Os estabelecidos e os outsiders

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Os estabelecidos e os outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. – Norbert Elias e John Scotson.

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Os estabelecidos e os outsiders

  1. 1. OS ESTABELECIDOS E OS OUTSIDERS: Sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. – Norbert Elias e John Scotson. Prof. Msc. Araré de Carvalho Júnior
  2. 2. Norbert Elias  Norbert Elias nasceu em Breslau em 1887 e morreu em Amsterdam em 1990. Sociólogo, estudou medicina, filosofia e psicologia nas Universidades de Breslau e Hedelberg. Trabalhou com Karl Mannheim em Frankfurt. Elias Abandonou a Alemanhã Nazista em 1933, indo para a França e depois para a Inglaterra, onde foi professor na Universidade de Leicester; lecionou mais tarde, como professor visitante, em universidades na Alemanhã, Holanda e Gana.
  3. 3.  Elias desenvolveu uma abordagem a que deu o nome de “sociologia figuracional”, a qual examina o surgimento de configurações sociais como conseqüências não- premeditadas da interação social e foi descrita em seu livro O que é Sociologia?(1970). Sua obra mais conhecida é O Processo Civilizador (2. vols., 1939), que analisa os efeitos da formação dos estados na Europa sobre os estilos de vida individuais, a personalidade e as moralidades.
  4. 4. Sociologia Figuracional  Elias foi um dos principais precursores da chamada "Sociologia Figuracional", através da qual se estuda as relações humanas de forma processual (micro e macro social). O sentido figuracional é usado para ilustrar redes de interdependência entre indivíduos e a distribuição de poder nas mesmas. É importante apontar que Elias não tem uma visão estática dessas configurações e busca captá-las em contínuo processo de constituição e transformação. Nesse sentido, configurações não podem ser planejadas, programadas ou previstas porque são construídas e redimensionadas o tempo todo
  5. 5.  Para Elias, o "saber" é desenvolvido através de configurações sociais ao longo da evolução da sociedade, também o tempo aparece como produto da evolução de nossa sociedade. Evolução que não significa progresso, mas que é formada por progressos e retrocessos e que, no caso do tempo, está fundamentada no desenvolvimento da capacidade humana de síntese e representação simbólica. Também é importante como os homens se inserem nas relações sociais. Elias não utiliza os termos "desenvolvimento", "evolução" e "progresso", no sentido de uma necessidade automática ou intrínseca à sociedade Ele refere-se a tais termos no sentido de explicitar, empírica e teoricamente, mudanças estruturais que aconteceram na sociedade a longo prazo.
  6. 6.  O conceito de configuração se refere a um padrão mutável criado na relação entre indivíduos em sociedade. Eles podem ser considerados como jogadores vistos pela totalidade de suas ações nas relações que mantêm entre si, formando uma teia flexível de tensões. As configurações se formam necessariamente pela interdependência dos indivíduos em sociedade e podem ser marcadas por uma figuração de aliados ou de adversários. As configurações de seres humanos interdependentes têm duas características fundamentais na obra de Elias: são modelos didáticos que devem ser interpretados como representações de seres humanos ligados uns aos outros no tempo e no espaço; e servem para romper com as polarizações clássicas dentro da sociologia, que tendem a pensar o „indivíduo‟ e a „sociedade‟ como formas antagônicas e diferentes.
  7. 7. Os Estabelecidos e os Outsiders: Sociologia das relações de poder.  Nesse trabalho Norbert Elias apresenta uma rara oportunidade de encontrar um estudo focado em uma pequena comunidade reflexões metodológicas e teóricas de amplo espectro para a pesquisa em ciências sociais. Trata-se de um estudo das relações de poder na comunidade de Winston Parva (nome fictício), próxima de Leicester – Inglaterra. Realizado no final dos anos 50 e início dos 60 pelo professor John L. Scotson, interessado em tratar do problema da delinqüência juvenil naquela localidade, o estudo passou a ter outras perspectivas com Norbert Elias.
