A evolução psicológica da criança - Henri Wallon

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Um clássico da psicologia da criança, e a obra mais conhecida do célebre pedagogo. Estudada numa perspectiva psicogenética, à luz de experiências concretas, a evolução psicológica da criança surge como uma sucessão de etapas claramente caracterizadas. No entanto, de etapa em etapa a criança é "um único e mesmo ser ao longo de metamorfoses". É portanto essencial não a estudar fragmentariamente. É a lição deste livro em que são abordados os grandes problemas da psicologia da criança: o jogo, a motricidade, o desenvolvimento da afetividade, a linguagem, etc.

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A evolução psicológica da criança - Henri Wallon

  1. 1. HENRI WALLON AEVOLlJ AO PSICOLCf leA DACRIANCA Um classico da Psicologla da Crianc;:a, e a obra mals conhecida do celebre pedagogo. Estudada numa perspectiva psicogenetica, a luz de eX'periemcias concretas, a evolu- c;:ao psicol6gica da crianc;:a surge como uma sucessao de etapas claramente caracteri- zadas. No entanto, de etapa em etapa, a crianc;:a e -um unico e mesmo ser ao longo de metamorfoses •. E: portanto essencial nao a estudar fragmentariamente;' E: ' a lic;:ao deste iivro em que sao abordados os grandes problemas da Psicologia' da Crianc;:a: 0 jogo, a motricidade. 0 desenvolvimento da afectividade, a linguagem, etc. or-- bJ 10 a @PERSONISi bJ 10 a @PERSONISi
  2. 2. ABRANGENDO TEMAS QUE V14.0 DA PSICOLOGIA A PSI- QUIATRIA E A PSICANAuSE, DA PEDAGOGIA A PSICOLO- GIA INFANTIL, PASSANDO PE· LA PSICOTERAPIA, PSICOSSO- CIOLOGIA, PSICOMOTRICIDA· DE, PSICOPEDAGOGIA, PUERI· CULTURA E SEXOLOGIA, ESTA COLECQAO, SUBDIVIDIDA EM SERIES, VISA ESSENCIALMEN- TE TRAT AR ASPECTOS RELA- TIVOS A PESSOA HUMANA E A GLOBALIDADE NAO s6 DOS PROBLEMAS DA SUA MENTE COMO DO SEU CORPO.
  3. 3. PERSON~ PSICOLOGIA A EVOLUCAO PSICOLaGICA DACRIANCATlTULOS PUBLlCADOS 1. A UNIDADE DA PSICOLOGIA de Daniel Lagache 2. A EVOLUCAO PSICOLOGICA DA CRIANCA de Henri Wallon 3. A TERAPIA SEXUAL de PatricIa e Richard Gillan 4. A SAODE MENTAL DA CRIANCA de Celestin Frelnet 5. PSICoLOGOS E SEUS CONCEITOS de Vernon Nordby e Calvin Hall 6. SEXUALIDADE E PODER dir. de Armando Verdlgllone 7. A ESCOLA NA SOCIEDADE de Suzanne Mollo 8. A PSICANALISE de J.-C. Sempe, J.-L. Donnct, Jean Say, Gilbert Lascault e Catherine Backh 9. A INTERPRETACAO DAS AFASIAS de Sigmund Freud 10. FEITICISMO E LINGUA GEM de J.-J. Goux, PhIlippe Sollers e outros 11. COMO AMAR UMA CRIANCA de Janusz Korczak 12. PSICOLOGIA DA. ATRACCAO SEXUAL de Olenn Wilson e David Nlas 13. ANALISE DE CONTEODO de Laurence Bardin 14. 0 DESPERTAR DO ESPIRITO de Fran~olse Dalto e Antoinette Muel 15. 0 EXAME PSICOLOOICO DA CRIANCA de Michtle Perron-Bore11l e Roger Perron 16. OS EFEITOS DA EDUCACAO de Michel Lobrot 17. 0 TEMPO DA ADOLEScro-CIA de Guy Avanzlnl 18. PSICOLOGIA SOCIAL de J~Pb. Leyens TtTULOS A PUBLICAR A TIMIDEZ de Phl1lp O. Zimbardo A ESTRUTURA DA PERSONALIDADE HUMANA de H. J. Bysenck o DESENVOL VIMENTO DO SER HUMANO de Eric Rayner A PERSONALIDADE NORMAL E PATOLoGICA de Jean Bergeret PSICOLOGOS E PSICOLOGIA de David Cohen
  4. 4. HENRI WALLON AEVOLU AO PSICOL0 ICA DACRIANCA Titulo original: UE:volution Psychologique de I'Enfant Traduc;;ao de Ana Maria Bessa Capa de Aleeu Saldanha Coutinho Todos os dlreltos reservados para a Lingua Portuguesa - Av. Duque de Avila, 69 r/e Esq .• Lisboa 1 Tels. 556898 I 572001 Distrlbuldor no Brasil: LIVRARlA MARTINS FONTES Rua Conselheiro Ramalho, 330 I 340 - Sao Paulo
  5. 5. A presente edi<;iioreproduz 0 texto da obra) ja clds- sica) de Henri Wallon) publicada pela primeira vez na colecr;ao Armand Colin em 1941. Nao 8e julgou neces- saria modificar a «bibliografia sumaria» esiabelecida entao pelo autO": actualizada) esta bibliografia seria consideravel e) por outro Zado)talvez nao deixe de ter interesse saber que obras recomendava Henri Wallon em 1941. WALLON, psicologo da infancia. Urn nome, uma qualidade, indissoluvelmente unidos. Uma vida, uma obra, cuja riqueza me perturba e me desconcerta. Como transmitir esta riqueza? Como exprimir, no tempo limitado desta homenagem, 0 que foi esta obra, sem esquematizar, sem banalizar - sem correr 0 risco de traduzir em frases demasiado unidas, com uma logica simples de mais, 0 que foi em Wallon um eterno esfor~o para nos arrancar a pregui~a das palavras e dos pen- samentos habituais? Nao me parece isso possivel, pelo menos para mim. Para aqueles que ja conhecem bem esta obra, 0 meu discurso sera uma recorda~ao, uma alusao. Para os outros, sera, segundo espero, uma introdu~ao a esta obra, uma incita~ao a descobrir 0 proprio Wallon. Para nos todos, uma homenagem fel'vorosa, apesar da minha imperfei~ao e falta de jeito. Para apreciar a obra de Henri Wallon, 0 que ela tem de original, de inovador, seria necessario poder situa-Ia na historia da Psicologia e compara-la com as obras dos seus contemporaneos, outros eminentes psi- c6logos da infancia.
  6. 6. Urn autor como Gesell, nos Estados Unidos, fez dos comportamentos da crian<;a urn inventiLrio muito mais completo que 0 que nos deixou Wallon. Urn autor como Piaget, na Sui<;a, construiu, numa quinzena de obras, uma teoria da inteligencia cuja sis- tematizaQao nao tern nenhuma comparac;ao na obra de Wallon. Wallon nao e urn autor de sistema como Piaget, Wallon nao e urn coleccionador de fact os como Gesell foi, alias de forma magistral. Wallon e urn observador, urn clinico, urn homem de intuic;ao, tanto ou mais que urn experimentador, mas tambem um filosofo no sentido mais profundo e mais valida do termo - quer dizer, urn homem que sabe reflec- tir nas tom adas de posiC;aodo espirito face a realidade - e que sabe fazer uma critica, modificar e6tas tomadas de posic;ao, para se desprender das ideologias e estreitar oreal, cada vez com mais veracidade e eficacia. Assim, Wallon surge, mais que nenhum outro, como um inovador, como urn criador da Psicologia, porque as suas contribuic;oes cientificas nao sac apenas uma pedra mais, um novo ladrilho para 0 ed.ificio comum, na medida em que provocam neste ed.ificio uma reorga- nizac;ao, ou melhor, a abertura de perspectivas insus- peitas. da crian~a sera sempre impenetravel para n6s.» Na mesma epoca, esta mesma heterogeneidade era, alias, afirmada noutros dominios, para opor a mentalidade do primitivo a do civilizado, para opor a consciencia m6rbida do doente mental a consciencia do homem Rao. No dominio da Psicologia, esta teoria tomava agres- sivamente 0 sentido diametralmente oposto a atitude tradicional, arcaica, que apresentava a crianC;a como uma imagem reduzida e simplificada do adulto. Na perspectiva deste problema, a obra de Wallon repre6enta um esforc;o para ultrapassar a contradic;ao das duas teorias em presenc;a: a teoria do homtmculo, em que a crianc;a e como que uma reduc;ao do adulto, e a teoria das mentalidades distintas. Nao pretendo, evidentemente, afirmar que Wall on fosse 0 tinico a desenvolver este esforc;o. Tambem Piaget se entregou explicitamente a ele (nao sem tel' deixado de contribuir - atraves da sua primeira obra escrita em 1925 - para a vulgarizac;ao da noC;aode egocentrismo, que reforgava a teoria das mentalidades heterogeneas). Enfim, sem que 0 problema fosse sempre claramente formulado, toda uma gerac;ao de psicologos contribuiu para explicar a passagem da crianc;a ao homem, descre- vendo minuciosamente as eta pas desta passagem. Mas descrever nao basta para explicar. E a coerencia de uma explicac;ao nao e suficiente para assegurar 0 seu valor. E claramente evidente que a crian<;a se vai trans- formando em adulto. Nenhuma teoria 0 pode evitar ou contradizer. E fazer intervir nao sei que especie de metamorfose para explicar esta passagem e uma soluc;ao puramente verbal. Seria necessario analisar em primeiro lugar as condi<;6es e 0 mecanisme desta metamorfose, desta conversao total. Nao. Se 0 crescimento representa para nos urn pro- blema, se a ideia arcaica do homtinculo apenas sabemos opor a ideia da conversao brutal, e porque nao sabemos compreender a verdadeira durac;ao, a durac;ao criadora Em 1925, quando Wallon come~ou a publicar as suas obras, a psicologia da crianc;a encontrava-se numa espe- cie de impasse. Uma longa tradi<;ao pedag6gica e psico- logica, traaic;ao oriunda de Jean-Jacques Rousseau, le- vava a teoria das mentalidades heterogeneas. A forc;a de afirmar a originalidade irredutivel da crianc;a, com Dewey, Montessori, Claparede e muitos outros, tmha-se chegado a e6tabelecer a teoria da existencia de urn fossa radical entre a crianc;a e 0 adulto. Dais mundos a parte. Duas mentalidades totalmente diferentes, distintas, hete- rogeneas. De tal modo que urn mectico-psicologo, Gilbert Robin, tinha chegado a seguinte conclusao: «0 espirito
  7. 7. de novas formas, e porque a nossa logica habitual e uma logica estatica, intemporal. E nao ganhamos nada em dizer, seguindo Bergson, que a duraQao e a base da realidade. A duraQao bergso- niana e ainda uma abstracQao. Com ela, nao sabemos nada dos seres que duram, dos seres na sua incarna~ao, nas condiQoes reais, materiais, da sua existencia. Urn tal problema nao se resolve com uma pura dia- lectica verbal ou com uma simples acumulaQao de factos. Para a sua soluQao, exige que aos factos se aplique uma interroga~8oo, uma reflexao, e que ao contacto dos factos se efectue uma reforma ou uma aboli~8oodas dis- tin~oes ou das categorias intelectuais do passado que se podem opor a nossa compreensao das coisas. Enfim, uma reforma da nossa maneira de pensar ao contacto das coisas e para a sua conquista. Assim, Wall on vai repensar estas 0POSl~oeSe ultra- pass a-las, procurando ao mesmo tempo as contradi~oes reais e como podem ser estas contradiQoes um motor da evolu~ao da crianQa. 0 seu metodo consiste em estu- dar as condi~Oes materiais do desenvolvimento da crianQa, condiQOes tanto organicas como socia is, e em ver como se edifica, atraves destas condiQoes, urn novo plano de realidade que e 0 psiquismo, a personalidade. Os comentadores de Wallon n800apreenderam, muitas vezes, mais que urn momento deste metodo. Eles acusam- -no, entao, de organicismo, ou entao de sociologismo, outros elogiam 0 seu espiritualismo, pela sua afirmuQao da existencia de urn plano psiquico original. Enfim, alguns comentadores, anexando Wallon para as suas proprias fileiras, apresentam as suas expli- ca~oes neurologic as como urn erro de juventude que mais tarde teria renegado. Ha em todas estas pessoas, e muitas vezes com a maior boa-fe, uma incapacidade para compreender que a dialectica walloniana nao pressupOe de nenhum modo uma minimizaQao, ate mesmo urn aniquilamento das com- ponentes neurologicas e sociais do desenvolvimento, em beneficia de nao sei que confuso psicologismo. No entanto, Wallon explicou varias vezes as suas perspectivas, e as suas descobertas ilustram perfeita- mente 0 metodo que seguiu. Eu sou «pelo organicismo - diz ele -, mas nao sob a forma unilateral e mecanicista do materialismo tra- dicional». :f'; que, acrescenta noutro lado, «as necessida- des do seu organismo e as exigencias sociais sac os dois pOlos entre os quais se desenvolve a actividade do homem». E, numa controversia com Piaget, que ° acusava, pelo contrario, de sociologismo, Wallon da urn esclare- cimento decisivo: «Na realidade, nunca pude dissociar a biolugico do social, nao porque os julgue redutiveis urn ao outro, mas porque eles me parecem no homem tao estreita- Com lucidez e paclencia, com este gosto do risco sem 0 qual a Ciencia seria esteril - utilizando todos os recursos da sua forma~8oo medica, da sua intui~8oo de observador, mas tambem criticando, dissipando as ilu- sOes ideologicas que pervertem a noSsa vis800 das coi- sas -, Henri Wallon dedicou-se ao problema da genese do espirito: Seguindo a sua primeira e mais profunda tendencia, diz que «e comparando-a consigo que 0 adulto pretende penetrar na alma da crian~». E esta pretens800 e va: deste modo, n800 descobrira na crianQa mais que uma projecQ8oode si mesmo. A atitude de J.-J. Rousseau e de todos aqueles que o seguiram nao e igualmente valida. Ela procede de urn espirito de rebeli800 expre&3o no seculo XVIII atraves da oposi~ao ingenua entre ° individuo e a sociedade. A oposi~8ooda crian~a ao adulto, a oposiQao do bio- logico ao social, sao tao falsas no que tern de absoluto como a oposi~ao do individuo a sociedade do que elas procedem ideol6gica e historicamente.
