Fluzz pilulas 26

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Fluzz pilulas 26

  1. 1. Em pílulasEdição em 92 tópicos da versão preliminar integral do livro de Augusto deFranco (2011), FLUZZ: Vida humana e convivência social nos novos mundosaltamente conectados do terceiro milênio 26 (Corresponde ao primeiro tópico do Capítulo 4, intitulado Anisotropias no espaço-tempo dos fluxos) Deformando a rede-mãeNa ausência do poder as redes tendem a permanecer distribuídasA investigação das redes sociais leva-nos a uma nova hipóteseantropológica: uma outra visão da natureza humana (seja lá o que isso for),que se afasta do que foi concebido como Homo economicus, para seaproximar – como sugeriram Christakis e Fowler – do que eles chamaramde Homo dictyous (do latim homo, “humano”, e do grego dicty, “rede”) (4).Indivíduos biológicos da espécie humana se tornam Homo dictyous (sereshumanos), quando interagem. Mas quando interagem constituem rede.Logo, sem essa rede não podemos ser humanos.
  2. 2. Em outras palavras: se, como pessoas, já somos rede – do contrário nãopoderia haver a realidade biológico-cultural que chamamos de ‘ser humano’– então, para nós, humanos, no princípio era a rede. Isso significa quesomos “filhos” da rede. Logo, podemos dizer que a rede é a nossa “mãe”.Ou seja, que existe uma rede-mãe.A interpretação que revela tal sentido é alegórica ou metafórica. Mas ametáfora da rede-mãe pode revelar mais coisas do que imaginamos. Elasugere que, deixados a si mesmos, os humanos farão (ou melhor, serão)redes em vez de se engalfinharem em uma guerra de todos contra todostransformando sua vida em uma realidade “solitária, miserável, sórdida,brutal e curta”, como queria o agourento Hobbes (1651) (5).Os pensadores e os economistas que cunharam e trabalharam com aconcepção do homo economicus simplesmente partiram desse fundamentohobbesiano para reificar a existência da abstração chamada indivíduo.Trata-se de uma visão da natureza humana – na verdade quase uma tara –baseada no egoísmo, para a qual, como escreveu Hobbes, na ausência de“um poder que domestique os homens... não há sociedade; e o que é piordo que tudo, [há] um medo contínuo e perigo de morte violenta” (6).Vivendo nesse “mundo cão brutal em que a preocupação com o bem-estardos outros não existe” (7) existiria, entretanto, paradoxalmente, o indivíduoenquanto unidade isolada dos outros indivíduos. Evidentemente, diante detantos atos gratuitos de colaboração que praticamos e presenciamos no dia-a-dia, essa construção intelectual só pode se revelar uma perversão. Daí atara individualista, tão freqüente e inadequadamente denominada deliberalismo (econômico).Não há nenhuma evidência científica de que os seres humanosabandonados à sua própria sorte (como se pudesse haver outra sorte...)poriam fim à sua convivência. As evidências apontam justamente ocontrário. Não havendo motivo para guerrear, as pessoas – seguindo ofluxo da vida – viveriam sua convivência – ou seja, viveriam em rede. Comodisse Lynn Margulis (1986): “A vida não se apossa do globo pelo combate,mas sim pela formação de redes” (8).A alegação de Hobbes de que é o poder que evita a destruição coletiva deveser invertida. Quando há poder, aí sim, é porque houve motivo paraguerrear e a convivência fica ameaçada.Na ausência de um poder que as domestique (para insistir na expressão deHobbes), pessoas interagindo com pessoas tendem a configurar redesdistribuídas em pequenos grupos, só não o fazendo, em grupos maiores, 2
  3. 3. em virtude da falta de condições biológicas ou tecnológicas de interatividadeampliada e à distância. Não haveria motivo para obstruírem fluxos,separarem clusters ou excluírem nodos dessas redes (que é, exatamente, oque faz o poder), a menos que queiramos lançar mão de uma hipótesereligiosa para vaticinar que o homem é inerentemente competitivo (ou emparte competitivo, por sua própria natureza – seja lá o que isso for). Talhipótese é absurda neste contexto porque pressupõe que possam existirseres humanos (entes biológico-culturais) como entes (biológicos) isolados.Mas não existe no ser humano nenhum atributo cultural (comportamental)que se possa dizer inerente. A “natureza” do Homo dictyous – se é que sepode afirmar que exista uma ‘natureza da cultura’ – é relacional.Todo poder acarreta anisotropias no espaço-tempo dos fluxos(verticalizando a rede). E é por isso que o poder se define como umamedida de não-rede (em termos de rede distribuída) (9). Na ausência dopoder (centralização) a rede tende a permanecer distribuída. Podemos dizerque o bios (Basic Input-Output System) pré-gravado lá no firmware darede-mãe não é um programa verticalizador (centralizador) pelo simplesmotivo de que não há qualquer razão para sê-lo. Nesse caso, o que precisaser explicado é o processo de centralização, não o estado de distribuição.São os obstáculos colocados à livre convivência que precisam