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Trata-se de uma leitura de um romance da escritora moçambicana, Paulina Chiziane

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  1. 1. L . ›'^*'"› JÍÂQ'. "Mñumsoc * Innmm N.
  2. 2. “MUTHIANA ORERA, ONROA VAYP? " DIÁLOGOS DIANTE DO ESPELHO. UMA LEITURA DE NIKETCHE, UMA HISTÓRIA DE POLIGAMIA DE PAULINA CHIZIANE Ana da Palma L'analyse de ce roman mozambicain repose essentiellement sur une lecture attentive au theme du double et à la structure faite d'échos et de correspondances d'images, qui sont la source et le résultat d'une syntaxe narrative. Depuis le miroir, comme froide Compagnie d'une femme esseulée, jusqu'au miroir comme moyen de connaissance de soí. Nous nous pencherons sur le regard de cette femme africaine, dans un espace culturel, ou les structures et paradigmes sociaux sont faits de croyances anciennes et nouvelles. L'espace qui nous intéresse est le miroír, qui est aussi un espace de dérision, d'ironie et de réflexion. Dans un premier temps, nous nous attarderons sur les modes de representa- tion et de production de Fimage. Puis, nous nous dédierons au(x) dou- ble(s) en tant que médiateur(s) dans l'effort de connaissance de Pimage. Finalement, nous verrons comment cette connaissance du miroir, c'est- -à-dire à travers des deux moments précédents, en tissant les mailles de Pintrospection, exerce son pouvoir de décision. "Eu sou aquela que tem um espelho por companhia no quarto frio. " (N. 67) O romance, este género, relativamente, recente no mundo ocidental, que já conheceu o seu apogeu e uma morte prematura, parece não ter esgotado todos os seus recursos. O romance, (se a palavra ainda corres- 1 Muthiana orera, onroa vayi? significa: mulher bonita, onde vais? Todas as cita- ões do texto da autora serão indicadas da se uinte forma: N. 186 . Ç 8 FACES DE EVA, N. ° 12, Edições Colibri / Universidade Nova de Lisboa (2004): 49-62
  3. 3. 50 Faces de Eva - Estudos ponde ao que se produz! ) não pára de morrer. Rolland Barthes diz-nos que: "A literatura é como o fósforo: é quando tenta morrer que brilha mais". Partindo do princípio que a literatura a que se refere é aquela que provoca estranhamento e aplicando estas palavras ao romance, esta morte é apenas uma tentativa. É uma vertigem que reflecte a multiplica- ção dos leitores e das leituras possíveis, assim como a complexidade fragmentada e especializada das nossas sociedades, nas quais também existe o escritor? O discurso sobre o texto não esgota os recursos do texto, assim como o texto não se esgota. Presenciarnos uma espécie de jogos de espelhos fragmentados em movimento que se espelham, interminavel- mente, uns nos outros. O universo diegético é aquele de uma mulher africana, Rami, edu- cada num contexto católico, que segue o percurso normal de uma mulher, casada, com filhos, que se dedica às tarefas de casa e à sua famí- lia. Mas, Rami descobre que o esposo, Tony, ocupa uma parte do tempo com outras mulheres, de quem tem outros filhos. Após várias tentativas desesperadas para o recuperar, Rami acaba por reunir todas as suas rivais numa grande família polígarna. Cria-se um equih'brio familiar até à secreta viagem de Tony a Paris. Esse dia, um desconhecido é atropelado no bairro de Rami. A família de Tony, alimentada por superstições, chega à conclusão que o desconhecido só pode ser o seu parente. Logo, Rami é submetida ao ritual ao qual são sujeitadas as viúvas. Dedicar-nos-emos ao olhar desta mulher africana num espaço cultu- ral composto por crenças antigas e recentes. É através do jogo complexo de olhares que se cruzam, que vamos obter um leque de representações. A análise trata essencialmente o texto da autora, à luz de algumas leituras teóricas. A nossa leitura envereda por sendas aos reflexos múltiplos. Por um lado, porque é quase uma leitura diante do espelho. A pupila aos saltos extremamente rápidos sobre o texto, lendo unicamente entre as pausasf, 2 Rolland Barthes, Le degré zéro de l 'écriture suiví de, Nouveaux essais Critiques, Paris, Editions du Seuil, 1972, p. 32: "La littérature est comme le phosphore: elle brille le plus au moment oü elle tente de mourir" (Tradução Nossa) 3 Rolland Barthes, Essais Critiques, Paris, Éditions du Seuil, 1981, pp. 152, 159. Segundo o autor o 'escritor desempenha uma função (. ..) ', logo, ao utilizar o verbo desempenhar e não exercer, sugere, explicitamente, o que afirma mais tarde, isto é, a não-transitividade do substantivo escritor. Este escritor que “trabalha a sua palavra' e que 'absorve o porquê do mundo num como escrever' . (T. N.) 4 Relativamente a este pormenor, Alberto Manguel, na sua belíssima História da leitura, (p.54) diz-nos que: “Supomos, geralmente, que quando lemos, os nossos olhos deslocam-se, suavemente, ao longo das linhas de uma página, e, quando lemos caracteres ocidentais, por exemplo, os nossos olhos movimentam-se da