  8. 8. mente complementares desde 0 seu nascimento, que e impassivel encarar a vida psiquica sem ser sob a forma das suas rela~oes reciprocas.» Rela~Oes reciprocas? Isto significa que desenvolvi- mento biologico e desenvolvimento social sao, na crian~a, condi~ao urn do outro. As capacidades biologicas sac ascondi~Oes da vida em sociedade - mas 0 meio social e a condi~ao do desenvolvimento destas capacidades. Nesta perspectiva, Wallon renova profundamente as teorias cientificas da motricidade e da emo~ao. Os fisiologistas tinham distinguido dois aspectos na fun~ao motora: 0 movimento propria mente dito ou acti- vidade clonica e 0 estado de tensao varia vel entre 03 musculos ou tonus. A originalidade de Wallon consiste em dar a fun~ao motora, e sobretudo a tonicidade, urn sentido hurnano. o tonus nao e apenas urn estado de tensao necessario a execu~ao da contrac~ao muscular, ele e tambem atitu- des, posturas. Ora, as atitudes, as posturas, sac modeladas pelo adulto e sao na crian~a os seus primeiros modos de expressao. «lncapaz de efectuar seja 0 que for, 0 recem- -nascido e manipulado por outros e e no movimento dos outros que tomarao forma as suas primeiras atitudet3.» As atitudes, em rela~ao com os seus estados de bem- -estar, de indisposi~ao, de necessidade, constituem a infra-estrutura das suas emo~oes. Esta e uma descobert a fundamental de Wallon. Estudada no adulto, a emo~ao tinha dado origem a teorias inultiplas e contraditorias. Recolocada numa perspectiva genetica, ela toma en- tao 0 seu verdadeiro significado funcional. A em~ao e urn facto fisiologico nas suas componentes humorais e motoras; e um comportamento social nas suas fun~Oes arcaicas de ada pta~ao. A emo~ao e uma linguagem antes da linguagem. Mas mais ainda. A emo~ao e contraditoria nos seus efeitos. Ela oscila entre urn estado de comunhao, de confusao com outrem e de oposi~ao a outrem, de discri- mina~ao. Assim, a emoQao es~a 0 pensamento, a repre- senta~ao que the e contraditoria e nao contraria; esb~a, igualmente, a distinQao entre 0 ego e os outros; preludia as afirma~oes da personalidade. Esta 4:muta~ao de reac~Oes puramente fisiologicas em meios de expressao», este enxerto precoce do social no organico, tern na especie humana uma importancia decisiva, porque estao ligadas as condi~Oes de existencia do individuo desde 0 seu nascimento. Desde 0 seu nascimento, geneticamente, a crian~a e urn ser social. Sera, sem duvida, necessario estudar atraves de que dificuldades e, eventualmente, por meio de que crises se transforma a crian<.;aem adulto. Mas a oposi<.;aometa- fisica crian<.;a-adulto foi suprimida. 0 caminho esta desobstruido. Abriu-se uma nova perspectiva. Wallon, psicologo da infancia? PJ verdadeiramente Wallon urn psicologo da crian~a, ou nao sera antes 0 promotor de uma psicologia geral considerada numa perspectiva genetica? A questao pode parecer insolita. Colocamo-la, no en- tanto, pelo facto de cada vez mais se opor a psicologia da crian~a a psicologia genetica. Wallon, como e evidente, so se ocupou de crian~as, mas definiu 0 seu dominio e as suas perspectivas de uma forma muito ampla. A psicologia da crian~a - disse - recebeu muito poueo da psieologia tradieionaI. Pelo con- trario, ela modificou as meus pontOlSde vista e ate os seus principios. Confrontando a crian~a e 0 adulto, ela ia permitir revelar, de etapa em etapa, 0 verdadeiro plano da vida mental. Enfim, 0 estudo da crian~a, ao analisar uma genese real, ia permitir descobrir 0 homem. Wall on definiu-se, pois, a si mesmo, como urn psicO- logo no sentido mais completo do termo.
  9. 9. Mas precisamente a partir do momento em que a crian~a e ligada ao homem, a nossa interroga~ao deixa de ter qualquer sentido. Rouve urn tempo em que se criavam palavras para compartimentar as idades da vida como outros tantos domini os distintos: a paidologia ou ciencia da crian~a, a nipiologia ou ciencia do bebe, a hebelogia ou ciencia do adolescente. Este tempo desapareceu, apesar das especializa~oes continuarem a ser necessarias. Wallon e, ao mesmo tempo, psicogenetico e psico- logo da infancia. Para ele, a psicologia da crian~a sub- siste, de facto, na medida em que a crian~a tern carae- teristicas proprias e problemas especificos como os da educa~ao. ];':nas ultimas linhas da sua obra intitulada A Eva- ZUA}OOPsicol6gica dAt Crian{:a que Wallon declara : «Em cada idade, a crian~a constitui um conjunto indissociavel e original.» l!: este conjunto, esta unidade, que 0 psicologo da infancia deve apreender, atraves da sucessao das idades e no dinamismo que conduz a crian~a ao estado adulto. Assim, a imagem da infancia, tal como se desprende dos trabalhos e das reflexoes de Wallon, nao corres- ponde, evidentemente, it imagem tradicional, mas afas- ta-se igualmente da imagem modema ligada ao indivi- dualismo do Renascimento ou de Jean-Jacques Rousseau. Wallon recusa uma e outra como sistemas falsos, cons- truidos com base em ideologias de conformismo ou de rebeliao, mas guarda de cada uma - e numa perspec- tiva nova - a sua parte de verdade. Verdade, a afir- magao de que as idades da infancia possuem a sua originalidade, 0 seu rosto proprio. Verdade, tambem, a afirma~ao de que a infancia nao tem sentido fora do objectivo adulto: «A crian~a tende para 0 adulto, diz ele, como um sistema para 0 seu est ado de equilibrio.» No entanto, a conce~ao de Wallon nao e urn ecle- tismo. As verdades parciais, arrancadas aos seus sis- temas, adquirem urn novo sentido. Se a assimila~ao da crian~a ao adulto e falsa, e par- que 0 proprio adulto e 0 resultado de uma progressiva constrU~ao, de uma evolu~ao qualitativa, de uma genese. Se a oposi~ao abstracta do individuo it sociedade e igualmente falsa, e porque, desde a sua origem, desde o seu nascimento, a necessidade social esta inscrita den- tro do proprio individuo. o ser humano, diz ele, e social geneticamente. Em feito de tal maneira que a sua propria sobrevivencia seria impossivel sem os cuidados constantes daqueles que 0 rodeiam, e isso durante muitos anos. Desta psicologia da crian~a destacam-se alguns gran- des principios pedagogicos. Wallon denunciou nas doutrinas da nova educa~ao <abrindo uma excep~ao para Decroly) 0 erro que con- ~iste em fazer simplesmente a contrapartida dos defei- tos e dos vicios da pedagogia tradicionai. E, alem disso, como estes vicios nao sac os mesmos para todos os reformadores, resulta dai uma diversidade heter6clita de sistemas. Uns disseram: «0 ensino e autoritario, provem dema- siado do mestre. Portanto, apaguemos 0 mestre.» Outros pensaram que «0 ensino e demasiado intelec- tuaI. Suprimamos, pois, 0 mais possivel, 0 esfor~o inte- lcctual e fa~amos passar 0 ensino pelas maos, ligando-o a trabalhos manuais». Outros ainda, declararam: «0 ensino e demasiado didactico. Deixemos a crian~a descobrir 0 verdade por si mesma.» E cada uma destas afirma~oes, levando ao absoluto uma verdade parcial, conduziu a urn sistema utopico. As solu~oes propostas podem ter sido muito felizes nas suas aplicdg6es de pormenor, mas sao insuficientes e falsas como sistema geral de educa<;ao.
  10. 10. A nova educa~ao deve as suas origens de rebeliao contra as disciplinas autoritarias uma desconfian~a in- superavel em rela~ao a sociedade. Ela esta viciada pelo desacordo (real ou imaginario) existente entre os direi- to!:!da crian~a e 0 meio em que ela esta destinada a viver e de que se procura preeerva-la. Mas a nova educa~ao permitiu 0 levantamento de problemas; foi uma etapa necessaria enquanto se espera urn conhecimento mais cientifico da crian~a, do escolar, da escola. Passamos actualmente do periodo utopico para o periodo cientifico. o que hoje sabemos da psicologia da crian~a per- mite-nos compreender que nao se pode, de forma alguma, nem apagar 0 mestre, nem suprimir 0 esfor~o puramente intelectual, nem contar apenas com a espontaneidade do escolar. As solugOes sac muito mais complexas, exigindo uma melhor adapta~o da crian~a a escola, uma melhor apropria~o da escola a crian~a, sem pressupor nem operar uma oposi~ao metafisica entre a natureza e 0 meio, entre 0 individuo e a sociedade. 1!: evidente que entre um e outro pode haver contra- di~6es e conflitos, mas nao se trata de uma oposi~ao absoluta, uma vez que a sociabilidade faz parte da pro- pria natureza do homem, uma vez que a crian~a tem necessidade da interven~o do adulto e das pressoes do meio para afirmar a sua pessoa, para desenvolver todas as suas virtualidades. tudo, em tudo isto, uma maneira original de pensar a Psicologia e de reformular os sellS problemas. Na ver- dade, 0 metodo de que nos da apHcag5eg magistrais nao e novo. Jr: 0 do materialismo dialectico, ao qual ele consagrou numerosos comentarios. Mas ele e 0 primeiro autor desta for~a, desta enver- gadura, que aplicou este metodo ao dominio da Psico- logia (se se colocar de lade a obra de Pavlov). Wallon mostrou-nos, com toda a honeatidade cientifica, como os principios do metodo mandsta deviam ser aplicados. Nao procedeu de forma dedutiva a partir de um dogma, de uma ideologia. E e por isso mesmo que ele cnou. E e por isso que 0 seu pensamento se imp6e e se impora sempre cada vez mais, mesmo aqueles que nao sao mar- xistas. Nao sac os argument os de autoridade que valem, mas os faetos devidamente estabelecid06. Nao poderemos esquecer este ponto no respeito que nos merece 0 proprio Wallon e a sua obra. A sua voz calou-se. Nenhum de nos tera jamais o direito de falar em seu nome. Ele deixou-nos uma maneira de trabalhar, uma maneira de pensar, num domi- nio que tambem e 0 nost3o. Mas do modo como 0 utili- zarmos so nos teremos a inteira responsabilidade. ~ a, . li~ao que ele nos deu. E tanto a esta li~iio como ao exemplo da sua vida € do seu trabalho nos permaneceremos fieis. Wallon ja nao esta entre n6s, mas 0 seu pensamento e a sua obra continuam mais vivos que nunCa. Qual e 0 seu legado? Poucas coisas disse €.U hoje, mas de qualquer modo nao e possivel fazer urn inven- tario definitivo porque se trata de uma heran~a que dad. novos frutos no futuro. Ele deixa uma nova concep~ao de motricidade, de emotividade, de inteligencia, da genese humana e sobre-
  11. 11. No decurso dos ultimos trinta anos, a psicologia da crian~a assumiu uma importancia e uma influencia cres- centes. Afastando-se de certo modo da I>sicologia tradi- cional, contribuiu sobretudo para modificar os seus pon- tos de vista, os seus principios e para a enriquecer com metodos novos. Com efeito, para atingir «a alma da crian~a», teve de abandonar os quadros abstract os ,em que a introspec~ao do adulto e 0 seu material verbal tinham dividido as actividades psiquicas do homem. A analise puramente ideologica dum conteudo mental tipo, mas de facto tiio contingente e provisorio quanta neutro e impessoal, teve de substituir observa~6es e ex- periencias sobre as deficiencias realmente em jogo na actividade e na vida das crianl;;as. Tanto as suas inves- tiga~6es podiam ser perturbadas ou falseadas par uma cartografia do espirito, cujas limita~6es se fundavam numa nomenclatura e emconceitos que ignoram as rela- ~6es e as mudan~as de que surge 0 acto psiquico, quanto as diferen~as que ela tinha que constatar entre as con- dutas do adulto e as da crian~a, entre as condutas naa diferentes idades da infancia, eram suficientes para reve- lar, de etapa em etapa, 0 verdadeiro plano da vida mental.