  8. 8.  De um problema associado a altos índices de delinqüência juvenil, os pesquisadores foram levados a refletir sobre questões que dizem respeito à própria sociedade. No centro de suas discussões estavam as relações de poder e de status no interior de uma comunidade. A investigação os levou a buscar explicar o porquê das diferenças de status e poder, enfrentando os desafios e limitações de um trabalho empírico num determinado microcosmo.
  9. 9.  Quais são os aspectos comunitários específicos de uma comunidade? A resposta a esse tipo de pergunta, à primeira vista, é bem simples e, talvez óbvia. É evidente que se está fazendo referência à rede de relações entre pessoas que se organizam como uma unidade residencial – de acordo com o lugar em que normalmente vivem. As pessoas estabelecem relações quando negociam, trabalham, rezam ou se divertem juntas, e essas relações podem ou não ser altamente especializadas e organizadas.
  10. 10.  As unidades sociais dotadas de um núcleo de famílias que constroem seus lares ali levantam problemas sociológicos específicos. Estes são o que se costuma chamar de „problemas comunitários.  Os tipos de interdependências, estruturas e funções encontrados nos grupos residenciais de famílias que constroem lares com um certo grau de permanência suscitam problemas próprios, e que o esclarecimento desses problemas é central para a compreensão do caráter específico da comunidade como
  11. 11.  Entre os problemas centrais figura aquele referente às distinções do valor atribuído, nessas redes comunais de famílias, a cada uma das famílias. Invariavelmente, algumas famílias ou talvez grupos delas em uma mesma comunidade, tão logo são ligadas umas às outras pelos fios invisíveis da vizinhança, passam a se ver e a ser vista pelos outros como “melhores” ou, alternativamente, como “menos agradáveis”, “menos boas”, “menos dignas”, ou seja qual for a denominação que se use. Em termos acadêmicos, falamos da “hierarquia classificatória” das famílias ou da “ordem de status”.
  12. 12.  A classificação das famílias de Winston Parva, desempenhava um papel central em todos os setores da vida comunitária. Influenciava o rol de membros das associações religiosas e políticas. Desempenhava um papel no agrupamento das pessoas em bares e clubes. Afetava a reunião dos adolescentes e penetrava nas escolas. As diferenças de status e classificação são freqüentemente demonstradas como dados factuais, mas raramente explicadas. Em Winston Parva, foi possível ver com um pouco mais de clareza de que modelo elas eram produzidas e que papel desempenhavam na vida das pessoas.
  13. 13.  Elias apresentou nesse estudo, visto de perto, um episódio de desenvolvimento de uma área industrial urbana. Esse desenvolvimento trouxe atritos e perturbações. Os que já se haviam fixado na região e que, em condições favoráveis, tinham tido tempo de criar, uma vida comunitária bastante estável, uma tradição provinciana própria, viram-se diante do fato de que chegava um número maior de pessoas para se estabelecer em suas imediações e em seu seio, pessoas estas que até certo ponto, tinham idéias, maneiras e crenças diferentes das que eram costumeiras e valorizadas em seu círculo.
  14. 14.  Durante a guerra, o maior grupo de novos operários chegou juntamente com a fábrica de que eram empregados e, de modo, geral, a indústria e as oportunidades de emprego na região estavam em crescimento.
  15. 15.  As tensões, relatadas por Elias, entre velhos e novos moradores foram de um tipo peculiar. O núcleo dos residentes antigos atribuía um valor elevado aos padrões, às normas e ao estilo de vida que eles haviam criado entre si. Tudo isso tinha uma estreita ligação com seu respeito próprio e com o respeito que eles julgavam ser- lhes devido pelos outros. A ascensão de uma minoria, para o nível de classe média, exercia um poder considerável na antiga comunidade, era, em termos dos valores públicos coletivos, motivo de orgulho para a maioria dos residentes mais antigos.