  4. 4. Ana da Palma: "Muthiana Orera, onroa vayi? " 51 depende de um olhar, de um lugar, de um conhecimento, de uma sensi- bilidade e dos desencontros das leituras que acabam sempre por acertar- -se ou completar-se. Vamos considerar o percurso de Rami durante a sua viagem íntima e a sua compreensão dos outros. Por outro lado, só a leitura do texto tem por consequência a representação. Várias representa- ções são possíveis. Contudo, devido à existência de constantes, ligadas à utilização de códigos, neste caso os códigos dizem respeito à escolha de um género, de uma língua e / ou de uma linguagem, a representação segue um caminho relativamente reduzido, que só se alarga em função da escolha dos pressupostos teóricos ou dos temas que podem orientar a análise. Para o género, trata-se de uma narração longa, um romance, tal como está indicado na cobertura do livro e, porque podemos identificar algumas características do romance. Para a língua, é uma língua de expressão portuguesa; a linguagem fala, está em movimento; é uma linguagem poética e uma linguagem de mulher. Niketche é o nome dado a uma dança, uma dança de amor da Zam- bézia e Nampula. Na sua qualidade de dança, é um cíntilar pelas múlti- plas posturas, os múltiplos passos, assim como pelas suas variações e hesitações. É um movimento do corpo. Aqui, trata-se do corpo da perso- nagem principal: Rami. Para não vos perder no caminho, não podemos deixar de fazer uma breve introdução sobre Paulina Chiziane5, porque ela é a primeira mulher moçambicana a ter publicado um romance. O espaço que nos interessa é o espelho, que, também, se revela ser um espaço de derísão, de ironia e de reflexão. Atrasar-nos-emos sobre os momentos em que o espelho funciona como simples reflexo, apesar desta simplicidade não ser negligenciável, posto que é um momento de intimi- dade e de conhecimento ou de não re-conhecimento com o corpo. Depois, veremos e identificaremos os duplos enquanto mediadores no esforço de esquerda para a direita. Tal não é o caso. Há um século, o oftalmologista francês, Émile Javal descobriu que, na verdade, os nossos olhos efectuam saltos sobre a página, esses saltos ou sacadas produzem-se três ou quatro vezes por segundo, a cerca de uma velocidade de duzentos graus por segundo. A velocidade de deslocação do olho na página - e não o próprio movimento - interfere com a percepção, e é unicamente durante as breves pausas entre as deslocações que lemos verdadeiramente. " (T. N.) 5 Paulina Chiziane nasceu em Manjacaze, na província de Gaza, a 4 de Junho de 1955. Fez estudos de linguística em Maputo. Foi educada num contexto familiar resistente à assimilação e à aculturação. A autora tem vindo a publicar de forma regular com Balada de Amor ao vento (1990; Caminho, 2003), Ventos do apocalipse (Maputo, 1995; Caminho, 1999), O sétimo juramento (Caminho, 2000) e Niketche, uma história de poligamia (Caminho, 2002).
  5. 5. 52 Faces de Eva - Estudos conhecimento da imagem. Por fim, veremos como o conhecimento do espelho, isto é, através dos dois momentos precedentes, tecendo as malhas da introspecção, exerce o seu poder de decisão. O espelho lugar de conhecimento? Não resistimos a fazer uma pequena digressão sobre a palavra espelho. Espelho vem do latim speculum que no sentido literal significa: espelho e no sentido figurado: uma reprodução fiel, uma imagem. Spe- culum vem de specio, palavra arcaica que significa: olhar e cuja raiz Spec, spic (por apofonia: spect) exprime a atenção do olhar. Esta palavra-raiz deu origem a várias palavras no contexto semântico augural, militar e comum e tinha por significado geral: a aparência. Pois, sabemos que a imagem no espelho, fiel representação de um instante, é sempre uma imagem invertida! A narração cumpre-se com um tempo verbal adaptado à forma. A frase é simples, desnudada do seu cortejo de complementos. O verbo está no tempo presente. A forma é límpida. A utilização de verbos sensitivos: sentir, ver, olhar, tocar, e de verbos de volição: querer, desejar, decidir, dá à narração uma grande frescura. A linguagem de Rami é um falar das sensações e dos sentidos. É uma linguagem à flor da pele. Ela sente. Ela toca. Os seus olhos, o seu coração e o seu corpo dão saltos entre as linhas de leitura. É uma linguagem que procura compreender, daí a sua limpi- dez. Relembrando as belíssimas palavras de Léopold Sédar Senghor, é uma linguagem que se torna verbo. O texto tece-se com um verbo no pre- sente que provoca um afastamento, surpreendendo o leitor, mas que, pouco a pouco, dá volume e consistência à personagem principal. Em suma, o ritmo verbal é curto, simples e expressivo manifestando o cuida- do na transmissão de uma mensagem** e sua compreensão. O tempo do verbo é um presente universal e unificador, além da sua função nos monólogos porque é um tempo que acompanha o percurso de uma mulher. A narração faz-se sob o modo de monólogo interior e discurso direc- to. Contudo, enquanto que o monólogo tradicional apresenta-se como uma espécie de deambulação entre palavras semelhantes a pensamentos, que acabam por formar um sentido na totalidade; em Niketche, o monó- logo, que cobre a quase totalidade da narração, é um pensamento 6 A ideia de mensagem do texto tem sido uma problemática teórica sobre a qual não irei argumentar, posto que esta análise é apenas uma leitura, baseando-se essencialmente na relação leitor-obra.
