Gigante adamastor

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Gigante adamastor

  1. 1. Canto V – Gigante Adamastor Plano narrativo: Viagem Narrador: Vasco da Gama Vasco da gama conta, agora, a viagem da sua armada, de Lisboa a Melinde. Dos vários obstáculos que os marinheiros tiveram de ultrapassar, destaca-se o Gigante Adamastor, que correspondia ao Cabo das Tormentas, mais tarde chamado Cabo da Boa Esperança. O episódio é narrado por Vasco da Gama ao rei de Melinde na 1.ª pessoa. Passaram-se cinco dias de navegação calma quando, de repente, numa noite,uma nuvem escura nos aparece. Vinha tão carregada, que ficámos cheios de medo.Tanto, que pedi ajuda a Deus. Mal começara a rezar, quando se nos apresenta anossos olhos uma figura enorme, gigantesca e horrenda. Tinha o rosto carregado, abarba esquálida, os olhos encovados, a cor terrena e pálida; toda a postura eramedonha e má. Tinha os cabelos cheios de terra e crespos; os dentes eram amarelos ea boca negra. Além disso, falou-nos em tom de voz horrendo e grosso/que pareceu sairdo mar profundo. Por isso ficámos, eu e todos, arrepiados. E disse em tom irado: - Ó gente ousada, já que, ultrapassando os limites proibidos, ousas navegar nosmeus mares, que nunca foram sulcados por nenhum humano, e vens ver os segredosescondidos da natureza e do mar, o que é vedado aos humanos, ouve os castigos quereservo para o vosso atrevimento. Sabe que, daqui para a frente, todas as naus quefizerem esta viagem me terão como inimigo e eu farei com que haja naufrágios,perdições de toda a sorte/que o menor mal de todos seja a morte. 1
  2. 2. Será o caso da primeiraarmada que por aqui passar depoisda vossa frota (a armada de PedroÁlvares Cabral). Hei de vingar-mede Bartolomeu Dias, que foi quemprimeiro me descobriu, fazendo-onaufragar aqui mesmo. O mesmovai suceder a Dom Francisco deAlmeida, primeiro vice-rei da Índia,que aqui morrerá, no seu regresso à pátria. E será o caso de Manuel de SousaSepúlveda, que naufragará por estes sítios, com sua mulher amantíssima e com osfilhos. Antes de morrerem abraçados, verão morrer com grande sofrimento os seusfilhos, gerados de tanto amor, e serão sujeitos a maus-tratos pelos negros indígenas. Mais ia a dizer o monstro horrendo, quando, de pé, o interpelei, perguntando,sem mostrar receio: - Quem és tu? Que esse estupendo corpo, certo me tem maravilhado! E então algo de estranho se passou. Dando um espantoso e grande brado,respondeu-me, com voz amarga, como se a pergunta o tivesse magoado: - Eu sou o Cabo que vós chamais de Tormentório ou das Tormentas,desconhecido dos grandes geógrafos antigos. Aqui termino toda a costa africana. Fuium dos Gigantes que defrontaram os deuses do Olimpo, em guerra sangrenta. O meunome é Adamastor, andei na luta contra o meu deus, Júpiter, e depois tornei-mecapitão do mar. No entanto, apaixonei-me por Tétis, a princesa das águas, e por eladesprezei todas as restantes deusas. Aconteceu um dia em que a vi nua na praia,acompanhada das Nereidas. A partir daí senti-me irremediavelmente preso. Tendoconsciência de que seria difícil alcançá-la, dado que sou muito feio, decidi tomá-la pelaforça das armas e fiz saber isto a Dóris, sua mãe, para que ela pudesse convencê-la aaceitar-me. Dóris foi então falar com ela e ela respondeu-lhe: - Qual será o amorbastante de ninfa, que sustente o de um Gigante? No entanto, eu vou encontrar umamaneira de evitar a guerra, sem ficar prejudicada ou desonrada. Fiquei convencido e, ingenuamente, desisti da guerra. Numa noite, prometidapor Dóris, aparece-me o gesto lindo da branca Tétis, única, despida. Corro como loucopara ela, procurando abraçar aquela que era vida deste corpo e beijando-lhe as faces eos cabelos. 2