  16. 16.  Os recém-chegados que se fixaram no “loteamento” foram vistos como uma ameaça a essa ordem, não porque tivessem qualquer intenção de perturbá-la, mas porque seu comportamento levava os velhos residentes a achar que qualquer contato estreito com eles rebaixaria seu próprio status, que os arrastaria para baixo, para um status inferior em sua própria estima e na do mundo em geral, e que reduziria o prestígio de seu bairro, com todas as possibilidades de orgulho e satisfação que lhe estavam ligados.
  17. 17.  Nesse sentido, os recém chegados foram vistos como uma ameaça pelos antigos moradores. Elias afirma que em ordens sociais de extrema mobilidade, é comum que as pessoas sejam extremamente sensíveis em relação a tudo o que possa ameaçar sua posição. É comum que desenvolvam angústias ligas ao status.
  18. 18.  Os mexericos (pride e blame gossip) agarraram-se prontamente a tudo o que poudesse se mostrar os recém-chegados sob um prisma desfavorável e confirmar a superioridade da moral e dos costumes dos velhos residentes, símbolos de sua respeitabilidade.
  19. 19.  Assim, na pequena Winston Parva, criou-se uma determinada figuração marcada pela existência de um grupo de moradores antigos da “aldeia” que se colocavam como pessoas de valor humano mais elevado que o dos moradores do “loteamento” construído em época mais recente e, por isso, estigmatizados pelos primeiros. Os estabelecidos contra os outsiders . Da figuração estabelecidos-outsiders, Elias identifica uma constante universal: o grupo estabelecido atribuía aos seus membros características humanas superiores; excluía todos os membros do outro grupo de contato social não profissional com seus próprios; e o tabu em torno desses contatos era mantido através de meios de controle social como a fofoca elogiosa no caso dos que o observavam, e a ameaça de fofocas depreciativas contra os suspeitos de transgressão.
  20. 20.  O estudo das relações entre as famílias “antigas” e “novas” de Winston Parva pode contribuir um pouco para solucionar o problema de que por que o “tempo de residência” e a “idade das famílias” são capazes de afetar profundamente o relacionamento entre as pessoas. Ainda mais porque nesse caso, a antiguidade não estava associada à riqueza, passada ou presente. O fato de os dois grupos de Winston Parva serem quase iguais, sob muitos aspectos que costumam combinar-se com “antiguidade” e a “recenticidade”, permitiu evidenciar algumas chances de poder, ao alcance dos “antigos” grupos de pessoas, que passam facilmente despercebidas quando também estão presentes outras chances, como as que provêm riqueza, do poderio militar, de maior conhecimento, de etnia, religião ou visão política.
  21. 21.  Mais do que a identificação de um determinado modelo figuracional, este estudo apresenta dois aspectos de grande relevância para as ciências sociais. O primeiro está colocado pelo desafio da pesquisa empírica ao operar com algumas categorias analíticas tradicionais, como as das diferenças étnicas, de classe social e nacionalidade. Não havia em Winston Parva nenhum componente que levasse a esses diferenciais – longe disto, pois ali todos faziam parte do mesmo grupo étnico e nacional, sem diferenciais significativos em termos do tipo de ocupação, renda ou nível educacional. Nenhum dos fatores de distinção, do arsenal clássico de preconceitos, se encontrava naquela cidade.