  12. 12. Foram as necessidades da pratka que em primeiro lugar fizeram sentir urn desacordo fundamental entre a realidade e os esquemas utilizados para explicar as ope- ra~ psiquicas. Foram os problemas pedag6gicos que incitaram a pro- curar outros procedimentos para avaliar e utilizar as for~ e as form as do desenvolvimento psiquico na crianc;;a. A simples necessidade de avaliar com algum rigor a aptidao ou inaptidao das crianc;;as de escola fez com que Binet e Simon elaborassem a sua escala metrica de inteligencia, que deu ao emprego sistematico dos tes- tes um impulso de que a psicotecnica e hoje em grande parte a consequencia. Sem ser propriamente psicologo, urn educador filo- sofo como Dewey, preconizando 0 acordo entre 0 mais livre desenvolvimento de todas as energias em potencia na crianc;;a e 0 meio, abriu 0 caminho nao somente a mUltipios ensaios praticos de educac;;ao como tambem a investigac;;6es sobre as necessidades de actividade na crian~ e sobre a influencia que ela sofre dos meios em que se encontra. Na obra dum Decroly, e dificil distinguir entre a Pedagogia e a Psicologia: a necessi- dade de adaptar as possibilidades e aos interesses da crian~a 0 objecto dos seus estudos teve como resultado fazer constatar diferen~as importantes entre as manei- ras de perceber ou de compreender da crian~a e do adulto. Foi a volta do Instituto J.-J. Rousseau em Genebra, onde o objectivo era dar a cada crian~a uma educa~iio ,~sur mesure»,_ que se agruparam psicologos como Claparede, Bovet, Piaget. A mesma preocupac;;ao de estrito con- fronta entre a crian~a de escola e a crian~a em geral encontra-se em Bourjade, de Lion. A compara~ao nao se limitou it da crian~a com 0 adulto ou consigo mesma. Procurou tambem no patolo- gico exempl08 de varia~Oes concomitantes, donde pudes- sem deduzir-se rela~Oes de causalidade apliciveis ao normal. Vma alter~o surgida no decorrer do desenvol- vimento que atinja qualquer urn dos seus factores tera consequencias muito instrutivas, na medida em que po- dera abolir todo um conjunto de func;;oes, au fixa:c 0 comportamento num estadio incompleto, ou suscitar compensac;;Oesque porao em evidencia rela~6es habitual- mente dificeis de descobrir. Este metodo de confronto psicopatol6gico, muito aceite em Franc;;a, desde Ribot, nao podia deixar de suscitar importantes trabalhos no dominio da psicologia infantil. Mas deu tambem pre- ciosos resultados noutros paises, especialmente na U. R. S. S., com Gourevitch, Oseretzki e a sua escola. Por seu lada, a psicologia comparada do homem eGOS animais saiu das generalidades funcionais para fazer um paralelismo concreto entre a crian~a e 0 animal mais proximo do homem, 0 macaco. Diante das mesmas situa~Oes, das mesmas dificuldades, 0 seu comporta- mento e semelhante ou difere? Se ha semelhan~a inicial, em que idade, em que fase do desenvolvimento sob Que, . influencias e sob que forma se afirmam as diferen~a.s? Entre as primeiras observa~Oes desta natureza, e precise citar as de Boutan, entre as mais sistematicas e as mais continuas, as de Kellog e de sua esposa. Sem ter realizado um confronto explicito, Paul Guillaume repar- tiu-se entre a psicologia da crian~a e a do macaco. Mais vaga, mais contesta-vel tambem nas suas velei- dades de assimila~ao, a comparac;;ao da mentalidade in- fantil e da mentalidade primitiva teve pelo menos 0 merito de chamar a aten~o para os efeitos do cresci- mento gradual das aptidoes na crian~a e os que estao ligados a um certo nivel de civiliza~ao, a urn certo mate- rial ideologico, verbal, tecnico. Isso nao e, alias, mais do que urn grau extremo das influencias que, no desen- volvimento psiquico duma popula~o ou duma frac~ao de popul~ao, podem exercer °seu regime de vida, °seu meio social. Para ° periodo que estamos a considerar, empreenderam-se tambem estudos a este respeito, em particular par psic6logos americanos e sovieticos. As simples observac;;6esdescritivas tem evidentemente urn lugar importante na psicologia da crian~a e princi-
  13. 13. palmente na da primeira idade. Frequentes interpre- ta~6es construtivas tern sido feitas. As de W. Stern, por exemplo, que tentou mostrar que entre todas a3 mani- festa~5es psiquicas hi uma especie de unidade profunda, uma liga~ao essencial: a personalidade do individuo, sem a qual seria impossivel expliei-Ias. As de Koffka, que se esforga por reconhecer as estruturas de que elas sac a manifestaGao. Toda a percep~ao, mas tambem toda a espeeie de conduta, corresponde a uma «forma» que da a todos os pormenores ou elementos 0 seu lugar, 0 seu papel, o seu significado. E 0 conjunto que e determinante, IlaO as partes. Ele varia, nao so com as circunstancias e as situa~oes, mas segundo as predisposi<;oes ou virtuali- dades dinamicas do proprio sujeito e que dependem dos circuit os susceptive is de se abrirem no seu sistema ner- voso, em estreita continuidade tanto com os seus apa- relhos sensoriais como com os seus aparelhos motores. Entre as diferentes idades da crianga e do homem, dife- rem as possibilidades de estruturas. Os resultados destes diversos metodos levam a dis- tinguir os aspectos por vezes opostos que a vida psiqUlca apresenta ao longo do seu desenvolvimento. Estes aspec- tos sao etapas cuja ordem de sucessao tern uma impor- tancia primordial, e psicologos como Gesell intentaram reunir metodicamente documentos, naG so descritivos como cinematograficos, sobre a diversidade das reacGoes, segundo a idade. Este genero de observa~6es e de impor- tancia essencial. Porque a sucessao prova a existencia duma filia~ao, muitas vezes complexa, alias, em razao de interferencias variadas, entre diferentes especies de factores. Factores e filia<;ao correspondem ao proprio principio da psict>logia infantil, se e verda de que a infan- cia tern na vida do individuo urn valor funcional, como periodo em que se acaba de realizar nele 0 tipo de espe- cie. :Ii: este ponto de vista psicogenetico que e adoptado nesta obra.
  14. 14. A crianc;a nao sabe senao viver a sua infancia. Conhece-la pertence ao adulto. Mas 0 que e que vai prevalecer neste conhecimento: 0 ponto de vista do adulto ou 0 da crianc;a? Se 0 homem sempre eomec;ou por se colocar a si mesmo entre os objectos do seu conhecimento, atribuin- do-lhes uma existencia e uma actividade conformes a imagem que faz da sua propria existencia e actividade, quanto nao deve ser forte esta tentac;ao a respeito dum ser que dele procede e que a ele se deve tornar seme- lhante - a crianc;a, cujo crescimento vigia e orienta e a quem muitas vezes the parece muito dificil nao atribuir motivos ou sentiment os eomplementares dos seus. Quantas ocasi5es, quantos pretextos, quantas apa- rentes justificac;oes para 0 seu antropomorfismo espon- taneo! A sua solicitude e um di81ogo em que, por urn esfor~o de intuitiva simpatia, supre as respostaa que nao obtem, em que interpret a os menores indicios, em que ere poder completar manifestac;6es lacunares e inconsis- tentes, reduzindo-as a urn sistema de referencias (1), (1) MUZAFER SHERIF, The Psychology of Social Norms, Nova Iorque, Harpers and Br., 1938l
  15. 15. que e feito de que? - dos interesses que sabe ser os da crian~a e a que atribui uma consciencia mais ou me?os obscura, das predestina~6es cuja promessa gos- tana de encontrar em si, dos habitos, das conveniencias mentais ou sociais com que mais au menos se identi- ficou, e tambem de recorda~6es que imagina tel' guar- dado da sua propria infancia. Ora, sabemos que as nossas primeiras recorda~6es variam com a idade em que sao evocadas e que qual- quer recorda~ao se desenvolve em nos sob a influencia da nossa evolu~ao psiquica, das nossas disposi~6es e das situa~6es. A menos que esteja solidamente enquadrada num conjunto de circunstancias objectivamente determi- naveis, 0 que e raramente 0 caso quando e de origem infantil, uma recordagao corre 0 risco de ser mais a imagem do presente do que do passado. It assim, assi- milando-a a si, que 0 adulto pretende penetrar na alma da crian~a. E contudo, entre si e a crianga, ele reconhece dife- ren~as. Mas redu-Ias a maior parte das vezes a uma subtrac~ao: sac diferengas de grau ou quantitativas. Comparando a crianga a si proprio, ve-a, relativa ou totalmente, inapta em relagao as ac~6es ou tarefas que ele proprio pode executaI'. Sem duvida, estas inaptid6es podem dar lugar a medidas que, convenientemente reu- nidas, poderao pOI' em evidencia propor~oes e uma con- figura~ao psiquica diferentes na crian~a e no adulto. Neste caso, tomarao urn significado positivo. Mas nem pOI' isso a crian~a deixa de ser menos uma simples redu~ao do adulto. A subtrac~ao pode, no entanto, operar-se de maneira m.ais qualitativa, se as sucessivas diferengas de aptid6es que apresenta a crian~a forem reunidas ern sistemas e se a cada sistema for atribuido urn determinado pe_ riodo do crescimento. Tratar-se-a, entao, de etapas ou de estadios a cada urn dos quais correspondera urn certo conjunto de aptidoes ou de caracteres que a crian~a tleve adquirir para tomar-se adulto. 0 adolescente seria assim o adulto a quem faltaria 0 estadio mais recente do seu desenvolvimento, e assim par diante, subindo de idade em idade, ate a primeira infancia. Porem, pOI' mais especificos que possam parecer os efeitos proprios de cada etapa, continua a haver, nesta hipotese, caracteres que se juntam a outros para reali- zarem 0 adulto; e a progressao permanece ainda essen- cialmente quantitativa. o egocentrismo do adulto pode, enfim, manifestar-se atraves da sua convic~ao de que toda a evolu~ao mental tern pol' termo ineluta vel as suas proprias maneiras de sentiI' e de pensar, as do seu meio e da sua epoca. Se, pOI' outro lado, Ihe acontece reconhecer que as da crian~a sac especificamente diferentes das suas, entao nao tern outra alternativa senao considera-las como uma aberra~ao. Aberra~ao constante, sem duvida, e pol' esta razao tao necessaria, tao normal, como 0 seu proprio sistema ideo16gico; aberra~ao cujo mecanisme e neces- sario procurar demonstrar. Entretanto, uma questao preliminar se poe: a da realidade desta aberragao. ~ verdade que a mentalidade da crian~a e a do adulto sao heteronomas? Que a pas- sagem de uma a outra pressupoe uma conversao total? Que os principios aos quais 0 adulto julga estar ligado o seu proprio pensamento sac uma norma imutavel e inflexivel que permite rejeitar 0 pensamento da crian~a como irracional? Que as conclusoes intelectuais da crian~a nao tern nenhuma rela~ao com as do adulto? E a inteligencia do adulto teria podido permanecer fecunda se tivesse realmente que se desviar das fontes donde brota a da crian~? Uma outra atitude poderia consistir em observar a crian~a no seu desenvolvimento, tomando-a pol' ponto de partida, acompanhando-a ao longo das suas suces- sivas idades e estudando os estadios correspondentes, sem os submeter a censura previa das nossas defini~oes 16gicas. Para quem os considera cada urn na sua tota- lidade, a sua sucessao aparece como descontinua; a pas-
  16. 16. sagem de um a outro nao e uma simples amplifica~o, mas urna modifica~ao; actividades preponderantes no primeiro sao reduzidas e por vezes suprimidas aparen- temente no seguinte. Entre os dois, parece surgir muitas vezes urna crise de que a conduta da crian~a pode ser visivelmente afectada. 0 crescimento e portanto assi- nalado por conflitos, como se fosse preciso escolher entre urn antigo e urn novo tipo de activi<iade. 0 que se sujeita a lei do outro tem que se transformar, e perde em seguida 0 poder de regular utilmente 0 comporta- mento do individuo. Mas a maneira como 0 conflito se resolve nao e absoluta nem necessariamente uniforme em todos. E em cada um deixa a sua marca. Destes conflitos, alguns foram resolvidos pela espe- cie, 0 que significa que 0 simples facto do seu cresci- mento leva 0 indivfduo a resolve-Ios tambem. Para dar um exemplo, 0 sistema motor do homem apresenta uma estratificactao de actividades cujos centros se organizam a volta do eixo cerebro-espinal pela ordem do seu apa- recimento ao longo da evolu~ao. Elas entram sucessi- vamente em jogo durante a primeira infancia, aproxi- madamente na forma em que se VaG poder integrar nos sistemas que as acompanharam e que as modifica- ram, de tal modo que 0 seu exercicio isolado ja nao pode dar senao efeitos parciais e a maior parte das vezes inuteis. Mais tarde, porem, se acontece que uma influencia patologica as faz escapar ao controlo das fungOes que as tinham englobado, enta~ 0 obstaculo que elas lhes opoem demonstra a existencia do confUto la- tente que entre as mesmas existia. Ainda no estado normal, alias, a integra~ao pode ser mais ou menos estrita entre as diferentes aparelhos do orgao motor. Dai a grande diversidade das complexOes motor as. Mas e no dominio das functoes psicomotoras e psiquicas que muitas vezes ela e mais imprecisa, de tal modo que 0 conflito nunca esm completamente resolvido: assim, entre a em0ctaOe a actividade intelectual, que corres- pondem manifestamente a duas categorias distintas de centros nervosos e a duas eta pas sucessivas da evolugao mental. Para outros confUtos, pertence ao proprio individuo resolve-Ios. Por vezes 0 seu objecto e de uma impomncia tiio fundamental que uma unica solu~ao e normal; por outras, pelo contrario, e mais contingente e a solu~ao mais facultativa. Elevando-os a uma especie de generalidade mftica, Freud redu-Ios essencialmente a um conflito entre 0 ins- tinto da especie que em cada um se traduz pelo desejo sexuSiI ou libido, e as exigencias da vida em sociedade. Recalcamentos de uma parte, subterfugios de outra, para iludir a vigUancia da censura, faraD da vida psiquica um drama continuo. Toda a evolu~ao mental da crian~a sera comandada pelas fix~5es sucessivas do libido sabre os objectos ao seu alcance. Ela tera portanto que se Hber- tar dos primeiros para progredir em direc~o a outros. Escolha que nao se faz sem sofrimentos, sem queixas, nem sem eventuais regressoes. Escolha que, alias, nao e necessario imputar ao instinto sexual e de que se obser- yam indfcios na crian~a. Apesar da escolha, nada do que se abandona e destruido, nada mesmo do que e supe- rado fica sem ac~o. A cada etapa vencida, a crian~a deixa atras de si possibilidades que nao estao mortas. A realiza~ao pela crian~a do adulto em que deve tornar-se nao segue, pois, um caminho linear, sem bifur- cagOes ou desvios. As orienta~oes mestras a que normal- mente obedece nao BaO menos uma ocasiao frequente de incertezas e de hesitagOes. Mas quantas outras oca- sioes mais fortuitas vem tamoom obriga-Ia a escolher entre 0 esfor~ ea renuncia! Elas surgem do meio- meio das pessoas e meio das coisas. A mae, os amigos, os encontros habituais ou insolitos, a escola: outros tantos oontactos, relagoes e estruturas diversas, insti- tuigOes atraves das quais a crianga, quer queira quer nao, deve inserir-se na sociedade. A linguagem entrep3e entre ela e os seus desejos, entre ela e as pessoas, um obsmculo ou um instrumento que pode ser tentado ou