  3. 3. Mas, eu nem sei como contá-lo, achei-me abraçado, não à minha amada, mas aum duro monte, frente a um penedo, e eu próprio transformado em penedo! - Ó Ninfa, a mais formosa do Oceano,/já que minha presença não te agrada,/quete custava ter-me neste engano,/ou fosse monte, nuvem, sonho, ou nada? Por esta altura já todos osmeusirmãostinham sido vencidos e transformadosemmontes e também eu comecei a sentir que me transformava neste Cabo. Mas o que mais me dói ainda é que, por mais dobradas mágoas, /me anda Tétiscercando destas águas. Assim contava o Gigante e, chorando, afastou-se de nós. Eu então fiz uma precea Deus, pedindo-lhe que as profecias do Adamastor se não viessem a verificar.Síntese da 1.ª parte (est. 37 - 38) Vasco da Gama narra ao rei deMelinde que, depois de ver uma nuvemescura e carregada de tal forma quecausava terror, perguntara a Deus queameaça ou que segredo seria aquele.Síntese da 2.ª parte (est. 39 - 41) Não tinha terminado as suasexclamações, quando já uma figuragigantesca se erguia. O aspeto eramedonho e temível, era tão gigantescoque poderia ser um segundo colosso deRodes, uma das sete maravilhas do mundo.Os navegadores arrepiaram-se de medo sóde o ouvir e ver.Síntese da 3.ª parte (est. 41 - 48) O Adamastor inicia o seu discurso dirigido aos navegadores portugueses.Começa por designar os portugueses de “gente ousada”, mais audaz do que qualqueroutro povo. 3
  4. 4. O Adamastor ameaça ter preparado grandes males para castigar o atrevimentodos portugueses e afirma que todas as naus que ali chegarem serão castigadas. Ogigante refere que irá vingar-se do primeiro que o descobriu - Bartolomeu Dias - masque não ficará por aí, que todos os anos causará naufrágios, perdições de toda aespécie de forma que o menor mal será ainda o da morte. Adamastor continua a profetizar,mencionando que D. Francisco deAlmeida morrerá e o seu corpo jazerá noseu espaço territorial, que Manuel deSousa Sepúlveda e sua famíliasobreviverão a um naufrágio parasofrerem até à morte em terra maus-tratos dos indígenas.Síntese da 4.ª parte (est. 49)O Adamastor continua a vaticinar o destino dos navegadores, quando Vasco da Gamao interrompe e lhe pergunta quem é. Ele retorceu os olhos, deu um espantoso brado como se a pergunta lhe tivessedoído, e respondeu.Síntese da 5.ª parte (est. 50 - 59) O Adamastor responde ao Gama que é aquele oculto e grande cabo a quemchamam das Tormentas e que se sente muito ofendido com a ousadia dosportugueses. Ele conta que foi filho da Terra como outros gigantes revoltados, andou naguerra contra Júpiter e contra Neptunoe que foi o seu amor por Tétis, esposa de Peleu,que o levou a ser quem é. Como era muito feio, resolveu conquistar Tétis à força e expor o assunto à mãedela - Dóris. Com medo, Dóris transmite a mensagem à sua filha que manda respondera Adamastor que o amor de uma ninfa não satisfará o de um gigante mas, para evitar aguerra e respeitando a sua honra, irá arranjar forma de evitar danos. Assim,Adamastor, cego de amor, fica cheio de esperanças. Certa noite, Adamastor foi ao encontro de Tétis, como tinha sido prometido porela e, ao ver o seu vulto, corre como louco e beija-a. Na realidade, não era Tétis mas 4
  5. 5. um duro monte. Ele próprio se sentiu pedra. Cheio de vergonha e desgosto, fugiu embusca de um lugar onde ninguém o conhecesse.Seus irmãos gigantes, filhos da Terra, já tinham sido vencidos e sepultados em váriosmontes e, como contra a vontade divina, os homens nada podem, Adamastor começoua sentir o castigo pelos seus atrevimentos, transformando-se no cabo das Tormentas,rodeado por Tétis nas águas.Síntese da 6.ª parte (est. 60) E, dizendo isto, com um medonho choro o Adamastor desapareceu diantedos olhos dos marinheiros. Desfez-se a nuvem negra e o mar soou lá longe. Vasco daGama pediu a Deus que removesse as trágicas profecias do Adamastor. O Discurso do Adamastor Na primeira parte do seu discurso (est.41 a 48) o Adamastor apresenta-se comosenhor do mar desconhecido (meus longos mares), ameaçando os portugueses, quequeriam devassar os seus domínios secretos, e profetizando paraeles castigos futuros.Surge, portanto, como um super-homem, quer no aspeto físico (focado atrás nacaracterização direta feita pelo narrador) quer no aspeto psicológico, conhecendo opassado dos portugueses e profetizando os seus desastres futuros. Na segunda parte do seu discurso (est. 49 a 59), o Adamastor, começandoembora por referir a sua força física de super-homem, identificando-se o caboTormentório, ufanando-se da sua intervenção numa guerra entre deuses, sendo contrao próprio Júpiter e conseguindo o domínio dos mares logo que se abre em confidênciasacerca da sua vida sentimental, revela-se um herói frustrado nos seus amores, iludidoa ponto de julgar que apertava a branca Tétis, quando abraçava um duro monte,castigado pelos deuses de tal maneira que converteram o seu gigantesco corpo nopróprio Cabo Tormentório. À realidade gigantesca do seu corpo de super-homem (1ª parte do discurso)sucede a fragilidade psicológica de um herói enganado e vencido que perde a suaprópria individualidade transformando-se em penedos. 5