  6. 6. Ana da Palma: “Muthiana Orera, onroa vayi? " 53 estruturado, simples e circular, no sentido em que, por momentos, se torna uma linguagem semelhante à memória. É uma linguagem que se prepara a cumprir algo. Logo, a circularidade não se fecha sobre si mes- mo. A narração dá voz às histórias. O monólogo é construído em tomo de um único pensamento: a ausência. É a própria ausência que lhe dá a palavra. A imagem é anterior à representação, porque o próprio substantivo RE-presentação implica uma repetição. É por meio da linguagem que se elabora a produção da imagem que nos representamos. Mas, a produção da imagem obedece aos modos de representação. Quando tomamos um livro entre as mãos, quando o escolhemos e logo que começamos a lê-lo, estamos sujeitos à natureza do objecto, depois à sua estrutura. O aspecto do livro, a sua apresentação, o arranjo da narração e a escolha da lingua- gem desempenham um papel nos modos de representação. A estrutura de Niketche é feita de ecos, de vozes que se respondem, de correspondências de imagens que são a fonte e o resultado de uma sintaxe narrativa. A narração está organizada em 43 secções de comprimento variável. Apresenta uma estrutura que se aparenta a um espelho7. Isto verifica-se pela circularidade interna do texto, pela abertura final, pela repetição e pela utilização de indícios. A circularidade revela-se através do quebrar de um vidro no início do texto, que se perpetua na narração, com o processo de reconhecimento efectuado por meio do espelho e que se conclui com o quebrar de uma imagem de homem noutro espelho. As cinco primeiras secções correspondem à presença de cinco mulheres na vida de um homem: Tony. Este homem é a única imagem que Rami vê no espelho. Na quinta secção está tudo definido: "O coração do meu Tony é uma constelação de cinco pontos. Um pentágono. Eu, Rami, sou a primeira dama, a rainha mãe. Depois vem a Julieta, a enganada, ocupando o posto de segunda dama. Segue-se a Luisa, a desejada, no lugar de terceira dama. A Saly, a apetecida, é aquarta. Finalmente, a Mauá Sualé, a amada, a caçuli- nha, recém-adquirida. O nosso lar é um polígono de seis pontos. É polígamo. Um hexágono amoroso. " (N. 60) Todas estas mulheres são o reflexo de um único homem. Rami defi- ne-as em função de Tony. A enganada, a desejada, a apetecida e a amada são substantivos sobre os quais se exerce a transitividade dos verbos dos 7 Não devemos esquecer que a imagem no espelho é sempre um negativo!