  17. 17. a evitar, ou a veneer. Os objectos e, em primeiro lugar, os que the estao mais proximos, os objectos fabricados, a bola, a colher, 0 bacio, os fatos, a electricidade a radio as t.ecn,icas mais antigas como as mais recentes 'sao par~ ela mcomodo, problema ou ajuda, repelem-na ou atraem- -na e modelam a sua actividade. 11';,no fim de contas, 0 mundo dos adultos que 0 meio lhe impoe e dai resulta, em cada epoca, uma certa uni- formidade de forma~ao mental. Mas isso nao significa que 0 adulto tenha 0 direito de nao reconhecer na crian~a senao aquilo que ele proprio the inculca. E, em primeiro lugar, a maneira como a crianQa assimila esse mundo pode nao tel' nenhuma scmelhanQa com a maneira como 0 adulto pOl' sua vez 0 utiliza. Se 0 adulto ultra- passa a crianQa, a crianQa a sua maneira ultrapassa o adulto. Ela possui disponibilidades psiquicas que urn outro meio utilizaria de outro modo. Muitas dificuldades colectivamente vencidas pelos grupos sociais permitiram ja que muitas delas se manifestassem. Com a ajuda da civilizaQao, nao estarao em potencia na crianQa outros desenvolvimentos da razao e da sensibilidade? Enquanto vastos dominios do conhecimento viram a experimenta~ao suplantar a simples observaQao, 0 papel desta mantem-se preponderante em muitos cam- pos da Psicologia. Foi da experimenta~ao que nasceram a Fisica e a Quimica. Em Biologia, ela continua a alar- gar 0 seu campo de ac~ao e a Fisiologia pertence-lhe quase completamente. A imita~ao da Fisiologia, criou-se tambem uma psicologia experimental. Mas a psicologia da infancia, ou pelo menos a da primeira infancia, de- pende quase exclusivamente da observa~ao. Experimental' e realizar certas condi~oes nas quais se devem produzir certos efeitos, e pelo menos intro- duzir nas condi~oes uma modifica~ao conhecida e anotar as modifica~Oes correspondentes do efeito. Deste modo poder-se-a comparar 0 efeito a sua causa e medi-los urn pelo outro. Alias nao e necessario intervir na produ~ao do proprio efeito; pode ser suficiente modificar as con- di~Oes da observa~ao. Assim, os objectos que r.os nao atingimos, como os astros, podem dar lugar a verdadei- ras experiencias fisico-quimicas, utilizando a espectros- copia ou a fotografia. Supondo resolvidas as dificuldades tecnicas da expe. rimenta~ao, apenas ficariam fora do seu akance os objec-
  18. 18. tos dos quais fosse impossive! modificar as condi~6es, quer de existencia quer de observa~ao, sem que portal motivo deixassem de existir. Tal seria 0 caso daqueles conjuntos em que e 0 conjunto na sua integridade origi- nal que constitui 0 facto a estudar. Poder-se-iam encon- trar numerosos exemplos destes em Psicologia ou em Biologia. Mas a contrapartida e que 0 conjunto deve poder ser efectivamente apreendido solidariamente em todas 'lS suas partes. POI' este facto, a primeira infancia e, fiem qualquer duvida, um objecto de escolha para observa~ao pura. Ate aos 3 ou 4 anos, a crian~a pode estar l1lais facilmente a. disposi~8oo do proprio observador. Assim, todas as circunstancias da sua vida e do seu compor- tamento ser800 anotadas. Foi 0 que se esforc;aram pOI' fazer autores como Preyer, Perez, Major, W. Stern, Decroly, Dearborn, Shinn, Scupin, Cramaussel, P. Guil- laume. Dns, como Preyer, publicaram 0 conjunto cTas suas observa~5es, sen800sob a forma de diario continuo, pelo menos agrupando-as em rubricas muito gerais. Outros, como W. Stern, extrairam delas mO::1ografias respeitantes a quest5es particulares. Alguns parecem tambem tel' limitado as suas observa<;5es aos dados de certos problemas, acompanhando todavia a existcncia total da crian~a. Estes trabalhos continuam a ser a fonte mais preciosa para 0 estudo da primeira idade. A partir dos 4 anos, faltam completamentc estudos desta natureza. Sendo apenas fragmentarias as obser- va~5es recolhidas, trata-se de constituir os conjuntos onde possam receber 0 seu significado. Assim se elabo- raram metodos que procedem da observa~8oo pura, mas que devem ultrapassa-la e que se julgam prolongar a experimenta~8oo, cujo objectivo essencial, como alias de todo 0 conhecimento, e pOr em evidencia uma determi- nada rela~8oo. 0 experimentador reconstroi esta rela~8oo ou .submete-a a varia~6es que permitem isolar do resto os termos que ela une. Quando esta proibida qualquer ac~8oo sobre ela, ja n800 resta sen800 ten tar constatar as suas varia~6es espontaneas ou acidentais. Mas para as reconhecer e precise compara-Ias a uma norma, redu- zl-las a urn sistema determinado de referencias. A norma pode, entre outras coisas, consistir em confrontar os desvios patologicos com 0 estado normal. 0 sistema de referencias pode ser dado pOl' estatisticas rcsultantes de compara~5es desenvolvidas. De qualquer modo, llma observagiio nao pode ser identificada como tal, a nao ser que se enquadre num conjunto donde receba 0 seu sentido e inclusivamel1te a sua formula. Necessidade t800fundamental que obriga a voltar a. chamada observag8oo pura e 2. examinar pOl' que mecanisme e sob que condic;oes cIa se pode torrLar urn meio de conhecimento. Para falar com propriedade, nao ha nenhuma ob:::er- va~8ooque seja urn decalque exacto e completo da reali- dade. Supondo, alias, que existissem observa~5es dessa natureza, 0 trabalho de observaC;8ooestaria ainda total- mente por empreender. Embora, por exemplo, 0 registo cinematografico de uma cena corresponda ja a uma esco- lha frequentemente muito avan~ada - a escolha da pro- pria cena, do momento, do ponto de vista, etc. - e somente sobre 0 filme - cujo mcrito e tornar perm a- nente uma continuaC;8oode pormenores que ao espectador mais atento teriam' escap,ado e aos quais pode voltar a. vontade - que vai poder come~ar 0 trabalho directo de observa~8oo. N800ha observa~8oo sem escolha nem sem uma rela~8oo, implicita ou n8oo.A escolha e comandada pelas relac;oes que podem existir entre 0 objecto ou 0 acontecimento e a nossa expectativa, isto e, 0 nosso desejo, a nossa hip6tese ou mesmo os nossos simples habitos mentais. As suas raz5es podem ser conscientes ou intencionais, mas podem tambem escapar-nos, porque se confundem, antes de l11ais,com 0 nosso poder de formula~8oo mental. S6 podem ser escolhidas as circunstancias que sac pOI'
  19. 19. si mesmas exprlmlveis. E para as exprimir precisamos de reduzi-Ias a qualquer coisa que nos seja familiar au inteligivel, a tabela de referencias de que nos servimos, quer de proposito quer sem 0 saber. A grande dificuldade da observa<.;ao pura como ins- trumento de conhecimento consiste em que usamos uma tabela de referencia, a maior parte das vezes sem 0 saber- mos, de tal modo 0 seu emprego e irracional, instintivo, indispensavel. Quando experimentamos, 0 proprio dispo- sitivo da experiencia opera a transposi<.;ao do facto para o sistema que permitira interpreta-Io. Se se trata de observa<.;ao, a formula que damos aos factos corresponde muitas vezes as nossas rela<.;6es mais subjectivas com a realidade, as ncx;6es praticas que para nos utilizamos na nossa vida corrente. Deste modo, e muito dificH observar a crian<.;a sem lhe emprestar alguma coisa dos nossos sentimentos ou das nossas inten<.;oes. Urn movimento nao e urn movi- mento, mas aquilo que ele parece exprimir-nos. E, a menos que estejamos muito habituados a agir em con- trario, e 0 significado suposto que registamos, deixando mais ou menos de indicar 0 proprio gesto. Todo 0 esfor<.;ode conhecimento e de interpreta<.;ao cientifica consistiu sempre em substituir 0 que e refe- rencia instintiva ou egocentrica por uma outra tabela cujos termos sejam objectivamente definidos. Tern acon- tecido, alias muitas vezes, que, tiradas de sistemas de conhecimento anteriormente constituidos, estas tabelas se tenham revelado insuficientes para a ordem nova dos factos em estudo; acontece, assim, em Psicologia, com referencias tiradas da Anatomia, supondo-se toda a ma- nifesta<.;iio mental devida a actividade dum certo orgao ou dum certo elemento de orgao. Importa, portanto, em primeiro lugar, definir para todo 0 objecto de obser- va<.;ao qual e a tabela de referencia que corresponde ao objectivo da investiga<.;ao. Para quem estuda a crian<.;a, e incontestavelmente a cronologia do seu desenvolvimento. Todos os ooser- vadores tiveram 0 cuidado de anotar, para cada urn dos factos que registam, a idade da crian<.;aem meses c em dias, como se admitissem que a ordem pela qual aparecem as sucessivas manifesta<.;6es da sua actividade tern uma especie de valor explicativo. E a experiencia tern efectivamente verificado que esse valor e 0 mesmo de uma crian<.;apara outra. As interven<.;6es que as vezes se verificam nao ultrapassariam, segundo a Sr." Shirley, que seguiu minuciosamente 0 desenvolvimento de viute e cinco crian<.;as pequenas, os 12 '70 dos casas, e sobre- tudo nunca dizem respeito senao a duas aquisi~6es ime- diatamente consecutivas. Somente mais tarde se podem observar, entre actividades fortemente diferenciadas, casos de precocidade ou de atraso parciais. A diferen<.;adas reac<.;6esconforme a idade foi posta em evidencia de maneira surpreendente por Gesell, atra- yes do cinema. Sendo proposto a crianc;a 0 mesmo teste de seman.a a semana, ou de mes a mes, pOl' exem- plo, a apresenta<.;ao do mesmo objecto a mesma distancia, a justaposi<.;ao dos seus comportamentos sucessivos, mos- tra as transforma<.;6es rapidas e muitas veres radicais operadas em razao do tempo decorrido. No entanto, varios observadores constataram nesta acc;ao do tempo, que implica a propria noc;ao de desenvolvimento ou de evolu<.;ao-ligada tambem ela ao papel que a infancia desempenha na vida -, exceMoes pelo menos aparentes, cujo exame deve permitir compreender melhor as con- dic;oes e 0 significado dos progressos em vias de reali- zac;ao. Ora surge uma reac~ao nova, sem durac;ao e que so reaparece algumas semanas mais tarde, ora uma aquisi~ao ja antiga parece desaparecer no momento em que a actividade da crianc;a entra num novo dominio. Entre <0 decurso do tempo e 0 do desenvolvimento psi- quico manifestar-se-iam, por conseguinte, discordancias. Em presenc;a do primeiro casa, certos observadores como Preyer comec;aram por interrogar-se se a sua
  20. 20. descr~<.;aonao teria sido logo de inicio deformada por uma mterpreta<.;ao que se antecipava ao acontecimento. Mas a experiencia tern mostrado que a antecipa<.;ao esta muitas vezes nos proprios factos. Toda a reac<.;ao,explica Koffka, e urn conjunto cuja unidade pode agrupar partes ou condi<.;oesmais ou menos diversas e intercambiaveis. Estas condi<.;oes sao, em propor<.;ao variavel, circuns- tancias externas e disposi<.;5es internas. Quanto maior for 0 numero das circunstancias externas, maJOr e 0 risco da sua realiza<.;ao simultanea ser acidental. Pelo con- trano, quanta mais aumentam as disposi<.;oes intimas, tanto mais a sua contribui<.;iio tende a tornar-se urn todo homogeneo, que se vai encontrar a disposi<.;aoconstante do sujeito. E precisamente neste senti do que seguem os progressos da organiza<.;ao atraves das especies animais. o seu comportamento, pelo menos na sua forma,' depende sempre mais de determinantes internas, e em propor<.;ao, deixa de ser comandado imediatamente pelas influencias do meio exterior. Os progressos de organiza<.;ao que correspondem ao periodo da infancia tern necessariamente' por efeito res- tabelecer as estruturas ancestrais que asseguram ao individuo a plena posse dos meios de ac<.;ao proprios da especie. E, alias, urn processo que prolonga a activi- dade de cada urn: toda a aprendizagem, toda a aqui- si<.;aode habitos, tende a reduzir a influencia das situ a- <.;oesexternas a de simples signos, executando-se 0 acto consecutivo como pOl' si mesmo pela entrada em jogo de estruturas intimas, que suo 0 efeito da aprendizagem. A esta explica<.;ao seria necessario acrescentar que a antecipa<.;ao funcional nao e urn simples acidente, mesmo frequente, mas que ela parece ser a regra. E urn fenomeno constante que reac<.;oesnovas sofram urn longo eclipse depois de se terem manifestado queI' uma quer mesmo varias vezes durante urn curto periodo. Nao parece portanto suficiente imputar 0 facto unicamente ao concurso favoravel de circunstancias externas. E mais verosimil que em muitos casos 0 primeiro aparecimento dum gesto ou dum acto resulte de factores sobretudo internos. A diversidade destes e, com efeito, maior do que muitas vezes supomos. Os mecanismos de execu<.;ao saG apenas uma parte deles. 0 que os desencadeia resulta de disponibilidades ou de orienta<.;oes energeticas que pol' sua vez tern tambem os seus periodos. Intervem, alem disso, interesses de natureza muito diversa. POl' exem- plo, a novidade da impressao que um gesto executado pela primeira vez faz experimental' pode ser suficiente para mobilizar durante algum tempo, com vista a sua repeti<.;ao,urn somatorio de energia que ja nao se podera encontrar quando 0 atractivo se tornar menor. Essa ener- gia desaparecera, portanto, provisoriamente. A falta de coesao entre os factores intimos duma reac<.;ao explica a irregularidade que esta apresenta para come<.;ar,mesmo em presen<.;ada excita<.;ao apropriada. E preciso tambem considerar que 0 limiar duma reac<.;iio no seu inicio e elevado e que, para se produzir, ela exige uma estimu- la<.;aomais energica ou uma quantidade de energia mais cOllsideravel do que na fase em que 0 mesmo limiar se encontra abaixado pela matura<.;ao funcional ou pela aprendizagem. A perda de uma aquisi<.;iioja antiga e urn facto duma frequencia suficiente para ter sido assinalada pol' varios autores. A explica<.;ao que disso dao W. Stern e depois Piaget e quase semelhante. A mesma opera<.;ao mental apresenta diferentes niveis entre os quais se fa7. a pas- sagem sempre na mesma ordem no decorrer da evolu~ao psiquica. As condi<.;oesem que a opera<.;ao se deve pro- duzir podem opor-lhe graus de dificuldade muito varia- veis. Se a dificuldade aumenta, a opera~ao corre 0 risco de se fazer a urn myel mais baixo. Assim, no mesmo individuo, na mesma idade, a mesma opera~o e suscep- tivel de se executar a diversos niveis. Urn exemplo dado pOl' W. Stern e a prova que consiste em descrever uma imagem, quer olhando-a quer depois de a tel' olhado. Na forma das duas descri<.;5es, pode observar-se,