  6. 6. Intenção da 1.ª parte do discurso do gigante: A intenção da 1ª parte do discurso do gigante é demover os portugueses daviagem empreendida. O Adamastor começa por reconhecer a valentia dosportugueses, manifestada em muitas guerras, para logo lhes declarar que nunca ossegredos do mar (os vedados términos do húmido elemento) foram a nenhum grandehumano concedidos / de nobre ou de imortal merecimento. Após mostrar assim quenão tinha havido precedentes em tal atrevimento, o gigante começa a agitar os castigosque vibrará sobre os transgressores: inimiga terão esta paragem, / Eu farei deimproviso tal castigo / Que seja mor o dano que o perigo! / Que o menor mal de todosseja a morte! Note-se que os castigos apontados se sucedem em progressãoascendente de grandeza (dos apontados o pior é a morte, mas o poeta sugere outrosmales, não indicados, piores do que a própria morte). Os destinatários destes castigossão primeiramente apontados em abstrato (quantas naus esta viagem fizerem, inimigaterão esta paragem), sucedendo-se os casos concretos de vinganças sobrepersonalidades ilustres portuguesas: a primeira armada que passagem fizer... (aarmada de Pedro Álvares Cabral), o primeiro ilustre (D. Francisco de Almeida), outrotambém virá (Sepúlveda) e consigo a formosa dama (esposa de Sepúlveda).Esta progressão ascendente da gravidade dos castigos a vibrar sobre ostransgressores e esta transição do plano geral para planos particulares (individuais)são processos estilísticos muito adequados a um discurso em que predomina a funçãoapelativa da linguagem, que tinha por fim afastar, pelo medo, os navegantes daquelasparagens. Evolução do comportamento do gigante e de Vasco da Gama Repara que a evolução dos comportamentos é oposta. 6
  7. 7. Simbologia do Episódio Já no meio da viagem, os portugueses encontram-se face a face com o maiordos perigos e dos medos: o gigante Adamastor. “O Adamastor” é um episódio simbólico e representa os perigos e as dificuldadesque se apresentam ao Homem que sente o impulso de conhecer e descobrir. Sósuperando o medo, o Homem poderá vencer (princípio do Humanismo). O Adamastoré, portanto, uma figura mitológica criada por Camões como forma de concentrar todosos perigos e dificuldades a transpor pelos portugueses. Repara que, depois da passagem do cabo pelos portugueses, este passou adesignar-se de Cabo da Boa Esperança. Perpassa neste episódio a mentalidade renascentista: o homem afirma-sevencendo com o vigor físico e intelectual as forças cósmicas que continuamente olimitam. A destruição completa do gigante simboliza o completo domínio dos marespelos portugueses. O Adamastor surge, no fim, como anti-herói, para dar lugar a heróisde carne e osso, a heróis reais, do tamanho do homem. A sequência gradativaverificada no verso «Ou fosse monte, nuvem, sonho, ou nada»: monte é o material, anatureza real que limita o homem; nuvem é material, mas menos palpável; sonho é oimaterial; nada é o zero absoluto, o aniquilamento. O Adamastor, enquanto foi realidade, foi um monte, ele identificou-se com ocabo das Tormentas (eu sou aquele oculto e grande cabo). Este cabo constituía oponto mais difícil de dobrar. À medida que a força do gigante se vai desvanecendo, atéchegar a nada (anti-herói) a vitória dos portugueses (heróis) vai estando mais próxima,até chegarem à Índia. Nota que, quando o gigante desaparece dos olhos dosmarinheiros, o poeta acrescenta: e cum sonoro bramido muito longe o mar soou. Isto é,a figura simbólica (o Adamastor) reduziu-se a zero, mas a coisa simbolizada, o marterrível, estava ainda a bramir. Mas os portugueses, vencedores desse mar, seguiamvitoriosos. O significado simbólico deste episódio foi ainda realçado pelo facto de o poeta oter colocado no centro do canto V que é também o centro dOs Lusíadas. Deste modo,o episódio do Adamastor, em que se associam admiravelmente a realidade (perigos domar) com o maravilhoso (profecias), em que não falta mesmo uma fantasiada históriade lirismo amoroso, em que é simbolizada a vitória do homem sobre os elementoscósmicos adversos, constitui uma espécie de abóbada da grande catedral que é opoema. 7

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