serjustificados, não a convivência.Por certo a rede-mãe não permanece com topologia distribuída na presençade programas verticalizadores. Aqui é um daqueles casos – mais comuns doque se pensa – em que o software modifica o hardware (como quandoaprendemos uma língua e alteramos para tanto nossas conexõesneuronais).Programas verticalizadores deformam a rede-mãe, sejam programasmeméticos (como os que chamamos de deuses – quando lhes atribuímosatributos super-humanos), sejam programas organizacionais (que rodamcomandos de ordem, hierarquia, disciplina e obediência – como escolas,igrejas, partidos, corporações, Estados e outras instituições assemelhadascom todos os seus aparatos).No interior e no entorno dessas organizações hierárquicas o campo social éprofundamente perturbado. O espaço-tempo dos fluxos é deformadoobrigando as fluições a percorrerem caminhos estranhos. A interação édisciplinada sem qualquer outra razão que a de manter tais estruturasmonstruosas funcionando e se reproduzindo. A imagem da Fig. 2 éaterrorizante. Lembra à primeira vista aquelas naves de alienígenas 3
  4. 4. predadores do filme de Roland Emmerich (1996) Independence Day. Talveznão por acaso: organizações hierárquicas de seres humanos geram seresnão-humanos. Mas se trata apenas de uma outra maneira de representar odiagrama (B) de Paul Baran (1964) já exposto aqui na Fig. 1. Fig. 2 | Organograma de uma organização hierárquicaSe o fluxo deixar de ser aprisionado, orientado, conduzido, compelido aescorrer pelas valetas cavadas para pré-traçar caminhos (eliminando outroscaminhos), a rede-mãe volta à sua topologia distribuída. É curioso que aprimeira expressão escrita do conceito de liberdade – a palavra sumériaAma-gi – signifique literalmente “retorno à mãe”.Por isso se diz: quando fluzz soprar, prá que ensino, prá que escola?Quando fluzz soprar, para que religião, para que igreja? Quando fluzzsoprar, para que corporação, para que partido? Quando fluzz soprar, paraque nação, para que Estado?Um sinal de que fluzz está soprando é que tais instituições estão semisturando e se confundindo, quer dizer, está ficando cada vez mais claroque elas são aspectos das mesmas deformações ou do mesmo tronco deprogramas verticalizadores que “rodam” na rede social provocandoanisotropias no espaço-tempo dos fluxos. 4
  5. 5. É assim que as perturbações no campo social que geram religiões revelam-se as mesmas que geram nações. De sorte que, nos múltiplos mundosaltamente conectados que estão emergindo, os nômades optarão por essaou aquela nação por mera preferência individual, como há bastante tempojá fazemos com as religiões que professamos quando nos convertemosdepois de adultos. Alguém preferirá ser brasileiro por simpatia ou por outrasrazões afetivas, empáticas ou culturais; outro, por razões análogas,preferirá se identificar com uma região ou cidade: será californiano oucidadão-cultural de Lyon.Da mesma forma, ao renunciar a igrejas muitas pessoas retirarão tambémseus filhos das escolas (compreendendo que as duas coisas são – nacondição de centros de deformação da rede-mãe ou de fontes deperturbação no campo social – basicamente a mesma coisa). O movimentodo homeschooling já começou e avançará para o communityschooling (nalinha do unschooling). Comunidades de aprendizagem em rede tendem aflorescer e se multiplicar nos Highly Connected Worlds substituindo asatuais burocracias do ensinamento (chamadas de escolas).Ainda: Estados (nacionais) dividirão com corporações (transnacionais) ocontrole dos fluxos econômicos e políticos mundiais globalizados e essapulverização (dos 193 exemplares atuais do modelo europeu de Estado-nação – um anacrônico fruto da guerra, da paz de Westfalia – para milharesde centros com autonomia crescente), dará margem à configuração denovos modelos glocais de governança baseados no localismo cosmopolita demiríades de cidades como redes de comunidades interdependentes.É claro que todas as velhas instituições perdurarão vestigialmente, comoremanescências do mundo único. Não serão destruídas, simplesmente setornarão inadequadas por não suportarem a fluição de alta intensidade queatravessará os interworlds dos mundos altamente conectados do terceiromilênio. 5
  6. 6. Notas(4) CHRISTAKIS, Nicholas e FOWLER, James (2009): Connected: o poder dasconexões. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.(5) HOBBES, Thomas (1651). Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2003.(6) HOBBES: Op. cit.(7) CHRISTAKIS, Nicholas e FOWLER, James: Op. cit.(8) MARGULIS, Lynn e SAGAN, Dorion (1986). Microcosmos: four billion years ofmicrobial evolution. Los Angeles: University of California Press, 1997.(9) Cf. FRANCO, Augusto (2009). O poder nas redes sociais. Slideshare [1893views em 23/01/2011]<http://www.slideshare.net/augustodefranco/o-poder-nas-redes-sociais-2a-versao> 6

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