  7. 7. 54 Faces de Eva - Estudos quais derivam. São substantivos passivos no sentido em que todos reque- rem a presença da preposição °por'. São nomes sobre os quais se forma uma imagem. Esta imagem é aquela que descobrimos no início da nar- rativa: "Fecho os olhos e escalo o monte para dentro de mim. Procuro- -me. Não me encontro. Em cada canto do meu ser encontro apenas a imagem dele. " (N. 16) É revelador notar que Rami parte do pentágono imperfeito, para chegar ao hexágono. Para obter esta figura geométrica foi necessário incluir o grande “ausente” da narrativa: o esposo. O hexágono, além dos seus seis ângulos, das suas seis pontas, também tem um ponto intemo que o torna perfeito e que simboliza a totalidade do espaço e do tempo9. Os momentos diante do espelho são sete. Os 'diálogos', que se for- mulam neste espaço, são sempre precedidos de perguntas sobre a identi- dade (Quem sou? Serei ainda bela? Serei ainda desejável? ) ou interroga- ções existenciais (O que é que me vai acontecer agora? Que devo fazer? ). O primeiro revela uma outra mulher. Rami não se reconhece completa- mente e estabelece um diálogo com a outra mulher, que é ela, até ao desespero: “Tento beijar-lhe o rosto. Não o alcanço. Beijo-lhe então a boca, e o beijo sabe a gelo e vidro. " (N.19). O segundo mostra o rosto da troça e a voz da razão diante de uma mulher magoada e cansada. O ter- ceiro reflecte a imagem de um corpo que se observa. O quarto momento ainda é estranho. Assemelha-se ao olho da consciência, sobre os pensa- mentos mais profundos, observando Rami. Ela cora diante deste reflexo. Estranha a ela própria, vai, pouco a pouco, aproximando-se dela. O quinto é um momento particular, porque provoca uma visão. Correspon- de ao dia em que, finalmente, Rami reúne todas as mulheres do seu espo- so. A imagem que deveria aparecer no espelho seria múltipla, mas é de olhos fechados que Rami acaba por ver: "Vou ao espelho olhar para a minha cara e o espelho acusa (. ..) De olhos fechados vejo uma multidão de rostos espantados (. ..)" (N.111, 112). Podemos verificar que esta ima- gem não se forma na superfície fria do espelho, mas num mundo inter- mediário quase premonitório. O sexto corresponde a um instante em que se deve tomar uma decisão. A imagem no 'espelho é gêmea de Rami: "Esta imagem é a minha certeza, o meu subconsciente, resgatando dita- dos e saberes mais escondidos na memória. " (N. 172). É um saber longín- quo que aparece. Rami consegue identificar a imagem que se apresenta. 3 O grande 'ausente', no sentido em que é a ausência de Tony que desencadeia a narrativa. 9 Jean Chevalier; Alain Gheerbrant, Dicionário dos símbolos, Lisboa, Teorema, 1994, pp. 603-606.
  8. 8. - VÇU-. ú--íd--í ní-v Ana da Palma: "Muthiana Orera, onroa vayi? " 55 O sétimo e último momento diante do espelho reflecte o futuro. Rami reconhece-se, mas, agora, é a superficie lisa, transformada em bola de cristal, que se pergunta quem é esta mulher. A iniciação de Rami passa pela experiência do espelho. Durante o seu percurso, é lhe, várias vezes, sugerido ou dito que é virgem, no senti- do em que não foi iniciada aos segredos da vida, do amor e do sexo segundo os rituais tradicionais. Mas, Rami está abocada com a sua vir- gindade” ao aceder ao conhecimento. Porque os sete reflexos comple- tam-se pouco a pouco. São consciência do corpo, da inteligência, da emo- ção, da intuição, da espiritualidade, do poder e da vida. São sete momen- tos da consciência que se aliam aos dois pólos unificadores da narrativa. Por um lado, Tony enquanto unificador e distribuidor de amor, tal como Rami, com uma certa temura entrecortada de raiva e ironia, o define: "Em matéria de amor, o Tony simboliza a unidade nacional. " (N. 161). Por outro lado, Rami, que ao reunir as suas 'rivais', ao sentar-se com elas, chamando-as, escutando-as, simboliza todas as mulheres. Apesar de toda a sua fragilidade, o seu poder é imenso. É através do reconhecimento das outras mulheres que a voz de Rami é ouvida. Enquanto a imagem de Rami se forma, a narração continua. A sexta secção relata a história de uma velha que acompanha o esposo ao hospi- tal e que acaba por abandoná-lo ao seu mau carácter, dizendo palavras que se tomam memória do texto: “Velho rabugento! Suportei-lhe a vida inteira. Se ele não quer que eu fale, então que morra! " (N. 62). Estas palavras encontram eco na secção 38, como se fossem o cumprimento de uma visão. Rami está no hospital com Tony e as palavras que ela profere são a memória das que ouviu: “Doutor, suportei este homem a vida inteira. Se ele não quer que eu fale, então que morra! ",(N. 285). Um circulo narrativo conclui-se com a repetição desta cena, mas as ramificações e o significado deste episódio-espelho ultrapassa a simples circularidade, porque faz da história de Rami uma história de todos os tempos. A tecedura do texto faz-se sobre um leitmotiv. Uma frase simples, uma exclamação ou uma interrogação, ligada à ausência, repetida com algumas variações, desde: "Meu Tony, onde andas tu? "(N. 12), “Onde anda o meu Tony, que não o vejo nunca? "(N. 12), até: “Ah, meu Tony, mentiroso incorrigível! " (N. 306). Estas palavras, que se assemelham a uma litania, constituem um dos indícios da narrativa. Pois, permitem o aparecimento de um espaço vazio, um espaço de reflexão: o espaço do 1° O olhar de Rami vai além do espelho e permite-lhe falar do seu prazer. Sobre a virgindade ver Luce lrigaray, 'pouvoír et discours, subordination du féminin' in Ce sexe qui n 'en est pas un, Paris, Les Editions de Minuit, 1998, pp. 65-82.