  21. 21. segundo a idade da crianQa, uma discordancia de urn ou dois graus. o exemplo de Piaget diz respeito a no~6es, como a de causalidade, das quais as vezes a crianQa sabe fazer urn usa objectivo na pnitica quotidiana da vida, enquanto nas suas explicaQ6es, isto e, num «plano ver- ba!», regressa a tipos de causalidade muito mais subjec- tivos, causalidade voluntarista ou afectiva. A actividade mental nao se desenvolve num (mico e mesmo plano por uma especie de crescimento continuo. Evolui de sistema para sistema. Sendo diferente a sua estrutura, segue-se que nao ha resultado que se possa transmitir tal e qual de urn para cutro. Urn resultado que reaparece em ligaQao cern urn novo modo de activi- dade ja nao existe da mesma maneira. 0 que 'importa nao e a materialidade de urn gesto, mas sim 0 sistema ao qual pertence no instante em que se manifesta. o mesmo fenomeno pode ser na crianQa que apenas balbucia 0 simples efeito dos seus exercicios sensorio- -motores e, mais tarde, a silaba duma palavra que se esforQa por pronunciar correctamente. Entre os dois intercala-se urn periodo de aprendizagem. A necessidade de reaprender 0 som que se tinha tornado familiar no periodo sensorio-motor, quando se torna urn elemento da linguagem, faz-se bem sentir a quem quer que expe- rimente falar uma lingua estrangeira, cujos fonemas nao SaG todos como os que teve ocasiao de fixar ao aprender a sua propria lingua materna. A dificuldade de articulaQao pode ate nunca ser completamente ven- cida, se a reaprendizagem se fizer numa idade dema- siado tardia. Inversamente, sob as aparencias da mesma palavra, o acto mental pode pertencer a dois nlveis diferentes de actividade. E 0 que explica que certos afasicos sejam ao mesmo tempo capazes e incapazes de utilizar urn mesmo vocabulo conforme ele pertenQa a uma excla- maQao afediva ou deva entrar na enunciaQao objectiva de urn facto. A linguagem de urn adulto normal comporta uma sobreposiQao de pIanos entre os quais nao deixa de se fazer a passagem sem ele dar por isso. A doenQa pode fazer desaparecer alguns deles, e a crianQa nao passa de urn para outro senao sucessivamente. A linguagem, porem, e apenas urn exemplo da lei que regula a aquisiQao de todas as nossas actividades. As mais elementares integram-se, ora modificadas ora sob 0 mesmo aspecto, noutras, atraves das quais aumen- tam gradualmente os nossos meios objectivos de relaGao com 0 meio. 0 observador deve, pois, evitar atribuir aos gestos da crianQa 0 pIeno significado que poderiam ter no adulto. Seja qual for a sua aparente identidade, nao the deve reconhecer outro valor senao aquele que pode ser justificado pelo comportamento actual do su- jeito. 0 da crianQa e, em cada idade, dum tipo que corresponde aos limites das suas aptid6es, e 0 do adulto e, por sua vez, ern cada momentc, rodeado num cortejo de circunstancias que permitem determinar a que nivel da vida mental ele se realiza. Estar atento a esta diver- sidade de significados e uma das principais dificuldades, mas uma condiQao essencial da observaQao cientifica. Se 0 metodo de observaQao nao pode deixar de ter em conta as variaQOes a encontrar no efeito quando mudam as condiQoes, 0 estudo dos casos patologicos fornece uma ocasiao para discernir algumas destas va- riaQOes que a doen~a torn a mais aparentes e, em certa medida, pode suprir a experimentaQao, quando e impos" sivel recorrer a ela para as por artificialmente em evidencia. As relaQOes entre a Patologia e a experimentaQao impuseram-se a atenQao dos psicologos franceses, de quem durante muito tempo inspiraram a maior parte dos trabalhos, sob a influencia de Claude Bernard, que definia a Fisiologia como uma «medicina experimental»,
  22. 22. entendenuo pOl' isso que 0 fisiologo devia procurar reproduzir OS cfeitos da dO€n~a at raves da repl'odugao, num organismo sao, da sua suposta causa. Urn meio directo de verificar a exactidao das suas hipoteses. Esta pnltica admitia, pOl' urn lado, que 0 estado de satide e 0 est ado de doen~a estao submetidos as mesmas leis biologicas e que nada ha a mudar senao certas condi~oes da experiencia, aquelas precisamente cujo efeito sc tl'ata de determinar. POl' outro, exigia, pOl' razoes de humanidade, que a verifica~ao pudesse prosseguir-se noutros organism os que nao 0 do homem. Ribot e os seus alunos adoptaram 0 postulado, mas nao puderam realizar a transferencia da experienc.ia, visto que a maior parte dos factos a estudar pertcnce unicamente a psicologia do homem. Ao contnlrio de Cl. Bernard, que operava no experimental, eles operaram no patologico. POl' isso mesmo perdiam a vantagem da verifica~ao expeditiva que Cl. Bernard tinha procuraoo, e voltavam a necessidade de instituir, conforme os encon- tros da clinica, minuciosas e pOl' vezes incertas compa- ra~6es entre casos aproximadamente semelhantes. Este inconveniente nao foi talvez para eles tao iDle- diatamente evidente como 0 e para nos. Porque era a epoca em que prosperavam as experiencias S'obre a his- teria, que efectivamente tiveram urn grande lugar nos trabalhos dos primeiros psicopatologistas. Os efeitos cada dia mais surpreendentes que the eram atribuidos davam a ilusao de que, provocando-os, se tornava pos- sivel chegar a atingir a sua causa e explorar assim todo o mecanisme da vida psiquica. Verifica~ao demasiado facil das hipoteses mais arbitrarias, dado que eram um resultado directo ou da sugestao ou da simu1a~ao. Contrariamente a histeria, a doutrina organicista mantinha uma ilusao, apesar de tudo bastante seme- lhante. Identificando cada manifesta~ao psiquica com 0 jogo de urn certo orgao, tambem ela admitia a possibili- dade de ana}isar a vida psiquica, efeito pOl'efeito, fun~ao pol' fun~3.o. Concep~3.o reconhecida depois como inade- quada aos factos. As consequencias duma lesao naG se resolvem puma simples subtrac~ao funcional. Traduzem, f ,::C-o sim, --uma reac«ao conforme a~ poS'sibili~ades deixadas :.-UIC I J. intactas ou libertadas pela lesao. Elas sao 0 comporta- (h; • -;'ento compatiyel com as mudan~as da situa<;ao interna. ii""0- ~3-.~9,~~()~o-!, 031._pr_o.~z:e~s~os,sly. ~cJi~n~a nao _§3.9 ~~~~~~/,y..>fu~Q~g~ fUPJ,;~e3'0 comportamento. cl.e cada idade e um sistema em que eada uma das ac~- dades ia nossiveis concorre com todas as outras, re(;e- -~~v ~ndo do conjunto 0 seu papel. 0 interesse da psicopa- tologia para 0 estudo da crian~a consiste em pOl' melhor em evidencia os diferentes tipos de comportamento. Por- que 0 ritmo duma evolu~ao mental e, na primeira infan- cia, ta~ precipitado que acontece serem dificilmente identificaveis no estado puro, visto as suas manifesta- ~i5es se sobreporem de um tipo para outro. Pelo contrario, uma perturba~ao de crescimento nao somente retard a a evolu~ao como pode tambem travar- -lhe 0 desenvolvimento a urn certo nivel. Entao todas as reac<;Oes vem alinhar-se num tinico tipo de compo'!"- tamento, cujas possibilidades realizam completamente, pOl' vezes mesmo com uma especie de perfei<;ao que nao pode ser atingida quando se encontram gradualmente incorporadas a reac<;oes de urn nivel mais elevado. Tenho sempre constatado que uma demasiada virtuosidade par- cial e de mau prognostico para 0 desenvolvimento ulte- rior da crian<;a: porque e 0 indice duma fun<;ao que volta indefinidamente sobre si mesma, pOl' falta dum sistema mais complexo de actividade que a venha utilizar paz:a • • , I I II Ifir. '.rO., (f)..' r:J, outros fms e mtegra-Ia (1).-~(.A)' '"" " "II 0 ' 0 Ao mesmo tempo que cada fase duma evolu<;ao irun- cada ~ assim encontrar-se despojada de todos os tra~~_que the saQ estranhos, 0 S~~ e?tre a ~oe~ao Wima do comportamento (va sua incoerencia pratic~ torna-se impr.e~~~()!1apte. Se este comportamento esta1 .- .•.••.•.••.-' ..••...••....•~-,~ ~.-
  23. 23. muitas vezes relacionado com circunstancias exteriores, a verdade e que corresponde mal ou de modo algum as exigencias do meio. ~~~~bs~ vai permitir com- preender melhor que especies de pr~ressos seriam indrs- pensaveis para permitii uma' vida normal. 0 regime de I ~ vida e comandado po!' condi<;6es' que' o-_meio/soCia~Jl~~ I transformar. A rela<;ao entre essas condi<;6es e 0 desen- volvimento psiquico e urn dos seus factores essenciais. E portanto necessario comparar a.§ aptid6es sucessivas I,' ,. j oJ:!~ssoais d'§:3rianQ.§, ~~os objectos e os obsticulos '" ') ,qu,e.~~2..dev~m ou odem encontr~ e em seguida regis- '. I r i I tar como se faz a adapta<;ao. , I' I Decroly recomendava que se considerasse, para cada crian<;a anormal, aual 0 regime de vida que the era ouf ~ II r f~·V 'L,/ . 'J..../...".... '. '"/./VV-"" lh_e poderia tornar-se acessivel. 0 mesmo problema se;'1 ( 1 [ii, ' poe para melhor conhecer e melhor dirigir a crian<;a norIlfal. Urn outro rr::eiode compara<;ao, cujo objectivo e quase semelhante, e 0-queutiIIza·~aEs.tatistica. Em vez de se considerar directamente 0 individuo e as suas condi- <;6es de existencia, ele e comparado ao grupo dos que estao nas mesmas condi<;6es. ~_~<?mparil:9~2-incide, evi- dentemente, sQ!:?,reurn tra~ bem determinado. Trata-se de anotar as 'varia<;6es deste t--ra~o n'o-~~~J~~to do gl'UpO e de classificar cada individuo em rela<;ao ao grupo inteiro. Num grupo de individuos da mesma idade, a posi<;ao que cada urn ocupa entre os outros indicara se, relativamente ao tra<;o considerado, ele esta em atraso, na media, ou adiantado em rela<;ao aos da ~ma idade. Mas 0 principio do agrupamento pode ser dife- rente: na~ionalidade, I?~i~_s<?~~al,c~I!..di~e v.~s ou IE~.!!ospar:ticul.f!:!:.~~.E assim a compara<;ao do meamo tra<;o em grupos diversos e em diferentes tipos de grupos vai permitir reconhecer que factores influem no seu apa- recimento, desaparecimento e eventuais varia<;6es. I -~L~~ ~9:e, portanto, d,?-rI~Kar a ~s d~ compara<;6es: (3.) de cada individuo em rela<;ao a l:ma norma, que ~ dad a pelo conjunto dos resultados obtidos I N,::!;;,.","". 'rJ".,t. '>", I .~, / (2) . _ nas essoas da meSilla categoria que ele; a das condl<;oes !:Blf!:..~~vasa cada categoria com 0 efeito estudado. Nao sendo ja 0 termo de referencia uma observa<;ao ou uma experiencia individual, mas uma pluralidade de casas individuais, ~,.p.1'~ci_~Q_eliminar dest.a _.pluralidade 0 que amea<;a .falseJl.r-lhe 0 justa ~uili.!;>LiQ:..Esta garantia so ·pode ser obtida respeitando as condir;6es que 0 ~ls!:!J.~ das probabilidades permitiu determinar. E pOl' ele que~ se rege 0 estabelecimento das normas e a utilizagao das compara<;6es proprias deste metodo (1). o tra<;o estudado pode ser urn efeito natural, como '0 tamanho da crian~a. Mas acontece tambem, como quando se trata de uma aptidao, que pode ser necessario paolo em evidencia atraves de uma prova ou teste. A apti- dao sera definida pelo teste,' mas unicamente porque o proprio teste tera side previamente calculado com base na aptidao. E a garantia desta exacta correspondencia e dada precisamente pelo calculo das probabilidades. A percentagem dos exitos obtidos com individuos de quem praticamente se conhece que apresentam essa apti- dao deve ser substancialmente superior a que apresentam quaisquer outros individuos. Se se trata de conhecer 0 desenvolvimento duma aptidao conforme a idade, a com- para<;ao far-se-a entre 0 numero de exitos em duas idades consecutivas. o teste e da observa<;ao provocada e, nesta q1l8li- _ 'I dade, e uma experiencia. 0 que, no entanto, 0 distingue I (i r duma experiencia propriamente dita e que entre os dois f r; , ha uma ili.vergencia de referencia e de~?)A expe- riencia vale pela sua estrutura, pela exacta rela<;ao das suas partes; 0 seu resultado depende das condi<;6es rea- lizadas; as suas referencias encontram-se numa situa<;ao definida, que podeser mais ou menos complexa. 0 teste, pelo contrario, e urn indice cujo significado se baseia (1) Ver BOREL e DELTHEIL, Probabilites, ETTeurs (Col, Armand Oolin, n.O 34); H. WALLON, Prirncipes de psychologie appliquee, 2," parte (Col, Armand Colin).
