. Emergência e proliferação de redes orga- global com base na experiência Italiana. São Pau- nizacionais: marcando mudanças no mundo de lo: Atlas; 1999. negócios. Rev Adm Pública 1999; 33:7-24. 13. Porter ME. Competição – on competition: estra- 3. Rogers EM. Diffusion of innovation. New York: tégias competitivas essenciais. Rio de Janeiro: Free Press; 1995. Campus; 1999. 4. Freitas ME. Cultura organizacional: identidade, 14. Saravia H. Redes, organizações em rede e organi- sedução e carisma? Rio de Janeiro: Editora FGV; zações virtuais. As novas configurações organiza- 1999. cionais. http://www.indeg.org/rbpg/index.html, 5. Castells M. A sociedade em rede. Rio de Janeiro: acessado em 30/Jun/2003. Paz e Terra; 2001. 15. Junqueira LAP. Intersetorialidade, transetoriali- 6. Latour B. Jamais fomos modernos. Rio de Janeiro. dade e redes sociais na saúde. Rev Adm Pública Editora 34; 2000. 2000; 34:35-45. 7. Maia PRS. Construção de um modelo para me- 16. Silva AB, REBELO, LMB. A emergência do pensa- dição e avaliação de programas institucionais de mento complexo nas organizações. Rev Adm Pú- pesquisa e desenvolvimento tecnológico: produ- blica 2003; 37:777-96. ção do conhecimento científico na Fundação Os- 17. Misoczky MC. Redes e hierarquia: uma reflexão waldo Cruz In: Anais do 21o Simpósio de Gestão sobre arranjos de gestão na busca de equidade da Inovação Tecnológica. [CD-ROM] São Paulo: em saúde. Rev Adm Pública 2003; 37:335-54. Editora do Núcleo de Política e Gestão Tecnológi- 18. Capra F. A teia da vida. São Paulo: Editora Cultrix; ca, Universidade de São Paulo; 2000. 1996. 8. Abreu AF, Goedert AR. Metodologia para forma- 19. Goedert AR. Redes de inovação para pequenas e ção de redes de inovação entre pequenas e médias médias empresas: um estudo exploratório para o empresas In: Anais do 21o Simpósio de Gestão da setor apícola catarinense [Dissertação de Mestra- Inovação Tecnológica. [CD-ROM] São Paulo: Edi- do]. Santa Catarina: Faculdade de Engenharia de tora do Núcleo de Política e Gestão Tecnológica, Produção, Universidade Federal de Santa Cata- Universidade de São Paulo; 2000. rina; 1999. 9. Jacobi P. Meio ambiente e redes sociais: dimen- 20. Gadelha CA, Quental C, Fialho BC. Sistema de in- sões intersetoriais e complexidade na articulação ovação: uma abordagem sistêmica das indústrias de práticas coletivas. Rev Adm Pública 2000; 34: da saúde. Cad Saúde Pública 2003; 19:47-59. 131-58. 21. Tornatzky LG, Fleischer M. The process of tech- 10. Abramovay R. A rede, os nós, as teias: tecnologias nological innovation. Toronto: Lexington Books; alternativas na agricultura. Rev Adm Pública 2000; 1990. 34:159-77. 11. Tarapanoff K, Araújo Jr. RH, Cormier PMJ. Socie- Recebido em 15/Jan/2004 dade de informação e inteligência em unidades Versão final reapresentada em 19/Mai/2004 de informação. Ciência da Informação 2000; 29: Aprovado em 19/Jul/2004 91-100. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 20(6):1700-1708, nov-dez, 2004

×