AlfabetáRio Da MemóRia Cl

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Esta apresentação teve lugar nas Caldas da Rainha em homenagem da presença do autor António Lobo Antunes em 2004.

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AlfabetáRio Da MemóRia Cl

  1. 1. Alfabetário da memória Uma leitura dos quadros n’Os Cus de Judas de António Lobo Antunes.
  2. 2. “Chorou na noite de fim de ano de 1970, porque dias depois tinha que partir para a guerra. Dessa experiência tirou os ensinamentos mais terríveis, mas também algumas das melhores coisas da sua vida: a descoberta da amizade e a aprendizagem da solidariedade.” (In, Conversas com António Lobo Antunes,María Luisa Blanco, Lisboa, Dom Quixote, 2002, p.47)
  3. 3. “É esquisito falar-lhe disto enquanto lhe toco os seios, lhe percorro o ventre, procuro com os dedos a junção húmida das coxas onde realmente o mundo começa(...)” (C.J.187)
  4. 4. L’origine du monde (Courbet)
  5. 5. “O restaurante do Jardim,(...) encontrava- se ordinariamente repleto,(...), de grupos excursionistas e de mães impacientes, que afastavam com os garfos balões à deriva como sorrisos distraídos, a arrastarem pontas de guita atrás de si, tal as noivas volantes de Chagall a bainha dos vestidos” (C.J.10)
  6. 6. La mariée (Chagall)
  7. 7. “Por essa época, eu alimentava a esperança insensata de rodopiar um dia espirais graciosas em torno das hipérboles majestáticas do professor preto, vestido de botas brancas e calças cor-de-rosa, deslizando no ruído de roldanas com que sempre imaginei o voo difícil dos anjos de Giotto, a espanejarem nos seus céus bíblicos numa inocência de cordéis.” (C.J.13)
  8. 8. “Em Elvas, à ilharga de um aspirante gordo e inseguro como um pudim flan na borda de um prato, desejei evaporar-me nas muralhas da cidade à maneira dos violinistas de Chagall no azul espesso da tela, batendo as desajeitadas asas de cotão das minhas mangas militares...” (C.J.21)
  9. 9. O violinista verde (Chagall)
  10. 10. “...mais meia garrafa e cuidar-nos-íamos Vermeer, tão hábeis como ele para traduzir, através da simplicidade doméstica de um gesto, a tocante e inexprimível amargura da nossa condição.” (C.J.32)
  11. 11. composição vários quadros de Vermeer
  12. 12. “...no meio de um círculo cubatas aparentemente desertas, no silêncio carregado de ruído que África tem quando se cala, e dezenas de larvas informes principiavam a surgir, manquejando, arrastando-se, trotando, dos arbustos, das árvores, das palhotas, dos contornos indecisos das sombras, larvas de Bosch de todas as idades em cujos ombros se agitavam, como penas, franjas de farrapos, avançando para mim à maneira dos sapos monstruosos dos pesadelos das crianças, a estenderem os cotos ulcerados para os frascos
  13. 13. O juízo final (Bosch )
  14. 14. “Você, por exemplo, que oferece o ar asséptico competente e sem caspa das secretárias de administração, era capaz de respirar dentro de um quadro de Bosch, sufocada de demónios, de lagartas, de gnomos nascidos de cascas de ovo, de gelatinosas órbitas assustadas?” (C.J.62, 63)
  15. 15. O jardim das delícias (Bosch)
  16. 16. “...sob o olhar indiferente de mulheres de dentes serrados em triângulo, acocoradas na cama no alheamento de perfil de certos retratos de Picasso, em cuja curva dos lábios flutuam Guernicas desdenhosas.” (C.J.49)
  17. 17. A mulher chorando ( Picasso)
  18. 18. A mulher chorando (Picasso)
  19. 19. “Talvez o tipo da mesa ao lado, que o décimo Carvalho Ribeiro Ferreira inclina dezassete graus para bombordo na rigidez de andor de uma torre de Pisa de casaco de veludo à beira de queda catastrófica, seja Amadeo Modigliani a procurar no fundo do cálice um rosto assassinado de mulher,...” (C.J.53)
  20. 20. Jeanne Hébuterne com uma camisola amarela (Modigliani
  21. 21. “...de quando em quando e by appointment of Her Majesty the Queen, o reflexo do génio, e sobre as nossas cabeças ungidas tombam as línguas de fogo de Johnny Espírito Santo Walker: Utrillo, que amarrotava postais ilustrados enquanto pintava...” (C.J.54)
  22. 22. Igreja de Blévy (Utrillo
  23. 23. “...Soutine, o dos meninos do coro e das casas torturadas...” (C.J.54)
  24. 24. O menino do coro (Soutin
  25. 25. “A sombra inchava volumes geométricos nos prédios vizinhos, desenhada por um Soulages triste.” (C.J.55)