  24. 24. --;'it / " . '7 ~t9/ v/t/~ na sua frequencla relatlva atraves de grupos deUnidos. :h: nestes que esta a estrutura e nao no teste. Se ele tivesse uma, mesmo que foss"€ composta de elementos heterogeneos, as comparaQoes de que e instrumento tor- n.ar-se-iam ambiguas e as manipulaQ6es estatisticas pode- r~am revelar anomalias nos seus resultados. Em princi- plO, portanto, deve ser 0 mais depurado possive!. As suas referencias encontram-se fora dele: no conjunto dos casos em que e experimentado. . Certamente 0 metodo estatlstico e 0 metodo expe- nmental podem mais ou men os interferir a titulo de controlo mutuo. Mas as objecQ6es que a urn ou a outro tern sido dirigidas provem muitas vezes do facto de eles nao terem sido suficientemente distinguidos. Existem em Psicologia provas que nao sac testes e cujos resul- tados sac dos mais uteis; sac experiencias mais ou menos complexas cuja prova esta nelas pr6prias. Seria absurdo objectar-Ihes que nao se podem justificar pela mesma especie de garantias dos testes. Inversamente, nao se justifica reprovar os testes pela sua abstracta simplicidade. por uma dependencia comum em relaQao a circunstancias estranhas, uma concordancia cujo limite ultra passe as probabilidades do simples acaso pode ser indicio duma ligaQao funcional entre as duas aptidoes postas em corre- laQao. Ela corresponded, portanto, a urn elemento de estrutura. Mas encadear esses elementos, calculando sucessivamente correlaQoes, nao e recompor a estrutura, e os resultados de conjunto depressa se tornam muito confusos. A coesao de cada elemento varia, alias, com o valor numerico da correlaQao, e 0 seu significado intrinseco permanece indeterminado. 0 estudo das cor- ~ortantQ, urn metodo de analise e de v.e~~i- ca<;;ao,mas nao de reconstrugao. II Enfim, a existencia de urn conjunto nao se confunde com as afinidades mutuas das suas partes. 0 que faz com que concorram para 0 comportamento de uma deter- minada idade as diferentes actividades que 0 constituem nao e necessariamente 0 facto de se condicionarem entre si. As causas duma evolucao ultranassam 0 insti!Jlte~~.~~~.~~'-..-~~ ~ Cada uma das suas etapas nao . ~ po.r con- .:. seguinte, formar urn sistema fechado, _~1.!Jil.smamfesta-. Q6es dependeriam todas estritamente urnas das outrasj Os estadios de que a psicopatologia permite 0 estudo sac na verdade conjuntos, mesmo que depurados de qual- quer elemento heterog{meo. Assim e mais facil definir- -lhes as traQos essenciais. Porern, nao sac definiveis senao sob 0 aspecto estatico. PedaQos de uma evoluQ-iio truncada depressa deixam de corresponder as necessi- dades das sucessivas idades que percorre 0 individuo. Nao tern senao uma existencia mecanica, efeitos estereo- tipados e absurdos. 0 seu significado psicobiol6gico desaparece. f: essencialmente a sua sucessao cronol6gica que e precise referir as eta pas do desenvolvimento. As leis e os factores de que dependem serao estudados mais adiante. Mas qual e 0 seu modo de sucessao? Para certos autores, a passagem de urna a outra far-se-ia pOl' transic;6es inse~~iye~E..'Cad a uma estaria ja na prece- • . / .<, .1;-..... /,0 . /.r/ '(/.1,q -: o estudo da cri;m-~a-:'Tessen'CTal~nre"o-~tudo"d~S-7 fases que VaG fazer dela urn adulto. I E~ que medida' podem os testes contrib'uir pa~a isso? E em que medida nao sao suficientes? Supondo que fossem em numero suficiente para corresponder a todas as aptid6es, permitiriam fazer 0 inventario das mesmas para cada individuo e para cada idade, com a indicacao do seu nivel respectivo. Reunidos, dariam aquilo a que se chama «perfil psicoI6gico», grafico de incontestavel utilidade, mas simples junQao de resultados, de que alias .~se duvida que esgotem todas as possibilidades do sujeito . .' Nao existe portanto nele a verdadeira expressao de uma : estrutur5L m~ntal . .Entre os testes, no entanto, e possivel investigar se ha ou nao correlac;ao, calculando segundo que frequencia os seus resultados concordam. A nao ser que seja causada
  25. 25. dente, conteria ja a seguinte. Seria mais urn secciona· mento comodo para 0 psicologo do que uma realidade psicologica. Esta continuidade e, sem duvida, tudo 0 que apreende aquele que se entrega exclusivamente a. descri~3oo das manifesta~oes ou aptidoes sucessivas que aparecem no comportamento da crian~a. 0 desenvolvimento de cada uma pode inscrever-se sob a forma de uma curva conti- nua, desde as tentativas raras e imperfeitas do inicio ate ao seu emprego segundo as necessidadese as circuns- tancias, passando pelo periodo em que 0 efeito e pro- curado insaciavelmente por si mesmo no decurso duma agita~3oo ludica. As novas formas de actividade, C'ujo aparecimento 0 seu proprio acabamento torna possivel, podem seT consideradas como a sua consequencia, em certa medida mecanica e necessaria. Ao mesmo tempo, ela misturou-se com outras actividades sincronicas ou n3oo,que conjuntamente formam uma especie de feltro, no qual se perdem as distin<;oes de etapas. Pelo contrario, para quem n300 separa arbitraria- mente 0 comportamento e as condi~6es de existencia proprias de cada epoca do desenvolvimento, cada fase ~ constitui, :ntre as, p~s~i~ilid3:de~ 3-~/~~@~-S'~~J urn sistema de rela~oes que os faz especificarem,-se r~i-'. " ,-. ".. '--"J' '.....J" .... ',,/ '"',, "",-__ '. /- •......J'-./., ',.- '''-.j "-/ -.,-'"""-...-- procamente. 0 melO n3oopode ser 0 mesmo em todas as idades. E'i: composto -Pb~--tuCfo=aquiroque-posslbHita' ;s pr~~~dimentos de que disp6e a crian~a para obter a satisfa~3oo das suas necessidades. Mas por isso mesmo e 0 conjunto dos estimulantes sobre que se exerce e se regula a sua actividade. Cad a etapa e ao mesmo tempo urn momenta da evolu~3oo mental e um tipo de com- pOEtaE1~~' (.. oj .- OS FACTORES DO DESENVOLVlMENTO PSfQUICO o desenvolvimento psiquico da crian~a apresenta oposi~6es como se observam em qualquer processo de transforma~3oo, mas que devido a. sua amplitude e a. diversidade das suas condi~oes devem suscitar aqui pro- blemas importantes. Partindo, com 0 lactante, de urn esta- dio pouco superior ao do parasitismo, tende para urn nivel, a respeito do qual 0 comportamento das outras especies animais nao passa de urn principio, por~2.s motivos que podem surgir das circunstancias naturais s3oo, n(Lh.~m, :ID1.b.mersos~e procedeI!} -d~--urr;asocied;:-dede form as complexas e instavei§. A in- 'fhI~;-~i~que ela e susceptivel ~exercer pressup6e no individuo urn eq~~r>l~e?t~-!e, aptid6es extp~I!!~~n,~e q!~er~~cla~~~ 9~ja {9[n;~~~~5t~nd~~d?-_.~~Il~e. Deste moao, na crian~a; op6e~m-se~ impIicam-se mutuamen~ f~ctores de origem biologica e'SOcial. ) Ao mesmo tempo que em cada etapa se realiza urn equilibrio estavel entre as possibilidades actuais e as condig6es de vida correspondentes, tendem tamMm a operar-se mudan~as cuja causa e estranha a esta exacta relag300 funcional. Esta causa e organica. No desenvolvimento do individuo, a fun~3oodesperta com 0 crescimento do org3ooe 0 org3ooprecede-a muitas
  26. 26. () : .. Ii' " vezes de longe. Desde 0 nascimento, as celulas nervosas sao tao numerosas como em qualquer momento futuro e se algumas delas se destruirem, no decurso da vida, nao serao substituidas. Mas durante quantas semanas, meses e anos nao vao muitas delas continual' adorme- cidas? Enquanto nao estiverem realizadas as condi<;6es organicas do seu funcionamento: a mieliniza~ao do seu ,,, (axonio. Muitos outros org~<:)s d~veJ!1~gu~_rnente com- '~.ta!:.SL Sll._~,'difereIl2.i~~~L()_est~~tu_~_~lantes de r:~velarem J ,a, §~_a,_J'!!~~~Q) cujas primeiras manifesta~6es muitas vezes nao sao mais do que uma especie de exercicio livre sem qualquer outro motivo alem do proprio exercicio. A razao do seu crescimento nao esta portanto no pr~~~r~~,mas n~ tipo' da ~sp'e~ie que pertence ao adultc; realizar. Esta ao mesmo tempo no futuro e no passado. Cada idade da crian~a e como urn estaleiro' '~nde'-~~-;t~s orgaos asseguram a actividade presente, enquanto se ( edificam massas importantes que nao terao a sua razao de ser senao em idades ulteriores. a objectivo assim perseguido nao e mais do que a realiza~ao daquilo que 0 genotipo, ou germen do indi- viduo, tinha em potencia. a plano segundo 0 qual cada ser se desenvolve depende portanto de disposi<:;6es que ele tern desde 0 momento da sua primeira forma~ao. (A realiza~ao desse plano e necessariamente sucessiva, <mas pode nao ser total e, enfim, as circunstancias modic ficam-na mais ou menos. Assim, distinguiu-se do geno- tipo 0 fenotipo, que consiste nos aspectos em que 0 indi- viduo se manifestou ao longo da vida. A historia de urn ser e dominada pelo seu genotipo e constituida pel0 seu fenotipa. Entre os dois existe uma certa margem de variagao. Mas e dificil marcar-Ihe a amplitude, visto que so 0 fenotipo e directamente acessivel a observa~ao. Quanto aQ conteudo do genotipo, e necessario deduzi-Io a partir de uma compara~ao entre progenitores e descendentes, atribuindo-Ihe dos tra~os comuns aqueles que nao podem ser explicados pela influencia do meio OU dos acon- tecimentos. A compara~ao entre grupos de gemeos homozigoticos e heterozigoticos permitiu que diferentes observadores atribuissem ao genotipo as aptid6es que sao semelhantes nos primeiros e diferentes nos segundos. Sem duvida, 'J i.' nas condi~6es habituais, ~ e~trema diversidade de vi~a ~0 '2~.r'I()1 guaaprellentam as nossas socledades torn a a comparasao i. J; -r1UIP,ad-'!~Lmais complexas, mas a discrimina~ao entre) ""'.l ' ~ o que permanece constante e 0 que pertence a circuns- ~~':~:t.J, tancias multiplas de varia~ao poderia tamhem tornar-se -,>'" ' mais nitida. :It preciso, contudo, saber distinguir entre as influen- cias. Umas sao muito circunscritas e fortes, outras tern~~~---"'-~--~--~- uma ~~3:~n:1,ll&>,~I!!.ela.Os seus efeitos poderiam, por- tanto, manifestar-se nos tra~os dura veis e essenciais duma ra~a ou nos de grupos fundamentalmente homo- geneos, se a compara~ao nao fosse suficientemente ext en- siva no tempo e no espa~o, ou se nao tirasse proveito dos casos de varia~ao acid ental para fazer urn exame rigorosamente diferencial das suas condig6es. Noutros dominios, a transforma~iio das circunstancias e muito mais rapida, muito mais variada. Entre gerag6es ou entre grupos relativamente proximos, par vezes me~mo entre individuos, as variag6es podem ser sensiveis. E pre- ciso ter isso em conta para nao concluir, sem justo motivo, por superioridades ou inferioridades funda- mentais. o !renotino ,node sP.r, Q0nsideradq ,como 0 interme-~ 1'_/..-"-7/ v:..__..,j~r"- '.:;:::t . './ ~.-....J'-- diario,' urn pouco variavel alias conforme as filia~6es -;-~ cruzamentos, ~8tJ::e~. ~~ptcte~e.._~!E~ Nele estaria inscrita a historia da especie, de que a historia do individuo nao faria senao reproduzir os tragos essenciais. Tal e pelo menos a teoria daqueles para quem a onto- genese e uma repeti~ao da filogenese. Nasceu esta teoria das semelhan~as morfologicas que apresentariam as