  22. 22. Ocupações dos residentes de duas ruas de elite e duas ruas comuns da Zona 02 Rua Elite A Rua Comum A Quantidade Ocupação Quantidade Ocupação 01 Jornalista - 01 Empregado de Escritório - 02 Balconista 01 Balconista 03 Operários Mecânicos 03 Operários mecânicos - 01 Motorista de Caminhão 02 Ferroviários 02 Ferroviários 05 Operários de Malharias 02 Operários de Malharias 02 Op. Fábrica de Calçados 05 Op. Fábrica de Calçados 03 Trabalhadores Braçais 05 Trabalhadores Braçais
  23. 23. Rua de elite B Rua comum B Quantidade Ocupação Quantidade Ocupação 03 Empregados de escritório - 03 Balconista - 01 Dono de Garagem - 03 Operadores de Máquinas 01 Operador de Máquinas 01 Corretor de Seguros - 01 Motorista de caminhão 01 Motorista de Caminhão 01 Maquinista - 01 Ferroviário - 01 Pedreiro - 01 Bombeiro hidráulico - 02 Operários de Malharias 02 Operários de Malharias 01 Op. Fáb. Calçados 03 Op. Fáb. Calçados 01 Trabalhador Braçal 07 Trabalhador Braçal
  24. 24.  Aqui encontra-se o primeiro grande legado de Elias. Pensamos constantemente a partir do foco das diferenças – sexo, cor, classe, nação – como diferenciais estruturais das relações de poder. Dificilmente chegamos a problematizar questões em que estão colocados os termos da igualdade, ou que o diferencial de poder possa estar associado, como é o caso deste estudo, ao tempo de residência naquele lugar e ao maior ou menor grau de coesão e organização de cada grupo inter-relacionado.
  25. 25.  O segundo ponto que deve ser evidenciado é a relação entre Coesão dos Estabelecidos e a falta da mesma por parte dos Outsiders. O estudo de Winston Parva colocou para Elias a possibilidade de reflexão sobre a anomia quando observou que na relação de interdependência entre os estabelecidos e os outsiders havia um elemento de constância pela existência de uma “minoria dos melhores” entre os estabelecidos – uma minoria nômica – e uma “minoria dos piores” entre os outsiders – minoria anômica – que marcava o status de superioridade e de inferioridade de ambos os grupos.
  26. 26.  No entanto, para Elias, as tensões entre grupos “nômicos” versus “anômicos” revelam outra faceta sobre a própria maneira como as ciências sociais passam a tratar os problemas sociológicos. Desmontando uma longa tradição durkehimiana, na qual fatores “nômicos” e de coesão grupal eram entendidos como fatores morais, e sua ausência desenhava um quadro de “anormalidade” e de condenação moral. Para Elias, “não há justificativa para considerar as investigações sociológicas do que se julga serem formas de „mau funcionamento‟, ou como se diz, de „disfunção‟, como um grupo distinto do que é formado por aquilo que se julga „funcionar bem‟(...). Não se pode esperar encontrar explicações para o que se julga „ruim‟, para um „mau funcionamento‟ da sociedade, quando não se é capaz de explicar, ao mesmo tempo, aquilo que se avalia como „bom‟, „normal‟ ou „funcionando bem‟, e vice-versa”.
  27. 27.  Assim, em Winston Parva, as pessoas que pertencem a um círculo de “famílias antigas” são providas de um código comum por seus vínculos afetivos específicos: uma certa união das sensibilidades subjaz a todas as suas diferenças. Assim, elas sabem onde se situar em relação umas às outras e o que esperar umas das outras, e o sabem “instintivamente” melhor, como se costuma dizer, do que onde se situar em relação aos outsiders e o que esperar deles.
  28. 28.  As “famílias antigas”, nunca se formam isoladamente, sempre se aglutinam ou se agrupam em redes de famílias com sua própria hierarquia interna de status e, em geral, com um alto índice de casamentos endogâmicos.  O fato das “famílias antigas” se conhecerem e terem sólidos vínculos entre si, no entanto, não significa necessariamente que elas se estimem. É, apenas em relação aos intrusos que elas tendem a se unir. Entre si, podem competir e quase invariavelmente o fazem, de maneira branda ou acirrada conforme as circunstâncias.
  29. 29.  No círculo dos Estabelecidos, há uma boa dose de tradições familiares comuns, enriquecidas a cada nova geração que surge. Como outros aspectos da tradição comum, isso cria uma intimidade – até entre as pessoas que não se gostam – da qual os recém chegados não conseguem participar.