  9. 9. 56 Faces de Eva - Estudos espelho. Por outro lado, as variações funcionam como indícios da modifi- cação que se opera. A formação da imagem de Rami, enquanto mulher, constrói-se, paulatinamente, em torno de uma linguagem-descoberta. Esta linguagem silenciosa, inaudível e incredível vai alcançar todo o seu sentido à volta das outras mulheres. Verificamos que os modos de representação têm raízes na lingua- gem e recorrem a símbolos e estereótipos para orquestrar a formação de uma nova imagem. Os modos de representação baseiam-se em modelos antigos reconhecidos e outros construídos em torno da narrativa. A ima- gem que nos representamos, é aquela de uma mulher africana madura, que se descobre quando se encontra confrontada com um momento críti- co da sua vida de mulher, mãe e esposa. Os duplos mediadores do conhecimento da imagem. O conhecimento de Rami constrói-se ao olhar a sua imagem, o seu reflexo no espelho. O espelho serve de ligação entre a forma como Rami se vê, a imagem projectada por Rami no mundo, a forma como ela é vista pelo(s) outro(s) e o que ela pensa. Entre a Rami que existe e aquela que é vista, há um espaço que se toma, de uma certa forma, um espaço catali- sador. O olhar de Rami no espelho vai formulando o auto-conhecimento. Eis um dos múltiplos retratos de Rami, nesta soberba lamentação de uma filha à sua mãe, com as autenticas palavras do sofrimento e despedaça- mento: "É verdade, mãe, essas mulheres todas prendem o Tony com encantos mágicos que não tenho. Por que não me fizeste mais bonita do que elas, mãe? Por que não me deste lições de amor, para viver sem dor, minha mãe? " (N.100) O corpo é o lugar de todo o erro. O corpo e as suas marcas, na rela- ção que mantém no tempo e no espaço, é o erro. O corpo enquanto arma do crime revela dois aspectos: é lugar de vida e de morte. A representação do fracasso conjugal aparece, aos olhos de Rami, como sendo um defeito ou um excesso de perfeição do corpo da mulher. Para Rami, o seu corpo está na origem da derrota e da falta de amor. Mas, na verdade, Rami ama-se. Gosta, suficientemente, dela para olhar-se ao espelho, acariciar-se, achar-se bonita, ou feia, beijar-se, ou melhor beijar o seu reflexo frio no espelho. Finalmente, não se trata, meramente, de uma falta de amor devido às imperfeições do corpo. Trata-se de um amor em
  10. 10. Ana da Palma: “Muthiana Orera, onroa vayi? " 57 construção. A falta afectiva é um reflexo desta descoberta. A falta afectiva vem de Rami, instalou-se dentro dela. Rami é bela, é mulher mas não assume nem a sua beleza, nem a sua feminidade. É quando Rami toma consciência da falta de amor, que observa o contexto social e histórico que a rodeia e que considera as outras mulheres. É nesse contexto que ela vai experimentar magias, chás, aulas de amor, etc. O contexto em que se encontra é compósito, mas apesar de tudo reflecte uma ausência. A des- coberta das outras mulheres revela uma estrutura social em mosaico. Rami torna-se o encontro das crenças e tradições do Norte e do Sul. Lado a lado com o espelho, há o olho. O olho que é inteligência e conhecimento. As mulheres observam-se, medem-se, comparam-se, lutam e acabam por abraçar-se. É neste espaço tampão, isto é, o momento em que Rami começa não só a olhar-se ao espelho, mas a ver-se no espe- lho, que aparecem os duplos de Rami. A comparação cultural efectua-se através do olhar de Rami. É um olhar, em primeiro lugar, sobre ela pró- pria e depois sobre as outras. O esboço da comparação é feito entre os momentos diante do espelho. O conhecimento das outras mulheres, de suas histórias e de suas experiências constrói laços de compaixão e de solidariedade. A personagem principal avoluma-se. De simples mulher que aguenta e sofre, Rami acede ao conhecimento do sofrimento da outra, sua semelhante, seu duplo. Rami vai lutar com as suas rivais como se as marcas deixadas no corpo pudessem apagar as noites de solidão. Com Julieta, Rami aprende o que possuir significa: “Ter é uma das muitas ilusões da existência, porque o ser humano nasce e morre de mãos vazias. (.. .) Teu é o filho no ventre. (. ..) Teu é o que nasceu contigo. Teu é o marido quando está dentro de ti. " (N. 27) Com Luísa, Rami aprende que há províncias em que a poligamia faz, naturalmente, parte da vida. Com Saly, aprende que existem meios para enfeitiçar um homem. Com Mauá Sualé, apercebe-se que há artes de transformar o corpo e o sexo. As mulheres do Norte são ensinadas, em rituais de iniciação, a ser mulher, a conhecer as artes do amor e a modifi- car os órgãos genitais. A formação do duplo de Rami, duplo constituído pelas outras mulheres, começa, ironicamente, com a primeira lição de amor a que Rami vai assistir. Ela acaba por pôr em questão a sua educação e o pro- cesso de libertação quando descobre as diferenças culturais entre o Norte e o Sul:
  11. 11. 58 Faces de Eva - Estudos “No paraíso dos bantu, Deus criou um Adão. Várias Evas e um harém. Quem escreveu a Bíblia ornitiu alguns factos sobre a génese da poligamia. Os bantu deviam reescrever a sua Biblia. " (N. 41) "Por que é que a igreja proibiu estas práticas tão vitais para a har- monia de um lar? Por que é que os políticos da geração da liberdade levantaram o punho e disseram abaixo os ritos de iniciação? " (N .46) A ingenuidade destas perguntas permite voltar atrás nos meandros da história social e religiosa para compreender uma realidade moçambi- cana. Por extensão, a comparação entre o Norte e o Sul arrasta a compara- ção entre mulheres e homens que de forma natural, exactamente como dois pólos, opõem-se e completam-se, atraem-se e repelem-se. Durante anos de assimilação, anos de submissão aos preceitos, tabus e regras da igreja católica coexistindo com crenças antigas, uma espécie de esqueci- mento instalou-se. Os conhecimentos misturaram-se guardando, unica- mente, o que limita, amputa e corrompe. É assim que mesmo Deus é a favor da poligamia: "Na minha aldeia, poligamia é o mesmo que parti- lhar recursos escassos, pois deixar outras mulheres sem cobertura é crime que nem Deus perdoa. " (N. 57). Que Deus é este? Existe uma zona de evanescência entre o antigo e o novo, onde sobrevivem alguns pontos de referência, alguns resquícios de um saber longínquo. No caso de Rami a transmissão de conhecimentos não seguiu o seu percurso normal. Rami tenta estabelecer uma ponte entre estes saberes. Ela vai criar laços entre as mulheres que descobre e inaugurar uma linguagem-conhecimento. Os encontros com mulheres de mais idade, detentoras de um saber, permite- -lhe compreender a existência de certas práticas. Rami encontra-se com a sua mãe duas vezes. É a ela que conta a sua dor, a sua pena e a sua mágoa. É com ela que conhece a história de outra mulher, sua tia, morta pelo desprezo que se deu à sua palavra, palavra de mulher. Rami desco- bre que a dor de ser mulher não lhe pertence exclusivamente. A história de poligamia, contada pela tia Maria, sugere duas leituras possíveis além de glosar o título do livro, confirmando a circularidade de que falámos na secção anterior. Verificamos, por um lado, que esta história toma os con- tomos de um conto de fadas, com os seus reis e as suas rainhas. Este aspecto fantástico faz eco à postura acriançada de Rami. Ela ouve a histó- ria, questiona e comenta como uma criança. A leitura deste modo, tam- bém, remete para a forma como ela se apresenta ao espelho e lhe per- gunta se é bela, relembrando o espelho mágico dos contos de fadas. Por outro lado, não podemos esquecer que a transmissão de saberes, em África (e não só), era efectuada, oralmente, através de histórias contadas
  12. 12. Ana da Palma: "Muthiana Orera, onroa vayi? " 59 por contadores profissionais (griots) ou por parentes idosos. A narrativa da tia Maria, não trata nem de magia, nem de haréns, nem de ciúmes ou de felicidade tal como a poligamia é conhecida ou experimentada pela personagem principal. A poligamia é uma família, sujeita a leis, deveres e privilégios, estruturada com uma organização intema. São núcleos fami- liares unidos em tomo de um homem por questões de prosperidade ou de sobrevivência. Ao longo da narração, Rami experimenta uma série de sentimentos. Ela odeia, identifica-se ou admira as suas rivais. Um processo de conhe- cimento é iniciado através da linguagem. O conhecimento das experiên- cias das outras mulheres é fonte de conhecimento. Rami toma-se o reci- piente destas experiências e sabedorias. Os tempos verbais acompanham a formação da consciência. O pre- sente invade a narrativa, mas na secção 8 é feita uma analepse, constituida por uma recapitulação, no perfeito. O perfeito pressupõe o conhecimento do tempo passado. Esta pausa narrativa, elaborada sobre o saber de um tempo passado, é fundamental na evolução da personagem principal. Conhecimento do espelho e poder de decisão. A narração continua com a história de outras mulheres, pois é delas