  27. 27. etapas da vida embrionaria com as form as anima is, cuja sucessao marca a via seguida pela evolu~ao nas especies. ~guns psicologos j..!:1lgaram.IfOdec..E:Q.!.0~ ~o_d~~~nvgl~t~!.Ltg_.gQ_tl}.c!ividuoIlas suas rela~5es com a-evolu~ao das civiliza~oes humana~~--e~plicando~lm ~e~ellia'r;~a~ 'qu~-;e;bser;~Gm: nas idades suces- sivas da crian~a, entre as formas do seu comportamento e a sequencia das praticas ou das cren~as pelas quais passaram as sociedades humanas. Seriam uma reminiscencia das idades desaparecidas alguns jogos guerreiros da crian~a, por exemplo a sua inven~ao ou antes a sua reinven~ao do area e das fle- chas. E do mesmo modo aquilo a que se chamou a sua (mentalidade magka, isto e." a sua crens;a no po:der da.-J -- ------~;/ .' . '. '--,._._< "1 yontadE:)sg"b}:e,as c9j.~~se os acontecimentos, qyer (:!~r~c- i tamente quer sobretudo por intermectio de simull'!-<;.r:~s ou de formulas. A esta revivescencia de pensamentos ancestrais deu Freud grande importancia na sua psioa.pali-se. Os jogos imaginativos, os contos em que Se compraz a crian~a, os sonhos do adulto, algumas das suas criaQoes esteticas, seriam 1,!!!U:,~~~~!Ys~ sob a qual se expri- ,~i~m ~!!1ais .an1Jgas._~j.Yi1!~a~~ e que utilizariam os desejos reprovados pela nossa pana se manifestarem, (ainda que disfar~adamente. Situa<;aes que pertenciam as pri~.)ir~~ 12.~??~~"r?ahumanidade e .,q__u_e_a_m~o,_r_a_l~d_05_ ! povos' nao deixou de combater poderiam assim sobre- ! "lver' e'm cada indfviduo. - " No seu terreno de origem, 0 da embiogenese, a assi- mila<;ao da ontogenese e da filogenese suscitou objec<;aes. Ela nao e, alias, urn argumento necessario para justi- ficar 0 transformismo. Por que razao as mudangas que acompanham a passagem de lima especie a outra nao atingem igualmente as etapas do crescimento e os carac- teres do animal adulto? Como nao seria a recapitula~ao do passado de certo modo escamoteada pela necessidade bem mais urgente de realizar 0 novo tipo de organiza<;ao? Pelo menos 0 problema tern aqui dados precisos: a com- para<;ao de formas entre si e a ordem pela qual se sucedem. No plano da psicogenese, pelo contrario, 0 parale- lismo ontofilogenetico !}.iioso se encontra privado de ?riterios objectivos ~omo comporta inverosimilh~ncesl p'o~cY,~ ~superaveis. Se as etapas da vida mental na cnan~a r;;1~C,.CL tivessem por pro,totipo e por condi<;iio as ~ap'as <ia 1'£<-'](; (, civiliza<;iio humaBa, a relaQao entre os termos que se ~rrespandem nas duas series nao poderia ser senao If"( Jal4r uma estrutura material cuja posiQao no desenvolvimento r.).<10 1 :'-4 quer do individuo quer da especie seria estritamente 7;,:(1: determinada. Entre individuos nertencpnt<>.oa~I ~~~,~ ;;Y~"';,'~IrPnte" rle civili7.a~ao 0 intervalo seria igual ao numero~)1,,~-)1 ~~~ , • .J'1VJ,- de gera<;oes nec6Ssarias para que se sucedesse a serle de estruturas intermedias, isto e, urn intervalo intrans- ponivel, nao so para os proprios mas tambem para uma por<;ao mais ou menos larga da sua posteridade. Ora a experiencia tern mostrado que, se 0 desacordo pode ser irredutivel entre dois adultos ja formados, em crian- Qas suficientemente jovens, pelo contrario, 0 meio em que elas foram educadas enxerta a civilizaQiio corres- pondente. -C~ diferenga das form as embriogenicas, que SaG objecto de observa<;ao, a existencia de estruturas .9.!:!.e7 <:orresponderiam ,aos sistemas ide~logico~ e, por outro r lad~)n..dmstrayel, ou melhor, Imposslvel. Todas as constata<;oes da psicologia contemporanea provam que o funeionamento da actividade mental tornar-se-ia incon- cebivel Se fosse nec~sario decompor as suas opera<;oes em elementos em que cada urn deles tivesse par sede e por orgao urn elemento ou uma combina<;iio de ele- mentos organicos. Deste facto, a linguagem fornece urn exemplo que tern side particularmente estudado. Incontestavelmente, ela so e passive I pela existencia de centros especiali- zados - e alias muito amplos, isto e, implicando activi- dades de nivel muito diferente - que fizeram a sua apa- ri<;ao na especie humana. Mas a linguagem nao esta de
  28. 28. ~no.s_1mport~nte~'<!es~s, t~?}~as n~J'~ ~~ tecnicas intelectuais, que investem a crian~a logo de- ~ ~-===- ..•••••.- - _.. -- infcio e sobretudo por tntermedio da gnguagem, mas somente na medida do emprego que dela sabe fazer. Esta aprendlzagem nao termina antes dos ultimos anos da infancia e pode ser desenvolvida a niveis muito diver- sos. Mas tambem entre as linguagens ha niveis. Segundo o estado das civiliza~oes correspondentes, elas sac ins- trumentos intelectuais mais ou menos elaborados. Desta elabora~ao, 0 trabalho dos pensadores da-nos, alias, urn exemplo explicito ao longo da hist6ria. Para as palavr~s I e ara as no~oes d ue ~ende a ~sa compreen~ao( ;ll/f· ' 9_uo.tidiIDllL d~M~n~9' ~~ntos _esf.2!5QL-<k_~O, ~':';:,", em Descartes Anstoteles e Platao! De urn para outro ,.1,d,,,',. ~-- ..,--parece-nos caminhar para 0 menos compreensivel e, pOl' vezes com Platao, ate ao limite do incompreensivel: nao descobre ja algumas vistas no longinquo horizonte do que Levy-Bruhl chama a mentalidade pre-16gica? Mas esta elabora~ao, que e deliberada nos filosofos de outrora e nos sabios de hoje, opera-se tambem na consciencia comum e na linguagem usual, sob a pressao dos costu- mes ou dos objectos que pertencem ao regime de vida e as tecnicas da epoca. Entre a crian~a e 0 primitivo e nitida a distin~ao. Urn encontra-se em presen~a de tecnicas que nao sabe ainda utilizar; ao outro faltam essas tecnicas. A compa- ra~ao de urn e de outro e sem duvida util, nao porque nos fa~a encontrar na crian~a urn estadio do passado mas porque !!2.s permite separar, no exercicio do pensa- :rn~ntp,a parte que pertence aos instrumentos e as teg- nicas da inteligencia. Assim evitamos correr 0 risco 'd-~--;;nsiderar uma crian~a de 12 anos mais inteligente que Platao ou, pelo menos, que urn primitivo eminente no seu cIa, e de confundir 0 nivel da 16gica com 0 poder do pensamento, Deve ainda acrescentar-se que, mesmo reduzida a estes term os, ~,aproxima~ao deixa subsistir urn imensa distincia ent~, cujo pensamen~, 'privado de uadros, esta su 'eito as ulsoes da e "- ~, ~, 9-u~t~onduzido pelo sis~a rigid9 £o~~ __~~~~ ~en,t~i~ r e .:9~/~~~~~E..~~· J/ 1/J.'Q<'>"y(/V .Q ()' - /:Jv n(t!..e => :pI)- modo algum preformada nestes centros. E do meio que depende 0 sistema linguistico cujo uso acrian~a adquire. Este sistema pode, alias, nao ser unico, e, quando no mesmo individuo se dooenvolvem varios, as suas rela~oes podem ser psicologicamente muito diferentes: equiva- lencia exacta, ou referencia de todos a urn de entre eles, que sera entao 0 unico a possuir uma liga~ao imediata com as inten~oes e 0 pensamento. Enfim, forElt!las multo semelhantes podem servir_~~~_xere~§aQ~_?-ctLYi,®g~si- qui cas de nivel muito diverso, conforme as circunstan- cias, 'a:s--d(sposi~Oes-oua:s--possibilidades mentais do sujeito e tambem conforme a idade da. crian~a. ) ~~~:s..a~_,~~~~ ..~~, senao l sempre no presente, pelo menos pelos seus meios e pelo seu conteudo, das circunstancias exteriores, c;1umll-_§i~ ~ao, do meio. Opor-se-ia assim a uma exact a assimila~ao ~-/ :" !~ do desenvolvimento psiquico com 0 desenvolvimento em- , ;,!;", ,brionario que, pelo contrario, se processa secretamente sob a influencia exclusiva de factores organicos. A semelhan~a que se pode constatar entre certas atitudes ou opera~oes mentais das crian~as e as daque- las a quem genericamente se deu 0 nome de primitivos, 'par~~~_~xplicavel atra,,:es de uma semelhan~a, muito rela- tiva alias, de sit~~o. 0 meio prove a nossa actividade de instrumentos e de tecnicas, que estao tao intimamente unidas as praticas e as necessidades da nossa vida quo- tidiana, que muitas vezes nem nos damos conta da sua existencia. Mas a crian~a nao aprende a dispor delas senao progressivamente. ~ma..da.s.~~s /.:'" ,,,J sucessivas _~ncon~!.'!.~se>por conseguinte, na situa~ao A:_('::~~'" daquefas"'para quem estas tecnicas nao eXistiriam ainda,. ••••••'flG'~~ -- ":',1,, .~.' 1';,. como e 0 caso, em graus diversos, dos pretensos pri- ,I•. ;,1Il mitivos. (('·i_l; "',,.
  29. 29. Ainda que 0 desenvolvimento psiquico da crianga pressuponha uma especie de implicagao mutua entre fac- tores intern os e externos, e contudo possivel distinguir para cada urn a sua parte respectiva. Aos primeiros e atribuida a ordem rigorosa das suas fases, de que o crescimento dos orgaos e a condigao fundamental. Na diferenciagao que faz nascer do ovo, onde estao em potencia, mas invisiveis, as estruturas do futuro orga- nismo, corpos de constituiQao quimica relativamente sim- ples parecem desempenhar urn papel decisivo de esti- mulante e de regulador. Sao as hormonas, secrec:;ao das glandulas endocrinas. Dotadas cada uma duma especifi- cidade rigorosa, ainda que muitas vezes em relac:;ao de dependencia reciproca, tern sob 0 seu controlo 0 apare- cimento e 0 desenvolvimento de cada especie de tecidos. o encadeamento das suas intervenc:;oes corresponde, com a mais exacta precisao, as necessidades de crescimento e, como ao seu papel morfologico se junta uma acc:;ao igualmente electiva sobre as func:;oes fisiologicas e psi- quicas, Von Monakow via nelas como que urn substracto material dos instintos. Na realidade, parecem exercer uma influencia con- sideravel sobre as correlac:;6es somato-psiquicas. It, pOl' exemplo, a secrec:;aodas gl8.ndulas intersticiais incluidas nos orgaos genitais que esta na origem das mudanc:;as ns!~?-s_e psiquicas conhecidas sob o~e de puberdade. A preponderancia de umas ou de outras atribuem-se aquelas diferenc:;as de conformac:;ao flsica e de tempera- men to psicofisiologico que hoje muitos se aplicam a !f ~~.~~_~_~~s, a fim de sobre eles fundarem 0 estudo do caracter e 0 de divers as perturbac:;6es mentais. Tais estudos poderiam tel' urn duplo interesse na crianc:;a: em primeiro lugar, identificar durante 0 seu desenvolvimento as sinais anunciadores, as particula- rigades nascentes e talvez, em parte, as causas do tipo que se realizara m3.is tarde; e averiguar tambem se as etapas do seu crescimento, que acarretam variac:;6es consideraveis nas proporc:;6es relativas da cabec:;a, do tronco, dos membros, das suas partes e dos seus seg- mentos, nao aparentariam sucessivamente a crianc:;a a ,diferentes biotipos, aos quais corresponderia a diversi- dade dos seus sucessivos comportamentos. Entre 0 crescimento dos membros ea sua actividade caracteristica existe em todo 0 caso uma relac:;ao. Mas pode ser de sentido oposto. Uma vezes e positiva, isto e, aumentam simultamente as dimens6es e a habilidade duma regiao, pOl' exemplo, da raiz ou da extremidade de um membro. E isto deve explicar-se pOl' uma solida- riedade trofica entre os orgaos perifericos e centrais de uma mesma func:;ao: aparelho articular e musculos pOl' um lado, centros nervosos pOl' outro. Outras vezes, pelo contnirio, uma imperfeic:;ao mais ou menos duradoira acompanha urn aumento rapido das dimens6es. Urn exem- plo bem conhecido e a mudanc:;ade voz na altura da puber- dade: os sons tornam-se bitonais e discordantes, porque os automatismos adquiridos perdem-se momentanea- mente em virtude das mudanc:;as do orgao. No primeiro caso, tratava-se duma aptidao bruta, elemental' e como que em potencia; no segundo, de ope- rac:;6es complexas, ja constituidas em sistema, desorga- nizadas pOl' uma transformac:;ao do seu instrumento. A oposic:;aodestes dois efeitos explica-se pela diferenc:;a do seu nivel funcional. Quando se trata de actividades mais especificamente psiquicas e sem concomitantes organicos visiveis, a. rela- c:;aodos facto res internos e externos deu lugar a maiores discuss6es. A explicac:;ao espontanea consiste em ordenar entre si os factas imediatamente perceptiveis e a ordem da sua sucessao torna-se causalidade. Sao as reacc:;6es de que ja e capaz 0 lactante, que se julga constituirem o material donde sairao, pol' combinac:;6es e adaptac:;6es sucessiva.s, as elaborac:;6es ulteriores da vida mental. Acontece, porem, muitas vezes, que este material e mais decalcado sobre as necessidades da explicac:;ao do que