  30. 30.  O poder, como tantos outros conceitos, apresenta-se freqüentemente ligado a um lugar, a um atributo específico de quem o detêm – pelo controle material de objetos, de coisas e pessoas. Nestes termos, o poder é algo fixo, estático. Elias destaca a necessidade de pensarmos nos aspectos figuracionais dos diferenciais de poder que se devem puramente a diferenciais no grau de organização dos seres humanos implicados. Nele, o conceito de poder deixou de ser uma substância para se transformar numa relação entre duas ou mais pessoas e objetos naturais; assim, o poder é um atributo destas relações que se mantêm num equilíbrio instável de forças.
  31. 31.  O poder ocorre no interior das figurações em que os grupos estabelecidos vêem seu poder superior como um sinal de valor humano mais elevado; os grupos outsiders, quando o diferencial de poder é grande e a submissão inelutável, vivenciam afetivamente sua inferioridade de poder como um sinal de inferioridade humana. Estigma, evitações e o medo do contágio reforçam o tabu imputado aos outsiders, que não dispõem de nenhuma possibilidade de revidar o grupo estabelecido com os mesmos termos depreciativos que recebem como desordeiros das leis e normas e sujos. Nesse quadro, a delinqüência juvenil passa a ser uma manifestação reativa dos jovens do “loteamento” frente ao sentimento de exclusão e coerção por parte dos estabelecidos. Delinqüência e atos de vandalismo passam a ser a forma particular que alguns jovens do “loteamento” encontraram para manifestar o sentimento de inferioridade social largamente enraizado desde a sua infância, no interior de suas famílias e nas inter-relações com as outras crianças de sua comunidade.
  32. 32.  A maioria dos Outsiders não entendiam porque os velhos moradores os tratavam com desprezo e os mantinham à distância. Mas o papel de grupo de status inferior em que foram colocados, bem como a segregação indiscriminada de todos os que se instalaram no loteamento em pouco tempo devem ter desestimulado qualquer tentativa de estabelecer contatos mais estreitos com os grupos dos estabelecidos.
  33. 33.  Segundo Elias, se olharmos para o mundo em geral, não poderemos deixar de observar muitas configurações de natureza semelhante, embora elas sejam quase sempre classificadas sob outras designações. No mundo inteiro podemos descobrir variações dessa mesma configuração básica, encontros entre grupos de recém- chegados, imigrantes, estrangeiros e grupos de residentes antigos. Os problemas sociais gerados por esses aspectos migratórios da mobilidade social, conquanto variem no que tange aos detalhes têm uma certa semelhança.
  34. 34.  Nesses casos, o “outsider” têm que se acostumar com o papel de recém-chegados que tentam fazer parte de grupos com tradições já estabelecidas ou que são forçados a uma interdependência com eles, tendo que lidar com os problemas específicos desse novo papel. Muitas vezes lhes é atribuído o papel de outsiders em relação aos grupos estabelecidos e mais poderosos, cujos padrões, crenças, sensibilidade e costumes são diferentes dos seus.
  35. 35.  Quando os migrantes têm a cor da pele e outras características físicas hereditárias diferentes das dos moradores mais antigos, os problemas criados por suas formações habitacionais e por seu relacionamento com os habitantes dos bairros mais antigos costumam ser discutidos sob o rótulo de “problemas raciais”. Quando os recém-chegados são da mesma “raça”, mas têm língua e tradições diferentes, os problemas com que eles e o s antigos moradores se confrontam são classificados como problemas das “minorias étnicas”. Quando eles não são de “raça” nem “grupo étnico” diferentes, mas apenas de outra “classe social”, os problemas da mobilidade social são discutidos como “problema de Classe”.
  36. 36.  Não há nenhum rótulo pronto que se possa pespegar nos problemas surgidos no microcosmo de Winston Parva, porque ali os recém-chegados e os antigos residentes, pelo menos na “aldeia”, não eram de “raça” nem “ascendência étnica” diferentes, nem tão pouco de outra “classe social”. No entanto, alguns dos problemas fundamentais surgidos do encontro entre os grupos estabelecidos e outsiders em Winston Parva não diferiram muito dos que podem ser observados em encontro similares em outros universos.