  26. 26. Composição (Soulages)
  27. 27. “O furriel enfermeiro, a quem a vista do sangue enjoava, ficava à porta da sala de operações improvisada, dobrado como um canivete, a vomitar num banco o feijão do almoço, e eu, tenso de raiva, imaginava a satisfação da família se lhe fosse dado observar, em conjunto e de chapéu de aba larga como na Lição de Anatomia de Rembrandt, o médico competente e responsável que desejavam que eu fosse,...” (C.J.55)
  28. 28. Lição de Anatomia (Rembrandt
  29. 29. “...ver os reformados do dominó na eterna postura dos jogadores de cartas de Cézanne, e sentir que se deixou irremediavelmente de pertencer a esse mundo nítido e directo onde as coisas possuem consistência de coisas, sem subterfúgios nem subentendidos...” (C.J.62)
  30. 30. Jogadores de cartas (Cézanne
  31. 31. “Deve ter uma gravura de Vieira da Silva, na parede do quarto e o retrato do cineasta sem talento, com quem mantém uma relação desiludida, à cabeceira, deve acordar de manhã com torpor de crisálida titubeante...” (C.J.68)
  32. 32. Perspectiva Paris (Vieira da Silva)
  33. 33. “...Olhos flutuando à deriva acima dos cognacs, olhos acusando os próprios rostos defuntos, desertos e sem nuvens como os dos quadros de Magritte(...) mulheres e homens em cuja desilusão defensiva e maligna me recuso a reconhecer a imagem fragmentária da minha própria derrota...” (C.J. 74)
  34. 34. Le baiser (Magritte)
  35. 35. “Deixe-me pagar a conta.(...) e tome-me pelo jovem tecnocrata ideal português 79, inteligência tipo Expresso, isto é, mundana, superficial e inofensiva, cultura género Cadernos Dom Quixote, ou seja, prolixa, esquisita e fininha, opção política Fox-Trot, Pedras d’El- Rei e Casa da Comida, uma gravura de Pomar, uma escultura de Cutileiro e um gramofone de campânula no apartamento.” (C.J.89)
  36. 36. Camões(Pomar)
  37. 37. “...mas existe também, sabe como é, essa claridade difusa, volátil, omnipresente, apaixonada, comum aos quadros de Matisse e às tardes de Lisboa, que como o pó de África atravessa as frinchas, as janelas cerradas, os intervalos moles que separam uns dos outros os botões da camisa,...” (C.J.90)
  38. 38. Atelier vermelho (Matisse
  39. 39. “...o excesso de luz do aeroporto impedia-me de me confrontar nos vidros com a minha silhueta hesitante,(...), com a gravata que as muitas horas de avião haviam decerto desviado a bissectriz dos colarinhos, transformando-a num trapo mole como os relógios de Dali, com as rugas que se acumulam em torno das pálpebras...” (C.J.95)
  40. 40. Persistência da memória (Dali
  41. 41. “A voz feminina, vinda de nenhum lado, que anuncia em três línguas a partida dos aviões, flutuava, imaterial, por sobre a minha cabeça, idêntica a uma nuvem de Delvaux, até se dissolver a pouco e pouco numa espuma de sílabas...” (C.J.97)
  42. 42. Pygmalion (Delvaux
  43. 43. “...esta cidade absurda, (...) onde os objectos vogam suspensos na luz como nos quadros de Matisse, obrigava-me a tropeçar de quarto em quarto à maneira de uma borboleta entontecida, passando uma palma mole pela lixa repelente da barba.” (C.J.148)
  44. 44. A janela azul (Matiss
  45. 45. “...é como se essa melancólica proeza me justificasse a existência, como se sentar-me aqui, noite após noite, diante do espelho, a observar no vidro os vincos amarelos das olheiras e as rugas que em torno da boca se multiplicam numa teia misteriosa, idêntica à que cobre de leve os quadros de Leonardo, me assegurasse que ao fim de tantos anos de deixar-te permaneço vivo...” (C.J.170)
  46. 46. Estudos (Leonardo da Vinci
  47. 47. “Conheci-te numa manhã de sábado, Sofia, e a tua gargalhada de prisioneira livre, harmoniosa e estranha como o voo dos corvos que Van Gogh pintara antes de se matar no meio do trigo e do sol, tocou-me como um gesto de irreprimível ternura me toca se me sinto mais só...” (C.J.172,173)
  48. 48. Campo de trigo com corvos (Van G
  49. 49. “E os andares iluminados, (...), fazem-me sentir irremediavelmente de fora de milhares de pequenos universos confortáveis, em que me seria grato incluir, num canto de sofá, diante de uma reprodução de Miró, a minha solidão envergonhada de cão tímido, a arquear constantemente o dorso de falsas zangas submissas.” (C.J.225)
  50. 50. Pássaros e grutas (Miró

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