  30. 30. sobre uma exacta observa~ao dos factos. Assim, no tempo em que 0 edificio psiquico parecia cada vez mais redutivel a sensa~oes, a questao da diferen~a, ainda que correcta, da crian~a e do adulto nem sequer se punha. Agora que uma r3P~~ 9~yida ~~l se tornou corrente, ~~~ substi- tuiram as 6ensa~oes, mas sac sempre utilizados como unidad~sq!:1~.J).~~~~~q~l'.§1:~~~,,-~ /,~t~I!~S,,-Sl~,_~vg!llsa,o~~g~l£;!.Lquando na realidade inte- ~i ~",cJA, gra~oes progressivas mudam nao so a ~I J.,>./'> . . t,; e 0_~gt~~~~ das ,manifestagoes motor.a,s, mas tambem as ~1J-a,s.s-?ne~-, e a s~~~_- t.~~<?J!D~$lIl-,,~!k~,It' 'I Esta integraQao e a condicao, mas nao pode s~~ II con~uencia da evolu~ii-;Psico!!~gJ.2r:.a.Poe-se aqui 0 pro- , ~a das r~~~s~~ilfri~a~JP~~~~ ~. Sem duvida, imputar sistematicamente a ma- ~;!.Jl'~'O:_>"'!tura~ao de orgaos corresponden.te. s ca'~~ progresso cons- l ", tatado, 6eria apenas ~rma modlflcada da~elhas . explica0es que se contentavam~mJ.e~onguzir~ eieiio ~ ~ma entidade decalcada sobre 0 mesmo. Porem, ~i-;-p~'io-ri, --;;mo recentemente --ofez Piaget no seu livro f!!:.-!!. ai.~f!32:.(;g_.d.e ..rint~Li9J}_'Jl9}_9h?E~f!!!!:!.) 5' >r'~':'::_b o~@l.e_nto ..de. _a.c_tly'i~.,:~t~s_ll()yas na evoln<.;ao psi- J. ,iV, quica, cuja origem necessaria reside no despertar fun- ,.~, cional de estruturas organicas chegadas a maturidade, ;",(.:::~.).leva-o a confundir uma simples descri~ao, alias rica, . penetrante e engenhosa, com as condi~oes profundas da vida mental. Quem fala de maturac;ao funcional deve incontest a- velmente demonstrar a sua existencia. Foi ao que se dedicaram ja varios autores. Fizeram-se experiencia6 tanto com animais jovens como com crian~as. Os resul- tados sac semelhantes. Entre dois grupos de sujeitos, /1)uns dos quais foram postos eIrLCQ1!diQoesde se exer- citarem e (6J~rosEriva~cl~ga-.possibilida,de, a dife- -renc;a de resuitado;'desaparece rapidamente, assim que se atinge ~1~ ~'V'~~9_~ que cessa a ~ 1":,1'>'( ',i 1,1"" ~a~~ 0 nivel funcional atingido pelos primelros ao fim de algumas semanas, alcanc;am-no os segundos em alguns dias, prova de que a idade faz mais ~ ~.}hl/""1(.) Em vez de grupos suficientemente numerosos para que a diversidade das aptidoes individuais tivesse pos- sibilidades de ser compensada, Gesell pode compara I' dois gemeos homozigoticos, isto e, dois seres cuja seme- lhanc;a e tao completa quanto possivel: urn foi treinado j1Uv~ a subir uma escada desde a idade de 46 semanas e 0 cu/Uu~~ ,J;8"~ outro apenas quando tinha 53; em duas semanas 0 se- :::~...1.i/ gundo alcanGou 0 irmao. Os actos estudados tern side CV'.,@," sempre, bem entell'dido, actos naturais, como procurar alimento, andar, agarrar, falar,?c.%i.e-c~.~,~~~o, ~.59~: tant ara todo 0 individuo norma~ ~ Para que eles se produzam, sac evidentemente necessarios estimulantes e circunstancias apropriadas, mas a sua utilizacao s6 se torna verdadeiramente efica z ~. alt~r~m que as condic;oes b~logicas da funca.o ~hegam a maturaGao .. Quando a aquisic;ao diz respeito a actividade6 mais artificiais, quer dizer, que so em circunstancias excep- cionais aparecem ao longo do desenvolvimento, a impor- tancia da aprendizagem torna-se essencial, embora nao sejam menos necessarias condi~oes funcionais adequadas. E, alias, uma lei geral que os efeitos, dos quais nem a forma, nem 0 grau, nem a cronologia podem ser sen- sivelmente modificados pelo exercicio, sac reacc;oes pri- mitivas, reacc;oes que pertencem ao equipamento psico- biologico da especie e cuja condic;ao dominante e a matu- rac;ao funcional. Pelo contrario, 0 que 0 exercicio pock gesenvolver ou diversificar ~ende de actiyjdades com- binadas e~se traduzem os 4or~._iMi.Y..~'!-.!~AL~_ adapta'Q[o, iniciati'{a., ~ j.n~!J.c;aQ.. /', ','/v·_·· ·"-;'"·.,.·, ·_-..-.-.,~--~ - -' ' "I'''' Na especie humana, 0 adulto dispoe de actividades que 'lhe permitem subtrair-se as pressoes do ambiente
  31. 31. I' -,1,,11'; imediato. As circunstancias externas p~d~._~l?.QI. urn mundo de motivos que descobre em si mesmo, qualquer ~ue seja a sua origem, e que sac como que o~ ,~~. It preciso, por conseguinte, supor a partida urn equipamento psicobiologico muito mais complexo que 0 que possuem as outras especies. Pelo contrario, a crian~a permanece durante muito mais '--<::'~;"'1' tempo desarmada face as necessidades mais elementa- res da vida, e as ocasioes de aprendizagem que deve encontrar no meio externo tern, entao, uma importancia decisiva. Existe, assim, uma relacao inversa entre a d- 9.ue~~. do equipamento e 0 acabamento das suas partes. Quanto maior e 0 numero das possibilidades, maior e a sua indetermina~ao e maior a margem dos progressos. Uma fun~ao que nao tern que procurar a sua formula nao sabe igualmente adaptar-se a diversas circunstancias. 9 t.<t"i~ I 0 facto de a nascen~a urn ser nao poder subsistir C;,',»,o, por si proprio, pOl' falta de uma suficiente matura~ao t' ''''''':.;''-"dos seus orgaos, e considerado urn caso de prematura~ao. ,rt.t-Y.-~~ - Nenhum exemplo e mais evidente que 0 do canguru, cujo filhote deixa 0 utero da mae para se reintegrar no seu saco marsupial, onde esperara poder, enfim, supor- tar os rudes contactos do mundo exterior. A prematu- ra~ao e normal em varias especies de mamiferos. A sua precocidade parece aumentar ao mesmo tempo que se rJ .t",,,,,.,,' eleva 0 nivel evolutivo da especie. Atinge de longe 0 seu o "''''') Oc-' ~au mais elevado no homem e acompanha-se duma ("t "",·t£r". invernao na ordem dos meios ao seu alcance, a qual prepara a orienta~ao completamente nova da sua exis- tencia. Enquanto 0 jovem animal, a custo por vezes de exem- plos e de provocagaes maternas, ajusta directamente as suas reac~aes as situagaes do mundo fisico, a crianga pennanece meses e anos sem nada poder satisfazer dos seus desejos senao pOl' intermedio de outrem. 0 seu unico mstrumento vai oo.rtanto ser o..-que a pae ~m relac;ao _~ aqueles que a rodeiam 'sto e, ~- ~es q~ ~~y's~it~Il},~osAo~tros comP9rt~ID;eI!:to~s_~_~Ej.- tOSQs"para ela e a~es dos outros que anunciam e~to~ 0 .rta~entos~'~~ Desde as prlmelras semana6 e desde os primeiros dias, constituem-se encadeamentos{ donde surgirao as baBes das relaGoes interindividuais. AM~nsoe~j~.~xI?E~~~ J2!.t.~~~~0~ Antecipando a lin- . guagem propriamente dita, sao elas que primeiramente marc am 0 homem, animal essencialmente social. //../-A-"' ~~ / /
  32. 32. ·{YJ;-~ ~ () oJ-8 " /)Uk'J -c/~ ~c;.ft ~ d.z. i(,V~p')~~(y t .;.""'/J tA.cov I' II"'>"':?, <;',1P'r'~ ~'1- uu"s>->d ru :t;,~'1 ~""j;/? d"7'CVJ .RI (,)U -V"1.-~'- rJoJn, (vJ;w. 11 i yvv, (.$' ,fw,':)"Y 0/1 U1v' [lrc1il/) tvYl~r?~pv;'/&~ .J C<g 1'.1vJt:rJ:te-()./'i,~ (~ tt r/.;. "t{r.;.,.. ~ rJ.J: ) Entre os tra~os psicofisio16gicos que marcam cada'i etapa do seu desenvolvimento, ha 0 K-Emerode actiyidade., Q. que se en~ga a" crian~a, e que, por sua vez, se torna (" urn factor da sua evolu~ao mental. Por que meios? E1es sac diversos e variam com os sistemas de comportamento que entram em jogo, com os estimulantes, os interesses, as fun~oes, as alternativas que se manifes-tam. Ao tipo mais geral, mais elementar, corresponde 0 que pode ser classificado nas rela~oes entre 0 ~ o que motiva urn acto pode ser de especie ou de nivel variavel. 0 acto mais elementar nao teria ainda motivo psiquico. Nao teria outra razao para se vroduzir~ ~nao Q facto de ser a actividade dos 6rgiios corre~ J .EQ!ldentes. Seria uma daquelas manifesta~Oes funcionais por s.i mesmas, sobre cuja frequencia na primeira idade insistiu a Sr." ChI BUhler. E sem duvida dificil afirmar com todo 0 rigor que urn acto ou mesmo u~ simples movimento na tern concomitancia psigui a~~~it~::-~~V>l'IJ'( ~·'ti'Vti igualmente com frequencia que 0 gesto funcional e ~ panhado de urn certo ~, 0 que estaria ligado ao exer- cicio da fU!l~ao. Mas esta no~ao nao e tao simples como a primeira vista podera parecer. Nao ha prazer sem
  33. 33. i" I , e.u)t' ~,.. I,,-~ .§em uma rela~ao exacta entre cada sistema de COni)(I.••./~~.J .t~.sculares e as impreoooes correspondentes, /"1'':r.;~ o movimento naD pade entrar na vida psiquica nem cork (. JxlQ.uir para 0 seu desenvolvimento. Em que momento se ~ deve situar esta rela~ao? as que reconheceram a sua .,,0 l·(A~ necessidade procuram atribuir-lhe urn principio muito /j ~,/Y"'" precoce. ~ preciso, porem, distinguir dois dominios: 0 do propriocorpo e 0 das suas rela~oes com 0 mundo exte- rior. A sensibilidade do proprio corpo e a que Sherring- ton chamou ~l V5:lroposicao a s~e ~, que esta voltada para 0 exterior e que tern por orgaos os sentidos. A cada uma das duas cor- respondem formas de actividade muscular distintas, ainda que estreitamente conjugadas. A sensibilidade proprioceptiva esta ligada as ~- goes de equilibrJo'3 as atitudes que tern por objecto a contraccao tonica dos musculos. Entre 0 tonus mus- cular e as sensibilidades correspondentes parece existir uma especie de uniao e reciprocidade imediatas: a loca- liza~ao, a propaga~ao dos seus efeitos, sap estritamente sobreponiveis, e os espasmos, que sap 0 seu aspecto paro- xistico, mostram como a contracgao muscular e a sen- sa~ao parecem sustentar-se mutuamente. ~o como que !I _~~_tr~itamente coaderentes. ~~~~..~ont!:.ario, a ~I!!Pressao exteroceptiva e 0 movi- mento que the corresponde situam-se nas duas extre- midades dum circuito mais ou men os vasto. Entre 0 olho ~~~~~~~~( nenhuma semelhan a e or -os. Entre a impressao visual C as contrac~6es musculares existem sistemas complexos de conexoes nervosas. Sao necessarios longos meses para que a crianga deles possa dispor. ~~ dos centros Le)a~ vao-se completando de etapa para etapa. Mas como se opera, em cada uma, a. relagao entre a sensibilidade e 0 movimento? Sob 0 nome de reucQiio circular, Baldwin procura mostrar que esta liga~ao e fundamental. Nao ha sensa~ao ( u~speeie de consciencia, Q.~que seria, portanto, neces- 1. ~rio determinar 0 grau e a natureza. No enta~to.' <;p-~~~persegui90~~ "; parecem eXist.!r .QE. que pertencem aos efeitos dinamo- "1(j-:'i:' eJ~ 1g~nic,?.§do ~_ofrirpen!gou do bem-estar~t~a ~~ t> , com 0 sono constitui 0 comportamento manifesto dor~ {J..f' ,_,1'1 l. ,0 to< ,"" recem-nascido. Nao poderiam, alias, estar dissociadQs <.I-' ~os es!~~C?~~e£tivos g~~hes G.9rrespo~, como seria uma expressao do que a mesma exprime. Estao-lhe liga- dos pol' uma especie de ~a e~ ~~~~-~~..8P~s. ~as njo parecem ser ainda 0 que se pode iglag1t111rde. funcional- mente mais primitivo. ·Uma compara~ao pode demons- tra,-lo. m costume observarem-se, durante as primeiras sema- nas, movimentos que pela sua intermitencia e dispersao esponldica atraves dos grupos musculares sac equipa- rados as sacudidelas da coreia (~). Parecem, com efeito, manifestar-se poruma simples liberta~ao de energia em fragment os dissociados do apa- relho motor: sinergias ainda fragmentadas no lactante e que recaem em peda~os na coreia. As sensag6es cines- tesicas que lhes podem corresponder surgem e desapare- cern, dando apenas ao sujeito uma impressao de impo- tencia e de enervamento. Sem ligagao nem possibilidade de liga ao entre si, situando-se fora de qJ,llilquer inten- gao, incluindo a uela -lrltenGaQ..J)rganica que-.La atitude :em._q,ue se-prefonIU,LQ.mQ~.!me.nto, nem seguer podem ~eixar vestfgios po~~ na9-hL'leSiigi.os...s~ gao, sem urn ponto de parti.Qa.Ql!~lo menos.,..sem o.JrJcio de cert~s- ~n~xo~~ Se escapam as determinag6es da sensibilidade, nao e, pois, apenas porque esta e estranha a sua incita~ao, mas sim porque nao podem inserir nela nada de precise ou de definivel. ( *) Sind rom a caracterizado por uma agitat;ao involuntaria e desordenada. (N. T.)

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