  37. 37.  Independente do caso, os recém-chegados empenham-se em melhorar sua situação, enquanto os grupos estabelecidos esforçam- se por manter a que já têm. Os primeiros se ressentem e, muitas vezes, procuram elevar- se do status inferior que lhes é atribuído, enquanto os estabelecidos procuram preservar o status superior que os recém- chegados parecem ameaçar.
  38. 38.  Postos no papel de outsiders, os recém- chegados são percebidos pelos estabelecidos como pessoas “que não conhecem seu lugar”; agridem-lhes a sensibilidade, portando-se de um modo que, a seu ver, traz claramente o estigma da inferioridade social; no entanto, em muitos casos, os grupos de recém-chegados tendem inocentemente a se conduzir, ao menos por algum tempo, como se fossem iguais a seus novos vizinhos.
  39. 39.  Os mais antigos levantam sua bandeira, lutam por sua superioridade, seu status e poder, seus padrões e suas crenças, e em quase toda parte utilizam, nessa situação, as mesmas armas dentre elas a fofoca humilhante, as crenças estigmatizantes sobre o grupo inteiro, com base em observações sobre seu pior setor, os estereótipos verbais degradantes e, tanto quanto possível, a exclusão de qualquer oportunidade de acesso ao poder.
  40. 40.  Como os estabelecidos costumam ter uma integração maior e ser mais poderosos, eles conseguem, através da indução mútua dar uma sólida sustentação a suas crenças. Muitas vezes, logram induzir até mesmo os outsiders a aceitarem uma imagem de si modelada pela minoria dos “piores”, bem como uma imagem dos estabelecidos modelada pela “minoria dos melhores”. Os mais “antigos” muitas vezes conseguem impor aos recém-chegados a crença de que estes são inferiores ao grupo estabelecido, não apenas em termos de poder, mas também “por natureza”. E essa internalização da crença depreciativa do grupo socialmente superior pelo socialmente inferior, como parte da consciência e da imagem que este tem de si, reforça vigorosamente a superioridade e a dominação do grupo estabelecido.
  41. 41.  A construção do sentido social do poder em Winston Parva obedece a dois critérios-chave. Primeiro, o da afirmação da superioridade e excelência "psicológica", "humana" e „social" dos que chegaram antes ao local. A esses caberia, sem mais, o primado natural quanto ao status, à dignidade grupal e à legitimidade dos direitos adquiridos. Eles são os cidadãos de primeira classe. No outro polo faz valer- se a estigmatização dos chegados por último, tidos como inferiores. Esses, naturalmente, no início não se conheciam, pois vinham de vários locais do país. Eram menos coesos e não dispunham de armas para se defenderem da maneira com que os nativos os etiquetavam em resposta à ameaça e ao desequilíbrio provocada por sua chegada a Winston Parva.
  42. 42.  Elias e Scotson demonstram com acurado apuro um emaranhado de dependências e interdependências entre os indivíduos e as instituições do lugarejo. Mostram como as normas de atribuição de status e a distribuição de papéis e tarefas dentro das instituições sociais e políticas do lugarejo obedecem "a padrões díspares de união interna e controle comunitário". Esses padrões se traduzem "numa prática política que consiste, por exemplo,
  43. 43.  em reservar para as pessoas do grupo cargos prestigiosos em organismos locais – o conselho, a escola e o clube --, excluindo os moradores da outra área". Tudo está imbricado naquele emaranhado cuja lógica psicológica é compreensível só para quem está bem situado dentro do universo psicossocial da pequena aldeia. Um verdadeiro outsider teria dificuldade em entender o porque das distinções e argumentos daquela lógica de “pertencer a um grupo".
  44. 44.  Os membros do grupo estabelecido e até os recém-chegados, talvez, são indivíduos criados com uma rigidez particular de visão e de conduta; muitas vezes, foram criados acreditando que todo o mundo tem ou deveria ter, essencialmente, os mesmos sentimentos e comportamentos que eles. Em geral, o limiar de tolerância a formas de conduta e a crenças diferentes, quando se tem que conviver em estreito contato com seus representantes, continua a ser excepcionalmente baixa.