que o crescimento de Rami depende. Por um lado, a ausência de Tony e por outro lado a presença da experiência das mulheres. Esta ausência e esta presença constituem os nós que formulam o conhecimento e moti- vam a acção de Rami: “Hoje tenho orgulho de ser mulher. Só hoje é que aprendi que dentro de mim resides tu, que és o coração do mundo. " (N.190) E na manhã de cada secção que se transmite a mensagem final liga- da ao poder de decisão. A força de Rami reside no conhecimento do lugar que ocupa na sociedade. É, precisamente, essa a sua força. Força de que conhece os limites, enquanto continua reivindicando o direito à palavra, ao respeito, ao amor, à ternura e à segurança. Cada manhã desponta como um novo despertar de cada secção de Niketche. A manhã, a madrugada, momento das mulheres é um novo ponto de partida, uma nova promessa. Cada manhã, o poder de decisão de Rami aumenta desde o momento em que desperta buscando carinho: "Desperto na vã esperança de receber uma mão cheia de carinho, mas o sol deixou-me e partiu. " (N. 20) até ao momento em que tem conheci- mento da ausência: “Celebro mais um despertar. Vejo a manhã de Novembro coberta de névoa. No horizonte, o sol espalha os seus raios recém-nascidos. "(N. 294)
  13. 13. 60 Faces de Eva - Estudos Todas as decisões de Rami são motivadas por um processo de iden- tificação e reconhecimento. Desta forma, o título do livro não tem impor- tância significativa ao início da narrativa, sobretudo para um leitor não iniciado, quer seja africano ou ocidental. Este titulo, Niketche, que atra- vessa a metade da leitura ocultando-se, é acompanhado de um subtítulo explícito: Uma história de poligamia. Mas, esta história só alcança todo o seu significado in media res. É, de facto, no meio da narração que compre- endemos, juntamente com Rami, o que niketche significa: “- Niketche? - Uma dança nossa, dança macua - explica Mauá -, uma dança do amor, que as raparigas recém-iniciadas executam aos olhos do mundo, para afirmar: somos mulheres. Maduras como frutas. Esta- mos prontas para a vida! Uma dança nossa, dança macua - explica Mauá -, uma dança do amor, que as raparigas recém-iniciadas executam aos olhos do mundo, para afirmar: somos mulheres. Maduras como frutas. Esta- mos prontas para a vida! Niketche. A dança do sol e da lua, dança do vento e da chuva, dança da criação. Uma dança que mexe que aquece. " (N. 160) Esta revelação sobre o significado do título dirige-se tanto ao leitor como a Rami. Assim como nos é revelado o segredo do título, a meio da narrativa, também ficamos a saber, juntamente com todas as mulheres de Tony, o poder que representa o corpo nu das mulheres diante de um homem. O corpo da mulher, enquanto substantivo singular, é objecto de desejo e de poder. Este desejo e poder, como vemos ao longo da narração, não é exclusivamente masculino. Mas, os corpos das mulheres, todas juntas, constituem um Corpo que perde em sensualidade para ganhar em poder. Agora, o corpo como arma do crime confirma-se com a nudez. Também é a meio da narrativa que o leitor aprende o nome da per- sonagem principal: Rosa Maria. O efeito produzido pela revelação do nome de Rami, é de três ordens que tê_m a ver com a identificação, o poder e o significado. Pela primeira vez, a personagem principal é identi- ficada enquanto indivíduo. A identificação, neste contexto é legal. Pois, temos conhecimento do nome da personagem pela boca de um homem de leis, um advogado. Por um lado, se é através da lei que sabemos o verdadeiro nome de Rami, uma lei que está ao serviço do homem-macho, aniquilando qualquer direito a Rami, por outro lado, esta identificação faz de Rosa Maria um ser que existe enquanto mulher antes de ser mãe e esposa. O poder está relacionado com a articulação do nome. O poder do nome liga-se a crenças antigas, pois em certos casos, dizer o nome de , .._. .___ , ,______<___4