  45. 45.  De suas numerosas observações, Elias e Scotson, concluíram que em grupos sociais muito próximos e homogêneos, como é o caso dos dois estudados, se criam diferenças, largamente idealizadas, que os dividem internamente e os colocam em luta pelo controle social, gerando, no plano das relações, estereótipos e preconceitos sociais recíprocos. Por mais que sejam "iguais", quando vistos desde os critérios da sociologia mais clássica funcionalista ou dialética, eles não logram explicar de maneira satisfatória o que acontece no plano das imagens sociais que modelam as reais relações de dominação/subordinação que se fundam de fato nas representações, crenças e valores que cada grupo julga possuir, diferentemente do outro, sentido como de nível inferior. Penso não ser difícil se perceber a importância dessa constatação para o estudo dos conflitos religiosos e dos fundamentalismos que, cada vez mais, – para lá do discurso politicamente correto do ecumenismo -- caracterizam algumas religiões e igrejas em suas tendências doutrinais, rituais, crenças e objetivos de ação pastoral e política
  46. 46.  O trabalho de Elias e Scotson traz muitas novidades. Depois de uma detalhada descrição dos estilos de vida dos dois "bairros", das estruturas familiares, das instituições comunitárias e redes de apoio, do modo de viver dos jovens, dos conflitos entre as gerações quanto à autoridade, da sexualidade e da religião -- em tudo muito parecidos -- eles mostram que as relações de poder não estavam ancoradas em diferenças sociais gritantes como as que seriam provavelmente buscadas e discutidas por um psicólogo ou um sociólogo interessado só em categorias analíticas auto-explicativas e, por isto, pouco atento ao cotidiano real da vida das pessoas. A atenção dos dois pesquisadores não esquece o nível macro- teórico, mas se volta em especial àquele micro, das relações entre as pessoas e grupos. Esse é para eles o „ubi‟ gerador da subjetividade, especialmente em culturas de corte fortemente individualista como as da sociedade neo-liberal globalizada. O comportamento e a vivência das pessoas nasce é aí, embora – evidentemente ! -- possam sofrer e sofram as influências de outras matrizes contextualizadoras.
  47. 47.  Como mesmo evidência Elias, a meta do estudo em Winston Parva não teve como intuito enaltecer ou censurar um lado ou o outro ou estudar o que se poderia considerar “disfuncional” por exemplo: estudar a minoria de famílias desestruturadas do loteamento num isolamento inteiramente artificial. A meta do autores, foi explicar seres humanos em configurações independente de sua bondade ou maldade relativas, em termos de suas interdependências. A configuração das pessoas do loteamento teria sido incompreensível sem um claro entendimento da observada entre as pessoas da “aldeia”, e vice-versa.
  48. 48.  Nenhum dos grupos poderia ter se transformado no que era independentemente do outro. Eles só puderam encaixar-se nos papéis de estabelecidos e outsiders por serem interdependentes. É pelo fato de as ligações na vida social, muitas vezes, serem ligações entre fenômenos que, no mundo do observador, recebem valores diferentes, ou até antagônicos, que seu reconhecimento exige um grau razoável de distanciamento.
  49. 49.  Será que os grupos de pessoas apresentados podem ser vistos como uma soma dos atos de “eus” e “outros” inicialmente independentes, que se encontram numa terra de ninguém e começaram a interagir e a formar comunidades, ou padrões, situações ou configurações novas, que seriam fenômenos secundários somados à sua pura individualidade não social? Para Elias a pesquisa sociológica deve partir do estudo dos indivíduos como taís, ou de elementos ainda menores, - as “ações” individuais -. Segundo Elias não podemos ser pegos na armadilha da polaridade, de falar e pensar como se só fosse possível escapar de postular indivíduos sem sociedade postulando sociedade sem indivíduos.

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