  14. 14. Ana da Palma: "Muthiana Orera, onroa vayi? " 61 alguém confere poder sobre essa pessoa. Se por um lado a articulação do nome de Rami pelo homem de leis confere-lhe poder, por outro lado, devido à função que desempenha o espelho na vida de Rami, a articula- ção do seu nome só vem acrescentar-se ao processo de auto-conheci- mento que ela iniciou. Quanto ao significado do nome, um único aspecto é relevante no contexto desta análise por duas razões. Por um lado, por- que Rami define-se como uma rosa: "Não sou nada, mas tudo bem. Sou um ser triste, amargurado, mas deixem-me ser. Meu Deus, eu sou mulher, sou uma flor, uma rosa, e o meu lugar é entre os espinhos! " (N. 158-159). Por outro lado, porque a rosa simboliza a perfeição com as suas sete pétalas e que sete são os momentos diante do espelho, sete o número de vezes que perde o seu esposo. Mas, ironicamente, sete é o número que simboliza a perfeição. Que também se encontra presente no hexágono, mencionado pela personagem principal, ao início da narrativa. Na batalha que ela diz ter iniciado ninguém sai vencedor. Tony é vencido por ele próprio. É vencido pelas três trovoadas que ele desejo contra o noivo da Lu (Luísa). Rami é vencida pelo seu próprio poder. Em suma, ela perde Tony uma sétima vez. Perde-o cinco vezes com a desco- berta de: Julieta, Luísa, Saly, Mauá Saulé e uma amante desconhecida que acompanhou Tony a Paris. Perde-o no momento do enterro do 'alter ego' de Tony e perde-o definitivamente no final da narração porque não o pode, ou não o quer, salvar. Rami carrega todo o peso das decisões. A mulher que salva, não existe. Num mundo de homens só o homem pode salvar. Rami pode salvar, mas recusa-se a desempenhar tão árduo e dolo- roso papel: mentir a Tony, dizendo-lhe que o filho para nascer é dele, salvando desta forma a sua honra. O vidro quebrado toma-se espelho. A dança macua toma-se dança de todas as mulheres. A mulher que abandona o esposo no hospital torna-se Rami, simbolizando todas as mulheres. Tony que era o reflexo de Rami no espelho, no início da narrativa, desaparece e Luísa toma-se esse reflexo. Luísa, reflexo de Rami, define-a desta forma: "És brava, Rami. Semeaste amor onde _só o ódio reinava. Tu és uma fonte inesgotá- vel de poder. Transformaste o mundo. O nosso mundo. " (N. 253) Não podemos esquecer que o texto em si funciona como um espelho porque é o ponto de partida de toda representação. Neste caso uma RE- -presentação que parte de uma realidade social. Verificamos que a eman- cipação vem com o reconhecimento da poligamia. Esta situação que para um leitor ocidental sugere um poder e um privilégio, exclusivamente masculinos, condenáveis, acaba por inverter-se exactamente como uma imagem num espelho.
  15. 15. 62 Faces de Eva - Estudos A circularidade ou o efeito espelho do texto constrói a narração sem encerrá-la. É a história de uma mulher que poderia ser todas as outras. Simplesmente, trata-se de um tema africano, a poligamia. É o retrato de uma sociedade que deve aceder ao conhecimento do seu passado cultural para enfrentar a realidade. Rami é mulher forte e fraca que acaba por saber ir além do castigo e do combate, porque a luta esvai-se com a escuta do silêncio do outro. Assim, a palavra de mulher carregada de mentiras, palavra incredível, é uma palavra silenciosa. O pensamento permanece encerrado entre o ser feminino e o espelho, mas a palavra escrita tem prolongamentos que des- cobrimos nas marcas de auto-reflexividade do texto: "Nos lobolos todos introduzimos uma inovação: a certidão de lobo- lo, com todas as cláusulas contratuais, menos aquela parte que fala de assistentes conjugais em caso de incapacidade do marido. Ficaria um bocado imoral, não acham? Toda em papel almaço, com timbre e tudo, dactilografada, assinada por todos os membros presentes nas cerimónias. Com tantas assinaturas, aquilo ultrapassava uma certi- dão, parecia uma petição. Estamos na era da escrita, não esta- mos? "(N. 125). O encontro com o outro será este beijo metafórico? O outro sendo estas reticências, que apenas podemos identificar pelo artigo indefinido no feminino singular, presentes no pensamento de Rami: "Hoje estou disposta a arrancar a venda de ignorância sobre os meus olhos. Quero pôr em dia todo o saber sobre as. ..Vou à rua e me sento no banco da esquina. Quero escutar o silêncio das. .. falando ao meu ouvido. Hoje quero ouvir segredos. À distância estabeleço o diálogo com cada ; Lga que passa. " (N. 186) Qual será o momento de perfeição evocado com tanta certeza ao longo da narração? Mas, por enquanto, Rami está sentada e interpela: “Muthiana orera, onroa vayi? - Mulher bonita, onde vais? " Ana da Palma, Medicina (Paris, Cochin), DEUG de Línguas e Literaturas Modernas (Paris, Sorbonne), licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Lis- boa, Universidade Autónoma de Lisboa), doutoranda em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, professora, formadora, tradutora.

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